Scarlet Dynasty - Klaroline
26 The Power of Prophecy - Parte 2
Notas iniciais

Caroline
Acordei num sobressalto, ouvindo ao longe meu nome. Olhei em volta desnorteada, com a visão turva. Uma figura alta e loira estava parada próxima a mim. Me sentei esfregando os olhos, enquanto focava minha super audição. Ao mirar novamente a pessoa, encontrei Matt sorrindo de canto pra mim.
— Que belo cochilo. Desculpe te atrapalhar, mas você estava toda jogada e quase caindo do sofá. Eu quase peguei um lenço para limpar a sua baba – Ele soltou uma risadinha abafada enquanto tirava sarro de mim.
— Perdi a noção do tempo – Olhei pela janela. O sol ainda incidia forte – Que horas são? – Busquei meu telefone no bolso da calça. Já passava das cinco da tarde. Caramba, eu dormi o dia todo. Meu estômago roncou de fome, constatei amuada. Xeretar a cozinha me pareceu muito tentador.
— Pelo menos alguém aqui está tranquila o bastante para relaxar tão bem assim – Ele olhou em volta preocupado.
— Kol está te infernizando? Eu posso ir lá dar uns gritos com ele. Talvez ele arranque a minha cabeça depois, mas... – Esfreguei a testa suada, estava muito quente mesmo dentro da casa. Sacudi minha blusa branca na esperança de encontrar algum alívio.
— Não. Nem cruzei com ele ainda, graças a Deus. Ele só apareceu hoje com você. Mas, não precisamos disso para ficarmos tensos, não? As circunstâncias falam por si.
— Verdade – Me levantei – Mas, aqui ficaremos melhor que na nossa casa. Pelo menos é o prometido por esses encrenqueiros. Um voto de fé não mata.
— Nesse caso, mata, sim. Falando nisso...Cadê Rebekah? Eu estava justamente procurando por ela pela casa, foi quando te encontrei. Depois do nocaute que ela me deu, estava chateado demais para descer e olhar naquela cara cínica dela. Mas, acho que já está na hora de termos uma conversa séria.
— Sabe, quando você precisar encontrar um vampiro numa casa, é só chamar o nome dele e será ouvido. Mas, ela teve que sair urgente – Ele enrugou a testa – Os outros irmãos precisaram dela – Por hora eu guardaria em segredo toda a situação de Klaus preso. Já era ruim o bastante Matt saber dos meus interesses, pois duvido muito que ele ao menos nem desconfiasse da minha presença naquela casa.
— Te desmaiaram também ou veio por livre e espontânea vontade? – Ele usou um tom divertido, mas levantou as sobrancelhas duvidosamente. Antes de eu responder, para o meu alívio ele mudou o rumo da conversa para a tangente – Eu fiquei transtornado por você, Caroline. Foi horrível saber que você não estava mais entre nós. Fico realmente feliz por estar de volta. Não são todos que têm uma segunda chance. Ainda estou confuso com tudo o que está acontecendo, mas espero que seja uma brecha para a minha irmã voltar também — Verdade, Vichy!
— Ela ainda não apareceu para você? – Fiquei surpresa.
— Não. E não sei o que fazer quanto a isso.
— Espere um pouco. Não sabemos onde cada um vai cair.
— Você voltou perto de nós – Touché – Por que ela demoraria a falar comigo? – Dei nos ombros, realmente não sabia a resposta. Ele inspirou fundo, parecendo criar coragem para continuar – Falando nessa desgraça toda... É verdade que Klaus destruiu o Outro Lado, por isso estão todos vivos de verdade? – Era nítido o seu tom esperançoso. Eu também estaria se surgisse uma oportunidade de um familiar meu voltar dos mortos, pensei no meu pai desnaturado, mas que morreu humano e nunca mais o veria — Rebekah me disse muito por alto antes de me desmaiar. Parece muito extremo, até mesmo para Klaus. Se bem que...hum...é o Klaus – Bufei fingindo indiferença — Caroline, nem tente. Rebekah me disse que tinha a ver com você. Suas exatas palavras "Nik tascou o zaralho pela sua ex hipócrita. Apenas agradeça a ela. Não é minha culpa" – Droga. Olhei para o chão, sem saber o que dizer.
— Eu não pedi a ele para fazer nada – Me apressei a justificar, falando quase sem tempo para respirar — Eu estava morta o bastante para estar bem longe da logística de seus planos mirabolantes. E eu jamais colocaria a cidade inteira em perigo só para eu voltar, apenas...
— Não estou te acusando de nada – Uau. Eu estava sendo atacada de tal forma ultimamente que a defensiva já era de praxe – Apenas me surpreende. Klaus não é adepto a esse tipo de coisa altruísta – Você não conhece muito bem ele, pensei. A quebra no egoísmo era apenas para questões especiais.
— Você não vai fazer um discurso sobre a encrenca em que estou me metendo ao confiar nos Originais? Porque, sinceramente, já estou cansada disso e não serei nada amigável.
— Eu até poderia, mas você já sabe tudo o que vou dizer. Então, pra que vou gastar saliva? A essa altura, todos já cruzaram alguma linha perigosa. E algumas sem volta — Ele me jogou um olhar sugestivo, mas não respondi — E se Vichy vai poder voltar, assim como outros, como você e Bonnie, eu consigo suportar o caos sobrenatural. E já estou sem energia para ficar batendo cabeça com as escolhas dos sobrenaturais quando esse é o talento dessa cidade, não dá para fugir disso.
— Nunca passou pela sua cabeça sobre ir embora?
— Aqui é o nosso lar, Caroline. O que faríamos fora daqui?
— Seriously? Muita coisa, eu te diria, Matt.
— Eu prefiro ficar. Me sinto bem aqui, mesmo que tenha que aturar um vampiro ou um lobisomem em cada esquina. Embora confesso que algumas coisas nunca vou aceitar. Não existe carta branca para assassinatos, jamais. Nem mesmo com a melhor das intenções.
— Nem mesmo quando é para salvar alguém que amamos? – Pensei no dia que matei doze bruxas para salvar Bonnie. Matt demorou a responder — A gente afirma isso com convicção até estar diante de uma situação onde ou você mata ou morre.
— Conflitos de interesses sempre existirão. Mas, temos que ter cuidado para não usarmos isso sempre como desculpa, para justificar colocarmos a nossa vida na frente da vida dos outros. Não é justo – Eu tinha que concordar com ele. Estávamos sempre pensando no nosso umbigo. Matt sempre foi o mais íntegro moralmente entre nós. Eu admirava isso nele.
— Entendo, claro. Enquanto eu estiver nas minhas boas faculdades mentais, farei o meu melhor.
— Eu sei que você vai. Eu detesto o vampirismo, mas você é a melhor vampira que eu conheço. Você nunca seria capaz de cruzar a linha do mal ou da falta de humanidade – Olhei surpresa pra ele – Ser vampira te caiu como uma luva e você usa as suas habilidades para o bem, para proteger quem precisa. Admiro isso de verdade. Espero que continue assim. Nas suas mãos, ele tem alguns traços de dádiva, não apenas de maldição – Sorri abertamente para ele. Era ótima a sensação de ser reconhecida. Até hoje, a única pessoa que me enxergou assim foi o Klaus — Alguns conseguem usá-lo a favor das pessoas. Outros, não – Ele apontou para a saída da sala. Entendi o recado – Maioria não consegue, na verdade.
— Rebekah parece que abre algumas exceções quando se trata de você, parece mais suave, me surpreende o quanto ela se transforma quando está a sua volta. Ela claramente tem sentimentos por você, caso seja burro demais para notar.
— Ah, sim. Me esfregar clorofórmio na cara me pareceu bem romântico.
— Rebekah é mais sensível do que pensa – Ele me olhou incrédulo — Eu sei de muitas coisas que você nem imagina – Ele me indagou com a expressão – Nem pergunte, não posso dizer o porquê de eu poder afirmar isso com toda certeza. Mas, apenas saiba que Rebekah é muito mais que apenas uma Original assassina. Ela já foi uma pessoa muito melhor no passado, na vida humana e acredito que tenha potencial para ao menos recuperar parte do seu antigo eu. Vejo que ainda está lá nela, só está suprimido pelos séculos de violência. Será uma pena, sabe, se ela nunca conseguir seu caminho de volta.
— Uau, de onde isso veio? Você e ela sempre disputaram território e agora está defendendo ela? — Dei os ombros — Só quero que Rebekah deixe de maluquice e me leve de volta para casa. Quem ela pensa que é para me sequestrar? Estou furioso com ela – Ele passou as mãos no cabelo um pouco nervoso. Eu comecei a rir, incapaz de me conter — Por que você está achando isso engraçado? Eu ainda estou sentindo os efeitos da droga e da porrada – Matt me olhou incrédulo e isso foi combustível para o meu surto. Comecei a gargalhar mais ainda, jogando a cabeça para trás e me contorcendo no sofá.
— Estou imaginando ela sendo a psicopata de sempre te jogando clorofórmio goela abaixo – Gaguejei entre uma risada e outra, buscando ar para conseguir falar, enquanto meus olhos lacrimejavam. Eu estava maluca, isso sim. O grotesco do caos estava me transformando em outra pessoa, me anestesiando contra o bom senso. Quando eu acharia graça em uma violência dessas contra meu amigo?
— Retiro o que eu disse. Às vezes você é do mal – Ele andou pela pequena sala – Me dá um pouco de medo – Ele se sentou ao meu lado e encostou seu ombro no meu, me dando um leve empurrão de brincadeira.
— Você costumava se divertir com as besteiras que eu falava e fazia.
— Não. Eu amava estar com você apesar do seu comportamento assustador e obsessivo. Você entrava em estado de transe, com a expressão afetada. De verdade, me dava frio na espinha quando você colocava uma ideia na cabeça. Eu sabia que estava ferrado, pois você não desistiria até ter seus projetos perfeitamente bem executados. Esse é o preço a pagar por namorar uma lunática.
— Seriously?! E no final todos saíam ganhando, porque ninguém fazia melhor que eu.
— Isso é verdade. Mas, você tem que admitir, fica muito competitiva e exigente quando quer algo. A pior de todas as suas fases foi o concurso para Miss Mystic Falls. Eu não te aguentava mais. Quis terminar com você por causa daquele bendito evento. Ele trouxe o seu pior lado à tona. O auge do ridículo foi eu ter que andar de carro alegórico com você pela cidade – Fiquei abismada com a confissão. Ele nunca me disse nada disso. Embora tenha ficado nítido na sua cara o quanto ele estava se esforçando apenas para não me contrariar, não pensei que tivesse odiado tanto. Mesmo tentando, foi difícil não ficar um pouco magoada com as suas palavras. Quase ninguém entendia a importância que aquele concurso teve para mim. Foi a primeira vez que consegui me destacar em algo e ser reconhecida por isso. Até então, ninguém me respeitava como um indivíduo que tem sentimentos e ambições, apenas me tratavam como uma burra superficial.
