Scream! Welcome To The Game.
20 Capítulo 19 - POV: L.
Notas iniciais
Capítulo 19 – POV L:
Minha estação do ano favorita sempre foi o inverno, mas confesso que nem a coloração rosada das flores caídas sobre a brancura da neve conseguia arrancar um mínimo sorriso do meu rosto.
Uma vida agitada e sigilosa pode parecer legal em filmes de suspense, mas a realidade é bem diferente. Esse universo criminoso não é muito simples de entender, e é mais difícil ainda de se conseguir exterminar. Escravidão, porte de armas, ilegalidade, assassinatos, rivalidade... Nosso mundo está longe de se tornar perfeito, mas com força de vontade e muita paciência, podemos diminuir as taxas de crimes de uma maneira justa e mais... Humana.
Paciência... A chave para prosseguir caso os planos não saiam como planejado. Não gosto de demonstrar insegurança ou ansiedade, mas ficar parado e apenas esperar é entediante.
Os flocos de neve, agora menos intensos, caiam lá fora. A temperatura baixa anual já não me incomodava. Pelo contrário, me sentia muito melhor respirando ares gelados. O calor de que precisava sempre saía do meu trabalho. Pensar assim sempre me deu motivação.
Motivação? É o que me falta agora! Concordei em assumir um caso que, de início, o ridicularizei como uma “brincadeira de criança”. Posso demonstrar superioridade e arrogância às vezes, mas subestimei demais meus adversários atuais.
Há mais ou menos seis meses atrás, começaram a surgir várias mortes e contrabandos de produtos que variavam entre simples cargas de drogas, e materiais potentes para desenvolvimento de armamentos perigosos, sincronizados em intervalos curtos de tempo. O mais interessante era que tudo ocorria coincidentemente em uma determinada rota de países, com variações mínimas.
Máfia. A conclusão mais óbvia.
Ligar os fatos com a associação criminosa também não estava sendo difícil. O descuido em deixar provas parecia até trabalho de gente amadora. Uma piada! Então, procurei redobrar o cuidado, tendo em mente que as informações dadas de bandeja poderiam ser uma armadilha, mas antes que pudéssemos arquivar todas as provas necessárias para capturar os criminosos, tudo começou a sumir. Rastros foram apagados e testemunhas friamente assassinadas. Assassino. Não se tratava de um trabalho conjunto nesse quesito. Cheguei à conclusão de que havia apenas uma única pessoa que fazia a pior parte do trabalho. E essa pessoa sabia exatamente o que fazer. O jeito íntimo que executava as vítimas me fez ficar alerta no caso de ser alguém do sexo feminino. Sempre com uma criatividade impressionante. Concordo que a maioria das testemunhas não eram tão boas assim, algumas queriam compartilhar informações em troca de perdão judicial, porém nadadisso justificava sangue derramado. Pelo menos não sem um julgamento honesto. Tirar uma vida vai contra os meus princípios.
Estava sentado em minha cadeira. Pés sobre o assento e bumbum apoiado nos calcanhares, coluna curvada, expressão vaga, completada por olheiras profundas.
— Você parece cansado, L.
Watari. O único que entende o real significado do meu cansaço numa investigação. Sou grato por tudo que ele já fez por mim.
Eu não precisei responder com palavras. Apenas olhei de soslaio para seu rosto, que sempre continha um leve sorriso simpático. Ele entendia até mesmo o meu silêncio.
— Aguente esperar mais um pouco – continuou, andando até a frente da mesa onde eu mantinha meus cotovelos apoiados.
— Perdemos o contato. Não tenho informações há três dias! – respondi com impaciência – É nossa última chance. Se não der certo, precisaremos... – fui interrompido antes de concluir minha fala.
— Eu sei. Recomeçar do zero. Analisar novas evidências, desenvolver novas teorias, correr atrás de mais testemunhas, cavar mais fundo no buraco – disse, com a mesma calma de sempre – Não diminua sua confiança, a menos que tenhamos total certeza de que nossa última esperança fracassou.
