16 de Outubro de 1813

Chegou o dia.

A data oficial da caçada dos Madas.

Durante esse último ano, meu treinamento foi praticamente ininterrupto. Minha evolução física foi constante, mas a maior mudança aconteceu justamente onde eu mais precisava.

No meu Impar.

Tempo de cópia:

3 segundos → 2,5 segundos

Duração das cópias:

5 minutos e 30 segundos → 6 minutos

Reserva de usos:

8 → 9 usos

Cópias simultâneas:

5

Limite máximo de Copias registrados:

8 → 9

Hehe…

Tô ficando forte.

Minha evolução foi praticamente diária.

Mas isso nem foi a melhor parte.

Durante esse período, consegui evoluir também meu Treincim.

Antes eu conseguia armazenar apenas dois Impares.

Agora…

Três.

E como eu havia prometido para ela…

O terceiro espaço pertence ao Impar de Água.

Depois de muitos dias treinando com a Andressa, acabei desenvolvendo uma afinidade enorme com aquele Impar.

Graças à minha habilidade de copiar movimentos, bastaram poucos dias para eu aprender praticamente todas as técnicas de combate do estilo Água.

Então, caso algum dia eu precisasse…

Ele estaria pronto.

…

Mas sem spoilers.

Prefiro mostrar tudo durante uma luta.

Vai ser bem mais divertido.


Depois que descobri a existência do Par, outra coisa começou a acontecer.

Sempre que eu matava um Gomendi…

Um número aparecia automaticamente na minha cabeça.

1000.

Na época achei estranho.

Mas continuei caçando.

E quanto mais Gomendis eu derrotava…

Maior aquele número ficava.

Demorei um tempo para entender.

Aquilo era simplesmente um contador.

Minha quantidade total de mortes.

Mil.

Eu já tinha matado mil Gomendis.

Na época fiquei até um pouco assustado.

Mas não senti nenhuma mudança absurda no meu corpo.

Então concluí que era preciso matar muito mais do que isso para começar a notar diferenças relevantes.

Hoje…

Esse número já estava em…

3710.

Ainda é pouco.

Tenho certeza de que consigo aumentar muito esse valor.

Existe só um pequeno problema.

Desde que comecei a acumular Par…

Sempre aparece um pensamento estranho no fundo da minha cabeça.

Sempre que encontro algum scar…

Uma parte de mim simplesmente quer matá-lo.

Sem motivo.

Só matar.

É um impulso estranho.

Mas basta eu respirar fundo e parar de alimentar aquele pensamento…

Que ele desaparece.

Então…

Tá tranquilo.

Ainda consigo controlar isso.

Mas enfim.

Chega de conversa.

Hoje é dia de caçar Madas.


Entrei na sala do Rafael.

Assim que passei pela porta…

Fui atacado.

— Peguei!

Quase tomei um susto.

— Ah! Oi, Yuri!

Ela ainda continuava me abraçando.

— Que saudade! Como você tá?

Ela abriu um sorriso enorme.

— Tô super bem!

Deu um passo para trás.

— E vou ser sua parceira de novo.

— Sério?

Olhei imediatamente para o Rafael.

Ele apenas confirmou com um movimento de cabeça.

— O de sempre.

Voltou a mexer nos papéis.

— Ela explica tudo durante o caminho.

— Beleza.

Antes que eu pudesse falar mais alguma coisa…

Yuri já segurou minha mão.

— Bora!

E simplesmente começou a me arrastar para fora do Coliseu.


Quando chegamos perto da saída, puxei levemente sua mão.

— Yuri.

Ela parou.

— Hm?

— Pode esperar um pouquinho?

— Preciso falar com uma pessoa.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Aquela garota da Água?

Pisquei algumas vezes.

— Você conhece a Andressa?

— Então esse é o nome dela?

— É.

— Mas… como você sabe dela?

Yuri deu de ombros.

— Não sei nada.

Sorriu.

— Só vi vocês dois passando bastante tempo juntos esses dias.

— Então imaginei que fossem muito amigos.

Franzi a testa.

— Que dia foi isso?

— Eu nem lembro de ter te visto.

Ela riu.

— É porque eu sou muito discreta.

Fez pose.

— Além disso…

Colocou as mãos na cintura.

— Eu tava ocupada com o meu trabalho ultra secreto.

…

Não faço ideia do que isso significa.

Mas tudo bem.

— Então pode esperar um pouquinho?

