Scarlet Dynasty - Klaroline

18 Two sides of the same coin


Notas iniciais
E aí, meus Klaroliners? Demorei a voltar, mas não tanto quanto antes. Amém, Jesus hahahahahaha Prontos para mais um capítulo? Espero que gostem. Como sempre, é feito com muito carinho, pensando na reação e deleite de vocês. Afinal, a história é para vocês. Ou melhor, a história é para nós..pois me divirto escrevendo ela tanto quanto gosto de pensar que vocês se divertem lendo. Qualquer erro, só me avisarem. Se acharem algo estranho ou errado, podem me contar. Estamos aqui pra isso. Qualquer sugestão, podem falar também. Adoro saber e farei o possível para encaixar os desejos de vocês haha. A história é nossa. Enfim, vaaaaaamos lá!

Caroline

Pensamentos confusos. Borrões e imagens distorcidas. Estava de olhos fechados, mas certa claridade atravessava as minhas pálpebras, deixando minha visão avermelhada. Pisquei algumas vezes, ainda com dificuldades para abrir totalmente os olhos. Soltei o ar que nem percebi que estava prendendo. Outra sensação estranha. Já fazia tempo que eu não sentia o ar entrar nos meus pulmões com tanta vivacidade quanto agora. Puxei o ar de novo, com mais força, como se para confirmar. Inalei um pouco de poeira e me engasguei. Me remexi um pouco e percebi que estava deitada sobre um tapete felpudo. Estranho. Mais uma vez eu estava sentindo. Senti toda extensão do meu corpo, dolorido e cansado, estirado no chão. Cada pedaço que, até recentemente, estava totalmente insensível. Totalmente morto. Passei as mãos no tapete e senti a sua aspereza roçar nos meus dedos. Minhas pernas e meus pés deslizaram se esfregando no tecido rústico, fazendo cócegas na minha pele. Assim, então, comecei abrir os olhos de verdade. Não foi fácil vencer a claridade, que fazia meus olhos doerem e lacrimejarem. Mas, não demorou muito para que me acostumasse com a luminosidade e pudesse abri-los de vez.

Reconheci imediatamente o lugar. Era a sala de estar da minha casa. Eu reconheceria aquele ambiente sob qualquer circunstância. Passei a minha vida toda olhando para aquelas portas e janelas brancas. Passei a minha infância correndo por aquela sala, quebrando objetos com o desastre típico de uma criança, enquanto minha mãe gritava meu nome em tom de repreensão.

Sorri.

Percebi que estava com o corpo virado de bruço para o chão, enquanto esticava um tanto o pescoço, numa tentativa medíocre de erguer um pouco a cabeça. Mas, parecia que eu estava carregando um pedaço de chumbo sobre os ombros, me trazendo para baixo como a âncora de um navio. Me apoiei errática sobre as mãos e me esforcei para sair daquela posição dolorosa. Me sentei lentamente, com a cabeça doendo e girando. Coloquei as duas mãos ao redor da minha têmpora, massageando-a em busca de alívio. Constatei que estava totalmente nua ao sentir um vento gelado me fazer ficar com a pele arrepiada e trêmula.

Eu sentia tudo.

Então, arregalei os olhos na constatação do óbvio e me levantei bruscamente. Péssima decisão. Minha cabeça doeu com muito mais força, senti a velocidade da Terra me levar com ela e tive que me segurar na parede mais próxima para não cair. Fechei a distância entre mim e a parede em passos vacilantes. A Vontade forte de vomitar me dominou.

Eu sentia tudo outra vez.

Não era possível, era?

Tentei andar até a poltrona para me deitar, mas só o que consegui foi tropeçar nos meus próprios pés, escorregar no piso de madeira e cair por sobre a mesa de canto derrubando o abajur no chão num estrondo, quebrando a sua cerâmica em mil pedaços, jogando o telefone sem fio para longe.

O mundo ficou escuro outra vez.

Vaguei pelas profundezas da escuridão, em sonhos conturbados, tempestuosos. Ouvia gritos, pessoas aterrorizadas com alguma coisa. Pedindo ajuda, suplicando socorro. Vi Elena morta, flutuando estranhamente no ar. Vi Elijah batendo os braços contra o vento, com a expressão de puro terror. Vi Stefan caído no chão, falando algo que não entendi. Vi aquela bruxa de dois mil anos com o olhar lunático. Vi Elena outra vez deitada na cama com aspecto de morta. Vi minha mãe ajoelhada no chão chorando com desespero. Vi Klaus se transformar em lobisomem...

Senti medo. Queria sair daquele pesadelo. Comecei a lutar para sair dali. Queria acordar.

Caroline?

Ouvi bem de longe uma voz me chamando. Uma voz sonora produzindo eco, como num sonho longínquo. Como se eu estivesse no fundo da água e alguém me chamasse da superfície...Uma certa claridade. Tudo preto outra vez. Então, claro. Mais uma vez escuro...Eu estava oscilando entre o fundo e o raso. Me desesperei. Queria ir para a superfície, mas a âncora continuava me puxando para baixo. Lutei com mais força. Lutei para sair daquele limbo.

— Caroline?

A voz ressoou novamente. Só que dessa vez estava mais clara. Mais perto.

Lentamente meus pensamentos se organizavam. Me debati com força.

Senti calor, muito calor. Senti água fria no meu rosto e corpo, em contraste com a minha pele quente. Estava lavada de água gelada.

Tentei falar, mas não consegui. Minha boca e garganta estavam muito secas, arranhando feito lixas entre-cruzadas. Senti mãos pegarem nas minhas e, em seguida, tocarem na minha testa. Me esforcei para abrir os olhos. Novamente, a claridade os fez doer, mas persisti com teimosia e desespero.

Um borrão era o que eu enxergava. A confusão ia se desmanchando lentamente e as imagens foram ficando nítidas aos poucos.

Meu quarto. Foi o que pareceu. Prendi a respiração. Soltei. O ato era ensaiado.

Olhei para o lado para descobrir quem falava comigo, quem me tocava, para confirmar se eu não estava ouvindo coisas, pois conhecia bem aquela voz. Uma figura loira me olhava emocionada.

Sorri fracamente ao notar o semblante choroso da minha mãe, que sorria abertamente de volta pra mim, mesmo por entre tantas lágrimas.

— Eu não acredito, você realmente está aqui — Ela falou enquanto me abraçava fortemente, soluçando no meu pescoço. Tentei abraçá-la de volta, mas não consegui levantar os braços. Quando ela me soltou e se recompôs, tocou nas minhas mãos novamente. Só o que consegui fazer foi dá-la um aperto fraco na mão. Ao fazer isso, percebi que estava enrolada em um lençol esverdeado — Vou pegar sangue pra você. Espera só um minuto. Está muito fraca – Ela disse um pouco rouca e exasperada enquanto deixava o quarto.

Ouvi com estranheza tais palavras. Sangue?

Com a mente voltando muito devagar, demorei a lembrar que era uma vampira. Que foi justamente isso que me levou à morte. Duas vezes, diga-se de passagem. Sorri pela ironia.

Minha mãe não demorou a voltar e me ofereceu um frasco de sangue, um hospitalar. Tentei, mas não consegui levar a mão para pegar. Prontamente, ela acomodou o canudo nos meus lábios. Não foi fácil sugar o ar do canudo, parecia difícil demais.

— Você quer que eu coloque no copo? – Ela perguntou preocupada. Afirmei lentamente com a cabeça. Mais uma vez ela deixou o quarto. Ouvi seus passos ruidosos pela madeira da casa e isso irritou meus ouvidos sensíveis recém trazidos de volta da morte. A ouvi se aproximando do meu quarto até que se sentou ao meu lado da cama, encostando um copo cheio de sangue nos meus lábios.

Bebi desesperadamente. Como um sedento por água depois de dias desidratando no deserto. Em poucos segundos o copo estava vazio e minha mãe enchia novamente com as mãos trêmulas. Não demorou muito para que eu esvaziasse o recipiente outra vez. Aos poucos, ela me ajudou a beber três sacos de sangue.

Senti meu corpo ficar mais forte, mais enérgico. Via com mais clareza. Pensava com mais clareza.

Ficamos algum tempo em silêncio. Minha mãe se deitou ao meu lado e me fazia carinho nos cabelos. Comecei a me sentir tranquila e sonolenta até que lembrei de toda a questão com Qetsiyah e o Outro Lado. Aquilo acelerou minha mente e não pude mais pensar em dormir. Eu precisava me levantar pois em breve estaríamos em apuros. Além disso, eu já tinha descansado o bastante no retiro dos mortos. Não precisava mais de férias.

— Não sei quanto tempo tenho, até quando o véu vai ficar baixado – Quebrei o silêncio. Suspirei entristecida. Era muito bom estar de volta para morrer outra vez.

— Não acho que precise mais se preocupar com isso – Minha mãe falou, a olhei confusa, esperando por explicações. Ela me devolveu o olhar erguendo as sobrancelhas – Klaus veio aqui ontem. Ele disse que iria destruir o Outro Lado e te trazer de volta. Você e um irmão dele. E hoje você voltou. Não acho que tenha sido apenas coincidência – Fiquei boquiaberta. Sentei-me na cama sem perceber meus movimentos, processando a informação perturbadora. O movimento brusco fez minha cabeça doer e o quarto girar um pouco, mas ignorei.

— Espera, ele veio aqui falar isso pra você? – Estava bem surpresa, de olhos arregalados. Pior do que ele destruir o Outro Lado era vir aqui contar isso justo para a minha mãe. Me perguntava como teria sido esse encontro dos dois. Minha mãe detestava ele. E ele não era o fã número um dela. E que loucura era essa de destruir o Outro Lado?

— Sim, ele parecia confiante de que iria conseguir. Me prometeu, na verdade – Ela me olhava contrariada – Não que eu tenha levado muita fé, ainda mais se tratando daquele psicopata. Mas... Enfim, você está aqui e é somente isso o que me importa no momento. Não interessam os meios. Só os fins – A olhava surpresa. Como se ouvisse meus pensamentos ou lesse nos meus olhos a indagação clara pela descrença, ela tratou de ratificar – Não esqueci quem ele é ou tudo o que ele fez. Contudo – Ela inspirou fundo e torceu o rosto, como se engolisse um remédio ruim. Se sentou na cama ao meu lado – Dadas as circunstâncias de você estar aqui viva outra vez porque ele teve coragem de fazer algo decente, vou ficar quieta. Não vou questionar as intenções dele por trás disso tudo. É claro, você morreu por causa dele. Trazê-la de volta foi desfazer um mal que ele próprio causou. Ele não foi o herói do dia porque te trouxe de volta. Mas, você está aqui agora. Foram meses de sofrimento pela sua ausência. Meses esses que seriam intermináveis se você realmente morresse pra sempre. Não quero perder você nunca mais. Já fiz concessões com outras pessoas por outros motivos, por coisas menores. Posso fazer o mesmo agora pela coisa mais importante da minha vida, minha filha.

Caramba, meses? Eu estava perplexa com essa declaração. Não era o feitio da minha mãe dar o braço a torcer para Klaus, mas era fato que um dia ela já fez muitas concessões em prol da paz. Uma delas originou sua amizade inexplicável com o inescrupuloso Damon. Talvez ela não sentisse mais tanto afeto de amizade por ele se soubesse o que ele tinha feito comigo. Ela sorriu e passou a mão no meu cabelo molhado de suor e beijou a minha cabeça.

A notícia ainda retumbava na minha cabeça, me deixando sem ter o que dizer. Que Klaus era louco eu já sabia, mas destruir o Outro Lado já era outro nível de loucura...Se ele fez isso, ele cruzou todos os limites.

Fechei os olhos. Ele fez isso por mim? Seria muita arrogância minha achar que o vampiro milenar se deu ao trabalho de realizar o impossível apenas para me trazer de volta?

Minha mãe achava que sim. Suas palavras deixaram isso muito claro. E ele veio aqui falar isso pra ela. Por que mais seria se não fosse por mim? E ela estava levantando bandeira branca pra ele apenas porque eu estava de volta, apenas porque ele me trouxe de volta como prometeu. Ela não aprovava ele, de jeito nenhum, mas suportaria a existência dele se fosse necessário. Foi o que eu entendi. E, honestamente, eu sabia que ele era capaz de fazer tudo isso por mim. E me deixava em êxtase saber que ele se importava comigo nesse nível. Não era apenas um flerte passageiro pra ele. Eu nunca era a escolhida, sempre era o step. Mas, ele realmente estava apaixonado por mim, me colocando em primeiro lugar. Eu sorri involuntariamente e pensei naquele dia que disse pra ele "Eu sei que está apaixonado por mim. E qualquer um que é capaz de amar é capaz de ser salvo". Ele não confirmou, mas não negou. E eu realmente pensava daquela forma, não disse aquilo apenas para fazê-lo me dar seu sangue e me salvar. Eu vi em seus olhos e nas suas atitude comigo uma tendência mais suave, um Klaus mais humanizado que ficava escondido nas sombras de mil anos de podridão, que ocultaram e suprimiram o seu lado bom. Mas, não pra mim. Eu vi o lado bom do Klaus. Ele até poderia enganar os outros com esse comportamento vilanesco, mas de mim ele não podia correr. E ele parecia não querer...

