Scream! Welcome To The Game.
24 Capítulo 23 - POV Matt. II.
Notas iniciais
Capítulo 23 – P.O.V Matt. II.
Joguei o controle do meu videogame para o lado. Já havia zerado o jogo pela quinta vez e com isso o nível de melancolia do meu sábado a noite já tinha ultrapassado o limite.
— E ainda são sete horas.
Balancei a cabeça, tentando inutilmente parar com a mania estúpida de falar sozinho, só que algo dentro de mim dizia que se seu parasse, acabaria ficando louco.
Saí do meu quarto escuro sem tropeçar em nenhum sapato jogado ou em uma pilha de roupas sujas.
A luz do banheiro fez com que meus olhos ardessem um pouco. Demorei para focar minha visão no meu reflexo no espelho, me assustando com a minha própria imagem. Céus, como era horrível! Meus cabelos estavam emaranhados e minhas olheiras denunciavam várias noites mal dormidas. A regata cinza que estava vestindo tinha um rasgo visível perto do meu umbigo e não pude deixar de notar que estava usando um samba-canção ridículo. Ri sem muito entusiasmo, abaixando o olhar, fixando-o nas gotas de água que pingavam da torneira.
— Se Mello me visse agora ele provav...
O riso se desfez aos poucos, como um laço frouxo se soltando por causa do vento.
Até uma brisa fraca pode acabar com coisas belas, basta que essa coisa seja frágil. Mas Mello... Mello sempre seria um furacão, capaz de bagunçar ainda mais a minha mente.
Encarei meu reflexo novamente.
—Quem é você? – perguntei.
Não sabia muito bem o que eu queria ouvir como resposta, talvez um sonoro “Otário”. “Idiota”. Ou qualquer coisa do gênero. Algo como: “Você é Mail Jeevas, um vagabundo prestes a fazer dezoito anos. Tem capacidade para ter um futuro brilhante, mas tem medo porque é um franguinho.”
Sem dúvidas, isso seria a melhor resposta. Não porque eu queria ouvir isso, mas sim porque euprecisava ouvir.
Mello jamais diria aquilo. E como poderia? Ele não diria apenas pelo fato de estar morto, mas pelo simples fato de não perceber que eu tinha medo. Por não perceber minha insegurança em tudo quanto é coisa. E se algum dia tivesse percebido, ele me daria uns tapas, porque essa era a atitude que eu esperaria dele. Era assim que ele era e não podemos mudar alguém, a menos que esse alguém queira mudar.
Mas eu conheço alguém que diria o quando estava me afundando.
Droga, Near! Aonde você se meteu?
Abri a torneira, deixando a água abundante escorrer. Joguei uma boa quantidade no rosto, sentindo os fios do meu cabelo grudarem na testa. Minha franja nunca ficou tão grande.
— Entendi o porquê de a minha mãe pegar tanto no meu pé para cortar o cabelo ultimamente – falei enquanto afastava uns fios que incomodavam meus olhos.
Não sei se deveria me importar tanto, mas não queria que as pessoas começassem a tirar conclusões precipitadas sobre a minha vida, como se já não bastasse os olhares de pena e palavras falsas de conforto que os alunos e professores do colégio dirigiam para mim. Isso me deixava com nojo.
O barulho do toque do meu celular me chamou a atenção. Fechei a torneira e corri até o quarto, pegando o aparelho que estava embolado junto aos lençóis da cama.
— Misa?
— Oi Matt. Está ocupado? – ao fundo, ouvi o barulho de algo sendo jogado em cima de um móvel.
— Aconteceu alguma coisa? – perguntei.
Não estava muito afim de sair de casa caso o motivo não fosse sério.
— Apenas venha, sim?
Um silêncio se estendeu até a loira dizer por fim um “Por favor”, com a voz baixa e rouca.
— Já estou indo, Misa – suspirei.
Pela primeira vez eu não queria ser o ombro amigo. Quanto mais caberia dentro de mim até minha autodestruição?
Abri o grada-roupas, pegando uma camiseta não tão velha e um casaco. Meu jeans surrado estava jogado no chão e eu nem sabia se estava limpo, mas pouco importava. Antes de sair do quarto, agora devidamente vestido – ou quase -, abri a gaveta do criado-mudo, tateando o interior com certo desespero. Infelizmente só encontrei meu isqueiro vermelho.
— Ótimo. Pelo menos agora tenho motivo o suficiente para sair na rua.
***
— Matt, por favor, se quiser fumar vai até a janela. Não quero que meus pais pensem que estou me afundando tanto – Misa me empurrou até a sacada do quarto e espirrou um pouco de desodorizante de ambiente no ar.
