Scarloon Samuel I - Herói
16 CAPÍTULO 16 — COELHO
Saltos.
[Megal Doce]
Permite realizar saltos de longas distâncias.
[Danbou Dianpi]
Permite saltar no ar.
[A Aprendide]
Concede 10% de Doiz e Cuatru às pernas.
Agora era simples.
Ir atrás dela.
[Megal Doce]
ZOOM!
Impulsionei meu corpo com um salto brutal, atravessando o buraco aberto no teto.
Assim que alcancei o lado de fora, meus olhos correram pela montanha.
Cadê ela…
Não precisei procurar por muito tempo.
Silvana já estava dezenas de metros acima, saltando de pedra em pedra com uma facilidade absurda. Cada impulso fazia seu corpo desaparecer para surgir muito mais alto logo em seguida.
Respirei fundo.
Não posso ficar usando o [Danbou Dianpi] agora. Saltar no ar gasta muito mais Impar. Se eu desperdiçar energia no começo da perseguição, ela vence no cansaço.
Então…
Vou subir do jeito normal.
[Megal Doce]
ZOOM!
Saltei atrás dela.
A cada impulso eu utilizava exatamente as mesmas plataformas de pedra que ela havia acabado de usar. Era óbvio que Silvana conhecia aquele caminho melhor do que qualquer um.
Se ela confiava nessas pedras…
Eu também confiaria.
Salto após salto…
A distância entre nós diminuía.
Silvana olhou para trás.
Seu rosto demonstrou uma mistura de surpresa e confusão.
— Ué… você também salta?
Logo depois ela pareceu entender.
— Ah… então foi assim que você conseguiu chegar até aqui.
Sem diminuir o ritmo, mudou completamente sua rota.
Saltou para a esquerda.
Pousou sobre uma árvore presa na encosta.
E levantou uma das pernas.
— [A Aprendide].
Ela não me chutou.
Chutou uma pedra.
BOOM!
A rocha disparou como um míssil exatamente para o ponto onde eu iria aterrissar.
Ela tinha esperado meu salto antes de atacar.
Assim, eu não teria como mudar minha trajetória.
…Pelo menos era o que ela imaginava.
[Danbou Dianpi]
No meio do ar…
[Megal Doce]
ZOOM!
Saltei novamente.
Minha trajetória mudou completamente.
A pedra passou por baixo de mim enquanto eu avançava diretamente na direção dela.
Os olhos de Silvana arregalaram.
Ela claramente não esperava que eu dominasse os saltos daquele jeito.
Mas antes que eu pudesse alcançá-la…
Ela saltou outra vez.
O impulso foi tão violento…
POW!!
…que toda a parte da montanha onde ela estava simplesmente desmoronou.
Sem chão para continuar.
Mirei na árvore que começava a cair.
Pousei sobre o tronco por apenas uma fração de segundo.
Tempo suficiente.
[Megal Doce]
ZOOM!
Saltei novamente.
A perseguição continuava.
12 mil metros.
Continuávamos subindo.
Cada vez mais rápido.
Até que…
Minha cópia acabou.
No meio do salto.
[Chá Ringan]
Recuperei imediatamente o Impar dela.
Mas, no mesmo instante…
Silvana fez algo inesperado.
Em vez de continuar subindo…
Ela saltou para baixo.
Diretamente na minha direção.
ZOOM!
Ela vinha girando o corpo.
Preparando um chute.
Sorri.
— Finalmente resolveu lutar?
Concentrei força na minha própria perna.
[Megal Doce + A Aprendide]
POW!!
Nossos chutes se encontraram no ar.
Uma onda de choque explodiu entre nós.
As nuvens ao redor foram afastadas.
Minha perna suportou o impacto muito melhor do que eu imaginava.
Mas o choque lançou nós dois para lados opostos.
Silvana bateu violentamente contra a montanha.
Eu fui arremessado alguns metros para trás.
Assim que recuperei o equilíbrio…
ZOOM!
Voltei imediatamente à perseguição.
Ela já havia se levantado.
E já estava escalando outra vez.
14 mil metros.
A inclinação da montanha começou a diminuir.
Havia muito mais espaço para correr.
Silvana aproveitou isso.
