Scarloon Samuel I - Herói
6 CAPÍTULO 06 — ESPADA
Fechei os olhos.
Sentei-me na grama e respirei fundo, tentando sentir meu próprio Impar.
Desde que absorvi o Artefato, alguma coisa havia mudado. Antes, meu Impar parecia preso em um único ponto do meu corpo. Agora…
Era como se ele fluísse por inteiro.
Livre.
Mais forte.
Mais presente.
Eu só precisava descobrir uma coisa.
Manifestar o Artefato em sua forma de arma.
Não fazia ideia de qual seria seu formato.
Uma lança?
Um machado?
Quem sabe um arco…
Continuei concentrado.
O silêncio ao meu redor foi sendo tomado apenas pelo vento.
Até que…
Algo estalou dentro de mim.
Não um som.
Uma sensação.
Como se meu próprio corpo dissesse:
Está pronto.
— …
Abri os olhos.
— [Artefato].
Uma energia ciana começou a surgir entre minhas mãos.
Chamas azuladas dançavam ao redor daquela luz, balançando conforme o vento soprava.
Elas giravam.
Se condensavam.
Mudavam de forma.
Pouco a pouco, uma arma começou a aparecer.
Quando as chamas finalmente desapareceram…
Eu consegui vê-la por inteiro.
Era…
Uma espada.
Uma espada de lâmina longa e de um único fio.
Sua guarda era formada por um retângulo metálico preto, reto e elegante, com dois pequenos espinhos apontando para cima nas extremidades.
O punho era dividido em duas cores.
Metade branco.
Metade preto.
Separados por uma linha em ziguezague que cruzava toda a empunhadura.
Ela parecia…
Perfeita.
Bonita.
Elegante.
Era exatamente a espada que um herói usaria em uma história.
Não consegui esconder o sorriso.
— Caramba…
Comecei a girá-la lentamente.
Primeiro devagar.
Depois um pouco mais rápido.
Já sei o seu nome.
— Copyraitos!
Sussurrei o nome. Apreciando a sua beleza.
Ainda não fazia ideia do que estava fazendo.
Na verdade…
Eu tinha mais medo de me cortar sozinho do que de qualquer outra coisa.
Parei de balançá-la.
— Como é que eu guardo isso?
Olhei para a espada.
Depois para o chão.
Sem pensar muito, enfiei sua ponta na terra.
Nada aconteceu.
— Hm…
Pensei apenas na ideia de guardá-la.
No mesmo instante…
As chamas cianas voltaram a surgir.
Consumiram toda a espada.
E ela simplesmente desapareceu.
— Ah…
Sorri sozinho.
— Então é assim.
Era até simples.
Eu já tinha uma arma.
Uma espada.
Agora…
Só faltava aprender a usá-la.
Alguns minutos depois, empurrei a porta da sala de Rafael.
Ele levantou os olhos dos papéis que analisava.
Nem precisei abrir a boca.
Pela expressão dele…
Parecia que já sabia exatamente o motivo da minha visita.
— Descobriu qual é a forma do seu Artefato?
Assenti imediatamente.
— Descobri.
Abri um sorriso meio sem graça.
— Mas… eu não faço ideia de como lutar com espadas.
Rafael sorriu.
— Tudo bem.
Levantou-se da cadeira.
— Eu posso ensinar.
Pisquei algumas vezes.
— Sério?
— Sou usuário de espada também.
Minha curiosidade despertou imediatamente.
— Espera…
Seu Artefato também é uma espada?
Ele deu de ombros.
— Mais ou menos.
Foi caminhando em direção à porta.
— Te explico na hora.
Abriu a porta.
— Vamos treinar lá fora.
Saímos do Coliseu.
Contornamos a construção até chegar aos fundos.
Ali havia um espaço aberto, praticamente vazio.
Perfeito para treinamento.
Rafael olhou ao redor.
— Acho que aqui serve.
Ergueu a mão esquerda.
— [Artefato].
Sua arma apareceu instantaneamente.
Mas…
Ela não era exatamente uma espada.
Eu arregalei os olhos.
As duas lâminas eram separadas.
Ligadas apenas pela empunhadura.
Pareciam…
Uma tesoura gigante.
Não consegui esconder a surpresa.
— A sua espada…
— É uma tesoura?
Ele olhou para a própria arma.
— É.
Abriu as duas lâminas lentamente.
O movimento realmente lembrava uma tesoura.
— Ela pode abrir e fechar.
Depois voltou a fechá-la.
