Scarlet Dynasty - Klaroline
25 The Power of Prophecy - Parte 1
Notas iniciais

And it's the fight
(E é a luta)
In the fight of our lives
(Na luta das nossas vidas)
You and I we were made to thrive
(Você e eu fomos feitos para triunfar)
Never forget we were built to last
(Nunca esqueça que fomos construídos para durar)
Step out of the shadows and into my life
(Saia das sombras e entre na minha vida)
Silence the voices that haunt you inside
(Silencie as vozes que te assombram por dentro)
Um trecho da música Take On The World — You Me At Six
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Caroline
Algumas horas antes
Rebekah desligou o telefone nos encarando preocupada. Mas, logo brotou um sorrisinho sapeca nos seus lábios rosados.
— Mas, é claro que Nik precisaria de nós para salvá-lo. Aquele bastardo se acha invencível, mas é tão imbecil quanto poderia ser – Ela mexeu no bolso da calça, conferindo sua carteira branca – Bem, não tenho porquê esperar. Essa é a minha sina, sair correndo para atender às necessidades de Nik quando ele bem entende – Ela exalou o ar pesadamente — Kol, você fica de vigia para os humanos.
— Eu já não estava, Rebekah? – Kol revirou os olhos — Por isso me obrigou a vir, afinal. Se não fosse a sua generosa oferta, eu estaria do outro lado do planeta agora, curtindo a minha volta de um jeito muito mais glorioso que ficar nesse fim de mundo.
— Até parece. Você estaria exatamente onde está, tornando a nossa vida mais complicada. E só quero deixar tudo bem claro, já que você é bem idiota. A responsabilidade será toda sua agora, então não deixe a peteca cair. Você só tem um trabalho, Kol. Não é possível que vai conseguir errar isso. E não perturbe o Matt ou vai se ver comigo.
— Quem gosta de brincar com a comida é Niklaus – Ele olhou pra mim dando uma piscadinha. Seriously?
— Você também gosta. Te conheço bem. Então, vai fazer o que eu mandar, para a sanidade e para o bem de todos os envolvidos, especialmente o seu. Seu pagamento só vem após o cumprimento da missão – Kol contestou, falando alto, e Rebekah respondeu no mesmo tom.
Enquanto eles argumentavam sobre qual a melhor forma de governo dentro daquela mansão, eu continuava calada. Com a garganta seca e estonteada demais para ressonar palavras, minhas ideias vagavam ao longe...
Se ele não se metesse em mais outra emboscada ou mesmo optasse pela desgraça no próprio destino, em algumas horas Klaus poderia estar de volta e agora sim eu precisaria enfrentar meus medos e desejos. Precisaria enfrentar Klaus de uma vez por todas e estava ansiosa para isso. Deixei escapar um sorriso involuntário só com a ideia de vê-lo outra vez e de finalmente poder despejar tudo o que estava engasgado. Mal podia esperar para olhar aquela cara cínica, que esboçava um sorrisinho torto e irônico com aqueles lábios vermelhos e carnudos enquanto tagarelava arrogantemente coisas sem sentido. Ele fica tão sexy quando externiza todo o poder que carrega...
— E quanto a humana – Rebekah se virou pra mim, me tirando do transe – Imagino que não seja tão fora da sua ossada cuidar da frágil da sua mãe. Você é fraca, mas é capaz de pelo menos isso.
— Obrigada pelo formidável elogio – Cruzei os braços. Eles eram tão petulantes que me davam nos nervos.
— Não há de que. Apenas sou prática. É isso. Ouviu bem, Kol? – Ela apontou o indicador pra ele de um jeito bem mandona e já estava nos deixando para trás quando resolvi criar coragem para externar meus maiores anseios do momento, pois estavam me consumindo a alma.
— Rebekah – Chamei, sentindo meu coração acelerar só com a expectativa das minhas próximas palavras. Meus dedos formigavam enquanto eu esfregava uma mão na outra para conter o nervosismo. Ela se virou curiosa e me esperou continuar – Você vai fazê-lo voltar, não vai? Porque sua mãe pode estar blefando. Pode estar tentando sabotá-lo ou conseguir uma barganha. Ela não vai libertá-lo de graça — Rebekah enrugou a testa um tanto perplexa — Ela fará qualquer coisa para conseguir o que quer, seja lá o que for, pois não acredito em nada do que ela diz. O discurso barato sobre acabar com seu pai pode ser apenas para camuflar suas verdadeiras intenções contra os próprios filhos. Teve a coragem de confessar na minha cara que me usou para matar vocês naquele dia no baile e...
— Eu sei — interrompeu minha tagarelice — Ouvi. A maldita estava no meu corpo. Ela sempre está a vários passos à nossa frente — A caçula cuspiu desgostosa — Enquanto meus irmãos e eu não demos a mínima importância para Nik correndo atrás de você, nossa mãe estava manipulando magistralmente os sentimentos dele sabendo exatamente como a mente de Nik funciona. Ser a Bruxa Original nem é a sua maior arma contra nós, sabe, mas sim o fato de nos conhecer com muita precisão. Ela consegue prever as nossas ações antes mesmo de nos darmos conta do que faremos. Mas, não somos tontos, Caroline. Também conhecemos as artimanhas bem camufladas da Esther. Você só está chegando agora. Ainda não viu nada do que ela realmente é capaz. Vamos torcer para que nunca chegue a presenciar minha mãe em ação total — Pisquei atônita antes de responder.
— Então, tem certeza de que ela planeja algum golpe.
— Sim. Até me preocupa que essa história de irmos a Washington D.C. para pegarmos a tal bruxa seja uma baita armadilha. Mas, que escolha eu tenho. No momento, é a única chance de Nik. Ele está nas mãos dela, odeio admitir.
— Mesmo assim, fará o que tiver ao seu alcance para ajudar o seu irmão, certo? – Ela ia responder, mas não lhe dei tempo de negar ou de afirmar — Eu sei que vocês não têm a melhor e a mais pacífica das relações. Klaus já aprontou tanto...ele merece toda a sua desconfiança. Mas, eu vi nos meus últimos dias o quanto seu irmão se importa com você – Não iria mencionar as memórias de Elijah, poderia surtir o efeito contrário. Mas, ao mesmo tempo que ela me encarava surpresa, pude notar um brilho feliz e genoíno reluzindo em suas íris azuis. Tudo o que ela mais queria era ser apreciada com dignidade pelo irmão que mais venerava – Quando você foi presa por Mikael, Klaus simplesmente endoidou só com a ideia de você se ferir. Eu vi de perto e foi tangível o medo que ele sentiu em te perder. Então, posso afirmar que se os papéis estivessem invertidos agora, Klaus arrancaria umas cabeças só para chegar até você.
— Eu suponho que sim, mas às vezes foi a minha cabeça que ele quis arrancar e...
— Ele não te odeia, Rebekah, nem quer te magoar. Só não sabe o que fazer com você depois de tanta desgraça e crimes que vocês dois cometeram um com outro. Mas, dê só mais uma chance a ele, pode ser justo essa que fará toda a diferença.
Ela se aproximou lentamente de mim com os olhos marejados, enquanto sorria com carinho.
— Eu vou se ele também o fizer. Nik sempre arruma um jeito de me sabotar ou de me desapontar seja como for. Me inferniza de propósito e não faço ideia do por quê. Eu nunca fiz nada contra ele...- Despejou rancorosa, olhando para o lado. Eu sabia que isso não era verdade. Ela também não é nada fácil de lidar, mas Klaus não ajuda em nada quanto a isso.
— Seriously? Não faz ideia? Helôô! Ciúme doentio e paranóico, claramente. Ele mata qualquer um que atravessa o caminho de vocês — Tentei apaziguar, na esperança de dissuadir Rebekah de qualquer planinho sujo de sabotar o irmão e não trazê-lo de volta — Admito, ele é uma merda de irmão às vezes, mas...
— Às vezes? — Kol bufou atrás de mim — Passa longe do querido fraternal.
— Que seja, ele não é meu dono — Disse carrancuda, concordando com o irmão, mas logo suavizou o semblante, me encarando significativamente — Mas, digo o mesmo a você: dê a ele uma chance de verdade. Acho que ele está esperando por isso há muito tempo. Eu também vi de perto o quanto ele se importa com você. Especialmente com essa questão absurda sobre o Outro Lado. Eu tenho que admitir, e você já deve ter notado, me irritei ao extremo pelo meu irmão nos colocar em tamanho perigo, mas quando entendi as suas reais motivações, senti esperança. Pela primeira ele fez algo altruísta, seus motivos nada tinham a ver com conquistar mais poder, mas sim foi guiado por sentimentos sinceros, uns que pensei que ele jamais sentiria outra vez. Fiquei impressionada e até mesmo feliz. Só o que meus irmãos e eu queremos para ele é que se importe. Nik não está perdido para sempre, agora eu sei – Fiquei parada sem dizer nada. Emocionada demais para continuar, Rebekah deixou umas lágrimas caírem e apertou meu ombro ternamente antes de nos deixar de vez apressada.
Fiquei estancada no chão por uns segundos, processando a profundidade das suas confissões. E, sem coragem de olhar para Kol, que esteve surpreendentemente em silêncio nos observando, saí do estado catatônico e me retirei do deck. Eu não queria dar explicações sobre meus sentimentos e nem mesmo queria contar que Elijah me mostrou muita coisa de seu passado, pois a minha declaração para Rebekah foi forte o bastante para gerar desconfianças. Kol era instável demais para eu saber como ele reagiria a tamanha intromissão na sua vida pessoal. Ainda mais se tratando dos abusos contra ele quando humano, numa época quando ser frágil era vergonhoso. A defensiva pode deixar as pessoas bem agressivas e alfinetar o Original mais temperamental não era nada inteligente.
Obviamente que os Mikaelson já sabiam que eu estava naquela casa não apenas para esconder a minha mãe, mas também porque queria ficar o mais perto possível de Klaus e esse refúgio no meio do mato era o máximo que eu poderia ter dele naquele momento. E Kol estava bem a par disso, não adiantaria eu me esquivar para sempre de ser interrogada por ele, pois assim era essa família, intrometida e inconveniente demais. Eles estavam acostumados a viverem em coletivo. Não conhecem o significado de vida própria e de privacidade, e eu tenho certeza de que isso se estenderá a mim mais cedo ou mais tarde, para o bem ou para o mal. Então, estava evitando ao máximo ficar sozinha com ele, pois imediatamente me torturaria com comentários maldosos e irônicos, sem o menor respeito pelos meus sentimentos, na esperança de arrancar de mim alguma confissão sacana apenas para tirar alguma graça ou proveito disso. E tal como Rebekah jogou na minha cara minutos mais cedo, eu estava esperando Klaus voltar. Kol ouviu isso e na certa estava só espreitando para me pegar desavisada.
Caminhei pela casa sem rumo certo, só em busca de algum lugar escondido e aconchegante para eu colocar as ideias e os sentimentos em ordem. O meu novo quarto era o lugar mais óbvio da casa e no momento eu buscava um refúgio solitário. Claro, não é possível esconder- se de um vampiro num ambiente fechado, mas pelo menos eu queria dar um recado direto a Kol para que não viesse encher a minha paciência e contar com a sorte que ele respeitasse a minha privacidade pelo menos por enquanto. Achei uma espécie de sala de visita, pequena e circular. Bem a minha frente, a parede redonda de vidro explanava a vista exuberante do lago e da floresta, iluminando o cômodo intensamente. Embutida no vidro, uma poltrona também circular se misturava ao tom pastel dos outros móveis. Me pareceu o lugar perfeito para eu me afogar nas minhas lamúrias, enquanto relaxava à vista da paisagem. Me joguei nas almofadas brancas e fofas e me estiquei confortavelmente, olhando para o pequeno teto de vidro logo acima da poltrona. Fechei os olhos para protegê-los da claridade e visualizei o futuro não muito distante, na esperança de assumir algum controle sobre minhas próximas ações.
