Scars
3 Capítulo 2 - Known
Notas iniciais
Bella POV.
Eu observava a tudo e a todos, sem conseguir proferir qualquer palavra que fosse, enquanto recebia abraços e palavras de consolo. Não queria estar ali. Não queria, porque estando ali, eu presenciava que tudo era verdade. Eu presenciava que tudo realmente tinha acontecido.
Não consegui chorar, como achei que conseguiria. Já chorara demais desde tudo acontecera, e as lágrimas finalmente secaram, deixando somente a dor.
E eu sabia que teria que conviver com ela por algum tempo. Só ficava me perguntando quanto.
- Bella – sussurrou mamãe. Eu a olhei, esperando que ela dissesse alguma coisa. – Querida, está na hora.
Respirei fundo. Estava na hora de admitir que era o fim.
O despertador soou alto, e eu pulei da cama. Percebi como estava suada, e como as lágrimas escorriam pelos meus olhos. E, pior, percebi como tremia. Meu coração martelava no peito de tanta dor. Ainda trêmula, segui para o banheiro, tranquei a porta, liguei o chuveiro e peguei a lâmina já tão conhecida por mim.
Os soluços cessaram alguns minutos depois, quando o sangue já fluía pelos cortes. Respirei, aliviada, quando a dor em meu peito se acalmou, e eu me encontrava mais calma. Tomei um banho quente, deixando a água bater no meu pulso esquerdo. Era raro eu usar o direito; era com a mão direita que eu escrevia, a mão direita era a que eu mais usava, então corria o risco de alguém ver meu pulso direito com mais facilidade. Meu pulso esquerdo já não encontrava mais nenhuma resistência à lâmina.
No começo, eu não fazia isso. Frequentei um psicólogo por quatro anos, mas não adiantou. Drogar-me também não me pareceu uma boa opção, então descartei um psiquiatra. Tentei de tudo: estudar igual a uma doida, trabalhar muito, sair, beber... Nada. Até eu começar a me cortar.
No começo, pareceu loucura, mais do que parece hoje, mas quando eu senti o alívio... Quando senti o alívio que eu busquei por tanto tempo com profissionais, mudando de um psicólogo para o outro... Quando senti a dor for embora, nem que fosse por algumas semanas, dias e horas... Tornou-se uma rotina.
Saí do banho e me vesti, passando maquiagem nos cortes de meu pulso esquerdo e colocando um bracelete lá também. Depois de pronta, desci e saí de casa, sem ligar para o fato de meus pais estarem me esperando para o café. Eu podia mentir para eles que eu precisava ficar sozinha, mesmo estando sozinha já há muito tempo. Segui calmamente até a galeria, que não ficava muito longe da casa dos meus pais. Forks sempre me atraiu por ser um lugar pequeno e acolhedor; hoje, daria tudo para a minha família querer mudar daqui, mesmo sabendo que a dor me acompanharia onde quer que eu fosse. Talvez, eu sempre pensara, a dor fosse menos intensa, não vivendo aqui, onde vivi por quase dezenove anos. Nesses nove anos, os cinco primeiros estudando, e os outros quatro trabalhando nas melhoras galerias do mundo, a dor diminuiu.
Forks sempre me traria as lembranças, os bons momentos... Sempre me traria tudo aquilo que desejei esquecer. Respirei fundo, vendo que eu chegara a galeria. A Sra. Hale já se encontrava ali, e me recepcionou amigavelmente.
Discutimos durante a manhã sobre a galeria.
- O expediente começará que horas, Sra. Hale? – indaguei-a, depois de assinar tudo o que tinha para assinar.
- Às oito da manhã – sorriu. – E me chame de Alice, por favor.
- Desculpe-me, mas eu realmente prefiro não misturar o profissional com o pessoal – disse.
Ela pareceu envergonhada, mas não liguei. Não posso me aproximar das pessoas, não posso. Simplesmente... não posso.
Dali em diante só tratamos de assuntos profissionais. Às vezes, a Sra. Hale lançava olhares para mim, querendo puxar assunto, mas eu sempre retornava a falar de trabalho.
Não quis ir para casa almoçar. Tudo bem que eu não tomara café da manhã, então comprei uma barra de cereal qualquer. Assim que meu expediente acabou, despedi-me friamente da Alice e segui para casa.
Edward POV.
Eu não agüentava mais ficar em casa. Minha mãe ficou o tempo todo rindo de mim, enquanto eu reclamava que não pretendia tirar férias agora. E então, lembrei-me daqueles orbes castanhos. Lembrei-me como eles pareciam frios, doloridos...
