Scream - Survival 2
4 Redrum
Notas iniciais
Um baque, e um deslize. Um baque, e um deslize. Era com essa dificuldade que Kirstin puxava sua mala escada a cima, sem ajuda de ninguém. Fazendo careta de tanto exercer força, ela controlava o fôlego conforme de degrau em degrau ia subindo aquela mala enorme. Já eram quase 20:00, Edward logo a buscaria para a tal festa, e ela ainda nem estava arrumada. Enquanto subia, podia ouvir as outras meninas correndo pelo andar de cima:
—Alguém viu minha chapinha?!
—NÃAAO!!
—Sai da minha frente, eu tô atrasada!
—Não acho minha calcinha comestível!
"Calcinha comestível"? -Pensou Kirstin. "Que porra de lugar eu vim parar, estou seriamente pensando em reconsiderar a Zeta Beta." A Cada degrau, ela sentia seus braços perderem forças, a qualquer momento, a mala poderia rolar escada abaixo e deixá-la num ataque de nervos infundável.
Enquanto isso, no corredor do andar de cima, uma porta entre muitas e abria vagarosamente. O Rosto da morena apareceu na pequena brecha, observava aquele corredor vazio com suspeita em seus olhos. Estava quieto demais, e nem sempre era assim. Hesitou, ficando parada na porta entre aberta, esperando para ter certeza se nenhuma garota passaria por ali no último segundo, ou se aquele bando de malucas não surgiriam do nada como sempre faziam para estragar sua paz. Abrindo mais a porta, deixando-a agora escancarada, Maddie se preparava para sair, ainda desconfiada... "Está mesmo tudo livre? Não pode ser". Com as pernas quase cruzadas, ela esticou o pescoço para frente, seus ombros tremeram involuntariamente, não aguentava mais segurar. "Ok, está limpo!". Se pôs a correr imediatamente mirando numa porta à esquerda a quatro metros de distância. Portando o celular numa das mãos e se apoiando na parede com a outra, ela fazia seu caminho as pressas de pernas abertas, andando feito um pinguim segurando em si o monstro que queria sair: O Resultado de ter tomado laxante por engano.
—Ai, ai, ai, ai não sai não, não sai não!
De repente,desapareceu atrás da porta que bateu com força se fechando atrás de si. A porta, que ela consumida pela "Vontade" nem percebeu estar fortemente rabiscada em vermelho. O Corredor jazia vazio novamente... mas talvez não por muito tempo.
Sentada no vaso ela sorria em alívio, finalmente poderia fazer o que tinha de fazer em paz, mesmo com tamanho desconforto que seu rosto expressou logo em seguida, se enchendo de vergonha ao ouvir o que fazia atingindo a água.
—Meu Deus... -Dizia ela respirando fundo. -As meninas irão precisar de uma máscara de oxigênio.
Tentando desviar sua atenção do barulho desagradável e do cheiro terrível que logo viria, Maddie tentava disfarçar sua humilhação isolada deslizando o dedo na tela do celular. Apoiada com os cotovelos sobre a coxa, ela nem precisava fazer força, aquela "Coisa" aguada sendo despejada por ela saía sozinha, e o que era preocupante, a garota nem sentia. Estava literalmente "Cagando sem o cu saber". Mas Sua situação poderia piorar. E Certamente iria. Murmúrios do outro lado da porta surgiram, haviam pelo menos duas vozes femininas conversando. Ela paralisou, tentando fingir que não existia. Engoliu seco, pois a casa da ZETA BETA tinha uma certa regra ao uso do banheiro: JAMAIS TRANQUE A PORTA. A regra foi imposta pelas irmãs pelo fato de que muitas vezes, mais de uma garota necessitam usar o espaço, uma tem que tomar banho, a outra tem que se arrumar para uma festa, a outra precisa fazer necessidades e assim por diante. O Fato de não haver tranca e também a verdade de que as meninas são preguiçosas demais para colocar uma plaquinha com aviso "Ocupado" deixaram Maddie Vermelha de vergonha. "Meu Deus, Elas vão entrar! To fodida!". Naquele amplo banheiro, conseguia ver mais a frente, dois vultos por debaixo da porta, haviam com certeza duas otárias paradas bem ali, e seja qual for a conversa que elas tinham, não parecia ser agradável. "Pelo amor de Deus, não entrem". Tarde demais, a porta se escancarou com Clarice e Ashley Adentrando as pressas discutindo uma com a outra. De primeira, entraram falando alto sem nem perceberem Maddie acoada no canto direito sentada no vaso com a boca tampada. Clarice falava séria e debochada ao mesmo tempo. Quando estava nervosa, sua voz soava arrogante como se ela se achasse a "Dona da verdade".