Ri baixo com sua expressão de nojo. Traguei a droga, que já estava pela metade, sentindo pela última vez a nicotina ser absorvida pelos meus pulmões. Era relaxante.
— Você precisa para com isso – ela encostou seu corpo no batente da porta e cruzou os braços, me fitando séria.
— Me chamou aqui ‘pra ficar dando sermão ou tem alguma coisa realmente séria ‘pra falar? Não me leva a mal, mas não queria ter saído de casa.
Apaguei o cigarro na parede e o arremessei para no quintal. Não me importei se o gesto fosse parecer grosseiro.
— Entra – pediu – ‘Tá frio aí fora.
Esperei alguns minutos antes de adentrar novamente no quarto. Aquele suspense estava sendo cansativo.
—Amane, ‘tô falando sério. Por que vo...
Ela tirou algo da gaveta da escrivaninha um pouco desorganizada e jogou em cima da cama. Parecia um livro. A capa era de couro, um pouco desgastada. As laterais estavam cheias de rabiscos.
— O que é isso? – perguntei.
Não movi um músculo na intensão de pegar o que quer que fosse aquilo. Apenas fiquei encarando-a, esperando respostas.
— Primeiro de tudo – ela levantou o dedo indicador – Não quero que você dê risada. Não vai ser tão ridículo assim depois que você ler.
Sorri de canto, um tanto cínico.
— Não sei se você percebeu, mas agora existem poucas coisas que vão me fazer rir.
Não estava tentando ser dramático. Acho que se eu conseguisse rir seria um riso tão amargo e tão carregado de angústia. Por pior que fosse, queria que algo me fizesse rir, porque assim talvez eu seria capaz de colocar essa mágoa para fora.
— É o diário do Mello – disse por fim – acho que você tem o direito de ler também, afinal seu nome é citado aí várias vezes.
Demorou um pouco até a ficha cair. Não que fosse a descoberta do ano... Se bem que, se tratando do meu namorado, era uma descoberta e tanto.
Um diário... Mello tinha um diário. Se eu tivesse descoberto isso antes, aposto que zoaria com a cara dele. Diria que escrever em diários era coisa de frutinha e receberia um soco. Talvez dois.
Involuntariamente sorri de canto assim que coloquei os olhos no objeto.
— Você prometeu...
— Não estou rindo por deboche, Misa... – peguei o diário e direcionei meu olhar para ela – Considere como um riso nostálgico.
Misa saiu, deixando a porta entreaberta e o quarto voltou a ficar em silêncio. Descobrir que Mello tinha um diário até podia ser cômico, mas a seriedade da situação era grande. O clima estava tão tenso, e isso me deixava desconfortável. Meu namorado nunca foi um prodígio com palavras, então o que tanto poderia conter naquelas páginas? Músicas, talvez? Mello adorava música. Do fundo do meu coração eu adoraria que fosse, mas duvido que Misa fosse me chamar por tão pouco.
Acomodei-me na cama, sem me importar muito com os lençóis.
Algumas páginas estavam rasgadas nas laterais ou amassadas, e a letra era o mesmo garrancho de sempre, me obrigando a fazer certo esforço para entender o que estava escrito. Logo na primeira folha li uma anotação colocada ali provavelmente depois que o diário foi iniciado, pois a frase estava espremida e desajeitada no canto, passando um pouco por cima de outras palavras.
“Matt, se você encontrar meu diário e pensar em continuar lendo eu juro que vou estourar a sua cara.”
— Previsível... Desculpe, Mello – falei baixinho, voltando minha atenção para a leitura.
No começo os relatos não faziam muito sentido. Ele não colocava datas ou saudações – amenizando o “feminismo” da coisa – então ficava difícil saber em que ano essas coisas aconteceram.
Dois toques na porta acabaram desconcentrando minha leitura.
— Como ‘tá indo? – Misa voltou com duas bandejas de lanche e refrigerante.
— É estranho – disse pegando o copo e tomando um gole, sentindo minha garganta queimar um pouco por conta do gás.
Parece tão... Diferente.
— Começou a três anos. Ele até tinha parado de escrever por um tempo, mas voltou quando Near entrou na escola, e um ano depois, você. Pule algumas páginas.
— Não, tudo bem. É legal conhecer o Mello... De verdade.
Saber o que ele nunca me contou. Conhecer seus medos, preocupações, a fragilidade que ele tinha.Ah, se tinha!
— Pode ficar com isso para ler depois. Quero que você chegue na parte que interessa – ela me estendeu um lanche e meu estômago roncou. Não me lembrava da última vez que fiz uma refeição.
Fiz o que ela pediu e percebi a mudança no jeito dele se expressar. Era como se houvesse perdido o jeito. Como se estivesse mais fechado, envergonhado por escrever num caderno o que sentia.