— Desculpe, eu não fazia ideia...- gaguejei.
— Claro que não. Estava tão concentrada em ganhar da Elena que se esqueceu de se divertir ou de prestar atenção nas pessoas à sua volta.
— Não estava competindo com ela, principalmente. Eu queria provar para mim e para todos que eu era mais que a loira fútil que me intitulavam. E o concurso não se trata apenas de roupas bonitas ou de festas inúteis. É um trabalho de filantropia. Consegui arrecadar muito dinheiro para instituições de caridade e Mystic Falls me agradece — Terminei sem conseguir esconder que estava meio ofendida.
— Que seja. Apesar de ter sido um inferno todo aquele circo, fico pensando que seria muito melhor ter apenas bailes e concursos para nos preocupar. Agora parece tudo tão distante, mais caótico, mais sombrio — Ele sorriu olhando para o nada – Bons e serenos tempos.
— A vida não está tão ruim para você agora. Pare de drama — resolvi engolir a ofensa. Matt não falou por mal.
— Está falando do que? Eu fui trancado aqui, levei uma surra da garota que supostamente gosta de mim e não faço ideia do que vai me acontecer.
— Ah, vamos. Você sabe que ela fez por bons motivos, embora a execução tenha sido terrível. Ela poderia, deveria ter te abordado de outra forma mais suave. A falta de tato dela é caótica, ela não sabe se expressar sem violência. Um traço marcante dessa família – Ele se desencostou de mim, pensativo – E você gosta dela. Eu sei que sim, mesmo que não admita pra mim. E ela parece retribuir de verdade. Matt, quando você vê Rebekah Mikaelson tão interessada no bem estar de outras pessoas? Ainda mais de humanos. Ela só não sabe demonstrar isso gentilmente.
— Confesso que gosto de passar o tempo com ela – Ele soltou o verbo — É divertida e inteligente. E quase nunca parece o monstro que todos conhecem. É difícil de enxergar essa natureza maléfica dela quando estamos conversando sozinhos sobre assuntos banais, pois ela me passa tanta suavidade e delicadeza. Ela parece tão...humana. Não sente necessidade de demonstrar ser a mais poderosa ou malvadona do pedaço só para se provar como ela faz com todo o resto, eu notei isso – Ele se pronunciava olhando para o nada – Talvez realmente haja algo bom no coraçãozinho gelado dela. E às vezes eu fico tentado a descobrir mais sobre.
— Então, dê uma chance a ela, de verdade, para que ela possa perder o medo de se abrir, de amolecer mais o coração. Não será só você a ganhar com isso. Vai ser bom pra ela ter o direito de demonstrar seus sentimentos sem ser perseguida por isso, sem sentir vergonha ou culpa. Vai ser um alívio pra ela ter alguém como você, um cara de boa índole, que não está envolvido em mortes e em desgraças. Você trará para Rebekah o caminho de paz e de felicidade simplória que ela tanto busca. Eu enxergo assim, pelo menos. Acho que é por isso que ela gosta tanto de você, não somente pelos seus óbvios atributos físicos. Você é um cara gentil que tratou ela melhor do que ela merecia. Talvez você represente a inocência que ela perdeu há séculos.
— Não estou aqui para atender aos caprichos e necessidades de alguém quebrado.
— Não é isso! – Falei indignada – Acho que o termo que procuro é "ar puro". Imagine como foi pra ela por todos esses séculos, perseguida por Klaus e pela violência que cerca os Originais. Você passa longe disso e Rebekah está tentando desesperadamente alcançar um bote salva-vidas para fora dessa vida. E quanto a você, meu caro, não te faria mal dar umas voltinhas por aí com ela. Seria ótimo para seu espírito se desenvolver. O garoto de cidade pequena cairia como uma luva com a psicopata milenar – Soltei uma risadinha irônica.
— Caroline, estamos falando de mim e de Rebekah ou de você e de Klaus? – Ele foi direto, me pegando de surpresa – Então, é assim que você enxerga um possível envolvimento seu na vida de Klaus? Um bote salva-vidas para fora da pequenice de Mystic Falls? Ou que ele te enxergue como um "ar puro" e "inocência perdida"?
— Não mude de assunto – Me remexi incomodada.
— Não estou. Pelo contrário, estou no mesmo tema. A inocente de cidade pequena com o malvadão Original. Eu sei que ele anda atrás de você, mas não sei até que ponto você...
— Eu gosto dele também, tenho sentimentos – Confessei pela primeira vez em voz alta, olhando para a parede branca. Com Matt estava sendo mais fácil do que com qualquer outro – E quero levá-los adiante e não vou me desculpar isso – Ele me encarou chocado, cruzando os braços rigidamente.
— E Tyler? Você amava ele até poucos meses atrás. Depois de tudo o que passaram para ficarem juntos, me parece estranho você simplesmente desapegar dele.
— Amava. Ainda me importo com ele, como desde o início, quando eu só queria protegê-lo. Eu sempre vou me importar com ele. Mas, não sinto mais o mesmo desde que voltei. Na verdade, muito antes de ele ir embora eu já me sentia atraída por Klaus, mesmo amando Tyler. Essa é a verdade obscura que tranquei a sete chaves. Agora, sinto mais que atração. E não foi simplesmente que tudo mudou. Ele nem voltou quando eu estava morta, mesmo depois de eu implorar dizendo que meus dias estavam contados. Isso foi grave, Matt. Ele estava livre para voltar, ele tinha escolha e não me escolheu. Isso quebrou a mágica dentro de mim. O que pensei sobre nossa relação ser especial, que passaria por todas as dificuldades e nos amaríamos em quaisquer circunstâncias, se provou errado, fantasioso. Eu lutei por Tyler, briguei com Klaus muitas vezes para defendê-lo. Eu esperava no mínimo um retorno. E entendo perfeitamente que Klaus desgraçou a vida dele e que seria muito penoso para Tyler conviver com o assassino da mãe. Mas, as coisas aconteceram assim e Tyler tinha uma última chance de viver com alguém que amasse e deu às costas para isso. Minha morte provou que num piscar de olhos podemos perder tudo, então devemos aproveitar enquanto temos por perto quem amamos. E não sou tão boazinha assim ao ponto de aceitar tudo com a mais pura empatia e de boca fechada. Se fosse o contrário, se Klaus tivesse matado um familiar meu e eu tivesse que morar na mesma cidade que ele apenas para estar perto de quem amo, faria sem pensar duas vezes – Despejei sem pudor algum. Foi libertador, um peso se esvaía de mim. Admitir meus sentimentos sobre Klaus em voz alta era a cereja do bolo para definir meus próximos passos e eu estava pronta pra isso. Mas, confessar que não amava mais Tyler direto para Matt doía em mim e provavelmente nele também. Tyler sempre foi seu melhor amigo, quase irmão. Na certa me acharia uma traidora. Mas, essas confissões me traziam alívio e paz, um encerramento na minha confusão emocional me deixando livre e pronta para ficar com Klaus sem olhar para trás. Sem me preocupar com Tyler, sem me preocupar com mais nada. Me preparei para a cartada final – Eu desenvolvi sentimentos pelo Klaus mesmo quando estava com Tyler, cansei de negar isso. Era repulsivo demais admitir, ainda mais dar vazão a isso. Eu menti pra mim mesma por meses, pois era muito errado gostar do cara que infernizou a cidade toda e ainda matou a mãe do meu namorado. Mas, como você disse, a essa altura todos nós já sujamos a nossa integridade com alguma escolha ruim e é exaustivo ser aquela que se mantém intacta. Parece que todos têm direito ao erro menos eu. Se o que eu sinto for um veneno pra mim e não estou enxergando isso, então perdi o meu tão estimado radar e a voz da razão. Mas, eu sinto o que sinto e gosto.
Matt me olhava assombrado, incapaz de esconder a sua indignação.
— Nunca imaginei que pudesse ser verdade. Tyler estava certo esse tempo todo. E olha que várias vezes eu tentei convencê-lo do contrário.
— Como assim? – Senti um frio na espinha.
— Ele me disse, estava desconfiado. Temia pelo pior, perder você para o psicopata Original. Ele via o jeito como você ficava tocada com as investidas do Klaus. Desenhos, presentes, palavras encorajadoras, falando exatamente o que você queria ouvir, fazendo tudo o que uma garota espera. Tyler notou que as suas negativas nem sempre eram totalmente verdadeiras. E Klaus é muito esperto, sabia exatamente o que fazer para te ganhar e Tyler sentia que não havia a menor chance de competir com Klaus se ele realmente decidisse conquistar você. Ele achava que mais cedo ou mais tarde Klaus conseguiria roubar você dele. Porque é isso o que Klaus faz, passa por cima de tudo e de todos para ter o que quer, sem se preocupar com a desgraça que causa no processo, sem se preocupar com as consequências. Além do mais, seria a vingança perfeita, Tyler acreditava. Ir atrás da namorada do maior inimigo, tirar a última coisa boa que lhe restou, o fazendo viver miseravelmente sem ninguém – Eu ouvia tudo isso horrorizada. Era o tipo de coisa que Klaus faria com certeza, mas se fosse com outra pessoa – E claro, se esse planinho sujo de Klaus não desse certo, Tyler morria de medo de você terminar como a mãe dele, em algum acesso de raiva de Klaus. Você sabe que ele é instável e temperamental demais. Ficou exposta ao perigo no instante em que esse maluco decidiu te rondar.
— E sobre meus sentimentos e minhas escolhas? – Proferi indignada – Não era o bastante para Tyler confiar em mim, na minha lealdade a ele?
— Você acabou de me confessar que já gostava de Klaus antes de terminar com o Tyler, Caroline. E como eu disse, ele suspeitava que você sentia algo pelo Klaus. Eu tentei dissuadi-lo disso, pois realmente parecia um absurdo. Pensei que Tyler só estivesse paranoico.