A hora da verdade se aproximava e meus nervos estavam aflorando só de imaginar. Uma chance de verdade, isso ressonava bem alto na minha cabeça. Sorri largamente. Era isso, a chance de verdade. Não só para ele, mas para mim também. Era a minha chance de extravasar todo o caos dos sentimentos conflituosos sem ser consumida no processo. Eu poderia ser livre, eu queria ser livre. Livre para gostar do que fosse, de quem fosse sem medo dos outros, sem medo de mim mesma e me permitir ter alguma felicidade em meio a tanta tormenta. Para se permitir viver intensamente e sem amarras é necessário muita coragem. Uma dose de prudência é essencial para nos manter a salvo, mas prudência demais nos deixa covardes ao ponto de nos escondermos até de nós mesmos, comprometendo o nosso potencial. E eu estava cansada dessa ponderação toda, que me confinava até sufocar.
Lembrei de mais uma das suas falas icônicas. Klaus é cheio delas, tendo mil anos de experiência para todo o tipo de situação. Ele podia enxergar além, como uma gavião que sobrevoa com visão ampla, enxergando o campo muito aquém dos olhos menos sagazes. E eu confiava no seu julgamento preciso, sofisticado e experiente:
Na caverna em que você tem medo de entrar está o tesouro que você procura.*
E que caverna, quase mal assombrada, mas que levava até uma brilhante gruta preciosa. Um bom tesouro nunca fica à vista, dando sopa para qualquer um pegar. É necessário ter resiliência e fé de que o seu prêmio está próximo, aquele que é exclusivamente seu, ordenado pelo destino para te encontrar.
Pois onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.*
E chegando aos finalmente, sem medo de admitir, meu coração estava em Klaus. E com ele estava guardado o meu tesouro precioso e único, assim gritavam os meus instintos em alto e bom som. Não sabia exatamente aonde isso iria dar, mas eu sentia que o caminho certo era esse. E dessa vez eu prestaria atenção a essa voz que tentei abafar por todo esse tempo, mas que insistiu incansavelmente até ser ouvida.
Essa conclusão me deixou leve, calma e mais segura de mim do que nunca. Sabia exatamente o que sentia sem medo de ser rejeitada ou de simplesmente ser largada no barco à deriva sem cerimônias. Klaus era assim, me passava essa segurança toda, não só nas palavras, mas principalmente nas ações. Ele não seria capaz de me desapontar, sempre faria tudo ao seu alcance para me entregar o que eu merecia. E ele também esperava por mim. Finalmente pude acreditar na sinceridade e na pureza de seus sentimentos. Depois de todo o transtorno dos últimos meses, seria impossível sair disso ainda duvidando de qualquer uma das suas atitudes comigo. Ele estava apaixonado por mim sem sombra de dúvidas e com ele eu estaria protegida em todos os sentidos. E eu também estava fortemente ligada a ele, envolvida por ele, isso era um fato, não podia mais negar esses sentimentos. E nem queria.
Soltei o ar pesadamente, descomprimindo meu peito angustiado, enquanto minha mente anestesiada ia longe...imagens borradas se misturavam, enquanto eu navegava de um lugar para o outro, alternando minhas ideias entre o aqui e o lá nesse outro universo...
Eu estava correndo pelo bosque, rindo sem parar. Meus pés descalços batiam suavemente na grama úmida e verde enquanto a barra do meu vestido azul claro arrastava as flores coloridas e silvestres. Olhei pra trás e lá estava ele, cavalgando ligeiro atrás de mim, empunhando uma espada longa e pesada, na qual o aço prateado reluzia fortemente ao Sol a pino ofuscando as letras misteriosas cravejadas no metal.
Klaus deu a volta e parou com o animal relinchando bem a minha frente, me fazendo interromper a corrida. Parei ofegante com a mão no peito, afastando os cabelos do rosto suado. Klaus não parecia muito diferente, pois seu semblante estava avermelhado e seus cabelos médios, bagunçados charmosamente de tanto esvoaçarem pelo ar.
— Sabe que não pode competir com um cavalo. Muito menos quando sou eu quem o conduz.
— O nobre cavaleiro não é tão nobre assim. Ninguém nunca adivinharia que debaixo desse rosto bonito se esconde um arrogante.
— Pra que vou esconder minhas habilidades, love? São elas que me trazem certos benefícios — revirei os olhos.
— E o que você ganhou até hoje além do seu cargo atual? Não vai me dizer que ter as donzelas caindo aos seus pés dentro do meu castelo seja o auge das suas conquistas. Deve ter uma vida muito entediante, então. Me proteger é tão penoso assim?
— Sabemos que não sou a ambição de nenhuma dama por aqui. E não quero a atenção de todas. Só de alguém em particular — Ele desceu do cavalo, guardando a espada no cinto de couro — A opinião dos inferiores não faz diferença. Eu gosto mesmo é daqueles que se destacam na multidão. E você, minha bela, é um espírito muito além do nosso tempo. Seria impossível não te notar, Caroline — Adorava o jeito como seu sotaque afetado pronunciava meu nome. Meus olhos se dirigiram aos seus lábios vermelhos e grossos. Engoli em seco, sedenta, umedecendo minha própria boca com a língua — Sua aura está sempre me rodeando, às vezes de um jeito intransigente, mas eu gosto — Ele deu meia volta e ficou atrás de mim, se aproximando e falando mais baixo perto do meu rosto. Meus pelos da nuca se eriçaram só com a sensação do seu hálito no meu pescoço — Sua aura me rodeia e me deixa inebriado. E pelo o que notei, esse efeito não surte apenas em mim. Então, tenho que me apressar se quiser sair na frente. Em breve pode ser levada para bem longe — Seu tom de voz atingiu um nível meio rabugento.
— Não é uma competição. Eu escolherei quem eu quiser. Já falamos sobre isso. Posso fazer o que eu quiser no meu reino. E se eu for obrigada a ir, você virá comigo. Afinal, foi seu juramento, me servir até o fim, não é? Ninguém poderá impedi-lo de vir comigo.
— Não é uma competição? E você sabe que a sua família Real, conservadora e hipócrita, jamais deixaria um cavaleiro intrépido e de moral duvidosa que nem eu chegar tão perto de você assim oficialmente. O máximo que teremos serão as nossas escapadas. Mesmo assim, pretendo jogar com todas as cartas, de maneira que jamais queira escapar de mim. No fim, você vai gostar tanto de estar comigo que fará o impossível para não me perder — Sua voz ficou mais rouca, me fazendo engolir em seco.
Eu sabia o que viria a seguir e meu corpo reagia só com a insinuação. Ele acariciou lentamente meu braço desnudo, deixando um rastro ardente por onde seus dedos passavam. Me puxou e me apertou pela cintura, fazendo minhas costas se espremerem contra o seu peito forte. Então, sua mão foi parar na minha nuca, segurando meus cabelos com força, me trazendo mais ainda pra perto da sua boca, que passou a mordiscar meu pescoço. Fechei os olhos, perdida naquela sensação. Em breve eu estaria totalmente entregue aos desejos e prazeres que ele sempre me proporciona. Aqui era o nosso rotineiro ponto de encontro, sendo logo à frente a cabana onde passávamos várias horas escondidos e alheios ao resto do reino. Seria um escândalo se soubessem da nossa relação socialmente impossível, mas acho que isso nos impulsiona ainda mais.
Era sempre assim. Eu saía do castelo com a desculpa esfarrapada de que visitaria as donzelas da Corte, pois minha mãe achava importante manter bem fincadas as relações sociais com os Lordes e suas Casas, pois assim eu poderia encontrar mais fácil um pretendente à altura. O objetivo dela era fazer o melhor casamento político possível para mim, me afastando de vez das tentações cabulosas que me rodeavam, assim dizia. Quando me disse isso, me fez perceber que estava desconfiada das minhas más intenções. Algumas vezes poderia jurar que fui flagrada por ela numa intimidade pra lá de inapropriada com meu Cavaleiro, aguçando ainda mais sua vigília já bastante acirrada sobre mim. E Klaus, sendo meu Guarda Juramentado, era a minha sombra oficializada pela Guarda Real. E ele adorava me seguir para todos os lados, pois sempre terminamos da mesma forma, no nosso cantinho secreto, nos contorcendo na agonia dos prazeres da carne.
Ele desamarrou lentamente as fitas das costas do meu vestido, sem parar de me acariciar com seus lábios vermelhos e carnudos. Seu toque me dava calafrios e me queimava mesmo por cima das muitas camadas do tecido sedoso. Senti meu corpo ficar ligeiramente molhado e escorregadio, quase febril. Quando minha roupa estava frouxa o bastante, ele esgueirou suas mãos por baixo do meu espartilho até meus seios, apertando de leve. Isso me faz arfar, jogando minha cabeça em seu ombro e pressionando meus quadris contra os seus, já não aguentando seu toque que me deixava em brasa. Senti aquela sua deliciosa rigidez que se destacava sempre quando ele me tocava desse jeito. Engoli em seco, sedenta por senti-lo mais uma vez. Me virei de repente pra ele, olhando bem fundo nos seus olhos verdes, agora escuros de desejo, tentando acariciá-lo também, buscando algum espaço exposto por baixo da armadura, mas foi em vão. Ele me girou de volta, me puxou em direção à grama e levantou meu vestido, me deixando exposta a ele. Ouvindo o barulho dele retirando com pressa as vestes, enquanto acariciava meus cabelos e passava os dedos pelas minhas costas desnudas e arrepiada, senti seu corpo se encaixar no meu. Levantando meus quadris para acomodá-lo a mim, ouvi seu baixo gemido nos meus ouvidos, se misturando aos meus nada discretos.
E tudo começou quando ele me salvou da morte na Floresta Tortuosa. Meu espírito aventureiro e curioso prevaleceu sobre o meu bom senso e me embrenhei na imensidão densa das árvores douradas e dos seus frutos também reluzentes em busca de respostas. A lenda dizia que quem mordesse aquela fruta teria a glória e a vida eterna, teria a liberdade verdadeira, sem conspirações na Corte, sem deveres políticos a serem tratados e cumpridos. Essa pessoa poderia ter seu destino nas próprias mãos, sem ninguém para interferir, para julgar. Poderia amar quem quisesse e ser feliz com essa escolha, sem que as etiquetas sociais definissem se era certo ou não viver essa paixão.
Eu desejava avidamente esse fruto.
Ao final da fatídica tarde, com o Sol já descendo no horizonte, consegui me esgueirar pelos corredores vazios e escondidos, vestida com uma capa preta de capuz. Aquela era a hora em que eu praticava latim e romano com a Septã, mas consegui inventar que estava indisposta para estudar naquele dia e fiquei deitada na cama fingindo estar doente. Logo, a preocupação correu pelo castelo. Seria uma desgraça perder a única herdeira deixada pelo Rei precocemente morto em batalha. Embora a culpa pesasse na consciência por deixar minha querida mãe caindo de medo de me ver morta, era um mal necessário. Em breve eu estaria correndo pelo castelo provando que iria sobreviver e ela não teria mais razões para se preocupar.
Arquitetava esse plano há semanas, sempre aprimorando cada furo, cada erro que me faria ser pega no caminho, fosse pelo meu Guarda de prontidão na minha porta, fosse pelos muitos que respondiam direto à Rainha, minha querida mãe apavorada, mas muito amorosa. Fingindo um sono profundo debaixo das cobertas pesadas, esperei que as servas saíssem do meu quarto. Ao fechar a porta, pulei da cama já abrindo um baú de Carvalho branco, contendo, escondidas bem no fundo, minhas vestes de escapada noturna de sempre e um mapa que eu mesma desenhei à mão após semanas investigando cada canto, cada passagem do castelo. Meu guarda não conhecia esses corredores secretos, então jamais me encontraria, mas ele sabia que alguma coisa estava escondida nas paredes rochosas daquele lugar, pois sempre me olhava desconfiado quando eu cometia o erro de sair por uma parte do castelo e chegar por outra de repente, me desviando dos seus olhos muito atentos. Distraída demais com a investigação, de vez em quando cometia essas falhas. Notei algumas vezes ele analisando e passando as mãos sobre as paredes, numa clara desconfiança, quando pensava que eu não estava vendo. Ele me questionou várias vezes como que de repente eu escapei da sua vigília acirrada e eu sempre inventava as piores desculpas. E ele sempre respondia debochadamente dizendo que eu era uma péssima mentirosa, que ser boazinha tem seus deméritos.