— Mas isso não importa hoje.
Assenti.
— Ah… claro.
Ele apontou sua arma para mim.
— O importante é aprender o básico.
Respirei fundo.
Rafael assumiu uma postura firme.
Os pés bem posicionados.
A espada relaxada ao lado do corpo.
Mas mesmo relaxado…
Parecia pronto para atacar a qualquer instante.
— Primeiro…
Ele falou calmamente.
— Quero ver como você luta naturalmente.
Apontou para mim.
— Invoque sua espada.
Assenti.
— [Artefato].
Minha espada apareceu novamente envolta pelas chamas azuladas.
Segurei-a com as duas mãos.
Ainda inseguro.
Olhei para Rafael.
— Tem certeza?
Ele nem piscou.
— Tenho.
Continuei hesitando.
— E se eu te machucar?
Ele sorriu.
— Não vai.
Apontou a espada para mim.
— Pode vir.
Com tudo.
Respirei fundo.
Era agora.
Segurei a espada com força.
Corri alguns passos.
Levantei a lâmina acima da cabeça.
E desferi um golpe vertical.
De cima para baixo.
Rafael nem precisou mover os pés.
Levantou sua espada usando apenas uma mão.
CLANG!
As duas lâminas colidiram.
Meu ataque foi completamente bloqueado.
Ele nem pareceu fazer esforço.
Seu olhar continuava calmo.
— Lento.
Meu coração afundou.
— E previsível.
Antes mesmo que eu pudesse recuar…
Ele girou a espada.
Aproveitou meu desequilíbrio.
E atacou.
Um único golpe.
Limpo.
Preciso.
Nem consegui acompanhar.
Senti apenas um leve impacto no ombro.
E…
Meu corpo ficou estranho.
Mais leve.
Olhei para baixo.
Meu braço direito…
Estava no chão.
— …Que?
Meu cérebro demorou alguns segundos para entender o que estava vendo.
Meu braço havia sido separado do meu corpo.
Arregalei os olhos.
Levei a outra mão ao ombro.
Mas…
Não havia sangue.
Não havia dor.
Nada.
Olhei desesperado para Rafael.
— O quê…?!
Ele começou a rir.
— Achou mesmo que eu tinha amputado seu braço?
Olhei novamente para o membro caído.
Era como se…
Ainda fosse meu.
Eu ainda o sentia.
Só que separado do resto do corpo.
Rafael apontou para o braço.
— Eu apenas desconectei ele.
Fiquei completamente sem palavras.
Continuei olhando para o meu braço no chão.
Aquilo simplesmente não fazia sentido.
Eu ainda conseguia senti-lo.
Era como se ele continuasse ligado a mim, mesmo estando completamente separado do resto do corpo.
Abri e fechei a mão algumas vezes.
Os dedos responderam normalmente.
— Eu… ainda consigo mexer…
Rafael cruzou os braços, satisfeito com minha reação.
— Claro que consegue.
Olhei novamente para ele.
— Isso é coisa do seu Impar?
— Exatamente.
Ele girou a espada em uma das mãos antes de fazê-la desaparecer.
— Ativei meu Impar para não te machucar de verdade. Assim podemos treinar sem você perder um braço a cada erro.
Respirei aliviado.
— Ainda bem…
Abaixei-me para pegar o braço.
Foi estranho.
Era literalmente o meu braço.
Segurei-o com cuidado e tentei encaixá-lo de volta no ombro.
Na primeira tentativa, não aconteceu nada.
Na segunda também não.
Só depois de girá-lo um pouco, senti uma espécie de clique.
Toc.
Como se uma peça tivesse voltado ao lugar.
No mesmo instante, ele voltou a funcionar perfeitamente.
Abri e fechei a mão.
Movimentei o ombro.
Tudo normal.
— Ufa…
Rafael voltou a assumir uma postura séria.
— Nosso plano de treino é simples.
Prestei atenção.
— Todos os dias, nesse mesmo horário, eu vou treinar com você durante duas horas.
Assenti.
— Durante esse tempo, você vai manter seu Artefato ativo o máximo possível.
Ele continuou.
— E também vai copiar meu Impar sempre que puder. Assim você evolui duas coisas ao mesmo tempo.
Levantou dois dedos.
— Sua habilidade.
— E sua espada.
Sorri.
Era realmente um bom plano.
Então lembrei de algo.
— Na verdade… acho que meu Impar vai fazer eu aprender espada muito mais rápido do que uma pessoa normal.
