Schadenfreude
3 Let's do some things not typically allowed
Notas iniciais
Deixando-o para trás, Agnieszka disparou pelos corredores do castelo, com seu precioso tesouro em mãos, ainda na forma de Tiernan. Ao amanhecer, o castelo ainda era pouco movimentado, com exceção dos soldados que faziam guarda, andando de um lado para o outro. Agnieszka não tinha dificuldades em evitar a maioria deles. Seus passos ligeiros mantinham a discrição, e ela sempre notava um grupo de soldados se aproximando pelos reflexos nos abundantes ornamentos metálicos nas paredes.
Mas, acredite ou não, nem tudo acontecia como Agnieszka previa. O Azar era bastante confiante, e sua postura relaxada lhe custou tudo quando estava quase alcançando a saída. Seu quase sucesso fez com que perdesse a cautela e, ao virar no corredor à direita, colidiu com força contra um soldado, derrubando-o ao chão.
— O que… Tiernan! – Ele reclamou, e Agnieszka reconheceu o soldado que a acompanhara até o castelo enquanto fingia ser a princesa Resia. Tentou desesperadamente se lembrar de como o ladrão o chamara no dia anterior. – O que você está fazendo?
— Reed! – Ela se lembrou em um lampejo. Parecia que o soldado não estranhara ter sido derrubado por alguém da estatura de Tiernan. Azares podiam mudar sua aparência à vontade, mas por dentro, eram ainda Azares: ossos e músculos diferentes dos humanos, e, em geral, um pouco mais fortes também. – Que bom que é você, você não vai acreditar! Tem um Azar no castelo!
Reed tinha uma expressão sisuda de incompreensão, e a fala de Agnieszka não teve o efeito desejado. Ele suspirou impacientemente, mas sua voz era sempre calma.
— Que tal você deixar eu me levantar e aí você me explica melhor sobre isso? – Agnieszka não percebeu que ainda estava na mesma posição em que tinha caído. Se levantou com destreza e deu um sorriso de desculpas, estendendo a mão para o soldado, que aceitou a ajuda. – Você disse o quê? O que é um Azar?
— Você não sabe? – Agnieszka pensou que as lendas sobre seu povo fossem de conhecimento comum. Como Tiernan explicaria isso para Reed? – É como se uma fada e um diabrete tivessem um filho. Mas um filho bem atraente…
— Ah! – O rosto de Reed brilhou com o súbito reconhecimento, e Agnieszka tentou não se ofender por sua descrição tosca realmente ter feito ele compreender. – Um Troca-peles? Aqui? Você tem certeza?
— Sim, Reed, eu mesmo vi!
— Tiernan, se estiver inventando isso…
— Eu juro! Eu o vi se transformar! Eu acabei perdendo o Azar de vista, mas ainda deve estar por aqui.
— O que é isso na sua mão?
— Isso… – Preocupada em se lembrar de nomes e modos de falar, Agnieszka se esquecera de esconder a gema que roubara da sala do tesouro. A joia lilás podia não ser maior do que um ovo, mas ainda era bem chamativa. Tinha jogado a isca da realidade, então achou que continuar nela era a melhor opção. – O Azar tentou pegar isso. Quando nos encontramos, ele deixou cair. Você sabe o que é?
Reed não parecia ameaçador, mas não disfarçava a descrença. Ele tinha o olhar característico de um professor que descobria que o aluno estava apenas desenhando no caderno, em vez de prestar atenção nos deveres. Aquilo começava a incomodá-la, e Agnieszka percebeu que talvez a forma de Tiernan não fosse a mais adequada para passar despercebida…
— Eu acredito, porque sei que você não deixaria de lado todo o ouro que poderia carregar por causa de uma pequena ametista – decidiu Reed. Ele conhecia Tiernan o suficiente para saber que, se tivesse a chance, seus bolsos sairiam cheios das moedas na sala do tesouro, e ele teria escutado o metal tilintar durante a queda. – Mas permita-me tirar essa pedra preciosa das suas mãos, ok?
Involuntariamente, Agnieszka segurou a pedra com mais força, quando Reed tentou pegá-la. Por um momento, ambos estavam segurando a pedra, e nenhum queria soltar. Agnieszka, no rosto de Tiernan, mostrava evidente descontentamento, e Reed mostrava firmeza, mas também calma. Novamente, era a imagem do professor.