Ela assentiu.

— Com prazer.

Depois apontou para mim.

— Só não demora.

— Pode deixar.

Saí correndo pelo Coliseu.


Cheguei diante do quarto da Andressa.

TOC.

Nem precisei bater uma segunda vez.

A porta abriu imediatamente.

Ela ainda estava com cara de quem tinha acabado de acordar.

Os olhos meio fechados.

Expressão sonolenta.

Sorri.

— Bom dia, Andy.

Ela suspirou.

— Eu já falei…

— Esse apelido não combina comigo.

— Me chama só de Andressa.

— Tá bom, Andressa.

Levantei as mãos.

— Mas eu vim aqui por outro motivo.

Ela esperou.

— Tô indo.

Ela piscou.

— Agora?

— Agora.

Sorri.

— Só passei pra me despedir da minha melhor amiga.

Ela ficou surpresa por um instante.

Depois sorriu de leve.

— Bem…

— Então eu desejo boa sorte.

Balancei a cabeça.

— Tenha um bom dia, Andressa.

Comecei a me virar.

Mas senti alguém segurando minha mão.

Olhei para trás.

— Hm?

— Tem mais alguma coisa?

Ela parecia procurar as palavras.

— Sim…

Respirou fundo.

— Eu não sei o que vai acontecer…

Olhou para o chão.

— Mas…

Continuei esperando.

Ela parecia cada vez mais nervosa.

— Poderia…

Olhei rapidamente para o corredor.

— Pode falar.

— A Yuri tá me esperando.

Ela fechou os olhos por um instante.

Criando coragem.

Então falou.

Quase sussurrando.

— Poderia me dar um abraço?

Nem pensei duas vezes.

Puxei ela delicadamente para perto.

Ela imediatamente me abraçou de volta.

Os braços apertaram minhas costas.

Ficamos assim por alguns segundos.

Sem dizer nada.

Ela respirou fundo.

Depois…

Foi soltando o abraço aos poucos.

Olhei diretamente para ela.

— Tá melhor?

Ela fez que sim com a cabeça.

O sorriso agora parecia bem mais tranquilo.

— Muito melhor.

Sorri também.

— Então…

— Posso ir?

Ela respirou fundo mais uma vez.

— Pode.

Assenti.

— Até mais.

Saí correndo pelo corredor.

Yuri já devia estar reclamando da demora.


Assim que voltei para a entrada do Coliseu, Yuri estava encostada em uma das colunas, balançando o pé de forma impaciente.

Assim que me viu, cruzou os braços.

— Demorou.

— Foi mal.

— Ela pediu abraço?

Quase tropecei.

— COMO VOCÊ SABE DISSO?

Ela abriu um sorriso convencido.

— Chutei.

Fiquei encarando ela por alguns segundos.

— Você é assustadora.

— Obrigada.

Ela respondeu como se aquilo fosse um elogio.

Deu meia-volta e começou a caminhar.

— Então vamos?

— Vamos.

Saímos do Coliseu.

Aos poucos, a enorme construção ficou para trás.

Depois de alguns minutos andando, Yuri finalmente começou a explicar a missão.

— Nosso alvo dessa vez é a Mada Silvana.

— O Impar dela gira em torno de saltos.

Olhei para ela sem entender.

— Saltos?

— Isso.

Ela fez um pequeno movimento com a mão, como se uma pessoa estivesse pulando.

— Ela pula igualzinho a um coelho.

— Só que… muito pior.

— Os impulsos dos saltos são absurdamente fortes.

— Ela consegue percorrer distâncias enormes em poucos segundos.

Assobiei.

— Então ela é rápida.

— Muito.

Ela apontou para o horizonte.

— O castelo dela fica na montanha mais alta de toda Scarloon.

Arregalei os olhos.

— A mais alta?

— Isso mesmo.

— No Bioma Rosa existem diversas montanhas…

— Mas uma delas é completamente fora do normal.

Ela respirou fundo.

— Ela é tão alta…

— Que do chão é impossível enxergar o topo.

Olhei para o céu.

…

Tá.

Isso já é exagero.

— Foi justamente por isso que o Rafael me escolheu como sua parceira outra vez.

— Eu vou te ajudar na escalada.

— Principalmente porque nós dois conseguimos voar.

Assenti.

Realmente fazia sentido.

— Qual a altura dessa montanha?

Ela respondeu naturalmente.

