Scars
2 Capítulo 1 - Return
Bella POV.
Enigmática. Esta é uma palavra que descreve a minha nova eu, a minha nova personalidade – a personalidade que adquiri desde que tudo aconteceu – perfeitamente. Enigmática ou misteriosa.
O amor que vivi por um ano, a felicidade que eu sentia, foram ocupados pelo sofrimento, pelo ódio. Eu me fechei em meu próprio casulo, em minha própria dor, e agora, depois de nove anos, eu estava de volta.
Quando tudo aconteceu, eu tinha quase dezenove anos. Estava na faculdade, a única que existia em Forks, mas estava indo passar o fim de semana em Manhattan, Nova York... E depois daquele dia, saí de Forks, mal o semestre tendo começado e fui para Oxford, minha válvula de escape.
Cinco anos depois, já formada, eu poderia voltar para Forks, mas não quis. Fiquei quatro anos indo de país em país, de cidade em cidade. Mas estava na hora de voltar.
Suspirei. Nunca pensei que eu retornaria, nunca pensei que eu seria capaz disso. Mas eu sentia falta de meus pais, eram quase nove anos sem vê-los.
Quando desci no aeroporto de Port Angeles, tornei a suspirar. Eu olhei em volta, depois de pegar minhas malas, procurando por minha mãe. Tentei sorrir verdadeiramente ao vê-la, correndo ao seu encontro e a abraçando.
- Oh, minha Bella – sussurrou, apertando-me em seus braços -, eu senti tanto a sua falta.
Olhei-a, sem saber o que dizer. Desde aquele dia, desde tudo aquilo, não consegui mais sorrir. Não verdadeiramente. Tudo o que faço é evitar as pessoas, fugir delas.
Entramos no carro, e eu logo tratei de colocar fones de ouvido. Não queria conversar, só queria ficar sozinha.
Amanhã teria que me levantar cedo, para procurar um emprego. Já trabalhei nas melhores galerias do mundo, então acho que não vai assim tão difícil.
É incrível acreditar que com apenas vinte e sete anos, eu já tenha perdido, sofrido e amadurecido tanto.
Ouvi minha mãe suspirando, mas não lhe dei atenção. Pode parecer que é difícil para ela, ela pode tentar imaginar o que eu sinto, mas ela não pode. É impossível.
Fechei os olhos e só os abri quando paramos em frente nossa casa.
Eu realmente nem conseguia acreditar que havia retornado.
(...)
- Boa noite – murmurei para meus pais, depois de lavar o prato. Meu pai e minha mãe trocaram olhares e me desejaram boa noite. Suspirei, tentando demonstrar cansaço, e segui para meu quarto.
Tudo parecia tão igual! Fechei os olhos, permitindo imaginar que eu estava com quase dezenove anos, e que tudo estava bem. Entretanto, quando abri os olhos, fitei o vazio em minha frente.
Abri minha mala, procurando me distrair, procurando não passar no passado.
- Bella.
Virei-me e vi minha mãe ali, mordendo os lábios. Suspirei. Não queria conversar com ninguém.
- Podemos conversar? – pediu, já entrando no quarto e fechando a porta.
Adiantaria se eu dissesse não?
Minha mãe olhou-me, sem se aproximar muito.
- Bella, eu não aguento mais – disse. – Você não deu um sorriso verdadeiro desde que chegou... Eu sei que é difícil, mas...
Não. Abaixei a cabeça e tornei a suspirar. Ninguém sabe como é difícil.
- Com o tempo a dor vai diminuir, filha – sussurrou. Ela viu que eu não disse nada, e suspirou. – Vou te deixar sozinha. Chame-se se precisar.
Mamãe se aproximou de mim e me deu um beijo, antes de sair do quarto.
As lágrimas rolaram antes que eu me desse conta disso. Eu precisa desabafar, precisava...
Peguei o diário que comecei um ano antes de tudo acontecer, e o abri.