Rafael arqueou uma sobrancelha.
— Sério?
Assenti.
— Eu consigo copiar movimentos.
Se eu observar você lutando…
Posso repetir exatamente o que você fizer.
No começo vai sair meio torto.
Mas quanto mais eu repetir…
Mais meu corpo aprende sozinho.
Rafael sorriu.
— Interessante…
Invocou novamente sua espada.
— Então vamos descobrir até onde isso pode chegar.
Assenti.
Meu plano era simples.
Copiar.
Repetir.
Errar.
Copiar novamente.
Até que um dia…
Eu não precisasse mais copiar.
Meu próprio corpo faria tudo naturalmente.
Era só questão de tempo.
09 de agosto de 1810
Mais de sete meses se passaram.
E, pela primeira vez em muito tempo…
Eu sabia exatamente quanto tempo havia passado.
Rafael possuía um calendário.
Algo simples.
Mas que me ajudava a não perder completamente a noção dos dias.
Esses meses…
Foram completamente dedicados ao treinamento.
E olhando para trás…
Eu conseguia enxergar claramente o quanto havia evoluído.
Quando comecei…
Meu Impar possuía limitações muito evidentes.
Para copiar um Impar, eu precisava manter contato com outro Scar durante cinco segundos.
Depois de copiado…
Eu só podia utilizá-lo durante três minutos.
Além disso…
Minha reserva de energia era muito pequena.
Depois de usar cerca de cinco habilidades…
Meu Impar simplesmente se esgotava.
Mas essa nem era a maior limitação.
Depois de alguns dias vivendo no Coliseu, descobri outra coisa.
Eu só conseguia manter três Impares copiados ao mesmo tempo.
Esse era meu limite.
Na época…
Parecia impossível ultrapassá-lo.
Mas sete meses mudam muita coisa.
Treinando todos os dias…
Sem faltar um único.
Consegui fortalecer meu Impar de maneira impressionante.
O tempo necessário para copiar caiu de cinco para quatro segundos.
O tempo de duração dos Impares aumentou de três para quatro minutos.
Minha reserva passou de cinco utilizações para sete.
E o limite de cópias…
Subiu para quatro Impares simultaneamente.
Pode parecer pouco.
Mas, para mim…
Era um avanço gigantesco.
E não foi só isso.
Durante esses meses, treinei espada todos os dias.
Duas horas.
Ou…
Quase isso.
Na prática, eram cerca de quarenta minutos de treino efetivo.
Meu Artefato desaparecia depois de cinco minutos de uso.
Então eu precisava esperar dez minutos até conseguir invocá-lo novamente.
Esse ciclo se repetia o tempo inteiro.
Mesmo assim…
Foi o suficiente.
No começo…
Eu era derrotado em poucos segundos.
Mal conseguia defender um único golpe.
Na maioria das vezes, Rafael me desmembrava antes que eu entendesse o que havia acontecido.
Mas, pouco a pouco…
Tudo começou a mudar.
Copiei seus movimentos defensivos.
Depois os ofensivos.
Passei dias inteiros repetindo exatamente os mesmos golpes.
As mesmas posturas.
Os mesmos deslocamentos.
Até que eles começaram a deixar de parecer cópias.
Meu corpo…
Estava aprendendo.
Já não desperdiçava tantos movimentos.
Não deixava mais minha guarda completamente aberta.
E conseguia responder aos ataques de Rafael de maneira muito mais eficiente.
Claro…
Eu ainda perdia todas as lutas.
Sem exceção.
Mas já não era humilhado em cinco segundos.
Então…
Um dia…
Aconteceu.
Durante um dos treinos…
Encontrei uma pequena abertura.
Sem pensar.
Ataquei.
A ponta da minha espada raspou o braço de Rafael.
Foi um corte pequeno.
Mas…
Foi um golpe.
Eu tinha conseguido acertá-lo.
Fiquei completamente paralisado.
— Eu…
Acabei de…
Nem terminei a frase.
Rafael simplesmente sorriu.
E, no segundo seguinte…
Minha cabeça saiu voando.
…
Maldito.
Enquanto recolocava minha própria cabeça no lugar, ouvi sua voz.
— Nunca abaixe a guarda depois de acertar um ataque.
Resmunguei baixinho.
— Tá bom…
Mas, mesmo assim…
Eu tinha conseguido.
Pela primeira vez…
Eu havia acertado Rafael.
E aquilo me motivou ainda mais.
Acertar Rafael uma única vez foi suficiente para me mostrar uma coisa.