Após incessantes buscas, descobri que a maioria das Câmaras possuíam paredes falsas, com passagens secretas por trás das pinturas ou da rocha escura. De acordo com os registros antigos da biblioteca, era uma estratégia de segurança para períodos de guerra, pela necessidade de evacuar o castelo com urgência. Para a minha sorte, somente algumas pessoas tinham acesso ao acervo e duvido muito que gostassem tanto quanto eu de passarem horas e mais horas mergulhados naqueles papéis amarelos e mofados, aprendendo sobre o mundo afora, sobre as conquistas de pessoas corajosas que tiveram o ímpeto de lutar pelo o que queriam enquanto eu ficava trancada nesse castelo monótono vendo a vida passar. Decidida a não aceitar uma vida comum, entediante e repressiva, me dediquei a desvendar qualquer informação que pudesse me libertar. E assim descobri muito sobre a minha Casa, sobre meus antepassados e sobre os mistérios que assombram essas terras e o castelo, como o labirinto construído bem debaixo dos meus pés. Magia não era bem vista e até mesmo desacreditada, mas muita coisa estranha acontece nessas terras para ser prontamente ignorada. Lady Zelus, curandeira oficial da nossa Corte, sempre dizia, a contragosto da Rainha, que nosso reino era definitivamente um lugar de quedas místicas*, onde o sobrenatural jazia prontamente sem que pudéssemos escapar dele. Isso só aguçou mais ainda minha curiosidade. Porém minha mãe proibiu a curandeira de falar sobre o assunto pelo castelo e ordenou que a pobre moça desmentisse qualquer boato relacionado. Desde então, Lady Zelus se desviou astutamente de todos os meus interrogatórios, mesmo quando eu tentei suborná-la para obter mais informações.
Mas eu, desesperada e feliz demais por participar de alguma aventura, por menor que fosse, me joguei eufórica e sem olhar pra traz nos mistérios encantados. Investiguei sem parar até obter um dossiê bem detalhado e surpreendente.
Fugindo do escudeiro suplente, que fazia revezamento com o meu petulante e charmoso guarda particular, consegui desviar com facilidade do homem montanha parado à minha porta pelo lado de fora. Nervosa e com medo de meu cavaleiro reaparecer e mandar alguém entrar no quarto para verificar se realmente eu estava lá — ele conhecia muito bem minhas estratagemas de fugas, de maneira que sua vigília ficava cada vez mais acirrada sobre mim. Mas, mesmo assim ele não contava com esse atalho na sua segurança implacável — corri o mais rápido que pude, com o coração saltando quase chegando na boca, o corpo tremendo inteiro.
Talvez eu estivesse sendo imprudente, até maluca, mas eu precisava saber se era verdade. Até aquele momento, tudo o que estava escondido nos manuscritos da secção reservada dos arquivos se provou verdadeiro. Então, a lenda também deveria ser. Eu precisava que fosse. Precisava daquele fruto milagroso, que faria possível até os meus desejos mais profundos.
Quando cruzei a última passagem secreta, que se abria para a parte externa, longínqua e esquecida do castelo, minha pele gelou. Eu ia ser pega. Todo esse trabalho para me dar de cara justo com ele. Me escondi por entre os arbustos e me movimentei lentamente até a encosta da floresta.
Klaus estava se banhando ao lado do poço, à vontade demais naquela terra deserta. Embora os servos tivessem seus aposentos reservados no porão do castelo, meu guarda gostava do ar livre. Exibido. Ele não se misturava muito, não tinha paciência com as pessoas. Era arrogante demais, se achava o melhor dentre todos. E na maioria das vezes, ele era mesmo. Sem me conter, dei uma breve espiada no seu corpo bem esculpido de espadachim. Só não blasfemei por ele não estar de frente pois a visão da parte de trás também era um deleite. Suspirei pesadamente, sentindo o ar a minha volta ficar quente e denso, enquanto minhas bochechas e o resto do meu corpo queimavam. Algo dentro de mim latejou, enquanto meu sangue pulsava frenético nas veias. Sempre quis ver o que tinha debaixo daquela armadura pesada de ouro, pois o dono do belo rosto, dos cabelos dourados até os ombros e dos sorrisinhos irônicos e charmosos deveria manter o mesmo padrão de perfeição até pelo resto do corpo.
Ficava cada vez mais impossível manter a formalidade com ele, especialmente quando vinha todo imponente brigar com alguém para me defender ou quando sussurrava com aquele sotaque afetado alguma besteira que ele achava que me deixaria mais alegre após alguma tensão na Corte, me fazendo rir das palhaçadas sem pudor algum. Sempre depois de algo assim, eu ficava tentada a convidá-lo para ocasiões mais íntimas, onde pudéssemos conversar sem as questões de politicagem nos atrapalhando. E, claro, muitas vezes o peguei no flagra me fitando de longe. Não apenas por se tratar do seu trabalho não tirar os olhos de mim. Eu vi malícia, olhares insinuantes que me deixaram mais ousada e na tentação de dar o primeiro passo. Quando ele se aproximava demais, sensações estranhas se apoderavam do meu corpo e só o que se passava na minha cabeça era o quanto queria sentir seu toque.
Mordendo os lábios e hesitando em deixar o local, tentei focar na missão. Se eu permanecesse mais tempo ali, ele poderia me descobrir facilmente.
Caminhei apressada, estalando algumas folhas num eco seco. Ele olhou para trás, alarmado. Me abaixei de repente, pedindo aos Sete Deuses que não me deixassem ser vista. Aparentemente ele julgou não ser nada demais, pois não veio verificar. Mas, ainda era melhor eu arredar o pé daqui o mais breve possível.
Morrendo de medo de ser pega por ele, caminhei sorrateiramente averiguando o mapa uma vez ou outra, tentando apenas pensar em achar a árvore, enquanto vagava apressadamente pulando algum tronco ou me desviando de galhos. Mas, a imagem de Klaus despido nublava meu julgamento, me fazendo lembrar daquele dia em que ele chegou no meu castelo, sem saber que ele faria tudo mudar para sempre.
— Esses são os candidatos, Minha Princesa — disse Sir Nafets, chefe da Guarda Real — Nem todos eles já estiveram em batalha. Alguns são nobres das Casas e pensaram que seria uma honra defendê-la, mas devo dizer que...
— Quem é o mais experiente? — Perguntei sem paciência alguma para o discurso de Nafets, mesmo já inclinada a um certo loiro arrogante à minha esquerda. Ele capturou a minha atenção assim que entrou no saguão. Sua postura imponente era impossível de ignorar. Sem contar com a beleza estonteante. Cabelos loiros ondulados caídos até os ombros, lábios vermelhos e carnudos...Sempre me encarando com firmeza, me desafiando com aqueles olhos verdes intensos. De esguelha notei o sorrisinho torto e convencido dele, que lhe conferia mais charme. Já adivinhando a sua resposta, Nafets confirmou. Ele acenou discretamente na direção do loiro arrogante — Acredito que devo escolher aquele que já viu a guerra de perto, não? Os outros estão apenas brincando de serem Cavaleiros — Dessa vez sussurrei para o chefe da Guarda, que apenas acenou concordando. Não poderia falar algo assim em voz alta e permitir aos Cavaleiros que me ouvissem ofendê-los dessa forma — Então, por que me trazer um bando de amadores, Sir? — Perguntei entredentes, pois só me fazia perder tempo. Mas, antes que o chefe respondesse, aparentemente o loiro arrogante estava perto o bastante para me ouvir, pois se intrometeu na conversa. Que petulante...
— Posso fazer uma lista mais detalhada das minhas batalhas e conquistas, Minha Princesa, mas acredito que o dossiê que Sir Nafets tenha montado já seja o bastante para provar-lhe que sou a melhor escolha.
— Se isso fosse verdade, eu não estaria em dúvida sobre quem escolher, Sir. Ou o senhor duvida de que a Sua Princesa saiba como avaliar a escolha justamente do seu mais novo Guarda Juramentado? — Diferente de outro idiota enexperiente, que ficaria ofendido com a alfinetada, ele não se abalou. Apenas fez uma reverência, tentando esconder o sorrisinho debochado. E isso me fez gostar mais dele. Era certo que eu o escolheria. Mas, não seria tão fácil assim, não daria a ele essa satisfação de ser tão prontamente efetivado pela princesa da Corte. Ele era arrogante demais para que eu alimentasse mais ainda seu ego. Ele precisava de uma pequena lição. Eu o faria suar um pouco, trabalhar mais. Se realmente desejava fazer parte da Guarda Real, se realmente desejava me proteger, teria que fazer por onde.
— Sir, quero que apresente uma pequena demonstração das suas declaradas habilidades, aqui e agora. Eu mesma preciso de uma prova contundente de que as alegações que o senhor fez quanto aos seus talentos sejam verdadeiras. Sir Nafets vai escolher o seu oponente — E sendo assim, me sentei na cadeira central do pátio, aguardando silenciosamente os dois adversários se posicionarem em forma de ataque, enquanto me servia de vinho e continha o sorriso debochado e satisfeito. Seria um entretenimento e tanto ver esse loiro presunçoso obedecer às minhas ordens. Certamente me provocaria a cada movimento só para ter o prazer de me ver cair em contradição e não deu outra.
Ele se mexia rápido, se esgueirando com velocidade e contra atacando antes mesmo de o adversário ter tempo de reagir. Fiquei impressionada, mas me mantive impassível. Ele só ficaria mais detestável se eu lhe desse corda.
E antes de derrubar o oponente, o loiro atrevido me deu uma piscadela, que fez meu coração acelerar surpresa e involuntariamente.
Ainda vagando no submundo das minhas ideias e da floresta, sorrindo uma hora ou outra com a lembrança desse Cavaleiro desaforado, continuei caminhando mata adentro até chegar em uma parte mais escura e sombria. Aqui, o silêncio era total. Não se ouvia nem mesmo o farfalhar das árvores ao vento. Nem pássaros, nenhum ruído vital sequer. Até a luz encontrava dificuldade para atravessar a copa densa das árvores negras, mas talvez já fosse quase noite. Só o crack dos galhos partidos pelos meus pés, produzindo um efeito arrepiante, fazendo os pelos da minha nuca se eriçarem e minha pele ficar gelada. A pouca luz provinha do meu lampião já um tanto cansado. O óleo acabaria em breve. Comecei a ficar preocupada, talvez não tenha sido uma boa ideia. Eu não sabia o que iria encontrar nesse breu bem no núcleo da floresta, mas mesmo assim fui incapaz de desviar o caminho de volta. Algo no meu interior ainda me impulsionava a continuar, como se meus instintos invisíveis tivessem assumido o controle total do meu corpo.
Então, ao abrir um espaço entre as folhas bem a minha frente, uma luz forte e dourada brilhou ofuscando a minha visão.
Tentando me proteger da luz extravagante, posicionei meu braço na frente do rosto e esperei até meus olhos se acostumarem razoavelmente. Então, bem devagar, andei até a fonte luminosa, que era uma árvore gigante de folhas douradas, repleta de um fruto redondo que se assemelhava a diamantes reluzindo mil facetas também douradas. A luz e os frutos me puxavam com uma força magnética inexplicável, me hipnotizando pelo caminho. Só no que eu penso é sentir o gosto daquela fruta linda, que parecia suculenta demais e que certamente me faria extremamente feliz. Meu destino dependia dela... Sem raciocinar muito sobre o que fazia, fui conduzida em estado catatônico até finalmente pegar uma delas. Admirei deslumbrada a sua beleza transcendental antes de levá-la até os lábios.
