Scars Of Love
17 Capítulo 16
Notas iniciais
(Isabella)
Chegada a casa, contei a Simão o sucedido.
— Precisa de ter cuidado, Menina Isabella. Se estivesse com o Petrus talvez fosse melhor.
Senti a raiva a percorrer-me o corpo. Mas falei a Simão calmamente, afinal ele não tinha culpa de nada.
— Simão, não voltes a referir-te a essa ideia. Eu sei muito bem defender-me sozinha. Vou para o meu quarto, se não tens mais nada a dizer.
— Não Menina pode ir.
Subi até ao quarto e deitei-me, acabando por adormecer.
“Isabella… Isabella… vem. Vem ter comigo. Junta-te a mim. Eu nunca te faria o que aquele reles humano te fez. Vem… Vem, Isabella…”
— Não! – gritei.
Olhei para o lado da cama e não vi lá ninguém. Não vi Petrus! Embora ele me tivesse feito o que fez, ele apoiava-me muito naqueles momentos. Recordei-me da primeira vez que Luther me comunicou em sonhos, Petrus tinha estado a meu lado… Agarrei-me aos lençóis e chorei. Até à noite estive entre lágrimas, até Simão me chamar para jantar. Infelizmente, encontrou-me naquele estado e tive de lhe contar o sonho, embora não me apetecesse falar no assunto.
— O caso está a ficar sério Menina Isabella…
— Não te preocupes, eu não irei ceder. Podes deixar-me sozinha, Simão?
— Está bem Menina Isabella. Descanse.
Mal ele bateu a porta comecei a chorar novamente. Sentia uma raiva enorme, não conseguia evitá-lo. Tanto chorava de tristeza como de raiva!
“Nunca mais,” – pensei. “nunca mais nenhum homem me fará o que ele fez! Nunca!”
Enviei uma mensagem à minha mãe dizendo-lhe que estava bem, que não se tinha de preocupar. Eu precisava de uma ocupação, precisava de algo para me ocupar, para não pensar. Foi então que me lembrei: ia ajudar nas tarefas domésticas. Para além de me ocupar, no fundo, pagava a dívida de estar lá tanto tempo. Vesti uns shorts, uma T-shirt e umas sapatilhas, algo leve, para não andar sempre de couro. Fui à cozinha, fui à sala de convívio, fui à sala de almoços e Simão não estava em lado nenhum.
“Aonde é que ele se terá metido?” – questionei-me.
Decidi ir para uma das varandas e esperar por ele. O sol estava a pôr-se, mas não tinha a sua beleza habitual, a meus olhos, parecia um pôr-do-sol triste, com cores esmorecidas. Devido aos acontecimentos recentes, nada me parecia como dantes, nada tinha a mesma alegria, nada tinha o mesmo interesse… Ouvi passos na sala, fui à sala mas não vi ninguém, dirigi-me à divisão mais próxima, a cozinha. Encontrei um rapaz a remexer no frigorífico. Dei conta que todo o meu corpo ficou tenso, os meus braços e pernas ficaram em posição de ataque.
“Mas esta era uma das posições em que o meu primo se colocava!” – pensei.
O meu primo mais velho praticava boxe desde novo e por vezes ia ver os seus treinos e combates. O rapaz, ao sentir a minha presença, olhou para trás com cara de assustado. Os seus grandes olhos cinzentos estavam esbugalhados a observar-me.
“Será que tenho alguma coisa?” – questionei-me, o rapaz estava tão sério a olhar para mim…
— Posso saber o que fazes aqui? – perguntei.
— Desculpa, eu chamo-me Kiba, um amigo de longa data do Simão. Como estava com uma fomeca e o Simão não está cá, decidi comer alguma coisa.
O meu corpo relaxou, o rapaz parecia inofensivo. Mas tinha ficado com uma pulga atrás da orelha: como é que o rapaz era um amigo de longa data do Simão, se ele parecia ter mais ou menos a minha idade? A minha conversa com Simão ia ser mais longa do que o esperado.
— Bem, fica à vontade, eu vou voltar para a sala. – fiquei com a sensação do rapaz me estar a observar, mas não me atrevi a olhar para trás para confirmar. Ouvi a porta dos fundos a abrir-se e fui ver se era Simão que tinha regressado. – Tu sabes esconder-te muito bem, hein Simão?
— Desculpe Menina Isabella, fui esperar um amigo meu mas afinal ele ainda não chegou.
— Ah sim, apareceu aí um rapaz a dizer que era um amigo teu de longa data, não sei se era ele.
— Como é que ele se chamava?
— Kiba. Tinha assim uns olhos muito grandes, cinzentos.
— Ah! Ele já chegou! Esqueci-me totalmente!
— Simão… – como ele não disse nada, gritei. – Simão! – acho que ele ficou um bocado assustado. Bem, mesmo não estando transformada a minha voz tinha um certo poder.
— Está a assustar-me Menina Isabella…
— Não te assustes Simão, não te vale de nada. Eu só acho que estás a fazer uma tempestade num copo de água. O rapaz está na cozinha a petiscar, acalma-te!
“Olha, nem me deu uma resposta!” – pensei.
Desatou a correr para a cozinha parecia um doido! Ainda estive para ir à cozinha e pedir umas explicações, mas não me apeteceu e então fui buscar a minha metade da borboleta de prata e fui novamente para a varanda. Tentei fazer a ligação, mas não consegui.