Eu estava evoluindo.
Devagar.
Muito devagar.
Mas estava.
E esse não foi o fim das minhas descobertas.
Na verdade…
Foi só o começo.
Certo dia, enquanto treinávamos, Rafael comentou algo que me fez pensar durante horas.
Ele desviou de um golpe meu com facilidade e disse:
— Todo Impar possui três habilidades base.
Assenti automaticamente.
Isso eu já sabia.
Sempre que copiava o Impar de algum Scar, três habilidades apareciam na minha mente, junto de uma breve explicação do que cada uma fazia.
Era sempre assim.
Três habilidades.
Nem mais.
Nem menos.
Mas…
Enquanto ele continuava falando, um pensamento surgiu na minha cabeça.
Se eu consigo copiar Impares…
E consigo copiar movimentos…
Será que essas são as únicas coisas que eu posso copiar?
Aquilo ficou martelando na minha mente durante o resto do treino.
Até que…
Enquanto Rafael fazia uma sequência de golpes, meus olhos acabaram parando em sua espada.
Sem perceber.
Sem intenção.
Eu pensei apenas uma coisa.
Copiar.
No mesmo instante…
Uma sensação percorreu meu corpo.
Uma energia conhecida surgiu em minhas mãos.
Pisquei, confuso.
Olhei para baixo.
E congelei.
Uma segunda espada.
Não era a minha.
Era exatamente a espada de Rafael.
Uma tesoura metálica de duas lâminas.
Idêntica.
Olhei para Rafael.
Ele também estava completamente parado.
Nos dois ficamos alguns segundos em silêncio.
Foi ele quem falou primeiro.
— …
— Você… acabou de copiar meu Artefato?
Olhei para a arma em minhas mãos.
Ainda incrédulo.
— Acho… que sim.
Rafael se aproximou lentamente.
Analisou cada detalhe.
Era igual.
Perfeitamente igual.
Nem mesmo ele parecia acreditar.
— Impressionante…
Seu olhar ficou distante por alguns instantes.
Como se estivesse reorganizando tudo o que sabia sobre meu Impar.
Depois voltou a olhar para mim.
— Samuel.
— Oi?
— Isso muda muita coisa.
— Muda?
— Muito.
Ele respirou fundo.
— Eu já sabia todas as habilidades e limitações que você descobriu até agora.
Fez uma breve pausa.
— Mas copiar Artefatos…
Isso é completamente novo.
Continuei segurando aquela espada.
Era estranha.
Pesava diferente da minha.
O equilíbrio também era outro.
Mesmo assim…
Parecia natural.
Como se eu já soubesse usá-la.
Rafael continuou:
— Isso é importante para o nosso plano.
Olhei curioso.
— Por quê?
— Porque, se você consegue copiar tanto o Impar quanto o Artefato de um inimigo…
Você pode utilizar praticamente todo o potencial dele.
Meu coração acelerou.
Era verdade.
Aquilo aumentava absurdamente minhas possibilidades durante uma luta.
Mas a surpresa ainda não tinha acabado.
Porque, quando copiei o Artefato de Rafael…
Percebi algo diferente.
Além das três habilidades normais do seu Impar…
Duas novas habilidades apareceram.
Franzi a testa.
Aquilo nunca tinha acontecido antes.
As informações surgiram automaticamente na minha mente.
[Covalente]
Desconecta conceitos.
[Metálica]
Conecta (ATNI).
Li aquilo várias vezes.
Conecta…
ATNI?
O que era ATNI?
Olhei para Rafael.
— Tem uma coisa estranha.
— O quê?
Contei o que havia visto.
Ele ouviu tudo em silêncio.
Depois começou a explicar.
— Essas duas habilidades pertencem ao Artefato.
— Ao Artefato?
— Isso.
Ele ergueu sua própria espada.
— Alguns Artefatos liberam habilidades extras enquanto estão ativos.
Assenti lentamente.
Então…
As habilidades normais dele eram:
[Falha na Rede]
Desconecta matéria.
[Desvinculação]
Desconecta Scars.
[Conexões Psíquicas]
Cria projéteis em forma de tesoura que podem desconectar aquilo que atingem.
Nenhuma delas conectava absolutamente nada.
Mas…
Quando o Artefato estava ativo…
Surgiam outras duas.
Covalente.
Metálica.
Agora fazia sentido.
Mesmo assim…
Outra dúvida apareceu imediatamente.
Olhei para Rafael.
