Scarloon Samuel I - Herói

7 CAPÍTULO 07 — CLARENCIO




10 de Agosto de 1810

Hoje era o dia.

Respirei fundo antes de abrir a porta da sala do Rafael.

Assim que entrei, vi que ele já estava me esperando.

Sentado à mesa, no centro da sala.

Sobre ela havia diversos papéis espalhados, alguns mapas e objetos que eu nunca tinha visto antes.

Fechei a porta atrás de mim e me sentei à sua frente.

Ele não perdeu tempo.

Pegou um dos mapas e começou a explicar.

— O plano é o seguinte.

Apontou para uma região marcada.

— Você vai até o castelo do primeiro Mada.

Levantou um dedo.

— O mais fraco entre todos.

Assenti em silêncio.

— O nome dele é Clarencio.

Ele fez uma pequena pausa.

— Um scar cujo Impar… é inexistente.

Franzi a testa.

— Que?

Ele confirmou com um aceno.

— Sim.

Cruzou os braços antes de continuar.

— Clarencio veio para Scarloon antes de 1750. Naquela época, os scars ainda não recebiam poderes baseados na própria morte.

Inclinei um pouco a cabeça.

— Então… ele é bem fraco, não?

— Comparado aos outros Madas?

Rafael deu um pequeno sorriso.

— Sim.

— Muito mais fraco.

Ele voltou a olhar para o mapa.

— Foi justamente por isso que escolhemos começar por ele.

Seu semblante ficou mais sério.

— Adam transformou Clarencio em Mada porque queria observar quanto tempo um scar sem Impar conseguiria sobreviver com um Fragmento.

Fiquei em silêncio.

— Depois que ele morrer…

Rafael continuou.

— Adam pretende escolher outro scar fraco para ocupar seu lugar.

Olhei para ele.

— Por quê?

Ele soltou um suspiro.

— Porque ele gosta dessa diferença de poder entre os Madas.

Passou o dedo pelo mapa enquanto falava.

— Existe uma hierarquia.

Cada Mada é mais forte que o anterior.

Foi Adam quem criou essa escala.

Balancei a cabeça, incomodado.

— Isso é horrível.

Rafael concordou imediatamente.

— Eu sei.

Seu olhar endureceu.

— E é justamente por isso que precisamos pará-lo.

Ele fico fazendo umas contas mentais.

— Ele deve ter cerca de nove Gomendis com ele.

— Entendi, e…. Como é que eu vou achar ele?

Ele afastou alguns papéis da mesa e pegou dois objetos.

O primeiro era um mapa dobrado.

O segundo parecia um pequeno disco metálico.

Ele colocou ambos na minha frente.

— Este é o mapa.

Bateu levemente sobre ele.

— Marca o caminho daqui do Coliseu até o castelo de Clarencio.

Depois levantou o outro objeto.

— E isto…

Girou-o na minha direção.

— É uma bússola.

Olhei para aquilo sem entender.

— Oi?

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Você não sabe o que é uma bússola?

Balancei a cabeça.

— Não…

Rafael deu uma leve risada.

— Tudo bem.

Apontou para a pequena agulha que girava lentamente.

— Só precisa lembrar de uma coisa.

Encostou o dedo na seta.

— Siga sempre está direção.

Ela aponta diretamente para o castelo.

Depois abriu o mapa sobre a mesa.

— Se ficar em dúvida durante o caminho, compare a paisagem com os pontos de referência marcados aqui.

Assenti.

— Entendido.

Ele me entregou os dois objetos.

Segurei o mapa com cuidado.

Depois a bússola.

Nunca tinha visto nada parecido.

Rafael então apoiou os cotovelos sobre a mesa.

— Mas ainda não terminamos.

Levantei os olhos.

— Ainda precisamos fazer alguns preparativos.

Meu coração acelerou um pouco.

— Preparativos?

Sem responder imediatamente, Rafael ergueu a mão.