—Alá, ta vendo? Agora não vem culpar por ter roubado seu batom não, viu? -Dizia apontando para o rabisco em vermelho na porta.
—Eu não falei nada! Só falei que ele sumiu! Agora vou ter que usar outro, puta que o pariu.
—Mas você tem essa mania de culpar a primeira pessoa que aparece. Não vem não, que eu não preciso disso, tá bom? Não sou ladra.
—Ai, Clarice chega, puta merda! Tá?! Desculpa.
—Ham.. aceito suas desculpas.
A Porta foi empurrada novamente, se fechando com força. E Maddie, que estava já até se acalmando por elas terem entrado sem comentar nada sobre sua situação, teve seu coração disparado novamente naquele instante, quando Ashley levou a mão até o nariz, apertando as narinas fazendo cara de nojo.
—Caralho... garota, aqui não é despejo de entulho não.
—Vai se foder, Ashley! -Maddie retrucou irritada. -Cacete toda vez que eu preciso usar o banheiro você entra! Credo, parece que sente. "A Madison tá mijando, deixa eu entrar lá". Puta que o pariu, quem vê até pensa que você gosta do cheiro! Eu hein.
Clarice ria segurando os lábios ficando de frente ao espelho em cima da pia dando uma analisada em seu "Look".
—Ai, Maddie Pelo amor de Deus, você também vive dentro desse cubículo. Não sai do banheiro, que isso? Vamos ter que fazer uma vaquinha e te comprar um penico, é o jeito.
—Então por que você não vai fazer vaquinha para me comprar outro danone, sua safada?! Eu sei que você comeu o meu!
—Eu não comi nada.
—Comeu sim!
—Não comi! E você para de ser sonsa e vai arrumar aquela cozinha. Garota porca, tudo jogado no chão. Tá pensando que essa fraternidade é um chiqueiro? Depois que você cagar, você pode ir lá viu, bonita?! Que eu não vou catar aquela merda.
—O que ela fez? -Ashley disse em frente ao espelho, tentando se ver no reflexo que Clarice parecia roubar apenas para si, concentrada em passar seu batom roxo.
—Ah, vai lá ver depois. A Geladeira tá vazia. Essa daí jogou tudo no chão.
—Aff... Maddie você vai catar.
—Continuem me irritando para vocês verem só.
—Ah é? Vai fazer o quê?
Espremendo os olhos em ódio e Com um sorriso maquiavélico, a garota na privada se curvou um pouco para frente. E de repente, O Som de um longo e distorcido peido preencheu o banheiro:
—Ai que nojo! -Clarice ria a gargalhadas extremas.
—Nojenta! -Ashley fazia careta de repulsa.
O Cheiro começou a se instalar, e os gemidos de nojo consumiam Clarice e Ashley em níveis alarmantes. Maddie, contente com sua "Vingança", abanava os braços de baixo para cima, como se tentasse jogar o cheiro nas duas:
—Sintam a briza de verão, vadias. -Dizia com um sorriso estampado na cara.
Kirstin passava pelo corredor agora aliviada, puxando sua mala que para sua sorte tinha rodinhas naturalmente. Ainda sim, seguia em passos lentos devido ao cansaço. O Longo corredor com pelo menos 6 portas era um tanto estreito, dando apenas para passar duas pessoas de uma vez. Notava vozes ecoando por de trás de uma das portas enquanto mantinha os olhos fixados na sua, a última a direita. Reconheceu a voz de Ashley e Maddie, que aparentemente discutiam de modo absurdo.
—Afinal, como você ficou com caganeira?
—Eu tava morrendo de raiva, e vocês são umas putas. Comem tudo o que é meu. Aí peguei um negócio sem nome la na geladeira e tomei. Nem sabia o que era, se era leite.. não sei. Só sei que tomei aquilo de raiva. Já que ninguém se preocupa com a minha comida, eu também não vou me preocupar com a comida dos outros.
