Scars

4 How Long Will I Love You?


Notas iniciais
Agradecendo eternamente a Joel (@colferey) por sugerir a música maravilhosa desse capítulo

Kurt não conseguia acreditar no que havia acabado de acontecer. Ele estava deitado em sua cama, olhando fixamente para o teto de seu quarto. Quando, de repente, seu celular vibrou em seu bolso.

(17:02) Blaine: Onde você mora?

Kurt rapidamente digitou uma resposta.

(17:02) Kurt: Por quê?

(17:04) Blaine: Precisamos conversar.

Kurt deu um longo suspiro. Ele sabia que teria que contar toda sua história para Blaine. Ele digitou seu endereço, enviou-o e conectou seu celular ao carregador.

Quando ele estava procurando por alguma roupa para se trocar, seu pai entrou no quarto.

"Hey, Kurt." Ele disse, olhando ao redor do quarto.

"Oi, Pai." Kurt se virou para ver seu pai, como sempre, usando sua roupa de trabalho e um boné.

"Então... Eu só queria saber como vão as coisas em seu novo colégio."

Horríveis. - Ele pensou.

"Ótimas!" Kurt disse, abrindo um falso sorriso. É incrível como um sorriso consegue disfarçar qualquer coisa. "A propósito, entrei no Glee club e a competição seletiva é na próxima semana."

"Glee club? Eu não sabia que você cantava." Burt estava sorrindo agora. Ver seu pai sorrir sempre deixava Kurt feliz.

"Eu não canto. Só estou lá porque o pessoal é gentil comigo." Kurt escolheu um cachecol vermelho, blusa branca e uma calça jeans preta, colocando tudo em cima de sua cama. "Quase esqueci, um deles está vindo para cá agora, tudo bem?"

"Claro que sim, Kurt." Burt deu um leve tapinha no ombro de seu filho e se dirigiu até a porta, parando e se virando para Kurt antes de deixar o quarto. "Fico muito feliz de saber que você está se dando bem nesse colégio, filho."

Kurt sorriu de novo e Burt saiu, finalmente o deixando sozinho. Ele se sentou em sua cama, deixando um longo suspiro de alívio sair. Ele estava tão cansado. Cansado de fingir e cansado de dizer que tudo estava bem. Porque nada nunca estava bem para Kurt.

Quando ele terminou de se arrumar completamente, a campainha de sua casa tocou. Seu pai provavelmente não ouvira por estar trabalhando na oficina. Então, Kurt desceu as escadas e parou em frente à porta de entrada, abrindo-a.

Blaine estava parado, com um sorriso em seu rosto. Ele vestia uma gravata borboleta — Quando que ele não vestia gravatas borboletas?– Pensou Kurt- vermelha, blusa polo azul e uma calça que nem chegava até seus pés. E oh, ele não estava com nenhum gel no cabelo. Isso sim era uma novidade.

"Blaine, o que aconteceu com seu cabelo?" Kurt perguntou, com um olhar surpreso em direção aos seus cachos.

Blaine riu. "Eu vou te levar a um lugar. E semana passada, você disse que preferia meu cabelo natural." E dizendo isso, Blaine pegou sua mão, o guiando para fora da casa.

"M-mas eu tenho que falar com meu pai antes."

"Mande uma mensagem. É muito importante, Kurt."

Kurt resolveu não discutir. Então, ele entrou no carro de Blaine, sentando no banco do passageiro e logo digitando uma mensagem para seu pai.

Assim que Kurt colocou o cinto de segurança e Blaine começou a dirigir, ele perguntou:

"Para onde estamos indo, Blaine?"

"Apenas um lugar onde gosto de passar o tempo." Ele respondeu, abrindo um pequeno sorriso.

Durante todo o percurso, Blaine e Kurt permaneceram em um silêncio meio constrangedor. Depois de mais ou menos meia hora de viagem, Blaine parou o carro, encostando-o no meio-fio. Kurt tirou o cinto e abriu a porta, para ver um campo totalmente deserto, apenas com flores variadas, duas árvores e uma grama super verde o preenchendo. Para falar a verdade, era um lugar lindo. Dava para ver o sol se pôr dalí e havia borboletas voando por todo lugar. Era uma sensação agradável, estar lá.

Enquanto Kurt admirava o campo, olhando ao seu redor, Blaine abria o porta-malas de seu carro, tirando de lá um rádio -daqueles que não precisavam de tomada e se conectavam a um iPod- e uma toalha de piquenique, mas nenhuma cesta ou comida.

"Vejo que gostou daqui." Blaine disse, passando por Kurt e carregando o rádio e a toalha até uma das árvores e colocando-as na sombra de uma delas. Ele fez um gesto com a mão, chamando Kurt para se sentar debaixo da árvore com ele. Kurt se aproximou e se sentou na toalha estendida, ao lado de Blaine, que conectou seu iPod ao rádio.

Assim que uma suave e baixa música que Kurt não conhecia começou a tocar, Blaine falou:

"Eu venho aqui quando me sinto mal. Quando me sinto inútil,odiado... Achei que você poderia tentar, sabe?" Ele disse. Kurt sacudiu a cabeça, concordando. "Me desculpe perguntar mas, quando você começou a... a se cortar?"