[Artefato]

Sua espada em forma de tesoura apareceu envolta pela característica energia ciana.

Olhei para ela.

— O que você vai fazer?

Ele respondeu com naturalidade.

— Primeiro…

Apontou a espada para mim.

— Preciso te conceder a capacidade de usar o meu Artefato.

Meu olhar brilhou.

— Afinal…

Continuou.

— Você vai precisar dele para separar os Fragmentos do Adam dos Madas.

Assenti.

Fazia sentido.

Mas Rafael levantou outro dedo.

— E, segundo…

Sorriu de leve.

— Vou remover um defeito seu.

Franzi a testa.

— Um… defeito?

— Exatamente.

Ele assentiu.

— Eu não te contei antes porque ainda não havia necessidade.

Apoiou a espada no ombro.

— Mas agora isso vai fazer toda diferença.

Seu sorriso aumentou.

— E finalmente vai fazer todo aquele treinamento de espada valer a pena.

Olhei para minha própria mão.

— O que eu preciso fazer?

— Invoque o seu Artefato.

Sem hesitar, obedeci.

[Artefato]

Minha espada surgiu em minhas mãos envolta pelas chamas cianas.

Rafael observou por alguns segundos.

Depois assentiu.

— Perfeito.

Aproximou-se.

— Agora…

Fique completamente parado durante alguns segundos.

Respirei fundo.

E permaneci imóvel.

Como uma estátua.

Sem qualquer aviso…

Rafael atravessou meu peito com sua espada.

Meu corpo enrijeceu.

Mas…

Não senti dor.

Olhei para baixo.

A lâmina havia atravessado completamente meu corpo.

Mesmo assim…

Nada doía.

Rafael começou a mover lentamente a espada para diferentes direções dentro do meu peito.

Era uma sensação estranha.

Como se alguma coisa estivesse sendo cortada…

Mas não era carne.

Não era osso.

Era outra coisa.

Algo que eu não conseguia explicar.

Alguns segundos depois…

Ele retirou a espada.

No mesmo instante…

Senti algo mudar dentro de mim.

Era uma sensação impossível de descrever.

O contador invisível que sempre existia na minha cabeça…

Desapareceu.

Aquela sensação constante de esperar dez minutos para usar novamente o Artefato…

Simplesmente deixou de existir.

Era como se…

Ele estivesse disponível o tempo inteiro.

Olhei para Rafael completamente incrédulo.

— O… que você fez?!

Rafael guardou calmamente sua espada.

A energia ciana desapareceu como se nunca tivesse existido.

Ele então cruzou os braços.

— Eu desconectei o tempo de espera do seu Artefato.

Fiquei parado.

Tentando entender o que aquilo significava.

Ele continuou:

— A partir de agora, você não vai mais perder o seu Artefato durante as batalhas.

Meu coração acelerou.

— Além disso…

Ele apontou para meu peito.

— As habilidades concedidas pelo Artefato também poderão ser usadas a qualquer momento.

Um sorriso surgiu no meu rosto antes mesmo que eu percebesse.

— Ou seja…

Ele sorriu de canto.

— Você poderá usar o Chá ringan quando quiser.

Minha mente travou.

Era quase impossível compreender o que acabara de acontecer.

Olhei para minhas mãos.

Depois para minha espada.

Depois novamente para Rafael.

— Você…

Minha voz saiu baixa.

— Você não acabou de quebrar uma regra de Scarloon?

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Como assim?

— O tempo de recarga…

Apontei para minha espada.

— Isso não era uma regra absoluta?

Rafael deu uma pequena risada.

— Bem…

Coçou o queixo por alguns segundos.

— Eu descobri que podia fazer isso há bastante tempo.

Começou a caminhar lentamente pela sala.

— E, sinceramente…

Deu de ombros.

— Se nenhum Deus apareceu para me matar depois dessa descoberta…

Parou e olhou para mim.

— Então existem duas possibilidades.

Levantou um dedo.