Acho que se eu tivesse conhecido o Mello de três anos atrás, nosso relacionamento seria diferente.
E de repente, tudo se tornou uma única coisa. Tudo se tornou Near.
“Fomos obrigados a fazer uma atividade em dupla. Por sorte o professor de matemática quem escolheu os pares, e eu acabei ficando com aquele novato. De um jeito ou de outro eu queria fazer a atividade com ele, mas se eu me aproximasse sem mais nem menos os ratos fofoqueiros daquela maldita escola iriam começar a espalhar boatos. O problema do garoto é que ele não se expressa! Enquanto eu tentava puxar um papo amigável ele apenas acenava a cabeça ou respondia com Sim ou Não. Não tem nada que me irrite mais do que ser ignorado.”
E isso era verdade. Às vezes, só por brincadeira, eu costumava ignorá-lo quando ele tinha crises de raiva. Eu o deixava gritando com as paredes até Mello ficar muito puto e me socar.
“Nate River e suas manias estúpidas de enrolar mechas de cabelo e empilhar seus materiais escolares. Não sou um stalker, mas descobri que ele mora com os avós. Acabamos como parceiros nas aulas de laboratório e assim será até o final do ano. Tentador, mas a cada dia eu me irrito com essa personalidade calada e suas manias repetitivas. Ele age como se nada o incomodasse. Mal presta atenção nas aulas e suas notas ultrapassaram as minhas! Eu passo noites em claro estudando, tentando entender o método que ele usa, mas é perda de tempo. Por mais que eu tenha me interessado por esse garoto, tenho que admitir que ele ‘tá se tornando meu rival.”
É lamentável quando não temos controle sobre os nossos sentimentos. Como quebrar a barreira de outra pessoa quando nós mesmos não baixamos a guarda? Como tentar entender o outro sem nem mesmo entendermos o que sentimos? É querer demais. Enquanto uns sofrem pelo turbilhão de sentimentos, outros dariam tudo para sentirem qualquer coisa nova. Por isso temos psicólogos e drogas.
Mesmo com a letra feia e uns erros de gramática aqui e ali, eu entendia o que Mello queria dizer.
Não consegui terminar o sanduíche. Eu estava certo, afinal. Ele gostava do Near. Na página seguinte, as letras garrafais e trêmulas me chamaram a atenção. Era um relato breve, porém cheio de raiva.
“Eu odeio ele! Odeio com todas as minhas forças! Near é como um...”
Um quebra-cabeça. A frase não havia terminado, mas Mello sempre dizia isso, o que não era uma mentira. Near era complicado como um quebra-cabeça de mil peças.
— Aqui... – chamei a atenção da loira que mexia no celular – por que foi escrito assim?
— Eu não sei, mas encontrei isso grudado nessa página – Misa pegou uma fotografia que estava virada para baixo em cima da escrivaninha – Foi na maratona de matemática. Near ficou em primeiro lugar e Mello em segundo, por uma diferença de dois pontos.
Mello odiava o número dois...
— Depois desse dia eles se tornaram oficialmente rivais. E foi aí que as agressões começaram.
Claro, porque Mello sempre apelava para violência quando as coisas não davam certo. Acho que não importa o quanto uma pessoa é inteligente e talentosa, sempre terá alguma coisa que a fará burra em algum momento. Como quando músicos despreparados para a fama se drogam até morrerem de overdose ou acabarem falidos.
Eu sempre quis saber quando e como essa rivalidade surgiu entre os dois. Mello perdia a paciência toda vez que eu perguntava e Near dava de ombros, sempre me deixando curioso. Infelizmente ainda não estava convencido. Duvido que uma competição de matemática seja o suficiente para Mello odiar alguém desse jeito.
As páginas seguintes relatavam o ódio que ele sentia de Near e por ficar em segundo na maioria das provas e atividades escolares. Vez ou outra variava para alguma crise de família ou um dos namoros de uma semana do loiro. A ambição que ele tinha em ser o melhor chegava a dar pena.
“O que eu tenho se não isso? Não sou bom com esportes ou desenhos. Por mais que minhas redações sejam razoáveis, não tenho capacidade para escrever um livro. Não se trata muito de uma cobrança familiar, mas sim do que eu cobro de mim mesmo.”
Até que meu nome apareceu. Ver meu nome, o meu eu no ponto de vista de outra pessoa, era estranho. Porém, não se tornou tudo Matt.
Continuava o mesmo de sempre. O personagem principal continuava sendo o Near, e isso fez com que eu me sentisse mal.
Era assim que você se sentia? Eu sei que é ciúme, mas nesse caso sou eu quem está perdendo para o Near. Eu sou o segundo.
