Fui levado por um dos guardas até a sala do chefe do Coliseu.

Saímos da arena e atravessamos um corredor de pedra que logo deu lugar a uma longa escadaria em espiral. Cada degrau parecia me lembrar do quanto meu corpo ainda doía. Meu braço continuava latejando por causa do enorme ferimento deixado pelo Scar dos Ossos, e cada passo fazia os cortes nos pés reclamarem.

Mesmo assim, continuei subindo.

Depois de uma longa caminhada, finalmente chegamos ao último andar.

Ali havia um corredor extenso, com diversas portas alinhadas dos dois lados. Algumas estavam fechadas, outras entreabertas, mas nenhuma chamava tanta atenção quanto a última.

Acima dela havia apenas um nome.

"Rafael".

O guarda bateu duas vezes.

Sem esperar resposta, abriu a porta para mim.

— Pode entrar.

Assim que atravessei a entrada, ouvi a porta sendo fechada atrás de mim.

Olhei ao redor.

Era uma sala enorme.

As janelas estavam completamente cobertas por grossas cortinas, e, por trás delas, era possível perceber grades de ferro protegendo toda a estrutura.

Então nem se eu quisesse escapar por ali conseguiria.

Meu olhar subiu.

No teto…

Uma mesa.

Cadeiras.

Tudo preso de cabeça para baixo, como se aquele fosse o chão verdadeiro.

— …

Que lugar estranho.

Voltando a observar o restante da sala, vi diversas luminárias iluminadas por velas espalhando uma luz alaranjada pelo ambiente.

Um grande tapete vermelho atravessava todo o cômodo, terminando diante de um enorme trono.

Sentado nele…

Estava um Scar.

Seu rosto era redondo, mas vários espinhos saíam do topo e das laterais da cabeça, formando uma silhueta incomum.

Ele me observava em silêncio.

Seu olhar não parecia agressivo.

Parecia… curioso.

Respirei fundo e caminhei até ele.

Quando parei diante do trono, ele abriu um pequeno sorriso.

— Bem-vindo, vencedor. Imagino que tenha vindo buscar seu prêmio.

Assenti.

— Meu Artefato.

— Então espere um instante.

— Claro.

Enquanto ele se levantava do trono, percebi uma coisa.

Desde que eu havia sido colocado naquela sala de espera antes da luta…

Aquela sensação que me guiava até o meu Artefato simplesmente havia desaparecido.

Antes ela parecia puxar meu corpo.

Agora…

Nada.

Talvez fosse normal.

Ou talvez aquele lugar impedisse essa ligação.

Não fazia ideia.

Fiquei apenas esperando.

Rafael caminhou até o centro da sala.

Assim que estalou os dedos…

Vários pilares começaram a surgir lentamente do chão.

Cada um carregava um cubo de cor diferente.

Branco.

Azul.

Verde.

Vermelho.

Preto.

Amarelo.

Havia dezenas deles.

Todos perfeitamente alinhados.

Meu coração acelerou.

Rafael foi caminhando calmamente entre os pilares.

Parou diante daquele que ficava mais próximo do trono, do lado esquerdo.

Estendeu a mão.

Assim que seus dedos tocaram o cubo…

Meu peito vibrou.

Aquela sensação voltou.

Muito mais intensa do que antes.

Era ele.

Sem sombra de dúvidas.

Meu Artefato.

Rafael percebeu minha reação.

Sorriu discretamente.

Então simplesmente lançou o cubo na minha direção.

Por reflexo, estendi as mãos.

Segurei o objeto antes que caísse.

No mesmo instante…

A conexão ficou absurdamente forte.

Era como reencontrar algo que eu nem sabia que estava sentindo falta.

Olhei para aquele pequeno cubo branco.

Era simples.

Liso.

Sem detalhes.

Mesmo assim…

Eu tinha certeza absoluta.

Ele era meu.

Atrás de mim, ouvi Rafael voltar a se sentar no trono.

Ignorei completamente sua presença.

Toda minha atenção estava naquele objeto.

Eu…

Sabia exatamente o que fazer.

Sem que ninguém precisasse explicar.

Segurei o cubo com mais firmeza.

No instante seguinte…

Ele começou a emitir uma luz branca.

Uma luz suave.

Quase quente.

O cubo perdeu sua forma rígida.

Como se estivesse derretendo.

Aquela matéria luminosa escorreu lentamente sobre minhas mãos.

Depois pelos braços.

Subindo.

Se espalhando pelo meu corpo inteiro.

Senti um leve arrepio.

Depois…

Cócegas.

Era uma sensação estranha.

Mas não desagradável.

Pelo contrário.

Parecia que meu próprio corpo estava aceitando aquela energia.