Começou a chutar pedra após pedra.
Uma.
Duas.
Cinco.
Dez.
Todas voavam em alta velocidade.
Eu desviava usando pequenos saltos laterais.
Direita.
Esquerda.
Direita.
Esquerda.
Até que…
Na última pedra…
Ela não chutou em linha reta.
Lançou para cima.
A pedra fez uma parábola enorme.
Sorri.
Muito lenta.
Desviei com facilidade.
Só que…
Enquanto eu acompanhava aquela pedra…
Silvana chutou outra.
Muito menor.
Muito mais rápida.
Diretamente na minha costela.
POW!
— Argh!
A dor fez meu corpo girar no ar.
Silvana apenas sorriu.
Uma risada satisfeita.
E voltou a fugir.
Segurei a lateral do corpo.
Doía.
Muito.
Mas reclamar não faria aquela dor desaparecer.
Ainda precisava alcançá-la.
[Megal Doce]
ZOOM!
16 mil metros.
Quanto mais subíamos, mais o terreno mudava.
As pedras ficavam instáveis.
Grandes rachaduras cruzavam a montanha inteira.
Foi então que ouvi um estrondo.
CRAAAAAAACK!
Olhei para cima.
Uma avalanche.
Mas não de neve.
De pedras.
Centenas delas despencavam montanha abaixo em velocidades absurdas.
Pela primeira vez desde o início da perseguição…
Silvana pareceu surpresa.
— Ah, droga!
Ela abandonou completamente a fuga e começou a usar seus saltos apenas para escapar das rochas gigantes.
Perfeito.
Era a primeira vez que ela não controlava a situação.
[Megal Doce]
ZOOM!
Saltei.
Depois outro.
Mais outro.
Usando o [Danbou Dianpi] apenas quando era realmente necessário.
Em poucos instantes eu já estava atrás dela.
Ela ainda desviava das pedras.
Nem percebeu minha aproximação.
Sorri.
— Te peguei.
[A Aprendide]
POW!!
Meu chute acertou suas costas com força total.
Silvana foi arremessada contra a avalanche.
Uma pedra gigantesca acertou sua barriga.
Outra raspou em seu ombro.
Ela bateu em mais duas antes de conseguir recuperar o equilíbrio.
Assim que pousou…
Começou a destruir as pedras com chutes.
POW!
CRASH!
BOOM!
Cada golpe explodia uma rocha inteira.
Quando abriu espaço suficiente…
Pegou uma das pedras restantes.
Girou o corpo.
E a lançou na minha direção.
Não para me acertar.
Mas para me obrigar a desviar.
Entendi na hora.
Desviei.
E, exatamente como ela queria…
Ela aproveitou essa pequena abertura.
ZOOM!
Saltou para muito longe.
Voltando a fugir.
— Esperta…
Mesmo assim…
Ela já respirava com dificuldade.
Pela primeira vez, eu via sinais claros de cansaço.
Então continuei.
[Megal Doce]
ZOOM!
18 mil metros.
Já fazia tempo que eu havia perdido a conta de quantos saltos tinha dado.
Na verdade…
Não.
Eu ainda contava.
Pelas minhas contas, já copiei o Impar dela umas três vezes.
Usar tantos saltos consecutivos drenava minha energia numa velocidade absurda.
Enquanto isso…
Silvana ainda parecia cheia de disposição.
Ela olhou para trás durante um salto.
Sua voz ecoou pela montanha.
— Desiste! Você vai morrer muito antes de mim quando seu Impar acabar!
Sorri.
— É o que você acha.
Não conte só com o tempo.
Uma ideia surgiu.
[Treincim = Ordem]
Talvez…
Isso funcionasse.
Respirei fundo.
— Durma.
Minha voz percorreu o ar.
Silvana simplesmente apagou.
Seu corpo perdeu toda a força.
Começou a despencar.
Perfeito!
[Megal Doce]
ZOOM!
Saltei com tudo para alcançá-la.
Só que…
Antes que eu chegasse…
Ela abriu os olhos.
— Quê…?
Instintivamente.
ZOOM!
Saltou outra vez.
Voltou a subir.
Fiquei encarando.
Como ela acordou tão rápido?
