Scarlet Dynasty - Klaroline
13 The Other Side Of Me
Notas iniciais
Klaus
Dirigia um Dodge Charger, tentando forçar o máximo que podia seu motor. Quase sentia pena do dono do carro por ter "perdido" um desses. Mas, ele deveria entender. Eu expliquei que se tratava de um caso de vida ou morte. E certamente seria a morte dele se tentasse me desafiar. "Claro que vou devolver", lhe assegurei. Não preciso roubar nada de ninguém, muito menos um carro velho. Mas, até que ele era potente. Fez muito sucesso na década de setenta, como me lembrava muito bem.
Meus nervos estavam à flor da pele e minha ansiedade aumentava à medida que me aproximava da fronteira de Mystic Falls. Levei algum tempo correndo na estrada até a sorte resolver agir ao meu favor e me colocar no caminho esse carro. Já deveria ter se passado mais de uma hora e Elijah não atendia minhas ligações, era como se o telefone estivesse no "mudo", o que contribuía mais ainda para a minha paranoia e possessividade. No entanto, sempre fui um homem de instintos aguçados. Eles quase nunca me falhavam. Dessa vez eu não estava sendo paranoico.
Quando, finalmente, me deparei com a placa inútil de Boas Vindas àquela cidadezinha chata, comecei a me sentir aliviado e turbulento em igual proporção. Tentei pela milésima vez algum contato com meu irmão imprestável, mas, nada. O ódio já estava me subindo à cabeça por essa falta de resposta de Elijah. Eu precisava saber onde eles estavam. Era vital que me mantivesse atualizado e agora ele simplesmente havia sido tragado pela Terra.
No que me pareceu serem dois terços de hora após a fronteira, estacionei freando bruscamente e cantando os pneus em frente à casa dos Salvatore, último lugar onde Elijah estava quando falei com ele ao celular. Saí apressadamente batendo com força a porta do carro e entrei na casa, que estava estranhamente silenciosa. Já havia anoitecido fazia algum tempo e o interior da casa estava um breu. Parei para observar enquanto me adaptava à escuridão e apurei minha audição vampírica a fim de encontrar algum ruído, imperceptível aos ouvidos humanos, no resto da mansão. Nada. Silêncio absoluto. Isso me trazia um mau agouro.
Não fazia a menor ideia de onde estavam, mas, tampouco eu poderia ficar sentado esperando alguém chegar, era contra todos os meus instintos depender do acaso, depender de mais alguém. Me senti preso, de mãos atadas e isso me deixou louco. Por fim percebi, muito contrariado, que não havia nada que eu pudesse fazer a não ser esperar. Só o que me restava era aguardar a chegada de meus irmãos e isso seria melhor fazer na minha casa.
Peguei o caminho de volta até o carro emprestado, a fim de acelerar até a minha mansão. Talvez já estivesse alguém lá com alguma notícia, pensei sem muita acreditar de verdade nisso. Tal pensamento foi menos ainda capaz de acalmar meus nervos. Nenhuma situação de que eu não possuísse o controle seria capaz de me dar alguma boa sensação ou me trazer conforto.
Peguei meu telefone, lembrando que daquela vez em Alexandria Kol me encontrou porque rastreou meu meu carro com ajuda do celular. Tentaria fazer o mesmo com Elijah. Ativei o logo do GPS, redirecionei para o número e esperei que ele localizasse o carro do meu irmão. Para o meu parcial alívio, o aplicativo me forneceu algumas coordenadas e uma imagem de satélite. Reconheci o lugar. Estranhamente o local parecia pertencer à encosta da floresta Hillwood, à leste de Mystic Falls. Meu cérebro ficou alguns segundos trabalhando na estranheza da situação até eu me decidir que de estranho aquilo não tinha nada. Não nas circunstâncias atuais. Não naquela cidade fudida até o pescoço com o sobrenatural.
Descansei o celular no painel próximo ao volante, a fim de ficar de olho na tela do aparelho. Girei o carro na direção que o GPS indicava e acelerei o máximo que pude. O silêncio no interior do carro só era quebrado pelo ruído dos motores e o barulho frenético, que pude ouvir com clareza, das batidas fortes e descompassadas do meu coração. Tal constatação me fez sorrir involuntariamente. Certa vez, ao que parecia há uma eternidade, quando Silas me fez acreditar estar ferido pelas farpas da Estaca de Carvalho Branco no meu peito, Caroline havia feito um comentário sarcástico e maldoso:
Oh, meu Deus. Você tem mesmo um coração.