— Vinte mil metros.

…

Fiquei parado.

— Quê?

Ela confirmou.

— Vinte mil.

— METROS?

— Sim.

Levei as duas mãos à cabeça.

— ISSO É MUITO ALTO!

Ela começou a rir.

— Eu sei!

— Relaxa!

— O castelo da Silvana não fica no topo.

Respirei aliviado.

— Ufa…

Ela sorriu.

— Fica exatamente na metade.

…

…

Pera.

Levantei a cabeça.

— Então ainda são…

Ela respondeu antes mesmo que eu terminasse.

— Uns dez mil metros de subida.

Silêncio.

— …

— Muito melhor…

Ela riu alto.

— Kkkkk!

— Eu adoro como você tenta ser otimista.

Balancei a cabeça.

— Fazer o quê…

— Já aceitei meu destino.

Continuamos caminhando.

Depois de alguns segundos, outra dúvida surgiu.

— E os Gomendis?

— Como eles ficam espalhados por lá?

Yuri apontou para cima.

— Pela montanha inteira.

— Mas não precisa se preocupar tanto.

— Como boa parte do caminho vai ser voando…

— Muitos deles simplesmente não conseguem alcançar a gente.

— Alguns nem possuem Impar de mobilidade.

Assenti.

— Então tá tranquilo.

Logo outra preocupação apareceu.

— Mas…

— A gente não vai gastar todo o Impar só chegando no castelo?

Ela balançou a cabeça.

— Não.

— A Silvana possui o maior número de Gomendis de toda Scarloon.

Franzi a testa.

— O maior?

— Sim.

— Ela é quem mais transforma scars em Gomendis.

Olhei para ela surpreso.

— Sério?

— Isso não torna ela extremamente perigosa?

— Torna.

— Mas existe um problema.

Ela levantou um dedo.

— A montanha mata muitos dos próprios Gomendis.

— Vários escorregam.

— Outros simplesmente caem.

— E alguns desaparecem por causa de ataques misteriosos.

— Ataques misteriosos?

Ela deu de ombros.

— Ninguém sabe exatamente quem faz isso.

— Só sabemos que acontece.

Cocei a cabeça.

— Que lugar estranho…

— Quantos Gomendis ela tem, mais ou menos?

Yuri respondeu como se fosse a coisa mais normal do mundo.

— Uns mil.

Parei de andar.

— MIL?!

Ela riu da minha reação.

— Sim.

— Mas calma.

— Eles ficam concentrados principalmente na base da montanha.

— Conforme vamos subindo…

— A quantidade diminui bastante.

Ela fez um gesto com a mão.

— Quando estivermos próximos do castelo…

— Não devem existir nem dez por perto.

Respirei aliviado.

— Ah…

— Por um instante achei que teria que enfrentar mil Gomendis.

Ela deu uma risada.

— Não exagera.

— No máximo…

Ela fez uma rápida conta.

— Uns cinquenta durante toda a subida.

— Ah.

— Aí já parece bem mais aceitável.

Continuamos andando entre as árvores.

Depois de alguns minutos perguntei novamente.

— Tem mais alguma informação importante?

Yuri assentiu.

— Tem.

Sua expressão ficou um pouco mais séria.

— A Silvana não é mais forte que o Roberto.

Isso já me tranquilizou um pouco.

— Porém…

Ela levantou um dedo.

— Ela é muito mais difícil de alcançar.

— O Impar dela favorece completamente a mobilidade naquele ambiente.

Ela olhou para as montanhas distantes.

— Enquanto um scar comum sofre só para conseguir subir…

— Ela continua escalando.

— Pulando.

— Mudando de posição.

— E ainda joga enormes pedras preparadas na cabeça de quem tenta alcançá-la.

Sorri.

— Mas…

— Se eu copiar o Impar dela…

Ela sorriu também.

— Exatamente.

— Você passa a conseguir acompanhar os saltos.

— Esse é o nosso primeiro objetivo.

Ela apontou para mim.

— Você copia o Impar dela.

— Depois disso…

Apontou para si mesma.

— Eu vou embora.

— Minha função termina aí.

Franzi a testa.

— Vai mesmo?

Ela confirmou.

— Samuel…

Ela deu uma risadinha.

— Eu não sou feita para lutar.

— Se aquela mulher acertar um único chute em mim…

Ela fez um gesto passando o dedo pelo pescoço.

— Eu morro.

Sorri.