…
Pensando melhor…
Ela estava caindo de milhares de metros de altura.
O vento batia com violência no rosto dela.
Isso provavelmente bastou para despertá-la.
Putz.
— Então dormir não resolve…
Tudo bem.
Tenho outra ideia.
— Venha.
Silvana virou imediatamente o corpo na minha direção.
— Que merda de Impar é esse?!
Ela realmente veio.
Mas…
Passou direto por mim.
Muito acima da minha cabeça.
Franzi a testa.
Então é isso…
A ordem é vaga demais.
"Venha" só obriga ela a se aproximar.
Não necessariamente a parar do meu lado.
Nem tive tempo de pensar mais.
Ela virou no ar.
Preparou outro chute.
[Megal Doce + A Aprendide]
POW!!
Mais uma explosão.
Outra onda de choque.
Outra vez fomos arremessados para lados opostos.
Silvana recuperou o equilíbrio antes de mim.
E…
Continuou fugindo.
Respirei fundo.
— Beleza…
Mais uma tentativa.
— DURMA!
Ela apagou.
Seu corpo despencou alguns metros.
Quase imediatamente…
Acordou.
E gastou uma sequência enorme de saltos para recuperar toda a altura perdida.
…
Foi aí que percebi.
Na verdade…
Isso era bom.
Cada vez que ela dormia…
Era obrigada a gastar muito mais Impar para voltar ao ponto onde estava.
Talvez eu não estivesse aproximando a distância…
Mas estava drenando a energia dela.
Sorri.
— Então é assim que a gente joga.
Minha garganta já começava a arder.
Provavelmente eu conseguiria usar aquela ordem só mais algumas vezes antes de perder completamente a voz.
Talvez ativar esse Treincim tivesse sido precipitado.
Mas agora…
Não dava mais para voltar atrás.
Eu só precisava continuar.
Respirei fundo.
Ergui a cabeça.
— Durma!
[Megal Doce]
ZOOM!
20 mil metros.
— Durma!
A palavra saiu rasgando minha garganta.
Uma dor aguda percorreu meu pescoço, como se cada sílaba arrancasse um pedaço da minha voz.
Mas valeu a pena.
Silvana perdeu a consciência por um instante.
Era tudo de que eu precisava.
[Megal Doce]
ZOOM!
Disparei.
A distância entre nós diminuía rapidamente.
Mais alguns metros…
Só mais um pouco…
Eu já preparava a perna para acertar um chute quando…
ZOOM!
Silvana acordou.
Mas, em vez de saltar para cima…
Ela saltou para o lado.
— Quê…?!
Num único movimento, ela segurou minha perna antes que o golpe acertasse.
Aproveitando toda a velocidade que eu havia acumulado…
Girou meu corpo.
E me lançou com força total contra o pico da montanha.
POOOOOOW!!
Atravessei pedras.
Quebrei parte da encosta.
Só consegui recuperar o controle porque ainda havia impulso suficiente para outro salto.
No ar, estabilizei meu corpo.
Foi então que olhei para cima.
Silvana estava parada no ponto mais alto da montanha.
Ela respirava pesado.
Mesmo assim…
Sorriu.
— Você… é um SACO.
Uma pressão diferente tomou conta do ambiente.
Meu corpo inteiro arrepiou.
Ela ativou alguma coisa.
— [Artefato].
Uma luz verde envolveu suas pernas.
Quando desapareceu…
Duas botas surgiram.
Verdes.
Com pequenas orelhas de coelho nas laterais.
Silvana abaixou o corpo.
Preparando o próximo salto.
Ao mesmo tempo…
Minha cópia acabou.
— Ah, não…
[Chá Ringan]
Copiei novamente seu Impar.
Mas não parei por aí.
Ela já tinha ativado o Artefato.
Então…
[O tal do Copião]
Copiei as botas também.
[Botas Savitropes]
Assim que elas apareceram em mim…
Duas novas informações invadiram minha mente.
[Frames de Saltibilidade]
Durante um salto…
Fica imune por um segundo.
…
Passiva.
Gostei.
A segunda habilidade apareceu logo depois.
[Aceleração Pulística]
Aumenta o Ceix conforme realiza sequências de saltos.