“Aquele ruivo mal chegou e conseguiu em pouco tempo o que eu até hoje não consigo, e não estou nem falando do maldito beijo no vestiário, mas sim da confiança! Se eu roubasse o único amigo que esse E.T fez na escola – e se bobear, na vida – Near talvez aprendesse a sentir e esboçar alguma coisa diferente de indiferença.”
Então Mello tinha visto o beijo. Então Mello realmente me procurou no dia seguinte não porque sentiu vontade. Não porque estava muito interessado em mim. Pedir para estar errado era pedir muito?
No fim, eu descobri por você mesmo que eu nunca signifiquei muita coisa.
“Se Matt não fosse do meu interesse eu ficaria com ele apenas por vingança. Ou talvez nem ficasse. Devo admitir que ele é uma delícia, mas me preocupa os sentimentos dele por mim. Eu não seria capaz de amá-lo, mesmo que eu já tenha falado isso da boca pra fora. Near tem ficado mais sensível ultimamente. Não me parece indiferente, e sim triste. De qualquer jeito não sou eu quem o reconforta. Matt jura que não tem mais contato com ele, mas eu não acredito, e isso me deixa enciumado. Eu gosto dele. É obvio que eu gosto, só não consigo amá-lo. Por outro lado, também sinto ciúmes do Near, porque não sou eu quem está consolando ele. Não foi no meu ombro que ele chorou. Acho que minha ambição em vencer vai muito além de questões escolares. Mais de uma vez eu desejei que eu e Near não fossemos rivais, mas se não isso, o que seríamos? Eu queria consertar tanta coisa. “
Essa foi a última coisa que ele escreveu. A narração foi escrita às pressas e estava um pouco confusa, mas era evidente que no fim eu só me tornei mais uma coisa na qual ele estava competindo com o Near. O que seria pior? Quando eu gosto, eu gosto por inteiro. Quando eu odeio, eu odeio por inteiro. Não gosto de coisas pela metade.
— Não consertou nada... – sussurrei, fechando o diário.
Sendo muitos ou poucos, se eu fosse morrer, gostaria de partir sem nenhum arrependimento. Você nunca sabe quando vai acontecer, por isso é tão difícil consertar tudo e literalmente descansar em paz. Seja por uma palavra não dita, uma palavra mal dita, ou uma insegurança maldita.
Estou tentando entrar num consenso para saber o que é pior: morrer tendo ainda muito para fazer ou morrer feito tão pouco.
— Preciso encontrá-lo – falei, com um olhar fixado em minhas mãos trêmulas.
— Eu entrei no lugar dele na lanchonete – ela disse, percebendo facilmente sobre quem eu me referia.
Arqueei a sobrancelha, encarando sua face, percebendo o quanto estava abatida sem a maquiagem.
— Você? Trabalhando? Aposto que não é por causa do dinheiro.
— Yagami Raito – respondeu, sorrindo boba. Suas maçãs do rosto coraram.
Nossos olhares estreitos se encontraram. O Yagami era lindo, de fato, então foram olhares carregados de segundas intenções. Por fim acabamos dando uma bela gargalhada, daquelas de fazer a barriga doer, e lembramos das vezes em que trocávamos olhares cúmplices assim quando íamos ao shopping. O olhar que direcionávamos um para o outro todas as vezes que uma garota ou garoto bonito passava e chamava nossa atenção. E a gargalhada era típica, porque Mello sempre ficava boiando.
O riso foi se desfazendo aos poucos, dando lugar a um silêncio doloroso. Foi aí que Misa levantou da cadeira, se sentou ao meu lado e me abraçou. Meus olhos começaram a arder e minha garganta secar.
— Matt – chamou meu nome em um sussurro reconfortante.
— Hum?
— Pode chorar, se você quiser – disse sem desfazer o abraço.
***
Aos domingos a lanchonete abria um pouco mais tarde. Acabei passando a noite no quarto de hóspedes da casa da Misa. Os pais dela não me deixaram ir embora tão tarde e ficaram felizes em me ver. Logo quando amanheceu eu fui para a minha casa e peguei o carro emprestado para ir até a lanchonete.
— Com licença. – O Yagami estava de costas, ajeitando um dos quadros que fazia parte da decoração.
— Sim? — ele me olhou de canto de olho, sem parar o que estava fazendo.
— Será que a gente podia conversar? — perguntei firme, desconfortável por não receber atenção.
Ele suspirou, virando abruptamente.
— Garoto, hoje é domingo, estou cansado, atendendo sozinho e minha nova garçonete só me arruma problema. Sendo sincero com você, não 'tô com tempo. — e logo ele voltou ao que estava fazendo, dessa vez pegando um pano para limpar o balcão. A resposta não me intimidou.
— Olha, eu sinto muito pela Misa e por toda dor de cabeça que ela 'tá te causando, mas eu só quero saber sobre o Nate.