Fechei os olhos por um instante.

E senti.

Meu Impar…

Estava diferente.

Mais forte.

Mais vivo.

Era como se algo dentro de mim tivesse despertado.

Mas…

Eu também tinha certeza de outra coisa.

Aquilo não era tudo.

O Artefato ainda escondia alguma função que eu não compreendia.

— Cof… cof…

Ouvi Rafael limpar a garganta.

Abri os olhos.

Ele continuava sentado no trono, observando tudo com bastante interesse.

— Qual é o seu nome?

— Samuel.

Ele repetiu o nome em voz baixa.

— Samuel…

Ficou alguns segundos em silêncio.

Depois cruzou os braços.

— Você tem um Impar bem interessante.

Sorri sem graça.

— Todo mundo fala isso.

Ele soltou uma pequena risada.

— Imagino.

— O que foi?

— Nada demais. Só fiquei curioso depois da sua luta.

Inclinei um pouco a cabeça.

— Sério?

— Sim.

Ele apoiou um braço no trono.

— Você parece muito jovem… e claramente não possui tanta experiência em combate.

Seu olhar ficou mais atento.

— Mesmo assim, derrotou dois Scars sozinho praticamente sem dificuldades.

Pensei por alguns segundos.

— Bem… realmente aconteceu.

Rafael continuou me observando.

Então fez uma pergunta completamente diferente.

— Posso tirar uma dúvida?

— Pode.

— Por que você fechou os olhos para matar aquele Scar com quem fez aliança?

Meu peito pesou imediatamente.

Arthur.

Por alguns segundos, a imagem dele voltou à minha cabeça.

Respirei fundo.

E respondi com sinceridade.

— Porque eu não queria lembrar dele daquele jeito.

O silêncio tomou conta da sala.

Rafael não respondeu de imediato.

Ficou apenas olhando para mim.

Depois perguntou:

— Vocês já se conheciam antes de entrarem no Coliseu?

Balancei a cabeça.

— Não.

— Então se conheceram durante a batalha?

— Sim.

Ele franziu a testa.

Claramente confuso.

— Nesse caso…

Por que se preocupar tanto?

Você matou todos os outros sem hesitar.

Por que justamente ele foi diferente?

Olhei para o chão.

Depois voltei a encará-lo.

— Porque ele era uma boa pessoa.

Rafael cruzou os braços.

— Você não conhecia o suficiente para afirmar isso.

Balancei lentamente a cabeça.

— Talvez.

Respirei fundo.

— Mas eu vi o jeito que ele falava.

O jeito que lutava.

O jeito que aceitou o próprio destino.

Ele não queria machucar ninguém.

Só queria sobreviver.

Fiz uma pequena pausa.

— E no final…

Foi ele quem decidiu me entregar essa vitória.

Rafael permaneceu em silêncio por alguns segundos.

Seu olhar parecia distante.

Como se aquela resposta tivesse feito lembrar de alguma coisa.

Então um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.

— Interessante…

Olhei sem entender.

— O quê?

Ele apoiou as costas no trono.

— Eu realmente não esperava encontrar alguém como você.

— Como assim?

— Um Scar que ainda sente empatia.

Ele soltou uma risada baixa.

Sem humor.

— Hoje em dia…

Normalmente só aparecem malucos…

Ou gente de mau caráter.

Às vezes…

Os dois ao mesmo tempo.

Baixei um pouco o olhar.

— É…

Eu também percebi isso.

Durante todos aqueles anos na floresta, praticamente todo scar que encontrei tentou me matar.

Sem conversar.

Sem perguntar quem eu era.

Sem pensar duas vezes.

Apenas…

Matar.

Rafael permaneceu em silêncio por alguns segundos.

Depois voltou a me encarar.

— Samuel…

Você vive em Scarloon há quanto tempo?

Parei para pensar.

Nunca tinha feito essa conta.

— Tempo…

Olhei para o teto enquanto tentava lembrar.

— Eu cheguei aqui em… 1793…

Que ano é hoje?

— 1810. — Ele respondeu.

Voltei a olhar para ele.

— Dá dezessete anos.

Ele assentiu lentamente.

— Dezessete anos…

Sua expressão mudou.

Como se tivesse percebido alguma coisa.

— Então…

Você viu a Queda dos Céus?

Franzi a testa.

— Não entendi.

Ele pareceu ainda mais confuso.

— Em 1800.

Com a chegada do Adam.

Como você não sabe disso?

Balancei a cabeça.

— Eu não sei quem é Adam, moço.

Por alguns instantes, Rafael apenas ficou parado.

Depois levou a mão à própria testa.

— Entendi…

Respirou fundo.

— Mas antes de falar sobre isso…

Eu tenho uma proposta para você.