Terça feira, 10 de agosto de 2010.
Não sei até quando vou agüentar. Não sei até quando. Todos dizem que com o tempo a dor vai diminuir, que tudo vai ficar bem, mas não vai.
Já se passaram quase nove anos. E a cada minuto que passa a dor se torna cada vez pior, como se me sufocasse, como se me tirasse a cada minuto a vontade de viver.
Eu vivo imaginando que essa será a última vez que respirarei, a última vez que verei meus pais. Eu tento sorrir quando os vejo, tento. Mas não dá. É mais forte do que eu.
Não queria voltar para cá; lutei contra isso desde que terminei a faculdade, mas eu amo meus pais, eles não têm culpa nenhuma do que aconteceu.
Parei de escrever, encontrando-me mais calma. Fechei o diário, escondendo-o debaixo do travesseiro, e segui até o banheiro. Eu realmente precisava de um banho quente.
Edward POV.
Férias. Minhas tão merecidas férias. Dois anos trabalhando direto no hospital de Forks, e finalmente meu pai me convenceu a tirar férias. Gosto do meu trabalho demais para ficar pedindo férias, enquanto meus pacientes precisam de mim.
Serão dois meses em casa, dois meses à toa. Suspirei.
- EDWARD!
Revirei os olhos e saí do meu quarto, descendo as escadas de minha casa rapidamente, para ver o que minha irmã baixinha queria.
- Oi, Alice – cumprimentei-a, sorrindo. – Oi, Jazz, Rose e Emmett.
Alice sorriu e olhou para Rose e Emmett, que também sorriam. Jasper riu do nervosismo aparente de Rose.
- O que aconteceu? – indaguei-os.
- Rose e Emmett têm que dar uma notícia – Alice disse. Olhei para Rose e Emm, imaginando o que eles poderiam querer dizer.
- Estou grávida! – Rose disse, sorrindo.
Sorri imensamente, vendo que meus pais quase gritaram de tanta emoção. Emmett estava casado há dois anos, pensei que eles nunca iriam arrumar um filho. Abracei meu irmão e minha cunhada, desejando felicidades.
- Quantos meses? – mamãe perguntou, sorrindo.
- Dois – Emmett disse. – Rose estava desconfiada há alguns dias, mas só me contou ontem, depois de pegar o resultado do exame de sangue e ir ao obstetra.
- Você é o próximo, Edward – Alice disse, rindo da minha cara. Revirei os olhos para ela, sem realmente acreditar que ela estava dizendo aquilo.
- Não – bufei. – Só tenho vinte e oito anos.
- Emmett tem vinte e nove – disse. Ninguém prestava atenção na nossa conversa, todos paparicavam Rose e a felicitavam. – E eu também tenho vinte e oito. Até eu já sou casada, Edward. Você só fica namorando e nunca casa.
Revirei os olhos, dando de ombros.
- E então – disse eu, tentando mudar de assunto -, como vai a galeria?
- Vai bem – sorriu. – Amanhã terei que entrevistar umas pessoas, porque simplesmente não aguento mais cuidar de tudo aquilo sozinha. Ter a única galeria da região e ter a melhor, tem lá suas qualidades.
- Vai dar certo – pisquei. – Se precisar de ajuda com alguma coisa, ou algo do tipo, conte comigo. Papai resolveu que eu precisava de férias, e me obrigou a ficar dois meses longe do hospital. Não sei se vou agüentar, mas vou fazer o possível.
Conversei por mais alguns minutos com Alice, e fomos jantar. Depois de um tempo, todos voltaram para suas casas, ficando apenas eu, meu pai e minha mãe aqui. Desejei boa noite aos dois e subi para o meu quarto. Fui até o banheiro, tomei um banho relaxante e mal deitei na cama e estava dormindo.
Bella POV.
- Não! Por favor, não! – gritava eu desesperadamente, sem conseguir acreditar que tudo aquilo tinha sido verdade. – Diz para mim que é mentira, por favor...