—Meu Pai amado.. não era um frasco azul não, né?!
—Era..
—Vagabunda, você tomou o laxante da Cath!
—Ué, Cath toma laxante?!
—Toma, ela tem o intestino preso.
—Genteee!!! -O Grito de Maddie parecia vir acompanhado de um choro. -Não acredito que vou ficar aqui cagando e perder a festa!!! Alguém pare o meu cu, por favor!!
—Senhor... -Kirstin disse a si mesma baixinho em espanto ao escutar a "Conversa". Parou por um instante de frente a porta do banheiro, mas não era a conversa absurda que lhe chamou a atenção, e sim palavras rabiscadas em batom vermelho com letras um tanto tortas. Escrito em toda sua glória, havia uma palavra que somente ela, a Nerd fã de terror reconheceria, a palavra "REDRUM".
—Legal... -Disse sorrindo. -Pelo menos algo de bom esse lugar tem... -Virou-se de volta ao seu trajeto até o quarto, seguindo em frente deixando aquele absurdo para trás, indo em direção ao seu quarto puxando a mala.
No andar debaixo, mais precisamente na cozinha, uma garota de cabelos loiros escuros pisava estrategicamente no chão, tomando cuidado para não pisar em cima de um queijo e da poça de leite que estava próximo a geladeira, com o litro caído ainda pingando.
—Ai... credo. Bando de porcas.
Seu nome é Catherine, mais conhecida como "Cath", uma das primeiras moradoras da casa da Zeta Beta, só não está ali a mais tempo que Clarice, que hoje, por falta de opção, é dada como Presidente da fraternidade, embora nunca tenha pedido pelo título e nem sequer se dá ao trabalho de fazer algo com ele. Cath por outro lado, achava que daria uma boa líder. Gostava de arrumação do mesmo modo que gostava de festas. Era possível vê-la em alguns eventos, sempre jogando o lixo dos outros na lata. Se de repente aquele seu copo vazio que você acabou de tomar cerveja misteriosamente desaparece, é porque foi vítima do "Efeito Cath", jogado devidamente no lixo enquanto você não prestava atenção. Embora tenha essa fama, ela não faz tarefas que não lhe sejam convenientes, e limpar aquela bagunça deplorável na cozinha da qual ela não havia feito parte, não era algo a se fazer. Esticou a perna até o outro lado da poça de leite dando um pequeno pulinho. Fingindo não se importar, porém morrendo de vontade de dar na cara de quem fosse que tivesse feito aquilo, a menina de cabelos cor Caramelo se apoiou no balcão a sua frente após pular o obstáculo.
—Ui... Hoje não sou empregada de ninguém, se foder. -Alcançando a porta de um dos armários acima, ela pegou um copo temendo que ele estivesse tão nojento quanto o resto da cozinha. Quando foi a última vez que alguém lavou uma louça? Impossível dizer. Pegando o copo, ela o aproximou de seu rosto, espiando o fundo dele para ver se não havia poeira ou restos grudados.
—Por favor, Deus.. Por favor...
Analisou-o com tamanho esforço, olhando de cima a baixo. Tudo parecia limpo.
—É.. até que não tá ruim...
Como se recebesse um choque, seus ombros tremeram com o susto de ouvir a porta da frente batendo repentinamente.
—Ai... -Disse ainda aos tremeliques. Se virou tendo em frente a porta da cozinha aberta, dando vista direta para o corredor que seguia em frente até a porta de entrada da casa. Não havia ninguém, ou ao menos era o que parecia.
—Oi?!... -Jogou a cabeça um pouco para o lado, prestando atenção a qualquer passo ou sinal de vida. -Clarice, é você?...
Silêncio. Pequenas batidas e vozes podiam ser ouvidas, mas essas vinham do andar de cima. E então levou seu olhar ao teto, escutando a aquelas vozes agudas eufóricas, era impossível dizer se estava acontecendo uma briga, ou a maior fofoca do ano. O Modo como falavam alto e como seus pés causavam impacto sobre o chão, faziam ecoar uma batida abafada pelo teto da cozinha. Ela seguia o som das meninas que parecia aumentar. "Caralho, o que elas estão fazendo lá em cima?".