Meu interesse despertou imediatamente.

— Uma proposta?

— Isso.

Ele se inclinou um pouco para frente.

— Eu quero que você fique aqui.

Pisquei algumas vezes.

— Quê?

— Aqui mesmo.

No Coliseu.

Ele abriu os braços, indicando o lugar ao redor.

— Existem vários quartos vazios.

Você terá onde dormir.

Segurança.

Nenhum scar maluco vai entrar aqui sem ser visto pelos guardas.

Continuei olhando para ele, sem entender.

— Mas…

Por que esse convite do nada?

Rafael sorriu discretamente.

— Porque eu vejo potencial em você.

Apoiou os cotovelos sobre os joelhos.

— Em todos esses anos administrando este Coliseu…

Nunca encontrei um scar com mais de um Impar ao mesmo tempo.

Sorri sem jeito.

— Mas eu não tenho mais de um Impar.

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Ah, é?

Então qual é o seu?

Respondi naturalmente.

— Copiar.

Eu copio Impares.

E recentemente descobri que também consigo copiar movimentos dos outros scars.

A reação dele foi imediata.

Seus olhos brilharam.

— Isso…

Ele soltou uma pequena risada de incredulidade.

— É ainda melhor do que eu imaginava.

Levantou-se do trono.

Começou a caminhar lentamente até mim.

— Samuel…

Seu Impar talvez seja o mais poderoso que eu já vi desde que assumi este Coliseu.

Inclinei um pouco a cabeça.

— Sério?

Ninguém tinha um Impar melhor que o meu?

Ele balançou a cabeça.

— Não diria melhor.

Existiam Impares muito mais destrutivos.

Muito mais brutais.

Mas…

Ele parou bem à minha frente.

— Nenhum era tão completo quanto o seu.

Aquilo me deixou sem reação.

Eu sempre achei meu Impar complicado.

Difícil de usar.

Cheio de limitações.

Nunca imaginei alguém chamando ele de poderoso.

Rafael continuou.

— Se você aceitar minha proposta…

Eu ensino tudo o que sei.

Tudo sobre Scarloon.

Tudo sobre Impares.

Artefatos.

A história deste mundo.

Tenho contatos.

Tenho informações.

Tenho conhecimento suficiente para fazer você crescer muito mais rápido.

Meu coração acelerou.

Conhecimento.

Era exatamente disso que eu precisava.

Se eu entendesse melhor como meu Impar funcionava…

Talvez eu finalmente pudesse ficar forte.

Forte o suficiente para voltar.

Olhei diretamente para Rafael.

— Você…

Sabe como eu posso voltar para casa?

A pergunta saiu antes mesmo que eu percebesse.

Ele permaneceu em silêncio.

— Casa…

Repetiu lentamente.

— Talvez eu possa responder.

Mas primeiro…

Onde fica?

Sem hesitar, respondi.

— Perto do Templo dos Adedonhas.

No mesmo instante.

O rosto de Rafael perdeu a cor.

Ele arregalou os olhos.

— Então…

É impossível.

Meu peito apertou.

— Sério?

Ele confirmou com um movimento lento da cabeça.

— Existe um monstro protegendo aquele lugar.

Qualquer scar que tente se aproximar…

Morre.

Senti um frio percorrer meu corpo.

Aquela descrição…

Era familiar.

Engoli seco.

— Esse monstro…

Tem a cabeça em formato de estrela?

Rafael me encarou completamente surpreso.

— Isso mesmo.

Mas…

Como você sabe?

Levei a mão até o pescoço quase por reflexo.

Mesmo tantos anos depois…

Ainda conseguia lembrar da sensação.

Da pressão.

Da dor.

Da falta de ar.

— Porque…

Minha voz saiu baixa.

— Eu encontrei ele.

O choque estampou completamente o rosto de Rafael.

— E…

Sobreviveu?

Fechei os olhos por um instante.

— Mais ou menos.

Respirei fundo.

— No momento em que ele estava me matando…

Eu consegui copiar o Impar dele.

Depois…

Eu morri.

E acordei em uma floresta escura.

Rafael ficou completamente imóvel.

Como se tentasse entender o que tinha acabado de ouvir.

— Você…

Reviveu?

Assenti.

— O Impar dele era Determinação.

Uma das habilidades se chamava…

"Se matou-se".

Ela faz quem morreu voltar à vida.

Rafael levou lentamente a mão à cabeça.

Pensativo.

Muito pensativo.

— Eu…

Não fazia ideia dessa informação…

Murmurou quase para si mesmo.

— Isso é impressionante…

Ficamos alguns segundos em silêncio.

Então ele voltou ao assunto principal.