— Relaxa.

— Assim que eu encontrar ela…

— Você já pode voltar.

Ela soltou um longo suspiro de alívio.

— Nossa…

— Isso me deixa muito mais tranquila.

Pegou novamente sua bússola.

Observou a agulha girando por alguns segundos.

— Sul-sudoeste.

— É por aqui.

Não entendi exatamente como ela sempre sabia a direção…

Mas também nunca questionei.

Se ela dizia que era por ali…

Então era por ali.

E seguimos caminhando.

Em direção à montanha mais alta de toda Scarloon.


Caminhamos pelo bioma rosa.

Passando entre montanhas.

Elas já eram enormes.

Cada uma parecia grande o bastante para esconder uma cidade inteira atrás delas.

E mesmo assim…

Nenhuma chegava perto da verdadeira.

A da Silvana.

Quanto mais avançávamos, mais o horizonte desaparecia.

Até que…

Mais ou menos um quilômetro à frente…

Ela surgiu.

Não parecia uma montanha.

Parecia uma muralha.

Uma parede colossal de pedra que atravessava todo o horizonte.

Era tão larga que meus olhos nem conseguiam encontrar onde terminava.

E quanto à altura…

Eu nem conseguia ver.

Ela simplesmente sumia nas nuvens.

Meu estômago embrulhou na hora.

Uma sensação estranha percorreu meu corpo.

Como se meu cérebro simplesmente recusasse acreditar que aquilo existia.

— Uh…

Yuri olhou para mim.

— Tá bem aí, amiguinho?

Continuei encarando aquela monstruosidade.

— Tô não…

Respirei fundo.

— Isso é muito grande…

Ela riu.

— Pois é.

— Eu sabia que era enorme… mas vendo pessoalmente…

Apontei para cima.

— Isso assusta.

— Eu quase desmaiei quando vi pela primeira vez.

Continuei olhando.

A montanha parecia viva.

Como se estivesse me encarando de volta.

…

Balancei a cabeça.

Dei dois tapas no próprio rosto.

PLÁ! PLÁ!

— Beleza!

Respirei fundo.

— Não é uma montanha que vai me impedir de concluir meu objetivo!

Fechei o punho.

— Bora subir!

Yuri abriu um sorriso.

— Isso aí!

Ela apontou para frente.

— Primeiro a gente chega na base.

Continuamos caminhando.

Quanto mais perto chegávamos…

Maior ela ficava.

Parecia impossível.

Era como se ela crescesse conforme nos aproximávamos.

Até que finalmente…

Chegamos.

A base da montanha.

Ela era ainda mais assustadora vista de perto.

As nuvens escondiam completamente o topo.

Era impossível dizer onde ela terminava.

Apesar disso…

Ela não era totalmente reta.

Existiam vários caminhos naturais.

Grandes plataformas.

Pedras inclinadas.

Árvores crescendo entre rachaduras.

Dava para subir andando durante boa parte do percurso.

Então…

Hora de andar.

Resolvi marcar nossa subida.

Só por diversão.


100 metros.

Nem cinco minutos.

Até agora…

Nada.

Nenhum Gomendi.

Nenhuma armadilha.

Nenhum problema.

Só pedra.

Pedra.

Mais pedra.

Talvez a fama dessa montanha fosse exagerada.

…

Provavelmente não.


500 metros.

Alguns minutos depois…

Encontramos nossos primeiros Gomendis.

Três.

Todos escondidos atrás de uma formação rochosa.

Assim que nos viram…

Vieram gritando.

— MATEM ELES!

— A CABEÇA É MINHA!

Olhei para Yuri.

Ela apenas deu um passo para o lado.

Como quem dissesse:

"Vai lá."

Dei de ombros.

Nem precisei copiar nenhum Impar.

O primeiro levou uma espadada.

SWINH!

O segundo tentou me acertar pelas costas.

Me abaixei.

Cotovelada na barriga.

E uma estocada.

O terceiro olhou para os outros dois mortos.

Pensou.

Virou.

E começou a correr.

…

Não foi muito longe.


1000 metros.

Finalmente.

Mil metros.

Dez por cento da subida.

Olhei para baixo.

Já dava para ver boa parte do bioma rosa.

As árvores pareciam pequenos arbustos.

As montanhas menores…

Agora realmente pareciam pequenas.

Engraçado.

Achei que mil metros pareceriam muito mais altos.