Dando um última olhada esnobe no corredor, resolveu não insistir. Se uma "Vadia" não queria respondê-la, ela assim o faria. Deu de ombros com um bico de deboche, virando-se de volta a pia, se preparando para dar uma lavada no copo "Só pra se certificar", no exato momento em que ao fundo um vulto negro passava as pressas como uma assombração cruzando o hall de entrada de um lado ao outro em velocidade tamanha. Rápido e ágil, sem ser visto ou ouvido, o vulto desapareceu na direção das escadas sendo encoberto pelo ponto cego que a parede lhe dava, saindo do campo de visão de Cath, que de costas já não mais possuía conhecimento do que poderia, e do que se moveu sorrateiramente atrás de si...
De volta ao banheiro, Clarice terminava de dar seu último toque de Blush, Maddie continuava na privada com a mão apoiada no queixo em desânimo. Ashley, por sua vez é quem puxava assunto. Já toda pronta, só faltava colocar aquele vestido escandaloso que iria vestir. Preto, e com um decote enorme. Jogava os cabelos para trás dividindo o espelho com Clarice:
—Menina, hoje eu vou com o preto.
—Racista! -Berrou Maddie.
As duas meninas nem se importaram com o comentário de Madison, continuando sua conversa:
—Aquele que eu gosto?
—Esse mesmo.
—O Vestido "Mortícia Adams"?
—Aham.. -Ashley esboçou um sorriso malicioso apertando os próprios seios.
—Uuuuii garota, vai toda produzida assim para quem?
—Ah, pra algum sortudo. Hoje vou fazer caridade. Não é todo dia que ganham um pedaço "Disso aqui" -Disse passando as mãos na cintura. -Mas hoje.. hoje é dia.
—Achou sua calcinha comestível?
—Não.
—E o que você fez?
—Nada. Não achei a calcinha, então.. hoje vou sentir o clima.
—Safada! Não creio que você vai sem nada!
—Porra, mas eu mereço um pouco de diversão. Porque olha, as provas essa semana não foram nada fáceis. Sabe que horas eu fui dormir? 5 da manhã! Isso não é vida.
—Por isso estava com aquela cara de defunta bêbada o dia inteiro? Sério, você estava numa situação deplorável, Ashley.
—Ah, quem dera... Se eu estivesse bêbada eu estaria feliz, mas não. Hoje eu estava só "Defunta" mesmo.
—Bem essa!
—E o Paul? Vai estar lá?
—Claro.
—Amiga, eu não queria falar nada, mas acho que ele é um puta canalha.
—Por quê? -Clarice se afastou do espelho em espanto esperando a resposta da amiga.
—Ai, acho que ele tá te chifrando, mulher.
Clarice riu inconformada.
—Há! Até parece.
—Não acredita?
—Paul? Está louca? Ontem, menina... a gente pegou fogo! Depois do que fizemos, impossível ele estar me traindo.
—Como assim?! -Ashley tascou um tapa na bunda de Clarice, rindo curiosa. -O que vocês fizeram?!
—Ai.. se eu te contar você não acredita!
—Acredito sim!
—Eu acredito. -Maddie comentou avulsa sentada no vaso.
As duas lhe deram um olhar nojento, com Clarice tomando a frente:
—Vai cagar, Maddie.
A menina respondeu mostrando o dedo do meio. Mas Ashley é quem não aguentava a curiosidade.
—Me fala!
—Ai.. hoje eu e conto com mais detalhes. Mas posso dizer que envolve eu entrando no quarto dele sem avisar...
—Aiiiii já quero saber!
—Ai ai, vamos terminar de nos vestir primeiro, pode ser?
—Claro! -Ashley se virou em tremenda pressa, abrindo a porta com tudo saindo em disparada pelo corredor, desaparecendo de vista bem rápido, tendo seus passos corridos ficando cada vez mais longes. A porta, que rangia conforme terminava de se abrir sozinha, ia cada vez mais para o canto enquanto Maddie foi pega pela curiosidade em ler o que estava rabiscado em vermelho na mesma, aparentemente, a mesma palavra estava escrita por dentro e por fora.
—Re...
—O quê? -Clarice peguntou desinteressada.
—Amiga, puxa a porta um pouquinho ali pra mim?
—Tá brincando? Tá me pedindo pra fechar mais a porta? Já não basta o cheiro que está aqui dentro? Deixa o fedor sair um pouco pelo amor de Jesus.
—Não, é sério.