— Ou ele sabe e gostou da minha esperteza.

Levantou outro.

— Ou simplesmente ainda não percebeu.

Fiquei alguns segundos olhando para ele.

Sem conseguir esconder a animação.

— Rafael…

Meu sorriso aumentou ainda mais.

— Isso é incrível!

Não consegui me controlar.

Corri até ele e o abracei com toda a força.

Ele pareceu surpreso por um instante.

Depois soltou uma pequena risada.

Deu algumas batidinhas leves nas minhas costas antes de me afastar.

— É…

Sorriu.

— Eu sei.

Passou a mão na nuca.

— Uso isso praticamente em tudo que faço de especial.

Olhou diretamente para mim.

— Eu não sou exatamente o scar mais versátil em combate.

Apontou discretamente para mim.

— Mas posso transformar você em alguém assim.

Senti um aperto bom no peito.

Olhei para ele com sinceridade.

— Rafa…

Respirei fundo.

— Eu sou muito grato por ter te conhecido.

Dei um pequeno salto para trás.

Era difícil explicar aquela sensação.

Era como se um peso tivesse desaparecido.

Agora eu poderia usar meu Artefato sempre que precisasse.

Sem pausas.

Sem esperar.

Sem medo de ficar indefeso durante uma luta.

Era…

Liberdade.

Rafael abriu uma das gavetas da mesa.

Retirou uma pequena bolsa de couro com um cinto preso nela.

Estendeu em minha direção.

— Toma.

Peguei o objeto.

— Pra colocar o mapa e a bússola.

Ele cruzou os braços.

— Não quero que você fique com as mãos ocupadas quando estiver lutando.

Sorri.

— Valeu.

Prendi o cinto na cintura e coloquei cuidadosamente o mapa e a bússola dentro da bolsa.

Ela ficou firme ao meu lado.

Levantei os olhos para Rafael.

— Você pensa em tudo.

Ele deu uma pequena risada.

— Sim.

Depois respondeu com a maior naturalidade do mundo.

— Não é à toa que ainda estou vivo.

Acabei rindo também.

— Verdade.

Olhei para a porta da sala.

Respirei fundo.

A hora tinha chegado.

Virei novamente para Rafael.

— Então…

Sorri.

— Terminamos a nossa conversa?

— Ainda não, eu preciso te dar meu Artefato também.

— Verdade, quase que eu esqueci dele kk…

Rafael, com a espada em suas mãos, enfiou ela no seu peito e depois tirou.

E logo em seguida enfiou ela no meu peito.

E eu senti a mesma sensação quando eu adquiri meu artefato.

A sua espada tesoura se desfez em uma energia branca e entrou na minha pele.

Fazendo cocegas.

— Pronto.

Ele arrumou sua postura.

— Então agora terminamos a nossa conversa?

Ele assentiu.

— Diria que sim.

Fez um gesto em direção à porta.

— Pode começar a sua jornada.

Meu coração acelerou.

A primeira missão.

O primeiro Mada.

Clarencio.

Abri um sorriso cheio de confiança.

— Deixa comigo.

Segurei firme na empunhadura da minha espada.

— Eu vou acabar com eles.

Sem esperar mais um segundo…

Saí correndo da sala.

A porta ficou escancarada atrás de mim.


Segui a bússola. O ponteiro indicava a direção da letra N.

Ainda não faço ideia do que essas letras significam, mas o Rafa disse para eu nem perder tempo tentando entender. Era só seguir a direção.

O vento batia contra meu rosto enquanto eu caminhava.

Ao meu redor, nada de diferente.

Abri o mapa e comecei a analisar o trajeto.

Pelo visto, havia três pontos de referência.

Uma enorme pedra azul.

Algumas cabanas abandonadas.

E uma pequena estrada de terra.

Então eu precisava prestar bastante atenção durante o caminho.


2 horas depois

Depois de caminhar por um bom tempo, finalmente encontrei a pedra azul.