Talvez porque ainda existissem…

Mais nove mil.

…

Não pensei muito nisso.

Encontramos mais alguns Gomendis.

Eles ameaçaram cortar nossas cabeças.

Falei que mataria todos.

Eles riram.

Atacaram.

Morriam.

Fim da conversa.


2000 metros.

Foi aqui que a situação mudou.

Ao longe…

Vi uma movimentação estranha.

Parei.

Olhei melhor.

…

Muita gente.

Muito mais do que deveria.

Yuri também percebeu.

— Ih…

Subimos numa pedra.

E conseguimos enxergar.

Mais de quarenta Gomendis.

Todos reunidos.

Pareciam organizar algum tipo de patrulha.

Ou talvez estivessem caçando algum scar azarado.

Olhei para Yuri.

Ela respondeu antes mesmo que eu perguntasse.

— Não.

— Também acho.

Copiei seu Impar.

[Cópia]

[Batmano]

Nossas asas surgiram.

— Bora.

Batemos asas ao mesmo tempo.

Subimos por outra parte da montanha.

Passando muito acima daquele grupo.

Nenhum deles conseguiu nos alcançar.

…

Lutar ali só gastaria energia.

Melhor guardar tudo para a Silvana.


3000 metros.

Quase deu ruim.

Estávamos caminhando normalmente.

Quando…

VOSH!

Uma bola de fogo passou voando.

Bem na direção da Yuri.

Sem pensar.

CLACK!

Defendi com a espada.

A explosão espalhou faíscas por toda parte.

— Emboscada!

Cinco Gomendis surgiram entre as pedras.

Um deles parecia controlar fogo.

Os outros vieram correndo.

— MATA!

— NÃO DEIXA FUGIR!

Olhei para Yuri.

— Fica atrás de mim.

Ela nem discutiu.

A luta foi rápida.

O usuário do fogo tentou lançar outro ataque.

Mas não teve tempo.

Cheguei primeiro.

SWINH!

Os outros vieram juntos.

Erro deles.

Em poucos segundos…

Todos estavam no chão.

Sem nenhum ferimento relevante.

Respirei aliviado.

Os Fragmentos realmente faziam diferença.

Contra Gomendis comuns…

A vantagem era absurda.


4000 metros.

Anoiteceu.

Na verdade…

Já fazia um tempo.

Só esqueci completamente de comentar.

Durante esse trecho…

Nada muito importante aconteceu.

Usamos o Impar da Yuri várias vezes.

Sempre que aparecia algum trecho muito perigoso…

Ou quando um grupo maior de Gomendis surgia…

Nós simplesmente voávamos por cima.

Economizava tempo.

Economizava energia.

E evitava lutas desnecessárias.

Claro…

Alguns Gomendis insistiam em atacar.

Esses aí…

Não tiveram muita sorte.


5000 metros.

Depois de mais algumas horas subindo, finalmente chegamos nessa marca.

A vegetação já era bem diferente.

As árvores eram menores.

As pedras mais lisas.

E o vento…

Muito mais forte.

Enquanto caminhávamos por uma das trilhas naturais da montanha, avistamos alguém.

Um scar.

Sozinho.

Ele caminhava completamente perdido.

Seu jeito de andar deixava claro que não fazia ideia de onde estava.

Assim que nos viu, abriu um sorriso.

— Ah! Ainda bem! Vocês podem me dizer onde eu tô?

Olhei para Yuri.

Depois olhei de volta para ele.

— Na pior montanha de Scarloon.

O sorriso dele desapareceu.

— …Como?

— Você tá na montanha da Silvana.

Ele ficou alguns segundos completamente parado.

— Espera… quem?

— Uma pessoa do mal que te mata assim que te vê.

Ele olhou para cima.

Depois para baixo.

Respirou fundo.

— Acho… acho que vou embora.

— Boa sorte.

Ele apenas assentiu.

Virou de costas.

E começou a descer.

Fiquei olhando ele ir embora.

Yuri percebeu.

— Você tá preocupado?

— Um pouco.

— Acha que ele consegue sair?

Olhei toda aquela montanha.

Depois lembrei da quantidade de Gomendis espalhados.

…

— Sinceramente…

— Acho difícil.

Ela também ficou em silêncio.

Mas fazer o quê?

Ele era livre para escolher.

Se queria tentar sair…

Era uma decisão dele.

Então continuamos nossa subida.


6000 metros.

O frio começou a aumentar.