Só mesmo as gracinhas dela para me distrair do medo da morte.
Estava perdido nos meus devaneios com uma figura loira quando, através da visão periférica, fui chamado atenção por uma atividade no telefone; o ponto indicado pelo GPS começou a se mover. Isso me sobressaltou e me deixou alarmado. Significava que Elijah, ou quem estivesse com seu carro, estava mudando de rota. Ao que parecia, estava retornando para o centro de Mystic Falls, por um caminho diferente do meu. Isso me irritou bastante. Eu já estava demasiado ansioso e extremamente instável para que pudesse sair por aí dando volta na cidade a seguir meu irmão. Talvez agora esse maldito atendesse a porra do celular. Dedilhei a tela do aparelho enquanto dirigia apenas com a mão esquerda e coloquei no viva-voz. E mais uma vez aquele silencio total. Bati com as mãos no volante com raiva e xinguei o mundo, tentando externar toda a minha exasperação e frustração. Tratei de seguir, completamente consternado, o pontinho que indicava o seu trajeto e para, finalmente meu alívio, ele indicava a minha casa. Agora eu teria minhas respostas.
Depois que pareceu uma eternidade, cheguei na minha casa a todo vapor, descendo do carro quase não esperando ele parar totalmente. Constatei aliviado o carro preto e social do meu irmão parado em frente à entrada principal. Corri na velocidade vampírica, ainda sentindo fortemente no corpo os vestígios do ataque daquela bruxa filha de uma puta. Ao entrar no Hall, andei apressadamente e um tanto furioso. Meu irmão imprestável ainda me devia muitas explicações pelo sumiço, por ter me deixado no escuro total.
— Elijah! – Berrei a plenos pulmões, enquanto voltava à velocidade normal e caminhava a passos duros e largos pelos corredores da mansão. Apenas ouvi sua voz irritantemente calma proferir "Estou na biblioteca". Inspirei fundo o ar e, descontroladamente, fui com tudo até aquele aposento. Ele iria escutar, ah, ia.
Cheguei lá e o vi parado de frente para a lareira, de costas para a entrada. Me aproximei dele e pude ter uma visão mais ampla da sua figura; Possuía o corpo ereto e rígido, com as mãos nos bolsos da calça preta social. Seu comportamento evasivo me irritou mais ainda. Então, numa olhada mais atenta, notei que ele mantinha os olhos fixos no fogo e parecia alheio ao ambiente, como quem perde a lucidez e noção de tempo e espaço. Sua expressão me chocou por uma fração de segundos, mas logo me recuperei e decidi ignorar o seu comportamento dramático.
— Posso saber por que estou há horas tentando algum contato com você e não recebi nada? – Falei entredentes, me controlando para não gritar. Perder as estribeiras seria fácil. Minha paciência já tinha sumido fazia tempo. Ele nada respondeu. Continuou como a estátua que encontrei, com o semblante desfocado da realidade. Minha vontade era de enfiar alguma coisa nele para fazê-lo despertar.
— Elijah, estou falando com você! – Gritei, não podendo mais suportar esse mistério agoniante. Ele se virou para mim lentamente, mas sem, de fato, me encarar.
— Não ouvi nenhuma ligação. Deveria estar sem sinal, suponho – E essa foi sua a resposta genial e completamente irritante. Eu estava prestes a soca-lo. Ele olhava fixamente para um ponto atrás de mim, mas não parecia realmente vê-lo.
— Você pode me explicar o que houve depois de termos nos falado pela última vez? O que aconteceu com a bruxa? – Falei irritado. Ele já deveria estar fazendo isso desde que cheguei. Nada respondeu – Mas, que merda, Elijah! Será que você perdeu a pouca sanidade que te restava?! Me responde! – Gritei enquanto lhe dava um empurrão vampírico, que o fez voar até as estantes abarrotadas de livros. Ele caiu sobre elas causando um estrago; livros e mais livros despencaram de seus lugares se espalhando pelo chão e as impecáveis e caras estantes de carvalho escuro se partiram em diversos pedaços.
Contudo, isso finalmente pareceu despertá-lo. Ele se levantou num sobressalto e me olhou com fúria. Isso, Elijah, acorda, pensei enquanto o encarava devolvendo o ódio mortal.
— Você quer saber, Niklaus? Quer realmente saber? – Ele falava um tanto alucinado e enraivecido, bem diferente do Elijah polido e controlado – Nós perdemos.