—É sério digo eu.
—Por favor!
—Ai, tá bom! -Clarice bufou puxando a porta de volta, deparando-se com a bizarra frase da qual a fez pender a cabeça para o lado para tentar ler: -Red... Rum? O que é isso? Alguém quer Rum vermelho?
—Sei lá.. -Maddie espremeu os olhos lendo a palavra. Alguma coisa estava errada, ela conhecia aquilo, só não se lembrava de onde. -Acho que já vi isso...
—Eu também...
—Espera.
—O quê?
—Fecha tudo, eu quero dar uma boa olhada nisso. Acho que to ligando nome a pessoa...
—Tá... sua esquisita.
E assim a garota o fez, fechando a porta por completo, girando a maçaneta para que a mesma não se abrisse sozinha novamente com o vento.
—"REDRUM"... Caralho, de onde eu conheço isso?
—Maddie, acha que esse é o batom da Ashley?
—Parece, a cor é a mesma.
—Ela tava irritadíssima hoje, alguém pegou. Ela acha que foi uma de nós.
—Quê?! É alguém aqui tem cara de ladra por acaso?
—Eu sei, É um cu. "Meu nome é Ashley, se quiser ter uma mão amputada, é só pegar algo meu".
—É, ela é fogo com as coisas dela..
—Sabe que pode ter sido a Gigi?
—Como assim?
—Ué, a Gigi saiu correndo daqui.
—Quando isso?
—Faz umas duas horas, do nada. Eu tava lá na sala que eu esqueci meu rímel lá embaixo, e aí fui falar com ela, ela se assustou comigo e fugiu.
—Estranho...
—No mínimo. -Clarice tornou sua atenção ao espelho, passando os dedos entre os cabelos, ajeitava o que daqui a alguns minutos seria uma franja irresistível, ou pelo menos era isso que ela pretendia. -E você já ta parando de cagar, Maddie?
—Ai menina.. eu acho que só tá saindo água agora...
—Credo.
—É.. eu tô seca. Desidratada é meu nome.
—Vai no médico.
—Se a privada tivesse rodas e fosse motorizada eu iria. Vou sair daqui como?
—Boa pergunta. Hey... -Clarice olhou profundamente para o espelho. Mas não era nela mesma que estava o foco. Aos poucos, foi aproximando seu rosto do reflexo...
—O que foi? Borrou? -Maddie perguntou tentando saber o que fazia a colega olhar para o próprio reflexo com tanta suspeita nos olhos.
—Acho que matei a charada!
—Que charada?
No reflexo, Clarice fez uma careta estranhando a situação. Podia ver claramente, que a palavra rabiscada na porta estava escrita ao contrário, mas no espelho, seu significado real de revelou. De "REDRUM", a escrita foi para "MURDER" (Assassinato).
—O Iluminado! -Exclamou Clarice dando um pulinho.
—O Filme??!
—É! Acho que essa é a charada! Quem fez isso?
—Ah.. não sei.
—Será que foi aquela menina nova?
—E eu que vou saber, mulher?
Num estralo repentino, a porta se abriu bruscamente, dando um susto nas duas, que gritaram ao mesmo tempo:
—Ah!!!
—Ah!!! Credo!
—Aii, que foi? — Ashley preguntou já parando assustada.
—Você me assustou! -Maddie deu um pulinho sentada no vaso.
—Eu hein, vocês que me assustaram. O que está acontecendo? -Sorria pela bobeira das duas. -Só vocês pra serem tão otárias... -Se virou para fechar a porta vendo de relance um vulto negro passando correndo pelo corredor. Aquilo passou bem na sua frente em disparada, desapareceu tão rápido quanto surgiu. -Ah!! -A porta bateu. Ashley havia levado um susto gigantesco lançando a porta do banheiro para frente fazendo-a se fechar brutalmente. -Ai que susto!
—Ah!! Que foi?! -Clarice se estremeceu.
—Eita! -Exclamou a garota paralisada no vaso, parecendo ter se assustado.
—Vocês viram?
—Eu não vi nada... -Clarice arregalou os olhos fitando a amiga.
Com a mão no peito, demonstrando choque, Ashley respirava pesadamente.
—Caralho, que puta susto! Quem foi?! -Berrou, mas ainda hesitante em abrir a porta.
—O que foi? -Maddie questionou rápida.