— Espera…
Se todo Artefato libera habilidades extras…
Onde estão as minhas?
Ele sorriu.
Como se esperasse exatamente essa pergunta.
— Você vai descobrir.
Cruzei os braços.
— Como?
— Pensando.
— …
— Sério.
Ele deu uma pequena risada.
— Continue usando seu Artefato.
Uma hora você recebe uma dica.
— Dica?
— Sim.
Palavras-chave.
Elas aparecem na cabeça do usuário.
Servem para ajudá-lo a descobrir sozinho como a habilidade funciona.
Achei curioso.
— E se eu não descobrir?
— Depois de um ano…
A resposta aparece automaticamente.
Assenti.
Era um sistema estranho.
Mas parecia funcionar.
Naquele momento…
Eu já havia recebido uma dessas palavras.
Só uma.
Ela não saía da minha cabeça.
Olhos.
Era tudo.
Apenas isso.
"Olhos."
Nada mais.
Fazia dias que eu tentava entender.
Copiar olhos?
Trocar olhos?
Enxergar através dos olhos de outra pessoa?
Nada parecia fazer sentido.
Continuei refletindo.
Enquanto caminhava.
Enquanto treinava.
Enquanto tentava dormir.
Até que…
Resolvi pensar de outra forma.
Olhos…
Os meus olhos.
Algo relacionado ao que eu vejo?
Mas…
Eu já copiava movimentos apenas olhando.
Então não podia ser isso.
Pensei mais um pouco.
E uma hipótese surgiu.
Espera.
Será que…
Eu consigo copiar um Impar apenas olhando para um Scar?
Meu coração disparou.
No instante em que aquele pensamento surgiu…
Tudo ficou escuro.
…
Quando recobrei a consciência, eu estava em outro lugar.
Uma sala completamente vazia.
O chão era coberto por uma fina camada de água, que refletia a escuridão ao meu redor como um espelho.
O ambiente era silencioso.
Não havia portas.
Nem janelas.
Apenas um pedestal solitário bem à minha frente.
Caminhei lentamente até ele.
Sobre o pedestal repousava uma pequena esfera, do tamanho de uma bolinha de gude.
Peguei o objeto.
No começo, parecia apenas uma esfera comum.
Mas, ao observá-la melhor…
Percebi.
Aquilo era um olho.
No exato momento em que entendi o que estava segurando, uma voz ecoou dentro da minha mente.
[Chá ringan]
Copia um Impar apenas no olhar.
…
Isso…
Isso mudava tudo.
Meu maior defeito durante uma luta…
Acabava de desaparecer.
Agora eu não precisava mais tocar em um scar durante quatro segundos para copiar seu Impar.
Bastava olhar.
Abri um enorme sorriso.
— ISSO É PREFEITO!
Parei por um segundo.
Franzi a testa.
— Quer dizer…
Respirei fundo.
— Perfeito.
Me corrigi sozinho.
Assim que pisquei…
O mundo voltou.
A sala desapareceu como se nunca tivesse existido.
A luz da lua iluminava novamente a escuridão da noite.
Olhei ao redor.
Eu ainda estava sentado no mesmo lugar.
Dei uma risada.
Não consegui evitar.
Levantei de um salto.
— Isso é incrível!
Saí correndo na direção do Coliseu.
Precisava contar aquilo ao Rafael imediatamente.
Ele mesmo tinha pedido.
Sempre que eu descobrisse alguma habilidade nova do meu Artefato, era para avisá-lo na mesma hora.
Segundo ele, isso ajudaria na elaboração das estratégias para o futuro.
Subi as escadas praticamente de dois em dois degraus.
Sem diminuir a velocidade, empurrei a porta da sala dele.
PA!
A porta bateu com tanta força que quase saiu das dobradiças.
Entrei ofegante.
Rafael levantou os olhos dos papéis que analisava.
Seu rosto demonstrava completa confusão.
— Boa noite, Samuel… aconteceu alguma coisa?
Sorri de orelha a orelha.
— Sim.
Respirei fundo.
— E é algo incrível.
Ele apoiou os cotovelos sobre a mesa.
— Ah?
Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.
— E o que seria?
Balancei a cabeça.
— Deixa que eu te mostro.
Olhei diretamente para ele.
[Artefato]
Minha espada surgiu em chamas cianas e desapareceu logo em seguida.
No mesmo instante, concentrei minha atenção no meu olho direito.
[Chá ringan]
Meu olhar fixou em Rafael.
Foi tudo instantâneo.
Senti seu Impar sendo copiado.