Franzi o cenho, enquanto a confusão emaranhava meu cérebro. Meu estômago começou a revirar à medida que fui processando e tomando entendimento do que ele disse. Minha garganta secou e as extremidades do meu corpo começaram a formigar e essas poucas e simples palavras desencadearam uma raiva descomunal que se apoderou de mim. Meu corpo e minha mente estavam em chamas. E a única pessoa em quem eu poderia, deveria, descontar toda essa fúria estava bem ali na minha frente. Ele, o culpado de tudo. Corri na velocidade vampírica até meu irmão imprestável e maldito; só enxergava vermelho. Eu queria matar. Eu queria matar Elijah.
Avancei sobre ele cego de fúria. Nossos corpos se encontraram num choque estrondoso. Cada poro meu exalava ódio. Eu queria fazê-lo sofrer pela incompetência. Por ser tão egoísta e por não se importar com o que a sua falta de esforço e incompetência poderiam causar a mim. Ele revidou os golpes com energia. Parecia estar com raiva também. Só se fosse dele mesmo, por ser um estorvo inútil, esse maldito filho de uma puta. Peguei um dos pedaços de madeira das estantes quebradas e enfiei próximo ou seu coração. Ele berrou de dor e devolveu enterrando a mão bem fundo no meu tórax, me fazendo arfar. Segurei seus ombros e apertei seu pescoço, tentando me desvencilhar de suas mãos. Ele, no entanto, parecia lívido de fúria, de tal maneira que nunca presenciei em Elijah. Ele me prendeu de costas para ele, enquanto envolvia um de seus braços no meu pescoço e retirava o outro do meu peito e prendia meus pulsos. Ele parecia estar tentando quebrar meu pescoço, mas consegui me soltar num golpe da minha cabeça em sua testa. Ele cambaleou para os lados me dado tempo de chutá-lo e fazê-lo cair no chão. Quando fui ataca-lo novamente, ele girou se desviando. Na velocidade vampírica se levantou e arrancou umas das vigas cilíndricas e compridas de aço que ornamentavam um dos arcos das entradas do aposento. Furiosamente ele me acertou em cheio no rosto, me fazendo ficar tonto e cego de dor. Mal tive tempo de me recuperar e outro golpe me atingiu; tudo ficou escuro por alguns segundos, enquanto eu me dobrava buscando ar.
— Sabe, Niklaus, a sua ingratidão ainda me espanta – Ele falou ofegante, com a voz embargada de rancor, enquanto eu passava a mão na minha boca e nariz ensanguentados, tentando fazer o ambiente entrar em foco – Incrível como você não consegue diferenciar seus poucos amigos de seus milhares de inimigos. Mesmo depois de tudo o que passamos juntos.
— Você me fala de inimigos quando o maior traidor da minha vida está bem diante de mim – Devolvi num sussurro ameaçador. E automaticamente ele me deu outra porrada na cara com a viga. Sua fúria era quase palpável, pois eu sentia bem a cada golpe que levava. Dessa vez a força foi tão grande a ponto de me jogar no chão a metros de distância dele. Senti meu maxilar rachar, assim como vários ossos da minha cara se partindo. Meus olhos lacrimejaram pela dor excruciantes. Levou um tempo razoável até o ambiente parar de rodar. Como híbrido, me curava rápido, mas não tão rápido de um golpe de outro Original. Somente depois de um certo tempo que consegui que meus sentidos recuperassem com certa clareza. Me levantei cambaleando e o encarei — O que você fez comigo! Você decidiu o meu destino! Decidiu o destino de muitas pessoas por ser tão passivo! – Berrei com ele, apontando o dedo acusadoramente.
— Eu sempre protegi a nossa família! Você! E, apesar de cada um de seus atos desprezíveis, apenas eu sempre fiquei do seu lado por séculos! Não fugi quando os outros irmãos apenas queriam distância de você! E cá estava eu hoje fazendo isso de novo sem nem ao menor ser reconhecido! – Elijah gritava a plenos pulmões, seu rosto estava vermelho, lívido, como se estivesse prestes a explodir. Em mil anos, nunca vi Elijah perder o equilíbrio desse jeito. Entretanto, o meu choque não se alongou por muito tempo. Minha raiva era muito superior para dar lugar a qualquer outro sentimento. E não me deixaria ser manipulado dessa forma — Mesmo quando senti que era necessário te matar para dar fim a essa agonia e desgraça que você causava por onde passasse, no fim das contas eu te escolhi e te protegi dos inimigos e coloquei a minha felicidade, até a felicidade dos nossos irmãos em segundo plano só para te dar alguma chance na vida. Eu poderia estar bem longe daqui hoje, vivendo como eu bem entendesse, longe da sua repressão e do seu egoísmo, mas estou aqui lutando por algo que nem sei bem o que significa.