E o golpe veio com estrondo. Minha mente deu um forte estalo e meu corpo foi jogado no chão para longe da árvore arrastando a terra comigo. Enquanto eu tentava fragilmente me levantar, galhos espessos me prenderam na superfície musgosa e a mágica me dominou, me fazendo viajar para longe daquele cenário escurecendo a minha visão. Tentei gritar, mas meu corpo não reagiu, apenas se deixava guiar pelas ordens sobrenaturais.
Fui parar dentro do que parecia ser um Castelo desconhecido, pois não se parecia em nada com a minha casa. Meu queixo caiu quando vi minha própria figura sentada no Trono do Salão Principal, no centro de uma plataforma com escadaria de pedra, o lugar que até então deveria ser da Rainha do Reino. Só que dessa vez eu não usava vestidos românticos de Princesa. Minhas vestes eram mais sérias e mais escuras, de um vestido azul safira safisticado, modelando a minha postura ereta, enquanto meu semblante denotava uma expressão rígida. Em uma conversa espumosa com um grupo de guardas, eles acenavam prontamente em obediência de vez em quando, me despertando imensa curiosidade sobre quais eram os assuntos discutidos. Ninguém foi capaz de me ver, pois nenhum guarda reagiu à minha presença duplicada conforme fui me aproximando para ouvir melhor o que falavam.
Para o meu choque, Klaus estava entre nós, mas não no meio dos muitos Cavaleiros. Sentava-se ao "meu" lado numa cadeira tão trabalhada quanto a minha, enquanto dava ordens fervorosas aos servos no mesmo tom que o meu. Então, quando finalmente as questões pareciam decididas e os guardas foram embora fechando as portas altas e pesadas do Salão, Klaus segurou a minha mão, depositando leves beijos nela enquanto me jogava aquele seu típico olhar atrevido. Eu retribuí com um olhar igualmente safado e, me levantando, sorri e fiz sinal para que ele me acompanhasse. Após me admirar com estranheza por detectar uma rigidez atípica de mim, foi interessante notar que apenas sorri com as insinuações provocadoras de Klaus. Em contrapartida ao meu rosto sério, minha expressão se contorceu de forma maliciosa e brincalhona. Os dois estranhos correram rindo sem pudor até que sumiram por uma porta discreta ao fundo do salão.
Então, minha mente deu outro solavanco forte e dessa vez fui transportada para uma Campina grande e aberta, onde um exército gigantesco se prostrava em barracas e mais barracas escarlates, enquanto muitos guardas trepavam em seus cavalos e circulavam de espadas empunhadas, segurando escudos grandes de metal com o desenho de uma Fênix vermelha. O meu outro eu andava no meio das pessoas administrando o acampamento enquanto, pude notar, estava com as vestes tão desgrenhadas quanto os combatentes.
"Eu" usava uma pequena armadura dourada em formato de espartilho por cima do vestido vermelho escuro. Mas, o resto da roupa estava toda suja ou rasgada, com sangue seco e viscoso misturados à sujeira. Andei até essa minha figura desconhecida, na esperança de entender mais sobre o caos estranho que se passava.
— Mais esse reino é seu, Minha Rainha — Sir Nafets me entregou um jarro de barro. Acenei com a cabeça enquanto bebia o líquido direto do recipiente. Era estranho, mas eu podia sentir tudo o que a minha cópia sentia, até mesmo ouvir seus pensamentos, como se fôssemos uma pessoa só, até que...realmente passamos a ser. De repente, não era mais uma observadora ocular. Minha mente tomou posse do corpo dessa estranha, ao passo que a figura da minha duplicata sumiu. Enquanto eu encarava atônita o meu guarda, minhas ideias se misturaram às dela, me colocando à par dos eventos recentes num giro vertiginoso — Só faltava esse para o seu império. Os Lordes rebeldes já se renderam.
— E o próximo passo é a unificação — pigarreei, tentando me recompor. As palavras saíram naturalmente, enquanto essa outra Caroline me jogava para o fundo impenetrável dos seus pensamentos — Está na hora de encontrarmos a paz. Sem mais guerras entre nós. Não aguento mais ver meu povo morrendo. E quem se levantar contra a justiça outra vez, terá o que merece. A anarquia está próxima do seu fim. Finalmente esses povos aprenderão como conviver, obedecendo às regras, fator essencial para a nossa sobrevivência. A promulgação das minhas leis será para todo o império.
— Com a sua gestão eficiente, e da Vossa Majestade, será possível. O Rei já convocou os Lordes Cavaleiros dos Reinos aliados para o Conselho. Acabei de despachar as cartas oficiais que o Rei me entregou. Devemos partir para a Capital em breve para decidirmos e oficializarmos as novas leis. Aqui estão as diretrizes que me pediu para escrever — Ele ergueu o pergaminho.
— Você fica aqui, para assegurar a lealdade e a ordem. Mande Klaus me encontrar na tenda em uma hora. Ainda não acabei por essas terras e preciso ajustar os detalhes. Ele deve ir para a Capital sem mim.
— Como queira, Minha Rainha. Mas, o Rei não vai gostar disso. E devo concordar com ele, não é seguro se separarem em tempos tão nebulosos. A união mostra força.
— Ele, assim como você, sabe muito bem que não terei paz de espírito enquanto não resolver todas as questões em aberto.
— Sim, mas não precisa ser você a ir de Reino em Reino até pegar o culpado. Pode mandar quantos soldados quiser.
— Deve ser eu, Sir Nafets, já disse mil vezes. Não insista. Nem Klaus conseguiu me convencer do contrário.
— Está bem, está bem — Ele esfregou a testa com um pano sujo e continuou — Sua mãe ficaria orgulhosa de você. Está se saindo como a melhor Rainha de todos os Reinos. Não deve perder isso por sede de vingança. O bem maior deve prevalecer. Pode pôr a paz em risco se ameaçar potenciais aliados apenas por vingança.
— Ela morreu no meio da politicagem entre esses Reinos — Ignorei a última parte — Não sei se orgulho seria o sentimento certo vindo dela. Talvez quisesse uma vida diferente pra mim. Uma em que eu não estou numa guerra diferente a cada semana, presenciando um banho de sangue. Mas, o que ela começou, eu vou terminar.
— Mas, já acabou, Caroline — Senti seu tom endurecer, me repreendendo — Seja como for — Sir Nafets pigarrou desconcertado. Ele quase nunca me chamava pelo nome — ainda é uma dádiva você conseguir a paz que ela tanto almejou, mas que nunca veio.
— Só terei a paz completa quando vingar a sua morte. Você verá. Terei a cabeça do assassino numa estaca para todos vislumbrarem o que acontece com quem nos trai.
E sendo assim, dei às costas ao meu Lorde Comandante, que ficou parado atônito olhando me afastar. Ele não concorda com essa minha sede de pegar o culpado. Acredita que posso sucumbir no processo, como se eu fosse essa fraca. Até agora, já provei para todos o quão capaz sou não só de governar um império, mas de resistir a qualquer ameaça. Posso até navegar por águas tempestuosas, até mesmo mergulhar e me afogar nelas, mas sempre retorno à superfície.
Após algum tempo acertando alguns detalhes da minha viagem, fui em direção à tenda Real, onde Klaus provavelmente estaria traçando algum esquema de guerra para finalizarmos de vez os trâmites oficiais de posse do território. Inspirei fundo. Iríamos discutir quando eu contasse o meu plano. E a última coisa que eu queria era partir com ele irritado comigo. Mas, ele gostando ou não, já estava decidido. Klaus geralmente me entendia, ouvia com atenção a minha linha de raciocínio, buscando nela algo que fizesse sentido, obedecendo aos meus comandos com inteira convicção. Mas, às vezes, tenho que admitir, eu passava dos limites nas trambicagens e ele se revoltava comigo. Mas, no final, eu vencia, porque raramente meus instintos me enganavam. E Klaus, depois de passado o choque, ele ia comigo até o fim.
Entrei quieta na tenda, não pretendia interromper o trabalho de Klaus, mas a urgência era maior. Ao me verem, os Lordes fizeram reverência e se entreolharam, com dúvida sobre se deveriam continuar ou não. Eu só queria ver aquele belo par de olhos verdes e aquele sorriso charmoso e arrogante antes de lidar com a politicagem. A tranquilidade e a segurança que ele me passava fizeram parte do meu pilar nessa trajetória turbulenta.
E lá estava ele. Tão desgrenhado quanto eu, imundo da cabeça aos pés, mas ainda assim tão lindo quanto poderia ser. Sua armadura dourada, apesar de toda manchada de sangue, ainda reluzia a sua imponência, não ocultando, de forma alguma, a beleza estonteante de quem a vestia. O seu olhar sério, destinado aos Lordes, deu lugar a minha visão favorita nesse mundo, seu rosto se contorcendo num sorriso torto. Me aproximei e segurei sua mão discretamente, enquanto me dirigia aos Lordes.
— Seu Rei e sua Rainha pedimos licença por alguns minutos. Em breve poderão voltar às suas atividades — Eles acenaram e saíram rapidamente do recinto.
— Quem te ouve assim tão séria, não sabe das suas segundas intenções debaixo de tantas camadas de formalidade. Sei muito bem para que veio atrás de mim — Ele me puxou, apertando a minha cintura.
— Como é? — Me virei rindo pra ele, sentindo minhas esperanças inexplicavelmente aumentarem. Tudo ficaria bem, no fim das contas — Você tem a mente muito suja. Só quero conversar. Nem sempre vou atrás de você apenas para rasgar as minhas roupas, meu Rei — Respondi com ironia — Às vezes, só preciso das suas sábias e perspicazes palavras.
— Que pena, pois foi exatamente nisso que pensei quando te vi passando toda rasgada pela entrada. Está tão sedutora...- Ele cheirou e mordeu meu pescoço e imediatamente meu corpo respondeu. Eu poderia adiar a nossa conversa espumosa para daqui a pouco em nome de um tempo de qualidade com meu recente marido. Sem pensar duas vezes, me grudei nele como se fosse a última vez.
Ele sempre conseguia me desviar dos meus propósitos absurdos apenas com um olhar. Quando eu inventava algum plano mirabolante, ele estava lá para equilibrar o jogo e colocar meus pés no chão. Bastava um olhar dele para eu entender muito bem o que se passava em sua mente, se estava me repreendendo ou me dando corda.