Abri os olhos, ofegantes, enquanto lágrimas escorriam de meus olhos. Meu corpo tremia, como toda noite. Eu sonhava a mesma coisa tinha nove anos. Nove anos.
Olhei para o relógio, vendo que se passavam das sete da manhã. Tudo bem que eu iria acordar somente daqui uma hora, mas eu sabia que não seria mais capaz de dormir.
- Bella?
Mordi os lábios, percebendo que eu ainda tremia, e que lágrimas escorriam de meus olhos.
- Está tudo bem, pai – menti. – Vou tomar um banho e já desço.
Levantei-me e corri para o banheiro. As lágrimas ainda estavam escorrendo e eu senti toda aquela dor me invadir com força. Liguei o chuveiro e, trêmula, comecei a tirar meu pijama de frio.
Depois de me despir, abri a porta do armário e retirei uma toalha pequena. Desenrolando-a, vi a lâmina, já tão conhecida por mim. Os cortes do meu pulso ainda não estão totalmente cicatrizados, mas nunca me importei com isso. Não me corto para morrer, corto-me apenas para lidar com a dor.
Os soluços vieram altos e fortes, e eu continuei chorando enquanto pressionava a lâmina em meu pulso, deixando o sangue fluir e o corte começar a doer e a arder. Sei que é errado, que eu deveria procurar alguma ajuda, mas cortar é a única coisa que alivia a dor. A dor física ajuda-me a superar a emocional. Pode parecer loucura, mas eu não aguento mais fingir que tudo está bem.
Alguns minutos depois, os soluços cessaram, e senti-me mais tranqüila, mais relaxada. Limpei a lâmina e tornei a guardá-la, enrolando-a na toalha e colocando no armário. Lavei o corte, sentindo-o arder e pinicar.
Depois entrei debaixo do chuveiro, deixando a água quente relaxar-me, deixando, principalmente, que caísse eo meu pulso. Ele dói, mas eu sei que agora vou me sentir bem por horas ou dias.
Depois de tomar banho, sequei meus cabelos e me arrumei, escolhendo uma boa roupa para a entrevista. Maquiei-me e separei algumas coisas e as coloquei em uma bolsa. Depois de pronta, segui para a cozinha, onde meus pais me esperavam para tomar café da manhã. Tentei manter uma conversa animada, sem obter muito sucesso.
- Vou indo – disse. – Tchau, pai, tchau, mãe.
Eles abriram a boca para dizer alguma coisa, mas eu saí de lá o mais rápido que pude.
(...)
Cheguei a galeria, percebendo que estava cheia. Respirei fundo, e me sentei em algum lugar ali, torcendo para que não demorasse. Examinei o local, reparando no quanto era bonito e de bom gosto.
Já se passara da hora do almoço quando chegou a minha vez. Levantei-me, quando me chegaram, e segui para a sala.
Sentada à mesa, estava uma mulher de cabelos escuros e olhos verdes. Ela sorriu para mim, e eu retribuí com o sorriso profissional que eu aprendi a fazer.
- Sente-se, por favor, Srta. Swan – a mulher disse. Sentei-me, esperando que ela terminasse de avaliar o currículo. – Por que se interessou nessa galeria? – perguntou, por fim.
- Procuro um lugar no mercado, que seja próximo de minha família – disse. – Já trabalhei nas melhores galerias do mundo, e recebi ótimas recomendações daqui.
- Sim, vejo que seu último trabalho foi em Paris – sorriu, mas eu não retribuí.
Ela me fez mais algumas perguntas, e disse que logo entraria em contato comigo. Assenti. Levantei-me para sair da sala, mas ela tornou a me chamar.
- Você foi a melhor que entrevistei – admitiu. – Então, acho que não será necessário te ligar. Pode vir aqui amanhã, para conversarmos sobre seu trabalho?