— E por que isso? Culpa – Falei com desprezo e ressentimento. Ele, por outro lado, me olhava com espantosa incredulidade e decepção.
— Você já olhou para si mesmo? Toda essa culpa e raiva de si próprio, tentando jogar nas minhas costas aquilo que foi de sua responsabilidade — Ele se aproximou de mim, me apontando com o indicador — Você não vai fugir da responsabilidade dessa vez, Niklaus, porque parte do que aconteceu hoje foi sua culpa. Você deveria ser mais grato por eu ter ficado tentando limpar as suas merdas – Suas palavras duras me atingiram em cheio – Contudo – Ele dizia enquanto caminhava rapidamente até mim — Aqui estou eu, passando a eternidade tentando te salvar da sua própria teimosia, petulância e ódio – E sendo assim, ele me golpeou mais uma vez com o aço – E continuarei fazendo, mesmo que eu tenha que te bater como nosso pai, para lembrá-lo da sua humanidade – Outro golpe brutal, com tanta força e fúria que, mais uma vez, me arremessou no chão. Mas, eu não revidei, não tive força e nem coragem — Te carrego por séculos, tentando te fazer se importar com alguma coisa. Sempre tentando preservar qualquer resquício seu de humanidade. E era exatamente isso o que eu tentava fazer hoje. Com todas as minhas possibilidades tentei derrubar aquela bruxa e manter Caroline a salvo. Mas, o destino era esse. Um destino que você selou dias atrás ao fugir que nem um covarde para outra cidade.
A menção do nome de Caroline me fez perder o pouco da razão que me sobrou. Quando ele avançou mais uma vez para me atacar, num movimento rápido e ágil, me levantei e consegui arrancar a viga de sua mão, o golpeando também diversas vezes no rosto e, por fim, lhe dei um chute no estômago. Ele voou a metros de distância, caindo por cima da mesinha de centro ampla e elegante de vidro. Mil caquinhos se espatifaram pelo ambiente causando grande estardalhaço. Ele se sentou lentamente e desnorteado, por entre os pedaços de vidro, passando a mão no sangue que escorria por várias partes de seu rosto.
— Você é patético, Elijah – Falei com desdém e desprezo, enquanto caminhava até ele e jogava, com força e raiva, a viga no chão.
— Quem é o mais patético? – Ele devolveu arfando, falando com dificuldade, enquanto me olhava firme nos olhos – Aquele que tem esperança em ver a sua família reunida? Ou o covarde, que só vê o mundo através do seu medo? – O olhei com raiva.
— Não me importo com nada há séculos – Isso era verdade. A única diferença era que isso havia mudado nos últimos meses – Por que você ainda se importa? Nem sei para quê todo esse discurso barato.
— Porque eu falhei com você – Ele baixou a cabeça, perdido – Porque na primeira vez que nosso pai torturou você, eu deveria tê-lo impedido, até mesmo tê-lo matado – Elijah me olhou novamente com intensidade – E eu fiz uma promessa a você. Sempre e para sempre. A família vem em primeiro lugar. E nos últimos dias eu percebi que ainda resta algo de você, Niklaus, do meu verdadeiro irmão – Suas palavras me tocaram profundamente, mas eu não poderia deixar transparecer. Não me passaria por fraco. Além disso, a raiva ainda queimava nas minhas veias. Eu ainda queria acabar com ele. Comecei a rir com desdém e Elijah me olhou como se não acreditasse no que via. Como se eu fosse louco.
— Você é um tolo sentimental – Falei com maldade.
— Talvez. Mas, foi esse tolo que manteve a família centrada por séculos. E foi esse tolo que estava tentando salvar a pessoa a quem você deveria estar protegendo — Ele se levantou e o brilho de fúria estava de volta aos seus olhos. A culpa caiu pesada sobre mim, porque Elijah estava certo. Ele atingiu a ferida com força. Eu fui responsável pelo o que aconteceu com ela. Eu falhei em protege-la. Falhei pela segunda vez — Nós dois sabemos que você não é capaz de sobreviver no meio de tanta treva sozinho. Nós te mantemos longe da insanidade, mesmo que você tenha chegado bem na beira várias vezes.