E pela primeira vez desde que começamos a escalada…

Encontramos árvores.

Poucas.

Mas suficientes para formar um pequeno bosque preso entre enormes pedras.

— Vamos parar?

Perguntei.

Yuri olhou para mim.

Depois para o céu.

Já estava escurecendo.

— Acho melhor.

Entramos naquele pequeno bosque.

E logo encontramos alguns Gomendis.

Dormindo.

— Que folgados.

Sussurrei.

Ela riu baixinho.

— Resolve aí.

Assenti.

Me aproximei do primeiro.

SWINH!

Depois do segundo.

SWINH!

O terceiro acordou bem na hora.

— Hã…?

SWINH!

Voltou a dormir.

Para sempre.

— Pronto.

Agora sim podíamos descansar.

Sentamos perto de uma árvore.

Olhei mentalmente minha reserva.

…

Oito usos do Impar da Yuri.

Quase todos já tinham ido embora.

Se continuasse daquele jeito…

Chegaria no castelo completamente esgotado.

Não valia a pena.

— Boa noite.

— Boa noite.

Dormimos ali mesmo.


7000 metros.

Acordamos cedo.

Respirei fundo.

Mais um dia.

Mais três mil metros.

— Bora.

Voltamos a subir.

A quantidade de Gomendis diminuiu muito.

Conforme a altitude aumentava…

Parecia que menos deles conseguiam sobreviver naquele lugar.

Encontrávamos apenas pequenos grupos.

E eles também eram mais fortes.

Um deles quase conseguiu quebrar minha espada com um único golpe.

Um golpe de pura sorte.

— Caramba…

Acabei copiando o Impar dele.

Só para acabar logo com a luta.

Foi rápido.

Mas sinceramente…

Nem vale a pena comentar.

Só me fez gastar uma cópia.


8000 metros.

O cenário mudou completamente.

Começamos a encontrar corpos.

Muitos corpos.

Espalhados pela montanha.

Ossos quebrados.

Braços separados.

Costelas esmagadas.

Todos completamente destruídos.

Parei ao lado de um deles.

— Caiu daqui de cima…

Yuri assentiu.

— A maioria dos Gomendis morre assim.

Olhei para cima.

…

Fazia sentido.

Um único erro naquela montanha…

Era suficiente para morrer.

Além disso…

O céu também estava diferente.

O rosa do bioma praticamente tinha desaparecido.

Agora tudo era coberto por um tom acinzentado.

Mesmo assim…

Continuava bonito.

De um jeito estranho.

Quase melancólico.


9900 metros.

Faltavam apenas cem metros.

Só isso.

Depois de dois dias inteiros escalando aquela monstruosidade…

Estávamos praticamente na porta.

Mesmo assim…

Levantei a mão.

— Vamos parar.

Yuri olhou para mim.

— Também pensei nisso.

Seria muita burrice enfrentar uma Mada completamente sem Impar.

Então encontramos uma pequena plataforma de pedra.

Grande o bastante para descansarmos.

Foi aí que eu olhei para frente.

E consegui enxergar.

Bem distante.

O Castelo da Silvana.

Ele não ficava no topo.

Muito menos separado da montanha.

Parecia que alguém simplesmente havia escavado parte da pedra e construído um castelo dentro dela.

As paredes se misturavam com a própria montanha.

Era bonito.

De um jeito meio assustador.

Sentei na beira da pedra.

Olhei para baixo.

…

Arrependimento.

Não dava para enxergar o chão.

Uma camada gigantesca de neblina cobria tudo.

Parecia que a montanha nem tinha fim.

Se alguém caísse dali…

Nem o corpo voltava.

Me afastei alguns passos.

— Melhor não olhar muito…

Yuri deu uma risadinha.

— Medo de altura?

— Não.

Olhei outra vez para o vazio.

— Respeito.

Ela começou a rir mais ainda.

— Kkkkkkk.

Acabamos nos deitando ali mesmo.

O vento era frio.

Mas até que agradável.

Como sempre…

Começamos nossas brincadeiras idiotas.

— Tá.

Minha vez.

Pensei numa palavra.

— Dá uma dica.

— É um objeto.

— Grande?

— Depende.

— Dá para comer?

— NÃO!

— Então sei lá…

— Errou.

— Outra dica.

— Ele faz barulho.

— Tambor?

— Não.

— Sino?

— Não.

— Porta?

— Não.

