Scarlet Dynasty - Klaroline
19 Driving Me Crazy
Notas iniciais

Klaus
Estava sentado à mesinha de um bar, no canto onde o móvel ficava encostado numa janela alta e larga. Observava atentamente as ruas lotadas e barulhentas de New Orleans, já que o bar ficava na esquina e permitia uma visão ampla dos eventos culturais. Ao que parecia, a rua Bourbon era a principal na movimentação dos desfiles festivos e repletos da cultura dessa cidade. Não pude deixar de sorrir ao lembrar de um evento semelhante a esse em que fui parar repentinamente, semanas atrás, que me fez pensar em Caroline. Lembro bem de ter ligado pra ela, mas não me atendeu. Então, deixei uma mensagem. Me recordava de cada palavra, pois o que disse e senti naquele momento era exatamente o que eu estava sentindo agora...
"Caroline, estou em um dos meus lugares favoritos no mundo, cercado de comida, música, arte, cultura e tudo o que eu consigo pensar é no quanto eu quero mostrar isso a você. Talvez um dia você deixe."
Nada tinha mudado. Só queria poder compartilhar com ela tudo o que me agradava. Parecia certo, natural. Desejava fortemente que um dia ela me permitisse. Dependendo do que acontecesse daqui pra frente, talvez fosse possível.
Tomei um gole do meu Whisky, distraidamente, pensando no que ela estaria metida nesse momento em Mystic Falls, me causando grande angústia só de imaginá-la em confusão e eu preso aqui sem poder fazer nada. Aquele telefonema de algumas horas atrás havia me causado apenas um certo alívio momentâneo. Ouvir a voz dela e saber que estava de volta, que estava inteira e bem, na medida do possível, me concedeu algumas horas de paz e de sono tranquilo. Depois de semanas sem dormir direito, essa manhã foi o primeiro dia que consegui colocar a cabeça no travesseiro e dormir profundamente por horas seguidas, deixando fora do meu subconsciente todo o terror vivido. Finalmente Caroline estava de volta e meus erros com ela estavam parcialmente consertados. Além disso, Rebekah sabe se virar e cumpriria o que eu mandei; ficar de olho em Caroline. Mesmo assim, não há garantias de nada. Além de minha irmã ser burra, o perigo era iminente. A outra tarefa, concedida à Caroline, também me angustiava. Não por ser perigosa. Libertar Katerina seria rápido e fácil, mesmo ela sendo uma pilantra psicopata. Contudo, o que me preocupava era o após isso. Essa traidora era esperta demais. Alguma coisa ela vai aprontar, tenho certeza. E assim eu espero que seja. Estarei esperando prontamente esse momento chegar. Vai ser tão bom matá-la...
Mesmo com a felicidade ao pensar em eliminar Katerina, ficar aqui remoendo as circunstâncias que eu não posso controlar simplesmente estava me levando à agonia total.
Segurava meu copo de bebida com a mão direita e tamborilava impacientemente os dedos da outra mão na mesinha de madeira escura, provocando um baixo som em ritmo constante.
Talvez não tenha sido uma boa ideia deixar Elijah ir sozinho resolver a compra da nossa antiga/nova mansão Oak Alley. É um tanto distante do centro, em Vacherie, às margens do rio Mississippi, mas é o lugar ideal para montar a nossa primeira base, afastado o suficiente para esconder as nossas indiscrições. De qualquer forma, se eu tivesse ido, seria alguma coisa para me distrair dessa tortura que é estar fora do controle do mundo. Sem contar que eu adorava aquele lugar. Fiquei ansioso para ver como que aquelas terras estavam depois de séculos desde a minha última passagem por lá. Era uma propriedade vasta, com muito potencial, mas aparentemente fragmentada depois de tantos donos ineficientes e descuidados, assim descobriu Elijah.
Deixei Elijah no comando porque sempre foi o melhor para fazer negociações desse tipo, mesmo eu não gostando muito de admitir. Além de eu não ter muita paciência para lidar com eventos burocráticos. Eu queria toda a extensão original das terras. Se me negassem, eu não seria tão complacente quanto Elijah. Algumas cabeças poderiam rolar, lógico. Sendo assim, meu finíssimo e honroso irmão concordou alegremente comigo que era melhor eu não ir junto. Mas, a demora dele já estava me irritando. Elijah precisava mesmo fazer todas as negociações como manda o figurino? Por que não hipnotizar logo os donos das propriedades para que nos concedessem o perímetro que nós fizemos se desenvolver? Afinal, quem construiu aquele lugar fui eu e meus irmãos. Era nosso, sobretudo meu, por direito. Mas, a consciência hipócrita de Elijah não permitiria a ele apenas tomar as terras, seria "desonroso e injusto", tal ele proferiu. Eu deveria ter ido. Elijah era mole demais. Fui perfeitamente capaz de negociar outras casas sem ele – tudo bem, muita gente morreu no processo e era isso o que ele queria evitar, mas consegui – Passei décadas sem a presença dele para cuidar dos meus negócios, mesmo que sendo do meu jeito, e fluíram de vento em poupa. O que teria de mais na compra de uma casa como outra qualquer? Bem, essa não era uma casa qualquer. Era uma das minhas favoritas em todos esses mil anos...
A verdade é que eu poderia ter ido se eu quisesse. Elijah não teria como me impedir. Mas, mandar meu irmão era mais fácil para eu fazer o que pretendia sem o julgamento e o controle obsessivo dele. A compra da casa foi um pretexto perfeito para tirá-lo do meu caminho por algumas horas. Elijah me conhecia bem o suficiente para saber quando eu estava traçando algum plano mirabolante. Então, eu precisava ficar sozinho para observar e planejar com cautela. Suspirei pesadamente e mirei o copo sem realmente vê-lo.
Meu jogo com Marcel começou no momento que descobri que ele estava vivo e na posse do meu território. Mesmo que inconscientemente, eu já estava disputando poder com ele.
Eu caí de paraquedas no meu antigo desejo de criar um império nesse pedaço de terra outrora sem ninguém, mas hoje muito povoado e cheio de potencial. Foi como se fosse o destino...Mas, eu aterrissei num império já construído, como uma tela que eu comecei a pintar e um outro pintor tivesse terminado sem me consultar se aquela era a minha ideia original a ser desenhada.
Como eu faria para retomar o que era meu ainda era uma tela em branco, mas a recuperação do poder de New Orleans precisava ser, com certeza, meticulosamente arquitetada e manipulada de tal forma a não ter erros. Na intenção de começar com os primeiros rabiscos do plano, tomei algumas medidas necessárias.
Em algumas horas de ausência do meu querido irmão, hipnotizei e formei um pequeno grupo de aliados contra a própria vontade. Sorrindo orgulhoso de mim mesmo enquanto lembrava disso, tomei um gole generoso do malte. O líquido desceu me esquentando por dentro, melhorando ainda mais meu humor. O gosto era tão bom quanto o do sangue fresco dos inimigos...
Na entrada do hotel, me despedi de Elijah enquanto ele entrava num Audi preto alugado. Um carro potente, mas nada meu estilo. Ao me perguntar por que eu não voltaria para o quarto do hotel, meu irmão me olhou com descrença quando eu disse cinicamente que iria caminhar e explorar os pontos turísticos. Antes de entrar no carro, me olhou de esguelha, mas preferiu não falar nada. Ele sabia que não iria adiantar. E certamente ele sabia porque eu não estava indo junto. O cansaço no olhar de Elijah era visível. Mas, ele nunca escolhia o caminho menos exaustivo para lidar comigo, mesmo quando não me aguentava mais. Então, eu sabia que o silêncio dele era temporário. Faria o máximo proveito disso, pois a alegria da liberdade acabaria assim que ele estivesse de volta.
Segui a pé pelas ruas do centro da cidade até chegar ao French Quarter, analisando o território e o nível do controle de Marcel. A cada nova percepção do seu domínio, mais surpreso eu ficava em como um simples aprendiz conseguiu se tornar um mestre eficiente. Mas, ninguém é tão eficaz para resistir às habilidades de Klaus Mikaelson.
Examinando discretamente, percebi dois homens vestidos ridiculamente de preto me observando de longe pensando que eu não estava vendo. Eles me seguiam se achando um máximo e eu fingia olhar despretensiosamente as barraquinhas do comércio fervoroso. Eu já havia avisado a Marcel que se pegasse mais alguém se esgueirando atrás de mim, arrancaria a espinha dos imbecis. Porém, pensando melhor, percebi que eles teriam mais utilidade estando vivos. Marcel era um idiota. Não aprendia com os próprios erros. Isso fazia dele um líder incompetente. Me antecipei ao pensar que ele era tão bom assim no que fazia. Talvez a minha falsa trégua com ele o fez se esquecer de quem eu sou e resolveu me subestimar. Erro mortal.
Ao me misturar na multidão para tentar confundi-los sem perdê-los de vista, os guiei até um beco deserto e "me escondi" na varanda do segundo andar de um dos prédios antigos e charmosos típicos daquela região de New Orleans. Fiquei com os braços apoiados na grade da varanda, esperando tranquilamente que os comparsas de Marcel desprovidos de cérebro se aproximassem o bastante para eu agir. Fiquei observando eles caminharem lentamente tentando detectar algum sinal estranho, girando o pescoço freneticamente para os cantos remotos do beco, e sorri com expectativa na brincadeira que estava prestes a começar. Como eu adoro estratagemas. Brincar com a burrice e a vida dos outros. Tem gente que merece sofrer devido à tamanha falta de presença de espírito, como esses dois patetas. Revirei os olhos um pouco entediado. Eu esperava mais desafio, especialmente se tratando do grupinho especial de Marcel. Na verdade, eu que estava aquém de qualquer outro vampiro que existisse. Talvez conquistar aquela cidade fosse mais fácil do que parecia.