Bufei consternada, me afastando de Matt. Fiquei alguns minutos sem dizer nada, apenas olhando para a parede branca e absorta em meus pensamentos. Nunca passou pela minha cabeça que eu pudesse ser apenas um artifício de Klaus contra Tyler, não após ele me curar no meu aniversário. Até aquele dia, sim, eu era usada por Klaus descaradamente para chantagear e ameaçar Tyler, para Klaus se provar o macho alpha frente ao meu até então namorado. Mas, Klaus nitidamente se arrependeu e desde então tem dedicado seus esforços para ganhar a minha confiança após esse desastre. Claro, ele derrapou algumas vezes no caminho, fazendo uma merda ou outra, pois sua personalidade autodestrutiva sempre o fazia retroceder metade do avanço, mas sempre se arrependia. Ele colocou a minha vida em perigo duas vezes e depois, ironicamente, se arrebentou para protegê-la. Então, se a minha vida fosse só uma manobra para destruir Tyler, era só Klaus ter me deixado morta de vez e não precisaria ter destroçado o equilíbrio sobrenatural apenas por mim. Então, nada me convenceria de que Klaus não estava realmente apaixonado por mim. Qualquer um que não o conhece de verdade ou que não prestou atenção nas suas atitudes comigo nos últimos meses realmente tem todo o direito e razão de acreditar que Klaus fez tudo isso por interesses próprios na busca do poder e da vingança, mas eu estava lá com ele em cada passo das desgraças antes da minha morte e eu vi em seus olhos a verdade, a sinceridade de seus sentimentos por mim. E mais importante, eu vi nas suas atitudes que dessa vez eu era a primeira escolha de alguém. E Klaus é um dilema em pessoa. Pode ser traiçoeiro, mas sempre me passou essa confiança fora do comum, de maneira que quando ele me garante algo, eu acredito nele sem pensar duas vezes.
— Tyler poderia estar completamente enganado e eu estaria muito ofendida agora. Me irrita ser vista como um objeto que serve apenas de manobra para uma disputa masculina. Mas, entendi o seu ponto — Realmente, nem a mim mesma eu conseguia convencer quando Tyler vinha me indagar sobre Klaus. Deveria imaginar que meu namorado não cairia nas minhas mentiras esfarrapadas...
— E você não acha que seja plausível depois do histórico de Klaus com Tyler?
— Sim, se não fossem as circunstâncias gerais. Se fosse só isso, Klaus teria conseguido dar o troco quando eu morri. Mas, se você se lembra bem, me atacaram exatamente por causa dos dois. Por que me ferir seria uma punição para Klaus e não apenas para Tyler? Por que pensaram assim? E ele destruiu o Outro Lado alegando que foi por mim e por Kol. Eu não faço ideia sobre quais outros motivos seriam. Estou aqui nessa casa porque ele mandou Rebekah me trazer. Então, tem muito mais nessa história do que apenas o que vocês enxergam, te garanto.
— Então, você acha mesmo que ele retribui os seus...sentimentos? Caroline, é de Klaus Mikaelson de que estamos falando. Nem você acredita nessa fantasia...
— E você não acha que Rebekah gosta de você mesmo sendo tão caótica quanto os irmãos? Não acha de verdade que ela esteja sendo sincera ao te arrastar pra cá? Por que, então, você acredita que ela fez isso? Pensa que ela está em busca de alguma vantagem oculta? Se falar que é assim que se sente não vai me convencer, porque você me parece muito mais suscetível a ela do que tenta transparecer, mas eu noto. Acho que no fundo você faz igual ao que eu fazia, tenta reprimir o que sente e nega para si mesmo a verdade porque gostar de um Original é receita para encrenca.
— Rebekah é menos louca que os irmãos.
— Seriously? Estamos falando da mesma pessoa? Há dez minutos você estava blasfemando ela por te sequestrar. E não vamos esquecer, ela jogou no lago um carro com Elena e você dentro dele. Você teria morrido se Elena não mandasse Stefan te salvar. Rebekah colocou a sua vida em perigo mais de uma vez, assim como Klaus colocou a minha — Ele contorceu a cara, mas meu argumento perfeito não foi o bastante pra ele. As pessoas só enxergam aquilo o que querem, isso é um fato.
— Mas, não se pode negar que ela é mais sentimental que Klaus. Ela vive chorando pelos cantos sobre a vida que gostaria de ter, mas que os irmãos a negam. Klaus jamais demonstraria tamanha sensibilidade.
— Não para quem não interessa a ele. Matt, isso não é uma competição. Cada um expressa o que sente da sua forma. E Klaus é mais do que aparenta, ele só se mostra para algumas pessoas em situações muito específicas. Não pode achar que ele será um livro aberto para qualquer um. Ele é como a Rebekah às vezes, e isso você consegue entender. Não vou negar as monstruosidades que ele fez, mas Rebekah não fica atrás. E você não precisa ver o que Klaus pensa de verdade ou sente por mim. Só eu tenho que ver.
— Não me diga mais nada, Caroline. Não quero ser a pessoa a esconder coisas importantes de Tyler. Se ele tocar no assunto comigo, não quero mentir na cara dele. Então, quanto menos eu souber, melhor – Acenei concordando, parecia justo – Mas, gostar do cara que matou a mãe do seu ex-namorado não te coloca no topo da lista das pessoas mais sensatas, tenho que dizer, você goste ou não. Sempre pensei que você estava fora do alcance de Klaus. Eu repeti isso várias vezes para o Tyler; Caroline é centrada, a pessoa com o maior auto-controle do mundo. Ela não vai se deixar levar pelos charmes do babaca Original. Eu bati nessa tecla tantas vezes, mas os instintos de Tyler estavam certos esse tempo todo. Klaus conseguiu te passar pro lado dele – Meu sangue começou a esquentar.
— Matt, eu não sou perfeita. Vocês esperam que seja tudo muito fácil pra mim.
— As pessoas esperam o melhor de você porque você é a melhor de nós, a melhor entre os sobrenaturais que conhecemos. Para você é mais fácil lidar com todo o...
— Não é mais fácil! – Me levantei do sofá exaltada – Também tenho minhas falhas. Vocês precisam parar com essas altas expectativas e exigências sobre mim. Me enlouquece!
— Ok, Caroline – Ele se pôs de pé, levantando as mãos num gesto de rendição – Não estou brigando com você. Eu só tinha uma ideia errada, desculpe. Você sempre fez parecer estar no controle de tudo, sempre demonstrou lidar melhor com as desgraças a nossa volta que simplesmente esquecemos de que você também é apenas...- Então, ele parou de falar de repente, me encarando constrangido.
— Apenas o que? – Falei alto e emburrada.
— Eu ia dizer "humana" – Ele sorriu zombeteiro. Eu dei um leve tapa no seu ombro.
— Ouch. Você não mede a sua força?
— Acabei de afirmar que meu autocontrole não é tudo o que pensa.
— Tá, mas não arranque meu braço fora. Eu ganhei bolsa para faculdade jogando na posição de Quarterback. É meu único jeito de ir para a universidade. Ser pobre tem muitos problemas, sabe.
— Não acredito! — Levei as mãos à boca em surpresa. Eu poderia colocar de lado as suas ofensas contra mim em nome dessa notícia — Você conseguiu bolsa para a faculdade?! Fico tão feliz por você.
— Falando nisso. Imagino que não tenha feito sua inscrição...
— Não — Sentei no sofá outra vez meio tristonha. Isso me fez pensar nos meus antigos sonhos de fazer faculdade, construir uma carreira jornalística, uma vida brilhante onde eu estaria no topo. Agora, esse sonho seria adiado para o ano seguinte, pois minha morte me fez perder o prazo das inscrições — Talvez na próxima.
— Vai dar certo. É só um ano. Não vai fazer diferença na existência de uma vampira talentosa como você.
— Muita coisa pode acontecer em um ano, Matt.
— Sim. Mas, te conheço. Seja o que acontecer, vai conseguir o que quer. Ano que vem certamente estará na faculdade. Talvez numa melhor que a minha.
— Espero que esteja certo. Para qual universidade você vai?
— Whitmore. Foi a única que me aceitou. Mas, estou satisfeito.
— Fico feliz por você, Matt, de verdade. Você merece o melhor. E o sonho da faculdade não é para todos nesse país.
— Eu pensei que nunca conseguiria uma vaga numa universidade. Que seria garçom para sempre. Agora, do nosso grupo, fui o único que entrou esse ano. Foi um desastre.
— A vida dá voltas. Ou melhor, a morte dá voltas. Mas, você realmente deve ir. Tem que se afastar desse ambiente tóxico. Ter uma vida normal e feliz. Humanos que se envolvem com o sobrenatural costumam pagar caro por isso e você não merece sofrer.
— Obrigado, Caroline. Você também merece uma boa vida.
— E eu espero que você não volte para Mystic Falls depois que se formar. Não vai fazer sentido — Ele ia responder, mas não deixei — Nem tente argumentar. Que carreira quer seguir? Futebol mesmo?
— Não. Eu gosto da polícia. Admiro o cargo da sua mãe.
— Xerife? Uau.
— Ainda estou pensando no caso.
— Bem...- eu iria me meter nas suas pretensões absurdas, mas o telefone de Matt tocou.
Quando ele atendeu, seus olhos se arregalaram e isso me deixou preocupada. Me levantei de repente, esperando pelo pior. Agucei minha audição e só ouvi choro do outro lado. Não podia ser...
— Vichy... — Matt choramingou baixinho, sem conter as lágrimas. Até eu me emocionei, mesmo que eu e ela nunca tenhamos nos dado bem. Era a irmã morta do meu amigo que retornava e eu não poderia estar mais feliz por ele.
Finalmente Matt parecia ter alguma perspectiva na vida que não fosse a mãe alcoólatra ausente e a irmã drogada que morreu nas mãos do inescrupuloso Damon. Matt sempre se sentiu o mais excluído, sem esperança para o futuro. Condenado de berço pela irresponsabilidade da mãe e pela família muito pobre, começou a trabalhar desde cedo para sustentar a casa e nada nunca veio fácil para ele. Me comovia vê-lo feliz e eu faria o que estivesse ao meu alcance para que ele realizasse todos os seus sonhos.
Sorrindo abertamente, deixei a sala para lhe dar privacidade. Agora mesmo que ele tentaria escapar da casa para encontrar a irmã. Talvez eu devesse ficar com os ouvidos ligados nele de qualquer forma. Caminhei de volta ao deck, na esperança de conseguir algum vento fresco, pois dentro da casa estava um inferno. Ao que parecia, o ar-condicionado existia, mesmo que não estivesse funcionando na casa toda, pois no quarto da minha mãe fui capaz de acioná-lo. Meu estômago roncou, mas estava com preguiça de vasculhar a casa em busca da cozinha. Distraída demais, me assustei com a voz petulante de Kol bem atrás de mim:
— Está gostando das férias, loirinha? Bem melhor que o fundo de quintal chamado Mystic Falls – De costas para o lago, ele encostou na cerca ao meu lado.
— Estaria bem mais se não tivesse um pernilongo zumbindo no meu ouvido.
— Engraçadinha, você aprende a gostar de mim com o tempo. Vai ver o quão divertido sou – Não falei nada, só balancei a cabeça incrédula – Tava pensando com meus botões, me surpreende que não tenha corrido atrás de Niklaus junto de Rebekah. Me pareceu bem emocionada com a ligação da minha mãe.