…
Ceix?
Parei por um instante para analisar.
Doiz e Cuatru aumentavam força e resistência.
Então…
O que faltava?
…
Velocidade.
Provavelmente era isso.
Só existia um jeito de descobrir.
ZOOM!
Silvana desapareceu.
Num piscar de olhos ela surgiu bem na minha frente.
De cabeça.
Como um projétil.
[Megal Doce]
ZOOM!
Desviei no último instante.
Ela atravessou o lugar onde eu estava.
BOOOOOOM!!
A montanha explodiu atrás de mim.
Pedras voaram para todos os lados.
Silvana pousou tranquilamente.
Sem um único arranhão.
Claro.
Ela havia ficado completamente imune durante o salto.
Se a habilidade funcionava exatamente como dizia…
Eu também poderia aproveitar isso.
Era uma habilidade passiva.
Não precisava gastar Impar.
Excelente.
Só que não tive tempo para comemorar.
Silvana já vinha novamente.
Desviei.
Ela saltou outra vez.
Desviei de novo.
Mas, dessa vez…
Em vez de continuar em linha reta…
Ela mergulhou.
Desapareceu abaixo de mim.
— Hein…?
No instante seguinte…
ZOOM!
Ela surgiu nas minhas costas.
— Peguei.
POW!!
O chute acertou em cheio.
Meu corpo foi lançado contra a montanha.
BOOOOOOM!!
A pedra rachou inteira.
Senti o impacto atravessar minhas costas.
Silvana riu.
— Vingança!
Levantei cambaleando.
Meu corpo doía.
Muito.
Mas, quando ergui os olhos…
Percebi que ela não vinha direto.
Ela começou a saltar em círculos.
Cada salto era mais rápido que o anterior.
Sua silhueta começou a desaparecer.
Virando praticamente um borrão.
Então entendi.
[Aceleração Pulística].
Ela estava acumulando velocidade.
Sorri.
— Então é isso…
Fiquei completamente parado.
Os pés firmes na pedra.
Observando.
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
Ela repetia exatamente o mesmo padrão.
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
Mais uma vez.
Um…
Dois…
Três…
QUATRO!
ZOOM!!
Ela disparou como um raio.
Era absurdamente rápida.
Mas eu já sabia exatamente quando ela atacaria.
[Megal Doce]
ZOOM!
Saltei no último segundo.
Nossos corpos colidiram em velocidade máxima.
BOOOOOOOOOOOOOOOM!!!
A explosão destruiu parte da montanha.
Uma onda de choque atravessou as nuvens.
Mesmo assim…
Nenhum dos dois sofreu dano.
Graças à imunidade durante o salto.
Silvana me encarou.
Pela primeira vez…
Ela sorriu de verdade.
— Você é bem mais forte do que eu pensei, garoto.
Sorri de volta.
— Que bom ouvir isso.
Ela tentou outro chute.
Desviei.
Usei o impulso para me afastar.
E continuei fugindo.
Silvana virou imediatamente.
Começou a saltar atrás de mim.
Foi então que percebi uma coisa importante.
Não existia abertura.
Enquanto aquelas botas estivessem ativas…
Ela era praticamente impossível de acertar.
A cada salto…
Um segundo inteiro de imunidade.
Então…
Eu não precisava derrotá-la agora.
Precisava apenas sobreviver.
Até o Artefato acabar.
Sorri.
— Beleza…
Então agora quem vai correr sou eu.
E me joguei da montanha.
Caindo.
Muito.
O vento cortava meu rosto como lâminas.
Em poucos segundos eu já estava centenas de metros abaixo do pico.
Atrás de mim…
Silvana deu uma gargalhada.
— HAHAHA! Vai fugir mesmo?!
Ela simplesmente mergulhou atrás de mim.
Saltando de pedra em pedra.
No ar.
Na própria parede da montanha.
Ela parecia completamente à vontade naquele lugar.
Enquanto isso…
Eu precisava economizar cada uso do meu Impar.
Respirei fundo.
[Megal Doce + Aceleração Pulística]
ZOOM!
Um salto.
Minha velocidade aumentou.
Mais um.
Ainda maior.
Outro.