Ela era realmente enorme.

Devia ter uns três metros de altura e era extremamente larga.

O mais curioso era sua localização.

Estava completamente sozinha, no meio de uma planície.

Sem árvores.

Sem montanhas.

Sem absolutamente nada ao redor.

Franzi a testa.

Será que existe alguma passagem secreta embaixo dela?

Apoiei as duas mãos na base da pedra e fiz força para levantá-la.

Nada.

Ela nem sequer se mexeu.

— Droga… Ainda não sou forte o bastante para levantar isso. Mas eu vou voltar aqui um dia para descobrir o que essa pedra esconde.

Soltei-a e continuei minha caminhada.


1 hora depois

Ao longe, consegui enxergar algumas cabanas.

Pareciam bem antigas.

Construídas com troncos e folhas.

Até que eram bonitinhas.

Aquilo me lembrou do meu começo.

E, junto da lembrança, veio uma sensação ruim.

Mas não era hora de pensar nisso.

Continuei andando.


3 horas depois

Finalmente encontrei uma trilha de terra rosa.

Uma das referências do mapa.

Isso significava que eu já estava muito perto.

A estrada seguia em direção à parte de baixo da colina onde eu estava.

Sem hesitar, comecei a descer por ela.

Não demorou muito até que uma enorme construção surgisse ao longe.

Um castelo.

Só podia ser o castelo onde o Mada Clarêncio vivia.

Passei a caminhar entre as árvores, usando as sombras como cobertura.

Cada passo era calculado.

Cada movimento, silencioso.

Me escondi atrás do tronco de uma árvore e observei atentamente a entrada do castelo.

Dois guardas.

Os dois estavam na porta principal.

E, pelo jeito, completamente relaxados.

Olhei para o céu.

Ainda faltava bastante tempo para anoitecer.

Então era melhor agir agora.

Meu olhar se fixou em um dos dois.

Agora dependia da sorte.

[Chá ringan]

Impar copiado.

Serras

[Gira, gira]

Cria serras de tamanho médio.

[A motor]

As serras começam a girar.

[Cortante e brutal]

Permite controlar as serras à distância.

Fiz uma careta.

Esse Impar era complicado.

Para lançar apenas uma serra, eu precisava usar as três habilidades em sequência.

Ou seja…

Só conseguiria fazer dois ataques antes de esgotar completamente aquela cópia.

Droga.

Mas…

Eu já tinha exatamente dois alvos.


[Fabricio]

Mais um dia como guarda.

Tudo estava tão tranquilo quanto sempre.

Nenhum scar aleatório apareceu hoje.

E eu já tinha matado meu scar do dia.

Então estava tudo certo.

— Ei, Fabricio. — Claudio falou enquanto eu encarava o horizonte. — Você acha que algum dia isso vai acabar?

Olhei para ele.

— Não. Acho melhor aceitar. Já fazem nove anos. Isso veio para ficar.

Ele soltou um suspiro.

— É foda… mas acho que estou me acostumando a matar. Parece estranho dizer isso, mas eu não sinto mais a mesma hesitação de antes. Meu corpo simplesmente se move sozinho.

Assenti.

— Sei como é. Acho que nossa mente acabou se adaptando. Virou um ciclo.

Voltei a olhar para o céu.

As nuvens amarelas contrastavam com aquele céu rosa-claro.

Era bonito.

Bonito demais para um mundo como aquele.

Foi então que ouvi um som estranho.

Bem distante.

ZIIIIIIIIII…

Meu corpo congelou.

Eu conhecia aquele barulho.

Quando olhei para frente…

Vi uma serra girando em alta velocidade na minha direção.

Me joguei para baixo com toda a força.

A lâmina raspou minha testa.

CRACK!

Ela atingiu a parede atrás de mim com violência.

Por muito pouco.

Levantei imediatamente.

— Claudio! Cuidado! Estamos sendo atacados! E, por algum motivo, ele tem o mesmo Impar que o meu!