Pulei abruptamente bem atrás deles. Eles se viraram de supetão, mas a essa altura eu já tinha mudado de posição na minha velocidade vampírica. Fiquei brincando de esconde-esconde mudando de lugar, observando eles com desprezo. Vampiros-detetives realmente bem treinados teriam percebido o perigo iminente. Aos menos teriam me enxergado na varanda ou sentido a minha presença, que seja. Esses dois seriam uma causa perdida se não fosse a minha genial e misericordiosa intervenção.
— Vocês procuram algo em específico nesse beco deserto, cavalheiros? – Eles me olharam com surpresa ao ouvirem a minha voz. Finalmente eu tinha parado – Acho que os esforços muito profissionais de vocês não serão mais necessários. Já encontraram o que buscam, não? – Fui me aproximando lentamente deles, com as mãos para trás. Eles se entreolharam, sabendo que estavam fudidos – Sabe, eu considerei seriamente em matar vocês. Aliás, foi a minha primeira opção. Sempre é a minha primeira opção. Mas, pode haver um propósito mais útil para a vida insignificante de espiões de vocês. Imaginem não mais trabalharem para o Beta, mas sim para o Alfa. Seria uma honra muito maior – Eu sorri – Digam-me, o que se passou pela cabeça de vocês ao me seguirem até esse beco? Nem ao menos cogitaram o fato de que seriam mais facilmente detectados longe da multidão? Estou desapontado – Eles continuavam calados, mas já demonstravam inquietação – Em condições ideais eu seria mais seletivo com os meus servos, uns mais bem capacitados seria melhor, mas não estou podendo escolher muito. Então, vai vocês mesmo – O choque no olhar deles demorou só uma fração de segundos, pois em instantes eu segurei os dois pelo pescoço e tentei hipnotizá-los. Não funcionou. Os dois continuaram a se debater e a lutar comigo mesmo após a minha ordem de serem discretos. Depois de alguns segundos de confusão, lembrei...Marcel fazia sua trupe de circo ingerir verbena, diminuindo suas fraquezas. Merda. Como eu tinha deixado isso passar? Não haveria outra solução senão a que eu estava prestes a sacramentar. Seria demorado, mas seria útil...Segurei um deles fortemente pelo pescoço, o impedindo de lutar contra mim. Ele engasgava na própria voz e me olhava com terror. Mordi o outro bem na carótida, onde seu fluxo sanguíneo era mais vigoroso. Mesmo sentindo o ácido queimando minha garganta, apreciei cada gota de sangue que engolia. Eu iria dissecá-los. Beber todo o seu sangue até não restar nada, nem verbena. Só assim eu poderia terminar meu trabalho. Esvaziar um corpo inteiro não era uma tarefa fácil, mas nada impossível para o vampiro mais poderoso do mundo. Após alguns minutos esvaziando o primeiro, o larguei no chão. Com a pele parecendo cimento, com suas veias saltitantes, eu bem sabia o que ele estava sentindo. Os vazos sanguíneos ressecados e vazios eram como lixas se roçando uma na outra, causando enorme agonia e dor. Ele estava destroçado, sem forças para conseguir se levantar, mas mesmo assim se contorcia suavemente pelo chão. Ignorando seu estado vexaminoso, me concentrei no segundo. Seguindo o mesmo caminho com esse, fui em direção ao meu objetivo de neutralizá-lo também, mordendo seu pescoço. Ninguém quase nunca fala sobre, mas cada sangue tem um sabor diferente, mesmo quando está batizado de veneno. Cada vítima é única, como se o gosto do seu sangue fosse uma identidade. Vampiros com paladares mais aguçados seriam capazes de distinguir as pessoas apenas provando seu sangue...
Em poucos minutos o trabalho estava perfeitamente bem delineado. Com apenas os lábios manchados, eu nem parecia que tinha acabado de ingerir uns dez litros de sangue. Olhei paro os meus súditos enquanto eles agonizavam no chão. Em breve o sofrimento acabará, eu prometo. Para testar o progresso, peguei no chão uma garrafa vazia de cerveja. Quebrei o seu gargalo e entreguei ao primeiro felizardo. Ele não quis pegar. Levantei a sua cabeça e olhei bem fundo nos seus olhos:
— Você vai segurar essa garrafa e enfiar superficialmente no seu estômago. E não vai gritar — Ele me olhou apavorado. Mas, suas pupilas dilatando indicavam que ele me obedeceria dessa vez. Ele começou a se cortar lentamente, sem conseguir resistir ao meu comando — Agora você vai cavar mais fundo, até sentir as suas entranhas secas se contorcendo — A medida que a garrafa foi sumindo, ele fazia muita força para não gritar. A tortura era evidente em sua expressão, mas ele só proferia breves e baixos gemidos. E com isso, eu sorri muito satisfeito — Pode terminar. Agora quero que você corte toda a extensão da perna do seu amigo, mas sem arrancá-la — Ele foi se arrastando até se aproximar do parceiro, que jazia no chão se contorcendo. O som da garrafa rasgando a pele do vampirinho era música para os meus ouvidos — Já você, meu amigo, vai pegar essa mesma garrafa e enfiar no seu corarão — Também o hipnotizando, peguei o vidro ensanguentado da mão do outro e o entreguei. Ele segurou com medo, mas sem vacilar. Com força ele cravou a garrafa no meio do seu peito, ofegando ruidosamente. Tapei a sua boca com a minha mão — Calma, garoto. Sem barulho. Já está bom pra mim, pode retirar — Com alívio, ele puxou a garrafa com pressa — Agora, quero que prestem bastante atenção no que vou dizer. É para seguirem todas as minhas ordens restritamente e em segredo. Quero que todas as conversas que tiverem com Marcel sejam passadas para mim. Quero todas as informações verdadeiras que obtiverem do seu grupo especial. Quero saber cada movimento que seu mestre faz, especialmente contra a família Original. Todos os planos mirabolantes dele, até mesmo os que pareçam insignificantes. Todos os seus passos e alianças. E Quero que esqueçam tudo o que fizemos e conversamos hoje, assim como esqueçam dos nossos encontros logo após eles terminarem. Vocês podem inventar para o seu mestre que me perderam de vista simplesmente porque sou esperto demais. Ou qualquer outra coisa que faça sentido e que convença seu ex líder, sejam criativos — Eles concordaram sem nenhuma hesitação. Era o bastante — Em breve vocês estarão livres. Só falta mais uma coisa. Mas, para isso, vocês precisam ter suas forças de volta.
Os arrastei até o latão de lixo encostado no fundo do beco. Ali dentro eles não seriam encontrados, não até eu voltar. Eu não iria demorar muito, precisava colocá-los de volta na rota antes que sua ausência fosse notada. Qualquer suspeita colocaria todo meu esforço no lixo junto a esses dois babacas. Além de que eu precisava curá-los da minha mordida fatal.
— Fiquem totalmente parados e calados até eu estar de volta.
Fechando a tampa da caçamba, me cheirei para averiguar o quão fedendo eu estava. Achei que na medida das percepções humanas eu ainda estava dentro do aceitável. Eu precisava encontrar sangue fresco para dar aos meus novos comparsas. Na rua lotada de onde viemos seria uma barganha. Resolvi me apressar. Corri na velocidade vampírica e parei despretensiosamente num poste próximo ao beco, ao lado da rua abarrotada de turista. Virei a esquina discretamente e observei bem os rostos sorridentes de felicidade ignorante daquelas figuras prestes a sofrerem um atentado. Se fosse alguém de fora de New Orleans seria melhor ainda. E, infelizmente, eu não poderia deixar as vítimas morrerem. Chamaria muita atenção. Para permitir a meus súditos saírem dali com alguma decência, eu precisava de pelo menos dois humanos. O ideal seriam três, mas eu não estava com paciência de ficar arrastando humanos insignificantes. Depois meus novos amigos poderiam arrumar mais refeições.
Caminhei na calçada e escolhi imediatamente as minhas vítimas. Um casal idiotamente feliz tirando foto, mais distraídos e vulneráveis impossível. Andei sorrateiramente até eles, fingindo interesse no desfile. Quando fiquei de frente para eles, usei todo meu poder especial de persuasão. Nem preciso dizer que foi bem fácil obrigá-los a me seguirem discretamente até o beco. Com agilidade e rapidez os segurei pelo braço e corri com eles passando despercebido pela aglomeração de turistas vislumbrados demais para notarem o que se passava ao seu redor. Ao chegarmos perto da caçamba, abri a tampa para entregar de bandeja a refeição dos meus novos amigos. Hipnotizei os frágeis humanos para ficarem bem quietinhos e parados até tudo terminar. O divertido seria ouvi-los gritar, observá-los lutarem contra mim. Mas, não havia tempo para brincar.
— Olha o que eu trouxe para vocês. Sou um ótimo e generoso mestre. Sirvam-se.
Segurei meus colaboradores humanos firmemente pelos braços e coloquei seus pescoços quebradiços na rota das bocas famintas dos meus vampirinhos dissecados. Foi imediato o ataque tamanho o desespero para encerrar a agonia.