—Eu não sei, alguém passou correndo aqui, você não viu?!
—Não.
—Ai, deve ser a Cath. -Clarice não demonstrou preocupação.
—Ok, então me explique porque infernos a Cath estaria toda coberta de preto.
—Ai gente, será que é assalto?
—Cadê a menina nova? -Perguntou Maddie tentando abaixar sem sucesso sua camisa, para tentar cobrir suas partes íntimas.
—Sei lá, alguém viu ela entrando? -Ashley dizia ainda em estado trêmulo.
—Nossa, amiga calma.
—Calma nada, olha como estou. -Colocou uma das mãos para frente, mostrando a Clarice sua tremedeira. -Olha isso.. menina não posso me assustar assim não.
—Tá amarrado. -Clarice segurou sua mão. -Abre aí, dá uma espiada pra ver quem era.
—Você primeiro, fica à vontade linda! -Disse Ashley saindo da frente ironicamente, dando espaço para a amiga apontando para a porta.
Clarice não reagiu, apenas ficou parada hesitante com cara de "Não sei o que fazer".
—Ué, você não é a "boasuda"? Vai lá! -Ashley lhe deu três tapinhas de leve nas costas.
Clarice engoliu seco:
—O que você viu?
—Se eu estivesse numa camisa de força agora, diria que vi um fantasma..
—Edward.. -Kirstin falava ao celular em seu quarto. -Onde você está?
—Eu estou chegando...
—Chegando como? Do tipo "Estou saindo do dormitório" ou o "Ainda tô me arrumando"?
—Hahah! A Primeira opção.
—Hum...
—Eita, tá ansiosa pra essa festa hein?
—Você nem imagina. Quero sair daqui.
—Sair é bom.
—Não.. não "Daqui", eu digo, sair da Zeta Beta.
—O que houve?
—Essas garotas são loucas!
—Vesh.. se acostume..
—Você não entende... as coisas que ouvi entre as paredes desse lugar.. é bom chamar um exorcista.
—Relaxa, pode ficar nos dormitórios se quiser.
—De preferência com gente normal.
—Já aviso que eu não sou normal.
—E por acaso isso foi uma indireta?...
—Não...
—ÓÓÓ hahha... pode falar...
—Não, é que "Normal" não existe. Eu te convidaria para ficar no meu dormitório, mas não pode haver um garoto e uma garota no mesmo quarto. Regras.
—Ai que saco.
—Também acho. Ai, acho que vou pegar um refrigerante na cozinha, você vai ficar na linha até chegar aqui?
—Pode ser.
—Então vamos juntos.
—Bora.
Sua mão alcançou a maçaneta, mantendo o celular grudado na orelha, apoiando-o no ombro, Kirstin se entortou toda para fazer uma tarefa simples: Abrir a porta. Puxando-a para si, o leve ranger se fez, mas não terminou de cumprir sua tarefa. Parou repentinamente onde estava, paralisada. Não passou para fora ficando no vão, estática, fitava quieta a figura parada no meio do corredor. Estava de costas a ela. Coberto por um manto negro com capuz, Kirstin não sabia, mas a própria Morte estava bem em sua frente a alguns poucos metros de distância próximo a porta do banheiro. Edward falava do outro lado da linha:
—Nossa, ficou quieta.. o que foi?
Kirstin não respondeu. Não sabia como agir ou o que fazer. Diante da situação surpresa, suas sobrancelhas se levantaram. Sua expressão mudava de curiosidade para desconfiança de um segundo ao outro, se alternando. O que estava acontecendo?
—Kirstin?... -Ed insistia por uma resposta.
—Oi?... -Ela proferiu, sem ter noção da atitude que acabara de ter. Cumprimentou impulsivamente de modo preocupado a coisa. Nem ela nem ele se moveram naquele segundo. E com as vozes das garotas ecoando através da porta do banheiro, aquele cenário de absurdos e risadas mudou para o bizarro e assustador num questão de segundos. Lentamente, e de modo teatral, a coisa se moveu... o capuz foi se virando pouco a pouco para o lado. Em breve estaria de frente a ela, O Rosto que o manto negro escondia logo iria se revelar.
—Kirstin? Você ainda está aí?..
—Ah.. -Um pequeno gemido saiu de sua boca. Ela não se movia, muito menos pensava.