— Pedra?

— PEDRA FAZ BARULHO?

— Faz.

Peguei uma pedra do chão.

Joguei longe.

TOC!

— Tá vendo?

Yuri começou a rir tanto que caiu para trás.

— KKKKKKKK!

— Você roubou!

— Eu não roubei!

— Mudou a palavra!

— Não mudei!

— Mudou sim!

— Não mudei!

Cruzei os braços.

— Você sempre muda quando eu acerto.

— Eu não faço isso.

— Faz.

— Não faço.

— Faz.

Ela ficou alguns segundos em silêncio.

Depois sorriu.

— Talvez um pouquinho.

— EU SABIA!

Ela começou a gargalhar.

— KKKKKKKKK!

Ficamos discutindo por vários minutos sobre isso.

E obviamente…

Ela continuou roubando.

Tenho certeza absoluta.

Mas deixei passar.

Amanhã…

Seria o dia da luta.

Então era melhor descansar.

Boa noite.


10000 metros.

18 de Outubro de 1813

Finalmente.

Chegamos.

O Castelo da Silvana estava bem na nossa frente.

Estranhamente…

Não havia nenhum Gomendi.

Nem um.

Olhei ao redor.

Nada.

Silêncio absoluto.

— Ué…

Yuri também estranhou.

— Achei que teria pelo menos alguns guardando a entrada.

— Também.

Fomos caminhando até o enorme portão.

Coloquei a mão nele.

Nem estava trancado.

Empurrei.

CRRRRR…

O portão se abriu lentamente.

A luz do lado de fora iluminou um enorme salão.

Era um castelo simples.

Sem ouro.

Sem grandes decorações.

Só algumas colunas.

Tapetes.

Alguns móveis.

No centro…

Sentada tranquilamente em uma cadeira…

Estava ela.

Silvana.

O Fragmento que ela carregava emanava uma enorme quantidade de Impar.

Ela levantou o olhar.

Parecia genuinamente surpresa.

— Uh?

Ela inclinou um pouco a cabeça.

— Quem são vocês?

Olhei discretamente para Yuri.

Fiz um pequeno movimento com a cabeça.

Ela entendeu imediatamente.

Assentiu.

E saiu correndo para fora do castelo.

Assim que ela desapareceu…

Comecei a caminhar na direção da Mada.

— Silvana.

Meu nome é Samuel.

Parei alguns metros à sua frente.

— E eu vim derrotar você… para pegar o seu Fragmento.

Ela piscou algumas vezes.

Como se estivesse processando aquilo.

Depois sorriu.

— Você escalou essa montanha inteira…

Ela se levantou lentamente.

— Só para isso?

Sorri de volta.

— Sim.

Ela deu uma pequena risada.

— Tenho que admitir…

— Estou feliz que você tenha conseguido chegar até aqui sem morrer.

Ela apoiou uma das mãos na cintura.

— Mas sinto muito.

Seu sorriso desapareceu.

— Você deveria ter aproveitado sua vida…

Uma pressão enorme tomou conta do salão.

— Antes de desperdiçá-la tentando me enfrentar.

Segurei firme minha espada.

— Eu aproveitei.

Apontei a lâmina para ela.

— E ainda vou aproveitar muito mais…

Sorri.

— Depois de te quebrar na porrada.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Certo.

Deu um pequeno passo para trás.

— Então vamos começar.

— VAMOS!

Ativei imediatamente.

[Chá Ringan]

Mas…

A primeira coisa que ela fez…

Não foi atacar.

Nem preparar alguma habilidade.

Ela simplesmente…

Dobrou um pouco os joelhos.

POW!

Deu um salto gigantesco.

Direto para cima.

Passando por um enorme buraco no teto.

— QUE?!

Fiquei olhando completamente sem entender.

Alguns segundos depois…

Sua voz ecoou do lado de fora.

— ACHA MESMO QUE EU IA LUTAR COM VOCÊ?

Olhei para cima.

— O QUÊ?!

Ela começou a rir.

— MEU IMPAR É PERFEITO PRA FUGIR DE OTÁRIOS COMO VOCÊ!

Meu olho começou a tremer.

…

— MALDITA!

Disparei na direção da abertura.

— EU TE PEGO!

Assim…

Começava a batalha mais diferente que eu já tinha enfrentado.

Porque dessa vez…

Antes de derrotar a Mada…

Eu precisava conseguir alcançar ela.