Scars
3 I still think you're beautiful.
Notas iniciais
Na sexta-feira, Kurt chegou cedo ao colégio para tentar evitar o time de futebol no caminho até o seu armário. Mas, isso não funcionou. Porém, por sorte, Azimio o empurrou bem em direção ao seu armário.
"Bem, é um começo." Pensou Kurt.
Ele estava se levantando, sentindo uma dor imensa em seu ombro esquerdo, quando viu um garoto com gel de cabelo (até demais!) cobrindo seus cachos, olhos castanhos e sombrancelhas triangulares o encarando. Blaine.
"Hey." Ele disse, quase em um sussurro. Na voz de Blaine, Kurt conseguiu sentir a pena que o mais novo estava sentindo dele e se contendo ao máximo para não ajudá-lo a levantar-se. "Você entrou! Mr. Schue e Rachel disseram que se impressionaram muito com a sua audição."
"Obrigado, mas eu recuso o convite." Foi tudo o que ele disse, abrindo seu armário para checar as aulas de seus primeiros horários.
"Rachel te convenceu a fazer a audição, certo?" Blaine tentou falar com um pouco de humor, mas Kurt apenas concordou com a cabeça, sem mexer os lábios. "Kurt, olhe, eu não quero me intrometer na sua vida já que eu nem te conheço, mas... Por quê? Por que você se isola desse jeito e-"
Kurt bateu a porta de seu armário com força, fechando-o e direcionou seu olhar frio a Blaine.
"Você não iria querer saber."
"Tente." Blaine falou. Depois de um longo silêncio, continuou: "Kurt, eu não acho que você tenha um problema. Mas, eu percebo algo diferente em você e mesmo não te conhecendo, todos nós gostaríamos da sua presença no Glee club. Sempre recebemos pessoas novas de braços abertos. É isso o que famílias fazem."
Kurt não respondeu. Então, Blaine continuou:
"Tente vir a um ensaio. S-só um. Eu posso falar com Mr. Schue, avisando que é só um 'ensaio experimental' para você."
"Quando?" Kurt perguntou com a voz super baixa.
"Qual é o seu segundo horário?"
"Horário livre."
"Ótimo!" Blaine sorriu."E o primeiro?"
"Francês." Disse Kurt, começando a andar pelo corredor, se dirigindo à sala. Blaine o seguiu.
"O meu também! Assim, posso te falar tudo sobre o Glee club."
Kurt não conseguiu acreditar que alguém estava sendo tão gentil com ele.
"Provavelmente é um truque, Kurt." Sua mente continuava repetindo. "Não confie muito nas pessoas. Não se abra para elas."
Kurt tentou ouvir sua mente e seus monstros interiores. Ele realmente tentou. Mas, ele falhou. Entretanto, isso não era uma novidade, já que Kurt falhava em quase todos os aspectos de sua vida.
Ele nunca mais foi o mesmo após um certo Blaine Anderson acontecer. Claro, existem hábitos que nunca mudam, mas quando um alguém especial entra em sua vida, você sempre faz de tudo para agradar a essa pessoa. E Blaine sempre desejou o melhor para Kurt.
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"Então, pessoal, esse é Kurt e ele vai ensaiar conosco hoje. Caso você goste..." Mr. Schue se virou para Kurt. "Seja bem-vindo!"
Kurt deu um pequeno sorriso quando vários o aplaudiram, não verdadeiro, mas era um grande começo. Ele se sentou em uma cadeira, no fundo da sala do coral, ao lado de Blaine, que parecia super grato por Kurt ter concordado em participar de um dos ensaios.
A sala do coral estava afundada em barulhos de conversas por cinco minutos, antes de Mr. Schue interrompê-los, avisando que as seletivas seriam em duas semanas e por isso haveria ensaios todos os dias da semana até lá e eles teriam a tarefa de apresentar duetos durante essas semanas, pois esses seriam os mais focados na competição.
"Vocês chegaram até as Nacionais no ano passado?" Kurt se inclinou no momento em que todos estavam se juntando a seus pares para sussurrar para Blaine.
"Não..." Ele respondeu com desânimo em sua voz. "Nem conseguimos passar das Seletivas."
"Ah. Sinto muito..."
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Para falar a verdade, Kurt adorou o coral. Antes de tocar o sinal, todos fizeram uma performance de "My Life Would Suck Without You", o que fez ele se perguntar como o New Directions não conseguiu chegar às Nacionais no ano passado e também o fez perceber que todos naquela sala realmente eram uma família, fazendo-o pensar que ele não era bom o suficiente para eles. Esse sempre é o tipo de pensamento daqueles que se auto-mutilam. Os pensamentos de que você não é bom o suficiente para ninguém e de que ninguém merece a sua presença continuavam batendo em sua cabeça, o lembrando disso. Assim como suas cicatrizes o lembravam o tempo inteiro.