Mas…

Assim que olhei para o lado…

Meu corpo travou.

Claudio estava encostado na parede.

Uma enorme serra atravessava seu corpo, dividindo-o ao meio.

Mesmo perdendo a consciência, ele ainda conseguiu sorrir.

— Eu… percebi faz um tempinho… Fabricio…

Logo em seguida…

A metade superior do seu corpo tombou para frente.

Sangue jorrou pelo chão.

Não tive tempo nem de processar o que tinha acabado de acontecer.

SWINH!

Senti um corte atravessar meu peito.

Olhei para baixo.

Uma espada.

Ela foi retirada rapidamente do meu corpo.

Logo depois, recebi um chute violento nas costas.

Caí no chão sem conseguir respirar direito.

Antes que pudesse me levantar…

Senti algo pressionando minhas costas contra o piso.

Levantei os olhos.

A ponta de uma espada estava acima da minha cabeça.

Nem consegui gritar.

Ela desceu.

Perfurando meu crânio.

E tudo terminou ali.


[Samuel]

Retirei minha espada da cabeça do scar.

— Menos dois.

Olhei para o outro.

Ele ainda agonizava, dividido ao meio.

Aproveitei a oportunidade.

[Chá ringan]

Impar copiado.

Camaleão.

Três habilidades.

[Escondidinho]

Pode se camuflar no ambiente.

[Bote]

Ganha mais 5% de Par ao atacar sem ser percebido.

[Cegueta]

Quem olhar para você fica cego por um segundo.

Camaleão?

Que Impar estranho.

Mas eu diria que seria extremamente útil.

Sem perder tempo, ativei uma das habilidades.

[Escondidinho]

Meu corpo desapareceu em meio ao ambiente.

Logo vi vários scars saindo do castelo.

Pelo visto, eles ouviram os gritos.

Perfeito.

Era exatamente isso que eu queria.

Assim que abriram o portão, três deles correram para verificar o que havia acontecido.

Enquanto isso, dois permaneceram dentro.

Esperei os três passarem por mim.

Então entrei silenciosamente no castelo.

Logo vi um dos scars parado ao lado de um enorme botão.

Provavelmente era o mecanismo que abria e fechava o portão.

Aproximei-me sem fazer qualquer barulho.

Quando já estava ao lado dele, ativei meu Artefato.

A espada surgiu instantaneamente em minhas mãos.

Em um único movimento, atravessei suas costas.

Ao mesmo tempo, ativei outra habilidade.

[Bote]

Eu não fazia ideia do que exatamente representavam aqueles cinco por cento de Par.

Mas o resultado foi assustador.

Minha espada atravessou seu corpo como se estivesse cortando manteiga.

SWINH!

Ele caiu morto na mesma hora.

O outro scar arregalou os olhos.

— INTRUSO!

Mas já era tarde.

Corri até o botão.

Apertando ele.

O enorme portão começou a descer imediatamente.

Os três scars que estavam do lado de fora correram de volta.

Tarde demais.

O portão bateu no chão antes que conseguissem entrar.

Eles começaram a bater com força, tentando levantá-lo.

Não adiantava.

Meu foco agora era outro.

A scar que ainda permanecia dentro do castelo.

Ela parecia completamente apavorada.

— V-você… como você…

— Não quero perder tempo. Onde está o Clarêncio?

Ela me encarou, completamente surpresa.

— O Clarêncio? O que você quer com ele?

— Conversar.

Ela olhou para os corpos no chão.

— Então por que matou eles?

— Isso é detalhe. Só me diz onde ele está. Eu mesmo acabo com isso. Não vou matar nenhum de vocês. Prometo.

Ela continuava sem entender.

— Mas… por que você quer matar o Clarêncio?

Respirei fundo.

— Porque ele está causando mal a todos os scars de Scarloon.

Ela abaixou um pouco a cabeça.

— Isso… é verdade…

Fez uma breve pausa.