— Seriously, Kol, vai lá consertar o ar-condicionado, pois ele está com problemas.
— Virei lacaio agora? – Ele abriu os braços num gesto teatral.
— Não pode ligar para um técnico? É o mínimo...
— Meu Deus do céu, como você é pentelha – Ele tirou o celular do bolso – Eu não faço ideia de onde encontrar alguém para fazer esse serviço, mas vou falar com Rebekah ou com Elijah. Eles devem saber – Ele proferia sem paciência enquanto mandava mensagem de texto para os irmãos – Satisfeita, minha Lady? — Balançou o celular bem na minha cara — O que mais devo fazer para satisfazer a rainha? — Deja vu. Suas palavras me fizeram ter a ideia de que já fui chamada assim antes.
— Estarei satisfeita quando não estiver mais com calor dentro dessa casa – Respondi emburrada. Ele abaixou a cabeça e riu – Qual a graça?
— Niklaus é assim. Não pode haver um fiapo fora do lugar que ele surta. Tudo tem que estar impecável aos olhos do rei senão ele arranca umas cabeças, literalmente.
— Ter bom gosto agora é crime?
— Crime é matar pela incompetência de quem erra a cor da tinta da sala. Se bem que essa casa aqui foi decorada por Rebekah e foi ela quem deu uns berros com o pintor. Meus irmãos são intensos quando se trata dos seus caprichos.
— E você não é? Parece o mais mimado aqui.
— Eu? Eu sou o menos agraciado nessa casa — Revirei os olhos com o drama. E lá vamos nós de novo. Ele passou dois dias chorando no meu ouvido sobre ser o irmão mais desprezado e eu já estava cansada da pirraça gratuita.
— Você é um encrenqueiro, isso sim. Por isso seus irmãos não confiam em você.
— Mesmo se eu ganhasse o prêmio Nobel da Paz, eles ainda desconfiaram de mim.
— Porque você criou a sua própria reputação tempestuosa.
— Ai, ai, loirinha. Já vi que nunca vou poder criticar Niklaus na sua frente — Eu ia responder, mas ele me interrompeu com as mãos — Esquece, vamos parar enquanto é tempo. Podemos fazer algo realmente útil ou divertido enquanto estamos trancados aqui.
— O que sugere? — Perguntei sem vontade. Não estava interessada nas ideias dele, mas se isso o fizesse calar a boca, já estava de bom tamanho.
— Quero nadar — Ele mirou o lago.
— Seriously?!
— Não temos mais nada para fazer em casa. E o dia está quente, você mesma estava reclamando que lá dentro está um forno.
— É só consertar a droga do ar-condicionado que isso acaba.
— E faremos o que até lá? É mais divertido nadar, não acha? Até conseguirmos a nossa brisa interior de volta.
— Eu até iria, mas os humanos não vão gostar da ideia. E precisamos vigiá-los — Tentei me safar com essa desculpa esfarrapada.
— Eu sou um Original, loirinha. Ninguém terá a coragem de passar por cima de mim para chegar nesses humanos inúteis. Se alguém chegar um mínimo perto do perímetro, eu vou ouvir. Além do mais, quem vai aparecer aqui? — Ele apontou teatralmente para a casa — E olhe, temos um barco — ergui as sobrancelhas. Ele apontou para um belo e grande tipo de iate que estava atracado no píer — Eles podem ficar nele enquanto nos refrescamos. Venha — Ele andou até a cozinha externa e sei lá porquê eu o acompanhei. Ao abrir a geladeira, retirou gelo e alguns ingredientes, os jogando no cooler azul. Me entregou algumas cervejas caras enquanto abria uma e bebia pelo gargalo. Ele abriu outra e me entregou — Tem que provar essa, vai adorar, é uma delícia. É à base de mel e cevada da Borgonha, envelhecida em barris de carvalho. Não é aquela coisa horrorosa com que meus irmãos gostam de encher a cara. Tenho que admitir, Bourbon é sofisticado, mas o gosto é péssimo — Pensei duas vezes antes de aceitar. Talvez uma bebida gelada e refinada nesse calor não fosse tão ruim assim. Ao prová-la, fiquei impressionada. Mil vezes melhor que as cervejas servidas em festas. Era doce, mais escura e mais cremosa que o usual. Sem pensar muito, bebi quase tudo de uma vez e peguei outra. Ele acenou e sorriu com aprovação, estocando mais o cooler, enquanto fazia um gesto de brinde com a garrafa — Vamos. Se não quiser nadar, pelo menos fique à vontade no barco. Ficar perto do lago vai ajudar a se refrescar até que vossa majestade possa se esconder de novo no castelo — Ele carregou tudo sozinho e o segui em direção ao píer, não antes de deixar meu telefone em cima da comprida mesa de jantar de madeira caramelo escuro. Só o tédio mortal mesmo para me levar a passar uma tarde ensolarada na presença de Kol Mikaelson.
Quando chegamos na beira do pequeno píer, ele pulou no barco e, me estendendo a mão, sorriu maliciosamente. Isso é uma má ideia, Caroline, minha voz interior sussurrava. Não peguei sua mão, cruzando os braços na defensiva, achando um absurdo que ele pensasse que eu realmente o faria. Mas, antes que eu notasse o golpe, na velocidade vampírica o deagraçado me empurrou no lago. Eu voei alguns metros pelo ar soltando uns gritinhos antes de bater na água. Prendi a respiração ao sentir a água fresca cobrindo meu corpo, mas ainda assim acabei engolindo um pouco dela. Ao voltar ofegante à superfície, me engasguei antes de gritar com ele:
— Seu babaca filho de uma puta! — Ele se dobrava de rir, ao ponto de se apoiar nos joelhos. Após sua crise de risos, ele pulou na água esparramando-a para todo lado e nadou até mim — O que se passa na sua cabeça? Eu ainda estou vestida! — Joguei água nele enfurecida.
— Você quer ficar nua pra mim? Olha, eu não negaria, mas acho que Niklaus... — pulei nele, afundando seu corpo enquanto segurava sua cabeça. Eu queria que essa desgraça se afogasse. Talvez se ele apagasse por algumas horas eu teria paz. Ele revidou e me afogou de volta. Me segurou embaixo da água por um tempo longo demais ao ponto de quase me sufocar, enquanto eu me debatia inutilmente. Quando voltei à tona, buscava pelo ar desesperadamente — Me desculpe, loirinha, não era minha intenção ser bruto, mas você pediu a revanche — Meu peito doía, enquanto meus olhos lacrimejavam. Fiquei um tempo puxando o ar com força até que me dei conta de que eu não precisava ficar dentro d'água com esse capeta. Quando fiz menção de me afastar, ele me segurou delicadamente pelo braço. Automaticamente puxei meu braço com malcriação — Vamos lá, se esforce um pouquinho — Ele sorriu abertamente, me dando um tapinha no ombro. Joguei meu típico olhar de reprovação — Só estou brincando, mas seria realmente bom se pudéssemos fazer algo fora da casa. Vou enlouquecer se ficar preso aqui até meus irmãos resolverem dar às caras.
— Estamos aqui a menos de um dia — Disse com a voz esganiçada em incredulidade, ainda com a garganta afetada.
— Isso já basta pra mim, loirinha, sou um espírito sem amarras. E por isso mesmo não me importo de fazer amizade até com as pessoas mais inusitadas se isso for me tirar do tédio. Não precisa sair correndo do lago. Vamos apenas conversar. Assim você também não fica desocupada — Bufei consternada. Ele não me deixaria um minuto em paz se eu recusasse. Minha estadia nessa casa seria uma tortura se Kol colasse no meu pé. Então, jogaria o jogo dele o bastante para satisfazê-lo até que me infernizar deixasse de ser interessante e ele arrumasse outra artimanha do que se ocupar. Pelo menos aqui comigo ele estava bem debaixo das minhas vistas. Minha mãe e Matt agradeceriam o meu sacrifício.
— Vou ficar, mas só um pouco. Feliz? — Perguntei enquanto esfregava os olhos.
— Bastante. Os humanos não viriam, não é? Mesmo se você implorasse.
— Duvido. Talvez se não estivéssemos aqui,.
— Você quis dizer se "eu" não estivesse aqui — Olhei para ele e senti certa resignação — Que seja, já estou acostumado com a repulsa. Carrego a fama ruim dos Originais.
— Você merece. Mas, nunca quis viver de outra forma? Uma em que ao menos a sua presença seja apreciada sem que corram de você com medo de pegarem Lepra.
— Como assim? Não estou compreendendo — Respondeu irônico. Revirei os olhos e continuei alimentando a besta.
— Largar a violência e ter uma vida mais saudável.
— Nunca tivemos essa chance. E como não aproveitar o poder que temos? Seria um desperdício.
— Dá pra usar os poderes sem apelar para a violência gratuita o tempo todo. Olhe a sua volta, você pode ter amigos, pessoas que gostam de você. Talvez não nessa casa hoje e agora — enfatizei a verdade — Mas, um dia em algum lugar. Fica mais fácil quando não se persegue ninguém até à morte. Pode apenas viver para você. Conseguir paz e alegria sem forçar que te aguentem, como agora — terminei com um sorrisinho debochado.
— Uma fantasia e tanto, loirinha. Nós não temos isso há tanto tempo. O caos nos persegue mesmo quando fugimos dele desesperadamente. É uma sina. Acredite, já tentamos muitas vezes, mas sempre deu errado. Depois de um tempo, desistimos de tentar. Só aceitamos o que vem para nós.
— Seriously! Já estou cansada de ouvir a mesma ladainha o tempo todo. Ficam se lamentando pelos cantos sobre a felicidade que não conseguem, mas também não se esforçam nem um pouco para consegui-la — Ele ia abrir a boca para falar, mas interrompi — Já entendi, vocês viveram séculos na escuridão, na merda total, por isso perderam a fé em conseguirem o caminho da luz. E foi assim porque vocês iniciaram toda a desgraça. Mas, só porque não conseguiram antes, não significa que tudo está perdido. Toda a desgraça que seguiram vocês foi apenas reflexo do que causaram aos outros, mas dá tempo de se redimirem. Então, por que não agora? Se você viver mais mil anos, prefere que sejam melhores que os anteriores ou vai se conformar com a vida miserável que tem? O agora pode ser o divisor de águas do como você vai viver seus próximos séculos — Ele me encarou por um tempo, mas só notei tristeza em seus olhos. Estava longe do brilho assassino e malicioso de sempre. Pela primeira vez, percebi a existência de um Kol que vai além do irmão mais novo, cruel e arruaceiro.