Watari estava certo. Ele sempre está. Mas não era tão fácil assim. Não imaginava que precisaríamos recorrer à nossa última alternativa nesse Caso, mas acabou acontecendo. Se der errado, teremos que recomeçar tudo de novo, porém, se der certo, será uma tacada de mestre. Não só saberemos a localização dos mafiosos principais, como também estaremos infiltrados na organização. E esse meio termo, mesmo que eu não demonstrasse, por fora, gerava uma grande preocupação dentro de mim. Várias coisas estavam em jogo, e confiar em um palpite era abusar da sorte com a falta de informação que tínhamos. Mas o plano já estava acontecendo. O que restava era esperar.
Levantei da cadeira e fui até a mesa que continha o meu lanche. Tortas e bolo de morango fresquinhos. Potes recheados com marshmallows, bombons e cookies. Cubos de açúcar. Café e uma jarra de leite para acompanhar os três diferentes tipos de chá colocados ali, mas apenas o cheiro de um deles impregnou minhas narinas. O cheiro doce que, por mais suave que estivesse, me fez perder o apetite.
— Flor de cerejeira? – perguntei.
Watari se aproximou para observar o bule com uma expressão não muito contente e após experimentar um pequeno gole, disse:
— Perdoe a falta de atenção da equipe da cozinha. Pedi que importassem uma caixa especialmente para mim, mas cometeram um engano ao misturarem com os chás que você gosta – ele colocou apenas o bule que continha o chá em uma bandeja e se dirigiu até a enorme porta da biblioteca – Vou cuidar disso.
— Está tudo bem, Watari-san – dei de ombros.
Sei que ele ficou quase tão surpreso quanto eu pela maneira que utilizei o pronome de tratamento japonês, mas procurou não demonstrar. Apenas inclinou a cabeça um pouco para frente dizendo por fim:
— Com licença.
Eu não falava mais daquele jeito há algum tempo, entretanto, o cheiro de casa que aquele chá me proporcionou trouxe de volta memórias trancafiadas no fundo do meu subconsciente. Memórias que eu queria ter esquecido de vez.
O barulho das risadas de criança fez com que eu me aproximasse da enorme janela de vidro que ficava atrás da minha mesa. Algumas brincavam em grupo. Outras, preferiam ficar sozinhas, o que me lembrou da minha época como um simples aluno.
A cena me tirou um sorriso breve e discreto. Puxei as cortinas para interromper a minha visão do lado de fora e fui até o banheiro da minha suíte. Enquanto caminhava pelos corredores, mais memórias surgiram na minha cabeça.
Beyond...
— Por que você não me beija, nii-san?
— Não precisamos mais fazer isso. É errado.
— Você não me ama mais, nii-san?
A voz dele soava tão adocicada quando me provocava. Sua aparência sempre fora convidativa. Sempre. Mesmo quando eu limpava seu corpinho frágil coberto de sangue e hematomas roxos enormes quando éramos menores.
— É claro que eu amo! Não seja bobo!
— Mas não como você ama o Raito-kun.
Silêncio. Era tudo que eu podia fazer. Ele já sabia a resposta.
— Nii-san, eu odeio essa instituição e odeio principalmente as pessoas daqui. Elas me chamam de um nome que eu odeio. Eu odeio aquele apelido! Não faz jus à minha pessoa e eles sabem! O usam para se referir a mim apenas para me provocar. Eu odeio isso!
Estávamos acolhidos há duas semanas na instituição Wammy’s House.
Meu irmão nunca conseguiu se adaptar.
Aquela conversa... Foi a principal causa do rompimento de nossos laços familiares.
— E o que mais você odeia, Beyond?
Silêncio. Era tudo que eu queria. Apenas silêncio, mas ele logo se desfez.
— Eu odeio você, nii-san.
Afundei meu corpo na água para espantar as lembranças que há tempos não me incomodavam mais.
Beyond nunca me amou daquele jeito. Era fato. Mas crescemos sendo obrigados a desejar um ao outro até termos idade suficiente para tentar questionar aquele velho pervertido que jamais considerei como pai. Tivemos que conviver no mesmo ambiente que ele até Watari nos tirar de lá. Nunca cogitamos a possibilidade de atos sexuais por livre e espontânea vontade, mas naquela noite, na Wammy’s, Beyond estava assustado e não sabia como lidar com a situação. Eu deveria ter entendido isso, porém em uma atitude covarde, exigi um quarto só para mim logo no dia seguinte. Deixei, pela primeira vez, que ele cuidasse dos próprios problemas sozinho, sem nenhuma orientação.