E agora, depois de tudo o que eu vi na mente de Elijah e depois de confirmar o que eu já desconfiava sobre seus verdadeiros sentimentos por mim, podia afirmar que Klaus tinha chance de ter uma vida melhor que essa, de violência, de ódio e de medo. Ele poderia encontrar a sua paz com sua família. Poderia encontrar o amor...Não necessariamente o meu amor. Embora ele tenha prometido esperar o meu tempo, pois estava convicto de que esse momento chegaria. "Leve o tempo que for", ele disse. Se esse dia chegaria, não saberia dizer. Mas, hoje eu podia afirmar que tinha sentimentos por ele.

Mas, o que significaria para todos eu ser a prioridade de um híbrido original megalomaníaco e com tendências homicidas, que passa por cima de tudo e de todos para ter o que quer? Significa que estamos ferrados com essa destruição do Outro Lado. Confesso que me deixava preocupada saber o que estava por vir. Morte e destruição. Inimigos por todo lado esperando a chance de ataque. Klaus, para me salvar, abriu os portões do inferno.

Sentimento agridoce. Feliz por ele ser capaz desse traço de humanidade e, sobretudo, por eu ser o alvo disso. Mas, consternada por esse traço de humanidade causar a conturbação que deixará muitos em perigo.

Algo decente. Lembrei das palavras dela. Bufei. Será que ela entendia as consequências desse pequeno ato de "decência" dele? Não era justo sacrificar a paz e até mesmo a vida de outras pessoas só para que eu vivesse. Até qua ponto a vida de uma pessoa vale mais do que a de dezenas?

Klaus iria ouvir.

Eu agradeceria, claro, mas depois de tê-lo feito ouvir bastante. Estar apaixonado por mim é uma coisa. Meter os outros em furada em nome dessa paixão é outra. Mas, esse era o Klaus. Ele vai até as últimas consequências para ter o que quer e dane-se o resto. Mas, se ele quiser ser correspondido por mim, vai ter que mudar algumas coisinhas no seu modus operandi. Vai ter que ser nos meus termos. Não nos dele.

Me levantei da cama com pressa e abri meu guarda-roupas quase arrancando as portas. Estava com dificuldades para controlar minha força e impulsos vampíricos. Atípico de mim. Sou a rainha do auto controle.

— Preciso falar com ele. Preciso saber como... – Falava mais para mim mesma do que para minha mãe. Tomaria banho e me arrumaria o mais rápido que eu pudesse.

— Caroline, faça isso depois, você acabou de voltar, não está nada bem ainda. Por que você não apenas liga para ele? Não precisa ir até lá – Ela argumentou ao me ver indo até meu banheiro.

— Não posso esperar. E não é um assunto pra se tratar por telefone. Preciso falar com ele pessoalmente – Falei alto do banheiro para que ela pudesse me ouvir. Ela nada respondeu. Suspirei. O seu silêncio era indício da reprovação.

Abri o chuveiro na versão de água quente e entrei. A sensação de alívio foi instantânea. Era incrível como uma coisa humana tão banal pudesse ser tão gloriosa. Com certa relutância, não me demorei muito. Só o tempo suficiente para lavar os cabelos e tirar a sujeira do corpo. Os assuntos a serem resolvidos eram mais importantes que um banho relaxante e pacífico, por melhor que ele fosse.

Fechei a torneira e peguei algumas toalhas nos armários. Me enrolei nelas e me olhei no espelho. Minha cara estava horrível. Olheiras profundas. Semblante vazio. Cara de morte. Desviei os olhos e foquei nas minhas tarefas iminentes. Escovei os dentes com pressa e saí do banheiro após dar uma outra espiada rápida, a contra gosto, no espelho.

Minha mãe observava atentamente meus movimentos frenéticos e perturbados. Talvez pensasse que eu fosse ter uma síncope a qualquer momento. Não estava nada confortável com seu olhar incisivo e preocupado sobre mim. Tentando ignorá-la, abri meu pequeno closet. Vesti uma calça jeans preta e me sentei na cama para calçar minha bota favorita, preta de cano longo e plataforma. Coloquei meu sutiã e busquei apressadamente por uma blusa no emaranhado de cabides pendurados até que encontrei uma roxa larguinha. Eu gostava de roupas mais claras e alegres, mas o preto representava muito bem o meu humor do momento. Peguei um pente na cômoda e passei superficialmente nos meus cabelos, apenas para não formar um emaranhado de ondas embaraçadas quando secasse. Só, então, quando estava totalmente pronta, após poucos minutos, falei com a minha mãe.

— Você não pode ficar aqui. Se o Outro Lado estiver realmente destruído, todos os mortos sobrenaturais estarão de volta assim como eu. Não é seguro pra você ficar sozinha aqui em casa. Vou te deixar na casa do Stefan no caminho. Damon vai te vigiar. Vamos — Disse isso exasperadamente enquanto guardava meu celular e as chaves da casa nos bolsos da calça. Minha Mãe abriu a boca para contra argumentar:

— Não precisa, Caroline. Vampiros não podem entrar, você sabe.

— Sim, mas lobisomens podem, esqueceu? – Fiz referência ao nosso último e mortal encontro com eles – E bruxas também. Não vou deixar você aqui sozinha.

— Eu preciso ir trabalhar. O mundo normal não para porque os sobrenaturais estão de volta. Os crimes humanos não ficam de folga quando os crimes sobrenaturais entram em ação.

Bufei. Minha mãe poderia ser tão teimosa quanto eu. Ou mais. O que eu poderia fazer?

— Você promete que me liga se perceber algo suspeito? E que vai direto da delegacia para a casa dos Salvatore? – Falei isso totalmente a contra gosto. Era insanidade.

— Sim, não se preocupe. E você, não se distraia. Mais do que eu, você quem não deveria estar saindo de casa – Ela me olhou significativamente. Ignorei.

— Não vou ficar escondida aqui feito uma covarde – Ela revirou os olhos a lá meu estilo – Além disso, Klaus fez a merda que fez. Agora ele vai consertar.

— O único jeito de consertar seria desfazendo o feitiço. Não sei como funciona, mas não estou disposta a correr o risco de você morrer de novo. De jeito nenhum – Minha mãe falava assombrada com a possibilidade.

— Se ele destruiu mesmo, não tem retorno. Acho – Suspirei – Mas, não falo de reverter o feitiço. Falo que ele vai ser obrigado a proteger essa cidade já que ele a pôs em risco. Vai ficar dia e noite de vigília, de plantão na cidade toda. Mesmo que pra isso ele tenha que obrigar os irmãos a ficarem também – Falei isso nada convencida. Eu conhecia muito bem aqueles irmãos cabeças duras e prepotentes. Minha mãe pensou o mesmo. Sua expressão de incredulidade explanou isso – Enfim, deixe eu ir – Peguei as chaves do meu carro na cabeceira da cama e abracei minha mãe morrendo de medo de ser a última vez. Dei uma última espiada nela pensando se realmente era uma boa ideia sair agora. Suspirando pesadamente, me apressei até o veículo e saí numa disparada cantando os pneus.

Eu sabia que era muito imprudente deixá-la sozinha de novo. Da última vez que fiz isso, ela acabou com um tiro no ombro e eu, morta. Era como se eu não tivesse aprendido com meus erros e nem ela aprendido com os dela. Mas, o que eu faria? Daria uma porrada na sua cabeça para desmaiá-la e a colocaria à força no carro? Talvez fosse uma boa ideia. Considerei fortemente essa opção. Sacudi a cabeça. Que coisa horrível de se pensar em fazer com a própria mãe. Mas, era para o bem dela. Não, Caroline. Não seria certo você fazer isso. Mas, ela estaria segura e não seria nada grave, apenas uma mera desmaiada. Chega! Gritei dentro da minha cabeça. Eu estava enlouquecendo, era isso. De qualquer forma, eu já tinha me afastado bastante de casa. Percebi ao olhar em volta. Estava muito agitada para me concentrar. Inspirei fundo, tentando controlar os nervos e relaxar os músculos. Pensei numa alternativa não muito agradável, mas era melhor que nada. Peguei meu celular e disquei para alguém de quem eu não gostava e nem costumava ligar.

— Quem está usando o celular da barbie blonde? – Sua voz sarcástica ressoou nojentamente do outro lado da linha. Era irritante ouvi-lo falar assim de mim.

— Sou eu mesma, Damon – Silêncio. Ele respondeu depois de alguns segundos.

— Tem sinal no além? Não sabia. Vou ligar para algumas pessoas pra ver se atendem. Algumas eu mesmo coloquei lá – Revirei os olhos.

— Você está realmente debochando de quem morreu? Se for isso, vai adorar a notícia que tenho pra você – Sorri com maldade. Todos nós estávamos fudidos. Mas, era estranhamente prazeroso usar isso para causar algum fio de medo nesse capeta e me vingar dele. Ele ficou em silêncio – Mas, antes – continuei — Preciso de um favor. Não para mim – Tratei de deixar claro – Para minha mãe – Ele e minha mãe tinham uma amizade e sintonia muito esquisita que eu nunca iria entender ou apreciar. Às vezes eu tinha vontade de contar tudo o que ele me fez apenas para vê-lo ser odiado por ela.

— Espera. Que notícia? E você não vai dizer como voltou? – Ele deixou o tom irônico de lado e falava sério dessa vez – Não acha que essa parte é importante? E Bonnie?

— Eu vou contar, mas só para pessoas importantes pra mim, as que de fato interessam. E você não faz parte desse glorioso e sortudo grupo – Ele não era o único que sabia usar o sarcasmo – Se eu voltei, Bonnie também. Assim como todo sobrenatural morto. Estão vivos agora. Então, avise aos outros. Essa é a notícia – Silêncio total do outro lado da linha — E é justamente por isso que estou ligando. Minha mãe está sozinha em casa e é perigoso pra ela. Alguém precisa ficar lá com ela.

Blonde, que história é essa de que todos os sobrenaturais mortos voltaram?

— Você ouviu o que eu disse. É isso. Que parte você não entendeu? – Já estava me irritando. Só de ter que falar com ele já me irritava – Vai fazer o que estou mandando ou não? Pela minha mãe, Damon, sua suposta amiga.

— Você sabe que não é suposta. Porém, por mais que me importe com a Liz, não é um tanto exagerado eu virar a babá dela? Por que ela seria um alvo?

— Não é exagero. Além disso, ela já cansou de salvar a sua pele asquerosa do Conselho. Está na hora de você retribuir a amizade – Ele ficou calado – E você tem memória curta? Não se lembra do que aconteceu semanas atrás? Ela foi um alvo por causa de min e de Tyler – Deixei Klaus de fora, embora eu soubesse que Damon estava muito a par de toda a situação envolvendo o híbrido macho alfa e seus híbridos súditos revoltados. Mas, era melhor não pôr mais lenha na fogueira, que já estava bem alta.

— Está bem, está bem. Mas, por que você não está em casa com ela?

— Não é da sua conta. Não deixe de avisar aos outros sobre a volta dos sobrenaturais.

— Estranho você mesma não ligar para o seu Tefinho e pedi-lo para salvar o dia com seu topete de herói.

— Você é amigo da minha mãe, não ele. Vai mandar o Stefan enquanto se esconde?

— Você não vai nem ao menos visitar a sua amiga? – Ele ignorou o que eu disse — Ela já acordou – Demorei um certo tempo para processar e entender a que ele se referia e lembrei daquela noite. Elena e Katherine foram pegas por Qetsiyah e postas a efeito de um feitiço misterioso. Eu pensei que seriam mortas naquele momento e me senti culpada por nem ter lembrado disso. Me arrepiei. Parece que não. Graças a Deus, pelo menos por Elena. Ele usou a palavra "acordou". Elas estavam dormindo esse tempo todo? – Como assim?

— A bruxa má e recalcada deixou Elena e a vadia da Katherine apagadas por meses. Ontem, misteriosamente, elas simplesmente voltaram – Muita coincidência. O Outro Lado é destruído. Eu volto. Elas voltam. Ou seja, de coincidência não tinha nada. Suspirei — Eu irei assim que puder – Claro que eu me importava demais com a minha amiga. Crescemos juntas. Era quase uma irmã. Assim como Bonnie. Mas, com o Outro Lado destruído, minhas preocupações quanto às mortes de pessoas queridas tinham diminuído consideravelmente. Afinal, eu sabia que estariam aqui. Contudo, parece que o que houve com Elena foi diferente — Então, Damon, faça algo decente uma vez na sua vida, ok? Você vai ver que não dói tanto assim. A recompensa é algo com que você não está acostumado, um calorzinho no coração ao ajudar um amigo em necessidade – Antes que ele respondesse, desliguei o telefone. Conversar com ele estava no caminho oposto de melhorar meu humor. Então, cortei a conversa o quanto antes.