— Agora eu entendo melhor porque Niklaus aprecia tanto você. Ele se agarra a essas falsas esperanças que você dá a ele. Mesmo que ele negue, ainda tem alguma esperança naquele coraçãozinho gelado. Ele se afundou na obscuridade, sabe, mas parece estar sempre desesperado em busca de um bote salva-vidas e você representa isso para ele. Talvez ele só esteja buscando uma maneira de não chegar ao fundo do poço porque não quer viver assim de verdade. Só cuidado para ele não se apoiar muito em você e te afundar com ele — Fiquei pasma com a confissão, piscando atônita e calada, mas estranhamente, entendi bem. Matt e eu falamos algo parecido uns minutos atrás.
— Todo mundo tem um pouco de instinto de sobrevivência inerente. A gente se apega àquilo que pode nos salvar. Não é possível que a sua alma esteja tão morta ao ponto de ter desistido de tudo, até de você mesmo.
— Talvez eu não esteja morto, só não crie tantas esperanças como Rebekah e Elijah. Eles são muito fantasiosos e Niklaus os manipula com isso. Não vou dar essa arma ao meu irmão mais perverso, senão ele acaba comigo como fez com os outros — como se você realmente tivesse escapado, pensei, mas fiquei quieta — E no fim das contas, talvez a gente nem sobreviva ao ponto de eu ter que me preocupar com o futuro. Meu pai está vindo com tudo. Então, vou aproveitar o que podem ser meus últimos momentos na Terra. Não vou ficar me remoendo com um arco de redenção impossível e perder a diversão.
— Klaus nunca deixaria seus pais chegarem em vocês. Eu disse hoje a Rebekah e reafirmo para você: Mikael te prendeu e Klaus pirou. Ele correu imediatamente para te salvar. O que acha que estávamos fazendo em Richmond de madrugada? Klaus não olhou para trás quando soube que você estava em perigo. Vocês podem ter diferenças, mas família é família. Estou convicta de que ele vai dar um jeito de proteger todos vocês. Até porque ele sabe que estão em risco pelas decisões dele — e por minha causa, terminei pensativa.
— Sabe, esse é o efeito que Niklaus causa na gente, mesmo que lutemos ao máximo contra – Ele sacudiu os ombros com petulância, espalhando um pouco de água. Ignorando minhas palavras, começou a devanear — Somos atraídos pelo poder que ele exala, passando a ideia de ser o poderosíssimo e indestrutível Niklaus, com todo aquele ar de aristocrata superior mesmo sendo um grande filho da puta. Rebekah e Elijah, então, nem se fala. Seguem ele como dois cães de guarda, mesmo quando Niklaus grita aos sete ventos que não precisa da companhia repugnante desses dois. Acho que eles ainda não entenderam o que as adagas querem dizer — terminou com uma risadinha maldosa.
— E mesmo assim você está aqui desesperado para fazer parte desse exímio e fechado grupo, mesmo quando já beijou a adaga várias vezes – Ele ficou incomodado. Olhei pra ele de soslaio, escondendo um sorriso triunfante.
— Eu já não disse, loirinha? Estou aqui pelo dinheiro. Nem sonhando vou viver como um rato de esgoto enquanto meus irmãos esbanjam fortuna sendo os reis do mundo. Sem contar que foi muito útil pra mim Niklaus tascar o foda-se e destruir esse Outro Lado. Seja lá por quais motivos ele tenha feito, seja por você ou pelos seus planinhos sujos e mirabolantes de ascensão ao poder, não estou nem aí. O que me interessa é que estou vivo de novo. Ou você acha que ajudei ele esse tempo todo a troco de nada?
— Ah, corta essa! – Me coloquei bem a sua frente, apontando com o indicador para o seu peito – Seu sonho é receber a mesma consideração ou ao menos ser lembrado de vez em quando. Do jeito que você fala da lealdade de Rebekah e de Elijah me soa mais como ciúme. Duvido que você estaria tão puto assim se fosse você no lugar de Klaus a receber toda essa veneração. Seus surtos são mais como um jeito desesperado de chamar a atenção dos seus irmãos – Ele pestanejou por uns segundos antes de suspirar resignado.
— Confesso, eu gostaria de fazer parte de vez em quando das tramoias do trio fechado, mas também não vou morrer pela falta de tato que eles têm comigo. Só não entendo o que eu tenho de diferente para não ser tão amado por eles – Inspirei fundo tentando ganhar paciência. Era só o que me faltava, virar o divã das lamúrias do Original mais novo e pirracento.
— Kol, eles apenas foram mais abertos um com o outro quando estavam em situações difíceis. Isso os aproximou mais.
— Como pode saber disso? Você não estava lá para ver – Ele cruzou os braços carrancudo – Meus irmãos falaram o que pra você pelas minhas costas? — Mordi a língua. Droga! Falei demais. A princípio, achei melhor guardar o segredo das memórias de Elijah. Porém, pensando bem, talvez pudesse ser útil para esses loucos e complicados se soubessem um pouco mais da perspectiva um do outro. Sem contar que Klaus poderia se utilizar disso para dar mais um passo à frente na sua relação ruim com a família. Esse último pensamento me convenceu a ser sincera.
— Não surte, ok? E nem conte para o Klaus tudo o que vou te dizer. Se disser a ele, vou negar até o fim e ajudo seu irmão a te colocar no caixão outra vez.
— Já está falando como ele – Revirei os olhos – Desembucha logo, loirinha.
— Uns meses atrás, Elijah e eu tivemos uma conversa reveladora – Falei devagar, analisando suas reações para saber o que eu poderia dizer ou não. Por incrível que pareça, Kol estava impassível, apenas me aguardando continuar – Eu queria saber mais sobre Klaus, sobre a vida humana dele e Elijah me mostrou algumas das suas memórias. E eu percebi que desde aquela época os três já eram bem confidentes. Sendo você e Finn um pouco mais distantes. Você era o mais novo, claro, não sabia como...
— Não quero arrumar desculpas para o meu comportamento omisso. Mas, você tem razão. Eu não sabia o que fazer – Ele murmurou sério me interrompendo – Minha forma de lidar com as agressões de Mikael era me escondendo o mais longe possível dele e dos seus ataques de fúria.
— É compreensível – Tentei ser condescendente, não estava aqui para julgá-lo, não tanto assim.
— É mesmo? Não achou que fui covarde? Porque até hoje tenho vergonha de ter me enclausurado em buracos enquanto meus irmãos apanhavam.
— Cada um lida com as desgraças ao seu modo. E você não podia fazer nada contra o seu pai. Só iria adicionar mais um ferido na lista.
— Eu sei, mas mesmo assim, mesmo sabendo a represália que sofreriam, Rebekah e Elijah defendiam Niklaus.
— Elijah nem sempre. Foi mais a Rebekah, para ser justa. Elijah também morria de medo de Mikael.
— Mas, ele não se escondia como eu – Ele mirou através do lago, mas sem realmente vê-lo, com o olhar há mil anos de distância – Eu ia para o lugar mais remoto possível da cabana e tapava os ouvidos, cantava para não ouvir nada. Ou às vezes saía correndo para a floresta, inventando um mundo novo na minha cabeça, encenando que éramos felizes. E quando Niklaus aparecia em retalhos, eu fingia não ver. Olhava para todos os lados menos na direção do meu irmão. Era doloroso demais vê-lo naquele estado, não podia suportar – Ele continuou sem me encarar — Eu sentia vontade de matar meu próprio pai e isso me amedrontava. Que tipo de filho pensa em matar o pai? Várias vezes eu pesquisei sobre venenos, sobre ervas poderosas, afinal, tínhamos uma bruxa debaixo do nosso teto e eu sentia uma forte inclinação para manipular as receitas misteriosas da mãe. Para mim, diferente do que era para os outros irmãos, era natural, fácil para aprender o que hoje eu sei que era magia. Aparentemente, ela fluiu em mim, mas reprimi ao máximo, com medo do que meu pai faria se descobrisse. Então, pensei que poderia utilizar isso para dar uma morte sem rastros para Mikael. Mas, sempre que eu chegava perto de cruzar essa linha, me acovardava com repugnância de mim mesmo por estar prestes a virar o assassino do próprio pai. Hoje, percebo o quanto eu teria poupado a minha família se tivesse seguido adiante com meus planos. Teríamos a chance de uma vida melhor com certeza. Eu cheguei a batizar a sua sopa com uma erva poderosa que o faria morrer dormindo. Mas, dei uma desculpa esfarrapada e joguei a comida fora, incapaz de vencer a minha covardia – Ele me encarou de olhos bem frios e vazios, porém eu pude sentir a sua dor. Era quase tão perturbador escutar isso quanto ter visto as lembranças. Quis dizer algo para confortá-lo, mas não tinha muito a acrescentar, não podemos mudar o passado. Mas, o futuro é um livro em branco.
— Alguma vez você confessou isso aos seus irmãos?
— Nunca. Imagine o quão ridículo seria.
— E por que está revelando a mim? Não somos amigos. Por que confiar essas informações tão vulneráveis a mim?
— Niklaus confia em você e isso já é muita coisa. E você já não viu, não foi? Duvido que não tenha visto na mente de Elijah às vezes que eu desaparecia de vista quando meu pai resolvia descontar as suas frustrações na nossa carne.
— Sim, vi uma parte, e também pude imediatamente concluir o motivo da sua ausência. Seu jeito de escapar do demônio do seu pai e da sua realidade foi totalmente plausível.
— Você é muito generosa, Caroline. Não precisa passar a mão na minha cabeça, pois reconheço que não mereço. Você pode me dizer o quanto despreza minhas atitudes. Não vou te matar por isso. Não posso. Niklaus me caçaria – Ele sorriu sem humor.
— Seriously? Sou apenas justa. Você e seus irmãos são pessoas terríveis quando decidem ser. Eu não esqueci a passagem turbulenta que fizeram por Mystic Falls nos últimos meses. Mas, são muito mais que isso. E já que estamos sendo sinceros...Acho de verdade que você deveria um dia contar tudo o que conversamos para os seus irmãos. Eles precisam saber como você se sente e como foi pra você naquela época. Cada um estava preso na própria bolha do sofrimento que não foi tão simples assim enxergar os pesares do outro. E nem sempre dá para adivinhar o que o outro sente, Kol, é necessário um diálogo aberto. Se ficar preso na fachada do estereótipo do sonso superficial, será somente isso que seus irmãos verão e você parece ser mais que isso. Precisa permiti-los verem quem você realmente é. Você sofreu que nem eles e se importa. Klaus acha que você é um idiota fútil e pirracento, então ignora, de forma insensível, os sentimentos que ele acha que você não tem.
— Niklaus é um babaca insensível com qualquer um. Rebekah vive gritando a plenos pulmões tudo o que ela sente e deseja e ele continua tratando ela que nem lixo. Não vai ser o meu desabafo desesperado e humilhante que o fará ser um irmão melhor comigo.