Mas, eles logo foram embora quando Blaine o alcançou no corredor.
"Kurt!" Kurt se virou rapidamente, levando um susto por achar que seria um atleta. Ele deveria ter sabido que atletas do McKinley nunca o chamariam por seu primeiro nome. Ele estava começando a se acostumar a ter medo de andar por aqueles corredores.
"Você gostou?" Blaine perguntou.
Kurt não sabia o que responder. Ele realmente se sentiu bem e especial naquela uma hora que ele tinha passado na presença do Glee club.
"Sim." Ele murmurrou. "E-e se vocês ainda quiserem, eu adoraria me juntar ao coral."
O rosto de Blaine se iluminou, o que fez Kurt sentir uma ponta de alegria. Então, Blaine o abraçou. Aquele tipo de abraço que significa o começo de algo. Uma amizade?
"Não, eu não posso..." Kurt tentava se lembrar, mas ele se perdeu completamente quando Blaine o soltou, se despediu dele e foi embora.
"Alguma amizade pode funcionar bem este ano, se eu me lembrar de não me abrir demais." Ele pensou.
Infelizmente, Kurt estava acostumado a entender que coisas boas não aconteciam com ele. Ele era um garoto que não estava acostumado com qualquer pessoa o tratando bem. Ao invés disso, estava acostumado a não ser amado. Ele era um alguém que não se sentia bem ao chorar ou ser frágil -o que ele realmente não era, só aparentava ser- em público.
Ou seja, ele era um menino totalmente diferente antes de Blaine invadir completamente sua vida e seu coração.
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Kurt e Blaine se aproximaram muito ao longo daquela semana, principalmente por causa do Glee club. Claro, Blaine ainda não conhecia Kurt por completo, mas a melhor coisa era que ele sempre reconhecia facilmente quando os sorrisos dele demonstravam alegria de verdade ou apenas dor e tristeza.
E no fundo, ele sabia que Kurt escondia algo. Algo debaixo de mangas compridas e sorrisos falsos. Era assim que ele vivia a sua vida, se escondendo do mundo e de si mesmo por ter medo do que os outros iriam pensar e por ser inseguro sobre ele.
Uma semana depois de Kurt se juntar ao coral e ter começado uma amizade com Blaine e algumas outras pessoas, como Rachel e Mercedes, Blaine decidiu perguntar se Kurt gostaria de cantar um dueto com ele para a tarefa do Glee club. Ele sabia que a resposta seria um grande "NÃO!" , já que Kurt era bem tímido e odiava sua voz, assim como tudo em si mesmo. Mas, não custava nada tentar!
Então, ele se dirigiu ao armário de Kurt no momento em que o último sinal do dia, indicando o fim das aulas, tocou. Blaine se encostou no armário dele e esperou.
Ele esperou por vinte minutos e Kurt não aparecera. Blaine começou a ficar preocupado ao reparar que o colégio estava se esvaziando totalmente e Kurt nem tinha respondido a sua mensagem perguntando onde ele estava. Ele sempre se preocupou com Kurt, mesmo antes de se conhecerem.
Quando ele avistou Kurt virando o corredor, indo em direção ao armário. Nesse momento, o corredor já estava deserto. Tinham lágrimas em seus olhos e...aquilo eram manchas de sangue nas mangas compridas de sua blusa? Ele estava mancando.
Quando Blaine percebeu tudo isso, ele correu até Kurt e perguntou o que havia acontecido. Ele não respondeu, apenas desabou em lágrimas, literalmente, encostando suas costas contra armários e deslizando até o chão.
Blaine se sentou ao lado de Kurt. Quando ele conseguiu se recuperar, o outro garoto ainda estava lá. Ele olhou em seus olhos, cheios de tristeza e uma ponta de raiva, e falou seriamente:
"Diga-me o que aconteceu, Kurt."
"C-como você consegue?" Ele surpreendeu Blaine ao perguntar isso. "Como você consegue ser tão forte e aguentar tudo... isso?"
Blaine não fazia ideia do que responder. Ele deu um longo suspiro e falou:
"Eu acredito em mim. Isso me dá suporte e apoio... acreditar que vou sair daqui algum dia e viver os meus sonhos. E se você acha que é fraco, Kurt, acredite em mim: você não é." Seus olhos se iluminaram ao falar isso. "Você tem que me contar o que fizeram com você dessa vez, Kurt... Por que você estava mancando e p-por que há sangue em sua manga inteira?" Blaine pegou na sua manga comprida, provavelmente se preparando para levanta-lá quando Kurt puxou seu braço rapidamente e gritou:
"NÃO!"