Claro que a minha primeira escolha de ajuda seria Stefan e até poderia ter ligado pra ele no lugar de para Damon. Mas, a amizade estranha e repugnante do irmão mais velho com a minha mãe me fez pensar nele primeiro. Comecei a me arrepender disso e pensei em falar com Stefan, chegando a procurar seu nome nos contatos. Contudo, desisti. O tempo estava apertado demais e em breve eu estaria na casa de Klaus. Esse pensamento fez meus músculos tremerem um pouco, numa reação estranha que eu não sabia decifrar. Tentei me distrair um pouco e relaxar a mente antes do próximo embate psíquico emocional. Uma conversa com Klaus era uma batalha travada com certeza. Um embate que misturava prazer e frustração. Sorri.

Me concentrei na estrada, mas logo comecei a devanear. A sensação de dirigir outra vez foi ótima. Incrível como você só passa a prestar atenção em coisas pequenas quando você deixa de ter tais privilégios que você dava por garantido. Agora eu não mais perderia nada. Desde detalhes mínimos da vida até grandes feitos. Viveria os momentos em toda a sua plenitude. Meus planos humanos nunca foram tão importantes. Mais do que nunca queria participar das convenções humanas, dos pequenos prazeres de um dia a dia comum que somados geravam muita felicidade. Pensei na universidade. Sempre quis fazer faculdade de jornalismo. Um sonho antigo, que outrora parecia impossível. Mas, desde que me tornei vampira, sentia que havia poucas coisas que eu não poderia fazer. Com essa ideia, pensei nas minhas inscrições para faculdade dentro da gaveta, empoeiradas e apodrecidas pelo tempo em que fiquei em coma. Merda. Perdi o prazo e as aulas começariam em breve. Não poderia mais me candidatar esse ano a não ser que eu usasse algumas estratégias especiais...Não, Caroline! Não vai trapacear para entrar na faculdade...

Meus devaneios me distraíram de tal forma que só percebi que estava próxima à casa de Klaus quando entrei na rua das mansões vizinhas e exuberantes. Mesmo na cidade pequena de Mystic Falls ainda se encontravam casas como aquelas. Poucas. Mas, existiam. E percorrer o caminho para a grande e luxuosa casa de Klaus estava se tornando tão natural pra mim quanto um hábito.

Estacionei o carro próximo ao chafariz, a alguns metros da porta principal. Porém, não saí imediatamente do carro. Primeiro precisava me controlar. Não deixar as emoções me dominarem tanto. Eu sabia que teria uma conversa pesada com Klaus em poucos minutos. Depois de tudo o que aconteceu...

Eu lembrava. Vi uma conversa dele com Elijah enquanto eu estava vagando pelo submundo desconhecido. Conversa, não. Briga. Klaus estava sofrendo com a minha morte. Até mesmo Elijah, para minha surpresa. Aquilo me quebrou na hora. Eu quis voltar só para que o sofrimento de Klaus acabasse. Vê-lo se transformar em lobo foi apavorante. Naquele momento ele se transformava no meu pior inimigo decretado pela versão desnaturada da mãe natureza. Contudo, na sua forma de vampiro, sua presença se tornou reconfortante, amiga e familiar.

E agora essa questão do Outro Lado. Ninguém nunca foi tão até as últimas consequências por causa de mim. Eu nunca era a escolhida para o primeiro lugar do pódio. Claro, era uma faca de dois gumes. Últimas consequências são perigosas.

Antes de entrar e encará-lo, eu precisava me encarar. Peguei o espelho da alma e analisei meu reflexo nele.

Era fato que eu me importava com Klaus. Era fato que eu tinha sentimentos por ele. Mas, que nível de sentimentos? O que fazer com isso? Dar as costas para tudo, chutar o balde de vez e me entregar aos desejos sombrios? Essa não era eu. Talvez. Quase.

Seja como for, eu não iria mais ficar longe dele. Confessaria meus sentimentos conturbados e inconclusivos por ele e teria esperanças de que, por hora, ele aceitasse o que eu estava disposta a oferecer e que fosse o suficiente para ele. Que não me pedisse agora mais do que eu poderia dar. *Talvez um dia* eu ficasse totalmente sem amarras. *Talvez um dia* eu pudesse corresponder às expectativas dele na mesma proporção e intensidade. Era um grande talvez. Mas, para alguém que estava acostumado com a negativa, o talvez já era uma vitória. A atração e a conexão crescente eram algo que eu não conseguia mais controlar.

Sorri. Estava ansiosa para ver aqueles olhos verdes penetrantes e aquele sorriso sínico demoníaco, com aqueles lábios vermelhos. Por mais que eu não quisesse aceitar tão abertamente, eu ficava perdida quando ele sorria. Ele viria com uma desculpa esfarrapada e arrogante sobre sua decisão a respeito do Outro Lado, mas eu já estava acostumada com isso. A prepotência, nele, conseguia ser um charme. Na cabeça dele, com certeza ele achava que estava no direito de destruir o Outro Lado. Que só ele era capaz de resolver o indecifrável. Às vezes, isso era até verdade. Assim era o Klaus com seu complexo de Deus. Pior. Eu também estava ansiosa para ouvir o tagarelar irritantemente convencido dele. Eu gostava de ouvi-lo falar, gostava de vê-lo expor toda sua inteligência e exibir todo seu conhecimento de mundo. Era inegavelmente sedutor. Ainda mais se adicionar o fator sotaque britânico...

Sacudi a cabeça. Se concentre, Caroline. Você vai para uma zona de guerra mental e verbal agora com o vampiro mais velho e ardiloso do mundo. Tem que estar preparada.

Saí do carro em passos firmes, decidida a enfrentá-lo com tudo. Claro que a essa altura eu não batia mais na porta. Não precisava. Eu podia entrar e sair dali se eu quisesse e quando quisesse.

Ouvi de longe a voz de Rebekah, mas não ativei a audição vampírica pra não ser mal educada e bisbilhoteira por escutar a conversa dos outros na surdina. Só teria que localizá-lo dentro daquele labirinto que ele chamava de casa.

— Klaus? Onde você está? – Chamei impaciente – Klaus? – Fui até aquela sala com uma grande lareira onde ele gostava de ficar remoendo seus demônios internos e encontrei Rebekah, segurando o celular – Onde está seu irmão?

— Bom dia pra você também – Ela respondeu malcriada. Tudo bem, eu não tive educação. Revirei os olhos.

— Eu preciso falar com ele.

— Tem passaporte? Vai precisar – Ela sorriu debochada.

— Ele saiu do país justo agora? – Perguntei já me irritando e levantando a voz umas oitavas.

— O "justo agora" só está acontecendo porque ele saiu da cidade – Ela respondeu se largando no sofá, ainda sorrindo com cinismo – Não foi do país. Só estava zombando de você.

— Rebekah, você pode parar com as meias explicações e gracinhas? Fala logo onde ele está – O sorriso dela sumiu. Ela se levantou do sofá cruzando os braços e me encarando. Temperamental que nem Klaus.

— Meu irmão idiota foi até o Estado da Luisiana seguindo pistas sobre uma possível descendente de Qetsiyah para destruir o Outro Lado e trazer você de volta. Feliz? – Dificilmente. A encarei de olhos arregalados – Talvez ele quisesse trazer Kol de volta também. Não tenho certeza quanto a isso. Meu irmão nunca foi do tipo familiar – Eu sabia que isso não era verdade. Vi as memórias de Elijah. E vi que hoje, mesmo do jeito disfuncional do Klaus, ele se importava com os irmãos. Rebekah não estava sendo justa com ele. E ela sabia disso.

— Quando que ele volta? – Depois de alguns segundos em silêncio pelo choque, foi só o que consegui dizer.

— Não volta. Não por enquanto – Ela desviou o olhar. Prendi a respiração. Meu coração acelerou. Tá de sacanagem.

— Que? Como assim? – Gaguejei.

— Por que você não liga pra ele e não pergunta? Não sou dama de recado – Minha impaciência aumentava a cada minuto.

— Rebekah, me diga – Me aproximei dela, com tom suplicante na voz – Por favor — Ela suspirou e enxerguei um vislumbre de humanidade em seus olhos azuis. Ela cruzou os braços, mas ficou menos na defensiva. Ela não era tão ruim quanto gostava de parecer.

— Ele achou a bruxa, obviamente, já que você está aqui. Mas, ela e o seu grupo querem algo em troca. Então, o prenderam na cidade até terem o que querem. Não sei tudo, ele não me disse, aquele bastardo. Os detalhes sórdidos você pode conseguir dele mesmo – Sendo assim, ela me deu as costas e me deixou sozinha na sala.

Me senti péssima. Era pior do que eu pensava. Prenderam Klaus? O híbrido Original? Não era possível...

Klaus se meteu numa armadilha por minha causa. Estava preso, longe de casa, longe da família por minha culpa. Fechei os olhos e me esforcei ao máximo para conter as lágrimas. Inspirei e expirei fundo algumas vezes até ter coragem de sacar o celular e ligar pra ele.

A chamada só tocou uma vez. Ele já estava esperando por mim.

— Olá, love — Ouvi sua voz rouca e foi como ar fresco depois de tanta agonia. Não pude evitar de sorrir e sentir a pele formigar. Meu coração acelerou e minha garganta ficou seca. Mas, eu ainda precisava brigar com ele antes de me deixar levar pelos sentimentos conturbados.

— Klaus. Você pode me dizer em que merda você foi se meter aí nessa cidade?

— Eu estou ótimo. Obrigado, love. E você? Bem, ao que parece. E pelo visto, fui bem sucedido. Você já está bem e viva, reclamando no meu ouvido.

— Não tem graça – Queria rir, mas me contive.

Silêncio

— Eu seu, eu sei — Pude ouvi-lo contendo a risadinha sarcástica.

— Então, pare de rir. "Bem sucedido". Oh, my...Então, você foi mesmo procurar pelo caos — Eu andava sacudindo os cabelos, enquanto dava pulinhos de raiva.

— O caos já me segue, love. É inerente à minha existência.

— Quanta abobrinha. Você só faz merda, por isso o caos te segue.

— Ok. Eu admito que eu contribuo bastante. Mas, dessa vez foi por uma boa causa. E foi minha decisão. Não me arrependo nem por um décimo de batimento cardíaco — Exalei o ar cansada.

— Sinto muito, Klaus. Eu jamais quis te colocar numa situação como essa. Rebekah disse que você está preso aí. Como que você permitiu que fizessem isso? Realmente não consegue passar pela divisa? Já tentou vir de avião? — Tentei usar o deboche, mas só me senti uma ridícula.

— Não fui experimentar ainda, mas é isso. Não se preocupe, love. Não vai durar muito tempo. As malditas bruxas puseram um feitiço de barragem na fronteira da cidade. Não posso atravessar. Foi isso. Mas, vai ser divertido, eu garanto. Estou só esperando meu momento de revidar.

Fiquei pasma. Para uma bruxa conseguir interditar uma cidade inteira deve ser necessário muito poder. Fiquei com raiva. Raiva de Klaus por se colocar nessa posição e não poder voltar. Raiva das bruxas por não deixá-lo voltar. Raiva de mim, por ter causado isso.

Sentei no sofá, ainda calada.

— Não se aflija muito com isso. Em breve eu conseguirei sair – Ele me conhecia o suficiente pra saber o turbilhão de emoções que me assolavam no momento — Nenhuma bruxa vai me vencer. São inferiores. Todos esses seres são. É só uma questão de tempo para eu achar uma saída – Revirei os olhos. Bendita seja a arrogância. Era a hora de tentar colocar algum juízo na cabeça dele.

— Não quero ser ingrata e nem injusta, mas essa decisão não foi sensata. E nem era realmente sua para tomar. Você pôs Mystic Falls num caos total. Eu sou apenas uma pessoa. Os outros não merecem pagar pela minha vida.

— Eu sei. Mas, eu não sinto muito por isso. Foi com as mais puras intenções. Você merece viver. Disso eu tenho certeza. Quanto aos outros, não sei. Só sei que não existe ninguém melhor que você nesse mundo e eu não iria permitir que você não existisse. Me agarraria a qualquer possibilidade de te trazer de volta. E eu nem sei como seria eu viver num mundo onde você não está mais. A sua presença me traz paz. E a sua felicidade me dá a sensação de dever cumprido. Mesmo se ficássemos séculos sem nos vermos, eu ficaria em paz só de saber que está bem e feliz. Se você acha que fiz isso apenas para ganhar sua atenção, seu afeto, está enganada. Fiz também porque é o certo, porque você merece ter a chance de realizar os seus sonhos e viver plenamente como foi destinada a ser. Então, aproveite a segunda chance – Engoli em seco, amolecida com essas palavras. Enaltecida por uma afirmação tão forte como essa. Seria difícil argumentar depois dessas declarações tão reveladores e carregadas de emoções inéditas e fortes. O megalomaníaco Híbrido Original pensava que eu era digna o bastante para até mesmo causar um reboliço no mundo sobrenatural. Em mil anos muita gente deve ter cruzado o seu caminho, mas na visão dele eu era a melhor pessoa que ele conheceu. Um sentimento reconfortante tomou conta de mim, me deixando enebriada e calma ou mesmo tempo, com a sensação de que tudo ficaria bem. Me fazia sentir protegida, tratada com prioridade, na mesma proporção que me fazia sentir poderosa e invencível.