— Oh, então você a conhece? — ele me encarou por uns instantes, sem parar suas tarefas, e arqueou a sobrancelha — Acho que me lembro vagamente de você. Enfim. Seja breve.
— Vocês se davam bem? – perguntei, lembrando das vezes em que Near dizia que detestava seu trabalho e principalmente seu chefe.
— Não muito, mas fazer o quê? Eu precisava de um empregado e ele precisava trabalhar.
Yagami pegou um frasco de produto de limpeza, espirrando um pouco do líquido na superfície escura. Voltei minha atenção para um tabuleiro de xadrez que decorava uma das prateleiras. As peças eram de vidro e ficavam bem lá.
— Xadrez... – Near adorava jogos de tabuleiro.
— Ah, você gosta? – perguntou – Acho que Near também gostava. As vezes o pegava encarando as peças.
— “Eu sei que ele gostava” – pensei, me irritando com a falta de respostas — Podemos parar com isso? Eu estou com pressa.
— Então temos algo em comum. O que quer saber?
— Tudo o que você tiver para me contar a respeito dele.
Ele revirou os olhos e abandonou o pano para cruzar os braços.
— Provavelmente eu sei menos que você, mas vamos lá. Ele ficou uns tempos sem aparecer aqui, o que me obrigou a contratar sua amiga para me ajudar com as coisas. Era para ser temporário, mas eu tive que aceitá-la permanentemente depois da ligação que recebi do Near.
— Ele... Telefonou para você?
— Mas é claro, pirralho. Ele trabalhava aqui.
Poucas coisas me irritavam. Isso era um fato. E por incrível que pareça conversar com Raito Yagami conseguiu entrar para a minha pequena lista.
— Ele está na Suíça — disse por fim quando percebeu que eu ainda o encarava.
— Aonde?!
— Suíça! Foi isso que ele me disse. Alguns parentes ricos apareceram e ele se mudou para lá junto com a avó, o que foi muita sorte. Devo admitir que ele é um bom garoto. Cedo ou tarde algo bom aconteceria na vida dele — ele disse sem muito sentimentalismo, como se apenas constatasse algo trivial
"Isso... É impossível!", pensei. O Yagami se virou para arrumar uma das prateleiras e eu me dirigi até a cadeira mais próxima para me sentar. Apoiei meus cotovelos nos joelhos e minha cabeça nas palmas das mãos. Deixei meus dedos afundarem nos meus fios de cabelo, e os puxei um pouco para trás, tentando absorver aquela informação.
Céus... Near não tinha mais ninguém. Ele não tinha nem passaporte! Suíça? Como vão levar uma idosa doente para a Suíça? Isso é ridículo! Era bem provável que Raito não soubesse ao certo a gravidade da doença da avó do Near, caso contrário com certeza não cairia nessa desculpa esfarrapada.
— Ah, quase me esqueci! — o Yagami exclamou e voltei minha atenção para ele enquanto vinha até mim com um envelope branco em mãos — Deixaram isso aqui para o Nate – disse, insistindo para que eu pegasse o papel.
— Quem? — perguntei surpreso, analisando o envelope.
— Um antigo colega meu. Acho que ele se interessou pelo seu amigo. Voltou algumas vezes para encontrá-lo e entregar isso, mas abandonou em uma das mesas quando contei que Near tinha ido embora. Parecia decepcionado
Sem nenhuma cerimônia, rompi o lacre do envelope e retirei a folha sulfite que estava lá dentro. Nela, com uma caligrafia torta escrita a dedo, continha a seguinte mensagem:
“O meu nome é Beyond Birthday, Nate River.”
— Isso é tinta vermelha?! É grudenta! – disse, limpando a ponta dos meus dedos que sem querer encostaram na mensagem.
— Não. É geleia. – respondeu, tirando a folha das minhas mãos e analisando-a.
— Que tipo de retardado escreve com geleia?
— Acredite, B é um pouco... Exótico.
Em partes eu queria saber mais sobre aquele homem e por qual motivo ele escreveu algo para o meu amigo usando geleia e pintura a dedo, mas isso teria que esperar. Puxei o pedaço de papel e o rasguei em dois.
Near não está na Suíça
Então o que poderia ter acontecido? Meu coração estava acelerado. Aquela agonia seria capaz de me matar a qualquer instante. Um garoto de dezessete anos sumiu junto com uma idosa doente. O garoto era um dos meus melhores amigos e eu não consegui fazer nada para ajudá-lo. Minha garganta secou e eu bati o punho na mesa.