— Mas, tendo em vista as circunstâncias, você não fez porra nenhuma como deveria! – Voltei a me alterar, tentando não transparecer a culpa monumental que me assolava e me consumia. Fiz o que sabia fazer de melhor; me esconder nas sombras, atrás do medo e da culpa, tal qual Elijah proferiu muito sagazmente – Nada do que mandei você fazer, por causa da tua incompetência e egoísmo, você fez. Não calculou direito ou se importou com o que poderia estar causando a mim. Seus devaneios e suas fantasias te tornam fraco, Elijah! – Eu sabia bem lá no fundo, admito, que estava sedo injusto com ele. Mas, queria ataca-lo e feri-lo de todas as formas que pudesse. Precisava descontar toda frustração, tristeza e medo em alguém e iria usar todas as armas que encontrasse.
— Mais uma vez você prova que a sua arrogância e egocentrismo não têm limites! – Ele gritou, me olhando furiosamente e um tanto ressentido – O mundo não gira ao seu redor, Niklaus! Nem tudo o que acontece nele é para você ou por causa de você, para o seu bel prazer, seu capricho! Vai me dizer, então, que Caroline deveria permanecer viva porque isso era para você, para deixar você feliz? Porque a morte dela traria um impacto positivo na sua miserável vida? – Ele berrava com ódio. Ódio de mim. Ódio de mais alguma coisa que não consegui identificar – Você não parou para pensar, nem por um instante, que ela tinha uma vida que ia muito além de você, que já existia muito antes de você cruzar com o caminho dela, pessoas que a amavam e que também vão sofrer com essa perda lamentável? – O ódio foi dando lugar a outros sentimentos indesejáveis e conflituosos. Comecei a olhar ao redor, não poderia encará-lo agora. A angústia tomou conta do meu peito de forma avassaladora. Meus olhos arderam e meu estômago revirou –Confesso para você que, a princípio, me aproximei dela por causa de você, para compreender mais o que ela significava para você e, talvez, usar isso ao nosso favor, para trazer sua humanidade de volta e reunir nossa família novamente. Ato egoísta e não me orgulho disso. Contudo, me afeiçoei a ela. Uma garota linda e inteligente, com grande potencial a ser explorado. Alma pura e vivaz, com tamanha bondade e compaixão que é extremamente raro de se encontrar nesse mundo cheio de pessoas cruéis. Alguém assim, que exala o que há de melhor apenas por existir, deveria estar presente no mundo, irradiando o bem. Ela merecia coisas muito melhores, muito além do que qualquer um de nós aqui merece. E vê-la morrer e não ser capaz de impedir me frustrou de tal maneira que você não faz ideia. Então, não. Não se trata de você, Niklaus.
Admitir, mesmo que apenas internamente, que Elijah estava coberto de razão me enlouquecia. Realmente não se tratava de mim. Caroline tinha vida própria e tudo o mais que eu não era capaz de entender e nem de oferecer. Era um absurdo querer que ela estivesse nesse mundo só porque isso me fazia feliz. Era egoista demais até mesmo para os meus padrões. E quando se tratava de Caroline, eles mudavam. Sentimento esse que me causava muita estranheza e repulsa, que me deixava perdido num turbilhão de pensamentos e sonhos estranhos sobre finalmente encontrar certa paz e felicidade. Uma vida que há muito não sei o que significa ...
Senti nojo e desprezo de mim por ser tão egoísta dessa forma. Por ter permitido que ela fosse tirada da sua vida repleta de sonhos felizes que certamente se tornariam realidade. Então, finalmente, entendi o comportamento estranho e incomum do meu irmão. Ele estava sinceramente transtornado pela morte dela. Pelo desperdício de uma vida plena e de uma alma milagrosa. Nitidamente se culpava. Tal como eu. Pois, de certa forma, ele também criou com ela uma ligação. Uma inusitada e estranha, talvez. Mas, era muito fácil gostar de alguém como ela. Era muito fácil amar alguém como ela. E eu amava Caroline. Não era uma paixão passageira. A amava como nunca antes nos meus séculos de existência. Essa constatação me quebrou. Queria fugir desses sentimentos, dessas ideias assustadoras. Me senti um animal enjaulado. Queria arrancar da minha mente qualquer um desses pensamentos, queria arrancar à força meu coração do corpo, para me curar dessas emoções torturantes.
