Schadenfreude
2 Smiling while you suffocate.
Notas iniciais
— Tem alguém aí? – Aquela voz perguntou, a voz de Resia, que observava a entrada, em tom temeroso. Novamente fingindo ser a princesa, o Azar não parecia ter percebido que havia sido descoberta.
Tiernan ainda xingava baixinho (e inutilmente) as estrelas que teciam seu destino. Se era verdade que as senhoras do Destino teciam as vidas de cada ser senciente, com certeza deviam ter derrubado o novelo da vida de Tiernan e enrolado novamente o fio de qualquer maneira. Alguma razão maior deveria existir para justificar por que nada na vida de Tiernan podia ser simples. Mas se as deusas têm tanto prazer em tornar sua vida um infortúnio, então a divindade deve ser uma existência bem entediante. Suspirando, Tiernan entrou na sala, tentando conter seus pensamentos e se tranquilizar diante daquela criatura, que apenas abriu um sorriso singelo e aliviado.
— Ah, é você! O senhor me assustou, ahn…
— Tiernan… Vossa Alteza – completou. Mesmo que seu tom de voz fosse estável, e seu rosto estivesse calmo, Tiernan teve a impressão de ver um lampejo rápido passar pelo rosto da “princesa”, um reconhecimento estranho e incomum. Porém, rápido como havia surgido, sua surpresa logo desapareceu. Tiernan ainda sentia o nervosismo frio se espalhando por seu peito. Será que ela sabia? Não. Não poderia saber, ele tinha certeza disso.
Mas… Azares não liam mentes, ou liam? Uma parte das lendas parecia ter se apagado da sua memória. Quando criança, Tiernan não valorizava muito as canções. Agora se arrependia amargamente, mas não tinha como saber que um dia estaria frente a frente com uma dessas criaturas.
O silêncio se estendia por tempo demais. Mesmo que o Azar não lesse mentes, já estava óbvio que havia algo errado. O modo como o rosto da Princesa Resia abriu um sorriso sereno sob o olhar inflexível era extremamente inquietante. Tiernan pigarreou, em uma tentativa de consertar seu erro.
— Então… – começou, e seus olhos vagaram pelo ambiente, temerosos, antes de finalmente se fixarem sobre a criatura. – Já está bem tarde… O que Vossa Alteza faz por aqui?
Um riso gentil deixou seus lábios, e ela encarou ao chão. Por um momento, parecia uma jovem garota lidando com flertes pela primeira vez. Mas, quando seu olhar pousou novamente sobre Tiernan, a cabeça ainda levemente inclinada para o lado, com os cabelos dourados caindo sobre o ombro como a heroína das canções com a qual os garotos sonhavam, ela parecia completamente o oposto. Nada de inexperiência, ela era uma mulher madura, com total controle da situação, e os flertes não conseguiam provocar-lhe falta de jeito, apenas divertimento. Um sorriso malicioso brincou no rosto de Resia, enquanto ela perguntava com tom cínico.
— Que interessante… Eu estava para lhe perguntar a mesma coisa.
— Velhos hábitos… – murmurou, sem perceber, mas logo se agarrou à fraca desculpa. – Mas a princesa tem razão, é melhor eu sair daqui antes que o rei saiba de algo… Eu posso?
Tiernan estendeu a mão para cumprimentá-la, do jeito que já vira os nobres fazerem repetidas vezes. Resia permitiu, e Tiernan segurou sua mão delicada enquanto a reverenciava…
…e percebeu o anel largo folgado em seu dedo. Intuitivamente, Tiernan manteve o anel entre seus dedos enquanto Resia recolhia a mão. Ele não sabia se o anel era importante. Na melhor das hipóteses, Resia seria apenas mais uma nobre que ele conseguira irritar quase sem planejar; na pior, ela nem mesmo seria Resia.
E, no momento em que o anel deixou sua pele, ela mudou. Os cabelos dourados ficaram escuros como o céu noturno, e o rosto suave e ingênuo deu lugar a um zombeteiro e inquisidor. Mas seu sorriso tranquilo não mudou, nem o olhar ardente. Ela não parecia uma impostora pega no flagra, mas uma amiga cuja pequena pegadinha acabou dando errado.
— Seus velhos hábitos são realmente difíceis de mudar… – comentou, sua voz era grave e agradável, estendendo a mão para que Tiernan lhe devolvesse o anel.
Tiernan, que torcia para que suas suspeitas não passassem da imaginação de um garoto que deu muita atenção às lendas, jogou a cabeça para trás em um suspiro que misturava atonicidade e desilusão.
— Pelas estrelas, eu vou ser executado! – constatou, talvez um pouco mais alto do que deveria. Olhou novamente para ela, o Azar ainda esperava o anel de volta. – E eu não vou ser pago…
— Ah, e começou a me entediar… – Ela falou, sem muito interesse. – Devolva e terminamos logo com tudo. Não temos muito tempo para isso. – Em vez disso, Tiernan segurou o anel ainda mais próximo de si. Ele não entendia a importância do anel, já que mudar de forma era uma habilidade natural dos Azares, não uma magia externa. O sorriso dela finalmente se retraiu para uma linha séria, mas seu tom de voz manteve-se manso. – O que você espera conseguir com isso? Olhe onde você está, só vai conseguir provar para o rei que nunca será nada além de um ladrão baixo.