— Tiernan… – disse, em tom de alerta. Agnieszka pensou sobre a alternativa de derrubá-lo novamente e fugir, mas um outro pequeno grupo de soldados se aproximava pelo corredor, e não seria sábio chamar atenção com eles ali.
— Está bem… – murmurou, com a voz quase toda contida na garganta, e com extremo esforço conseguiu abrir os dedos um a um e deixar Reed pegar a ametista.
— Eu vou alertar a Guarda sobre o Troca-Peles. Obrigado por avisar.
— De nada… – rangeu os dentes.
O soldado saiu pelo corredor e Agnieszka permaneceu no mesmo lugar, os punhos cerrados e a respiração intensa, sem saber o que fazer, enquanto seu tesouro era levado para longe dela. Esperou Reed desaparecer de sua vista, esperou os outros soldados atravessarem seu caminho, esperou até que ninguém estivesse por perto para finalmente demonstrar sua inquietação. Andava de um lado para o outro, sem nunca deixar o local, agitava as mãos e os braços, mexendo nos cabelos e no rosto tentando se concentrar em algo. Por fim, a frustração a venceu, e Agnieszka simplesmente se jogou contra uma das elegantes estátuas de mármore que enfeitavam o corredor, derrubando-a sem cuidado algum. A pesada estátua caiu com um ruído chamativo, e a cabeça se soltou do corpo. O alívio momentâneo não fora suficiente, e Agnieszka pensava seriamente em quebrar outra, quando uma senhora baixinha e atarracada, vestida como uma governanta, apareceu e observou a cena com um olhar horrorizado.
— O que significa isso, senhor? – Ela gritou com irritação, sabendo que Tiernan não era um nobre que poderia puni-la por falar daquela maneira com ele. Porém, por trás do rosto de Tiernan, Agnieszka não se deixou intimidar. Inclinou-se levemente, deixando seus olhos na mesma altura dos da senhora, encarando-a de perto.
— Moça, eu não sou nenhum “senhor”. Meu nome é Tiernan e o rei está me devendo por ter resgatado a princesa, e acredite, é melhor ele me pagar!
— E-eu vou chamar os guardas! – Ela falou, se afastando rapidamente.
— Então é melhor eu sair. Foi um prazer conhecê-la!
Agnieszka voltou a correr. Primeiro buscando se afastar da governanta, não duvidava que ela realmente chamasse os guardas, mas depois Agnieszka se viu sem rumo. O que faria agora? Ela realmente precisava daquela pedra e tinha que recuperá-la de alguma maneira. A pequena joia era única naquele mundo, e os humanos nem percebiam isso. Achavam que era apenas uma ametista. Realmente se parecia muito com uma, mas era uma teranita, e o fato dos humanos não saberem a diferença irritava profundamente Agnieszka. Teria seguido Reed imediatamente para saber aonde a levaria, mas, se ele notasse, acharia suspeito, e Agnieszka preferiu não arriscar. Será que ele devolveria para a sala do tesouro? Mas como ela entraria na sala do tesouro novamente, se não podia mais fingir ser Resia?
Enquanto decidia seus próximos passos, Agnieszka foi surpreendida por um braço que a segurou por trás e uma lâmina apontada para seu pescoço, perigosamente perto da pele. Agnieszka segurou o braço do seu atacante, mas antes que pudesse se soltar, ouviu-o sussurrar:
— Não tente nada. – Era um alerta de Tiernan, o verdadeiro.
— Ah, é você. Olá. – Ela falou com tranquilidade, relaxando o corpo e erguendo as mãos em rendição. Não parecia preocupada, mesmo com o punhal em seu pescoço, e Tiernan não gostou dessa reação. O Azar não acreditava que ele poderia feri-la, se preciso? Ou alguma outra coisa garantia sua segurança, algo que Tiernan não sabia? Por via das dúvidas, Tiernan aproximou a lâmina ainda mais, de modo que qualquer movimento brusco do Azar seria suficiente para feri-la.
— Eu realmente não quero problemas, não quero ser apontado como responsável por ter trazido você para o castelo se algo acontecer, então você vai me dizer exatamente o que está fazendo aqui. – Em resposta, Agnieszka deu um meio sorriso, com um olhar pensativo.
— Hm… Não, não tô afim. Lamento.