— Talvez não com ele, num primeiro momento. Mas, com Rebekah e com Elijah com certeza. Eles vão te ouvir e te respeitar. Sabe, Kol, não foi apenas por mim que Klaus destruiu o Outro Lado. Realmente acredito que a possibilidade de te trazer de volta foi um grande incentivo para ele ir até o final. Seu irmão não te odeia. Mas, vocês são loucos demais, se prejudicam de graça. E Klaus é o mais insano...sabe que com ele vai ser mais difícil se relacionar, vai demorar a convencê-lo do contrário sobre o que pensa de você, mas vai ter que ser paciente com ele se quiser o respeito que tanto busca.
— Eu que tenho que ter paciência? E ele é horrível comigo. Até mais do que com Elijah e com Rebekah. Por isso às vezes parece ser pessoal.
— Acredite, não é pessoal. Eu estava lá na casa da Elena, sabe, no dia que te mataram. Klaus se desesperou e ameaçou todo mundo de morte. E já notei, essa é a linguagem de amor dele, por mais caótica que seja. Então, se ele sente vontade de matar quem te feriu, é porque ele se importa com você de verdade, mesmo que seja frio e agressivo às vezes.
— Com você ele parece mais suave. Isso me deixa tão surpreso.
— Não duvido. Também demorei a digerir.
— Ora, foi inusitado. Mas, se ele é capaz de demonstrar algum sentimento, então não está totalmente perdido. Talvez só uns noventa por cento perdido.
— Qualquer um que é capaz de amar é capaz de ser salvo – Disse sorrindo para mim mesma.
— Isso soa muito poético e grotesco ao mesmo tempo – Eu ri — Eu disse a ele uma vez – Enruguei a testa esperando que continuasse – Não exatamente isso que te contei. Mas, quando fui buscá-lo em Alexandria, exigi que ele fosse mais aberto com os irmãos, porque não tínhamos como adivinhar o que ele sente, exatamente como você disse. Então, esse sou eu sendo um hipócrita que não segue os próprios conselhos. Quero que ele desabe seus pesares, mas não quero contar os meus.
— Acho bem idiota o jeito como vocês reclamam das atrocidades que fazem uns com os outros e logo em seguida vão lá e fazem outra merda. Tipo, dá pra serem mais burros que isso? Nunca vão parar o ciclo de violência nessa estupidez toda.
— Quem começa é sempre Niklaus. A gente só reage. Não podemos ter um minuto de paz e ele vai lá e estraga. Odeia que sejamos felizes sem que ele seja o centro de tudo.
— Ah, claro. Desculpe, você e seus irmãos são uns pobres e frágeis inocentes – Ele ia abrir a boca para responder com malcriação, mas o interrompi – Eu conheço o temperamento do seu irmão, eu sei que ele sempre inicia a desgraça familiar, mas você e os outros sempre iniciam a desgraça em outro lugar. Então, pare de chorar o quanto a vida é injusta com vocês.
— Já perdemos a sensibilidade, Caroline. Não faz mais diferença se os meros mortais sofrem ou não. E já estamos acostumados a uma vida miserável. Não esperamos mais a paz. Então, pra que perder a diversão? Mas, eu compreendo porque Niklaus está tão envolvido pelas suas fantasias. Como você mesma disse, é um um dispositivo de autopreservação. Mas, eu te digo, está se metendo numa grande encrenca ao virar a fonte de esperança de alguém tão quebrado.
Antes que pudesse responder, ele mergulhou de volta, sumindo e me deixando sozinha de boca aberta. A diversão tinha acabado pra mim, perdeu a graça. Não esperaria por ele, não sou uma palhaça. Sem me dar conta do horário enquanto estávamos engajados nessa conversa tão singular, não percebi que a noite tinha caído. Olhei em volta, perplexa, percebendo que a luz que chegava em mim provinha de várias e altas luminárias em volta da casa. Nadei até o píer e subi a pequena escada de madeira, remoendo cada palavra que Kol jogou sobre mim.
Então, era assim que Klaus me enxergava? Eu representava algo que ele perdeu há muito tempo, como inocência e simplicidade. Beleza genuína, lembrei de suas enigmáticas palavras. E o que ele representava pra mim? As palavras ecoaram imediatamente na minha cabeça. Poder. Grandeza. Minha ambição ainda me levaria para maus bocados, podia prever. Nossos anseios eram opostos, mas ainda assim tão complementares. Ele precisava da minha simplicidade e eu precisava da sua grandiosidade. E mais uma vez eu sentia total certeza de que queria ficar com ele. Me sentia completa, preenchida. Uma paixão avassaladora, que poucos tinham a sorte e a proeza de viver. As palavras de Kol não me assustaram, surtiram o efeito contrário. Fiquei mais tentada ainda a explorar esse caminho fascinante.
Caminhei apressada pelo deck até à mesa, guardei meu celular no bolso da calça ensopada e peguei as escadas circulares do exterior, que levavam até a varanda de cima, sem precisar dar voltas por dentro da casa. As portas amplas de vidro do meu quarto ainda estavam meio abertas. Deixei um rastro d'água na madeira por onde eu passava, me sentindo culpada por isso. Entrei no cômodo do closet, à procura de novas roupas limpas e secas. Um banho de espuma seria bem-vindo. Agora eu teria tempo de relaxar naquela banheira incrível. Sem mitigar mais a espera, corri até o banheiro. Mas, ao abrir o armário de vidro e espelhado, em busca de algum sal delicioso de banho, senti meu telefone vibrar. Era Stefan. Seu nome no visor aparecia do início ao fim, na sua incessante tentativa de se comunicar comigo. Queria saber se eu estava viva. Para dar algum sinal caso estivesse sendo mantida a força aqui, pois assim viria me buscar. Sorri. Pelo menos alguém se lembrava de mim. Respondi rapidamente que em breve ligaria para ele e que suas preocupações eram desnecessárias. E que se quisesse me tirar daqui, teria que passar por cima do chiuaua Mikaelson. Abri as muitas torneiras douradas, joguei os sais na água e logo o ambiente estava dominado pelas essências florais. Passei as mãos na espuma e senti a água bem quente. Sem esperar mais, me despi e mergulhei encostada na banheira. Que delícia. Imediatamente senti cada poro do meu corpo ser liberado de toxinas. Era quase mágico. Relaxei de olhos fechados e pensei...como seria bom ter Klaus aqui. O que ele pensaria ao me ver nua tomando banho na casa dele? Tenho certeza de que iria adorar me acompanhar. Senti meu corpo esquentar mais que a água e passei as mãos suavemente pelas minhas coxas, dando leves apertões. O que ele estaria fazendo agora? Subi as mãos até meus seios e...Meu telefone vibrou de novo. Bufei irritada com Stefan, que quebrava minha fantasia nada ortodoxa. Eu disse que em breve ligaria, não precisava ficar no meu pescoço. Me estiquei para pegar meu telefone que deixei na espreguiçadeira bem ao lado da banheira e levei um susto quando li a mensagem.
Já estou em Mystic Falls. Em breve estarei em Barcroft.
Deixei o telefone cair ao ver o nome dele na tela logo acima. Com o coração na boca e um arrepio gostoso no estômago, agarrei o celular e comecei a digitar de volta, mas parei assim que notei minhas mãos tremendo. Se acalme, Caroline, senão vai falar besteira. E o que eu diria? Finalmente. Estava morrendo sem poder te ver? Não, que ridículo. E quando será esse breve? Não, apaguei outra vez. Nada parecia apropriado. Então, percebi. Não precisávamos mais trocar mensagens quando eu poderia falar com ele pessoalmente tudo o que eu sentia. Ele estava de volta. De volta pra mim.
Sorrindo largamente e com o coração a mil, saí às pressas da água e me enrolei no roupão branco. Precisava chegar em Mystic Falls o mais rápido possível. Corri pelo banheiro e acabei escorregando um pouco no mármore branco, mas me segurei na parede. Há muito tempo não sentia essa expectativa toda. Sentia na pele que ardia, nos leves tremores e, claro, no coração que quase saltava pela boca. Corri até o closet e vesti qualquer coisa, pensando que era o bastante. Então, me olhei no espelho e não fiquei satisfeita. Troquei de roupa de novo e de novo. Queria ficar bonita, atraente, mas sem dar na cara que me arrumei muito pra ele. Eu só trouxe roupas básicas, pensei com tristeza e em desespero. Não imaginei que precisaria de um vestido sexy ou de um dos meus conjuntos românticos. O que eu faria? Retirei todas as minhas coisas do armário na esperança de encontrar algo decente, mas nada me agradava. Argh! Joguei longe uma calça preta e sem graça, extremamente frustrada. Até que avistei um vestido bege clarinho de renda amontoado nas blusas. Poderia servir. Sorri alegre e peguei a roupa. Ele era mais justo em cima, com decote em v, e a saia era rodada e plissada, até o meio das coxas. Serviria, com certeza. Hoje estava calor, então não precisaria de um casaquinho, sendo uma ótima desculpa para me mostrar pra ele. Enquanto me vestia, me olhava no largo e alto espelho preso à parede, pensando no que fazer com o cabelo. Usava algum acessório, uma presilha como naquele evento de inverno, ou os deixava soltos e livres? Eu costumava passar um tempo criando ondas charmosas e sofisticadas nele, mas hoje não tinha esse tempo. E sobre a maquiagem... passei as mãos nervosamente na minha bolsinha de acessórios em busca de algo... mas, não tinha quase nada, larguei tudo em Mystic Falls no meio do desespero e da preocupação com a minha mãe. Minha mãe! Levantei a cabeça assustada e surpresa. Tinha me esquecido dela. Será que ainda dormia ou só estava em silêncio para se esconder no quarto? Antes de eu ir, daria uma olhada rápida nela. Era mesmo uma boa ideia deixá-la aqui com o imbecil do Kol? Mas, depois da nossa sincera e reveladora conversa, senti que eu poderia confiar um pouco nele. Ele estava cooperando conosco, mesmo que por interesses próprios. E além do mais teria que se preparar para o castigo que receberia dos irmãos se nos tratasse mal... tratei de me convencer enquanto passava um batom rosa clarinho e um rímel preto. Não era o melhor do meu arsenal, mas ao menos ajudou a melhorar a cara pálida.
Respirei fundo, tentando controlar os nervos. Não podia mais adiar. E também queria desesperadamente acabar logo com esse suspense.
Passei pela casa correndo na velocidade vampírica até o quarto da minha mãe. Suspirei pesadamente pensando na desculpa que daria para a minha ausência. Mas, a verdade é que não tinha muito o que dizer ou fazer. Se ela me questionasse, eu diria a verdade.