Cada impulso fazia meu corpo cortar o vento com mais força.
O contador surgiu automaticamente na minha cabeça.
14 usos restantes…
Não.
Não era isso.
Usos do Artefato.
Saltos realmente rápidos.
Contei novamente.
Já havia gasto cinco.
Restavam apenas…
Treze.
Perfeito.
No fim da luta eu ainda precisaria derrotá-la.
Não podia desperdiçar nenhum.
14 mil metros.
A queda era absurda.
A neblina escondia quase toda a montanha.
Usei dois saltos apenas para corrigir minha trajetória.
Silvana aparecia…
Desaparecia…
Voltava a aparecer.
Às vezes ela perdia completamente minha posição por causa das nuvens.
Mas bastava ouvir o vento mudar de direção.
ZOOM!
Ela já estava atrás de mim outra vez.
— Para de fugir!
— Tenta me alcançar primeiro!
Ela respondeu acelerando ainda mais.
8 mil metros.
Chega.
Hora de inverter.
Olhei rapidamente para trás.
Ela continuava me perseguindo feito uma maluca.
Sorri.
— Agora é minha vez.
Megal Doce!
ZOOM!
Saltei para cima.
Minha velocidade não caiu.
Pelo contrário.
Graças à Aceleração Pulística…
Ela continuava aumentando.
Os números reapareceram na minha mente.
38.
Outro salto.
50.
Mais um.
62.
Meu corpo praticamente desaparecia enquanto subia.
Como eu estava indo para cima…
Nem precisava usar Danbou Dianpi.
Economia perfeita.
Silvana percebeu.
— Hein?!
Ela virou imediatamente.
E começou a subir atrás de mim.
Pulando cada vez mais rápido.
Eu quase ri.
Talvez fosse porque eu sempre copiava Artefatos.
Mas só agora percebi uma coisa.
Eles realmente davam muita energia.
Provavelmente eu já tinha me acostumado.
Ou…
Talvez a Lídia realmente tivesse diminuído esse efeito por conta dele estar sempre ativo.
Faz sentido.
Senão seria roubado demais.
Continuei subindo.
16 mil metros.
Mais alguns saltos.
Mais um.
E…
Pronto.
Só restava um salto rápido.
Agora…
Era confiar no tempo.
Pousei numa enorme pedra.
Respirei fundo.
Esperei.
Poucos segundos depois…
ZOOM!
Silvana apareceu rasgando o céu.
Ela pousou alguns metros à minha frente.
Respirava pesado.
Pela primeira vez durante toda a luta…
Parecia cansada.
Sorri.
— Silvana… por que você não desiste?
Ela franziu a testa.
— Hein?
— Eu prometo retirar seu Fragmento sem te machucar.
Ela arregalou os olhos.
Depois começou a rir.
— Tá ficando MALUCO?!
— Nunca vou me entregar pra um desconhecido!
— Prefiro morrer do que deixar alguém sair ganhando!
Fiquei alguns segundos olhando para ela.
…
— Nossa…
— Isso foi uma das coisas mais maldosas que eu ouvi esses dias.
Ela deu de ombros.
— Obrigada.
…
…
Silêncio.
Ela cruzou os braços.
— Então?
— Não vai fazer nada?
— Achei que tinha vindo aqui pra me matar.
Olhei para o vento passando entre nós.
Sorri.
— Só espera mais um pouquinho.
Ela estreitou os olhos.
— Hã?
— Eu queria te perguntar uma coisa.
— Vai.
— Vai ser sua última chance.
Inclinei um pouco a cabeça.
— Por que você é assim?
— Assim como?
— Dodói da cabeça.
Ela ficou em silêncio.
Respirou fundo.
— Tá…
— Quando eu era criança…
Ela parou.
Franziu a testa.
Ficou me encarando por alguns segundos.
Então estreitou os olhos.
— Espera aí…
— Você tá me enrolando, né?
Sorri sem graça.
— Não…
Ela apontou um dedo pra mim.
— Sua cara entrega tudo.
— Você tá esperando alguma coisa.
Dei de ombros.
— Talvez.
— FILHO DA…
Antes que ela terminasse a frase…
[Megal Doce]
ZOOM!