— Calma, garotos. Sem levantar alarde. Esses aqui precisam sair vivos e inteiros. Depois vocês encontram seus próprios suprimentos – Após sugarem desesperadamente um bocado de sangue, achei que era hora de acabar.
— Então, agora eu preciso que vocês dois larguem o osso — Obedientemente e resignados, pararam de drenar o sangue fresco. Dei um pouco do meu sangue para o casalzinho para que se curassem logo e os mandei voltarem para o desfile como se nada tivesse acontecido. Eles ficariam fracos por um tempo, mas nada fatal. Olhei fixamente para os meus rapazes e eles pareciam um pouco melhor de saúde vampírica. Estendendo meu próprio braço aos dois, algumas gotas do meu sangue bastaram para curá-los — Quando vocês estiverem no seu posto novamente, podem se servir mais à vontade. Porém, discretamente. Não matem ninguém. Eu sei que Marcel não permite justamente para permanecerem no anonimato. Não queremos levantar suspeita para o seu ex querido mestre, não é mesmo? Agora, saiam daqui e comecem o trabalho que eu mandei fazer. Esperem até que eu faça contato com vocês. Não me procurem.
E assim, deixei aquele beco imundo e resolvi espairecer bem longe dali. Talvez fosse melhor tomar um banho primeiro antes de buscar a próxima aventura. Mas, um barzinho próximo chamou a minha atenção. A sua faixada era charmosa e ficava bem no centro do desfile. A música ao vivo da banda tornava o ambiente mais atrativo ainda. Talvez fosse mais interessante parar um pouco para admirar a beleza local. Eu iria para o hotel depois.
Enquanto apreciava a música e minha mente divagava no passado, a outra demanda do presente me preocupava. Elijah ainda não fez nenhum contato comigo. Pensando seriamente em ir ao encontro do meu irmão até a propriedade, deixei uma gorjeta generosa em cima da mesa e já estava me levantava quando a presença surpresa de uma figura feminina me paralisou num breve choque.
— Boa tarde, Niklaus – Levei uns segundos antes de processar aquela voz. Tive que inspirar fundo para responder.
— Mas, é muita vontade de me infernizar, ao ponto de me seguir até outra cidade, não é mesmo, mãe? – Esther estava parada perto de mim, de braços cruzados, com um meio sorriso.
— Por mais que eu esteja feliz em te ver, devo admitir que um motivo de força maior me trouxe aqui.
— Sim, o seu desejo de me matar. Essa é a força maior. Sempre foi a força maior.
— Não seja uma criança birrenta, Niklaus. Podemos sentar e conversar? – Ela apontou para a mesa.
— Estou com pressa. Quem sabe em outro dia. Ou em outro milênio? – Comecei a me afastar dela quando me segurou pelo braço. Essa mulher estava era maluca. Queria morrer bem ali – Tire a mão de mim se você não quiser ficar sem ela – falei baixo, entredentes.
— É importante – A seriedade nos olhos dela me despertou certo interesse. Me desvencilhei do seu toque repugnante e me sentei novamente à mesa, um tanto contrariado. Acenei para o barman me trazer mais bebidas. Olhei em volta do bar para confirmar que estava tudo sob controle, que todos os clientes e funcionários ainda estavam devidamente hipnotizados do jeito que eu havia deixado ao entrar no bar. Nunca se sabe quando é a minha próxima chacina. Melhor prevenir e me resguardar. Quando ele me trouxe outro copo de whisky, mandei que me trouxesse logo a garrafa inteira. Iria precisar dela se quisesse aturar uma conversa com Esther.
— É impressionante o quanto você ingere álcool. Fico admirada por não viver bêbado. Mas, imagino que sua natureza sobrenatural te faça aguentar a dose.
— Eu não sou um vampiro comum, querida, você sabe que não, não se faça de besta. Eu sou O Híbrido, a criatura mais forte que existe – É sempre bom lembrar isso para aqueles que insistem em esquecer. Ela balançou a cabeça negativamente – E vai ficar me dando sermão ou vai direto ao ponto? O que te trouxe atrás de mim em New Orleans, Esther? Não tem nem dois dias que estou fora de Mystic Falls. Tem que ser algo muito urgente pra você nem esperar pela minha volta.
— Soube que você está em apuros, trancado aqui. Vim tentar te ajudar. Quem sabe eu não ajudo a desfazer o feitiço de alguma forma? – Isso me despertou completamente o interesse na conversa. Me inclinei pra ela e apontei com a garrafa.
— Como? Você mesma disse que estava com os poderes limitados. Nem conseguiu quebrar a barreira daquela Qetsiyah. Como que de repente você pode destruir um feitiço que está me isolando dentro de uma cidade inteira? A não ser que você tenha mentido pra mim na última vez. Vai sair muito caro para você se mentiu, mãe— Eu adorava enfatizar com desdém a última palavra.
— Não menti. Tive que improvisar pra resolver um feitiço desconhecido e não deu certo. Agora é diferente, tenho tempo. Posso descobrir como quebrar esse.
— Que tempo? Não era nem para eu estar aqui. E o que você quer em troca dessa cortesia fajuta? Você não espera que eu acredite que está aqui apenas com puras intenções — Eu sorri falsamente enquanto enchia bem o meu copo. Beber direto da garrafa era uma opção, mas era muita falta de decoro. Posso ser um serial killer, mas sou um serial killer com educação.
— Minhas intenções são as melhores, mas também quero a sua ajuda.
— Mas, é claro que você quer. E posso saber no que?
— Antes de vir pra cá, estava conversando com a jovem Caroline, muito espirituosa, para dizer o mínimo – Olhei para Esther abruptamente. Fechei minha cara – Jovem encantadora, mas um tanto geniosa. Claro, talvez só um pouco menos temperamental que você, mas muito longe de ser um anjo...
— Quer ir logo direto ao ponto para essa conversa torturante acabar o mais rápido possível? – Fechei meus punhos para controlar a vontade de tacar a garrafa na cara dela.
— Calma, Niklaus. O que houve? Toquei num ponto delicado? – Ela era tão cínica – Enfim, como eu disse, estava falando com ela e com Rebekah também, na verdade. A princípio, eu não viria aqui tão rápido. Precisava ajeitar umas questões antes de correr pra te salvar. Fui lá para conversar com a minha filha, sua fiel seguidora, e encontrei a vampira recém-criada. Não é que ela me chantageou? Queria que eu partisse imediatamente. Um pouco atrevida, se quer saber. Mas, acho necessário ser assim pra lidar com vocês, já que são pessoas complicadas. Uma pessoa de espírito mais passivo não duraria um dia perto dos incríveis irmãos Mikaelson.
— E como que infernos Caroline te obrigou a vir? Não acredito, de fato, que foi só por causa disso que você veio – Embora suspeitasse que Esther não seria comandada assim tal facilmente, eu estava orgulhoso de Caroline. Mas, não surpreso. Ela erroneamente me enfrenta. Já atacou Mikael. Claro que enfrentaria essa inútil e descartável da Esther. Mesmo assim, não deixei de suspeitar que algo além tinha acontecido. Mas, Esther não me diria em hipótese alguma, eu sabia.
— Deve ser um inferno aí dentro da sua cabeça com tanta teoria conspiratória.
— Não banque a inocente, mãe. E Para alguém tão orgulhosa dos próprios feitos e das informações que tem, não saber que eu não estava na cidade me parece amadorismo.
— Não se pode ter os olhos vigiando tudo. Aliás, eu tinha acabado de voltar do Outro Lado — Ela suspirou pesadamente — Queria negociar com você e com seus irmãos, e pra isso fui lá. E pra isso estou aqui – Ela parou de falar esperando a minha reação, mas não me manifestei. Só queria que ela falasse logo. Que agonia – Gostaria que você e eu fizéssemos uma aliança contra Mikael. Acredito que podemos derrotá-lo mais rapidamente se juntarmos as nossas forças.
— Eu não preciso de você pra isso. Não preciso de ninguém, na verdade. Já matei ele uma vez e em outra deixei ele acorrentado por dezenas de anos. Fiz isso sozinho, sem nem ao menos ter a ajuda dos meus imprestáveis irmãos.
— Sim, você não precisa. Eu não disse que precisava. Eu disse que podemos acabar com ele mais rapidamente se trabalhamos juntos. Mesmo tendo sucesso no final, não foi nada fácil pra você conseguir derrubá-lo. E você só matou ele porque eu criei as Estacas – Isso era um fato. Mas, essa mulher era louca se achava que eu iria fazer aliança com ela.
— E o que você quer em troca?
— Só que minha família me perdoe. Que você me perdoe. Que tenhamos uma convivência no mínimo respeitosa e pacífica. Que ao menos não tentem me matar. Tem sido meu sonho por mil anos que essa família pudesse ser unida. Perdoar não é uma tarefa difícil. É uma dádiva.
— Mentira. Vou perguntar de novo e sugiro que, para seu próprio bem, você fale a verdade. O que você quer em troca, Esther? – Ela hesitou entes de, finalmente, soltar o verbo.
— Quero o perdão da minha família e quero a última estaca de Carvalho Branco – Eu soltei um risada alta.
— Anos no além te deixaram meio biruta, né? – Aproximei meu rosto ao dela – Como que você tem a audácia de sequer pensar que vou te dar a única coisa que pode destruir a mim e meus irmãos, hein, sua doida?