— Ah, que ótimo. Espantou meus clientes... — Raito parecia irritado — Escuta aqui, ruivo. Eu tenho um milhão de coisas para fazer todos os dias e, para ser sincero, não costumava prestar atenção na sua turma, assim como não presto atenção nos meus clientes em geral, mas se bem me lembro você sempre estava do lado do loiro metido, mesmo quando ele atormentava o meu empregado.
— Você não sabe de nada... — falei baixo, mas suas palavras me acertaram em cheio.
— Sei o suficiente para deduzir que você não passava de um covarde que via coisas ruins serem feitas e nada fazia para impedir. Agora, se me dá licença, tenho que trabalhar. — ele disse por fim, indo em direção à cozinha.
Meu corpo todo tremia, mas engoli em seco para não chorar. Empurrei a cadeira para traz sem nenhuma delicadeza para sair daquele lugar e deixei a folha rasgada com a mensagem escrita com geleia para trás.
***
Decidi que não iria para a casa tão cedo. Deixei o carro em um estacionamento público e fiquei andando pelas ruas, vez ou outra encontrando lojas com coisas que me chamavam a atenção. Evitava ao máximo passar pelos locais que eu frequentava com o Mello. As músicas do meu celular até me animaram, mas logo quando a sequência Indie começou a tocar, tirei os fones de ouvido e prestei atenção nos barulhos vindos do trânsito e das pessoas nas ruas. Era irritante, porém era melhor do que me afogar na playlist de Lewis Watson, Jake Bugg ou Simon & Garfunkel.
Quando o sol começou a baixar e minhas pernas reclamaram de dor, percebi que era hora de ir para casa.
No caminho tinha um posto de gasolina com tudo o que eu precisava: Farmácia e uma loja de conveniência. Eu não sabia direito sobre os horários de escala da minha mãe esse mês, mas tinha quase certeza de que ela ficaria de novo no turno da noite.
Infelizmente a farmacêutica não quis me vender um medicamento mais forte, temendo que eu fosse mais um adolescente suicida. O remédio era tão fraco que talvez não fizesse efeito nem mesmo se eu dobrasse o número de pílulas.
Enquanto na fila da farmácia eu não demorei mais do que cinco minutos, a fila da loja de conveniência estava razoavelmente grande. O céu já havia escurecido e mesmo dentro do estabelecimento eu percebi a queda brusca da temperatura.
Minhas compras estavam um tanto pesadas, mesmo comprando apenas o essencial. Olhei com impaciência para o caixa, vendo a lerdeza da atendente para registrar os produtos. Ainda tinham mais cinco pessoas na minha frente, sendo que um homem alto e muito bonito parecia bem mais impaciente do que eu. Ele usava uma calça jeans escura que lhe caía muito bem, atraindo sem querer meu olhar para o seu bumbum. O perfume era forte e marcante, e o jeito com que ele jogava os cabelos para trás com impaciência também era sedutor. Aquela era a única vantagem de ficar naquela fila.
De repente o celular do homem começou a tocar, com uma música conhecida do AC/DC da qual eu não lembrava o nome. Ao olhar no identificador de chamadas, mais que depressa ele atendeu. Como ele estava na minha frente, eu conseguia ouvir toda a conversa.
— B...?
Senti que ele ia completar com alguma coisa, mas optou por apenas pronunciar a primeira letra. Enquanto os demais nem sequer ligavam para o moreno que falava ao telefone, a conversa me despertou interesse. Talvez por causa do jeito que o outro pronunciou aquela letra.
— Tudo bem – suspirou – Chego aí em meia hora.
Não sei o que ele ouviu do outro lado da linha, mas seus músculos ficaram tensos, e ele apenas respondeu:
— Fala...
Eu daria tudo para ouvir a voz do outro lado do telefone, mas tinha certeza de que era um homem.
— As coisas vão acabar de um jeito que você não tinha planejado, não é? – perguntou, com a voz mais baixa do que antes.
A ligação foi encerrada. A essa altura meu coração estava prestes a sair pela boca. Não seria possível... Seria?
Antes de abandonar a fila, o homem deu uma última olhada, constatando que se esperasse, demoraria ainda mais. Ele deixou a cesta de compras em um canto e saiu apressado.
Eu precisava segui-lo.
Fiz o mesmo com a minha cesta e saí da loja, tentando manter a calma para não estragar o que eu planejava. Ele entrou em seu carro, dando a partida e indo para a avenida. Gravei a placa para que eu não me confundisse com outro carro, o que era difícil já que a cor branca ganhava certo destaque. O meu por outro lado era preto e comum.
E assim se iniciou o percurso. Mantive sempre uma distância segura de um ou dois carros do dele. Vez ou outra eu passava reto pelas curvas que ele entrava e fazia um retorno. Por sorte ele não corria tanto.