- Sim, posso – respondi, sem demonstrar qualquer emoção. – Estarei aqui amanhã, no mesmo horário. Tenha um bom dia.
- Espere!
Virei-me novamente e a mulher tinha se levantado. Só assim notei o quão ela era baixa.
- Sou Alice Hale – disse, estendendo a mão. Apertei sua mão, tentando imaginar o que ela ainda tinha para falar comigo. – Não gostaria de almoçar?
- Algo sobre o trabalho? – indaguei.
- Não, apenas almoçar – sorriu, simpática. Respirei fundo.
- Não, obrigada – disse, firme. – Desculpe-me, mas tenho muita coisa para fazer.
Virei-me e saí dali, antes que ela tivesse a oportunidade de me chamar novamente. Pude ter sido grossa, mas eu não iria me aproximar das pessoas, não iria mesmo.
Edward POV.
Como eu havia imaginado, o dia foi longo e tedioso. Queria ir para o hospital. Meus pacientes precisavam de mim, e ficar o dia inteiro deitado em casa, fazia com que eu me sentisse um inútil. Desci para o jantar quando Alice e Jasper chegaram. A baixinha foi logo comentando sobre o dia.
- Contratei uma mulher hoje – disse.
Meus pais, eu e Jasper, passamos a prestar mais atenção na conversa dela. Era o primeiro dia que ela procurava alguém, e já tinha contratado?
- Já? – Jasper indagou-a. – Amor, acho que deveria passar mais alguns dias procurando, sabe?
- Eu pensei nisso no início – riu -, mas quando o vi o currículo dela e sua expressão... Ela já trabalhou nas melhores galerias do mundo!
- Sério? – ri. – O que ela faz nesse fim de mundo?
- Parece que tem família aqui – deu de ombros -, mas não sei. Ela não me pareceu o tipo de pessoa que gosta de fazer amigos, o que é uma pena. Eu realmente gostei dela.
- Tem o currículo dela aí, querida? – mamãe perguntou. – Assim podemos ver a foto¹ e o nome, e eu e sei pai podemos dizer se a conhecemos.
Alice sorriu.
- Sim, vou pegar minha pasta. Sorte que eu vim para cá direto depois do trabalho...
Ela saiu da sala de jantar e voltou minutos depois, entregando o currículo da moça para minha mãe.
- Ah, ela é parente dos Swan – sorriu. – Boa família.
Meu pai pegou o currículo e o analisou.
- Esme – murmurou -, é Isabella Swan.
- Ela é bem bonita – Alice disse, sem parecer notar os olhares aflitos de meus pais.
- Algum problema com ela? – perguntei, pegando o currículo. Vi sua foto. Era 3x4, então não dava para analisar muito bem, mas sua expressão era fria. Olhei seus olhos; eles eram castanhos e pareciam... perdidos. Li seu currículo, e fiquei realmente impressionado. Não entendo nada de designer, mas ela realmente parecia boa no que faz.
- Não – mamãe disse, rapidamente. – Fez uma boa escolha, filha.
Não entendi a reação de meus pais, mas decidi ignorar. Eu podia ver bem os olhos de Isabella e me senti preso neles, mesmo o castanho sendo uma cor muito comum. Os olhos de Isabella pareciam frios, distantes...
Havia algo errado. Parecia loucura pensar nisso. Eu nem devia ligar. Talvez ficar à toa por um dia, já tenha afetado-me. Por que eu iria prestar atenção em uma garota que nunca vi? Talvez eu só tenha ficado interessado, pelo medo que meus pais reagiram. Como se ela tivesse um grande segredo, como se ela fosse um mistério.
Deitei-me cedo naquela noite, tentando entender por que fiquei tão interessado em uma garota que nem conheço. Respirei fundo, perguntando-me por que eu não conseguia me esquecer de sua expressão.
Eu devia mesmo estar ficando louco.
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Foto em currículo: Geralmente isso não é necessário; apenas se o contratante exigir
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