— Se você acha que eu não seria capaz…
— Se você vai me matar, melhor se apressar. – Ela interrompeu, com descaso. – A guarda já sabe que há um Azar dentro do castelo, fiz questão de avisar àquele seu amigo, o Reed. Pelo tempo da nossa conversa, não deve demorar para uma ronda de soldados passar por aqui e encontrar nós dois, dois Tiernans em uma discussão tão intensa. E é você quem está com a faca… – Ela sorriu com malícia palpável, e murmurou sobre o ombro para Tiernan. – O que será que os soldados vão pensar?
— Eu não quero te matar! – Argumentou, ignorando a provocação. – Quero conversar. – Isso pareceu deixá-la mais desconcertada do que qualquer ameaça. O Azar franziu as sobrancelhas, sem entender. Antes que ela pudesse dar uma resposta ácida como provavelmente faria, Tiernan mostrou o anel da princesa Resia em sua mão. – Eu vou devolver isso para você. Vamos conversar?
Mesmo que ela agora parecesse disposta a ouvi-lo, Tiernan manteve o punhal à mão. Já não confiava cegamente nas pessoas, com certeza não confiaria nela. Caminharam com pressa para algum cômodo vazio onde pudessem conversar melhor, e entraram em uma sala pequena e abarrotada de prateleiras cheias de livros. Agnieszka entrou primeiro e saltou para a mesa no centro do cômodo, sentando-se sobre ela, e Tiernan fechou a porta ao passar.
— Pelas estrelas, por que você ainda se parece comigo?
— Isso lhe incomoda? – Ela perguntou inocentemente.
— Bastante! Me incomoda bastante! Você pode, sei lá, mostrar como você é? – Em uma demonstração de boa-fé, Agnieszka mudou sua aparência de volta para a mulher de cabelos escuros e rosto zombeteiro que Tiernan conhecera na sala do tesouro. – Essa não é sua aparência real, é?
— Por que acha isso?
— Ouvi dizer que vocês não tem uma aparência muito humana… Eu estava… curioso. É verdade que tem chifres? Eles são mesmo de ouro?
— São perguntas muito invasivas, Tiernan. – Ela fez um muxoxo em desaprovação, sem se incomodar de verdade. Mas Tiernan continuou olhando para ela com curiosidade, esperando. Agnieszka suspirou, impaciente: – Eu não lembro, ok? Vamos mudar de assunto?
— Você não lembra como você era? Não dá só para voltar?
— Assumir essa forma não exige nenhum esforço, como, sei lá, prender a respiração… Não é como se eu pudesse voltar naturalmente, é preciso ter em mente a imagem que eu quero.
O Azar era a criatura mais estranha que Tiernan já imaginara. A explicação não tinha lógica alguma, mas, estranhamente, ele começava a ver sentido naquilo. Afinal, é da natureza dela mudar de forma, então porque ficaria presa à original, como uma âncora? Mesmo assim, Tiernan ainda tinha muitas dúvidas.
— Então vocês têm toda a liberdade pra mudar? E como se reconhecem? Quero dizer, lá onde vocês vivem…
— Muitas outras coisas identificam uma pessoa além da aparência, me admira você perguntar isso! Estou realmente achando que ou os humanos não prestam a menor atenção uns aos outros, ou lhes faltam alguns sentidos… Se prestassem atenção, eu jamais conseguiria enganar vocês. Mas vamos focar no que importa. Você estava para me devolver o anel de Resia.
— Sim, mas eu posso fazer só mais umas sete ou oito perguntas antes?
— Não, Tiernan.
— Certo, certo… Então, veja qual é o acordo: eu vou lhe devolver o anel e você vai continuar fingindo ser a princesa até o rei me pagar pelo resgate e eu desaparecer desse lugar.
Agnieszka esperou pela conclusão ou a contrapartida, mas essa não veio.
— É isso? Não me parece um acordo, acordos são cooperações mútuas.
— Depois disso você pode fazer o que quiser, destruir esse reino até o pó, eu não ligo, mas por favor, continue sendo Resia por um tempo. Eu já tenho problemas demais.
— Eu posso fazer isso… – Ela sopesou. – Mas você vai me ajudar com algo. A joia que eu peguei do tesouro, aquele seu amigo a tirou de mim.
— Eu vi Reed antes de encontrar você. Ele não devolveu a ametista para a sala do tesouro, se é o que quer saber.
— É uma teranita. Bom, eu quero que você a pegue de volta.
— Como…
— Se vocês tiverem noção do que ela é, acho que ele pode ter levado a pedra direto para o rei. Ainda deve estar no quarto dele, pois a corte não se reúne tão cedo.