Abri a porta do quarto lentamente, não queria perturbá-la se ainda estivesse dormindo, pois já era tarde da noite. Olhei no telefone e já passava das nove horas. Não é possível que eu tenha gastado esse tempo todo. Minha mãe gostava de dormir cedo, e agora provavelmente estaria mais suscetível ao sono pela quantidade excessiva de analgésicos fortes. Minha dedução estava certa. Ela dormia tranquilamente, com o celular ainda na mão sobre o peito. Sorri com carinho, me aproximando dela para cobri-la mais. O ar condicionado central voltou a funcionar e o quarto estava ligeiramente frio. Mexi nos controles para deixar o clima mais agradável enquanto retirava o celular de sua mão suavemente. Li na tela que se tratava de mensagens sobre trabalho na delegacia. Minha mãe não era capaz de largar o osso sob nenhuma circunstância. Mas, ela não sairia dessa casa se eu pudesse evitar. Notei uma bandeja com comida, mas estava intocada. Quando eu voltasse, a obrigaria a se alimentar, nem que eu mesma tivesse que dar comida em sua boca. Dando uma última olhada nela e respirando aliviada por não precisar enfrentá-la a respeito de Klaus, saí apressada do quarto.
Eu precisava vê-lo. Hoje. Agora. Senão eu surtaria.
Sei que não seria nada prudente deixar Barcroft no meio da noite e voltar para o cerne da desgraça de Mystic Falls, mas era urgente que eu pudesse finalmente conversar com Klaus e essa era uma ótima chance de ficarmos sozinhos para falarmos tudo abertamente. Então, que ele não fizesse nenhum show pela minha presença tão tarde em sua casa, pois eu bem sabia o discurso barato sobre a minha segurança que ele faria. Revirando os olhos, mas sorrindo, resolvi mandar uma mensagem para ele avisando que eu estava a caminho. Era melhor assegurar que ele estivesse bem quietinho em casa quando eu chegasse, assim nos pouparia de desencontros.
Gostaria de entender por quê não veio direto pra cá. O que precisava fazer com tanta urgência nesse museu que você chama de casa para me deixar te esperando por aqui? Pois bem, não vou ficar plantada aguardando a sua boa vontade de dar as graças. Em uma hora estarei aí. E nem tente me impedir. Melhor para nós que nosso encontro seja privado, não acha? No fim das contas, até que foi bom que não tenha aparecido.
Terminei de escrever após apagar várias tentativas medíocres de mandar uma mensagem decente enquanto cruzava os corredores do segundo andar. E a resposta veio quase instantaneamente.
Eu destruo o Outro Lado para te trazer de volta e te manter segura e você simplesmente ignora tudo e se lança na toca do leão. Não é o momento de ser a típica birrenta. Que eu saiba, Barcroft está servindo como um esconderijo seguro e por isso deve ficar. Daqui algumas poucas horas estarei aí para te buscar. Não venha sozinha para Mystic Falls. Também estou ansioso para te ver, você sabe bem, mas pra isso você precisa estar viva primeiro.
Ao ver a mensagem dele, senti um arrepio na pele e um frio na barriga. Sorrindo de orelha a orelha, respondi o mais rápido possível ao descer as escadas.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Tarde demais, já estou a caminho – Imediatamente escutei o sino tocar.
Caroline, por que você me provoca? Parece que gosta de me tirar do sério.
Respondi sorrindo de orelha à orelha:
Talvez eu goste mesmo... você faz uma carinha sexy quando está mal-humorado – dessa vez ele estava demorando a responder e isso me fez ficar agoniada de expectativa. Então, saí correndo na velocidade vampírica com o único intuito de chegar logo no carro.
Ao passar pela sala, avistei Kol sentado na poltrona, todo largado, com os pés sobre a mesa grande de madeira de centro, segurando uma tacinha de tequila. Ele sorriu pra mim, mas dessa vez sem deboche, sem malícia.
— Vai sair, loirinha? Está se opondo às regras da casa.
— Até onde eu saiba, não sou nenhuma prisioneira. Preciso resolver questões urgentes em Mystic Falls, não vou demorar. Você poderia me fazer essa enorme gentileza de vigiar a minha família mesmo se eu não estiver aqui? Eu sei que não é a sua obrigação, mas Rebekah...
— Não se preocupe, Caroline, eu não vou esvaziar as bolsas de sangue que você chama de família. Nem mesmo infernizá-los. Ficarei na minha — uau, estávamos diante de um milagre.
— Obrigada — agradeci aliviada, lhe dando às costas.
— Mas, se ela acordar, devo dizer a verdade sobre esses negócios secretos em Mystic Falls? Duvido muito que ela vá gostar muito da resposta – Ele sabia! Fiquei calada, me virando pra ele perplexa. Será que ele estava invadindo a minha mente sem eu perceber? — Não é preciso ser um gênio para eu saber que está indo atrás de Niklaus. Eu sei que ele já está naquele fim de mundo – Enruguei a testa o indagando — Ele me mandou mensagens me ameaçando de morte caso eu não faça meu trabalho direito e me avisou que já estava de volta para cumprir as ameaças pessoalmente — ele levantou a garrafa de cerveja num brinde — Enfim, só mais um dia na vida dos Mikaelson.
— Ele não vai te matar, Kol. Só quer te colocar medo – Revirei os olhos com o drama. Kol era muito chorão.
— Dê um abraço apertado no meu irmão por mim. Diga que estou esperando ansioso que ele apareça logo em Barcroft. Mas, quanto mais ele demorar, melhor. Então, o mantenha bastante ocupado por lá, se é que me entende – Me deu uma piscadinha maliciosa e respirei fundo, tentando ganhar alguma paciência com esse babaca. Mas, não ficaria aqui discutindo com ele, não agora.
— Apenas diga a minha mãe que fui tentar trazer os outros pra cá. Não é justo somente nós termos a chance de nos protegermos.
— Isso não é verdade, né, Caroline? Era só o que me faltava, ser outra vez babá daqueles piolhentos.
— Até breve, Kol – E lhe lançando um último olhar desafiador, corri até o carro.
Olhando em volta a paisagem monótona e respirando o ar fresco, não detectei nenhum sinal de ameaça. Ótimo, sem contratempos nos meus planos. Quando entrei no veículo, o sininho agudo do meu celular apitou.
Eu vou te encontrar no meio do caminho, já que a sua teimosia prevalecerá.. Estou saindo agora.
Me apressei a responder:
Não. Eu preciso fazer outras coisas na cidade. Quando eu chegar, vou te avisar. Tenho assuntos particulares para resolver.
Escrevi com os dedos trêmulos. Na verdade, precisava de tempo para pensar e me recompor, pois Klaus me deixava nervosa. Mesmo assim, algo dentro de mim estava em paz. Mesmo com o sangue borbulhando, com os sentimentos embaralhados em meio ao caos da ansiedade, me senti mais segura que nunca. Disparei com o carro esporte cantando os pneus, sorrindo de orelha a orelha, enquanto ouvia o som do meu coração mais agitado que nunca. Mas, dessa vez, não houve resposta no celular. Ou ele correu para me encontrar ou estava tão desnorteado quanto eu com o fato de que em breve nos veríamos após meses de tortura.
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Klaus
Algumas horas antes
Antes de sair que nem um desembestado atrás do próximo vôo, tive uma ideia. Talvez ela gostasse...
Busquei no celular a loja Cartier mais próxima, na esperança de encontrá-la aberta. Já escurecia, mas nem tudo naquela cidade diminuía o ritmo quando as luzes abaixavam e eu estava contando com isso. Bem no centro comercial da cidade, de volta ao French Quarter, estava o meu presente para Caroline, uma ideia simples que me surgiu, mas que também expressava a preciosidade desse momento com ela, simbolizado através do meu jeito de apreciá-la. Estacionei de frente pra loja, enquanto comprava uma passagem pelo celular. Isso de voo comercial já me cansava. Estava mais que na hora de eu ter meu próprio jato. Veria isso outro dia, mandaria Elijah comprar. Mas, agora questões mais importantes requerem a minha total atenção. Saí do carro e entrei na loja, sem me preocupar com mais nada. Hoje à noite não existia na minha cabeça a ideia de inimigos à espreita, nem mesmo estratagemas para vencer a luta contra Marcel. Não, não. Hoje minha mente estava livre, leve e admirando as belas joias da vitrine.
Automaticamente dois atendentes com sorrisos largos e falsos vieram me rodeando feito urubus em cima de carniça. Apenas fui educado, suprimindo minha irritação com tamanha incapacidade.
Rondei pelas prateleiras, analisando atentamente cada uma das joias. Eu precisava de uma que descrevesse a personalidade de Caroline, que combinasse perfeitamente com sua pele de porcelana e com a sua alma brilhante e entusiasmada, e ao mesmo tempo mostrasse o quão importante ela era pra mim. Olhei atentamente cada uma delas, expostas nos mais diversos designs, mas nada pareceu estar à altura dela. Imaginei que a filial no bairro francês fosse mais diversificada, mas estava muito simples, muito banal. Foi quando pensei...no meu magnífico arsenal, lá em Mystic Falls, jaziam as peças mais raras e valiosas que o mundo já viu. Objetos que já foram de reis e de rainhas, assim como as mais belas jóias Reais, umas que nenhum museu e nenhuma joalheria jamais colocaria as mãos. Algumas delas seria melhor que esse antro decepcionante e estaria a altura de Caroline. Então, acenei em despedida e me apressei para fora da loja.
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Já dentro do avião, pedi uma garrafa de chardonnay, precisava de algo para me acalmar. Sem perceber, virei quatro taças de uma vez quando senti levemente o efeito. Era melhor parar por aqui, não queria me embebedar. Passei a viagem toda inquieto, me remexendo na cadeira, passando as mãos no rosto e no cabelo. Tamborilava os dedos no descanso do braço e isso fez a mulher de meia idade sentada ao meu lado me lançar olhares mal-humorados. Sorri cinicamente para ela quando me pegou de surpresa ao falar:
— Muitos realmente têm medo de voar. Mas, é estatisticamente mais seguro que andar de carro — Levantei as sobrancelhas achando graça. Mas, ela entendeu de outra forma — As chances de morrer em um avião são de cerca de 1 em 205.552, em comparação com 1 em 102 em um carro, até os dados desse ano — Ela sorriu sapecamente — Eu sei disso porque sou engenheira aeronáutica. Trabalho fabricando aviões.
— Acredite, querida, minhas preocupações passam longe de morrer numa queda de avião.
— Algum drama te aguarda em terra firme, então — ela passava algumas páginas da sua revista — porque você parece prestes a ter um síncope.
— Digamos que seja isso — voltei a beber, para aturar essa conversa sem me irritar.
— Compreendo. Pareço calma, mas estou tentando aguentar as expectativas também. Minha filha vai se casar, estou viajando por isso, e eu preciso fazer um discurso de como o casamento é uma benção ao mesmo tempo que terei de contar-lhe sobre meu divórcio com seu pai que, a propósito, já está em outra.