Enquanto eu subia e esquecia meu passado, Beyond se afundava ainda mais em lembranças horríveis que nós dois vivenciamos. Ele nunca se deu bem com as outras pessoas daqui, mas havia uma exceção. Um garoto com quem Beyond passou a conviver depois que eu o “deixei”.
Tirei o resto do condicionador dos fios do meu cabelo e o sabão do meu corpo. Meus dedos já estavam bem enrugados. A água que antes estava quentinha esfriou, me causando arrepios, então percebi que já era hora de sair da banheira. Puxei a tampa do ralo e vi a água cheia de espuma e memórias escorrendo. Peguei a toalha e me sequei sem pressa. Antes de vestir uma muda de roupas limpas, passei um pouco de hidratante no corpo. O frio de Londres costumava deixar minha pele muito seca.
Saí do banheiro e encarei minha cama. Eu precisava dormir, mas não conseguiria ter um sono tranquilo sem uma notícia animadora.
Suspirei.
Você sabe que tem assuntos pendentes para resolver, L.
E não só com uma única pessoa.
Estava deitado de costas na cama. Meu cabelo molhado já havia encharcado o colchão, mas eu não me importei.
Raito-kun, você foi o único.
Despertei de meus devaneios com duas batidas suaves. Watari abriu a porta com um sorriso contagiante.
— Boas notícias, L. Tem alguém querendo vê-lo através de uma conferência de vídeo-chamada.
Meu rosto se iluminou. Fui às pressas para a biblioteca, repleto de expectativas. Me aproximei da tela do notebook, satisfeito com a imagem que vi. Acomodei meu corpo na cadeira na posição habitual.
— Eu consegui. – As duas palavras, seguidas de um belo sorriso de dentes à mostra devolveu meu vigor e paixão pelo meu trabalho.
— Impressionante – disse.
Watari se aproximou, me estendendo uma caneca de café fumegante e o açucareiro.
— Estou enviando um anexo com toda minha pesquisa e as anotações. Quando vocês vêm?
— Siga adiante sozinha, só por alguns dias. Já confiam em você? – Perguntei.
— São uns idiotas, acredite. Conheci o chefe da máfia. Não me parece grande coisa. Suspeito de mais alguém, e esse alguém sabe muito bem o que faz – ela remexeu em uma papelada, mostrando a foto de um homem muito bem vestido.
— Mais alguém? Como assim? – Estreitei os olhos para ver melhor a foto.
Beberiquei um pouco do conteúdo da xícara para ter certeza de que os seis cubos de açúcar adoçaram o suficiente. Negativo.
Um barulho do outro lado da tela a fez olhar para o lado, apreensiva.
— Está tudo nas anotações. Preciso ir agora. Espero encontrá-lo em breve, L. Me notifique quando chegar – falou rápido.
A tela escureceu antes que eu pudesse responder. Logo em seguida uma mensagem em anexo apareceu. Coordenadas, anotações e comentários pessoais, fotos, passos descritos em detalhes... Tudo perfeitamente organizado.
— Bom trabalho, Misora Naomi – disse, enquanto rolava os olhos pelos documentos – Watari, ligue para a Companhia Aérea e se informe sobre a nevasca. Compre duas passagens de avião e não se esqueça do visto internacional, o que não será problema para nós.
Larguei a caneca sobre a mesa, pronto para uma boa noite de sono.
— Para onde iremos? – perguntou.
Demorei alguns segundos e respondi em um suspiro:
— Tóquio, Japão.
Depois de muitos anos, voltarei para... Casa. Não posso deixar assuntos pessoais interferirem no meu trabalho. Não seria nada profissional.
Estou indo por um motivo principal. Sou infantil e odeio perder. Seja lá quem for essa gente. Eu, L, solucionarei esse caso.
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