— Mesmo assim…

Continua sendo impossível.

Você não consegue voltar para aquele lugar.

— Entendi… então eu realmente não tenho o que fazer…

As palavras saíram quase sem força.

Assim que terminei de falar, fiquei em silêncio.

Minha cabeça começou a ligar os pontos.

Eu realmente não tinha pensado nisso.

Se eu tentasse voltar para a casa enterrada…

Eu morreria de novo.

E, mesmo que conseguisse chegar perto do Otávio, quem garante que ele me daria outra oportunidade de copiar o Impar dele?

Da primeira vez foi pura sorte.

Ele me matou antes mesmo de saber o que eu era.

Agora…

Talvez nem isso acontecesse.

Eu não podia arriscar.

Ergui lentamente os olhos para Rafael.

Ele permanecia me encarando em silêncio, esperando minha resposta.

Respirei fundo.

Meu peito pesava.

Então, com uma melancolia que eu nem tentei esconder, respondi:

— Eu aceito sua proposta… acho que minha jornada acaba aqui.

Rafael observou meu rosto por alguns segundos.

Seu semblante endureceu por um instante, mas logo voltou ao normal.

Quando falou, sua voz parecia até um pouco mais gentil.

Como se estivesse tentando me consolar.

— Pode escolher qualquer um dos quartos do primeiro andar. Eu aviso aos guardas que, a partir de agora, você vai morar aqui.

Apenas assenti.

Não havia mais nada para dizer.

Virei as costas e comecei a caminhar em direção à porta.

Assim que saí da sala, comecei a descer lentamente as longas escadas do Coliseu.

Cada degrau parecia mais pesado que o anterior.

Enquanto caminhava…

Meus pensamentos voltaram.

Nunca mais…

Nunca mais eu vou conseguir voltar para eles.

Aquela frase ecoava na minha cabeça sem parar.

Eles…

Eles nunca mais vão me ver.

Será que ainda lembram de mim?

Quanto tempo já passou?

Dezessete anos…

Dezessete anos são suficientes para esquecer alguém?

Talvez…

Talvez eles já tenham seguido em frente.

Talvez…

Eles tenham aprendido a viver sem mim.

Engoli seco.

Eu deveria fazer o mesmo?

Esquecer deles também?

Não.

Só de pensar nisso…

Meu peito doía.

Continuei andando pelo corredor até encontrar uma sequência de portas.

Escolhi uma delas ao acaso.

Empurrei a maçaneta.

A porta rangeu lentamente.

O quarto era simples.

Muito simples.

Havia apenas uma cama.

Uma pequena cabeceira de madeira.

Algumas velas espalhadas para iluminar o ambiente.

E paredes feitas daquela mesma pedra arroxeada que formava todo o Coliseu.

Entrei.

Fechei a porta atrás de mim.

Sem dizer uma palavra.

Sem pensar muito.

Apenas me joguei sobre o colchão.

Fiquei olhando para o teto.

As pedras roxas pareciam completamente vazias.

Assim como eu.

Acho que…

Não tem mesmo o que fazer.

É…

Aceitar.

Aceitar que eu vou morar aqui.

Aceitar que nunca mais vou ver meus irmãos.

Aceitar que…

Aquela vida acabou.

Eu ainda não entendo…

Por que continuo alimentando essa esperança?

Por que continuo acreditando que um dia vou encontrar eles?

Desiste.

Você não é bom o bastante.

Nunca foi.

Eu…

Eu mereço isso.

Fechei lentamente os olhos.

Tentando não pensar.

Tentando esquecer.

Tentando fingir que ainda existia alguma solução.

Tentando fingir…

Que eu ainda era alguém importante nesse mundo.

Continuei imóvel.

Fingindo dormir.

Até que, em algum momento…

Sem nem perceber…

O sono finalmente venceu.


Dia seguinte

TOC.

TOC.

Uma batida firme ecoou pela porta.

Abri os olhos devagar.

Por alguns segundos, nem lembrava onde estava.

Olhei ao redor.

As paredes roxas.

As velas.

A cama.

Ah.

O Coliseu.

Levantei devagar e caminhei até a porta.

Assim que a abri, encontrei um dos guardas parado do lado de fora.

Ele me encarou com seu habitual semblante sério.

— O chefe tá te chamando.

Apenas fiz um sinal positivo com a cabeça.

Fechei a porta atrás de mim e comecei a subir novamente.

Curiosamente…

Dessa vez nenhum guarda veio me escoltar.

Acho que Rafael já havia avisado a todos que eu podia circular livremente pelo Coliseu.

Depois de subir todos os lances de escada, cheguei novamente ao último andar.

Fui até o fim do corredor.

Parei diante da porta.

Respirei fundo.