— Ela vai sobreviver e você também — respondi seco, mas irônico — Ao contrário dos acidentes aéreos, divórcios são bem comuns.
— Espero que mesmo assim você consiga se desviar dele. É uma tragédia doar tanto da sua vida para não dar em nada. A gente pensa que encontrou uma parceria para o resto da vida e essa pessoa vira uma estranha com o passar do tempo. Até mesmo é desleal da pior forma possível. No mínimo deveria sobrar a amizade ou a consideração. Mas, nem isso. Assim fica difícil manter as esperanças — Olhei de soslaio para ela, incrédulo que teria que passar a viagem toda ouvindo alguém chorando as suas lamúrias — E na minha idade é pior. Quanto mais velho, pior fica. Vai por mim. Você ainda é jovem, talvez ainda não entenda o que eu queira dizer pois consegue aguentar o tranco e seguir em frente. Mas, depois o coração e alma ficam cansados demais — até que ela me encarou, parecendo realmente me enxergar pela primeira vez — Mas, e você, parece alguém sério, tão centrado. Tem alguém especial para quebrar essa seriedade toda, trazer alguma alegria na vida? Não se guie pelo meu discurso amargurado, não, não. Nós fomos felizes por bastante tempo, sabe. Eu dirijo uma super empresa, viajo pelo mundo, mas meus melhores momentos foram com a minha família. Então, acredite quando eu digo que não só de negócios vive uma pessoa. Ter um lar caloroso para voltar todos os dias é o que dá sentido à vida — Surpreendentemente, essa estranha parecia genuína em sua preocupação. Abaixei a cabeça e sorri, pensando em Caroline. Pois a analogia não deixava de ser curiosa. Mystic Falls um dia muito distante foi meu lar e agora eu corria pra lá na esperança de ser outra vez, mas por razões muito diferentes.
— Bem — senti vontade de ser sincero — espero ter encontrado o meu lar. Acho que tenho alguém especial me esperando.
— Acha? Por Deus! O que é preciso para ter certeza?
— Que ela me diga.
— Então, corra até ela e pergunte, ora. Não fique esperando sentado. A vida é muito curta para isso. Mas, sabe, às vezes não precisamos de palavras — a encarei ávido por mais — Basta um gesto, um olhar e você...simplesmente sabe. Se essa moça espera por você, se retribui seus sentimentos, estará estampado em seus olhos brilhantes só de te ver de novo.
— Assim eu espero. Há muito tempo espero.
— Então, vai pedi-la em casamento? — Ela perguntou entusiasmada. Eu ri sem graça.
— Não...Estamos muito longe disso — Humanos e suas ideias....
— Ah, se for o seu verdadeiro par, não vai demorar muito. Quando o coração chama, ele só chama e você vai.
— Belas palavras. Servida? — Ofereci champagne a ela, que aceitou alegremente. Ela brindou à vida e às suas peripécias enquanto eu sorria estranhamente contagiado por seu bom humor.
Nossa conversa permaneceu fluida. Ela era animada e gentil, não senti dela nenhum pingo de malícia. Enquanto tagarelava sem parar, não pude deixar de imaginar como seria viver dessa forma como os humanos e suas preocupações tão mundanas.
— E seus pais? — Ela me pegou de surpresa. Senti meu rosto gelar — Não pode ser tão sozinho na vida assim. Parece que carrega o peso do mundo nas costas de tão tenso.
— Eles estão mortos — Tomei um gole da bebida. Era a mais pura verdade. A Esther e o Mikael que conheci tinham morrido séculos atrás — Não gosto de falar do assunto. Não me traz boas memórias.
— Oh, me desculpe. Nem vou continuar isso, então. Só é uma pena que esteja tão sozinho.
— Tenho irmãos — Não eram grande coisa, mas pelo menos não ficava tão solitário.
— E tem essa moça — Ela me cutucou de novo — Sua expressão muda da água pro vinho quando existe alguma menção a isso — Sorri sem me conter.
— Me pegou. Não consigo disfarçar, não é?
— Nem um pouco. Me diga mais sobre isso. Falei tanto da minha vida que só agora percebo o quão inconveniente posso ter sido. O que te traz tão longe de casa assim? Pelo o que me disse, sua casa fica no interior. Veio a New Orleans a negócios?
— Podemos chamar de Negócios.
— Você é tão enigmático. Só me deixa mais curiosa — Sorri sem dar mais detalhes — Vamos lá. Faça feliz essa pobre senhora desiludida. Me relate uma história de amor a nível de contos de fadas.
— Olha, eu não posso dizer que chegue a tanto. Começou de um jeito tão conturbado. Ela me detestava. E eu, bem, não sou exatamente o bom amigo da vizinhança.
— Ah, claro. De Inimigos para amantes. Sempre o melhor tipo. É mais emocionante, não acha? Quando tem guerra no início, é certeza de que se vier o amor, será para sempre — A encarei surpreso — Se foram capazes de superar o próprio ranço mútuo, mais importante e difícil ainda, se foram capazes de engolirem o próprio orgulho, não há mais nada que possa separá-los. A parte mais difícil é a aceitação. Imagina só, amar quem você odeia. A negação costuma ser a medida de autopreservação, sabe. Mas, o coração tem razões que a própria razão desconhece. Ah, não ligue para mim, já li mais romances do que você possa contar. Jane Austen já é uma velha amiga.
— Mas, você está prestes a testemunhar um verdadeiro contos de fadas se entendi bem — Ela não me entendeu — Sua filha vai se casar — ela suspirou pesadamente antes de responder.
— Ah, isso — Ela bebericou o champanhe — A minha caçula é uma desmiolada. Ela passou bem longe de encontrar o príncipe encantado. Alexander, meu futuro genro, é um crápula, dos piores — imagine o que ela diria se soubesse do meu histórico — tenho plena certeza de que os interesses dele na minha filha vão além dela. Claramente, minha filha não é a prioridade dele. Você sabe quando alguém te ama, quando você vem em primeiro lugar — meu estômago deu uma reviravolta.
Ela continuou a me questionar sobre todos os temas possíveis, querendo saber tudo sobre a minha vida. Extremamente curiosa, não me incomodou tanto a sua intromissão pois sua gentileza e bom humor suprimiram a falta de noção. E eu, bem, não era um livro aberto para quase ninguém, mas estava entretido na conversa com ela. Eu queria contar...queria que alguém soubesse o quão feliz eu estava. E se eu nunca mais fosse vê-la, melhor seria, pois não me conhecia para que me julgasse. Falar abertamente sobre meus sentimentos a respeito de Caroline ainda era dificultoso, pois nem eu entendia bem o que se passava comigo. Mas, meu peito estava cheio e eu queria explodir de tanto ter que guardá-los a sete chaves. Então, ser sincero e me confessar para essa mulher estranha foi inusitadamente prazeroso, de tal forma que me senti aliviado.
Quando finalizamos a descida até o aeroporto de Washington D.C., a acompanhei até o portão de desembarque, pois, ao contrário de mim que não trouxe nada, ela despachou diversas malas que ainda precisavam ser retiradas. E eu, bem, por mais louco que pareça, queria continuar ouvindo seu tagarelar positivo sobre mim.
— Perdão, mas não me disse seu nome — perguntei realmente curioso. Suas palavras me impactaram.
— Ah, meu querido, mil desculpas. Me chamo Esther. Esther Nosleakim. Eu sei, é um sobrenome estranho. Meu ex marido é da Noruega — me espantei. Sem dizer nada, apenas analisava seu rosto moreno — pelo menos em breve voltarei ao meu nome de solteira. O que foi? Parece que viu um fantasma — Após voltar do transe, sorri ironicamente. Em breve eu veria muitos deles — Enfim, foi um prazer imenso conversar com você. Reacendeu meu espírito. Talvez ainda haja esperanças para mim, afinal.
— Acredite, há. Pode-se levar muito tempo para achar o que precisa — Meus mil anos estavam aí para provar.
— Devo me apressar — ela contava as malas no carrinho — minha filha está uma pilha de nervos. Precisa do calor que só uma mãe pode dar. Então, queira me dar licença, senhor Mikaelson. O dever me chama. Mas, principalmente, meu coração me chama.
— Pode me chamar de Klaus. Você precisa de um carro para voltar para casa? Consigo um bem rápido para você.
— Ah, é muita bondade sua. Mas, o motorista da minha filha vem me buscar. Não se preocupe — ela parou me analisando — Não digo apenas sobre o carro, me entende? Vai ficar tudo bem para você. Não precisa sofrer por antecipação. Os jovens de hoje sempre tão aflitos, como se tudo fosse caso de vida ou morte. Mas, tudo tem o seu tempo, sabe? — acenei concordando — Então, vou ficar na torcida. Você me parece ser um bom rapaz. A sua garota tem sorte de ter você. E se ela ainda não percebeu isso, faça com que ela veja — Ela sorriu, se despedindo de mim. Apertou meu ombro carinhosamente e se foi.
Estranhamente, senti um pesar, uma perda enquanto a assistia se afastar. Mirava suas costas enquanto vagava no vazio que ela deixou.
Eu nunca saberia, mas talvez fosse assim ter uma gota de amor maternal. Alguém gentil para te aconselhar nas horas mais escuras, para te amparar não importa o que aconteça. Ironicamente essa Esther não era a minha mãe, pois a minha genitora provavelmente estava nesse momento planejando algum golpe mortal contra mim. Que outra vida eu teria se tivesse nascido nesse século e nessa outra vida? Teria uma família comum, com almoços de domingo e risadas alegres, sem mortes, sem sangue nas mãos. Talvez, nesse momento, eu quem estaria me casando com alguém que se misturasse na multidão, conformado e feliz com uma vida mundana, esperando minha mãe chegar de viagem para acalmar meu nervosismo pré-nupcial. Numa realidade alternativa, em outro universo talvez exista um Klaus se preparando para se estabelecer com uma humana. Mas, apesar de desejar arduamente por uma família amorosa e unida, não trocaria o que tenho por nada. Então, pensei com toda certeza, eu viajaria outros mil anos de terror se soubesse que encontraria a minha Caroline Forbes lá me esperando após os séculos intermináveis. Não desejaria a vida de mais ninguém se isso me tirasse do seu caminho. Talvez para eu ter a minha felicidade verdadeira no final tivesse que ser filho de quem sou e só por isso não amaldiçoaria minha linhagem familiar. Estava feliz por cada dia de inferno que passei, pois eles me trouxeram até aqui, nesse aeroporto, de volta à fatídica Mystic Falls. Mas, pensando melhor, ainda que eu nascesse em outro mundo, meus instintos me levariam até ela com certeza, pois eu amaria Caroline em qualquer universo.
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