— Eu entendo perfeitamente que você não possa confiar em mim. Meu passado de tentativa de assassinato dos meus filhos me procedem. A sua confiança virá conforme eu demonstrar a minha lealdade. Mas, no momento, nós temos um inimigo comum. O inimigo que mais me interessa derrotar. E essa é a garantia que você tem que eu não vou te trair.
— Ainda assim, não é motivo para eu te entregar a Estaca. Pra pegá-la de mim, só por cima do meu cadáver. E depois? Quando o inimigo número um cair? Meus irmãos e eu ficaremos expostos a você? Não vai rolar, minha querida.
— Se você não cooperar, vai dar tempo e espaço suficientes para seus outros inimigos obterem seu cadáver.
— E você acha mesmo que isso é possível ? – Eu ri dessa maluca enquanto eu engolia uma boa dose de whisky.
— Finn está lá com a Rebekah, não está? Ele pode convencê-la a entregar a Estaca para ele e ela parar nas mãos Mikael. Rebekah sempre ficou perdida no meio do amor e do ódio por você. Ou Mikael simplesmente pode roubar a Estaca com a ajuda de Finn – Meus olhos formigaram e senti minhas presas querendo sair.
— Rebekah não faria isso nem em um milhão de anos. Ela não é tão burra assim. Só parece. E ela sabe que estará de volta pro caixão com uma adaga no peito se me trair.
— E Caroline? Por que você confia tanto nessa recém-criada? Nem conhece ela direito. Já pensou que ela pode ser uma informante de Mikael? Me surpreende que o poderoso e paranoico Niklaus tenha uma brecha tão escancarada como essa. É um perigo você deixar alguém de fora se embrenhar tanto assim nos segredos de família – Senti a raiva queimar minha pele.
— Não seja ridícula. Caroline, espiã? Você está subestimando seu ex se acha que ele tem interesse em utilizar uma peça tão sem valor no jogo quanto ela – Isso era mentira. Eu sabia bem que se ele já tivesse notado minha ligação com Caroline, ela poderia ser cogitada a participar da brincadeira. Para a minha sorte, aparentemente ele nem percebeu a importância da presença dela, mesmo depois daquele encontro espumoso entre eles. Só a possibilidade me causava medo. Medo fora dos meus padrões, que era medo de quase nada. E a ideia de Caroline trabalhando a favor de Mikael era tão absurda que eu começava a duvidar da inteligência da minha adorada mãe. Talvez meses atrás, quando ela ainda me odiava. Mas, eu deixei Mystic Falls tendo a perfeita ideia de que no mínimo éramos amigos evoluindo para algo mais e Caroline jamais me daria às costas dessa forma. E só a nossa discussão reverberou na minha cabeça, me levando para longe daquele bar...
"Não me dê às costas!" — Gritei espumando de raiva. Me enlouquecia o fato de ela me desprezar tanto.
"Eu já deveria ter te dados às costas há muito tempo!" — Ela devolveu no mesmo tom irritado, me apontando com a ferramenta ensangüentada que segurava. Seu semblante contorcido ficava muito sexy.
— Você que está subestimando seu pai se acha que ele não está disposto a usar qualquer arma que esteja disponível, seja qual for, mesmo as que pareçam menos significativas — Esther me tirou de repente do transe — A gana dele em te matar é tão grande que ele vai usar cada artifício que aparecer se houver alguma chance ínfima disso ajudar a te exterminar. Você sempre menospreza tudo o que não entende. A sua arrogância pode fazer você descartar pontos importantes. Pode deixar você cego, especialmente se houver emoções humanas envolvidas – O olhar sugestivo dela pra mim provava descaradamente que ela já tinha notado minha ligação conturbada e indefinida com Caroline.
— Seja como for, acho improvável ele considerar a participação de uma recém-criada fraca e bestinha — Tentei mostrar casualidade e desprezo na voz, mas Esther não caiu na armadilha. Eu, pelo contrário, estava caindo que nem patinho, seguindo na conversa exatamente a direção que ela queria.
— É isso o que você acha de Caroline, que ela é uma recém criada fraca e bestinha?
— Por que você tem tanto interesse nisso? – Perguntei olhando para a rua, mas sem realmente vê-la.
— Me despertou curiosidade alguém de fora da nossa família circulando tão livremente pela casa. Nunca vi mais ninguém fazer isso. Você não acha no mínimo estranho?
— O que eu acho é que não é da sua conta quem anda pela minha casa – respondi entredentes – Está fazendo suposições sem sentido.
— Bem, como sua mãe, é de se esperar que eu note acontecimentos ao seu redor. É um tanto interessante observar suas relações externas. Várias vezes eu fiquei na dúvida se você ainda era capaz de certas conexões, se ainda era capaz de experimentar sensações genuínas depois de tanto tempo vivendo friamente e com tanta violência. Só tenha cuidado com as suas escolhas. O passado está aí pra provar que você é péssimo no que tange às aventuras amorosas — Ela estava indo pela tangente, tentando me manipular, eu sabia.
— Vai querer ter a conversa comigo sobre mulheres depois de mil anos? – Olhei para ela incrédulo, descarregando ironia na voz.
— De acordo com as circunstâncias atuais, me parece apropriado. Por não termos essa conversa no passado que você só fez besteira.
— Eu bebo e você que fica bêbada. Apropriado é você calar essa boca, por que só está dizendo asneira — Respondi sacudindo o copo.
— Só estou tentando estabelecer um entendimento mais profundo. Acho que nunca nos conectamos de verdade, como mãe e filho.
— Deve ser porque você estava ocupada demais tentando me matar.
— Passado, Niklaus. Será possível que você nunca larga o osso?
— Não existe nada que aconteça nesse mundo que vai mudar o passado. Coloca na sua cabecinha fantasiosa: nós nunca teremos uma relação de mãe e filho. Você nunca se comportou como uma mãe, nunca permitiu uma conexão mais verdadeira entre você e seus filhos. Depois de tudo o que aconteceu, não vai ser agora que teremos uma família normal.
— Você se engana, Niklaus. Quando você era criança, eu fiz sacrifícios por você e por seus irmãos. Eu tinha defeitos, claro, mas não foi sempre que tive esse comportamento que você tanto reprova. Talvez fosse mais justo você buscar na sua memória. Que tipo de mãe desnaturada você pensa que eu era antes de o sobrenatural desgraçar nossas vidas? Eu fiz o impossível só para proteger vocês.
— Sacrifícios?! — Bati o copo na mesa. Num bar normal já teríamos levantado suspeita. Porém, um lugar totalmente controlado por mim era diferente – Você estava era salvando a sua pele, como sempre. Sua maior preocupação sempre foi com você mesma.
— É muito cansativo ficar dando voltas na mesma história, Niklaus. Uma hora você vai ter que superar, se quiser seguir em frente. E não precisa de histeria – Ela olhou em volta conferindo a reação das pessoas. Ela tentava transparecer mágoa. Mas, só um verdadeiro idiota cairia na dela — Mas, enfim. Outro dia falamos melhor sobre isso. Vamos precisar se quisemos ter uma convivência pacífica. Por hora, vamos nos ater aos limites de uma conversa civilizada.
— Você que sempre passa dos limites. Está passando deles agora. Não estamos aqui para falarmos dos meus traumas de infância e nem das minhas desventuras amorosas – Ela sabia que era um aviso para mudar de assunto.
— Seja como for – Ela suspirou revirando os olhos, entendendo o recado – Só estou tentando prever todas as possíveis armas de Mikael. Com a estaca ou não, eu preciso fazer a minha parte para derrotá-lo. É meu dever analisar todas as variáveis. Só por isso eu toquei no nome da sua amiga recém-criada de Mystic Falls. Não precisa se descabelar por isso – Era mentira, eu sabia. E ela sabia que eu sabia.
— E como você pretende fazer a sua parte sem a Estaca ? Porque já está claro que você não a terá. Vai me ajudar a sair daqui mesmo assim? Mesmo sem pagamento? – Usei o deboche para disfarçar a minha tentativa desesperada de tirar o foco de Caroline.
— Eu tenho alguns contatos de Bruxas na cidade.
— Já me comuniquei com algumas. Chegou tarde. Como você mesma está vendo, não deu totalmente certo. Estou preso aqui.
— Eu sei que você fez um acordo com elas para trazer a recém-criada de volta – E voltamos a Caroline.
— Não foi exatamente por isso. Eu queria Kol de volta. E quero essa cidade. E elas querem derrotar Marcel. Pareceu lucrativo para os dois lados. O acordo tinha a ver com isso – Engasguei um pouco ao responder. Ela sorriu percebendo a minha semi mentira e meu notório desconforto – Mas, aquelas traidoras não deixaram barato, querem garantias de que o planinho sujo delas vai dar certo.
— E assim você ficou lindamente preso aqui. Mas, você não acha que fez contato com todas as bruxas no comando, não é? A verdadeira líder não iria se arriscar mostrando a cara pra você — Fiquei intrigado.
— Não é Jane-Anne Deveraux?
— Não. Mas, é uma mulher também. Pelo jeito, está bem escondida no French Quarter.
— Quem é? — Indaguei apertando o copo.