E entrei.

A sala estava diferente da última vez.

A enorme mesa e as cadeiras que antes estavam presas ao teto agora ocupavam seu lugar normal, no centro do cômodo.

Rafael já estava sentado em uma das cadeiras.

Assim que entrei, ele apenas ergueu os olhos na minha direção.

Depois fez um pequeno gesto com a cabeça, indicando a cadeira à sua frente.

Obedeci.

Puxei a cadeira.

Sentei.

Ele ficou me encarando por alguns instantes.

Seu olhar continuava sério.

Mas havia alguma coisa nele…

Algo inteligente.

Calculista.

Me lembrava bastante o jeito que o Thauan olhava quando estava pensando em alguma estratégia.

Depois de alguns segundos, ele perguntou:

— Dormiu bem?

Sorri de forma quase automática.

— Sim.

Menti.

Rafael apenas assentiu, como se tivesse acreditado na resposta.

— Que bom… porque eu queria conversar um pouco com você.

Inclinei levemente a cabeça.

— O que você poderia querer conversar comigo?

Um pequeno sorriso surgiu no canto de sua boca.

Não era um sorriso de felicidade.

Parecia mais o de alguém que sabia exatamente como prender a atenção de outra pessoa.

— Algo que pode despertar o seu interesse.

Minha curiosidade falou mais alto.

Cruzei os braços sobre a mesa.

— Ok… pode me contar.

Ele sustentou meu olhar por alguns segundos.

Então respondeu com tranquilidade.

— Uma forma de você poder salvar esse mundo.

Meu olhar subiu imediatamente para o dele.

Salvar…

Esse mundo?

Por um instante achei que tinha ouvido errado.

— Salvar esse mundo?

— Isso mesmo.

Sua voz perdeu qualquer traço de brincadeira.

— Acabar com essa quantidade absurda de mortes. Derrubar a tirania que corrói Scarloon por inteiro. Arrancar o mal pela raiz.

Ele fez uma breve pausa antes de completar:

— E, depois que fizer isso… você pode voltar para a sua casa.

Meu coração disparou.

Voltar…

Para casa?

Depois de tudo o que ele tinha acabado de dizer ontem?

Aquilo parecia impossível.

Mas, ao mesmo tempo…

Era a primeira vez, em tantos anos, que alguém me apresentava uma possibilidade.

Mesmo que distante.

Mesmo que absurda.

Ainda assim…

Era uma possibilidade.

Engoli em seco.

— Como… eu faço isso?

Rafael apoiou os cotovelos sobre a mesa.

Seu semblante ficou sério.

— Não vai ser fácil.

Fez outra pequena pausa.

— Na verdade… vai ser muito difícil.

Curiosamente…

Aquela frase não me desanimou.

Pelo contrário.

Depois de tudo o que vivi durante aqueles anos naquela floresta…

A dificuldade já fazia parte da minha vida.

Se existia um caminho…

Eu queria seguir.

Rafael continuou:

— Será uma jornada.

A palavra ficou ecoando na minha cabeça.

Jornada.

— Você vai caçar os mais fortes de toda Scarloon.

Ele falava como alguém que já tinha pensado naquele plano centenas de vezes.

— Vai reunir poder suficiente para derrotar o mal que domina este mundo.

Respirou fundo.

— Uma caçada aos dez Madas… e, no fim dela, a morte do líder deles.

Ele pronunciou o nome lentamente.

— Adam.

Jornada…

Era exatamente isso.

Sem perceber, comecei a lembrar dos anos que passei caminhando sozinho.

Da floresta escura.

Da cabana.

Dos dias escondido.

Dos monstros.

Das mortes.

No fundo…

Minha vida já era uma jornada.

Só que sem direção.

Sem objetivo.

Agora…

Ela finalmente tinha um.

Rafael prosseguiu.

— Depois que conseguir reunir poder suficiente… você poderá derrotar o monstro de cabeça estrelada que tirou sua vida.

Meu corpo inteiro ficou tenso.

— Otávio.

Aquele nome.

Otávio.

Então…

Era esse o nome dele.

Algo estranho aconteceu dentro de mim.

Meu peito apertou.

Ao mesmo tempo que aquele nome me lembrava da pior dor que já senti…

Também me lembrava da segunda chance que recebi.

Foi graças ao Impar dele…

Que eu ainda estava vivo.

Determinação.

O nome daquela habilidade parecia fazer ainda mais sentido agora.

Levantei os olhos para Rafael.

Não precisei pensar muito.

— Eu aceito.

Minha voz saiu firme.

Muito mais firme do que eu imaginava.

— O que eu preciso fazer para matar ele?

Rafael abriu um sorriso.

Não era um sorriso de deboche.