Enquanto ele passeava as mãos pelo meu corpo já bem sensível com a proximidade, me apertando e me enlouquecendo, resolvi entrar no jogo. Mesmo com dezenas de guardas a nossa volta, com os Lordes lá fora esperando terminar nossa breve reunião para que pudessem finalizar seus trâmites, me deixei levar pelas suas carícias sem pudor algum. Era impossível resistir quando Klaus me tocava desse jeito. Desesperada para sentir meu marido, sentindo minha pele em brasa como só ele deixava, me apressei em desamarrar cada uma das muitas cintas que prendiam sua vestimenta pesada, mas só a parte de baixo já me bastava por enquanto. Embora eu quisesse vê-lo completamente despido, não tínhamos esse tempo. Klaus estava tão ganancioso quanto eu, pois a gentileza deu lugar a toques vorazes, enquanto ele levantava o meu vestido e me tocava deliciosamente onde eu mais gostava. Arrancando meu corpete de metal e abrindo todos os botões do meu vestido, Klaus atacou meus seios endurecidos com a boca, mordendo e sugando, enquanto enterrava os dedos dentro de mim e massageava meu ponto sensível. Puxava sua cabeça para o mais perto possível, enquanto agarrava com força os seus cabelos ondulados e loiros, na ânsia de senti-lo mais. Então, ele me olhou nos olhos, como sempre fazia antes de continuar, pois precisava ver na minha expressão meu pedido silencioso para continuar e fazer aquilo que eu gostava demais. Ele se abaixou, beijando e mordiscando meu corpo quente, até sua língua tocar na minha região sensível, quente e molhada. Eu gemi baixinho, me contendo ao máximo para não ser ouvida lá fora. Meu corpo tremeu e foi impossível me manter de pé, de forma que me segurei na mesa redonda de madeira logo atrás de mim. Joguei a cabeça para trás, apenas apreciando suas carícias com a boca, enquanto seus dedos ainda me atacavam profundamente. Ele me sugava e me mordiscava, me enlouquecendo. Eu estava perto de explodir. Aquela explosão incomparavelmente deliciosa que só Klaus conseguia me proporcionar e que tinha virado meu vício mais recente. Às vezes, simplesmente não saíamos da nossa Câmara, largando o mundo lá fora para vivermos no nosso mundinho de luxúria. Quando eu já estava perto do limite, ele parou, já conhecendo bem as minhas reações. Me jogando olhar de provocação, tentei puxar sua cabeça para continuar o trabalho, mas ele se recusou. No lugar disso, se levantou e me girou de repente para ficar de frente para a mesa. Me equilibrei nela quando entendi sua má intenção. Estava sedenta por isso. Mesmo de costas, virei meu rosto pra ele, buscando espaço por baixo da sua calça, que já estava aberta. Gostava de ver seus olhos famintos de prazer, me sentia nas alturas ao ser tão desejada por ele assim. Apertando seu volume enrijecido, ele grunhiu baixinho e me empurrou de volta contra a madeira de carvalho branco.
Me debrucei na mesa, enquanto ele segurava com força meus cabelos e meu quadril. Ele se deitou sobre mim, respirando pesadamente no meu ouvido. Largou meu corpo e abriu um caminho com a mão por baixo de mim até me acariciar no meu ponto favorito. Era demais, eu já estava no limite. Klaus me levava até ele muito rápido. O cheiro de vinho que emanava do seu hálito me inebriava tanto quanto o efeito da bebida, me deixando em estado de torpor enquanto minha mente era quebrada. Não pensava mais, apenas era guiada pelo desespero de ter aquele alívio delicioso. Não aguentava mais, precisava senti-lo. E sabendo disso, conhecendo bem minhas reações, ele se enterrou em mim devagar. Gemi baixinho, com a cara imprensada contra a mesa. Ele me torturava com seus movimentos lentos. Apenas quero que me sinta primeiro, ele repetia sempre que me dominava nas nossas muitas noites de paixão, mas dessa vez não disse nada. Apertei seu corpo contra o meu, na esperança de fazê-lo entender que eu precisava de mais.
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— Apenas fico pensando... — Eu disse, um pouco ofegante, enquanto ele arrumava meu vestido. Nos apressamos para que não suspeitassem do que acabamos de fazer, embora Klaus, e acredito que eu também, esboçasse um rosto corado demais para uma breve e simples conversa. Sem contar com as roupas bagunçadas e os cabelos que mais pareciam ter recebido um vendaval — será que poderíamos ter uma vida melhor, mais tranquila, sem guerras, se tivéssemos nascido em outras circunstâncias? — Ele me encarou confuso — Como num universo paralelo em que não seríamos governantes responsáveis por uma população inteira, onde apenas a nossa felicidade estaria em pauta.
— Talvez só no começo. Pois, será que você realmente seria feliz com uma vida pacata de vilarejos pequenos? Não consigo te ver se conformando com isso. Eu te enxergo, Caroline Forbes, e você nasceu para coisas grandiosas. Você gosta de ter essa vida, mesmo que o caminho seja tempestuoso, o resultado é o que te mantém na briga. Sua alma morreria se não fosse alimentada por grandes propósitos de vida.
— Bem, eu digo o mesmo sobre você. Está destinado a ser o melhor e o maior dentre todos. Eu vejo como te seguem, te respeitam. E talvez esse seja um dos principais motivos que me atraiu tão magneticamente até você. A minha única ressalva quanto a viver em outro mundo diferente desse seria...Será que nos encontraríamos? Se pudéssemos apertar um botão para resetar nossas vidas e fôssemos jogados em outro universo, será que ainda assim seríamos capazes de encontrar um caminho de volta até o outro? Porque, honestamente, não consigo mais ver minha vida sem você. Se me dessem a chance de viver num mundo mais pacífico, mas sem você, eu recusaria sem olhar para trás — Seus olhos verdes brilharam com a intensidade genuína que eu tanto adorava. Ele alisou meus cabelos carinhosamente, enquanto me puxava pela cintura.
— Estou muito seguro de que eu te amaria em todo e em qualquer universo. E partindo do princípio de que é nosso destino nos encontrarmos, tenho certeza de que nossos instintos nos levariam pelo caminho certo — Ele alisou minha bochecha, me fazendo fechar os olhos para apreciar o toque que me queimava e me deixava calma em iguais proporções — Então, eu não me preocuparia com isso. Seria impossível não te notar, Caroline. Sua essência pairaria ao meu redor, me arengaria até que eu te notasse. Sua essência me chamaria até você como uma força oculta, como uma voz interior. Te encontrar seria uma constante nesse vasto universo.
E suas palavras tornavam mais difícil ainda a decisão que eu tinha tomado. Me separar dele agora seria uma tortura. Mas, era o mal necessário para a cura da minha alma. Se de fato é nosso destino ficarmos juntos, encontraremos o nosso caminho de volta, tal como ele afirmou com veemência.
Então, abri os olhos de supetão e o brilho ofuscante da árvore não estava mais lá. Pelo contrário, voltei ao breu da imensidão da floresta.
Me levantei devagar, pois minhas energias estavam esgotadas. Ainda zonza, tentava recobrar a consciência e pensar com clareza. Enquanto o mundo ainda parecia girar, caminhei errante pela escuridão.
Sem saber para onde ir, comecei a vagar em círculos, ao que parecia. Nunca achava uma trilha viável ou que reconhecesse. Começando a me preocupar, tentei inútilmente enxergar alguma coisa no mapa com meu lampião que já se apagava, mas o pouco do caminho que conseguia ver no desenho não se parecia em nada com a mata à minha frente. Eu não esperava demorar tanto assim nas minhas buscas exploratórias. Após horas andando, estava exausta e com medo. Não sabia se existiam mais partes mágicas naquelas terras estranhas ou mesmo se eram seguras. Bruxaria nunca foi flor que se cheirasse, assim afirmava minha mãe. Pensando nela, se a essa altura já tinha notado a minha ausência, se meus guardas procuravam por mim. Se meu guarda tentava me rastrear. O castelo deve estar em polvorosa pelo meu sumiço. Eu receberia uma represália enorme e não estava nem falando só da minha mãe. Klaus certamente ficaria furioso e eu iria penar até o inferno pra conseguir que me perdoasse pela imprudência. Ele era assim, às vezes, um babaca vingativo. Me castigava lentamente quando eu era rebelde. Uma vez o infeliz fez greve de silêncio por dias após me pegar bêbada dançando na taverna com outros jovens da Corte. Eu fugi do Castelo de Guinevere, Princesa Du Lac, junto dela e de sua irmã quando me hospedei por lá para a semana dos torneios. Nos disfarçamos na baixada plebeia e entramos na taberna para beber a tão famosa cevada que virou febre em vários condados. Quando meu guarda, finalmente, me encontrou, estava uma fera, soltando raios pelos olhos. Não pude me conter ao vê-lo espumando daquele jeito. Gargalhei bem na sua cara enquanto me jogava nos seus braços revoltos de metal. Eu queria mesmo era sentir sua pele, sentir seu cheiro se misturar ao meu, mas em troca ganhei seu desprezo. Pensando nisso, sorri involuntariamente, pois até que foi gostoso vê-lo claramente sofrer por fingir desprezo por mim. No fim, ele não aguentou e veio correndo me consolar quando fiquei doente. Fazia questão de me levar comida por mais vezes que o necessário e me enchia de perguntas sobre meu estado. Ele nega até hoje, mas, quando eu estava delirando de febre, tenho uma vaga lembrança de tê-lo visto discutindo com o guarda suplente sobre seu trabalho mediano, reclamando da qualidade da comida com os servos e até mesmo exigindo melhores cuidados necessários. Ele jura que foi meu delírio me pregando uma peça, mas nem a maior cólera me faria imaginar todo o inferno que ele fez os servos passarem. E nem mesmo meus melhores sonhos seriam tão criativos ao ponto de vê-lo tão desesperado ajoelhado ao leito da minha cama, segurando minha mão na calada da noite enquanto rezava por algum milagre. Uma vez ele disse não acredito em deuses, mas se eles existem, não penso que estejam preocupados conosco, então nem me dou ao trabalho de me humilhar ao implorar por ajuda. E mesmo assim lá estava ele se contradizendo por seu medo de ver morrer.
Andei por mais algum tempo até que não aguentei mais e me deitei encostada numa árvore escura larga e tão alta que não se via até onde seu tronco chegava. Seria melhor esperar amanhecer, pensei, pois certamente já era de madrugada. Talvez eu conseguisse ver melhor quando o Sol nascesse. O cansaço me dominou quase que automaticamente, pois assim que me larguei na terra úmida com uma grossa camada de folhas, meu subconsciente foi tragado para o abismo do sono, como se a mágica do local surtisse efeito sonífero.
Até que ouvi vozes sombrias sussurrando meu nome. Abri os olhos de supetão em busca da origem arrepiante. O som vinha bem de perto, fazendo minha pele congelar. Me levantei de repente e fiquei horrorizada com a figura disforme que se aproximava de mim. Um gigante de fumaça preta, mas com olhos vermelhos demoníacos brilhando em brasa, me encarava de forma assassina. Hollow, lembrei dos escritos proibidos na biblioteca, um que ignorei completamente por estar tão obcecada em encontrar a minha fonte da glória eterna. Um que não acreditei ser verdade por tão absurdo que parecia.
— Caroline, hora de matar...— O sussurro ficava cada vez mais agourento, o ar e o chão congelaram — é a sua hora de matar...— Até que seu rosto macabro estava tão próximo do meu que senti sua força puxando a minha alma para o abismo.
De repente, se apoderou de mim uma forte vontade de acabar com todos aqueles que tornavam a minha vida miserável. Inimigos que ameaçavam a minha família tinham que ser aniquilados. Imaginei mil formas de torturar e de matar qualquer um que entrasse no meu caminho...Um vazio na alma oprimia todos meus bons sentimentos, deixando espaço apenas para o ódio e para a vingança. Eu exterminaria todos eles até o pó, um por um...
— Caroline! — Fui arrancada do transe, olhando para o lado. Klaus corria desesperado na minha direção. Sua expressão de puro terror me despertou para a realidade. Corri para ele, numa esperança quase visceral de estar sob a sua proteção, de sentir seu calor vivo perto de mim, pois com ele nada seria capaz de me atingir. Ele levantou a espada no ar e uma luz intensa e prateada saiu das letras cravejadas no metal, ofuscando o monstro esvoaçante. O grito forte de agonia da besta fez a floresta responder se chacoalhando ruidosamente. Klaus pulou sobre mim me jogando no chão, cobrindo meu corpo com o seu, enquanto a mata furiosa dispersava destroços para todos os lados. Ouvi Klaus gritar quando foi atingido por alguma coisa, me aterrorizando por expô-lo a tamanho perigo graças a minha ambição e imprudência. Se ele morresse por minha causa, jamais me perdoaria.
Então, de repente, o barulho e o estrondo cessaram. E a criatura demoníaca desapareceu enquanto a floresta voltava à calmaria como se nada tivesse acontecido.
Continuamos deitados no chão, ofegantes, enquanto meu corpo tremia sob o seu. A respiração forte e quente de Klaus estava próxima ao meu rosto, me deixando inebriada. Eu queria me virar para ele, para confirmar que estava bem. Mas, seu peso me pressionava contra o solo úmido, me imobilizando por completo.