Depois de alguns segundos calada, só ouvindo a respiração acelerada dele do outro lado da linha, aguardando a minha resposta, como eu poderia responder à altura?

— Entao, isso é uma novidade pra mim. Você colocando os outros acima de você. Acha mesmo que não vai sofrer nenhuma consequência? — Dei um leve tapa na minha testa. Olha a merda que eu falei. Eu não estava sabendo lidar com toda essa confissão numa única conversa por telefone.

— Os outros, não, Caroline. Estou colocando você — Meu coração disparou de tal forma que fazia meu peito doer — Você é muito importante pra mim. Quando eu voltar, você vai saber o quanto.

— Acho que já estou começando a ter uma ideia. Você destruiu o Outro Lado por mim — Falei isso quase num sussurro. Era assombroso demais.

— E eu faria isso mais mil vezes se fosse necessário. Eu faria qualquer coisa por você. Foi tudo por você, Caroline. E todas às vezes em que eu tiver que escolher entre o que é certo e o que é fácil, eu sempre vou escolher você.

— Você não pode escolher quem vive e quem morre, especialmente quando não for o certo e nem o fácil – Me esforcei ao máximo para conseguir ser racional. Quando ele iria entender que não é seu direito interferir na vida das pessoas dessa forma, decidindo o seu destino? Mas, apesar do meu lado lógico ainda reverberar, eu só conseguia focar numa questão: Com tudo isso o que ele estava me dizendo, só me confirmava, com outras palavras, que realmente estava apaixonado por mim. Contudo, isso era muito para eu aguentar no momento. Ele ficou quieto por um tempo, talvez estivesse esperando uma resposta minha melhor do que essa baboseira que eu falei. Mas, eu queria fugir daquela conversa sentimental, pois eu ainda estava em fase de auto descoberta. Não sabia ao certo o que sentia por ele. Atração e conexão, sim, com certeza. Paixão....talvez. Talvez um dia se tornasse algo mais.

— Talvez — Ele disse mal humorado.

— Você não pode. Se ao menos você estivesse aqui para me ajudar, talvez eu perdoasse essa sua nova mancada. Não espera que eu resolva tudo sem você, não é mesmo?

— Rebekah vai estar com você. E algumas vezes, Elijah.

— Onde ele está agora? – Verdade, Elijah...

— Aqui comigo. Ele veio me ajudar. Mas, eu o mandei ficar aí – Pude sentir na sua voz a frustração.

— Você precisa dar uma trégua a ele, Klaus. Ele não pode ser seu capanga se desvirando entre duas cidades.

— Sim, ele pode. E ele faz feliz. Seus ideais fantasiosos são o combustível de que ele precisa. Se não fizer por mim, fará por Rebekah e, agora, por você. Mas, como eu disse, eu não o fiz vir pra cá comigo. Ele veio porque quis. Mas, eu agradeço ao meu irmão por isso, confesso. A presença dele fez diferença.

— Amém. Até que enfim. Um pouco de gratidão não custa nada. Rebekah também ficaria feliz se ao menos uma vez você desse um "obrigada" de vez em quando – Respondi com sarcasmo — E você, como pretende se livrar disso? Talvez as bruxas nunca mais te soltem – Cuspi as palavras com medo e frustração.

— Nunca é um tempo muito longo. Até meus mil anos ainda não atingiram o nunca – Ele disse zombeteiro.

— Não brinque comigo, Klaus.

— Desculpe, love. Só queria aliviar a tensão. Você não disse nada depois das minhas palavras infames.

— Entao...acho que deveríamos conversar pessoalmente sobre isso, não? — Falei roendo as unhas.

— Darei meu jeito de sair daqui o mais breve possível, então. Te falei. Não vai me dar nenhuma dica do que está pensando?

— Não agora. E eu sei que dará um jeito. Você sempre da. Mas, poderia ser menos evasivo? Me fala o que pretende — Tentei desviar do assunto perigoso.

— Ainda estou acertando os detalhes. Mas, você vai ser a primeira saber quando eu for bem sucedido. Mas, já que eu não posso sair daqui, você poderia me fazer uma visita – Pude visualizar com perfeição o semblante cínico e o sorriso torto típico dele. Mas, a seriedade do convite era tangível.

— Não posso largar a cidade do jeito que está, Klaus. Não posso deixar minha mãe sozinha. Nem meus amigos.

— Eu sei. Não precisa ser agora. Quanta coisa que você precisa ver, que eu quero te mostrar. Já falei, leve o tempo que for. O que eu prometo eu cumpro.

— Eu não vou tão cedo. Vai precisar aguentar um pouco mais a sua promessa.

— Vou me esforçar para guardar a decepção e a ansiedade. Mas, pelo menos não foi uma negativa. Chamaria de progresso.

— Então, por hora, isso é um adeus, já que não vou te ver e você não volta? – Fechei os olhos com medo da resposta. Meu coração deu um salto, fora de ritmo.

— Claro que não. Você ainda pode falar comigo sempre que quiser. Estou apenas uma ligação de distância – Não consegui responder — O destino é irônico – Ele continuou com a minha falta de comunicação — Eu vim aqui pra te trazer de volta e, talvez, se você quisesse, me dar uma chance. Mas, vir aqui me levou pra longe de você. O que me consola é saber que está viva. Mesmo que pra isso tenha que viver bem longe de mim.

— E nesse longe, o que você vai ficar fazendo nessa cidade? Vai largar a sua casa aqui, com a sua irmã? Duvido que aí seja mais divertido que a badalada Mystic Falls – O tom divertido foi usado para mascarar o clima pesado. Tentei não responder diretamente. Não sei se por telefone era uma boa ideia avisar a ele que eu estava disposta a dar essa chance. Especialmente nas circunstâncias em que estávamos. Ele era capaz de sair matando as bruxas até se libertar do feitiço. Eu não queria isso pra ele. Não agora que ele estava traçando um caminho melhor que os massacres de antes. Talvez um possível caminho de redenção. Não seria justo tirar isso dele, seria egoísmo meu.

— Tenho assuntos inacabados com alguns moradores daqui. Vou aproveitar esse tempo para resolvê-los. Talvez tenha sido uma oportunidade que o universo me deu ao me fazer ficar preso aqui. Vou aceitar de meio bom grado o meu destino, comprar uma casa nova, quem sabe. Não sei por quanto tempo vou ficar, então...

— Do que você está falando? – O interrompi — Que assuntos inacabados? – Casa nova? Ele estava maluco?

— Não se preocupe, love, são assuntos maçantes.

— Que você vai esconder de mim. Por quê? Não confia em mim tanto assim, então – Falei batendo o pé, com rítimo, na madeira escura de carvalho.

— Não é isso. Só não quero discutir esse assunto por telefone, podendo qualquer um ouvir. É perigoso. Se um dia você vier me visitar, te conto cada detalhe – Eu sabia que isso era meia verdade. Ele sempre mantinha a sete chaves os detalhes dos seus planinhos mirabolantes. Confiança era uma proeza para Klaus. E a paranoia era sua a fiel acompanhante.

— E onde você está agora que alguém pode te ouvir, afinal? – Eu já estava perdendo a paciência. Faltava pouco para eu gritar com ele. Sempre com meias palavras.

— Num hotel. Mas, não quero arriscar – Klaus era frustrante.

— Argh, seriously. Você não me diz nada, mas quer que eu confie em você. Quer que eu aceite suas ações sem contestar. Isso é muito difícil, Klaus.

— Eu sei. Esse é o momento em que você me diz que não quer mais que eu te procure porque sou um crápula? – Claro que não era isso. Ele era muito inseguro quando se tratava de mim. Eu sei. A culpa era minha. Eu não lhe dava nenhuma segurança.

— Você é um crápula. Mas, não é dos piores. E até que gosto. Se tiver um bad boy num raio de 5 km, eu vou achar e vou querer. E quando foi que você me ouviu das outras vezes? Vou deixar você me perseguir por mais alguns séculos – Não disse diretamente, mas a insinuação estava lá, nas entrelinhas. Para amenizar, usei o humor.

— Touché. Então, realmente devo adiar a minha oferta a você de passagens para New Orleans? Porque não vou poder te perseguir em Mystic Falls.

— Sim, por hora – Não era um não definitivo, ele entendeu.

— Vou sentir sua falta, Caroline. Vai ser estranhamente silencioso não ter a sua áurea me anuviando até conseguir o que quer. Sentirei falta da sua presença crítica, mas ao mesmo tempo libertadora, me rodeando e me deixando louco. Eu não sei explicar nada disso do que fiz, do meu comportamento. Apenas fiz de alma lavada. Sem arrependimentos. Mas, posso justificá-los. Não é um crime amar aquilo que não se pode explicar. Espero que um dia você compreenda isso – Meu coração bateu tão forte que acredito que era possível ouvir do outro lado da linha. Quase falei pra ele dos meus sentimentos confusos, mas me contive. Não era o momento certo. Era difícil manter o auto-controle e não me entregar de vez à consumação dos meus pecados reprimidos. Mas, eu precisava vencer minhas vontades em prol do que era o certo a se fazer. O frio na barriga e o arrepio na pele eram a prova viva de que eu estava totalmente tragada pelos encantos desse doido e que em breve ele me levaria com ele para o inferno de vez.

— Eu quero que volte. Prometa pra mim que você vai voltar. Eu preciso de você aqui. Da força do poderoso híbrido Original milenar. O que eu vou fazer em Mystic Falls sem você me perseguindo? Essa sempre foi a parte mais divertida.

— Só por isso que você precisa de mim? — Incrível como ele ignorou a última parte.

— Não me pressione, Klaus. E você me entendeu bem – Claro que não era só por isso e eu acabei de confirmar que não era. Mas, ele parecia tão sedento por alguma confissão minha que queria que eu dissesse qualquer coisa reveladora, qualquer que fosse. Mas, eu não diria nada a ele por telefone sobre meus sentimentos inconclusivos. Ele ficou quieto por uns segundos.

— Eu prometo – Ele respondeu finalmente. E depois, um breve silêncio. Eu não sabia mais o que dizer, mesmo tendo tanto para confessar. Me sentei no sofá, jogando a cabeça no encosto — Falando em precisar... – Ele continuou — Acho que vou precisar da sua ajuda, Caroline.

— Sobre o que? – Fiquei curiosa e alarmada. Não era todo dia que se ouvia algo assim vindo do poderoso Klaus Mikaelson.

— Katerina – Franzi o cenho – No dia em que a bruxa fechou o véu e matou Silas, ela usou as Doppelgangers para completar o feitiço – Sim, eu lembrava disso – E você deve lembrar que eu vim buscar Katerina aqui em New Orleans para evitar da bruxa pegá-la e ser bem sucedida – New Orleans...Tudo está fazendo sentido agora.

— Espera, você está preso aí por causa da Katherine? – Essa vadia sempre foi um problema para todos.

— Quase. No caminho ela me contou que uma descendente de Qetsiyah morava aqui e por isso ela estava na cidade. Me disse que essa bruxa poderia destruir o Outro Lado. Eu não acreditei, claro. Mas, quando Qetsiyah conseguiu a sua proeza, fiquei sem opções e não tive escolha senão arriscar com as supostas informações de Katerina. Mas, ela estava quase morta e não acordava de jeito nenhum. Então, a levei para a minha casa e decidi esperá-la acordar – Arregalei os olhos. Ela estava aqui? Agora? — Após semanas buscando alguma informação que me ajudasse a trazer você e Kol de volta, mas sem resultados, ela acordou.

— E onde que ela está agora? – Me levantei do sofá e comecei a andar em círculos pela sala. Ficava cada vez mais complicado.

— Num porão bem abaixo dos seus pés – Caramba...

— E você vai matá-la? – Confesso. Gostava dessa ideia. Um dia eu a defendi para Klaus. Hoje, mudei um pouco de ideia. Sacudi a cabeça, na tentativa de afastar e de reprimir essas ideias asquerosas.

— Acredite, poucas coisas me dariam mais prazer que isso. Porém, não posso – Franzi a testa extremamente surpresa. Klaus jurou uma vingança implacável a Katherine.

— E por que não? Esse era o seu sonho de vida, não? – Falei com deboche.

— Não posso, por você – Parei de andar automaticamente – Katerina pediu a liberdade incondicional dela em troca das informações que me dariam o sucesso na destruição do Outro Lado. Eu dei minha palavra a ela de que, se eu conseguisse o que queria, ela estaria livre da minha vingança. Para sempre – Meu queixo caiu. O silêncio foi a minha resposta – O que preciso é simples. Vá até o porão e a liberte...