A essa altura, eu já não conseguia mais me conter. Involuntariamente, as malditas lágrimas teimavam em escorrer, me expondo ao ridículo. Lutei com todas as minhas forças contra esse sentimento destruidor, que me fazia querer arrancar o coração do peito para que parasse de doer como estava doendo. Mas, não consegui. Apenas comecei a chorar compulsivamente, arfando e apertando as têmporas. Meu peito ardia; buscava o ar desesperadamente, mas em volta parecia o vácuo. Minha cabeça parecia que ia explodir e a sala girava vertiginosamente. Minhas barreiras estavam no chão e minhas defesas, extintas. A essa altura, a verdade estava à tona para Elijah e para todos. A dor era insuportável. Queria que parasse. Por favor, pare, implorei. Caí pesadamente de joelhos no chão de madeira, enquanto meu coração parecia que estava sendo tateado em fogo.
Em mil anos, desejei pela primeira vez desligar a humanidade.
Desejei desesperadamente me desligar desse mundo. Talvez ficasse mais fácil, sabe, não sentir nada. Deixar para trás a pior parte dos desprezíveis sentimentos humanos; a dor, o sofrimento... a perda. Ter apenas o vazio nublando e anestesiando a alma. De um jeito ou de outro, eu precisava me desvencilhar dessa agonia excruciante. É, desligar deixaria tudo fácil, calmo. Era o que eu mais queria agora, fazer parar essa dor colérica. Sentimentos humanos eram a maior sina do vampirismo. Tudo ficava mais intenso de forma inconveniente. E arrancá-los de mim parecia um caminho de paz. Verdadeiramente não me importaria com mais nada. Mas, isso significaria me tornar um monstro por completo e ferir pessoas com quem ela se importava. Fazer isso seria manchar de sangue a sua memória pura, abnegada e altruísta. Deixaria para trás as lembranças calorosamente humanas do bem que ela me fazia e trazia, as poucas vezes que apreciei sentir coisas genuínas. Não queria perder isso. Deixaria para trás a esperança que senti horas atrás quando ela finalmente pareceu que me daria um chance. Deixaria para trás a promessa interna que fiz a ela de que ponderaria entes de derramar sangue inocente. Desligar significaria apagar de mim a marca e o impacto que Caroline deixou em mim, ser alguém que ela desprezava e em quem não desejaria que eu me transformasse. Então, através de um comando involuntário vindo das profundezas da minha mente, um que entendeu perfeitamente minha linha de raciocínio, quando minha alma estava seguindo por um caminho vazio, gélido e estranho, uma dor outrora conhecida, mas muito diferente dessa dor nova e desconhecida, tomou conta do meu corpo e desviou de volta a trajetória da minha alma. De repente, meus ossos estavam se partindo e meu corpo se transformando numa figura que há muito eu havia deixado para trás. Instintivamente, ao que parecia, a dor da perda estava dando o lugar a dor física, como um escape, um refúgio. O alívio foi instantâneo. Ter os ossos quebrados em nada se comparava com o sofrimento de perder alguém que se ama, mas dava algo a mente do que se ocupar, alguma dor para se tentar substituir, para alimentar a fome da devastação do coração. Ouvi bem de longe, num eco abafado, meu irmão gritar pelo meu nome, me sacudir, tentar me trazer de volta. Mas, foi inútil. Eu queria ir... ir embora daquela realidade. Me deixe, ir, Elijah, pensei com lentidão e calma. Me deixei levar pela transformação de muito bom grado. Parecia fluir naturalmente, como se meu corpo me comandasse e não eu comandasse meu corpo. Em outras circunstâncias, fugiria de virar lobo, pois eu podia controlar isso. Era doloroso, terrível. Todos conhecem a maldição do Lobisomem. Ninguém quer passar pela dor da transfiguração. No entanto, agora ela era muito bem-vinda. Abracei a maldição como uma velha amiga e partiria com ela. Não poderia existir um momento mais propício e conveniente para que viesse me resgatar. Minha mente foi se anuviando e eu fui deixando de ser eu mesmo. Em alguns instantes, recordava-me muito bem, me esqueceria completamente de quem eu era e mergulharia nas profundezas do abismo de uma outra criatura. E, assim, eu estarei livre.
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Caroline
Vazio. Era só isso o que se via. A cidade parecia fantasma. Ora, pensei amargurada, de fato ela era. Uma Mystic Falls abandonada e melancólica pairava defronte mim. Então, morrer era assim? Morrer significava ser banido para um mundo solitário? Um limbo onde se estaria condenado à eterna solidão? Constatei entristecida que assim seria. Senti vontade de chorar. No entanto, nada aconteceu. Não senti a típica ardência nos olhos que antecede o choro e, tampouco, percebi lágrimas rolarem. Num choque de compreensão, toquei meu braço e nada senti. Então, morrer era assim. Não sentir mais nada. Prestando mais atenção, não sentia nem meu próprio corpo. Era como se eu não existisse mais. Bem, você não existe mais, Caroline, ecoou uma voz maldosa na minha cabeça-fantasma. Então, esse era o famoso Outro-Lado. Ao vivo e a cores. Mas, não vivo. Tampouco colorido. Muito sem graça, diga-se de passagem. Bem, é o mundo dos mortos, Caroline. O que você esperava encontrar, a Disneylândia dos fantasmas?