“Será que aconteceu alguma coisa?” – pensei.
“Não, não aconteceu nada, fica descansada, está tudo bem com os teus pais.”
Senti algo entrar dentro de mim.
“Eu sou o Quinto Elemento, o Espírito.”
“Então isso quer dizer que posso chamar-te quando estiver em perigo?”
“Sim, ajudar-te-ei sempre que precisares.”
A sua voz era doce e calma e toda esta simples conversa foi feita no meu subconsciente. Isso significava que eu controlava um novo Elemento, o Quinto Elemento, como ele próprio se intitulava. O meu telemóvel tocou. Era Ana.
— Então rapariga, que se passa?
— Podes vir-me buscar? Estou no centro comercial.
— Claro, mas passa-se alguma coisa?
— Não, só que não me sinto muito bem…
— Espera por mim à entrada, está bem?
— Sim, eu espero.
Fiquei com macaquinhos no sótão… A Ana não era uma rapariga de ficar doente ou algo do género, muito pelo contrário, estava sempre bem-disposta, era saudável. Fui ao quarto e vesti as minhas roupas de couro.
— Menina Isabella, onde vai?
— Agora não posso Simão, tenho de ir.
Cheguei ao centro em menos de quinze minutos, mas Ana não estava à entrada… Fiquei com a sensação de que algo não estava bem… Estacionei a mota e segui o meu instinto. Dei por mim na parte de trás do centro. Ela estava rodeada por um bando de rapazes. Rapazes… para não dizer outra coisa…
— Ana, anda-te embora. – chamei.
— Olha mais uma amiguinha… junta-te ao grupo. – disse um deles com um olhar malicioso.
O problema é que eles não sabiam com quem estavam a falar. Segui em direção à Ana e um deles tentou a agarrar-me. Não me perguntem como é que eu fiz aquilo. O meu corpo reagiu ao perigo. Com socos e pontapés deitei ao chão o que me tinha agarrado e os outros fugiram com o “rabinho entre as pernas”.
— Ana estás bem?
— Sim, mais ou menos…
— Anda, a mota não está muito longe.
Ela não estava bem, algo se passava, algo que ela não queria contar… Quando chegamos a casa, ela disse que queria ir para o quarto. Eu também fui para o meu mas algo não estava bem. Simão veio ter comigo ao quarto para falarmos, mas nem tempo teve de falar. O quarto transformou-se na caverna de cristais em que me encontrei na minha ascensão. A minha expressão mudou completamente.
“Mas o que é que aquele canalha está aqui a fazer?” – pensei.
Do lado esquerdo da redonda caverna encontrava-se Petrus.
— Menina Isabella tenha calma, não se altere, por favor. – Simão percebeu que eu podia explodir a qualquer momento, mas não o ia fazer.
Fiz uma vénia à minha Rainha que me disse:
— Isabella, vocês os dois estão aqui presentes para terem uma conversa séria à minha frente.
— Minha Rainha perdoe-me a interrupção, mas não penso que isso seja aconselhável neste momento. – disse.
— Petrus começas tu. – a minha Rainha parecia que não tinha feito qualquer caso para o que eu tinha dito.
E o parvalhão lá começou a falar, dizendo que não tinha culpa de nada. Só sabia dizer isso…
— Hum, que fantochada… – disse.
— Isabella, não fales dessa maneira!- disse a minha Rainha.
— Desculpe…
— Podes começar Isabella.
— Não tenho nada a dizer. Tudo o que havia para ser dito já o foi.
— Existe uma coisa que precisas saber, mas vais ter de descobrir por ti própria. – disse a minha Rainha.
— Farei o possível para o fazer.- disse.
Petrus deu dois passos em frente. Virei-me para trás e olhei-o de lado. O meu olhar demonstrava tristeza, mas raiva ao mesmo tempo.
— Isabella perdoa-me!
— Era o mais me faltava, este agora vir pedir perdão. Em primeiro: eu não sou ninguém para perdoar e segundo: à primeira pode-se cair, mas à segunda já cai quem quer. E em último: já te disse para não me dirigires a palavra!
— Menina Isabella, por favor acalma-se! – Simão estava bastante preocupado…
— Não te preocupes Simão, eu estou muito calma… – disse com um sorriso malévolo nos lábios.
— Está a assustar-me Menina Isabella…
— Isabella, eu vou tirar-te essa cicatriz que tens na tua tatuagem. – disse a minha Rainha.
— Não! – disse. – Eu quero ficar com esta cicatriz. Ela vai lembrar-me do que o amor é capaz de fazer…
— Se assim o desejas. – e ditas estas palavras todo o cenário desapareceu.
Sentia-me fraca, por pouco que não caia ao chão, que vale tive tempo para me sentar na cama.
— Menina Isabella sente-se bem?
— Estou Simão, só estou um pouco fraca, nada mais. – Simão ia sair do quarto, mas chamei-o. – Simão, preciso de falar contigo.
— Agora não, a Menina precisa de descansar.
— Teimosia em pessoa… – sussurrei.
— Eu ouvi! – disse ele fechando a porta.
Despi aquela roupa e vesti um pijama, deitei-me. Estava cansadíssima… Mas ainda ia ter aquela conversinha com Simão.
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