— Só isso? Desse jeito? – Balbuciei atônita. Por que ele não pede a Rebekah? Ela não corre o risco de ter a cabeça arrancada.

— O máximo que você pode fazer é lembrar a ela inteiramente do nosso acordo. Se ela quebrar as cláusulas, o acordo acaba.

— E seria?

— O perdão é para as injúrias do passado. Qualquer movimento dela contra mim no presente ou no futuro, ela morre. Sempre soube e sempre saberei onde ela está. Não vai haver um canto desse planeta onde ela possa se esconder de mim – Ele disse banalmente. Agora sim parecia o Klaus que conheço. Porém, era difícil de processar – Você está anormalmente quieta, Caroline – Seu sotaque britânico saiu arrastado. Ele falava como alguém que andava sobre ovos, receoso de encontrar uma bomba escondida na areia — Não vai fazer um discurso enorme para mim, como naquela vez no carro, do porquê Katerina ter feito o que fez comigo? Do porquê ela não merecer minha vingança?

— Não. Você não estava certo em persegui-la pelo simples fato dela se defender de você. Contudo, está certo por puni-la a partir de agora, caso ela nos traia de alguma forma — Deixei de acrescentar o milagre e a nobreza que era ele abrir mão da vingança apenas para me salvar. E mais uma vez, me senti tomada por um assomo de alegria. Me senti importante. Ele negociou com a sua pior inimiga por mim. Eu poderia me acostumar com isso...

— Então chegamos a um denominador comum, pelo menos nisso – Pude vê-lo sorrindo.

— Aparentemente – Também sorri. Me senti animada pela cumplicidade que se formava.

— Então, você pode fazer o que pedi?

— Sim. Já estou na sua casa, na verdade. Quero dizer, você já sabe disso – Ele nada disse – Vim te procurar e... conversar com você.

— Sobre? – Senti a expectativa na sua voz. Mas, a conversa seria adiada.

— Minha mãe me contou sobre a sua visita a ela – Contaria só parte dos meus motivos naquela casa – Sobre o Outro Lado. Então...

— Entendo – A decepção na sua voz era cortante. Fechei os olhos na tentativa de controlar as emoções avassaladoras.

— Você realmente achou que seria uma boa ideia ir falar com ela?

— Eu estava de mãos atadas. Precisava conferir a ela um pouco de esperança. Deve ser horrível perder alguém que se ama. Agora eu sei bem o que ela sentiu — Meu estômago se revirou. Seriously? Eu ia desmaiar outra vez. A sala girou por alguns segundos.

— Bem, surtiu algum efeito. Ela não quer mais te matar — Me esforcei para falar, pois minha garganta estava seca.

— Bingo. Pelo menos uma vez na vida eu acertei — Ele soltou uma risadinha abafada.

— Então, é isso. Vou realizar seu pedido agora – Resolvi cortar logo o assunto antes mesmo que começasse, pois eu estava prevendo ter uma síncope – Não se preocupe.

— Não, mesmo. Confio em você. Mais do que você imagina. Só peço que confie em mim também – Silêncio, até que ele se manifestou por último – Não se esqueça de que estou a uma ligação de distância. Não hesite em falar comigo se precisar. Usarei o que estiver ao meu alcance para te atender mesmo daqui — Ele ficou quieto por um momento. E só o que se ouvia eram as nossas respirações. Eu ia abrir a boca pra falar, mas ele foi mais rápido — Adeus, Caroline.

— Adeus – a palavra saiu como ácido na garganta. Cheguei a cogitar a ideia de ligar de novo e confessar tudo de uma vez. Mas, não era o momento...

Coloquei o telefone no bolso e suspirei fundo me recompondo. Senti uma ardência na pele, de frustração. Eu não queria Klaus longe, especialmente agora. Depois de ouvir tudo o que ouvi, era impossível seguir em frente como se nada tivesse acontecido. Enfim, não me restava mais nada a não ser esperá-lo voltar. Precisaria engolir minha covardia e me preparar para encara-lo no futuro. Eu estava decidida. Assim que ele colocar os pés em Mystic Falls outra vez, eu irei atrás dele e confessarei tudo. Sem mais hipocrisia. Sem mais me esconder na sombra do medo e da vergonha. Claro, o caos é uma escada. E as falhas fornecem uma curva de aprendizado. Eu ainda tinha muitos degraus a subir, muitos erros a reparar. Mas, o que importava era que eu tinha decidido e começado a subir essa escada. E se Klaus quisesse ficar comigo, ele teria que ter paciência para esperar eu escalar cada nível, mesmo errando muito no processo.

E pensando nisso, lembrei dela...Se eu iria enfrentar Katherine agora, precisava estar com a mente fresca. Deixaria para remoer a minha conversa com Klaus depois.

Chamei alto o nome de Rebekah, esperando que ela viesse logo e sem pirraça.

Katherine era uma vampira com 500 anos a mais que eu. Não seria tonta de enfrentá-la sozinha, não era burra a esse ponto.

Rebekah apareceu na sala de cara emburrada, mas apenas me indagou com as sobrancelhas com a expressão de "o por quê" de tê-la chamado.

— Klaus me pediu para libertar Katherine. Gostaria que você me ajudasse com isso – Ela revirou os olhos.

— Me lembro bem. Ele prometeu isso a ela caso tudo desse certo. Agora sei bem o que é esse tudo. Todos nós com o pé na cova.

— Seja como for, agora ele quer cumprir. Pode me ajudar?

— E que escolha eu tenho?

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Fomos para o andar abaixo em silêncio, concentradas em nossos próprios mundinhos.

Ao chegar no porão, após inúmeros corredores escuros e gélidos, mais parecidos com corredores de masmorras, a avistei. Deitada e acorrentada, toda suja e rasgada. Olhei para Rebekah, que sorriu debochadamente. Suspirei consternada. Apesar de Katherine não ser uma pessoa muito boa, não achei o tratamento digno de um ser humano. Quase. Bem, ela era uma vampira. Que seja. Abri os portões de ferro e me aproximei dela. O barulho a fez despertar, mostrando o rosto imundo dentre os fios emaranhados, me olhando desconfiada. Ao me reconhecer, ela sorriu triunfante.

— Ele conseguiu – Ela me encarou de cima a baixo e olhou para Rebekah com raiva – Se ele conseguiu, já está mais do que na hora de me soltar. Ele prometeu – Ela nos encarava com expectativa e receio. Rebekah e eu nos entreolhamos.

— Você terá o que te foi prometido – Falei – Mas, antes, vamos só esclarecer umas questões – Ela ficou num silêncio pesaroso – Klaus quer que você saiba e entenda que se fizer algo contra ele, por menor que seja, sua liberdade acaba e você morre. Ele sempre soube onde você esteve e sempre saberá.

— Onde ele está agora, senão aqui, para te mandar fazer o trabalho sujo dele? – Ela desconfiava de nós.

— Isso não é da sua conta, é, Katerina? – Rebekah proferiu, se aproximando dela ameaçadoramente – Apenas seja grata pela liberdade que você não merece. É uma glória, um presente.

— Irônica, não é? A vida – Ela disse ignorando Rebekah – Eu matei você – Balançou sua cabeça para mim – Eu realmente quis te matar. Vingança contra a vagabunda e hipócrita da sua amiga. Eu não sabia que naquela noite você estava com sangue de vampiro no seu sistema. Não imagina o quão desapontada eu fiquei quando te vi vampira – Meu sangue subiu de raiva. Seus olhos brilhavam de maldade – E agora você está aqui para me conceder liberdade. Justo você. Você concorda com o Klaus? Concorda que ele me deixe viva? Logo eu, que matei você? Concorda com ele em trazer desgraça para a sua preciosa Mystic Falls com a destruição do Outro Lado apenas por causa de você? Ele não me engana. Eu sempre sei de tudo. Eu sabia que ele tinha um interesse muito forte por trás dessa atitude insana. Fiz meu dever de casa e descobri qual, no período em que o véu ainda estava abaixado e você, mesmo morta, circulava entre os vivos – Ela sorria debochadamente. Mesmo no seu estado deplorável, ela tentava mostrar algum domínio, algum poder – Mas, não seria burra para deixá-lo saber que eu descobri. Era uma carta preciosa pra ser usada no devido momento. E se ele não está aqui agora, é porque algo deu errado nessa pequena desventura dele – Ela sorriu abertamente – E quanto a você, Caroline, se concorda com tudo isso, não é mais a Caroline que eu conheci. É igual aos Originais. Suja e egoísta. Eles são prepotentes ao acharem que mandam ou desmandam no universo. Eu sempre soube que você era uma egocêntrica encubada. Ambiciosa demais para se contentar com pouco, mas escondida na faixada de boa moça. Agora tem o que deseja, um cara poderoso e rico debaixo dos seus pés — Eu queria avançar nessa piranha e quebrar o pescoço dela. Talvez, matá-la — Me diga, Caroline, o quão poderosa você se sente por ser a vadia do Klaus?

Na velocidade vampírica, avancei nela e a puxei pelos cabelos, a jogando contra parede. A segurei pelo pescoço enquanto expunha minhas presas, sedentas por rasgar seu pescoço. Faltava pouco. Só precisava de mais um motivo... A princípio, ela me olhou com choque, mas depois sorriu debochadamente.

— Olha quem finalmente está mostrando quem é. Eu sempre soube do seu potencial para vilã. Não se reprima, Caroline. Eu não vou te julgar. Eu gosto – Sua voz saiu rouca e falhada.

— Katerina, você é burra? – Rebekah falou antes que eu mordesse a vadia – Não parece ansiosa por sua liberdade. Se estivesse, não estaria nos provocando – Rebekah se aproximou de nós.

— Não estou provocando você – Ela falou com dificuldade por causa dos meus dedos ao redor do seu pescoço.

— Da no mesmo. Se me irritar, não importa o que meu irmão te prometeu. Ele não está aqui. Eu posso simplesmente te matar, me livrar do seu corpo e dizer que libertamos você. Ele nunca vai saber a verdade – Rebekah sorriu com cinismo e eu a imitei – Tenho certeza de que Caroline não vai se importar de termos esse segredinho – A vampira Original me olhou e trocamos sorrisos de triunfo – E nem meu irmão vai se importar se você morrer. Afinal, sonho dele é ver seus ossos pra fora da sua pele. Mas, ele fez uma bendita promessa pra você em troca da sua barganha. Mas, não é como se ele estivesse quebrando a promessa dele de não te matar, não mesmo. Meu irmão é estranho, ele se importa com certos códigos de honra. Mas, ele prometeu isso. Não eu. Se você morrer pelas minhas mãos, ele ainda estará em fidelidade com sua promessa. E de quebra, terá o gosto doce e saboroso da sua morte. Talvez agridoce, pois sei que ele ainda sonha em ser o executor.

— Elijah Não vai ficar feliz com isso. Vai decepcionar assim o nobre Elijah? – Detectei medo em sua voz. Ela sabia que se Rebekah decidisse matá-la, não teria a menor chance. Nem mesmo nos seus melhores dias, diferentes desses dias acorrentadas numa cela. Apelar para os sentimentos e a necessidade de aprovação de Rebekah em relação a Elijah era a sua única carta na manga. Uma estratégia bem tosca, na verdade. Beirava ao cúmulo do desespero. E Rebekah não era tão idiota assim.

— Como eu disse, eles não precisam saber – a vampira Original não se permitiu ceder e se aproximou mais até estar bem ao meu lado — O que você acha, Caroline? Devemos matá-la?

Verdade que eu gostaria de ver Katherine pagar por tudo o que fez a mim e aos meus amigos. Verdade que no fundo eu gostaria de vê-la morrer sofrendo, implorando por piedade. Mas, eram desejos medonhos que eu tentava apagar ou manter bem adormecidos no meu interior. Desejos que eu jamais gostaria de permitir vir à tona e me transformar em algo que acredito não ser, que repudio.

Eu não sabia se Rebekah falava sério ou não. Ela poderia estar muito bem apenas jogando com Katherine. Contudo, devido ao histórico dos Originais, não era sensato confiar nisso. Dúvida cruel. Arriscar para descobrir se Rebekah blefava ou não.

— Eu acredito que ela cometerá erros no futuro – Respondi finalmente – Klaus busca sedentamente ser o executor da morte dela e espera que ela dê um passo em falso para ter uma desculpa, por menor que seja. Eu prefiro deixá-la viva para ver Klaus destroçá-la em pedaços. Ele será muito mais criativo que nós e nos dará uma morte sensacional para essa vadia – Katherine me olhava com uma mistura de ódio e alívio. Por hora, ela viveria.

— Muito bem, então – Rebekah disse e soltei Katherine. Ela se aproximou da vampira e quebrou suas correntes com rapidez. Verbena queimou as mãos de Rebekah, mas ela suportou dignamente. Para afetar um original deve ser preciso uma dose maior – Pode ir. Não olhe para trás. Estou de olho em você, Katerina Petrova.

Sendo assim, sem pensar duas vezes, Katherine se levantou o mais rápido que pode e deixou a cela. Ela só conseguiu impor sua velocidade vampírica depois de muitos tropeços até o corredor.