Saltei com toda a força para longe.
O impulso me lançou centenas de metros acima.
Ainda no ar…
Usei mais um salto.
Mudando completamente minha trajetória.
Agora eu despencava outra vez pela montanha.
Ganhei vários segundos naquela conversa.
Exatamente o que eu queria.
Sorri sozinho.
— Valeu pela ajuda.
Minha cópia acabou novamente.
[Chá Ringan]
Recuperei o Impar.
Ainda restavam três cópias.
Era o suficiente.
Atrás de mim…
Silvana atravessou as nuvens como um meteoro.
ZOOM!
— EU TE PEGO!
Ela veio girando o corpo.
Preparando um chute.
Dessa vez muito mais rápido que todos os anteriores.
Respirei fundo.
[Megal Doce]
Saltei no ar.
Os dois passamos um pelo outro por centímetros.
CLANG!
Minha espada encontrou sua perna.
O impacto espalhou as nuvens ao nosso redor.
Nenhum dano.
Ela ainda estava protegida pela imunidade do salto.
Silvana girou no ar.
Veio novamente.
Outro chute.
Levantei a espada.
CLANG!
Faíscas.
Mais uma colisão.
Ela desapareceu.
Surgiu acima.
Depois abaixo.
Depois ao lado.
Os golpes vinham de todas as direções.
Eu mal conseguia acompanhar.
Cada defesa fazia meus braços vibrarem.
CLANG!
POW!
SWINH!
Espada.
Chute.
Espada.
Cabeçada.
Salto.
Tudo acontecia rápido demais.
Sem perceber…
Já estávamos muito acima da montanha.
As nuvens passavam por nós.
Nem o pico era visível.
Era como lutar no céu.
Continuei subindo.
Ela veio atrás.
Cada vez mais alto.
Até que…
Minha cópia acabou.
…
Restavam apenas duas.
Silvana percebeu imediatamente.
Ela sorriu.
— Acabou?
Antes que eu pudesse copiar novamente…
Ela aproveitou o instante em que eu não podia saltar.
POW!
Uma cabeçada acertou minhas costas.
Meu corpo foi lançado para cima.
Sem controle.
Ela saltou acima de mim.
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
Cada salto aumentava ainda mais sua velocidade.
Então ela apontou o corpo para baixo.
Na minha direção.
Como um míssil.
ZOOM!!
Só consegui levantar a espada.
CRAAAAACK!!
A lâmina explodiu.
Metade dela desapareceu no impacto.
Mesmo assim…
O golpe foi suficiente para desviar um pouco sua trajetória.
Eu comecei a cair.
Ela caiu junto.
Mas agora…
Cada salto que dava aumentava ainda mais sua velocidade.
Ela vinha acumulando impulso.
Eu sabia.
Se errasse uma única defesa…
Morria.
Esperei.
Ela desapareceu.
O vento mudou.
…
Agora!
CLANG!!
Defendi com o resto da espada.
Por um instante achei que tinha conseguido.
Então…
CRACK!
O restante da lâmina se partiu completamente.
Minha espada deixou de existir.
Olhei para o cabo vazio.
…
— Ah…
Que ótimo.
Agora eu tava completamente desarmado.
Mas…
Silvana também respirava com dificuldade.
Seu rosto já mostrava cansaço.
E, de repente…
As botas verdes desapareceram.
O Artefato acabou.
Finalmente.
Ela ainda continuava saltando atrás de mim.
Mas a diferença era absurda.
Sem o Artefato…
Os saltos ainda eram fortes.
Ainda eram rápidos.
Mas já não tinham aquela aceleração absurda.
Agora…
Ela podia ser acertada.
Sorri.
— Finalmente.
Ela fez uma careta.
— Tá sorrindo por quê?
Ignorei a pergunta.
Ainda caíamos.
Muito acima da montanha.
Nem dava mais para enxergar onde ela terminava.
Só existiam nuvens.
Vento.
E nós dois.
Respirei fundo.
— Tá na hora…
Água começou a escorrer dos meus olhos.
[Treincim = Água]
As gotas eram levadas imediatamente pelo vento.
Mesmo caindo a uma velocidade absurda…
Eu mantinha as mãos erguidas.