— Você está tentando me ofender? Você, me chamando de ladrão? Você é uma golpista! – Tiernan se defendeu, não por ter se sentido ultrajado, mas pela ironia daquela lógica absurda. A falsa Resia estava se aproveitando das preocupações de toda uma família e um reino para ter aquela vida da realeza e ele era um ladrão baixo?
Seu tom exaltado fez a falsa Resia olhar rapidamente na direção da porta, mas não demostrou outra preocupação além disso. Ela deu um passo à frente e, mais rápido do que Tiernan poderia prever, acabou com distância que havia entre eles.
— Tiernan… Não é? – perguntou, em uma postura efusiva, e seu nome soou estranho quando dito por ela. Estava tão perto que Tiernan precisou se inclinar levemente para trás. Ela havia recolhido as mãos atrás do corpo e andava a passos lentos ao redor de Tiernan, parecendo muito à vontade, embora a calma de antes parecesse ter dado lugar a uma irritação contida, leve na superfície, mas turbulenta no interior. Era possível vislumbrar essa irritação crescente em seus olhos. Se antes eles pareciam zombeteiros, agora, que a provocara, possuíam um ar de diversão cruel. – Por que você está aqui? O que espera conseguir?
Desconfiado, Tiernan girava sem sair do lugar, a fim de estar sempre com o Azar a sua frente. Porém, ela percebia isso. Seus passos aceleravam gradualmente, mesmo que ainda fossem silenciosos como os de um gato, e ela conseguia se manter sempre nas suas costas ou no canto de sua visão, desaparecendo à sua direita e ressurgindo à esquerda, naquela dança inquietante de um felino que brinca com uma presa. Tiernan não sabia o que esperar dela. Não tinha visto arma alguma, mas não sabia que truques ela poderia usar. Sua mão esquerda desceu até a lateral do corpo, onde mantinha um punhal, cauteloso.
— Lealdade ao rei é clichê demais para você, não é? – Ouviu a voz mansa às suas costas e se virou a tempo de vê-la sorrir de lado antes de deixar novamente sua visão, sem diminuir o ritmo de seus passos. – O desejo heroico de resgatar a princesa? Por favor, seria ridículo… Deve ter outro motivo.
— Motivo de quê? – Tiernan perguntou, tentando novamente, e em vão, ficar cara a cara com aquele gato esguio e de sorriso traiçoeiro.
— Você não parece do tipo de confrontos diretos, qual o motivo de ter me seguido e estar tentando me parar?
— Parar você… Eu nem sei o que você quer! – Ela não respondeu, apenas continuou andando ao seu redor, firme e constante. Tudo o que ela dissera estava correto. Tiernan não era de enfrentar nenhuma ameaça maior do que um ou outro rival nas ruas. Não, brigas maiores podiam ficar para os heróis de capa e armadura. Tiernan preferia a vida e o anonimato. Mas um Azar, isso era diferente! Era grande demais, talvez não tivesse como escapar. Pois Azares são como fumaça, e onde há fumaça, há fogo. – Mas se você está aqui, deve ter também uma bruxa por…
Tiernan se interrompeu quando subitamente ela parou de andar, finalmente permitindo que se encarassem, e, daquela maneira invasiva, inclinou o rosto bem próximo ao de Tiernan, fazendo-o recuar e apoiar-se em uma mesa atrás de si.
— Uma bruxa? Sim… Eu estou procurando uma bruxa. – Confessou, em um tom que Tiernan não conseguiu decifrar, apesar de soar sincero. Havia rancor naquelas palavras ou a irritação que Tiernan lhe causava finalmente começava a transbordar, como as águas das enchentes? – Você viu alguma bruxa por aí?
Tiernan não respondeu de imediato. Ainda apoiado pela mesa, enquanto o Azar se inclinava mantendo seu rosto na mesma altura do de Tiernan, ele percebeu uma intensidade desconcertante naquele olhar. Havia ali uma força contida, e Tiernan julgou estar diante de alguém que reduziria às cinzas Silverrain inteira se estivesse entendiada o suficiente.
E Tiernan estava certo de que ela o faria sorrindo, enquanto todos ao seu redor sufocavam.
— Você viu uma bruxa ou não? – Perguntou, transferindo para as palavras um pouco do incêndio que havia em seu olhar. Talvez fosse apenas impressão, mas Tiernan sentiu o calor através das palavras; não um calor do tipo convidativo, era mais como encarar uma floresta ardendo em chamas, ameaçadora e estranhamente hipnótica.
O medo de Tiernan era com certeza a maior vantagem do Azar. As histórias rondavam sua cabeça e aumentavam aquela presença. Azares não leem mentes, não ficam invisíveis ou manipulam calor. Qualquer insinuação que Tiernan percebia disso era apenas impressão de uma mente receosa e cautelosa diante do desconhecido.