Sem perder tempo, estiquei o dedo para cima.
— [Conexões Psíquicas]
Uma tesoura feita de energia disparou da ponta do meu dedo.
Ela atravessou o ar e acertou uma das cadeiras presas no teto.
CRACK!
A cadeira se desprendeu e caiu no chão com um estrondo.
Rafael arregalou os olhos.
— Você…
Ele olhou para mim.
Depois para a cadeira.
Depois voltou para mim.
— Quando foi que você copiou o meu Impar?
Sorri, orgulhoso.
— Agora.
Apontei para meu próprio olho.
— Descobri uma habilidade nova do meu Artefato.
Fiz uma pequena pausa.
— Vou chamar ela de Chá ringan.
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
Depois levou a mão ao queixo.
— Que nome… peculiar.
Parecia tentar lembrar de alguma coisa.
— Me faz lembrar de algo que já ouvi.
Franzi a testa.
— Do que cê tá falando? É um nome completamente aleatório.
Ele coçou a cabeça.
— É…
Também não lembro.
Depois deu de ombros.
— Mas, deixando o nome de lado… essa habilidade é realmente incrível.
Abri um sorriso enorme.
— Eu sei!
Dei uma pequena risada.
— Eu nunca imaginaria que conseguiria copiar um Impar só olhando para alguém.
Ele sorriu de volta.
— Existe algum limite?
Assenti.
— Sim.
Infelizmente, só consigo copiar um Impar e um Artefato por vez usando o olhar.
Cruzei os braços.
— Acho que copiar mais do que isso seria impossível.
Rafael ficou pensativo por alguns segundos.
Depois respirou fundo.
— Entendi.
Seu semblante mudou completamente.
A expressão descontraída desapareceu.
— Escuta… hoje foi um dia longo, e já está bem tarde.
Meu sorriso diminuiu.
Alguma coisa na voz dele parecia diferente.
— Mas eu preciso te avisar de uma coisa.
Endireitei a postura imediatamente.
— Amanhã…
Ele fez uma breve pausa.
— Você vai atrás do seu primeiro Mada.
Meu coração gelou.
Meu primeiro obstáculo.
Meu primeiro inimigo de verdade.
Um Mada.
Senti meu peito acelerar tão rápido que parecia querer escapar pela garganta.
— Sério?
Ele confirmou com a cabeça.
— Sim.
Depois continuou:
— Mas, quando acordar, venha falar comigo primeiro.
Vou te passar a localização, o nome dele, as habilidades conhecidas, quantos Gomendis servem a ele, o nível de ameaça… tudo o que consegui descobrir.
Assenti rapidamente.
— Entendido.
Abri um sorriso determinado.
— Vou acordar bem cedo.
Acenei para ele.
— Boa noite, Rafa!
Saí da sala quase saltitando de animação.
Desci as escadas até chegar ao meu quarto.
Quando abri a porta…
Sorri.
Durante aqueles sete meses, aquele lugar tinha deixado de parecer apenas um quarto vazio.
Agora tinha um pouco de mim.
As paredes continuavam feitas das mesmas pedras arroxeadas.
Minha cor favorita.
No chão havia um tapete rosa.
De resto…
Tudo permanecia praticamente igual.
Também não havia muito o que mudar.
Os recursos eram escassos.
Só existia o necessário para viver.
Fechei a porta.
Me joguei na cama.
Fiquei encarando o teto por alguns minutos.
Sem perceber, comecei a lembrar do passado.
Dos momentos felizes.
Das pessoas que eu mais amava.
Era por eles.
Sempre foi por eles.
Eu tinha certeza…
Quando tudo aquilo terminasse…
Eu voltaria.
Voltaria para abraçar o Ronaldo.
Brincaria novamente com o Emerson.
Voltaria a estudar ao lado do Thauan, daquele jeito descontraído de antes.
A saudade apertava meu peito.
Todos os dias.
Mas era justamente ela que me fazia continuar andando.
Mesmo longe…
Eu ainda caminhava por eles.
E isso era tudo de que eu precisava.
Tudo o que sempre precisei.
Fechei os olhos lentamente.
O cansaço dos treinamentos consecutivos finalmente venceu meu corpo.
Minha evolução podia até parecer pequena.
Mas cada avanço me deixava ainda mais motivado.
Meus pensamentos começaram a desaparecer.
Ficando cada vez mais distantes.
Até que…
Apaguei completamente.
Rezando, em silêncio…
Para que todos eles estivessem bem.
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