— Mas então por que veio atrás justamente dele? Existem outros Madas que causam muito mais mortes que o Clarêncio.

Sorri de leve.

— Quer saber o porquê?

Ela permaneceu em silêncio.

Mas eu já sabia qual era minha missão.

Não podia perder tempo.

Saquei minha espada.

Os olhos dela se arregalaram.

— Eu não vou morrer tão facilmente! Eu ainda não vou morrer!

Suspirei.

— Eu só… sinto muito.

Apertei o cabo da espada.

— Você não merecia estar nessa situação.

— Mas eu vou fazer o que é certo.

Avancei.

Usando seus reflexos, ela apontou o dedo na minha direção.

Ia usar seu Impar.

Mas…

Sua energia simplesmente falhou.

Por algum motivo.

— Droga…

Não desperdicei aquela oportunidade.

Desferi um corte.

Sua mão caiu no chão.

Ela gritou.

Outro golpe.

Agora nas pernas.

Ela desabou.

O sangue começou a escorrer pelo piso.

Lágrimas desciam por seu rosto.

Seus gritos ecoavam pelo castelo inteiro.

Mas eu não tinha tempo.

Segurei seu rosto com firmeza.

[Nada se cria, tudo se copia]

Copiei seu Impar.

Logo depois…

Enfiei minha espada em seu pescoço.

Os gritos cessaram imediatamente.

Olhei para seu corpo.

— Menos quatro.

Analisei o novo Impar.

Vidro

Suas habilidades eram:

[Vrido]

Cria vidro.

[Vidraceiro]

Manipula vidro.

[Temperado]

Transforma o próprio corpo em vidro.

Era um Impar que refletia perfeitamente quem o possuía.

Mas não tive tempo para pensar nisso.

POW!

Um estrondo ecoou acima de mim.

Saltei para trás por instinto.

Destroços caíram exatamente onde eu estava um segundo antes.

Quando a fumaça começou a baixar…

Três scars apareceram.

Os mesmos que haviam ficado presos do lado de fora do castelo.

O do meio tinha a cabeça em formato de um "L" invertido na horizontal.

O da direita tinha uma cabeça em formato de "C".

E o da esquerda, uma cabeça em formato de "q".

Os três me encaravam com pura raiva.

— Você não vai sair vivo daqui! Ninguém entra nesse castelo, mata nossos amigos… e vai embora como se nada tivesse acontecido!

Suspirei.

— Bem… eu realmente precisava fazer isso.

Ergui minha espada.

— Uma pena que vocês decidiram ficar no meu caminho.

[Escondidinho]

Meu corpo desapareceu novamente.

Os três scars arregalaram os olhos por um instante, completamente confusos com o meu sumiço repentino.

Rapidamente, eles mudaram de formação, ficando de costas uns para os outros enquanto observavam atentamente todo o salão do castelo.

Alguns já empunhavam seus Artefatos.

Apenas o scar com a cabeça em formato de "L" ainda não havia invocado o seu.

Mas eu já tinha um plano.

[Vrido]

Criei discretamente uma pequena esfera de vidro atrás de mim.

Então a arremessei para o lado oposto e, ao mesmo tempo, corri na direção contrária.

CRACK!

O vidro se estilhaçou contra a parede.

Os três olharam imediatamente para o barulho.

Foi exatamente o instante de que eu precisava.

Apareci atrás do scar distraído e deslizei minha espada por seu pescoço.

SWINH!

[Bote]

A habilidade aumentou drasticamente o poder do meu ataque.

O corte atravessou sua garganta quase sem resistência.

Os outros dois finalmente perceberam minha presença.

Sem perder tempo, ativei outra habilidade.

[Cegueta]

Seus olhos ficaram completamente vermelhos.

Os dois atacaram desesperadamente, sem enxergar absolutamente nada.

Como eu não era bobo, usei o próprio corpo do scar "L" como escudo.

Os golpes acertaram seu companheiro em cheio.