— Você nem cogitou a possibilidade de não ser a Jane-Anne? Estou desapontada. Um dos seus maiores defeitos sempre foi a arrogância, o desprezo pelo o que você acha insignificante. O problema é que o que pode ter zero valor para você pode ter muito valor para outras pessoas. Ou ser mais poderoso do que você imagina.
— O que você quer dizer? – Ela hesitou alguns segundos antes de começar.
— Eu posso não ser a super Bruxa que um dia já fui, posso não ter os mesmos poderes de Qetsiyah, mas ainda sou umas das Bruxas mais antigas. A mais antiga para algumas pessoas. E Muitas delas estão aqui. Sabem sobre mim e admiram a minha magia, admiram minha história, muitas acham que eu sou uma lenda. Só com a minha reputação eu posso conseguir muitas informações.
— E você conseguiu ou só está se gabando e jogando comigo? Quem é essa líder? Eu vou matar essa mulher assim que sair daqui.
— Não vai, não. Sabe que deve ser discreto ao redor de Marcel. Controle seu temperamento. Já fez muita besteira ao chegar aqui, pelo o que eu soube. Ainda estou buscando a identidade dessa pessoa, nem adianta me fazer ameaças — Estava espumando. Essas ratazanas de esgoto achando que podem me passar a perna — Mas, eu consegui o mais importante, Niklaus – Minha atenção estava totalmente nela agora – Você não acha que eu vim direto do aeroporto pra cá sem fazer meu dever de casa antes, não é? Nunca subestime ninguém, Niklaus. Não sou tão amadora quanto você pensa.
— E o que você descobriu? – Ignorei os joguinhos delas já perdendo a paciência.
— Você me promete a Estaca e eu te dou a informação de ouro que vai te ajudar a derrotar Marcel – Meu coração deu um salto só com essa possibilidade. Mas, pelo histórico dela, só poderia ser um blefe.
— Pensei que você estivesse aqui para me libertar. Não para cooperar com meus jogos de ascensão ao poder.
— Sobre te libertar, ainda estou trabalhando nisso. Pelo o que eu descobri, Agnes fez o feitiço e depois foi embora da Cidade justamente para você não conseguir sair até que elas decidam ser a hora certa. Só ela pode desfazer e as Bruxas se recusaram a me dar o paradeiro dela, claro. Como você disse, elas querem garantias. Mas, a maioria nem faz ideia para aonde ela foi. É segredo total. E isso faz parte do plano. Quanto menos bruxas souberem, mais em segurança ela fica. Manter a localização de Agnes em segredo até mesmo entre elas foi de comum acordo. Mas, eu vou chegar lá. Só uma questão de tempo.
— E como você descobriu sobre essa vantagem contra Marcel se as Bruxas mantêm segredo total?
— Como eu disse, eu carrego um bom número de seguidores. Claro que a maioria das bruxas nem quis contato comigo ao saberem que você está na cidade. E as que participam diretamente do plano nunca darão vantagens para você. Mas, a lealdade mágica entre as bruxas pode muito em seus efeitos. Principalmente entre os clãs mais antigos...
— O que você quer dizer, Esther? Anda logo com isso – A expectativa já tomava total controle sobre mim.
— Não vai me garantir a Estaca?
— Você sabe que não — Ela suspirou resignada, mas seu olhar era determinado.
— Marcel tem uma arma Bruxa e viva sob seu poder – Fiquei confuso. Ela sorriu com triunfo – Ele mantém uma bruxa adolescente, Davina, trancada sob total sigilo e vigia. Ele controla plenamente a garota, seja lá como. Ela é conhecida como a mais poderosa da Luisiana, de uma linhagem de sangue puro de uma família tradicional de bruxas, a família Sinclair. De dentro de um algum lugar secreto, ela faz todo o trabalho sujo dele, inclusive monitoramento de todo e qualquer feitiço realizado no território de New Orleans comandado por Marcel, especialmente do French Quarter. Por isso o seu amigo soube da sua travessura para trazer a recém-criada de volta. Pelo menos ele sabe que algum feitiço foi feito ontem. Davina sente onde foi feito, embora nem sempre ela saiba qual feitiço foi. E não tenho certeza sobre se ela sabe exatamente sempre quem faz, pois Agnes conseguiu escapar. Mas, pela preocupação que ele demonstrou, ao ponto de cometer dois assassinatos em praça pública, acho que ela sabe que dessa vez foi algo grande – Meu coração estava a mil. Por um momento eu parei de beber, segurando o copo no ar, absorto no meu espanto. Muita coisa fazia sentido com isso. Esse era o centro de todo poder de Marcel.
Esther me olhava com um sorriso torto e convencido, orgulhosa do seu grande feito. Era difícil para eu admitir, mas até que ela estava sendo útil. Claro, partindo do princípio de que ela não estivesse me enrolando como sempre.
— E as bruxas apenas te entregaram esse informação por admiração à você? Não pediram nada em troca? — A revelação era boa demais pra ser crível.
— Elas têm interesse que Marcel caia, lógico.
— E elas simplesmente vão aceitar que outro vampiro fique com o poder? Não foi isso que elas demonstraram ontem. Elas sabem quem eu sou. Sabem que eu sou pior que Marcel. Mas, fazer o que. Eu sou o único com poder o suficiente para pulverizar aquele rato de esgoto.
— Acredito que fazer pacto comigo seja o mal necessário de urgência. Depois elas vão pensar em algo para não deixar você mandar na cidade. Isso é óbvio, Niklaus. Provavelmente elas já têm um plano futuro específico contra você. Mas, por hora, seria bom você ao menos fingir que vai cooperar.
— Pacto com você?- Eu sabia que nada era de graça.
— Eu sei que você e elas já tinham tratado algumas questões, mas argumentar com você é difícil. Fazer acordos com você é perigoso demais, tanta mentira que você conta, tanta traição no seu histórico...Então, eu concordei com elas que se entregassem a informação da maior arma contra Marcel, você iria tomar só aquilo que é seu, sem interferir no legado e no território delas como Marcel tem feito. Eu prometi que garantiria te conduzir às decisões certas. E concordei que faria o possível para devolver a garota. Esse é um dos objetivos principais delas, ter a bruxinha de volta, subjugada às líderes do condado. Só você tem poder o suficiente para enfrentar Marcel e devolver tudo o que elas querem, elas sabem disso. Era a melhor oferta que elas poderiam receber de alguém do seu grupo. Na concepção delas, é necessário alguém para mediar as suas ações explosivas. Esse acordo que eu fiz provavelmente elas tentariam com Elijah.
— Mas, você não tem o direito de falar por mim! — Bati a mão na mesa enfurecido. Quem ela pensa que é? — Sou eu quem dirá as regras de como vai ser a minha liderança nesse lugar. Nenhuma bruxa vai me comandar! Nem você — Terminei falando entredentes.
— Eu só fiz o que achei necessário para ter a informação. Por hora já é um grande avanço, não acha? Se você não quiser cumprir o trato quando chegar a hora, aí vai ser problema seu. Você se vira com as bruxas. Não vou me meter nisso. Não estou realmente interessada no que você vai fazer em New Orleans — Olhei incrédulo para ela — É verdade, Niklaus. Meu principal objetivo é derrotar Mikael. Se para ganhar a sua confiança foi necessário eu me envolver com algumas questões burocráticas daqui, que assim fosse.
Eu olhei em volta. Essa conversa era perigosa demais para ser feita em plena luz do dia, no meio de um bar cheio. Ao caminhar até o bar, me certifiquei de não estar mais sendo seguido ou espionado de alguma forma. Mas, nunca se deve dar bandeira. E era exatamente isso o que estávamos fazendo nesse exato momento. Esther seguiu meu olhar e entendeu meu gesto preocupado.
— As bruxas também estão de vigia na retaguarda, para me avisar se algo suspeito aparecer.
— Agora estou sendo vigiado pelas bruxas também? Era só o que me faltava nesse caralho.
— Modos, Niklaus. E você não esperava circular pelo território que elas consideram delas sem no mínimo receber alguma atenção, certo? — Esther tentava esconder a arrogância por trás da surpresa.
— Pensei que você quisesse uma reunião de família, quisesse o nosso perdão. Não entendi a sua falta de interesse nos meus planos. O que eu fizer aqui pode afetar a todos da nossa família — Falei ainda analisando as pessoas a minha volta, verificando se alguém prestava atenção na gente mais do que um hipnotizado deveria fazer. Fiz isso ignorando totalmente o comentário estúpido dela, claro. Se eu fosse dar importância para tudo o que essa infeliz falasse, eu teria um colapso assassino em plena luz do dia.
— Se você e seus irmãos não me quiserem por perto, não vou insistir muito. Só estou me esforçando agora porque Mikael ainda está vivo.
— Uma ótima mãe, você, como sempre. Muito afetuosa — Olhei pra ela apontando o dedo indicador — Se você não tem muito poder, pretendia fazer o que com a Estaca? Nem tem força física para atacar ele diretamente.
— Por isso você faz parte dos meus planos, Niklaus. Você vai atacar ele. Você é o mais forte. Mas, eu sou a pessoa quem criou a Estaca. Ninguém mais conhece a magia dela como eu. Vou tentar transformá-la numa arma mais poderosa do que já é. Talvez até construir outras armas com uma magia semelhante. Como não existe mais a Árvore de Carvalho Branco, não dá mais pra construir novas estacas, mas eu posso estudar as suas características e formatar outras armas com efeito similar. Sei lá. Só sei que preciso dela para dar continuidade ao projeto. Mikael ainda é um Caçador de Vampiros especial, ele precisa de uma arma poderosa contra ele. E, sejamos sinceros, quando que um vampiro se virou bem sem os truques das bruxas? Até Marcel só detém o poder por causa de uma. Você certamente vai precisar também.