Ele alisou meus cabelos carinhosamente e sussurrou no meu ouvido com aquele sotaque afetado:
— Você está bem? Não se feriu? — Balancei a cabeça, tentando olhar para ele.
— Eu que deveria fazer essa pergunta. Você quem está exposto.
— Estou de armadura — Se levantou devagar, me dando a mão para que eu fizesse o mesmo. Imediatamente senti falta do seu corpo quente e pesado. Cambaleei um pouco, mas ele me segurou firmemente pelos braços, me dando mais calafrio que o capeta mágico que surgiu uns minutos atrás.
— Mas, e seu rosto? — Me aproximei, tocando suavemente sua pele que estava gelada, em contraste a todo o calor que emanava sobre mim.
— Só uns cortes insignificantes. Vou sobreviver — Com descaso, ele limpou um pouco do sangue que escorria.
— Pessoas morrem por cortes menores que esse. A febre os leva embora — Sem me conter, passei os dedos por seus lábios cortados e inchados, enquanto ficava temerosa pelas feridas abertas. Mesmo sob pouquíssima luz, eu podia notar seu rosto se contorcer de dor, mas seus olhos, agora com um brilho diferente e intenso, não desgrudaram dos meus. Klaus me observava atentamente, medindo bem de perto cada detalhe do meu rosto, até que seu olhar pousou sobre a minha boca — Quando chegarmos no castelo, devemos cuidar disso — Ele piscou em transe — Não é hora de bancar o invencível. Eu mesma irei averiguar se cumpriu minhas ordens. Não deve desobedecer ordens diretas da Sua Alteza. Eu ainda mando em você.
— Falando nisso, Princesa — Ele se desviou de mim. Seu tom de voz ficou carrancudo — Metade daquele castelo está se arriscando nesse momento para te encontrar. Se não tem prudência, ao menos tenha empatia pelos seus servos. Eles podem ser mortos pelas criaturas sombrias que vagam nessas terras inóspitas — Fiquei atônita com a enxurrada de acusações — Não te passou pela cabeça que o que está escondido no coração dessa floresta é assim por um motivo propício? Não se deve mexer com a magia — Finalizou com a voz, dizendo mais para si mesmo do que para mim. Sendo assim, olhando em volta, ele estendeu sua mão pra mim — Vamos sair daqui. Não é nada sensato ficarmos discutindo bem no centro da magia oculta.
Ele me puxou pela mão um tanto bruto. Estava enraivecido demais, podia sentir na sua voz e no jeito como me arrastava sem um pingo de delicadeza pela floresta enegrecida. Eu ia protestar e puxar meu braço quando ele continuou:
— Meu cavalo está a alguns metros daqui. Tive que deixá-lo para trás quando ouvi a Besta proferir seu nome — Seu tom era puro sarcasmo — Mas, não conseguia atravessar as árvores montado. Quer se apressar? Temos que sair o mais rápido possível desse lugar amaldiçoado.
— Estou fazendo o melhor que eu posso. Nem todos são espadachins fortes e ligeiros — Resmunguei entre dentes. Ele bufou sem paciência e só senti meu corpo ser levantado do chão com agilidade — O que está fazendo? Eu posso andar! — Ele me carregava sobre os ombros como se eu fosse um saco de trigo.
— Pode. Mas, é lerda. Um dia será capaz de me acompanhar. Mas, não hoje.
— Você é tão sem escrúpulos! Tudo tem que ser do seu jeito.
— Do meu jeito? — Ele elevou a voz — Até onde me consta, eu que frito uns miolos tentando acompanhar as suas travessuras e essa foi a pior delas! Tem sorte de eu ter te achado bem na hora, Princesa. Uns segundos depois e você poderia estar morta. Espero que os outros consigam ser avisados de que já está em segurança o mais rápido possível. Quanto antes saírem daqui, melhor.
— Você parece saber demais sobre esse lugar. Sobre magia. Manteve isso em segredo esse tempo todo — cuspi enraivecida — Ou pensa que não vi os efeitos dessa espada mágica? Como conseguiu ela? E por que você é capaz de conjurar magia? — Ele não respondeu, apenas caminhava ofegante enquanto tentava se desviar dos troncos carregando meu peso — Seja o que for, eu vou descobrir.
— Caroline, não se atreva...- rosnou baixo.
— Se não desembuchar, eu vou atrás. Quer mesmo que eu me arrisque com isso, Sir? Será sua culpa.
— Eu vou vigiar cada passo seu agora. Duvido que consiga escapar de novo — sua voz soou tremida, vacilante, mas ele não me deu nenhuma dica sobre o que se passa nesse lugar.
— Veremos — quando ele menos esperasse, eu daria o golpe — E por acaso, mesmo com tanta gente, só você me encontrou. Como sabia exatamente onde eu estaria? — Perguntei emburrada enquanto ele me colocava com facilidade sobre o cavalo e me prendia na sela. O dia raiava e já era possível visualizar com certa clareza a mata bem densa.
— Acha mesmo que sou tão estúpido assim? Que não notaria as suas várias e intermináveis idas à Cidadela para colher informações ou mesmo não teria checado esse mapa mal feito que você criou que, a propósito, fez você se perder de qualquer jeito. Eu já disse, Princesa, de tantas coisas em que você é boa, fazer mapas não é uma delas. Eu acompanhei o seu planinho bem de perto, me deleitando com tamanha ingenuidade por achar que poderia se esquivar de mim para sempre...Eu que cometi o grave erro de te deixar sozinha com aquele guarda incompetente por algumas horas. Já deveria saber que só estava esperando a minha ausência para dar esse golpe. Se estivesse sob minha vigia, jamais sequer teria deixado o castelo — Ele subiu no cavalo bem atrás de mim, deixando minhas costas espremidas contra a sua armadura gelada, mas que me esquentava mesmo assim. Sem mesmo pensar no que fazia, me encostei mais nele, me aconchegando nas suas poucas dobras — Eu te segui depois de dar aquela enorme bandeira horas atrás. Num primeiro momento, deixei passar, pensei que fosse algum animal. Mas, depois me liguei que era você, pois ninguém mais sabia aquele caminho atrás do Castelo.
— Por que não me dedurou para a minha mãe, então, já que a minha segurança vem acima de qualquer coisa, até mesmo da minha felicidade? — Indaguei já com enraivecida. Então, ele invadiu minha privacidade para me investigar.
— Eu ainda tinha esperanças de te pegar no flagra sem precisar apelar para a intervenção da Rainha. Não quero que se meta em problemas com ela. E certamente eu serei punido por deixar você escapar. Se ela souber que falhei na minha única função hoje, mais uma vez, serei expulso da sua Corte e já sabemos que sem mim você está condenada.
— Arrogante! Bem, não era o seu turno. E você estava numa situação nada apropriada para uma busca quando deixei o castelo — Abafei uma risadinha. Aparentemente, ele entendeu muito bem, pois ficou quieto — E você tem medo da minha mãe, isso sim. Eu vejo como ela te olha, desconfia da sua honra.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Se fosse verdade, ela já teria me jogado pra fora da Fortaleza. Me exilado de qualquer trabalho nos outros condados do Reino dela. E não é medo. Ela é a Rainha. Devo respeitá-la se eu não quiser perder a cabeça. Além de ser a sua mãe; Ela manda em você. Não posso fazer nada sem a aprovação dela — Torci a cara desgostosa. Odiava que mandassem em mim, mesmo minha mãe. Um dia eu seria a Rainha e o tempo de ser a donzela obediente estaria acabado.
— Talvez eu tenha implorado a ela para deixar você ficar e assim ela fez concessões. Talvez ela só te aceite porque eu fiz um escândalo para consegui-lo na minha Guarda — Ele ficou em silêncio de novo. Era sempre assim quando ele ficava confuso — Ou talvez Sir Nafets tenha agido ao seu favor. Soube que ele conheceu a sua família antes de você largar todos no seu Reino e se aventurar por aí. Vai saber qual é a verdade — Soltei uma risada debochada — Ou você acha mesmo que somente as suas credenciais foram o bastante para te manter por aqui, para te permitir ficar tão perto da herdeira do Trono? Ninguém entra para essa Corte sem no mínimo ser investigado — Falei maldosa, querendo dar o troco pelas grosserias. Ele nada respondeu, mas incitou o cavalo a ir mais rápido.
Era demais pra mim esse silêncio todo. Eu queria que ele conversasse comigo, que mais uma vez viesse com seus comentários atrevidos só para desviar minha mente de preocupações. Ou que pelo menos brigasse comigo mais um pouco. Era até divertido vê-lo espumando de raiva só porque não conseguia me controlar tal como fazia com os guardas. Quando Klaus ficava quieto, era mau sinal. Significava que ele estava puto além da conta. Que nem mesmo eu era capaz de trazer seu bom humor de volta. Quando ele estava gritando comigo, nunca durava muito tempo. Era só eu fazer um comentário sarcástico ou mesmo flertar com ele que já era o bastante para me entregar seu sorrisinho charmoso e esquecer tudo. E eu adorava quando ele o fazia, pois me perdia completamente no seu charme. Era viciante. Às vezes eu falava alguma besteira apenas para vê-lo torcer seus lábios vermelhos por mim.
— Olha só meu salvador que me resgatou das trevas. Foi corajosamente até os confins do inferno da Floresta Tortuosa só para me livrar dos demônios. A Rainha deve fazer um evento em seu nome.
— Nunca mencione isso a ela. Ela jamais me deixaria chegar perto de você de novo — Isso era um fato. Mas, para o meu alívio, dessa vez ele também falava em tom zombeteiro, deixando de lado o raivoso e sério — Apenas diga que saiu para treinar com arco e flecha e se perdeu — Revirei os olhos.
— Que desculpa besta. Você consegue pensar em algo melhor que isso.
— O que mais justificaria você perdida no meio do mato? Ao menos é a resposta mais honrada que pode dar. Mas, espero que não se repita, não vai encontrar nada de bom por aqui.
— Está enganado — Ele ficou em silêncio — Pelo menos encontrei a árvore e te digo, a lenda é real. Levando em consideração o que aconteceu hoje, você já deve conhecê-la. Mas, foi necessário esse risco para eu evoluir — Não contaria a ele sobre o que eu vi, para não influenciá-lo de alguma forma. Se fosse verdade toda a profecia, eu seria dele eternamente, independente de qualquer atribulação que enfrentaremos naquele reino ou no outro.
— Não se deve brincar com a magia. Eu te garanto.
— Como pode afirmar isso tão assiduamente? Não vai mesmo compartilhar nada comigo? — Ele não respondeu — Tá bem, não me diga. Mas, não reclame se eu for atrás das respostas. Era o que estava fazendo hoje.
— Mas, é perigoso. Me prometa que será mais prudente no futuro. Eu te contarei tudo o que sei se isso te mantiver quieta no seu canto — Finalmente.
— Farei o meu melhor — Revirei os olhos, sabendo que descumpriria a promessa muito em breve.
— Devo perguntar; valeu mesmo à pena? Foi do jeito que imaginava? — Ele estava realmente curioso.
— Foi muito melhor.