Olhei para Rebekah, que apenas me encarou sem dizer nada e me deixou para trás na cela. Claramente algo a perturbava. A segui, até estarmos de volta em uma das salas da casa. Ela se serviu de Whisky. Típico. Era só o que tinha naquela casa. Whisky...

— Tem algo errado? – Fui direta.

— Você ainda pergunta? – Ela não me encarava, só engolia a bebida.

— Sobre o possível caos na cidade? Estou ciente, obrigada – Usei tom sarcástico — Mas, você é uma Original. Vai se sair melhor que todos aqui.

— Como você pode dizer isso? Você não conheceu Mikael nem Esther? Eles virão atrás de mim e de meus irmãos. Vão tentar nos matar. De novo.

Ok. Eu tinha esquecido desses dois. Como pude? Eu mesma presenciei uma briga ferrenha entre pai e filho, bem ali naquela sala. Presenciei uma discussão derradeira entre mãe e filhos num armazém duvidoso longe daqui.

— E sabe o que é pior? – Ela continuou — Nós estamos em perigo por causa de você – Jogou na minha cara, finalmente me encarando. Eu já esperava por isso, era uma questão de tempo até algum deles apontar o dedo pra mim – Não é justo – Ela continuou, andando um tanto exasperada pela sala – Sabe, matemática nunca foi meu forte, mas ainda acho que centenas de vidas são mais que apenas uma. Mas, honestamente, só me importo com meus irmãos. Assim como você só se importa com seus amigos – Ela bateu o copo na mesa de centro — Os outros que se danem. Meus inimigos menores eu derroto num piscar de olhos. Mas, quanto aos meus pais, são eles que realmente me preocupam. E você ainda fica usando esse tom comigo.

— Eu acho que você percebeu, minha mãe e meus amigos também podem morrer, Rebekah. E eu serei a culpada, como você fez questão de frisar. Eu estou tão feliz quanto você por estar de volta. Então, eu sinto muito, ok? Sinto muito se causei tudo isso. Não pedi para Klaus dar uma Deus e decidir o destino de todos.

— Você sente muito? E Fala da decisão do meu irmão com desdém e ingratidão. Típico de você – A olhei indignada. Incoerência que se chamava — Meus irmãos são uns idiotas quando se trata de mulheres. Klaus já nos colocou em situações perigosas por causa de mulheres. E não aprende com os erros. Não está sendo diferente com você. Sempre te rodeando e tentando de tudo para conseguir ao menos alguma educação e cortesia sua. E nem isso recebe. Ele cruzou todas as linhas agora por sua causa. E por nada. Trouxe o inferno na Terra por causa de uma mulher que nem se importa com ele.

— Você está sendo injusta e hipócrita – Me aproximei dela, com o sangue fervendo. Ela me encarou incrédula – Sempre escuto de Elijah e principalmente de Klaus que você é uma desvairada quando se trata de homens. Klaus até justifica as atrocidades que ele fez com seus namorados em cima da sua falta de senso na hora de escolher.

— Cuidado, Caroline. Meu temperamento é o mesmo dos meus irmãos.

— Cuidado? Você pode falar o quer, mas não pode ouvir? – Ela não respondeu – E o que você quer de mim? Primeiro afirma que a culpa de tudo é minha e quando digo que não pedi por nada disso, me acusa de ser ingrata? É ilógico.

— Ilógico está sendo meu irmão. E Elijah uma maria vai com as outras.

— E você está errada. Eu me importo com ele. Eu realmente tenho sentimentos por ele. Só não sei o que fazer a respeito. Não é fácil lidar com alguém como Klaus, você sabe disso. E ele já fez tanta merda aos meus amigos que fica difícil fingir que nada aconteceu e simplesmente ficar com ele. Eu preciso de um tempo ainda, droga! Mas, por que eu estou te dando alguma explicação? Nem é da sua conta – Merda. Escapou.

— Você tem? – Ela perguntou incrédula, mas esperançosa.

— Sim! Afinal, por que acha que estou aqui agora? Não vim aqui por causa da Katherine. Nem sabia que ela estava aqui – Falei alto, quase gritando.

Me sentei em um dos sofás de couro preto e comecei a chorar. Era inevitável sentir tudo isso. Toda a culpa. Todo o medo. Toda a insegurança de sentir algo por alguém que eu não deveria sentir. Mas, acima de tudo, medo de mim mesma, pois eu estava gostando do que sentia por Klaus, estava gostando de fazer parte da vida louca que ele levava.

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Ela nada respondeu, apenas se sentou na poltrona de frente, intercalando seu olhar entre mim e outras partes da sala, claramente sem saber o que dizer ou fazer. Até que voltei a falar, um pouco mais calma.

— Eu não queria morrer. Mas, obviamente, não queria que você e ninguém pagasse as consequências pela minha volta. Agora, não sei o que fazer.

— Não tem o que fazer. Só esperar. O que está feito está feito, como disse Macbeth. Às vezes, as coisas acontecem por uma razão. Tomara que dessa vez seja por uma boa razão.

— Esperar a desgraça chegar e nos derrotar? – A olhei pasma. Ela não podia estar falando sério.

— Não. Esperar a guerra começar para nós lutarmos. E com sorte, vencermos. Ou, podemos ir embora...Você pode levar sua mãe para bem longe daqui.

— Poderia, mas seria muito egoísmo, Rebekah. E as pessoas que vão ficar na cidade? Não podemos evacuar toda Mystic Falls. E nem podemos deixá-los à deriva aqui. Precisamos ficar e proteger o local. Ao menos eu me sinto na obrigação de ficar.

— Eu também – Ela suspirou – Meus irmãos causaram isso. Não é justo que eu pague, mas também acredito que é meu dever ficar e consertar o estrago que minha família causou. Pelo menos devo tentar. Minha família já fez tanta besteira com a vida dos outros e nunca reparamos. Seria justo e poético eu começar a me retratar justamente no local onde vivi minha vida humana – Acho que essa era a primeira vez que tinha uma conversa civilizada com Rebekah. E, sabe, ela não era de todo ruim. Desse ponto de vista, parecia sensata e madura. Até mesmo humanizada. Lembro de Klaus e de Elijah falando dos desejos da irmã de voltar a ser humana e ter uma vida de paz, com uma família, filhos. Uma parte do temperamento ranzinzo dela era, sem dúvida, frustração por não ser possível realizar esse sonho. Pelo menos não todo ele. Ela ainda poderia ter uma família, mesmo sem filhos. A Rebekah das lembranças de Elijah era diferente dessa. Era mais amorosa e protetora. Incondicionalmente leal a Klaus. Pensando bem, não está tão diferente assim, não, pois sua devoção a Klaus ainda era visível, mesmo escondida sob camadas de ressentimento.

— Imagino que existam pessoas aqui com quem você se importe – Pensei em Matt. Mas, levando em consideração que era melhor não tocar direto num tema sensível, não pronunciei o nome dele.

— Não consigo pensar em ninguém – Ela mentiu, claro. Porém, ela sabia que eu conhecia a verdade.

— E sobre seus pais? – Mudei de assunto. Para um muito pior que o anterior. Boa escolha, Caroline – Você tem alguma ideia do que possam estar fazendo agora? – Antes que ela pudesse responder, uma outra figura feminina se pronunciou:

— Quanto a mãe, ela não precisa se preocupar.

Rebekah e eu nos levantamos de supetão, com a surpresa da visita. Como não a escutamos chegar? Esther estava parada de braços cruzados no arco de entrada da sala.

— O que você faz aqui? Realmente esse é o primeiro lugar que você pensa em visitar logo ao voltar da morte? — Rebekah se aproximou dela exasperada e com indignação – Não acha que é muita audácia sua aparecer depois de ter tentando nos matar?

— Minha filha querida, acho que você está com a memória falhada. Até onde me lembro, antes de Qetisyah levantar o véu, eu ajudei vocês contra ela. Ficou mais que claro naquela ocasião de que lado eu estava.

— Você estava querendo alguma coisa. Apenas isso.

— Verdade. Quero o perdão dos meus filhos. Me arrependo de tudo. Desde ter transformado vocês em vampiros e lhes dado essa maldição até ter tentado matar vocês para eliminar o mal que causei.

Olhei para Rebekah, que demonstrava zero credulidade nas palavras da mãe.

— E você espera que tudo se resolva magicamente e que viremos uma família feliz, sua desmiolada?

— Claro que não. Como disse, possuo profundos arrependimentos e venho trazer uma oferta para vocês, meus filhos, em prol de demonstrar que dessa vez, definitivamente, estou do seu lado e pronta para me redimir.

— E como seria isso? Agradeça aos céus por Nik não estar aqui agora te ouvindo falar tanta besteira — Rebekah cruzou os braços dando um sorriso debochado e incrédulo.

— Antes, pensava que eliminar vocês era o jeito de extinguir o mal que causei, não só a vocês, mas também a toda raça humana, transformando vocês em predadores letais – Ela se aproximou vagarosamente da filha – Agora, vejo com clareza o que, de fato, foi o verdadeiro mal. Aquele que deve ser expurgado de vez.

— E o que seria? – O interesse foi despertado na vampira Original.

— Mikael – Esther declarou — Ele quem manipulou e me coagiu a fazer a magia negra e a transformá-los nessa escória. Tudo começou com ele. Muito antes de vocês nascerem, ele já demonstrava suas inclinações para o caminho do mal. Como uma boa moça e esposa arredia, eu fingia não ver nada. Era mais fácil obedecê-lo do que enfrentá-lo. O ápice veio com a morte de nosso filho caçula, Henrik, como você deve se lembrar muito bem. Eu nunca deveria ter deixado Mikael me convencer a fazer o que fiz com vocês. Portanto, hoje percebo que foi um erro meu tentar matá-los, alguns meses atrás. O que eu deveria ter feito era me unir a vocês para juntar forças contra ele e eliminá-lo de vez. E é isso que proponho agora.

Eu nada dizia. Apenas observava. Se fosse verdade, seria ótimo. Ela era a bruxa Original. Algum poder crucial ela ainda deveria ter. Contudo, nada no histórico dessa mulher me fazia acreditar nela.

— E como você pretende fazer isso, sua doida? – Rebekah se sentou no sofá outra vez, jogando os braços para trás, no encosto, olhando para a Esther com deboche visível.

— Primeiro, preciso convencer Niklaus. De nada vai adiantar que você, Elijah ou Kol aceitem se Niklaus, que possui a estaca de Carvalho Branco escondida em pleno poder, não aceitar. Por mais que eu queira a união dessa família e que todos vocês me perdoem, é fato que a estaca é crucial. Só assim vamos poder concretizar o plano de eliminar Mikael.

— Ah, chegamos ao ponto principal. Você quer a merda da Estaca. Boa sorte com isso. Nik não vai querer te ver nem banhada de sangue dos inimigos. Se ele aceitou ou até mesmo pediu sua ajuda algumas semanas atrás, foi porque ele estava sem saída. Agora não é o caso.

— Tem certeza? Imagino que ter a bruxa Original como aliada não será tão ruim assim – Ela sorria com bondade. Puro cinismo, na minha opinião.

— E mesmo que seja tudo verdade o que você diz. Mesmo que você realmente queira nos ajudar. Mesmo que seus poderes sejam fundamentais para a nossa vitória, como você conseguirá convencer o Nik, que, dentre todos nós, é o que mais te odeia e que mais te despreza?

Sendo assim, ela olhou pra mim.

— Aí que você entra, Caroline – Que? A olhei petrificada.

— E que infernos eu tenho a ver com isso?

– Não é segredo para ninguém a influência que você exerce sobre meu filho. Se você disser a ele que seria imprescindível uma aliança comigo para derrotarmos Mikael, tenho certeza de que ele ouvirá e aceitará.

— Você perdeu completamente as estribeiras. Eu não seria insana de nem ao menos mencionar isso a Klaus. Muito menos de propor isso a ele.

— Seria, sim. Você sabe muito bem que Mikael vai causar uma guerra na cidade apenas para pegar Niklaus. Sua mãe e seus amigos acabariam nesse fogo cruzado, podendo ter a morte como consequência. Imagino que seria muito do seu interesse não deixar chegar a esse ponto acabando com Mikael o mais rápido possível – Ela me jogava um olhar penetrante, como se lesse a minha alma – Além disso, consegui observar você e meu filho por um bom período. Nitidamente você se importa com ele. E claro, é totalmente recíproco. Niklaus fez o impossível para te trazer de volta e só vi meu filho agir irracionalmente assim por causa de uma mulher muitos séculos antes de você sequer pensar em existir. Os sentimentos de meu filho por você me preocupam, admito. Talvez seja até uma benção. Veremos. Só perdoe a minha descrença nisso, pois presenciei desgraças na minha família quando Niklaus amou alguém. E a destruição do Outro Lado pelas mãos do meu filho por causa de você é um forte indício de repetição alarmante do passado. Obviamente foi uma jogada insana e perigosa. De qualquer forma, fico pensando que não seria do seu agrado vê-lo morto. Até mesmo ver Elijah morto, que tão prontamente estava disposto a fazer qualquer coisa para te deixar viva. Essa lealdade estranha de Elijah por você ainda me intriga, mas é uma questão que deixarei para o futuro — Ela era quase imbatível. Foi na minha ferida. Engoli em seco, sem ter o que responder. Tudo o que ela disse era a mais pura verdade. E olha só para mim, já estava metida até o pescoço nas tretas internas dessa família, além de estar no cerne do caos de Mystic Falls. Ser a favorita do macho alfa tem seu preço.