Era um sorriso de satisfação.

Como se esperasse exatamente aquela resposta.

— É difícil…

Ele cruzou os braços.

— Mas confia em mim.

Seu sorriso aumentou.

— É um plano perfeito.

Sem perceber…

Comecei a sorrir também.

Fazia muito tempo que eu não sentia aquilo.

Era estranho.

Mas ao mesmo tempo…

Era bom.

Aquilo parecia uma história de herói.

Uma verdadeira jornada.

O protagonista que enfrenta monstros.

Fica mais forte.

Derrota o grande vilão.

E salva todo mundo.

Talvez…

Talvez eu realmente pudesse fazer isso.

Olhei novamente para Rafael.

— Eu tô confiante.

Rafael assentiu lentamente.

Então seu semblante voltou a ficar sério.

— Nesse caso…

Deixa eu te explicar como esse mundo chegou até esse ponto.

Ele respirou fundo antes de começar.

— Em 1800…

Um ser conhecido como Adam despertou.

Sua voz ficou mais pesada.

— Um ser absurdamente poderoso.

Alguém que possuía força suficiente para mudar completamente a história de Scarloon.

Mas…

Ao invés de aparecer diante de todos…

Ele preferiu permanecer escondido.

— Adam ocultou sua existência para que os Adedonhas não o encontrassem antes que seus planos estivessem prontos.

Rafael fez uma pequena pausa.

Seu olhar parecia distante.

Como se estivesse revivendo aquela época.

— Depois disso…

Ele foi diretamente até o Templo do Substantivo.

Meu corpo ficou imóvel.

Rafael continuou.

— E matou… os três Adedonhas.

A sala mergulhou em silêncio.

Então ele pronunciou, um por um:

— Jasmine.

— David.

— E Umberto.

Respirei devagar.

Os três…

Todos tinham morrido.

Todos.

Rafael permaneceu em silêncio por alguns instantes.

Como se quisesse que eu entendesse o peso daquelas palavras antes de continuar.

Então voltou a falar.

— Depois de matar os três Adedonhas…

Sua voz ficou ainda mais séria.

— Adam instaurou o caos em toda Scarloon.

Franzi a testa.

Caos…

Era exatamente essa a palavra que definia tudo o que eu tinha vivido desde que cheguei naquele mundo.

Rafael continuou:

— Foi ele o responsável por todos os Scars passarem a conseguir se machucar… e até morrer uns para os outros.

Meu olhar se arregalou.

Então…

Antes disso…

Os Scars não conseguiam matar outros Scars?

Aquilo explicava muita coisa.

Rafael apoiou um braço na mesa.

— Mas Adam não parou por aí.

Ele parecia falar de alguém que conhecia muito bem.

— Depois de transformar esse mundo em um lugar onde qualquer um podia matar qualquer um…

Ele teve uma ideia.

Uma ideia ainda pior.

Fiquei em silêncio.

Esperando.

— Ele começou a transformar alguns Scars em seus subordinados.

— Como?

— Através de pactos.

A palavra ecoou na minha cabeça.

Pactos…

— Esses pactos ligam completamente a vida do Scar ao Adam.

Ele ergueu um dedo.

— Caso o Scar tente quebrar esse pacto…

Ele morre.

Meu corpo ficou tenso.

Não existia escolha.

Ou obedecia…

Ou morria.

Rafael prosseguiu.

— Além disso, esses Scars passaram a ter outra obrigação.

— Qual?

— Matar.

Meu peito apertou.

— Um Scar…

Por dia.

O silêncio voltou a tomar conta da sala.

Era cruel.

Extremamente cruel.

Então era por isso que esse mundo parecia viver em uma guerra sem fim.

Eles eram obrigados.

Rafael assentiu lentamente, como se confirmasse meus pensamentos.

— Esses subordinados receberam um nome.

Ele olhou diretamente para mim.

— Madas.

— Adam entregou a cada um deles cerca de um por cento do seu próprio poder.

Mesmo parecendo pouco…

A maneira como Rafael falou deixava claro que aquilo era assustador.

— Isso foi suficiente para torná-los muito mais fortes do que qualquer Scar comum.

Meu estômago revirou.

Se apenas um por cento já fazia isso…

Eu nem queria imaginar a força do Adam completo.

Rafael continuou.

— Atualmente, esses Madas vivem espalhados por Scarloon.

— Cada um ocupa um castelo diferente.

Castelos…

Então aquele não era o único.

Existiam vários iguais ao Coliseu.

Ou talvez ainda maiores.

Rafael cruzou os braços.

— Mas eles também possuem subordinados.

— Mais subordinados?

— Sim.

Ele respondeu imediatamente.

— Os Gomendis.