E depois disso, nos tornamos inseparáveis. Primeiro pelo dever, depois pela amizade. Não era apenas meu protetor em tempo quase integral, era um bom ouvinte, entendia meus anseios e medos, não menosprezava meus desejos que muitas vezes iam contra às tradições. Enquanto a maioria ainda me enxergava como a princesa indefesa, delicada e dócil demais para ser levada a sério, meu guarda sabia muito bem quem eu era, me tratava como alguém a sua altura de pessoa destemida. Ele mesmo já tinha jogado umas piadinhas insolentes na minha direção, sabendo que receberia uma cara feia e um gesto obsceno como resposta, mesmo que eu estivesse rindo ao fazê-lo. Ele enxergava através de mim, seja por me observar demais ou por passar muito tempo me seguindo pelo castelo. Era notável a cara de deboche que ele fazia quando eu tinha que aguentar elogios falsos ou até mesmo ter que aturar o cortejo de gente só interessada no meu título. Ele sabia o quanto eu detestava isso e às vezes até arrumava um jeito de evitar que eu fosse obrigada a situações constrangedoras desse tipo, inventando uma desculpa ou outra para a minha mãe ou para as Septãs, que não largavam do meu pé, quando eu apenas queria me esconder com ele pelos cômodos do castelo. E sempre ao final de cada conversa entediante e falsa na Corte, ele estava lá para me dizer a verdade e me trazer alguma paz e felicidade. E quando aturar os deveres de princesa era demais para mim, eu e ele contávamos alguma mentira cabulosa apenas para nos afastarmos da Fortaleza Negra sem levantarmos suspeita, como o dia em que ele disse que me ensinaria caçar cervos. Saímos de lá rindo da cara das Septãs e das outras Damas da corte, que achavam um absurdo uma princesa delicada se envolver em tão vil e asqueroso esporte, reservado apenas para os homens. Mas, confesso, adorava o poder que sentia nas veias quando empunhava o arco e flecha. Era como se ninguém pudesse mexer comigo. Embora não gostasse de matar animais inocentes e evitasse isso sempre, adorava praticar com alvos nas árvores ou projetados pelo meu competente professor. E ele adorava ser o meu mentor, tinha até muita paciência, levando em consideração os ataques raivosos que eu dava quando cometia erros banais.
Até que um dia estávamos tão próximos que sumir com ele para longe do castelo era rotineiro. Não precisava de uma procissão de guardas para me proteger, pois a força e experiência de Klaus era mais que o suficiente, além do respeito que ele empunhava. E mais importante, eu queria ficar sozinha com ele. Buscava avidamente qualquer ocasião para estarmos na companhia um só do outro. Fazia de tudo para afastar os intrusos, especialmente os puxa-saco de plantão.
Tinha notado, já estava claramente muito atraída por ele e não me esforçava nem um pouco para disfarçar, nem mesmo me importava mais com os códigos de conduta hipócritas do meu Reino. Diversos relacionamentos nada convencionais espreitavam a minha Corte, especialmente dentro da nobreza. Lordes circulavam com as suas concubinas para todo mundo ver e não sofriam represália por isso. Por que eu deveria me conter? Sendo a futura Rainha, eu tinha total direito de ficar com quem eu quisesse. Mas, a verdade é que quanto mais alto é o título, maior é a cobrança. E ser uma mulher na liderança de um reino inteiro sem um marido igualmente nobre não era aceito. Eu ainda teria que driblar muitas pessoas nessa sociedade se quisesse Klaus na minha vida. Ainda teria que enfrentar muitas tradições se quisesse ser uma rainha independente.
Depois de horas cavalgando, apenas jogando conversa fora e dando voltas no perímetro, já estava cansada e suada, minhas roupas me incomodavam ao extremo, pesando meu corpo, grudadas desconfortavelmente. Decidindo que dessa vez ele não escaparia das minhas tentativas miseráveis de seduzi-lo, desci do cavalo e fui até a beirada do rio, de águas cristalinas e rasas. Lavei as mãos na água, que estava fresca e convidativa.
— Não sei como aguenta tanto metal rígido pendurado em você. Me admira que consiga ao menos se movimentar.
— Assim como não sei como aguenta tantas camadas de pano. Realmente não compreendo por quê devem andar assim até mesmo dentro do Castelo. E sabe, Princesa, você já viu a minha destreza com a espada para achar que realmente o peso da vestimenta iria me atrapalhar — Mordi os lábios. E como você se movimenta sem isso? Pensei tentando esconder minhas intenções nada ortodoxas.
— Aqui não tem regras. Eu não preciso de um baú de roupas e nem você de tanto aço Vitigi cobrindo até a sua cara. Podemos ser nós mesmos sem medo.
— Muito engraçado, Princesa. E se de repente um inimigo nos encontrar aqui? Vou te defender como?
— Com a sua destreza magnífica com espadas, já que a vestimenta é só um detalhe que não te incomoda e nem te atrapalha — E assim, ele calou a boca, apenas me olhando intensamente nos olhos. Como eu adorava essa cara que ele fazia, uma de quem estava prestes a me devorar.
Me esforçando para não ser levada pela visão daqueles lábios vermelhos e carnudos, aproveitei a deixa e comecei a desabotoar a parte da frente do meu vestido. Eu saí do castelo já com essa intenção em mente, portanto escolhi uma roupa mais fácil de tirar, sem precisar de criadas para me ajudar. Ele engoliu em seco e desviou o olhar, mesmo hesitante, percebi. Não era hora de o honrado cavaleiro se fazer de rogado. Ele estava sempre com a língua e as atitudes bem afiadas e ficava sem reação justamente quando eu mais queria e precisava? E eu não era burra nem cega, notava os olhares nada inocentes que ele jogava pra mim quando pensava que eu não estava vendo. Ele me queria na mesma medida que eu o desejava, mas a honra falava mais alto na cabeça desse atrevido.
— Eu vou nadar um pouco. Não me espere de pé, senão vai derreter dentro de tanto ouro. Ou melhor, junte-se a mim. Ouviremos ou viremos se alguém chegar, é um campo aberto — Olhei em volta, fazendo cara de desdém.
— Não vou abandonar meu posto e te deixar vulnerável.
— É só isso que te impede de vir? — Ele não respondeu, mas não conseguiu mais se conter e passou os olhos no meu corpo, enquanto eu me despia. Pude ver uma sombra escura passar pelo seu semblante, pelos seus olhos verdes. Ele não era tão intocável assim. Sua expressão faminta apenas me atiçava mais.
— Você está de brincadeira comigo, Caroline? — Ele raramente me chamava pelo nome. Geralmente se dirigia à mim formalmente. Princesa isso, Minha Princesa aquilo. Mas, quando estávamos brincando um com o outro, conversando alegremente ou mesmo quando ele se irritava com as minhas travessuras ao escapar dele, era quando ele esquecia o lance de "Princesa" e só focava em mim.
— Eu estou rindo por acaso? — Ele balançou a cabeça, me repreendendo — Não vai me dizer que nunca passou pela sua cabeça o que eu escondo debaixo de "tantas camadas de pano"? A Princesa Deleite do Povo, cortejada tantas vezes. Nenhum Juramentado é tão santo ao ponto de não desejá-la. Diga-me, Sir, eu não te agrado? — Terminei de tirar todas as roupas, ficando só com as joias. Sem dar tempo para ele responder, entrei na água lentamente, para me acostumar com a baixa temperatura, apesar de ser um dia quente.
Não olhei para trás, não queria sentir decepção ao vê-lo se afastar, ao assisti-lo me renegar. Mas, então, ouvi barulhos de metal e espiei um pouco. Ele estava retirando as pesadas ombreiras douradas, enquanto descalçava as botas. Aos poucos e fificultosamente, foi deixando o Guarda rígido e sério para trás dando lugar a alguém mais normal, mais humano. Mas, a cada peça tirada se levava uma eternidade, pois eram muitas. Não me segurei e comecei a rir dele, jogando água na sua direção.
— Para alguém de tanta destreza, você é muito lento.
— Melhor não me provocar mais, Princesa. Sou apenas humano — Eu entendi certo? Para a minha decepção, ele não ficou totalmente nu. Usava por baixo uma blusa branca de mangas bufantes e uma calça marrom igualmente larga. Ele entrou na água vestido desse jeito brega mesmo.
— Vai voltar para o Castelo todo encharcado — Joguei água no rosto dele quando ficou perto o bastante. Eu queria mesmo era obrigá-lo a tirar os panos molhados antes de se enfiar de novo naquele sufoco de tanto metal.
— A armadura cobrirá bem qualquer coisa — Dito isso, entendi que era a sua palavra final. Pelo menos por hora. Eu não avançaria mais, com receio de constrangê-lo ou de até mesmo impactar negativamente a nossa convivência quando estivéssemos de volta à realidade.
Passamos a tarde no rio, rindo e conversando como se nada mais importasse. Achei impressionante como ele conseguiu manter a discrição estando tão perto de mim, sem roupa nenhuma. Claro que por eu estar totalmente submersa ajudava bastante, mas eu esperava mais reações. Quando eu me achegava mais, ele dava uma discreta escapadela, numa clara tentativa de me evitar, embora tentasse disfarçar. Isso só me fez perceber que eu causava sim alguma sensação nele. Mesmo tentando esconder a atração por baixo de camadas de seriedade e dever, eu podia enxergar claramente em seus olhos as chamas do desejo. Quando em alguns raros momentos de silêncio nossos olhares se cruzavam, ficava explícito que ele me desejava na mesma medida que eu o desejava. Mas, ele sempre evitava me olhar por muito tempo, pois aparentemente sofria por ter que se conter. Sem dizer mais nada, ele apenas admirava o horizonte, mirando tudo menos a mim.
Quando o silêncio ganhou conotações desconfortáveis, resolvi interceder:
— Explique-me, Sir, que juramento é esse de ser leal à nobreza até à morte, sem direitos a esposa e filhos? É mesmo essa vida que você deseja? — Me olhou surpreso. Como demorou a me responder, continuei — E por que largou o seu lugar na Casa Mikaelson para trás, simplesmente decidiu vir pra cá e ser um Guarda Juramentado mesmo sendo um dos Lordes do Reino Lafayette? Seu pai não exige que você cumpra seus deveres de primogênito, como deixar herdeiros? — Ele demorou alguns segundos me encarando, provavelmente ainda digerindo a enxurrada de indagações abruptas. Então desviou o olhar e eu entendi o recado. Não estava pronto para responder a essas questões. Mas, a sombra escura que passou pelo seu rosto me deixou no mínimo mais interessada em saber o que tanto ele mantinha a sete chaves. Alguma coisa naquela Corte o assusta de verdade e isso era muita coisa vindo desse destemido Cavaleiro — Bem, agora é fim de jogo para você. Você já jurou lealdade à Casa Forbes. Está preso comigo até o fim. E não se preocupe, ninguém jamais saberá de nenhuma das nossas conversas ou de qualquer outra coisa que venhamos fazer — então, finalmente ele me encarou e esboçou o sorrisinho torto que eu tanto adorava.
— Eu sei, Caroline. Confio em você. Falta de confiança não é o problema aqui.
— É mesmo? Então, por que esconde de mim o seu passado? Mais imponente que isso, não me diz nada sobre a sua origem.
— Só não quero que se envolva nos infortúnios da minha família. Não deixei minha casa por motivos banais.
— Imagino. Pensando em retrospecto, talvez eu tenha cometido um erro logístico ao não ter te investigado mais a fundo. Me deixei levar pelos seus encantos quando chegou na minha Corte. Até hoje você é um mistério pra mim, embora conheça o básico sobre a sua Casa. Passamos o dia todo juntos e mesmo assim não sei muito mais que isso sobre a sua Casa. Talvez eu mude de ideia e não te considere mais meu amigo se ficar me escondendo coisas — Ele contorceu a cara, tentando me responder, mas não conseguiu. Perdendo a paciência, lhe dei às costas e já estava saindo do lago quando ele me segurou pelo braço. Seu toque me fez tremer em calafrios, mesmo minha pele ficando em brasa. Me olhando fundo nos olhos, me perdi.
— Um dia eu vou te contar tudo, mas somente quando eu tiver certeza de que nada do que eu disser vai te assombrar. Ou mesmo te afastar de mim. Prometo. Só preciso de mais um voto de confiança. Tenho medo de que você nunca mais olhe para mim da mesma forma quando descobrir como é a minha família — Percebendo que segurava meu braço com mais força do que o normal, ele me soltou suavemente e olhou constrangido para os lados, incapaz de me encarar.
— Eu confio em você também. No momento, é a pessoa em quem mais confio nesse lugar. Mas, não pode fugir do seu passado para sempre, pois questões não resolvidas sempre voltam para nos assombrar. Seja lá o que se passa na sua família, deve enfrentá-la. Você é muito mais do que seu medo, Klaus — Voltei para perto dele, mostrando a ele que estava tudo bem, que não precisava se exaltar, pois em mim existia uma amiga leal e compreensiva.