Comecei a caminhar pelas ruas largas, observando cada detalhe da cidade minuciosamente conhecida. Tudo parecia igual, com exceção do deserto. Me questionava se eu estava andando pela viva Mystica Falls sem poder, de fato, enxergá-la. Se, naquele momento, algum carro me atravessava ou se alguma pessoa passava bem ao meu lado, sem sequer sonhar em imaginar o mundo que estava oculto aos seus olhos mortais.
Depressivamente constatei que passaria a eternidade assim, nesse inferno desértico. Nessa semimorte. Isso era o pior que o universo poderia ter criado. Apagar a mente e a existência em definitivo seria mais piedoso. Talvez essa fosse a ideia de punição mais severa pelo vampirismo ou pelo sobrenatural, como um preço a pagar, um jeito da natureza de se vingar por burlar as suas leis. Como se ela tivesse planejado com maldade; "não queria a eternidade? Então, ta, tomo aí...".
Vaguei por mais algum tempo, presa nos meus devaneios, sofrendo por antecipação pela eternidade miserável que teria, sem mesmo notar para onde ia ou prestar atenção ao redor. Conhecia aquela cidade milímetro a milímetro. Não havia nada de novo que pudesse me interessar. Meus insensíveis pés me levavam naturalmente, com vontade própria e fiquei assim por um longo período. Até que algo muito estranho aconteceu.
Fui puxada para trás num solavanco e comecei a ser transportada através de um túnel de borrão luminoso. A luz era tão branca e forte que teria me cegado se eu ainda tivesse sensibilidade. Diferente das memórias de Elijah, onde pude sentir cada pedacinho do ambiente, nesse, por sua vez, não sentia nada. Era carregada numa velocidade mediana e não demorou muito para que fosse largada num destino.
Lentamente o espaço foi tomando forma e aspectos detalhados e para meu espanto percebi que me encontrava no quarto de Elena. Me perguntava por quê, de repente, vim parar aqui.
Ela, por sua vez, estava inconsciente deitada na cama. Ela parecia dormir, embora estivesse muito parada. Não havia respiração e nem sinais de vida, mas também sem sinais de morte. Vampiros mortos ficam ressecados e Elena estava intacta. Recordava-me muito bem da cena dela e de Katherine naquele ritual medonho de Qetsiyah.
Mas, ela não estava sozinha. Matt e Stefan estavam sentados na poltrona próxima às janelas. Me perguntava onde estaria Damon, já que não velava compulsiva e possessivamente o corpo da ex-namorada do irmão. Os dois estavam com os rostos manchados e olhos vermelhos, como quem estava chorando. Talvez Elena estivesse correndo algum perigo, pensei assustada.
— Deveríamos avisar a Liz o quanto antes – Disse Stefan, com a voz embargada – Ela ainda não sabe de absolutamente nada do que aconteceu desde o ataque dos híbridos – Matt acenou afirmativamente. Eles estavam falando de mim.
— Não acredito que isso esteja realmente acontecendo – O loiro disse com a voz um tanto fraca e com o olhar perdido.
— Nós dois chegamos a enterrar o corpo dela perto da minha casa. Devemos fazer um enterro digno. Ela não vai ficar jogada lá. Só fizemos isso porque ela ainda estava ali conosco, só queríamos esconder o corpo até que ela pudesse recupera-lo. Pensávamos que daríamos algum jeito. E Liz jamais aceitaria isso – Falou Stefan.
— Claro que não, que ideia – Matt respondeu aborrecido – Fico pensando como diremos isso à mãe dela. E também à Elena. Ela já perdeu Bonnie. Agora Caroline. Sabe, nós crescemos juntos – Ele continuou olhando para o chão, mas sem realmente vê-lo – Eu amei ela, mas não dei o devido valor – Ele sorriu sem emoção alguma – E agora ela está morta. Dane-se o que vocês pensam, mas o vampirismo é sim uma maldição. Ele tira vidas, destrói. Não conserta – Falou ressentido – A morte... Penso que esse tipo de rombo que fica no coração não é capaz de ser reparado – Ele terminou deixando algumas lágrimas caírem.