Enquanto isso acontecia…

Segurei seu rosto.

[Nada se cria, tudo se copia]

Comecei a copiar seu Impar enquanto ele ainda permanecia vivo, mesmo que por poucos segundos.

Pouco depois, a cegueira terminou.

Os dois voltaram a enxergar.

E deram de cara comigo segurando o companheiro quase morto.

Sem pensar duas vezes, vieram correndo na minha direção.

[Vrido]

Criei duas grossas placas de vidro à minha frente.

Os ataques deles atingiram a barreira.

CRACK!

Diversas rachaduras apareceram.

Mas o vidro resistiu.

Quatro…

O tempo da cópia finalmente terminou.

Sem desperdiçar a oportunidade, completei o corte no pescoço do scar.

Seu corpo caiu mole no chão.

Os outros dois congelaram por um instante.

O choque era evidente em seus rostos.

— Como… você tem o Impar de todos eles? Você rouba os Impares de quem mata!?

— Uh? Não. Nem preciso matar. É só um dom natural.

[Escondidinho]

Meu corpo desapareceu outra vez.

Os dois começaram a olhar freneticamente para todos os lados.

O scar em formato de "C" sentiu algo tocar suas costas.

Instintivamente, girou o corpo e golpeou com sua barra metálica.

Mas não era eu.

Era apenas um bloco de vidro.

CRASH!

Os estilhaços voaram em todas as direções, cortando parte do seu corpo.

Ele nem teve tempo de sentir a dor.

Eu já estava atrás dele.

SWINH!

SWINH!

Dois golpes profundos rasgaram suas costas.

Graças ao [Bote], os cortes foram muito mais profundos do que normalmente seriam.

Ele gritou de dor.

Aproveitei o desequilíbrio e chutei suas costas.

Seu corpo foi lançado contra os cacos espalhados pelo chão.

Uma cena grotesca.

Ele não resistiu por muito tempo.

Nesse momento…

A cópia do Impar Camaleão desapareceu.

Uma pena.

Era um Impar realmente muito útil.

Restava apenas o scar de cabeça em formato de "q".

Ele permanecia imóvel.

Seu corpo inteiro tremia.

— Seu… seu…

— O quê?

— FILHA DA P-!

Interrompi imediatamente.

— NÃO XINGA!

Corri na direção dele com a espada em mãos.

Por algum motivo…

Ele simplesmente não reagiu.

Minha lâmina atravessou sua cabeça em um único movimento.

Partindo-a ao meio.

Estranho.

Mesmo depois de todos aqueles meses de treino, eu ainda não imaginava ser capaz de partir um scar ao meio tão facilmente.

Mas percebi rapidamente que havia algo errado.

Seu corpo continuava em pé.

Mesmo sem cabeça.

No instante seguinte, ele avançou contra mim.

Suas garras metálicas rasgaram minha barriga antes que eu pudesse reagir.

RASG!

A dor foi imediata.

Mas não havia tempo para senti-la.

Contra-ataquei no mesmo instante.

Minha espada cortou seu braço.

Que foi arrancado completamente.

Foi então que reparei em algo estranho.

Dentro da abertura de sua cabeça partida…

Algo pulsava.

Como se estivesse crescendo.

Aquilo definitivamente parecia perigoso.

Saltei para trás.

E foi a melhor decisão que poderia ter tomado.

KABOOOM!

O scar simplesmente explodiu.

Carne.

Ossos.

Fragmentos.

E uma enorme quantidade de gosma verde-escura voou para todos os lados.

Parte daquela substância atingiu meu ombro.

Instantaneamente senti um forte formigamento.

Quase como uma queimadura.

Limpei a gosma rapidamente e a joguei no chão.

Mas não tive tempo nem para respirar.

Do lugar onde o scar havia explodido…

Dez pequenas criaturas surgiram.

Eram verdes.

Possuíam corpos retorcidos.

Dentes extremamente afiados.