Blaine deveria ter se assustado, porque logo em seguida, falou, quase em um sussurro:
"Me conte. Tudo. Por favor, Kurt." Ele disse, deixando bem claro o que ele quis dizer ao pedir "tudo".
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FLASHBACK ON
Kurt estava saindo de sua última aula, conversando com Rachel, na verdade, ouvindo o que Rachel tinha para falar, quando alguns atletas do time de futebol americano -incluindo Karofsky e Azimio- , o empurraram até uma sala pequena, escura e cheia de materiais de limpeza. A sala era tão pequena que Kurt se perguntou como quase o time inteiro de futebol americano estava lá, já que todos eram enormes.
"Ouvimos dizer que você entrou para o Coral dos Perdedores, Hummel." Falou Azimio.
Então Kurt fez algo do qual ele se arrependeu. E se arrependeu muito. Ele teve coragem e enfrentou alguém pela primeira vez em sua vida.
"Por que vocês o chamam de Coral dos Perdedores? Melhor ser um 'perdedor' do que reprovar em quase todas as matérias!" Kurt se sentiu bem ao dizer isso. Mas esse bem-estar logo passou no segundo seguinte, quando vários jogadores começaram a socá-lo até que ele não conseguisse sentir seu estomâgo e suas pernas ficassem bambas.
Eles saíram, deixando Kurt sozinho com sua dor profunda e seus pensamentos, ou seja, a pior combinação possível, pois, imediatamente, ali mesmo, no chão gelado da sala do zelador, Kurt abriu o bolso de fora de sua mochila e pegou a primeira lâmina que sua mão conseguiu encontrar. Ele puxou suas mangas para cima e enquanto escutava todos os monstros de sua cabeça gritarem coisas como "Inútil!" , "Lixo!" , "Sem valor!" e "Pare de respirar!" , Kurt cortou seus pulsos, expressando toda a raiva que sentia de si mesmo e do mundo, usando todos os seus pensamentos suicidas e o ódio de si mesmo para cortar o mais fundo possível.
Kurt realmente desejou que ele estivesse morto naquela hora. Ele vinha desejando isso há muito tempo. Ele até tentou morrer várias vezes, mas falhou, porque Kurt falhava muito. Ele era o tipo de pessoa que não conseguia fazer nada certo. Existem muitas pessoas assim ao redor do mundo e a pior coisa para elas é a dor de serem lembradas disso a cada segundo de suas malditas vidas.
FLASHBACK OFF
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Assim que Kurt chegou na parte da história em que ele abria sua mochila, narrando para Blaine, ele parou. Blaine ficou sério, olhando para ele com um olhar intrigante.
Kurt simplesmente abaixou sua cabeça, segurou a ponta da manga comprida de seu braço esquerdo e a rolou para cima, revelando para Blaine várias cicatrizes antigas, cicatrizes recentes e sangue espalhado por todo o seu pulso.
"Não tenho nada a perder mesmo." Foi esse tipo de pensamento que o levou a fazer aquilo. Mas, no fundo, ele sabia que tinha a perder a amizade de Blaine, que em tão pouco tempo, havia se tornado tão preciosa.
Blaine ficou em silêncio total -assim como Kurt, que só estava aguardando Blaine se levantar e o deixar para sempre- , apenas olhando perplexamente para os pulsos de Kurt.
Então, foi aí que ele fez algo pelo qual Kurt não esperava. E em um segundo, a vida dos dois garotos mudou, completamente, para sempre.
Blaine correu seu dedo indicador pelo sangue, removendo quase tudo, já que ainda estava fresco, e se inclinou para beijar as cicatrizes na pele de Kurt.
"Eu ainda acho que você é lindo" Ele disse, olhando fixamente nos olhos azuis de Kurt, que demonstravam surpresa , pois isso era algo que ele nunca tinha ouvido em sua vida. "E perfeito."
E mesmo Kurt não concordando com ele, mesmo Kurt continuando a se odiar e ter nojo dele mesmo, ele sorriu. Ele sorriu porque aquilo significava que ele finalmente tinha alguém ao seu lado. Alguém que o apoiaria. E ele apenas esperava que nunca fosse perder uma amizade como a de Blaine.
Mesmo que ele ainda não confiasse totalmente em Blaine, mesmo que nunca parasse de se auto-mutilar, ele se sentia confortável e apoiado. E isso era tudo de que Kurt precisava no momento.
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