- Mãe – chamei-a. Estávamos na cozinha. – Desde quando você conhece os pais daquela garota que a Alice contratou?
- Ah – sorriu -, na época que nos mudamos para cá. Você, Emmett e Alice estavam na faculdade, por isso não os conhece.
- E você e o papai conhecem a tal da... – Fingi tentar me lembrar do nome. – Isabella?
- Não pessoalmente – suspirou. – Quando nos mudamos para cá, há sete anos, ela estava na faculdade também.
- Hm...
Eu queria entender o motivo de minha mãe e meu pai terem agido daquela forma ontem. Como se soubessem algo da Isabella que quase ninguém sabia. Mas eu não podia perguntar; tinha certeza que minha mãe não me diria.
- Bom, já está anoitecendo – disse eu. – Vou fazer uma caminhada por aí, mãe.
- Ok, querido – sorriu e eu dei um beijo na testa dela. – Não demore, por favor. Teremos convidados essa noite.
Assenti. Coloquei uma roupa própria para caminhar e saí de casa. Por algum milagre divino, o clima em Forks não estava tão gelado como costuma ser. Respirei fundo, sem entender por que eu não conseguia tirar aqueles olhos de minha mente.
Bella POV.
Cheguei a minha casa e troquei rapidamente de roupa. Precisava caminhar, como sempre fiz, para espairecer. Coloquei uma roupa própria para caminhar e desci as escadas. Minha mãe me encarou.
- Vai sair, querida? – indagou-me.
- Sim – suspirei. Era estranho não saber o que conversar com os próprios pais. – Não me espere para jantar, ok?
- Eu e seu pai iremos jantar fora – disse, sorrindo para mim. – Queríamos que viesse com a gente.
- Outro dia – murmurei. – Tchau.
Ouvi-a suspirar pesadamente, mas não liguei. Saí pelas ruas de Forks, ora correndo, ora caminhando. As lágrimas já queriam escorrer de meus olhos, quando vários flashes invadiram minha mente, mas eu os ignorei. Eu tinha que me esquecer, tinha...
Estava tão distraída que não percebi quando um corpo trombou no meu. Eu teria ido para o chão com o impacto, mas mãos fortes seguraram minha cintura. Olhei para cima, para ver quem era, e estremeci.
Seus orbes eram do mais profundo verde. Duas esmeraldas que brilhavam intensamente. Seus cabelos totalmente bagunçados, de uma cor que eu nunca vira. Uma estranha cor de bronze. O rosto que parecia ter sido esculpido por anjos...
- Você está bem? – A voz rouca penetrou meus ouvidos, e um arrepio percorreu meu corpo. Afastei-me dele, escondendo meu pulso. Droga! Por que eu me esqueci de colocar alguma coisa aqui?
- Sim – disse, sem encará-lo nos olhos. – Obrigada, tenho que ir.
Virei-me, pronta para ir embora.
Edward POV.
Eu estava caminhando há um bom tempo, quando trombei com alguém. Segurei a cintura, para impedir que a pessoa caísse, e congelei.
Os orbes castanhos que não saíam de minha cabeça estavam ali. Eu sempre fui bom em ler as expressões das pessoas, mas não conseguia entender essa mulher. Os olhos frios, gélidos, sofridos... O rosto sem demonstrar qualquer expressão... O corpo colado ao meu, perfeitamente desenhado. Ela era linda.
- Você está bem? – indaguei-a. Ela se afastou de mim, desviando seus olhos. Não, eu queria entender, queria compreender... Inferno! Por que eu estou ligando tanto?
- Sim – disse ela. Ela tinha uma voz linda. – Obrigada.
Ela se virou, parecendo querer sair dali o mais rápido possível, mas eu segurei seu pulso esquerdo. Ela puxou seu braço rapidamente, e se encolheu... Como se eu tivesse apertado um machucado.
- Desculpe-me – disse eu. – Sou Edward Cullen.
Eu já sabia que ela se chamava Isabella Swan, mas eu realmente queria que ela me dissesse. Ao contrário do que pensei, ela apenas acenou e correu dali.
O que tinha de errado com essa garota?
(...)
Corri para casa. Tomei um banho quente e relaxante, tentando entender aquela garota, tentando entender por que ela era daquele jeito. Tão fria, tão distante... Lembrei-me do jantar que minha mãe daria aqui, e arrumei-me. Quando estava pronto, ouvi batidas à porta de meu quarto.