Gravei aquele nome.

Gomendis.

— Os Gomendis são Scars obrigados a servir seus respectivos Madas.

Respirei fundo.

— E eles também possuem uma obrigação.

Já imaginava qual era.

Mesmo assim perguntei.

— Qual?

— Matar pelo menos um Scar por dia.

Ele fez uma breve pausa.

— Caso contrário…

Morrem.

Apertei os punhos embaixo da mesa.

Aquilo era absurdo.

Todo aquele mundo…

Funcionava em cima de assassinatos.

Não existia paz.

Não existia escolha.

Ou você matava.

Ou era morto.

Rafael terminou toda a explicação.

Depois apoiou as duas mãos sobre a mesa e olhou diretamente para mim.

— Agora que você entendeu o contexto…

Vamos falar da sua missão.

Endireitei a postura automaticamente.

— Seu objetivo é matar cada um dos Madas.

Ele falou devagar.

Como se quisesse que cada palavra ficasse gravada na minha memória.

— Sem exceção.

Assenti.

Ele continuou.

— Além de matarem Scars por obrigação…

Os Madas também são fundamentais para a sua evolução.

Inclinei levemente a cabeça.

— Minha evolução?

— Exatamente.

Ele apontou discretamente para mim.

— Sua missão será coletar os Fragmentos do poder do Adam que existem dentro de cada Mada.

Meu coração acelerou.

Fragmentos…

— Depois disso…

Você irá absorvê-los.

— Assim…

Seu poder aumentará cada vez mais.

Pensei por alguns segundos.

Parecia simples.

Então perguntei:

— Então… eu consigo fazer isso como?

Olhei para Rafael.

— Eu só preciso matar o Mada e pegar alguma coisa que ele deixar quando morrer?

Rafael soltou uma pequena risada.

Balançou a cabeça negativamente.

— Infelizmente…

Não é tão simples assim.

Ele cruzou os braços novamente.

— Pelo que eu sei…

No instante em que um Mada morre…

O Fragmento retorna imediatamente para Adam.

Franzi a testa.

— Ou seja…

Matando o Mada normalmente…

Não existe nenhuma forma de pegar o Fragmento.

Meu entusiasmo diminuiu um pouco.

Então…

Como era que aquele plano funcionava?

Olhei novamente para Rafael.

— Então…

Como é que eu pego ele?

Rafael sorriu de canto.

Parecia que estava esperando exatamente aquela pergunta.

Chegou até a dar uma pequena risada antes de responder.

— É simples.

Apoiei os braços sobre a mesa, prestando ainda mais atenção.

— Usando o meu Impar.

Franzi a testa.

— Seu Impar?

Ele assentiu.

— Conexão.

A palavra ficou ecoando na minha cabeça.

Conexão…

Era um nome bem diferente dos Impares que eu tinha visto até agora.

Inclinei um pouco o corpo para frente.

— Conexão?

Rafael levantou a própria mão enquanto explicava, fazendo pequenos gestos no ar para ilustrar o que dizia.

— O meu Impar, junto com o meu Artefato, me permite separar conceitos.

Pisquei algumas vezes.

Separar…

Conceitos?

Aquilo parecia abstrato demais para eu conseguir imaginar.

Ele percebeu minha expressão confusa e continuou.

— Em outras palavras… eu consigo cortar a ligação entre duas coisas que estão conectadas.

Meu interesse aumentou ainda mais.

— No caso dos Madas…

Ele apontou para mim.

— Eu consigo cortar a conexão entre o Fragmento do Adam… e o próprio Adam.

Meu coração acelerou.

Então era assim…

— Depois disso…

Ele fechou a mão lentamente.

— Basta conectar esse Fragmento… em você.

Fiquei alguns segundos sem conseguir responder.

Aquilo…

Era absurdo.

Um Impar capaz de manipular conexões.

Não físicas.

Conceituais.

Era difícil até imaginar o limite de algo assim.

— Isso… é incrível!

Olhei para ele quase sem acreditar.

Mas uma dúvida surgiu imediatamente.

— Então… você sempre vai estar lá para dar o golpe final?

Rafael balançou a cabeça.

— Não.

Respondeu com tranquilidade.

— Samuel… você vai levar o meu Artefato.

Fiquei completamente perdido.

— Eu…

Apontei para mim mesmo.

— Consigo levar o seu Artefato?

Ele sorriu.

— Sim.

Apoiou o cotovelo na mesa.

— Fazendo umas gambiarras, eu consigo adaptar ele para funcionar com você.

Não consegui esconder o brilho nos olhos.

Isso mudava completamente a situação.

— Isso é demais!

As perguntas começaram a surgir uma atrás da outra.

— E como vão funcionar essas caçadas?