[Piscina]
Uma pequena esfera de água surgiu entre minhas palmas.
Silvana continuava descendo atrás de mim.
Confusa.
— O que você tá fazendo?
Ignorei.
[Mineral]
A esfera ficou menor.
Muito menor.
Mas muito mais densa.
[Piscina]
Mais água.
[Mineral]
Outra compressão.
A pressão aumentava.
O líquido tremia.
Parecia querer explodir a qualquer instante.
Silvana arqueou uma sobrancelha.
— Vai mesmo tentar me derrotar com… água?
Continuei.
[Piscina]
[Mineral]
[Piscina]
[Mineral]
A esfera agora não parecia mais uma esfera.
Parecia um pequeno sol líquido.
Girando.
Vibrando.
Comprimido ao extremo.
Eu escondia tudo atrás dos braços.
Ela não conseguia enxergar exatamente o que estava preparando.
Silvana deu um sorriso debochado.
— Hahaha…
— Tá desesperado.
— Água não vai fazer absolutamente…
Ela parou.
Sentiu alguma coisa.
A energia concentrada começou a escapar pelas frestas dos meus dedos.
Até eu fiquei assustado.
…
Acho que mais uma compressão…
E isso explodiria na minha mão.
Respirei fundo.
Era agora.
Olhei diretamente para ela.
Ela já estava perto o suficiente para acertar mais um salto.
Nossos olhos se encontraram.
Sorri.
— Ainda duvida?
Ela inclinou a cabeça.
— …Hã?
PSHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!
O jato saiu.
Não parecia água.
Parecia um feixe de luz.
Fino.
Perfeitamente concentrado.
Silvana nem teve tempo de reagir.
O raio atravessou seu peito.
Como se seu corpo fosse feito de papel.
Os olhos dela se arregalaram.
— …O…
A pressão era tanta que meu braço tremia.
E como nós dois continuávamos despencando…
A direção do feixe oscilava.
O jato subiu.
Desceu.
Cortou novamente.
Braço.
Costela.
Perna.
Ombro.
Várias partes do corpo dela foram atravessadas antes que eu finalmente perdesse o controle da técnica.
O feixe desapareceu.
Silêncio.
Silvana ficou imóvel.
Por um instante.
Depois…
Seu corpo simplesmente começou a se separar.
Ela estava morta.
…
Mas eu ainda não podia relaxar.
A queda continuava.
Estiquei a mão imediatamente.
Segurei seu pescoço antes que o corpo se afastasse.
[Treincim = Conexão]
A corrente apareceu.
[O Tal do Copião]
Com o a espada em mãos.
Perfurei seu peito.
A corrente se desconectou.
Num único movimento…
Cortei-a.
Segurei o Fragmento antes que ele escapasse.
Sorri.
— É meu.
Encostei-o no meu pescoço.
A energia invadiu meu corpo.
Mais uma vez.
Era impossível descrever aquela sensação.
Cada músculo parecia despertar.
Minha visão ficou mais nítida.
Meu coração acelerou.
Meu corpo inteiro vibrava.
Hehe…
Outro Fragmento.
Mais forte.
Muito mais forte.
…
Então olhei para baixo.
…
O chão.
Já dava para enxergar.
Faltavam menos de mil metros.
Meu sorriso desapareceu.
— Ah.
— Verdade.
Eu ainda vou morrer.
Pensei rápido.
Muito rápido.
Impares restantes.
Nenhum.
Espera…
Não.
Ainda tinha uma última cópia possível.
Sem perder tempo…
[O Tal do Copião]
Água.
Copiei seu artefato imediatamente.
O chão crescia diante dos meus olhos.
Quinhentos metros.
Trezentos.
Duzentos.
Cem.
Noventa.
Oitenta.
Respirei fundo.
— Vamos terminar essa missão com estilo.
Sem nenhum Impar restante depois disso.
Ativei a única habilidade capaz de me salvar.
[Lago Messi]
Meu corpo inteiro começou a perder a forma.
Braços.
Pernas.
Tronco.
Tudo virou água.
SPLASH!
A enorme poça explodiu contra o chão.
Espalhando água para todos os lados.
O impacto ainda existiu.