Kurt abaixou a cabeça, suspirou e começou:

"Minha mãe morreu quando eu tinha seis anos. Digamos que minha vida e a do meu pai ficou muito triste depois disso." Kurt continuou, não percebendo que havia lágrimas descendo pelo seu rosto ao se lembrar de sua mãe e de tudo que havia acontecido. Mas, Blaine percebeu -assim como ele percebia cada detalhe em Kurt-, e se aproximou dele, sentando mais perto. "Então, eu entrei no ensino fundamental II e as coisas ficaram mais complicadas. Começaram a me chamar de nomes ruins que você provavelmente já ouviu e e-eu simplesmente não aguentei. Não fui forte o suficiente, assim como ainda não sou. Simples assim." Assim que ele terminou, veio a sua memória o dia em que ele havia feito o primeiro corte.

FLASHBACK ON


Kurt tinha apenas 14 anos naquela época. Ele estava na oitava série e tinha acabado de sair do armário para seu pai e seus únicos dois amigos que ele tinha, que provavelmente haviam espalhado para todos do colégio porque, naquele dia, ele havia sido jogado na lixeira do estacionamento, trancado em um armário por dois horários e perdido a conta de quantas vezes o chamaram de alguma coisa ofensiva.


Assim que ele chegou em casa, ele estava desabando em lágrimas. Seu pai não estava lá. Kurt subiu as escadas correndo e entrou no banheiro ao lado de seu quarto.


Sua respiração estava pesada, seu rosto manchado e o ódio por si mesmo crescendo a cada olhada que ele dava no espelho.


Assim que Kurt conseguiu se acalmar, ele se deitou debaixo da pia de seu banheiro. Por mais estranho que seja, ele se sentia bem quando ficava lá. Era um lugar só dele, onde ninguém escutava se ele chorasse ou via se ele fizesse algo. Algo como o que ele fez em seguida.


Seus olhos procuraram pelo banheiro inteiro. Procuraram algo que fizesse a dor ir embora. Uma lâmina. Foi aí que, sem pensar duas vezes, Kurt se levantou e se direcionou até sua mochila, ainda jogada na porta do banheiro. Ele se abaixou, abrindo a mochila para achar seu estojo escolar, e tirou do estojo, um apontador.


Kurt rapidamente conseguiu desparafusar a lâmina do apontador, usando a ponta de uma tesoura.


Então, sem saber que ele ia se tornar tão viciado, Kurt fez o primeiro corte em seu pulso direito. O primeiro de muitos. O primeiro passo para anos de assistir ao sangue descendo pelo seu braço e de sentir a sensação boa da dor da lâmina em sua pele.


Porque geralmente, as pessoas ficam viciadas em algo que tem a capacidade de fazer a dor ir embora. A dor que você sente por ser si mesmo e por não ser bom o suficiente para ninguém.


FLASHBACK OFF


"Acho que o que me levou a fazer isso, foi o fato de que eu não tinha o apoio de minha mãe... Ela sempre me ajudava em tudo." Quando Kurt terminou, ele percebeu que o céu já estava se escurecendo e que ele estava deitado ao lado de Blaine, na toalha de piquenique.

"Kurt, você não é fraco, sabia disso?" Não. Ele não sabia. "Todos temos nossos pontos fracos, isso não faz de ninguém fraco."

"Qual é o seu?" Kurt perguntou, curioso, se virando para Blaine.

"Acho que eu não aguentaria perder alguém que amo." Ele respondeu, com um sorriso tímido em seus lábios. "Você é forte por isso, por ter aguentado perder sua mãe."

Eu não aguentei. Por isso que sou o que sou hoje.– Ele pensou, mas não disse nada.

Eles ficaram em silêncio por um momento, apenas observando as estrelas que surgiam aos poucos no céu, que se escurecia.

"Eu gosto daqui." Kurt disse, de repente.

"Eu também." Blaine suspirou. Ele se sentou, para mudar a música que estava tocando no rádio no momento. Blaine escolheu uma música que Kurt conhecia. How Long Will I Love You — Ellie Goulding. Assim que a música começou, ele se virou para Kurt, sorriu e disse: "Você quer dançar?"

Kurt se surpreendeu. Aquilo era outra coisa que alguém nunca havia dito para ele.

"Aqui? Sério?" Kurt perguntou, quase rindo.

"Sim. Por quê não? Música é uma das coisas que te ajuda a se desligar do mundo e dos pensamentos tristes e ruins." Ele se levantou, esperando por Kurt.

Kurt se levantou e se aproximou de Blaine. As mãos do mais novo logo procuraram pelas do outro garoto, se posicionando corretamente.

How long will I love you

As long as stars are above you

And longer if I can

Eles começaram a se mexer lentamente ao ritmo da música, apreciando cada segundo daquele momento. Porque não era sempre que Kurt presenciava momentos bons que o faziam de sentir bem em sua vida.


How long will I need you

As long as the seasons need to

Follow their plan


How long will I be with you

As long as the sea is bound to

Our ship on the sound


E naquele momento, era como se só existissem eles dois no mundo. Porque tudo que eles conseguiam ouvir, era o som da música,a batida de seus corações e a leve respiração de cada um.


How long will I want you

As long as you want me to

And longer by far


How long will I hold you

As long as your father told you

As long as you can


Era em um daqueles momentos que Kurt e Blaine desejavam que eles pudessem ficar daquele jeito para sempre.


How long will I give to you

As long as I live through you

For ever long you say


How long will I love you

As long as stars are above you

And longer if I may


Mas, eventualmente, a música iria parar de tocar, eles iriam se soltar e iriam ter que voltar para a realidade. A realidade onde não podiam ser eles mesmos. A realidade onde tinham que agradar a sociedade e onde Kurt se lembrava de todos os seus problemas.


We're all traveling through time together

Every day of our lives

All we can do is do our best

To relish this remarkable ride


"Nem tudo dura para sempre." Era tudo de que eles se lembraram assim que a música acabou.

Notas finais
Espero que tenham gostado. :)