Comecei a me preocupar quando o fluxo de carros foi diminuindo e começamos a sair da cidade. Eu nunca tinha visto aquela rota, mesmo que não ficasse tão longe assim do centro. Uma estrada reta e extensa estava a minha frente, com pouca iluminação. Do lado esquerdo uma imensidão de árvores começou a se formar. Além do meu carro e do dele, apenas mais um seguia por aquela estrada.
Tentei me lembrar de alguma aula de geografia ou de algum mapa da região de Kanto e da Província de Tóquio, mas era inútil. Meu celular estava com bateria suficiente caso me perdesse, então decidi ultrapassar o carro do homem e me manter a frente, numa velocidade um pouco mais alta que a dele, para não levantar dúvidas.
Isso era um tiro no escuro, sem dúvidas. Mas eu não tinha muitas opções. O que mais eu poderia fazer se não ariscar? Não sei bem o que eu esperava encontrar e nem mesmo quem. Mas e se o tal Beyond, se é que era mesmo ele, soubesse de alguma coisa? Ou até mesmo decidisse ajudar? Ele parecia ter grana, e dinheiro é importante quando se tem alguém desaparecido. Eu duvidava muito que minha mãe ajudasse a bancar anúncios em jornais ou TV.
Aos poucos, o outro veículo foi diminuindo a velocidade, entrando em uma espécie de trilha no meio das árvores. Eu continuei dirigindo, tentando manter a velocidade em que eu estava para não levantar suspeitas. Há vários metros de distância da trilha achei um vão entre as árvores perfeito para estacionar o carro. As sombras o esconderiam. Quando posicionei o carro perfeitamente entre duas árvores enormes, desliguei o motor e os faróis, ficando na escuridão, evitando olhar para a mata a minha frente. Mesmo um pouco longe, daria para ver se caso algum carro saísse da trilha.
— Eu preciso avisar para alguém onde eu estou – falei baixinho, como se alguém pudesse me ouvir, mas talvez os únicos que pudessem me ouvir fossem os corpos perdidos que deveriam estar espalhados ao decorrer daquele terreno. E esse pensamento fez com que um frio percorresse toda a minha espinha.
Felizmente os mortos guardavam segredos.
Percorri a lista de contatos até encontrar o número de Misa e disquei em vão, pois a ligação foi para a caixa postal depois do sexto toque.
— Misa, sou eu, Matt. Só quero avisar que, bom, não sei bem em que lugar eu estou, mas preciso de respostas. Deixei o GPS do celular ligado, só por precaução. Desculpa, não quero te assustar, mas cansei de ser um covarde...
Encerrei a ligação. O visor do meu celular indicava oito da noite. Iria esperar um tempo para ver se aconteceria alguma movimentação. Caso ao contrário, iria para casa. Se eu não fosse assaltado antes, é claro. Mas valia a pena correr esse risco.
Vez ou outra alguns carros iam e vinham pela estrada de mão dupla. A cada segundo minha impaciência aumentava. Acho que eu não precisei esperar muito até ver a luz dos faróis de um carro saindo da trilha, mas para mim pareceram horas de pura tortura psicológica. Pelo retrovisor eu pude ver duas pessoas dentro do veículo que acelerou sem nenhum pudor. O fato de não possuir insulfilm nos vidros facilitou minha visão, e pude identificar sem muitos problemas Beyond e o outro homem bonitão.
Quando não enxerguei mais o carro que seguiu em frente para um rumo desconhecido, dei partida no meu. Dei uma ré simples, voltando para a estrada até ver a trilha. Não era tão estreita e rezei para que fosse reta.
Por incrível que pareça, lembrei-me de todas as músicas religiosas que eu conhecia. Queria acelerar mais o carro para acabar com aquela tortura, mas tinha medo de bater em algum obstáculo. Orações também surgiam na minha mente, e não senti vergonha de recitá-las baixinho. Aos poucos, uma construção simples de dois andares, porém grande, foi ganhando forma no meio daquelas árvores. Seria possível alguém viver ali por vontade própria? Eu não imaginava quanto tempo os dois iriam ficar fora. Nem mesmo se haviam outras pessoas ali dentro, mas eu precisava descobrir. Minha alma não se aguentaria de culpa caso eu recuasse agora.
Desliguei o motor, sem me importar em estacionar direito. A luz do luar iluminava aquele ponto por conta da enorme claraboia. Rondei um pouco a construção tentando achar alguma entrada, já que a porta da frente estava trancada. As poucas janelas estavam fechadas e perfeitamente inteiras, mas não por muito tempo.
Perto do pneu do meu carro avistei uma pedra grande. Tive um pouco de dificuldade para segurá-la e arremessá-la contra o vidro, mas assim que o fiz o barulho dos estilhaços me deixou alerta. Fiquei perto do veículo caso precisasse fugir de alguém.