— Eu precisando de alguém? Faz-me rir — A Estaca sairia do meu poder só no dia que eu morresse. Esther poderia tentar ao máximo, mas eu não entregaria nada a ela.
— Eu posso não ser a bruxa mais poderosa de todas. Não por enquanto. Mas, ainda tenho poderes, conheço a magia profunda e antiga.
— Está me dizendo que quer criar mais armas contra os Originais? Mais um motivo para eu dizer não.
— Sem drama, Niklaus. O foco não é você nem seus irmãos, você sabe -
Seriam argumentos convincentes se não estivessem vindo dela. Analisei bem o seu rosto, tentando encontrar algum vestígio de enganação ou de insegurança, mas ela estava impassível.
Revirei os olhos sem mais paciência pra aturar essa mulher. Mas, por hora eu deixaria ela pensar que deu algum passo adiante no seu planinho mirabolante de merda. Era mais fácil isso do que ficar discutindo com ela. Até eu já estava saturado das mesmas conversas, das mesmas picuinhas. Além disso, eu queria saber mais sobre essa Davina, mas não aqui. Esther já tinha nos exposto o bastante me encontrando em ambiente público. Eu precisava conversar com as bruxinhas.
— Já entendi que você se reuniu com as suas antigas amiguinhas do gueto. Mas, realmente te pareceu uma boa ideia vir conversar comigo na frente de todo mundo? — Bufei consternado.
— As bruxas e Marcel sabem que Elijah está aqui com você, não é? E ele também sabe que em breve seus outros irmãos vão estarão no seu calcanhar. Ele só tem esperança que você decida ir embora antes de chegar a esse ponto. E, na melhor das hipóteses, ele gostaria de ver os pais assassinos caçando os filhos de novo, para vocês morrerem de vez, sabe, acabar com a potencial dor de cabeça que ele sabe que os Originais são. É bom que ele saiba que eu estou aqui. A minha presença vai deixá-lo radiante — Esther sorriu calorosamente com suas manipulações mais loucas que as minhas. Quem puxa aos seus não degenera. Mas, logo em seguida ela franziu o senho em indagação — Falando nisso...Onde está seu fiel Elijah? Penso que ele acharia muito interessante tudo o que eu disse.
— Você descobre os podres das bruxas, mas não sabe onde está o seu outro filho? Bom trabalho — Falei ao me levantar de repente, deixando o pagamento embaixo do copo.
Sem olhar para ela, dei às costas saindo do bar, não sem antes averiguar mais uma vez se não havia espiões disfarçados, mesmo que fossem as bruxinhas. Eu não gostava de ser controlado, Esther sabia disso. Assim que eu pudesse, arrancaria o coração de cada bruxa do French Quarter. E Esther seria a primeira. Essa maldita sempre se metendo no meu caminho, infernizando a minha vida. A única coisa boa que saiu do seu ventre amaldiçoado foi meu gênio impetuoso e meu gene animalesco. Nem a ideia brilhante de me tornar imortal foi dela. Foi do capeta do Mikael. Mas, a hora deles iria chegar, isso eu podia garantir...
Tentei afastar da minha mente a imagem deles sendo esquartejados por mim e foquei na minha tarefa iminente. Pensei duas vezes se era melhor ir direto visitar as minhas infiéis aliadas, mas instintivamente caminhei até o hotel. Lá eu pediria um carro alugado. Seria muito sem classe roubar um na rua. Eu não precisava dessa falta de decoro, nem nos meus piores dias. Tá, eu roubei um semanas atrás, tal como Elijah, mas devolvemos.
Andando por mais alguns minutos e dessa vez sem prestar muita atenção no movimento da rua, entrei no hotel luxuoso. Na recepção, cheguei perto o bastante da atendente para jogar meu charme. E, claro, para hipnotizá-la. Eu não ficaria na espera de um carro como um humano idiota comum.
— Bom dia, love. Preciso de um pequeno favor seu — A recepcionista, alta, morena e de cabelos escuros ondulados, sorriu abertamente para mim. Um sorriso largo que combinava com seus grandes olhos castanhos. Pena que não era meu tipo — Gostaria de alugar um carro. GMC Sierra. Preto, por favor. Só colocar na minha conta — Entreguei a ela a chave eletrônica do quarto.
— Vou ver o que posso fazer, senhor Mikaelson — Ela falou enquanto verificava alguma coisa. Ela hesitou um pouco antes de responder, piscando com insegurança — É um carro muito específico e difícil de ter disponível. Não há muito desses carros nas agências...- Ela iria continuar falando besteira até que eu a interrompi.
— Louise, minha querida, posso te chamar assim? — Falei olhando para o seu crachá — Você é muito competente, tenho certeza. Portanto você vai conseguir exatamente o carro que eu quero em menos de uma hora, estamos combinados? Pode oferecer o preço que precisar. Só quero que atenda perfeitamente ao meu pedido — Falei olhando diretamente nos seus olhos. Quando percebi as pupilas dela se dilatando, tive certeza de que o trabalho já estava feito.
— Claro, senhor Mikaelson. Em breve terá o seu carro. Eu chamo o senhor assim que ele estiver pronto — Ao sorrir amistosamente para ela, olhei ao redor. O segundo recepcionista se aproximou com cautela, mas eu fui mais rápido.
— E você, meu amigo, trate de facilitar o trabalho da sua colega ao me arrumar o carro que eu quero — Olhei bem direto nos seus olhos, enquanto o segurava discretamente pela gola do seu terninho brega. Dando um leve aceno para os meus servos, me apressei até o elevador. Iria tomar um banho rápido e sumir daquele lugar.
No caminho até meu quarto no último andar, uma camareira pareceu incomodada com a minha presença. Talvez fosse uma das poucas com bom senso naquele prédio. Seu incômodo era estranho, me deixando alarmado. Mais ou menos na metade do caminho ela saiu do elevador aos tropeços, levando consigo um carrinho, provavelmente para cumprir seu trabalho. A reação dela foi suspeita. Ou talvez eu só estivesse sendo muito paranoico. Minha obsessão em acreditar que estava sendo vigiado a todo tempo parecia só piorar. De qualquer forma, me pareceu extremamente tentador e precavido deixar todos naquele hotel sob meu poder. Eu faria isso na saída.
Entrei no quarto às pressas já verificando se estava vazio. Logo em seguida comecei a reunir meus pertences e guardá-los na pequena mala. Não era muita coisa, lógico. Nem passava pela minha cabeça uma permanência mais prolongada em New Orleans. Sentei na cama cansado, esfregando as têmporas e de olhos fechados. O que eu faria a seguir? Iria atrás das bruxas traiçoeiras exigindo explicações do seu complô com Esther ou iria atrás de Elijah, na esperança de ter minha casa favorita de volta? Talvez fosse melhor primeiro ligar para Caroline ou para Rebekah. As duas sozinhas no apocalipse não me deixaria focar direito no meu trabalho no French Quarter ou em qualquer parte do mundo. Levei a mão ao bolso a fim de pegar o telefone, mas hesitei, retornando com a mão no meio do caminho. Depois da nossa conversa do dia anterior, me senti covarde de sacar o telefone e ligar. Eu não saberia dizer ao certo, mas parecia que eu tinha sido rejeitado de novo, mas de uma forma mais simpática do que das outras vezes. Talvez ela ainda esteja esperando que o bostinha do namorado dela retorne. Afinal, você permitiu o retorno dele apenas para que ela fosse feliz, não é mesmo? Com esse pensamento asqueroso, levantei da cama com raiva, jogando a mala no chão. O que você esperava? Que do nada ela retribuísse seu afeto e apagasse o lobinho da mente dela? Mas, você estava disposto a ser paciente, a esperar...O que eu realmente estava era me enganando esse tempo todo. A presença corriqueira dela nas minhas atribulações diárias me fez ter a falsa ideia de parceria, de amizade, de uma conexão mais profunda e verdadeira. Por um momento esqueci completamente da existência de Tyler Lockwood e pensei que Caroline estava me aceitando. Mas, o problema não era só o lobinho, você que é o problema maior. Com ou sem Tyler, ela não gosta de você...Com a mente fervendo achei que era hora de esfriá-la. Um banho frio poderia ajudar. Rumei para o banheiro e depois que tirei todas as roupas, me olhei no espelho. Estava com o semblante vazio, desesperançoso. Completamente sozinho. Eram só eu e meus pensamentos, assim como nos últimos séculos. Ter a companhia e o apoio de Caroline nas últimas semanas que antecederam à sua morte foi como um ar fresco. Quando estava com ela, eu focava em coisas mais simples e mais leves, eu podia sentir o alívio que era esquecer os pensamentos que tragavam minha alma em direção ao abismo. Aos poucos eu estava me habituando com a sua presença, em compartilhar segredos, compartilhar sentimentos. Confiar em alguém não era mais tão ruim assim. Eu confiava nela como em mais ninguém. Era natural e certo. Mas, agora, tudo tinha se esvaído das minhas mãos como água corrente.
O banho gelado foi torturante e aliviador ao mesmo tempo. Me deu algo em que me concentrar antes dos próximos passos na guerra contra Marcel, enquanto lavava para fora, mesmo que temporariamente, parte dos meus pecados e medos.