Para tal ação precipitada da garota, a resposta mais indesejável da sua vida veio na forma horrenda de um fantasma, que se mostrou por completo ao virar o "Rosto" na direção da pobrezinha, que abriu a boca sem dar um pio. Ele ainda não se movia, apenas encarou Kirstin naquele segundo, a bocarra que parecia gritar, o esqueleto distorcido.. aquele pesadelo em forma de disfarce. Kirstin não pensou, mas pelo menos agiu, dando um bruto passo para trás jogando a porta para frente, fechando-a num baque.
Se afastando da mesma, ela tornou a segurar o celular apropriadamente:
—Edward...
—Ah! Você está aí. Que susto.
—Tá acontecendo alguma coisa aqui.
—O que foi?
—Tem uma coisa no corredor..
—O quê?
—Quer dizer, alguém, tem alguém no corredor.
—Tá, e daí?
—Edward.. tem alguém no corredor... encapuzado, usando uma maldita máscara de "Ghostface"..
Um silêncio se fez na linha, a respiração do garoto foi ficando cada vez mais pesada.
—Onde você está?
—No meu quarto.
—Kirstin, isso pode ser só uma pegadinha.
—Eu não sei, você não viu o que acabei de ver.
—Tá.. faz o seguinte...
—O que eu faço?!
—Fica calma..
—Não mesmo... Edward, desculpe, eu sei de tudo. -Disse em ritmo rápido e atropelado.
—Do quê?!
—Eu sei de você.. eu sei da Claire, eu sei de Ashville.. socorro...
—Kirstin... -A Voz dele saiu lenta a pausada. -Como você?..
—Eu já vi vocês nas notícias, reconheci você na hora! Me desculpe eu não ter contado!
—Tá...
—Edward, eu estou com medo, o que está acontecendo?
—Me escuta! Tranca a porta, e tenta sair pela janela.
—Ai meu Deus... -Kirstin disse num tom de preocupação maior.
—O que foi?
—Ai meu Deus! -Exclamou em desespero com os olhos do tamanho de bolas de gude. Assustada, via seu fim se aproximando. Por de baixo da porta, via uma sombra do que parecia ser passos.. o som deles se aproximando e em seguida a sombra que passara pelo vão, escurecendo-o, ficando parado de frente a porta do quarto da garota a fizeram congelar.
—Edward...
—Eu estou chegando! Tranca a porta!
"Tick!' -Um pequeno ruído na porta se fez, leve e metálico. Kirstin não retirava os olhos do vão embaixo, mirando sua visão naquela sombra que desaparecia retornando de onde veio pelo corredor, e dos passos pesados que iam se distanciando.
—Não dá pra eu fazer isso agora... -Disse trêmula.
—Por quê?!
—Porque acho que ELE acabou de fazer isso.. Edward, socorro!
—Como estou? -Ashley ficou parada com as mãos na cintura de frente à Clarice, fazendo pose de modelo.
—Está ótima! Arrasou. -A amiga respondeu com um sorriso e olhar exageradamente impressionado.
—Ótimo! Agora só falta o toque final..
—O Vestido!
—Isso mesmo! Eu já volto... -Disse dando um sorriso malicioso passando a língua nos lábios. Ashley estava preparada para uma noite de farra como nunca antes.
—Divirtam-se. -Maddie acenou em tom desanimado e lento.
—Pode deixar! -Ashley, mesmo por fora não se importando com a situação de Maddie, acabou até sentindo pena da menina, que perderia a festa. Contendo-se em não expressar pena, deu as costas a ela tirando imediatamente o sorriso no rosto, não queria chateá-la mais a respeito da noitada.
Maddie, agora com os olhos grudados no celular, esticava o braço esquerdo adiante para alcançar o papel higiênico, mas tudo o que seus dedos tocaram, foi o rolo vazio.
—Não acredito! -Disse gemendo de desgosto.
Clarice tirava a Chapinha da tomada, enrolando o fio em volta da mesma, estava pronta para sair quando Ashley tascou a mão na maçaneta, girando-a com pressa para abri-la. Ao puxar a porta para si, a mesma voltou-se com tudo sendo puxada do outro lado. "Bang!". Uma forte batida seguida de um "Click" foram nitidamente ouvidos, aquele som acabara de vir da fechadura, a mesma a que a garota já assustada, fixava os olhos.