1... 2 ... 3 minutos.
Constatei que a área estava livre.
Pulei a janela, estreitando os olhos para tentar enxergar alguma coisa naquele ambiente escuro. Com passos cautelosos, fui entrando cada vez mais naquele recinto, vendo algumas portas fechadas. Acabei tropeçando em alguns potes de geleias vazios que estavam jogados pelo chão.
— T... Tem alguém aqui? – perguntei alto o suficiente para que alguém aparecesse.
De repente alguns resmungos altos e desesperados vieram do andar de cima, como se a voz da pessoa estivesse sendo bloqueada por alguma coisa.
E eu achando que não poderia ficar mais nervoso. Fiquei estático, sentindo meu coração acelerar cada vez mais. Minha garganta secou. Permaneci assim durante alguns segundos antes de uma descarga de adrenalina me fazer correr. Subi as escadas as pressas, sem me importar com o barulho dos sapatos que batiam contra os degraus de ferro.
Assim que corri os olhos pelo andar, me deparei com algo que me deixou enjoado.
— Near... – sussurrei enquanto ele tentava gritar.
Seus braços e pernas estavam amarrados por correntes presas ao teto. Ele se debateu e acabou por escorregar, ficando pendurado pelos braços enquanto as pernas já não se firmavam mais no chão. Sem pensar duas vezes, corri até seu corpo e o abracei, sentindo o quanto estava magro. Ele chorava.
Tirei a mordaça de sua boca que por sorte era amarrada por uma fivela igual aquelas de cinto. O menor começou a soluçar e chorar como uma criança, enquanto tentava formular alguma frase. Eu podia sentir seu desespero ao tentar falar. Era de dar pena.
— Near! Meu Deus do céu! O que aconteceu? Por que, Near? Aquele... Aquele homem... – eu dizia atropelando as palavras, enquanto tentava achar um jeito de soltar aquelas correntes que estavam me dando angústia – Eu te procurei, Near. Eu não acredito que achei você aqui! Foi na loja, lá no posto! O homem bonito... O outro, não o Beyond.
Ao ouvir o nome, ele parou de se debater por um instante e arregalou os olhos. As lágrimas pingavam pelo chão. Seu corpo estava muito machucado.
— Suas mãos... O que houve?! E seu rosto?! – percorri os dedos delicadamente pelos hematomas, temendo que aquilo não fosse o pior.
Ao encarar seu rosto, lembrei-me do que eu tanto queria perguntar.
— Near, naquela olimpíada de matemática... A primeira. O que aconteceu com você e com o Mello? – acho que me ver foi um choque tanto para ele quanto para mim. Ele não conseguia responder absolutamente nada – Meu Deus... Eu vou te tirar daqui correndo – eu o abracei forte.
Ele começou a tremer e alguns sons tentavam sair de sua garganta. De uma hora para outra ele se debatia, cortando nosso abraço. Ao encarar seu rosto, percebi uma reação que eu nunca havia visto nele antes: Pavor. Seus olhos se arregalaram e ele tentava dizer alguma coisa. Near mexia a cabeça euforicamente de um lado para o outro.
— M... MATT! – ele gritou.
Antes que eu pudesse virar meu tronco para trás para olhar na mesma direção que ele, ouvi o barulho de um tiro.
Foi tudo muito rápido.
“— Você é o Matt, não é?
— S-sou.
— Eu sou o Mello. Tenho te observado bastante ao decorrer dos dias. Isso aí é um game boy? Nunca vi um tão de perto.
— Ah... Se quiser pode jogar um pouco.
E ele sorriu. O sorriso mais lindo que eu já vi e que se dane meu clichê mais antigo que o meu game boy. Ao morder um pedaço de sua barra de chocolate eu tive a certeza de que eu seria capaz de comprar todo o chocolate do mundo só para ele”
Minhas pernas foram perdendo a força e meu corpo foi pendendo para o chão. Já não doía tanto. Near me encarava, com os olhos cheios de lágrima. Lágrimas silenciosas que escorriam sem pudor. Eu não queria que ele visse isso.
— M-mello... E... Ele ama...va vo...cê – eu disse, mas não tinha certeza de que o som havia saído alto o suficiente da minha boca. Se existia mais alguém falando naquele cômodo eu não conseguia ouvir. Minha visão estava escurecendo, mas não podia ser minha hora. Não podia!
No fim, eu acabei morrendo com uma montanha de arrependimentos.
No fim, eu não consegui salvá-lo e nem mesmo te esquecer, Mello.
Eu não sei o que vem depois disso, mas aqui para mim já acabou.
Acabou de um jeito incompleto, como zerar um jogo sem ter feito a pontuação máxima ou colocando vários códigos de trapaça.
Eu morri, sem ter feito nada.
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