Saí da água não me importando muito com a minha aparência, só queria terminar logo e sair do hotel. Depois de estar devidamente vestido, peguei minhas coisas do chão e fui embora. O corredor estava deserto, fazendo meus passos ecoarem sombriamente. Nenhuma alma estava visível para que eu pudesse hipnotizá-la. Eu não ficaria rodando o hotel atrás de meros mortais. Entrei no elevador já arquitetando um massacre mental assim que eu chegasse no saguão. Iria compelir todo mundo que estivesse lá. Quando as portas se abriram no térreo, eu sorri sadicamente. Showtime. Mas, antes que eu começasse o trabalho sujo, a minha atual sombra passava pela porta do hotel. Para o meu horror, Esther me seguiu. Senti um gosto amargo e muita vontade de quebrar o pescocinho fino dela. Eu revirei os olhos e respirei fundo tentando me controlar para não sucumbir à loucura. Só me faltava ela fazer uma cena no meio do saguão do hotel. Pensando no terror de etiqueta social que isso seria, fiz sinal para ela me acompanhar até um canto mais afastado. Ela me seguiu até uma pequena sala de visita.
— Onde está Elijah? Ele precisa estar informado de tudo, Niklaus. Você sabe que é necessário.
— Quando encontrar com ele eu conto as novidades, pode deixar — Ela se sentou numa poltrona bem na minha frente, num gesto claro de que não arredaria o pé dali até que eu concordasse.
— Em breve estarei com ele. Eu vou contar. E algo me diz que se eu não o fizer, você o fará. Então, qual o sentido de eu ficar postergando o inevitável? Só não estrague os meus planos aqui agora — Susurrei entredentes olhando em volta.
— Vai ficar hospedado aqui pra sempre? Duvido. Você gosta de ter seu próprio castelo mal assombrado — Ela falou olhando para a minha mala.
— Você está brincando com a sorte, mãe. Está se garantindo nas suas amiguinhas.
— Eu preciso ficar de olho em você, não é?
— Como me achou aqui? Eu não vi você enquanto eu andava até o hotel. Não usei meu talento especial de velocidade o tempo todo — Eu não poderia falar "vampírica" em público, claro.
— Quando encontrei as bruxas, elas me informaram o seu paradeiro. Fiz meu dever de casa direitinho. Além de elas estarem te vigiando, como você bem já sabe. Depois do bar, esperei um pouco e depois resolvi que era melhor esperar até você aparecer aqui. Ainda bem que você foi previsível, não é mesmo? Veio diretamente pra cá. Tenho que aproveitar as raras oportunidades — Ela estava sendo mais irritante que o normal. E olha que o normal já era acima do tolerável. Estava me enlouquecendo no pouco tempo que interagia comigo.
— Vai me seguir para onde eu for, é isso?
— Se for necessário.
— Me poupe, sua maluca. Uma pena eu não poder enfiar uma adaga em você.
— Sempre tão amável. Não seja uma criança birrenta, Niklaus. Às vezes precisamos aguentar o que não gostamos, porém que nos convenha, por um bem maior— Aquela maldita frase que as bruxas proferiram a noite inteira ontem no meu ouvido. Será que era um mantra? Eu estava perplexo com tamanha ousadia dessa mulher. Ela, vendo que que estava por um triz, resolveu parar de falar merda — Enfim, também quero esperar por Elijah. Eu mesma quero falar com ele. E estou ansiosa para vê-lo. Não são apenas os negócios que me fazem aproveitar a companhia do meu gentil Elijah.
— Você me pede confiança e não me dá nem o benefício da dúvida. Seja como for, não tem como você me acompanhar o tempo todo. Eu não aguento mais a sua cara. Poderia me fazer o favor de sair do meu hotel? — Sorri cinicamente.
— Seu hotel?
Antes de eu responder com agressão, a recepcionista veio até mim. Esther foi salva mais uma vez. Quem diria, salva por uma humana insignificante.
— Senhor Mikaelson, seu carro está pronto. Te aguarda na entrada — Até que enfim. Ela me entregou uma chave magnética para o carro.
— Pode fechar a minha conta, Louise. Não vou mais voltar — Respondi devolvendo a chave do quarto. Ela pareceu decepcionada. Desculpe, querida. Mas, não vai ser dessa vez, pensei enquanto sorria para a morena e a olhava de cima a baixo.
Sem olhar para Esther, deixei ela pra trás com pressa. Eu só queria um pouco de paz, mas isso estava longe de conseguir perto dela. Antes de deixar o hotel, lembrei que seria necessário manter sob discrição a minha passagem, mesmo que breve. Lógico que Marcel sabia que eu estava hospedado ali, ele mesmo me indicou o lugar, talvez até para me vigiar. Mas ele não precisava saber mais que isso. Sem pensar duas vezes, corri na minha velocidade vampírica atacando todos a minha volta. Hipnotizei cada funcionário, cada hóspede que passava pelo saguão. Mandei me esquecerem completamente. Só faltavam as camareiras, claro. E Agora eu tinha que mandar esquecerem a Esther também. Ela sempre me dando mais trabalho. Era exaustivo ter que limpar a sujeira dos outros. Achando que o trabalho estava razoavelmente bom, fiquei sem paciência para ir atrás das camareiras. Então, resolvi me mandar. Já estava na hora.
Andei apressadamente até meu novo carro. O admirei por uns breves segundos antes de entrar. Eu adorava caminhonetes, especialmente as de última geração. Existia algo de clássico e de elegante, ao mesmo tempo robusto, no design delas. Momentaneamente feliz, entrei no carro.
Minha lerdeza em dar partida deu tempo suficiente de Esther entrar. Era uma sina. Uma doença que não me largava. Por que eu ainda não tinha matado ela? Pensei seriamente em jogá-la pela janela. Gostei de imaginá-la sendo atropelada ao cair na rua. Eu mesmo passando com o carro por cima dela. Minha querida mãe me olhava contrariada. Sorri. Era ótima vê-la espumando de raiva. Me vazia sentir minimamente vingado. Aliás, o que mais ela tinha pra dizer? Me parecia que o trunfo na manga já tinha sido usado. Para a minha alegria, ela ficou em silêncio, apenas impondo sua presença ruim. Então, resolvi ignorá-la completamente e focar no que era importante.
Por hora, eu estava razoavelmente satisfeito. Só precisava checar a veracidade das novas informações sobre a suposta Davina. Se fossem verdadeiras, um grande passo para a minha ascensão ao poder tinha sido dado. Estava na hora de eu fazer outra visitinha às bruxas. E talvez eu não fosse tão benevolente como da outra vez. Elas me manteriam preso aqui até quando quisessem, então não fazia sentido eu me poupar de alguma diversão sanguinária. Eu poderia matar quem eu quisesse. Minha única hesitação era o que Caroline acharia disso...E se eu matasse mais alguma bruxinha, teria que ser bem na surdina.
Peguei meu telefone e estava prestes a ligar para Elijah, para saber se as negociações tinham funcionado como eu esperava, quando notei algumas ligações perdidas de Caroline e uma mensagem de voz dela. A mensagem tinha sido enviada algum tempo atrás, mais ou menos no momento da minha conversa com Esther no bar. Por um momento, senti raiva de Esther ter me distraído o bastante para não perceber o contato que Caroline tentou comigo. Logo em seguida o ressentimento virou preocupação. Meu coração deu um salto de nervoso. Ela só me ligava ou mandava mensagem quando era urgente. Me amaldiçoei por não ter ligado lá no quarto quando eu quis. Coloquei o texto para ouvir imediatamente, tentando manter os nervos sob controle. Eu estava preso num lugar a quilômetros de distância dela, a deixando totalmente exposta. Não tinha como confiar cem por cento na anta da minha irmã em fazer o trabalho direito de vigiá-la. Será que a minha little sistah estava dando conta do recado em Mystic Falls ou era demais para a burrice dela? Tamborilava os dedos no volante nervosamente aguardando ela falar.
— Klaus, eu estou com uma verdadeira crise nas mãos. Aquelas bruxas loucas destruíram o meu carro. Não bastou tentarem me matar duas vezes, tinham que me dar prejuízo também. Longa história, não cabe numa mensagem de voz. O fato é que estou sendo obrigada a ficar correndo na velocidade vampírica enquanto Mystic Falls pega fogo. Então, você poderia deixar eu dar uma olhada na sua coleção horrível de carros antigos? Prometo que é emprestado. Eu devolvo assim que puder. Isso se esse não for destruído também. A propósito, eu cumpri a tarefa que você pediu. A sua Doppelganger está livre, leve e solta para nos atacar novamente.
Dei uma breve risada com esse áudio. Era tão Caroline...Ela transformava o caos de uma guerra em apenas um pano de fundo cômico. Toda a minha insegurança e raiva tinha passado só de ouvir a voz dela. Sorrindo de canto, busquei o seu nome na lista de contatos para retornar à ligação imediatamente. Ela não demorou a atender para o meu alívio.
— Olá, Love. Sabe que não precisa pedir permissão. É só pegar. Mas, está aprontando o quê para terminar com um carro destruído? — Isso era muito preocupante. Apertei o volante com força, na antecipação do desastre. Como eu não havia percebido o problema? Ela disse "Não bastou tentarem me matar duas vezes".