Rebekah nos encarava aturdida. Minha cara não deveria estar nada diferente.

— Então, o que me diz? – Esther falou gentilmente. Falsa. Só o que eu fazia era olhar para a cara dessa mulher atonitamente. Até que me veio a luz...

Fui tomada por um ímpeto desproporcional ao meu estado catatônico anterior.

— Você quer uma parceria comigo? Então, vai ser nos meus termos – Tanto Esther quanto Rebekah me olharam com indagação. Mas, pude notar um lampejo de contrariedade no olhar quase firme de Esther, que disfarçou prontamente. Seus olhos verdes, os mesmos de Klaus, me fitavam intensamente, quase que me desafiando. Me aproximei da mulher a encarando com vontade derradeira. O ultimato era esse – Klaus está preso em New Orleans. Quer a minha ajuda a convencê-lo a te aceitar como aliada? Tire ele de lá. Use seu poder para anular o feitiço das bruxas. Só, então, começará a provar lealdade. A partir disso, pensarei na sua proposta – Ela me olhava gentilmente, mas com olhos penetrantes. Rebekah sorria prontamente, se levantando e se juntando ao meu lado.

— Eu sei que ele está preso lá. O problema é que eu não sei se meus poderes estão à altura das descendentes de Qetisyah. O evento de algumas semanas atrás me mostrou que posso estar muito atrás.

— Como sabe que ele foi parar lá?

— Ainda sou bruxa. Tenho meus métodos. Posso acessar canais que outros não podem, especialmente se tratando de inteferências no espaço astral mágico causadas pelo meu próprio sangue. Uma interferência gigantesca, diga-se de passagem. Destruir o Outro Lado causará um rebuliço na ordem sobrenatural e esse tipo de avento deixa marcas — Eita, que doido.

— Então, está mais à frente do que achávamos. E você não é a bruxa fodona Original? – Falei com o sangue borbulhando de adrenalina — Todo esse discurso de matar Mikael foi mero ilustrativo? Se você está tão fraca assim, sem poderes, pretende derrotar ele como? Se está fraca, para que precisamos de você do nosso lado? Se não pode anular o feitiço da bruxa de New Orleans, então você não é imprescindível para nós como quer parecer.

— Não é tão simples quanto parece, Caroline – Ela tentava manter a compostura, mas vi que estava começando a ter dificuldades. Sorri maldosamente.

— No seu discurso heroico, você fez parecer que é – Rebekah se divertia com a cena, sorrindo abertamente com cinismo para a mãe – E como você pretendia que eu convencesse Klaus ou que ele te ajudasse se sabia que ele não estava aqui?

— Conheço muito bem meu filho. Sei que em poucos dias muitas cabeças de bruxas irão rolar e ele estará livre, de volta à terra amada.

— Bem, numa coisa você acertou. Em poucos dias ele estará de volta, porque você vai tira-lo lá.

———————————————

Liz

Escutei uma batida na porta. Me assustei. Estava distraída demais pensando no desastre que estava por vir, que já tinha chegado, na verdade.

Levantei da cadeira relutantemente. Peguei a meu revólver, que estava em cima da cabeceira da cama e um vidrinho bem pequeno com solução de verbena que mantinha guardada na gaveta. Depois daquela visita estranha do Klaus Mikaelson e de híbridos vingativos, era melhor me precaver.

Ao chegar no hall de entrada e mirar na porta, me deparei com a última pessoa que esperava ver atrás daquele vidro. Com os olhos arregalados e o coração a mil, apontei minha pistola para ele, mesmo sabendo que seria ineficaz a longo prazo.

— Ora, não precisa de todo esse drama, só quero conversar. Você vai se interessar pelo o que tenho a dizer. Te asseguro.

— O que você quer, Mikael? – Eu sei muito bem quem ele é. Me lembro com perfeição da última vez em que ele esteve na cidade, na sua tentativa medíocre de acabar com o filho, arrastando todos para a fúria de vingança de Klaus. E eu, como sempre, tive que fazer vista grossa, omitindo informações cruciais para a polícia e para o Conselho da cidade.

— Conversar, como eu disse – Ele sorria afavelmente. Mas, era só encenação. Seu rosto não disfarçava quem ele realmente era, pois eu enxergava a frieza em seus olhos cinzas.

— Sobre o que? – Mantinha a arma firmemente apontada bem na reta da sua cabeça. Mesmo que não o matasse, alguns tiros na cara o deixaria desacordado tempo o suficiente para eu fugir.

— Sua filha – Minhas mãos tremeram um pouco. Ele viu. Mas, não tirei a pistola da guarda – Você poderia me deixar entrar?

— Claro que não. Diga logo o que você tem a dizer.

— Acredite em mim, não vim aqui com más intenções. Prometo que nada de ruim vai te acontecer. Você vai querer me ouvir. Será bom para a sua filha. Só preciso do seu apoio.

Isso me fez lembrar da vez em que Klaus esteve aqui, para salvar Caroline da morte certa. Ele disse essas mesmas palavras, "Só do seu apoio"...Olhei bem nos olhos cinzas de Mikael. Ele parecia dizer a verdade, mas eu não pagaria para ver. Não o deixaria entrar, mas lhe daria esse tempo que queria. Então, mesmo sabendo que não era a melhor das ideias, abri a porta para ouvi-lo melhor, mas me mantive a metros de distância, de maneira que não houvesse chance de suas mãos me alcançarem. Ele apenas inspirou resignado, mas nada falou a respeito.

— Que assuntos você poderia ter com a minha filha? Não consigo imaginar – Klaus. Seu nome ecoou na minha mente.

— Consegue, sim. O nome do meu filho está passando na sua cabeça agora mesmo, eu sei. É como seu eu pudesse ouvir. Mas, vejo nos seus olhos. É o suficiente – Pensei no vidrinho de verbena. Estava me preparando para jogar nele, somando aos tiros que daria. Ele não podia entrar sem ser convidado. Eu possuía alguma vantagem – Eu só quero ajudar. Quero conversar sobre problemas iminentes que envolvem a sua filha. Sobre soluções para alguns deles. Preciso da sua ajuda e você, da minha.

— Por que resolver problemas da minha filha podem ser do seu interesse? E por que eu ajudaria você? É o pai louco e sanguinário que tentou aniquilar sem piedade os próprios filhos. Um homem perverso em quem não se pode confiar. Nada ganharia com você.

— Meus filhos são uma abominação e você sabe. Se você mesma pudesse eliminá-los, você o faria. Começando por Niklaus. Que não só matou muitos inocentes nessa cidade, como muitos deles foram seus amigos de infância. E é essa possibilidade que trago a você. De eliminar o abominável. Envolve a sua filha. Mas, para isso, preciso da sua ajuda.

— Ainda não me deu um motivo substancial para te ouvir, muito menos te ajudar – Era mentira, claro.

— Tem certeza? – Não respondi. Apenas o encarei – Que futuro você quer para essa cidade, para a sua filha? Ao menos você deseja que sua filha tenha um futuro? As chances estão contra ela e contra todos os moradores de Mystic Falls nesse momento. Alguns detalhes ainda estão me faltando, confesso, mas sei que o Outro Lado foi destruído e que a sua querida cidade logo estará em guerra. Eu estou aqui e vou me assegurar de restaurar o equilíbrio e ver meus filhos expurgados da Terra. Muitos vão morrer e para sempre. É isso que você quer? Ver a sua filha morta?

— Isso foi uma ameaça? Se eu não colaborar com você, vai matá-la?

— De forma alguma. Mas, Niklaus vai – Franzi a testa, confusa.

— Estranhamente, não acredito que ele machucaria ela de propósito. Mesmo ele sendo quem é – Não era sensato confirmar isso, mas eu estava sem argumentos para confrontá-lo.

— Não. Mas, Niklaus sempre esteve e sempre estará cercado de horror e de mortes. Quem se associa a ele, seja como for, sempre acaba morto. Ele carregará a sua filha para guerras e destruição. Ele a convencerá de que aquela é uma boa vida e ela ficará presa a ele até que essa prisão a leve à morte certa. Esse é seu desejo? – Fiquei calada. Absorvendo. Abaixei a arma e respondi.

— Você está delirando e subestimando Caroline. Ela não é burra. Sabe quais são as suas lutas e quais não são. Ela não ousaria viver como ele vive. Ela não é essa pessoa. Minha filha é boa e jamais ficaria satisfeita de viver derramando sangue.

— Ela é, tem certeza? Eu conheço muito bem o meu filho. E você, o quanto você conhece a sua filha? O quanto você acredita que conhece a sua filha?

— Mais do que você conhece ou pensa que conhece, te garanto. Você não vai chegar aqui na minha casa e ficar falando absurdos sobre a minha filha como se soubesse alguma coisa sobre ela, como se tivesse alguma autoridade para isso – Cuspi já raivosa.

— É mesmo? E se meu filho a fizer acreditar que as lutas dele também são as dela? E se ele a ganhar com falsas promessas? Promessas de uma vida de realeza. Que garota recusaria? E se o que ele oferecer a ela for tentador de tal forma que nem ela resista? Até mesmo os corações mais puros podem ser atraídos para as trevas — Não respondi. Era isso o que eu temia. Caroline sempre se demonstrou muito ambiciosa, até sonhadora demais. Embora às vezes eu parecesse apenas a mãe egoísta que desilude o filho, eu estava apenas tentando fazê-la ficar com os pés no chão. Para não precisar dar razão a Mikael, resolvi mudar o ângulo do jogo.

— E se você não for capaz de destruí-lo? Que fim ele dará aos inimigos que conspiraram contra ele? Seu excesso de confiança pode estar te cegando. Fazendo ter expectativas superestimadas por você mesmo. Você já foi derrotado por ele mais de uma vez. Por que agora será diferente? Klaus já demonstrou ser impiedoso até mesmo com você. Ele vai dar um jeito de te destruir de novo – Sorri maliciosamente.

— Porque temos a sua filha. Ela pode ser crucial na derrota de Niklaus. É um ponto cego. Por isso estou aqui na nobre soleira da sua casa – Sorriu de volta.

— Minha filha não vai ficar no fogo cruzado entre vocês. Não se eu puder evitar.

— Ela já está metida nessa história até o pescoço. Acorda, mulher. Realmente não está vendo nada? Me recuso a acreditar que seja tão burra assim. Portanto, só está em negação. Você, Elizabeth Forbes, é quem subestima a sua filha – Ele sorriu cinicamente — Ela se importa com ele. E eu sei, isso te deixa louca. A sua filha pura de alma se importando com o demônio. Trágico e clássico de Shakespeare – Minhas mãos tremiam com a força do ódio — Mas, não se engane. A sua filha não é tão o anjo que você acha que é. Ela também tem um lado negro. Desejos obscuros e vergonhosos. Por causa dele. Eu senti, vi nos seus olhos naquele dia. No dia que o ataquei e ela me afrontou para defendê-lo. Ela seria capaz de me matar naquele momento por causa dele se ela pudesse. Se você pudesse ter visto, Liz... Você realmente quer que sua filha se transforme nisso que Niklaus desperta nela? – O olhava com horror. Não soava como Caroline. O problema é que, lá no fundo, eu sabia que soava exatamente como Caroline. Ela sempre teve o dom para sentir compaixão pelos feridos e atração pelo perigo. Sempre gostou de um projeto desafiador ou de quem a fizesse se sentir minimamente importante – Será assim que ele vai convence-la a segui-lo sem olhar para trás. Ele vai trazer à tona o que sua filha tem de ruim dentro dela e ela vai gostar...

— Cala a boca! – Ele sorriu. Sabia que estava vencendo. Apontei a pistola mais uma vez para ele. O descontrole começava a me dominar — Está alucinando. Essa não é Caroline. Ela não aceitaria ter sua essência mudada por um monstrinho de merda só porque ele oferece coisas finas para ela, só porque oferece poder. Ele teria muito a perder se tentasse obrigá-la a algo. Ele sabe. Por isso, não se atreve a cruzar certos limites com ela, mas cruza esses limites por ela. Ela só está viva por causa dele. Ele a trouxe de volta – Droga. Fechei os olhos assim que senti as palavras saírem. Não era sábio deixar Mikael saber disso. Eu precisava restabelecer o controle sobre mim mesma.