Mas foi reduzido de forma brutal.
Por alguns segundos…
Eu era apenas uma poça.
Depois…
Toda aquela água começou a escorrer de volta.
Se reunindo.
Tomando forma.
Braços.
Pernas.
Cabeça.
Respirei profundamente.
Meu corpo inteiro doía.
Muito.
Virar água não anulava completamente o impacto.
Só o tornava suportável.
Caí sentado.
Ofegante.
Olhei para frente.
O corpo de Silvana já havia se dissolvido completamente.
Restava apenas uma massa gosmenta espalhada pelo chão.
…
Que nojento.
Mas…
Sorri.
Foi, de longe…
A missão mais insana que já fiz.
Nem chega perto das outras.
Minha cópia acabou.
Fiquei completamente sem Impar.
Então…
Senti aquela sensação novamente.
Uma expansão dentro da minha mente.
Arregalei os olhos.
— Nem ferrando…
Meu Impar…
Tinha evoluído de novo.
A sensação percorreu meu corpo inteiro.
Como se alguma coisa tivesse sido destravada dentro de mim.
Levei a mão até a cabeça.
Uma informação apareceu automaticamente.
Sorri.
— Treincim…
Levantei a mão.
Agora.
3 armazenados → 4 armazenados.
Fiquei alguns segundos encarando o vazio.
Depois comecei a rir.
— Hahahaha…
— Caraca…
— Nem a pau…
Mais um espaço.
Mais um Impar permanente.
Olhei para a gosma que restava de Silvana.
Nem precisei pensar.
Sorri.
— Eu já sei exatamente qual eu vou guardar.
Caminhei até o que restava do corpo.
Abaixei.
Segurei o que eu achava ser seu braço.
Respirei fundo.
Ainda demorava alguns segundos.
Dois…
Dois e meio…
[Cópia]
Consegui.
Sem perder tempo.
[Treincim]
Armazenado.
Uma nova sensação tomou conta do meu corpo.
Agora eu poderia usar os saltos sempre que quisesse.
Sem precisar encontrar alguém para copiar primeiro.
…
Isso era absurdo.
Minha mobilidade tinha acabado de aumentar em outro nível.
Olhei para minhas pernas.
Dei um pequeno salto.
Mesmo sem ativar nada.
Sorri.
— Hehe…
Gostei.
Muito.
Só ta doendo muito mexer qualquer coisa.
Mas eu finalmente podia me locomover por Scarloon de forma mais rápida!
Era uma sensação boa.
Muito boa.
…
Até perceber uma coisinha.
Olhei para os lados.
Só mato.
Pedras.
Montanhas.
Silêncio.
…
Cadê a Yuri?
Olhei para cima.
A montanha parecia atravessar o céu.
Ela provavelmente ainda estava descendo.
Coitada.
Respirei fundo.
— É…
Esqueci de combinar isso.
Também…
Quem imaginaria que a luta ia terminar comigo caindo vinte quilômetros?
Sentei numa pedra.
Cruzei os braços.
— Acho que agora é esperar.
…
Passaram alguns minutos.
Nada.
Olhei para o céu.
Nada.
Mais alguns minutos.
Nada.
Suspirei.
— Talvez eu devesse ter trazido um mapa.
…
Ou aprendido a usar uma bússola.
…
Ou esperado a Yuri antes de sair correndo atrás da Silvana.
…
Pequenos detalhes.
Deitei no chão.
As costas doíam.
As pernas também.
Na verdade…
Tudo doía.
Fechei os olhos.
— Nunca mais…
Nunca mais escalo uma montanha dessas.
…
Cinco segundos depois.
Abri um olho.
— Bom…
Talvez escale.
Se tiver outro Fragmento lá em cima.
Fechei o olho de novo.
— Mas só talvez.
O vento soprava tranquilamente.
Pela primeira vez desde que aquela missão começou…
Não havia ninguém tentando me matar.
Nem pedras voando.
Nem Gomendis.
Nem chutes.
Só silêncio.
Sorri.
— Foi uma boa caçada.
E, pela primeira vez em muito tempo…
Acabei pegando no sono ali mesmo.
No pé da maior montanha de toda Scarloon.
Esperando Yuri.
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