— O que acontece depois?

Rafael respondeu sem hesitar.

— As caçadas acontecerão de ano em ano.

— Um Mada por ano.

Assenti lentamente.

Fazia sentido.

— Então é para dar tempo de eu treinar, né?

— Exatamente.

Ele abriu um pequeno sorriso.

— Você vai aproveitar esse intervalo para fortalecer o seu Impar.

Respirei fundo.

Era um plano de longo prazo.

Muito longo.

Mas…

Era melhor do que sair correndo atrás de inimigos infinitamente mais fortes.

Rafael respirou antes de continuar.

— Depois que matar os dez Madas…

Ele me encarou nos olhos.

— Você vai atrás dele.

A sala pareceu ficar mais silenciosa.

— Adam.

Cruzei os braços.

Sem pensar muito, respondi:

— Adam…

Esse cara é um babaca.

Rafael soltou uma risada sincera.

— Muito.

Depois voltou ao seu jeito sério.

— Mas, de resto, é isso.

Ele descruzou os braços.

— Os outros detalhes eu vou te explicando com o tempo.

Fez um pequeno gesto em direção à porta.

— Acho que nossa conversa já foi produtiva o suficiente por hoje.

— Pode descansar…

Ele sorriu de leve.

— Ou aproveitar o dia para começar a treinar.

Na mesma hora me lembrei de uma dúvida que estava me incomodando desde ontem.

— Ah!

Ele voltou a olhar para mim.

— Queria te perguntar isso também.

Inclinei um pouco a cabeça.

— Como é que eu treino o meu Impar para ele ficar mais forte?

A resposta veio imediatamente.

— Usando.

Fiquei esperando.

Ele continuou.

— Quanto mais você usa o seu Impar…

Maior ele fica.

Era tão simples…

Que parecia até mentira.

— Saquei…

Rafael então pareceu lembrar de outra coisa.

— Ah…

Aproveita também para testar o seu Artefato.

— Testar?

— Você ainda não viu ele na verdadeira forma.

Franzi a testa.

— Forma verdadeira?

Ele assentiu.

— Todo Artefato possui uma versão em arma.

Meu interesse aumentou na hora.

— Dependendo do Impar do usuário…

A arma muda completamente.

Olhei novamente para meu braço.

Desde que aquele cubo tinha se fundido ao meu corpo…

Eu só tinha sentido meu Impar ficar mais forte.

Nem imaginava que existia mais alguma coisa.

— Isso…

Dei uma pequena risada.

— Parece surreal.

Rafael também sorriu.

— Eu sei.

Depois fez um gesto em direção à saída.

— Agora pode ir.

Me levantei lentamente da cadeira.

Por algum motivo…

Meu coração estava leve.

Uma sensação que eu não experimentava fazia muitos anos.

Olhei uma última vez para Rafael.

Levantei a mão em despedida.

— Obrigado.

Ele apenas fez um discreto sinal positivo com a cabeça.

Virei as costas.

Saí da sala praticamente correndo.

Desci as escadas do Coliseu de dois em dois degraus, atravessei os corredores e passei pelos guardas, que apenas me observaram em silêncio.

Pela primeira vez desde que cheguei naquele lugar…

Eu não sentia medo.

Sentia expectativa.

Assim que atravessei o enorme portão do Coliseu do Advérbio, parei por um instante.

À minha frente se estendia uma enorme planície coberta por uma grama azulada.

O vento fazia as folhas cianas das árvores balançarem lentamente.

Respirei fundo.

O ar parecia diferente.

Mais leve.

Mais vivo.

Fechei os olhos por alguns segundos.

Eu tinha uma missão.

Uma missão de verdade.

Matar todos os Madas.

Derrotar Adam.

Salvar Scarloon.

E…

Quando tudo acabasse…

Eu finalmente voltaria para casa.

Voltaria para os meus irmãos.

Voltaria para o Ronaldo.

Pediria desculpas.

Me redimiria por ter desobedecido.

Eu faria tudo certo dessa vez.

Abri os olhos.

O vento passou novamente pelo meu rosto.

Era quase como se o próprio mundo estivesse esperando alguém agir.

Esperando…

Um herói.

Sorri sozinho.

— Eu vou conseguir.

Apertei os punhos.

— Eu vou acabar com esse mal.

Olhei para o horizonte infinito.

— O único que pode fazer isso… sou eu.

Meu coração batia acelerado.

Não de medo.

Mas de determinação.

Sorri mais uma vez.

— O herói de Scarloon…

Respirei profundamente.

— Samuel.

Dei o primeiro passo para longe do Coliseu.

E senti que, pela primeira vez…

Minha verdadeira história estava começando.

E eu iria com tudo.