— Então, esse é o motivo da destruição do Outro Lado. Não deveria estar surpreso. Porém, ainda assim, não deixo de pensar na magnitude dessa ação – Ele olhava em volta, com a expressão anuviada, como se avaliasse a informação. Trunfo na manga, deve achar. Fiquei muito apreensiva. Sem querer, expus mais ainda a minha filha às garras desse abutre — Niklaus sabia das consequências e mesmo assim foi até o final por causa da sua filha. Estou impressionado. Para o bem ou para o mal. Não sei se admiro a atitude nobre e inédita ou se fico preocupado com o fato de a loucura ter finalmente consumido o meu bastardo. De qualquer forma, ele não vai durar muita para saborear a vitória ou a agonia do delírio, seja por que razão ele fez o que fez – Ele me olhou novamente – Isso só prova e reafirma o quão certo estou sobre minha decisão de buscar a sua aliança. Caroline jamais me ajudaria a destruir meu filho. Mas, você, sim.

— Não vejo como eu poderia ser útil no seu plano perverso. Nem minha filha. Eu sou uma humana fraca e sem recursos contra vampiros poderosos e ela, como você disse, jamais te ajudaria. Tampouco eu.

— Você é a xerife da cidade. Não é uma humana fraca e sem recursos, você sabe muito bem disso. Pode não ter poderes sobrenaturais, mas está no topo da cadeia alimentar dentre os humanos estúpidos que existem por aí – Inspirei fundo, tentando controlar a emaranhado de emoções. Ódio, medo, angústia, decepção...

— Você já repetiu que quer uma aliança. Só não disse como. E é a isso que me refiro. Não vejo como pode me envolver. Você tem seus próprios meios de enfrentar seu filho, com os poderes únicos de híbrido dele e com seus poderes únicos de caçador de vampiros.

— Ex-caçador de vampiros. Fui rebaixado, não sei por quê, quando Niklaus me matou. A mãe natureza tem suas regras que não entendemos. Mas, ainda tenho meus artifícios sobrenaturais, claro.

— Ela tem motivos para essas regras. Equilíbrio. Quanto menos pragas existirem no mundo, melhor – Ele me olhou com certo desprezo, mas logo disfarçou.

— A questão é que, mesmo antes com meus poderes de caçador, meu filho foi mais esperto que eu e conseguiu me derrotar. Cometi erros que permitiram a ele esse feito. Não posso permitir que aconteça de novo. E dessa vez estou contando com uma carta na manga que não tinha antes. Uma que pode ser a chave para a queda definitiva do temível e abominável Niklaus Mikaelson: Sua filha.

— Vocês são todos loucos. O vampirismo é mesmo uma maldição, pois consome o juízo de vocês. Como você disse, eu não sou uma humana fraca e sem recursos. Do mesmo jeito que posso conseguir destruir Klaus, posso conseguir destruir você. Basta só tocar num fio de cabelo da minha filha e vou esquecer das minhas limitações e dos meus escrúpulos – Ele sorriu. Minhas ameaças não deveriam significar nada para ele. Mas, minhas motivações eram fortes o bastante para eu cumprir minhas promessas. Ou morrer tentando.

— Eu não quero feri-la, te asseguro. Eu preciso dela viva. Trabalhando em prol da causa, mesmo sem saber. E tampouco quero ferir você. E você quer protegê-la, é claro. Até mesmo da sua própria ingenuidade, eu sei. Ingenuidade essa que beira a estupidez. Ela ainda tem um bom coração, acredita realmente no lado bom daquele monstro. Isso é perigoso para ela. Vai acabar morta se não interferimos. Você sabe disso. Ela pode ser um vampira independente, forte e inteligente, mas é mortal. Já foi morta uma vez pelos lobisomens. Nada impede de ser morta novamente por esse meio ou por outro. E dessa vez é para sempre – Fiquei me perguntando como ele sabia de tudo isso. O Outro Lado tinha acabado de ser destruído. Ele estava de volta há pouco tempo — Então, hoje, te ofereço um jeito de evitar a morte da sua única filha e protegê-la dela mesma e de Niklaus. Uma aliança para derrotar meu filho. E a melhor maneira de derrotar alguém é pelo seu coração. Pelas suas fraquezas. Niklaus confia cegamente nela. Ele dificilmente confia nos irmãos. Esse é realmente um ponto cego, uma brecha na sua implacabilidade. Pelo o que soube hoje, por você mesma, até é capaz de fazer loucuras por causa dela. E ela confia em você. Poderá me trazer informações cruciais. De Rebekah e de Elijah eu não conseguirei nada. Eles possuem uma lealdade nojenta e cega por ele. Um amor incondicional que beira a loucura. Uma co-dependência que já rendeu a eles séculos de sofrimento e de escuridão. Eu sei muito bem o que se passa na cabeça deles e eles jamais me entregariam Niklaus. Até mesmo Kol, mesmo ele sendo um sonso e eu não saber se a lealdade dele a Niklaus é por medo ou por amor, ele também não entregaria o irmão. Além disso, no desespero eu tomei medidas precipitas. Causei mal a Rebekah e ela não deve querer me ver sob nenhum decreto, muito menos ser útil pra mim. Rebekah é o tesouro irresoluto de Niklaus, apesar de tudo. Tocar num fio de cabelo da sua meticulosa e egocêntrica caçula e favorita é despertar fúria nele – Abaixei a pistola novamente. Já estava cansada daquela conversa sem solução, sempre dando voltas e mais voltas. Ele continuou com seu monólogo mórbido — Sabe, não foi sempre que detestei o garoto. Um dia eu tive bons sentimentos por ele. Por exemplo, quando ele nasceu e o segurei nos meus braços, eu senti muito carinho. Ele era parecido fisicamente demais comigo. Isso me dava a sensação de que finalmente eu teria o filho que eu desejava, aquele que nasceu para liderar. Para ser o mais forte e conquistador do mundo. Contudo, isso foi se dissipando ao longo dos anos. Comecei a enxergá-lo como ele realmente era, uma aberração. Já na sua infância, quando eu olhava nos olhos dele, sentia algo diferente e a repulsa tomou o lugar dos bons sentimentos. Passei a desconfiar dele. Eu sempre soube que tinha algo de muito errado com aquele garoto. Eu nem desconfiava da traição da minha mulher e muito menos que ele era seu bastardo, mas eu sentia que algo ruim estava dentro daquele moleque. Confesso para você, eu errei ao ter mandando minha suposta cunhada fazer aquele feitiço e transformado meus filhos nos monstros que eles são, mas na época foi o que achei necessário para a nossa sobrevivência. Não vi saída. E Niklaus se tornou o pior. Mesmo se eu não tivesse feito o feitiço e transformado ele em vampiro, ele ainda assim era um animal de nascença, uma criatura asquerosa, um lobisomem. Ao fazer o feitiço, eu nem desconfiava que estaria o transformando na criatura mais poderosa do mundo, o único de sua espécie. Um híbrido quase imbatível. Quase. Derrotá-lo não será fácil, mas não é impossível. E com sua ajuda, ao me recrutar informações, será mais fácil de chegar nele. Eu até poderia tentar te obrigar. Mas, não quero chegar a esse ponto.

— Então, é isso o que você quer? Que eu espione a minha filha e arranque dela informações e segredos de Klaus que facilitem suas armações contra ele e o leve mais rápida e certeiramente à derrota – Ele sorriu.

— Você é realmente uma mulher sagaz. Inteligente. O que ouvi sobre você não era mentira.

— E que garantias eu poderia ter? Que ela poderia ter? Minha filha no meio do seu emaranhado de manipulações e esquemas perigosos poderia colocá-la em perigo. Os próprios Originais poderiam se voltar contra ela pensando que ela os traiu.

— Sobre o perigo, ela já está em perigo só por estar associada a eles. Já está em perigo por causa da proeza do meu filho de destruir o Outro Lado. Todos vocês estão. Talvez fosse melhor para a segurança dela ter ficado morta. É irônico, se pensar bem. Niklaus foi o culpado da morte dela e agora é o culpado pela desgraça dessa cidade. Ele só precisou trazê-la de volta porque a matou, em primeiro lugar. Então, a ação dele não deveria ser tão assim vista como altruísmo ou bondade. Porque não foi. É isso o que meu filho faz, traz morte e destruição por onde passa. Porém, no que se trata de mim, não haverá nenhuma ameaça contra ela. Pelo contrário. Me certificarei de que ela seja devidamente vigiada e cuidada. Se algum Original apresentar alguma ameaça a ela, terá todo meu apoio. Essa é minha oferta. Ela terá proteção em tempo integral.

— Você não pode fazer nenhuma garantia quanto a isso. Eles são mais fortes que você e você não vai ficar de guarda com ela vinte e quatro horas por dia.

— Sim, eu posso garantir. Como disse, ela será vigiada. Existem aliados trabalhando comigo, que já se juntaram a mim contra Niklaus. Não estou sozinho dessa vez. Mais um dos erros que não vou cometer novamente. Juntarei força total. Sua filha não será somente protegida contra os Originais, mas contra todas as ameaças que estão presentes na vida dela na situação atual da cidade. Qualquer um que tentar contra a vida dela será dizimado. Tenho certeza de que esse é o seu interesse prioritário. A segurança incondicional de sua filha.

— Certamente. Não há nada mais importante para mim. Ainda assim, ninguém pode contra seus filhos. Sobre a tal vigilância, quem fará, quem seriam? – Perguntei verdadeiramente curiosa.

— Infelizmente, como você ainda não aceitou minha proposta e como não sei se posso confiar em você, não posso lhe revelar tais informações – Inspirei com raiva.

— Se ela vai ser vigiada e eu sei, não posso te dissuadir disso e nem impedir, para que precisa de mim?

— Você vai coletar as informações dela e passar diretamente para mim. A vigilância dela não poderá estar na presença íntima com os Originais. E são justamente as informações que sairão das conversas íntimas entre eles de que preciso. Qualquer informação que seja. Qualquer detalhe que te pareça insignificante, vai trazer a mim. Pode ser a diferença. Ela confia totalmente em você. Lhe fará confissões com certeza.

— Por que você simplesmente não ataca ele de uma vez e acaba logo com essa miséria? Se possui aliados, está em vantagem.

— Não exatamente. Não estou com a estaca de Carvalho Branco no meu poder. É a única coisa que pode matá-lo. Até agora.

— É isso que você quer saber principalmente? O paradeiro da estaca? Quer que eu descubra por Caroline? Que dê um jeito de consegui-la para você?

— Será imprescindível. Então, é exatamente isso. Quero a Estaca. Temos um acordo? – Sorri com desdém. Ele retribuiu o gesto, com certo triunfo pela suposta vitória. Me aproximei um pouco mais dele, mas ainda permaneci numa distância segura.

— Não – Sua expressou gelou de ódio – Você realmente acredita que, apesar de tudo, me juntarei a você? Que vou deixar a minha filha exposta a mais perigos do que ela já está e pode contar? Realmente está alucinando se acredita que vou fazer aliança com o diabo para derrubar o demônio. É estupidez. Insanidade. Você e sua família asquerosa me enojam. Saia daqui agora.

— Você vai se arrepender disso e vai aceitar meu acordo. Apenas te darei o tempo de que precisa para amadurecer a ideia e perceber o quão fundamental a nossa aliança é – Nada respondi. Num movimento repentino apontei a pistola para ele e acionei o gatilho. Atiraria nele só de raiva. Apenas disparei todas as balas descarregando o cartucho na sua cabeça. As balas não eram de madeira, portanto não causariam grandes estragos. Contudo, iria feri-lo por alguns prazerosos minutos. Ele caiu no chão com parte da cabeça estourada. Sorri com sádica felicidade. Bati com força a porta e corri desesperadamente para a porta dos fundos.

Eu deveria ter usado minha escopeta ou minha espingarda especial de balas de madeira. Teria me dado mais tempo. Eu sabia que balas comuns de metal o deixaria desacordado por alguns minutos, especialmente porque tinha estourado a cabeça dele. Mas, tinha medo de não ser o suficiente para escapar.

Peguei as chaves penduradas na parede ao lado da porta e segui apressadamente direto para o meu carro. Ao entrar, minhas mãos tremiam miseravelmente, mas consegui ligar o carro sem demora. Acelerei o quanto antes, partindo para a casa dos Salvatore. Olhei pelo retrovisor e não vi nenhum movimento suspeito. Pelo visto, ele ainda estava desacordado. Suspirei com alívio, mas não diminuí a velocidade.

Notas finais
E aí??? O que acaharam?? Me digam, pelo amor de Klaroline! Eu fico desesperada para saber o que vocês acham. É tão maravilhoso ler os comentários, especialmente aqueles detalhados, onde o leitor descreve o que achou de cada parte ahahahahahaha Enfim, meu poo guerreiro, se acharem algum erro, me digam, ok? Estamos aqui para nos divertimos juntos. Não vai ser legal ter furos de lógica na história, não é mesmo? haha E vocês são livres para me falarem o que quiserem. Sejam sugestões, sejam correções. Não importa. A história é nossa. Então, é isso. Até o próximo capítulo. Vou tentar não demorar tanto. Beijos e abraços no core...