— Longa história, como eu disse. Não posso explicar agora — Sua voz estava vacilante e tremida, parecia ofegar. Fiquei ansioso para saber mais.
— O que está acontecendo, Caroline? Onde você está agora? – Meu coração só acelerava.
— Eu já disse que agora não posso explicar. Só atendi você para não surtar, só isso – Eu queria pressioná-la, mas sabia que ela não soltaria o verbo quando não quisesse – De qualquer forma, já consegui o carro.
— Em alguma coisa Rebekah é útil — tentei ser mais suave com ela, para não afugentá-la.
— Ela não está comigo. Precisou fazer outra coisa — Franzi o cenho. Fazer o quê? — Quando eu liguei pra você e não me atendeu, resolvi utilizar meu último recurso. Falei com Elijah — Acho que sem querer desviei um pouco o carro da estrada, pois Esther me olhou repreensiva.
— Então, quer dizer que pelo menos com você meu irmão fala no telefone — O ressentimento era perceptível na minha voz.
— O que isso quer dizer?
— Quer dizer que eu não sou útil, mas ele é bastante.
— Foi só um carro, Klaus — Ela não entendia. Eu queria participar de tudo, mesmo daquilo que poderia parecer pequeno e sem valor.
— Um carro que por hora está te salvando a pele — Em qualquer coisa que fosse um mínimo importante para ela eu queria estar envolvido.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Eu prometo que no próximo ataque eu só vou esperar pela sua ajuda. Só vamos torcer para não ser tarde demais.
— Não precisa de drama — Revirei os olhos. A típica Drama Queen.
— Drama? Eu terminei morta na última vez. E não sou eu quem está fazendo drama por causa de um carro. Eu não quero ter esse tipo de conversa agora.
— Rebekah deveria estar com você — Falei espumando. A palavra "ataque" me fez surtar e frear um pouco o carro — Que outra merda que ela foi fazer que não está aí agora?
— Ah, por isso ela estava insistindo em me seguir. Você mandou ela fazer isso. Típico de você, querer controlar tudo e todos.
— Você acabou de me falar que sofreu outro ataque. Está me dizendo que estou errado? Não quer um Original pra te defender? — Fiquei abismado com a falta de noção dela. Reconhecer o óbvio era o mínimo que ela poderia fazer.
— Quão delirante você é, Klaus? Eu não preciso de babá. E sua irmã não pode ficar plantada na porta do meu quarto o dia inteiro. Nem eu vou ficar trancada. Quer que o perigo acabe? Trate de dar um jeito de sair daí e arrumar a bagunça que você plantou em Mystic Falls. Senão, apenas aceite o que nós fizermos aqui.
— Vai ficar passeando de carro, então? O verão está chegando. Seria realmente muito divertido e prudente sair para um piquenique — Eu já falava com raiva — Aproveita e leva... — Mas, antes de eu terminar, ela já tinha desligado na minha cara. Bati com força no volante enquanto xingava palavrão. Essa garota conseguia me fazer variar da alegria genuína ao ódio absoluto em milésimos de segundos.
— Então, Elijah está mantendo as coisas em ordem pra você. Isso que é irmandade – Por um momento, eu tinha esquecido que tinha alguém do meu lado. Esther deu uma pequena e nojenta risadinha. Eu não respondi nada. Não iria cair na sua armadilha — Elijah te idolatra tanto que te imita até nas coisas mais peculiares.
— Azar o dele. Um dia ele cai na própria armadilha — Não me contive e falei. A cólera me consumia de tal forma que era impossível controlar. Que se fudesse minhas tentativas falhas de esconder o quanto Caroline tinha poder sobre mim.
— Se você quiser algo, ele também vai querer. Houve uma época que pensava que era inveja. Depois vi que era admiração. Ele confia demais que você sempre fará as melhores e mais refinadas escolhas. Então, fica à mercê das suas atitudes. Ele tem essa pose de superior, mas na verdade é muito inseguro.
— Mas, que porra você tá falando? — Acelerei um pouco o carro. Eu não deveria perguntar isso, pois eu sabia exatamente do que se tratava. Esther mais uma vez tentava arrancar minha confissão sobre Caroline. Ao menos queria me conduzir na direção de me desmascarar.
— Só estou constatando que conheço meus filhos muito bem. Elijah parece muito disponível para a sua amiga de Mystic Falls, não acha? Até me fez ter déjà vu. Lembro bem daquela mulher do vilarejo...
— A que você matou e nos fez beber o sangue? Ah, sim. Tatia.
— Um detalhe poético da bruxaria, perdão. Só acho estranho vocês repetirem padrão. Não cansa?
— Ela não é a Tatia — Falei olhando para a estrada. A essa altura, o que mais eu poderia dizer? Esther ouviu minha conversa vergonhosa com Caroline, na qual me rebaixei ao ciumento idiota por uma coisa estúpida como um carro.
— Claro que não. Mas, essa não foi a única vez que se engalfinharam por mulher. Lógico que fiquei sabendo da Doppelganger Petrova...
— Eu não amei Katerina. Eu só queria o sangue dela para ativar meu lado lobisomem. Se conhecesse mais sobre essa história, mais sobre mim, saberia disso.
— Está sugerindo que Katerina foi a única dessa lista que você não amou? — Esther queria morrer, mas não queria se suicidar. Por isso estava se esforçando para eu fazer o trabalho por ela.
— Se quiser continuar com a sua língua na goela, fique de boca fechada. No mínimo, fique quietinha até chegarmos.
— E Para onde estamos indo? — Soltei a respiração com alívio, e eu não sabia que a estava prendendo. Qualquer coisa que desviasse a atenção dela de Caroline já estava servindo bem. Por isso, resolvi ser sincero.
— Oak Alley. Uma antiga propriedade minha. Elijah está lá. Você não queria falar com ele? Lá está a sua chance.
—Ah, eu não cheguei a conhecer essa casa.
— Claro que não. Nessa época você era uma poeira no cosmo. Que pena que não é mais.
— Modos, Niklaus. Não seja infantil — Olhei pela janela ao meu lado e exalei o ar pesadamente. Que ódio dessa maldita — Ansiosa para ver a reação do meu nobre Elijah.
Resolvi ligar o rádio. Música, algo tão humano, mas tão últil e prazeroso. Seria a única coisa naquele momento que me salvaria da loucura plena. Alisei a testa resignado. Meia hora seria uma eternidade dentro daquele carro com essa mulher. Seria uma longa viagem até Vacherie.
Pensei em Caroline e nas palavras de Esther. Até aquele momento, mantive as minhas desconfianças no fundo da minha mente, como uma névoa distante. Era difícil controlar as minhas paranóias, mas essa em particular ficou guardada no meio de tanta demanda mais urgente. Ou talvez eu só não quisesse enfrentar a verdade. E meu foco em trazer Caroline de volta suprimiu toda e qualquer outra preocupação. Mas, agora, com tempo para pensar no assunto e ainda sendo instigado por essa cobra sentada ao meu lado, era impossível adiar a cólera. Era verdade que Elijah tinha inclinação a desejar o que eu desejava, eu sabia disso. Foi assim durante séculos. Não apenas com mulheres. Algo que era sem valor para ele passava ser de suma importância, quase vital, a partir do momento que eu demonstrava interesse. Era o que estava acontecendo a respeito de Caroline? Toda ajuda que ele me deu foi com segundas intenções, querendo me roubar o pouco da atenção que eu tinha dela? Se esgueirando no meio furtivamente, planejando me dar o bote assim que eu estivesse distraído? Minhas desconfianças não eram infundadas, aparentemente. Outras pessoas também notaram o súbito interesse dele no bem estar de uma completa desconhecida. Ele queria ela só porque eu queria? Voltei no tempo e na minha memória para rastrear o comportamento dele, tentando entender como que essa merda tinha acontecido de novo e como eu tinha deixado isso passar. Em que momento eles viraram amigos ao ponto de ele ser capaz de interagir com ela com tanta liberdade? Isso significava que ele agiu pelas minhas costas o tempo todo. Senti raiva. Ódio de Elijah, traidor miserável. Merecia voltar para o caixão. Merecia ficar lá pra sempre. Só assim eu teria paz pra viver a minha vida sem ter a sombra dos golpes dele me seguindo. Para eu ter o que eu queria, ele precisava estar fora do caminho, pois assim era Elijah, ele sempre ganhava de mim. Usando com hipocrisia seu discurso de lealdade, ele passava por cima de mim sem pensar duas vezes. E Sempre conseguia o que queria, causando admiração por onde passava. O que ele tinha que sempre despertava tanta devoção? O santo Elijah. Sempre com aquele ar de superioridade, mas se fazendo de humilde e de devoto. Era o típico falso. Ele fazia qualquer um perto dele parecer sujo, indigno. Quem iria preferir outro senão o perfeito Elijah? Mesmo se tratando de mulheres que eu não amava, ainda me incomodava o fato de sempre escolherem ele. Era notável a veneração que as mulheres tinham por ele. Quando vivemos na Corte, era de praxe as oportunistas sonharem em fisgar o gentil e entediante irmão mais velho. Não seria diferente com Caroline, seria? Depois de todo meu comportamento psicopata, como que seria eu o escolhido? Depois desses últimos dias eu me permiti cogitar a possibilidade de receber uma chance dela. Mas, minhas expectativas estavam sendo esmagadas, mais uma vez, por Elijah, justamente aquele que se propôs a me dar esperança e arco de redenção.
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