— Deixe-me ver se eu entendi… – Tiernan suspirou, organizando os pensamentos. – Você quer que eu invada o quarto do rei para buscar algo que pode ou não estar escondido lá? E como você acha que eu vou fazer isso? – Antes que Agnieszka respondesse que o “como” era problema de Tiernan, seus olhos brilharam com estranha empolgação. – Esquece, tive uma ideia.
— Uau. Você é talentoso como dizem – Agnieszka exclamou, surpresa.
— O que… Não, eu não vou invadir o quarto do rei! Eu vou convencer Reed a não entregar a pedra. É, eu acho que isso é possível… Enquanto isso você continua fingindo ser Resia e eu…
— Espera, espera, espera! Como você vai fazer isso?
— Vai ser fácil, Reed é o próprio estereótipo do nobre cavaleiro. Não existe nada no mundo mais previsível do que isso.
— Mas nobres cavaleiros não são conhecidos justamente pela lealdade ao rei?
— Ah, mas tem algo que cativa o tipo dele ainda mais: uma donzela em perigo.
Agnieszka demorou a entender que Tiernan falava dela.
— Posso tentar, mas não sou tão boa nesse papel. – Ela deu de ombros. Não conseguia fingir muito bem essa posição, pois em raras ocasiões tinha se sentido dessa forma. Era um sentimento que não voltava com facilidade para fingir. Apesar de soar um pouco arrogante, Tiernan lembrava-se de ter estranhado o jeito como Resia agia com ele e Reed no dia anterior. Realmente, como donzela em perigo, Agnieszka parecia deixar a desejar…
— Você não vai precisar fingir. Para que precisa da ametista? Vamos enfeitar a história e tudo ficará mais fácil, tanto para você parecer que precisa de ajuda quanto para Reed nos ajudar.
— É uma teranita e eu vou usá-la de âncora mineral para voltar para casa.
— … – Tiernan apenas a encarou em silêncio, arqueando uma sobrancelha por vários segundos seguidos. Por fim, ele abriu as mãos em desistência: – Eu só entendi a palavra “casa”.
— A pedra bonita é um ingrediente para um portal que vai me levar para casa – Agnieszka articulou cada palavra bem devagar, como se explicasse a uma criança ou a alguém que não falava a mesma língua que ela.
— Não custava nada dizer isso logo de cara. Certo, me parece uma história boa o suficiente, não acho que precise enfeitar nada para convencer o Reed. Mas você poderia… sabe… assumir um rosto mais… “ajudável”? – Agnieszka não respondeu, mas seu olhar inquisidor era suficiente para Tiernan perceber que estava pedindo demais. – Ou não. Não precisa, eu acho.
— Espere! – Ela o chamou antes que Tiernan saísse pela porta. – Acho que você deve saber que, se vamos cooperar com esse plano, não temos muito tempo. Eu não posso usar a imagem de Resia para sempre…
— Por que não? Qual o problema? Tem algo a ver com você precisar do anel para tomar a forma dela?
— Tem tudo a ver com isso. É que não dá para aprender a forma de criaturas mortas, só consigo ficar com a forma da criatura se estiver tocando nela e… Você está bem? Parece meio pálido.
— Não, não, não, eu estou ótimo, estou muito bem mesmo! Mas me diz por favor que não foi você quem matou a princesa.
— Não fui eu – respondeu, com um impaciente revirar de olhos que deixou Tiernan ainda mais inseguro.
— E como assim, precisa estar “tocando” nela? Você só usa o anel…
— É, é que eu fiz a joia no topo usando um pouco do cabelo de Resia e…
— Eu acho melhor a gente parar com essa conversa! Minha nossa, eu estou lhe ajudando, o carma vai me atingir como um soco…
— Enfim! Para resumir o que acontece, eu vou imitar o estado atual de Resia, então, a menos que você queira que eu ande por aí como um cadáver animado, é melhor agirmos rápido, enquanto ela ainda parece, você sabe, viva.
Tiernan rangeu os dentes, impedindo-se de sibilar o quanto ele odiava ter conhecido Agnieszka, e tê-la trazido para o castelo. Naquele momento, Tiernan odiava até mesmo o fato de ter nascido! Mas não era hora de pensar, e sim de agir. E quando deu por si, ele e Agnieszka apertavam as mãos em um pacto improvisado, e partiam rumo a diferentes direções, cada um com um papel para desempenhar.
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