E lembravam pequenos scars deformados.

Rosnaram em minha direção.

Logo depois…

Vieram correndo para cima de mim.

Mas eu não tinha apenas minha espada.

Agora eu também possuía o Impar do scar "L".

Massa.

Suas habilidades eram:

[Calor ias]

Altera sua própria massa corporal, sentindo apenas um quinto do peso real.

[Massa demaize]

Altera a massa de algo ao toque. (MS)

[Vermelho azulado]

Cria uma massa imaginária.

Eu já sabia exatamente qual habilidade utilizar.

[Massa demaize]

Aumentei instantaneamente a massa da minha espada.

No momento em que ela atravessou o primeiro daqueles bichos…

Foi como cortar o vento.

A lâmina simplesmente passou.

Sem resistência.

Então continuei repetindo exatamente a mesma estratégia.

Toda vez que um deles avançava…

Eu aumentava a massa da espada exatamente no instante do golpe.

Um.

Dois.

Três.

Cinco.

Sete.

Até que, por fim…

O último deles também foi partido ao meio.

— Dez…

Senti que a cópia do Impar Massa estava prestes a acabar.

Mesmo assim…

Aquele poder tinha sido um verdadeiro milagre.

Aquelas criaturas eram extremamente resistentes e incrivelmente rápidas.

Sem aquele Impar, provavelmente eu teria tido muito mais dificuldade.

Se eu eliminei todos eles…

Então…

Menos sete.

Agora só faltavam os Gomendis restantes…

E o Clarencio.

Eles ainda deviam estar em algum lugar daquele castelo.

Só havia um problema.

Eu só podia copiar mais dois Impares antes de esgotar completamente minha energia.

Ainda assim…

Era um avanço enorme.

Seis Impares.

Muito melhor do que meses atrás.

Passei a mão sobre o corte na barriga.

Alguns arranhões também marcavam minhas mãos, causados pelos pequenos monstros.

Mas nenhum daqueles ferimentos colocava minha vida em risco.

Olhei para os corpos espalhados pelo chão.

Para todo aquele sangue.

Por um instante…

Meu estômago embrulhou.

A vontade de vomitar quase venceu.

Mas, ao mesmo tempo…

Eu sabia que havia livrado Scarloon de muito sofrimento.

Todos eles eram obrigados a matar um scar por dia para sobreviver.

Agora…

Sem eles…

Muitos inocentes continuariam vivos.

Era uma troca.

Uma vida…

Por muitas outras.

Uma troca equivalente.

Foi então que, enquanto caminhava mais para o interior do castelo…

Vi alguém parado ao fundo do salão.

Observei atentamente seu rosto.

Era circular.

Metade escuro.

A outra metade dividida em quatro partes, lembrando um gráfico de pizza.

Seu semblante era sério.

Mas havia uma tristeza profunda escondida nele.

— O que você fez?

Bastou sentir sua presença para entender.

Era ele.

Clarencio.

Uma energia escura escapava continuamente de seu corpo.

O Fragmento do Medo.

O verdadeiro motivo de eu estar ali.

E eu não iria embora sem ele.

Essa era a minha missão.

— Matei eles.

Apontei minha espada em sua direção.

— Porque eu vim acabar com você.

Seu rosto demonstrou confusão.

Mas, por um breve instante…

Um pequeno sorriso apareceu.

Quase imperceptível.

Como se alguma parte daquela situação tivesse lhe trazido alívio.

Logo depois, voltou ao semblante sério.

— Entendi…

Ele respirou fundo.

— Nesse caso… o que você quer com isso?

Sorri.

— Pegar o Fragmento do Medo que você carrega.

Apertei com força o cabo da espada.

— E eu vou conseguir.

— Não adianta fugir.

— Eu vou lutar com você!

Minha voz ecoou por todo o castelo.

Anunciando que…

Minha primeira luta de verdade…

Estava prestes a começar.

E eu estava mais do que pronto.