- Edward – disse Alice -, abra, preciso falar com você.
- Pode entrar, Alice.
Tentei domar meus cabelos, mas desisti quando ouvi o riso de Alice.
- O que foi, pequena? – indaguei-a.
- Eu quero fazer amizade com a Isabella, Edward – murmurou. – Mas ela não quer! Eu pedi que ela me chamasse de Alice, e sabe o que ela disse?
Neguei com a cabeça.
- Disse que prefere não misturar o profissional com o pessoal – suspirou.
– Eu não vou desistir. Vou fazer amizade com ela ou não me chamo Alice!
Acabei rindo. Não comentei com ela que eu também encontrei a Isabella, e como aquele olhar dele me deixou totalmente curioso.
Eu devia estar ficando louco.
(...)
O jantar correu de forma tranqüila e agradável. Conheci os pais de Isabella, mas ela não veio. Charlie e Renée disseram que ela saiu para caminhar.
- Sinto muito, Esme – Renée disse, suspirando pesadamente.
Eu estava a caminho da cozinha, e os pais dela conversavam com os pais. Parei um pouco, ouvindo a conversa.
- Tudo bem, Renée – mamãe disse. – Ela está passando por uma situação difícil, acabou de voltar...
- Nós sabemos – Charlie disse, parecendo nervoso. – Só que eu me sinto um imprestável. Bella freqüentou psicólogo por quatro anos, mas parece que não adiantou. Não sei mais o que fazer...
- Deem tempo para ela – minha mãe tornou a dizer. – Quem sabe ela não encontra uma pessoa?
- Eu rezo todas as noites, Esme – murmurou a mãe de Bella. – Rezo todas as noites para Bella encontrar alguém e viver novamente.
Escutei mais um pouco da conversa, mas meu pai mudou se assunto. Respirei fundo. O que Isabella poderia ter, afinal?
Bella POV.
Cheguei a minha casa tremendo. Nunca corri tanto em minha vida. Não queria me aproximar de ninguém, e tinha medo que o tal do Cullen quisesse puxar assunto. Tomei um banho relaxante e coloquei meu pijama. Deitei-me na minha cama, respirando fundo. Eu precisava descansar.
As estradas estavam cheias. Saco! Eu queria chegar logo lá. Eu precisava saber que era mentira, precisava ouvir que era mentira, que eu estava enganada.
E, então, ouvi a notícia. Ouvi a notícia que me fez perder o controle do carro. Ouvi a notícia que mudou completamente minha vida.
Acordei assustada, tremendo violentamente. Ainda não era nem onze da noite, provavelmente meus pais ainda não estavam em casa.
Eu teria que tomar outro banho, não iria conseguir dormir assim. Eu precisava tirar essa dor, precisava me cortar.
Fiz o ritual já tão conhecido por mim, e parei de tremer assim que vi o sangue fluindo pelos cortes. Mais calma, voltei para o quarto, e peguei meu diário.
Quinta feira, 12 de agosto de 2010.
Consegui arrumar o emprego. Acho que no fundo, sempre desejei não conseguir, porque assim eu poderia ir embora daqui de Forks. Mas meus pais precisam de mim...
Quero entender por que eu sonho com tudo desde que aconteceu. Quero entender por que não consigo esquecer. Quero entender, quero compreender.
Quero, principalmente, que um dia eu consiga superar, que um dia eu possa sorrir verdadeiramente, que eu posso me sentir bem. Não precisa ser agora, mas já se passaram quase nove anos...
- Bella?
Guardei o diário rapidamente e me joguei na minha cama, ao ouvir a voz de minha mãe. Fechei os olhos, desejando dormir.
Ouvi a porta do quarto ser aberta, mas não abri os olhos.
Senti a cama afundar um pouco.
- Eu rezo por você todas as noites, querida. – Escutei-a sussurrar. – Rezo para que você consiga superar, viu? Eu te amo tanto, Bella, eu não aguento mais te ver sofrer. Eu me sinto tão mal por não saber o que te dizer para te consolar...
Segurei a vontade de abrir os olhos e chorar. Segurei a vontade que eu tinha de falar com minha mãe tudo o que eu sentia. Ninguém entende, ninguém entenderia.
- Durma com os anjos, meu amor. Eu te amo.
Minha mãe me deu um beijo na testa e se levantou. Escutei a porta do quarto se fechar e abri os olhos.
Quando que eu poderia tirar essa dor horrível de mim, Deus? Quando?
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