—Ah!! Olha aí, de novo!
—Hey! Quem é que tá brincando aí?! -Clarice berrou em direção a porta, ainda enrolando o fio da chapinha.
—Gente, acabou o papel!
—Xiiiiu! -Ashley fez sinal de silêncio para Maddie, em seguida, cochichou: -Tem alguém na casa.
—Claro que tem alguém na casa, babaca. A Cath tá aí. -Retrucou Maddie ainda sem saber do que realmente se passava.
As duas amigas se entreolharam de modo significativo, com Clarice dando um passo à frente exclamando:
—Catherine! É você?!
Não houve resposta. O Silêncio residia.
—Cath!! -Ashley insistiu, desta vez dando murros na porta. -Heeeey!!!! Vagabunda!! É você que tá aí?!! (Bang, Bang, Bang, Bang!)
—Espera.. -Clarice colocou a mão no ombro da amiga, indicando que ela se pusesse um pouco para o lado, e assim ela o fez acenando positivamente com a cabeça. A Garota se aproximou da porta metendo a mão na maçaneta, tentando girá-la sem sucesso. Com raiva, forçou-a mais que pode, chacoalhando a mesma repetidamente:
—O que vocês estão fazendo?! — Maddie ainda se encontrava avulsa na situação.
—Estamos presas, acho que a Cath trancou a gente. -Respondeu Clarice.
—Acha que isso é uma pegadinha dela? -Ashley falou baixinho um pouco tensa.
Clarice mordeu os lábios, se colocando para esmurrar a maldita porta, agora era sua vez:
—Catherine!!! (Bang, Bang, Bang!) -Isso não tem graça! Abre essa porra!
Sentada no sofá da sala, com os fones de ouvido em alto volume, Catherine bebia seu suco de laranja ouvindo "A Perfect Circle — The Outsider", balançando a cabeça repetidamente de um lado para o outro, dando um gole generoso no suco. Seus cachos nas pontas dançavam com a bateria e guitarra conforme ela se mexia. Interpretando a música fingindo estar num palco de frente a uma multidão, Cath engoliu com tudo o suco, começando a cantar alto e desafinado:
—"What's your Rush now? Everyone Will have his day to die!" (Qual a sua pressa agora? Todos terão o seu dia de morrer!)
A Cada verso, se empolgava mais levantando a voz, nem sequer escutando os gritos que lhe chamavam, muito menos as batidas constantes que viam do andar de cima.
—Caralho, Caaath!!! -Clarice deu um último grito repleto de ódio. Se afastando da porta em desânimo, bufou: -Arrghh que inferno!
—O que vamos fazer? -Ashley passava as mãos nos cabelos demonstrando nervoso.
Um apito de celular se deu, trazendo consigo os olhares imediatos das duas garotas, que fitaram Maddie ao mesmo tempo. Maddie contorceu o rosto fixando o olhar na tela de seu aparelho, pendeu a cabeça para o lado estranhando o que quer que estivesse sendo enviado.
—Ahm?
—O que foi?.. -Perguntou Ashley.
—Essa é a nossa casa? -Maddie afastou o rosto da tela, girando o celular procurando um ângulo para ver melhor a imagem que lhe fora mandada.
—Deixa eu ver. -O Braço de Ashley já se esticara rapidamente, tomando o aparelho da mão da garota. Clarice se juntou a ela para ver, as duas ficaram lado a lado espremidas uma contra a outra observando a foto.
—Quem te enviou isso? -Questionou a presidenta em tom urgente.
—Eu não sei.. número privado.
Elas encaravam na palma de suas mãos um aviso. Grotesco e preocupante. Ashley reconheceu a máscara, sabia, por todas as notícias que já havia visto na TV, relatos de serial killers aparecendo em tudo quanto era cidadezinha no país... ver alguém vestindo aquele disfarce de fantasma, não era boa coisa. Era um presságio. A Foto, enviada para Maddie continha uma selfie de alguém total e perfeitamente caracterizado de "Ghostface", no que parecia ser o corredor do segundo andar da Zeta Beta, com a legenda: "Wendy, I'm Home". (Wendy, cheguei em casa!).
—Fodeu... -Proferiu Ashley, tremendo em pavor torcendo o pescoço lentamente, encarando a porta em extrema tensão.
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