Para amenizar a tensão, contornei o assunto trilhando temas mais leves. Até mesmo fui capaz de fazê-lo rir outra vez, deixando em stand-by meu plano de seduzi-lo. Parecia vulnerável demais e atacá-lo seria um golpe baixo. Vi em seus olhos sinceridade e a dificuldade que era falar sobre a sua família, sobre o que quer que aconteça dentre as paredes rochosas da sua Casa. Daria a ele espaço e tempo para confidenciar a mim seus pesares, para que se sentisse seguro e não pressionado ou ameaçado. Klaus era difícil de dobrar, mas quando o fazia, era nítida a sua franqueza, podia-se ver com clareza a profundidade dos seus sentimentos mais puros. Em todo esse Reino, jamais conheci alguém como ele, autêntico nas ações e nas palavras. Destemido, mas sensível. Além de ser o único com quem eu não sentia medo algum de ser eu mesma.
Fomos embora quando a tarde caiu, pouco tempo antes do Sol baixar. Meu cuidadoso guarda não queria que chegássemos depois de anoitecer, pois são perigosos os mistérios que a noite carrega, assim ele insistiu ao me puxar pra fora do lago. Enquanto eu me vestia, o mais devagar possível, pude notar que ele se afastou sem esconder dessa vez o olhar lascivo sobre meu corpo. Sorri satisfeita e ansiosa só de pensar que ainda teria algum tempo com ele antes de voltarmos às formalidades do castelo. Só de poder me grudar a ele no cavalo já me deixaria parcialmente satisfeita.
Até que um dia, depois de mais uma das minhas diversas fugas, entrei no quarto não tão silenciosamente quanto eu pensava, pois logo em seguida ele estava batendo na porta com certa impaciência, exigindo saber se eu estava bem. Eu abri a porta na ignorância, enraivecida por ele estar socando na minha porta sem cerimônia alguma. Eu ainda era a Princesa a quem ele devia educação e respeito.
— Assim você fará os outros guardas pensarem que está havendo uma guerra nos meus aposentos, Sir — Frisei a última palavra, para que ele se lembrasse de onde estava e com quem estava falando.
— Eu te chamei mais cedo e você não respondeu. Imagina o medo e a fúria que eu senti ao perceber que você escapou de novo para aquela floresta. Já conversamos sobre isso milhares de vezes, não deve ir lá, é muito perigoso, mesmo para alguém que não seja da realeza. Não são apenas os bárbaros que ameaçam as nossas terras. Existem animais letais e místicos naquele lugar, prontos para arrancarem a sua cabeça ou beberem o seu sangue. Aquele dia não foi o bastante para você? Você viu a morte de perto e mesmo assim está disposta a se arriscar apenas para sanar seus desejos. Não importa quantas vezes coma aquele fruto, o destino já está selado. Você saber ou não o que vai acontecer não muda nada.
— Então, você entrou no meu quarto sem a minha permissão? — Ignorei a última parte. Eu quem decidiria se me esbaldar no fruto proibido seria bom ou não — Se eu não responder, não deve entrar. Eu poderia estar me banhando ou estar sem roupas. É totalmente inapropriado o servo circular com tanta intimidade assim pelos aposentos da Princesa — Falei maliciosamente, me esforçando ao máximo para conter o sorriso, lembrando da nossa pequena aventura no lago. Depois daquele dia, eu esperava que o destino fosse jogar ao meu favor e fizesse o meu nobre guarda entrar no quarto justamente quando eu estivesse em situações comprometedoras.
— Você sabe que só entro quando tenho certeza de que posso, quando acredito que haja ameaça real, como você fugindo para o local mais perigoso das redondezas. Sabe que eu jamais passaria por cima de você, da sua privacidade.
— A sua preocupação parece que vai além do dever de proteger a nobreza, Sir.
— Pare de jogos comigo, Caroline, você sabe que me importo — Ele entrou no quarto e bateu a porta furioso.
— Então, por que tenta esconder com tanta raiva? Parece que esboçar sentimentos seja uma vergonha pra você.
— Não se trata disso, se trata da minha posição nessa Corte. Não podemos passar da mera relação a que fui consagrado. Será uma sentença de morte pra mim se eu tocar em você e sabe bem disso. Além de ser rebaixada ao nível de prostituta ao ponto de não conseguir o tão precioso marido que sua mãe tanto deseja para você.
— Você parece ter se esquecido disso todas as vezes que ficamos sozinhos bebendo vinho até tarde. A propósito, você sempre se esbanja de vinho, deixando para trás toda essa reserva fajuta. Ou o seu dever de me proteger de qualquer ameaça que inusitadamente eu sofreria dentro do meu próprio castelo — Resmunguei entre dentes. Meu sangue já começava a esquentar por causa desse teimoso.
— O vinho afeta meu julgamento. Assim como a sua presença.
— Estou te afetando agora? — Fiquei a centímetros do seu rosto, sentindo seu bafo quente com aroma de fruta. Encheu a cara de vinho outra vez. Isso estava se tornando frequente de um jeito muito suspeito — Estava bebendo no seu turno, Sir? Vou destituí-lo do cargo. Está um irresponsável
— Você sabe que não é meu turno. É daquele idiota incompetente.
— Então, o que faz aqui na soleira da minha porta fazendo escândalo?
— Nomad foi avisar as Septãs que você não respondeu ao chamado para o jantar. Um grande fofoqueiro sem escrúpulos, isso sim. Ele quer me ferrar, quer o meu cargo. Mas, pelo menos, me deu o sinal amarelo, um aviso indireto. Eu soube de imediato que você estava fazendo besteira de novo.
— Então, veio correndo para averiguar se fugi ou não outra vez.
— Mas, agora está fazendo com maestria. Foge e volta sem deixar rastros sempre que estou descansando. Estou impressionado com as suas habilidades para se meter em problemas.
— Já conheço bem o caminho. Não preciso mais ser resgatada. E Hollow nunca mais apareceu pra mim. Então, sua preocupação é exagerada — Vi imediatamente seus olhos ficarem em chamas.
— Então, você admite que está fazendo besteira outra vez. A sua rebeldia me estressa. Não é capaz de ser razoável. Se continuar, vou mandar fechar todas as passagens do castelo que eu encontrar.
— Quero ver que explicação dará a Rainha. E só vai comprometer a nossa segurança. Por onde fugiríamos numa guerra?
— Não estamos em guerra — Ele se aproximou mais, bufando pelas ventas.
— Ainda. Mas, ela virá. Eu sei. Não existe paz eterna — Lembrei das batalhas que as visões me mostraram.
— Certamente entraremos em colapso se cedermos à tentação. Te conheço bem. Sei que faz essas coisas para chamar a minha atenção. Mas, nada vai acontecer entre nós, Caroline — Meu sangue ferveu. Em parte pela arrogância desse imbecil, em parte pela decepção.
— Está pensando o que? Que eu me meto nos perigos daquele lugar apenas para conseguir que me olhe? Que estou caindo de paixão por você? Meu mundo não gira ao seu redor. E com você, eu só queria uma diversão. É bem entediante ser a futura rainha, tendo só o dever para ocupar o meu tempo.
— Só diversão? — Ele deu alguns passos na minha direção, enquanto eu recuava até a parede ao lado da porta. Engoli em seco, pois só essa aproximação me dominava as ações — Eu vejo nos seus olhos a verdade. E não vou negar, sinto o mesmo. Não é por falta de vontade que estou em negativa, você sabe muito bem a essa altura.
— Então, você me quer também — passei as mãos pela sua vestimenta pesada, querendo senti-lo, mas tudo estava coberto de metal, rigidamente esmagando seu tórax. Só me restava seu belo rosto para acariciar. Passei os dedos pelos seus lábios carnudos, louca de vontade de mordê-los. Enfiei os dedos por dentro dos seus cabelos, que ainda estavam um pouco molhados. Provavelmente tomou banho faz pouco tempo e isso só me incendiou ainda mais na expectativa de sentir seu corpo úmido sem nada para me atrapalhar.
Me pegando de surpresa, Klaus me pressionou na parede, colocando a mão por debaixo da minha túnica de dormir e apertando a minha perna. Sem pensar duas vezes mordi seu pescoço enquanto puxava seu tronco contra os meus seios, a essa altura já rígidos, como notei que sempre acontecia quando ele se aproximava demais. Para o meu desespero completo, ele levantou a minha perna e me apertou mais, enquanto segurava meus cabelos com força e me espremia contra a rocha gelada. Eu adorava quando ele era bruto comigo, esquecendo completamente meu título. Desse jeito, éramos só eu ele na nossa bolha, excluindo o mundo opressor que nos cerca.
— Não faz isso comigo... — Ele sussurrou no meu ouvido, enquanto passeava os dedos pelo meu corpo e chegava nos meus seios doloridos. Senti uma quentura e umidade entre as minhas pernas, acompanhadas de um latejar desconhecido. Quando abaixei as mãos para tocá-lo na mesma intensidade, ele me impediu e se afastou.
— Deve se aprontar para o jantar, mesmo que bem atrasada. Não vai dormir com fome — Disse com a voz baixa e rouca.
— Não estou com fome agora — Não de comida, pelo menos, respondi ofegante, ainda impactada com o que ele fez. Ia mesmo me provocar assim e ir embora como se nada tivesse acontecido?
— Sua mãe vai aparecer aqui pra saber por quê sumiu no jantar. Ao menos deve dar-lhe uma das desculpas esfarrapadas em que você é mestra — Ironizou. Ele sempre jogava na minha cara o quanto eu mentia mal.
— Vamos fazer assim — me acheguei até ficar com o rosto quase grudado no dele — Eu vou descer para jantar. Mas, quando assumir seu posto mais tarde e não tiver mais ninguém para nos interromper, vamos continuar de onde paramos. Vai me dizer não outra vez?
— Não vou — ele engoliu em seco. Fiquei estática, sem reação. Ele me renegou por tanto tempo — estou cansado de fugir disso.
— Eu também — Ele se virou para sair do quarto, mas parou na porta me olhando resignado, claramente também não querendo me deixar para trás depois de finalmente darmos um passo na direção de consumarmos nossos desejos pecaminosos um pelo outro — te vejo mais tarde.
Mesmo após a porta se fechar, fiquei estancada no lugar, ainda com o corpo em polvorosa por suas mãos terem me tocado tão deliciosamente.
Me sentei na cama, encarando as paredes de pedra, enquanto tentava controlar minha respiração... Que tipo de futuro poderíamos ter? Eram tantas variáveis. Muita coisa poderia dar errado nessa desventura. Muita gente poderia morrer no processo, pois guerras seriam o resultado se eu tentasse fugir, era certo. Meu Reino ficaria sem seu herdeiro, vulnerável a abutres forasteiros em busca de conquistar meu território. E ainda tinha a família de Klaus. Outra facção da nobreza, pelo o que pude descobrir, envolvida em diversos escândalos de corrupção ou em coisas muito piores. Lafayette não era um lugar seguro para se viver. Era cercado de morte e de podridão, pude entender perfeitamente porque Klaus saiu correndo de lá e não era do meu interesse me envolver nas suas intrigas macabras. O que eles fariam comigo se descobrissem meus planos com o primogênito e herdeiro do seu Reino? Aquele pai medonho dele...certamente viria aqui tentar negociar com a minha Casa, tentando lucrar com a nossa união. Como se eu ou minha mãe aceitássemos qualquer coisa vinda dessa praga. Mas, se Klaus ficasse aqui, seria morto se minha mãe descobrisse sobre nosso envolvimento. Mandaria exibir sua cabeça numa estaca por tamanha traição. Talvez estivesse expondo Klaus a um perigo enorme ao trazê-lo para a minha vida, mas não conseguia mais ficar longe dele. O que eu sinto se tornou maior que eu...
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