Como Tiernan não respondeu, o Azar se afastou com um suspiro impaciente e olhou discretamente pelo ambiente, voltando a andar ao seu redor. Ela parecia procurar por algo. Ela procurava por algo, e mesmo assim, tinha domínio suficiente da situação para provocá-lo daquela maneira enquanto não encontrava o que queria. Um pensamento terrível acometeu Tiernan: E se ele não estivesse interrompendo os planos do Azar? E se ela estivesse conversando daquela maneira, estendendo aquele momento apenas para mantê-lo ali?
A sensação de alerta surgiu subitamente, mas sua intuição nunca falhara nesse sentido. Ele sabia a hora de se retirar. Tiernan precisava sair daquela sala.
— Aonde vai? – Ela recuou um passo, interrompendo seu caminho e o encarando de lado. No entanto, seus olhos capturaram algo atrás de Tiernan, e ela demorou poucos segundos para retornar sua atenção para ele, murmurando para si mesma: – Ah, achei… Eu ainda preciso do anel, se puder devolver…
— Por quê? – perguntou, tentando desviar dela e chegar à porta, mas ela seguia seus passos, mantendo-se sempre em seu caminho. Tiernan agora tentava desconcentrá-la com perguntas, como ela vinha fazendo antes, mas ela parecia bem mais atenta aos próprios interesses.
— Como você é curioso… – comentou, com diversão.
— Por que precisa do anel? Não pode se transformar sem ele? – Tentou contornar pela esquerda.
— Dessa forma?
Ela o seguiu, e, no passo seguinte, não era mais ela quem interrompia seu caminho. Tiernan estava de frente para ele mesmo, em todos os detalhes. Até mesmo as roupas haviam mudado e eram iguais às que vestia. Mas, enquanto um encarava com atonicidade, o outro sorria tranquilamente, com uma sobrancelha arqueada em um olhar de descaso.
Tiernan, o verdadeiro, finalmente sacou o punhal, assumindo uma posição defensiva. Sua mente fervia com todas as desconfianças. Ela tentaria matá-lo e assumir seu lugar? Não, não fazia sentido. Tiernan era literalmente a última pessoa que alguém fingiria ser. Talvez aquela forma fosse apenas para chocá-lo, deixá-lo assustado. Mas ela não precisaria se esforçar para isso, Tiernan já vinha se assustando o suficiente sozinho apenas pela presença dela.
Naquele momento, a luz fraca do amanhecer começava a inundar a sala do tesouro pelos vitrais altos nas paredes. Todo o ouro em volta deles reluzia levemente, como um sonho que a qualquer momento iria se desfazer. O falso Tiernan olhou com descaso para a lâmina do punhal, desviando o rosto para os vitrais.
— É… Infelizmente, parece que nosso tempo acabou.
O Azar lançou-se para a frente, e Tiernan moveu o punhal para se defender, mas no último minuto, o Azar desviou agilmente, passando por baixo de seu braço e continuando seu caminho. Tiernan então percebeu que não estava sendo atacado. O Azar corria para o lado oposto da sala, saltando pelas largas mesas cheias de tesouros como se não fossem obstáculo maior do que um tronco caído no chão, e ainda assim ela mal fazia barulho, seus passos provocavam ruídos ocos e discretos enquanto se movia rápido demais para que Tiernan percebesse o que estava tentando fazer. Apenas quando parou em frente aos grandes armários de portas de vidro, que abrigavam desde joias e pedras preciosas a coisas que Tiernan não podia supor o que eram, mas não pareciam valiosos, e começou a escalar suas prateleiras, foi que ele compreendeu que o que ela queria estava ali. No topo, ela agarrou uma pequena gema oval, que cabia em uma mão, e não se importou em descer como havia subido. O Azar apenas se impulsionou na prateleira e saltou para o chão, sem dificuldade alguma.
Desperto de seu torpor, Tiernan recuou, sabendo que deveria chamar pelos guardas. Ela passara direto por tantas coisas que pareciam mais valiosas do que aquela ametista, então deveria ter algum significado especial, talvez algo para a bruxa responsável por ela. Mas o Azar já avançava novamente em sua direção, e Tiernan mal teve tempo de se abaixar enquanto ela saltava no ar sobre sua cabeça e alcançava a porta com facilidade, e sem nem mesmo ofegar.
— Talvez eu não precise mais do anel… – O Azar sorriu, jogando a ametista para cima e a pegando com a mesma mão. Fez menção de sair, mas, como se tivesse se esquecido de algo, voltou-se para Tiernan: – Ah, e é melhor você não estar com o anel de Resia quando começarem a procurar por ela.
Então, enquanto Tiernan não entendia o que diabos havia acontecido, o Azar se despediu com uma piscadinha conspiratória antes de desaparecer pelo corredor.
Agnieszka sempre soube causar uma primeira impressão e tanto.
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