Algo que deveria ser semelhante a dor de um coração quebrado se apoderou de mim. Mesmo morta, fui capaz desse sentimento. Talvez só o físico fosse impossível, mas o ideológico, não. Pensar em Bonnie foi excruciante. Ela não mais voltaria também para seus amigos, sua família. Ela estava sozinha nesse limbo que nem eu, condenada que nem eu. Se ao menos pudéssemos ter uma a outra para enfrentarmos isso juntas...
Num estalo, onde eu me encontrava fez todo sentido na minha cabeça.
Lembro da vez em que ouvi Elena explicar porque Jeremy só conseguia ver o fantasma de sua namoradinha, Anna, em momentos específicos. Era quando ele mais estava sentindo a falta dela. Quando ele desejava vê-la. Ela só aparecia porque seus pensamentos se redirecionavam e se concentravam exclusivamente nela. Claro, com as suas habilidades especiais adquiridas pelo anel mágico, ele de fato era capaz de vê-la. As habilidades de Jeremy vagando pelo submundo dos pré-caçadores também fizeram dele um ganhador desse dom. Só ele podia ver os fantasmas. Talvez ele pudesse me ver, se ainda fosse um caçador. Mas, meus amados amigos não eram capazes desse feito, então eu era obrigada a assisti-los remoendo a minha morte naquele exato momento mesmo que eles nem fizessem ideia da minha presença. Eles estavam me chamando através de seus corações entristecidos pelo luto.
Vê-los foi caloroso e torturante ao mesmo tempo. Estar ali e não poder falar com eles, não poder abraçá-los, era agoniante. E assim seria por toda a eternidade. Sempre que alguém sentisse saudade de mim e fosse levada até eles como um ímã, teria que suportar muito relutantemente não poder mais viver entre eles. Não poderia participar de sua alegria, de sua tristeza, de suas conquistas e do seu futuro sem poder ter o meu. E o pior viria com o tempo. Quando eles seguissem com suas vidas e não mais se lembrassem de mim ou sentissem minha falta. Ou se a morte chegasse para alguns deles. Assim, nunca mais poderia vê-los e, de fato, estaria condenada à solidão eterna.
Vê-los e não poder estar com eles. Ou não os vir e existir sozinha, para sempre. Esses eram os meus caminhos. Meu destino.
Pensei em minha adorada mãe e nas palavras de Stefan. Só de pensar na dor que ela sentiria ao receber as notícias sobre mim comprimia dolorosamente meu peito fantasma. Preferiria ser torturada a fazer minha mãe sofrer por qualquer motivo que fosse. Muito menos ainda pela perda de um filho, por minha causa. Penso que essa poderia ser a maior das dores que já vagaram por essa terra. O mais poderoso sentimento; o mais puro e inatingível amor de mãe. Só o que desejava era confortá-la com um forte abraço quando soubesse o que aconteceu comigo. Quando descobrisse que nem teve a chance de se despedir de sua filha. Só assim percebi o quanto fui egoísta ao negar-lhe participar das minhas últimas horas de vida. Deveria ter me ocorrido que, talvez, eu realmente fosse embora para sempre e não mais teria a chance de abraça-la. Só agora me ocorria, me trazendo um grande amargor e arrependimento, que neguei a minha mãe e a mim mesma a chance de lhe dizer o quanto a amava e que isso nunca mudaria, nem nessa vida nem em outra.
Ouvi Damon gritar exasperado o nome do irmão do andar de baixo e Stefan se apressou em atendê-lo. Matt apenas continuou onde estava. Depois de algum tempo, onde nada de diferente aconteceu naquele quarto, fui carregada de volta ao túnel branco e ofuscante. Em poucos segundos estava de volta à Cidade vazia e me senti mais sozinha do que nunca.
Sentei-me num meio fio, na ponta de uma esquina, e fiquei admirando a única igreja que existia naquela cidade. Ela se erguia alta e imponente com sua vidraçaria colorida e faixada bem conservadas; era até bonita. Percebi que as poucas vezes em que estive nela foi quando eu era criança ou quando alguém importante morria, assim íamos prestar luto com um memorial. Comecei a divagar nas lembranças fúnebres de todas as mortes naquela cidade. Foram tantas...
Não sei quanto tempo se passou. Me pareceram horas. Mas, a Cidade permanecia igual, nenhuma folha fora do lugar de origem. O tempo, ali, parecia congelado. Não mudava de figura, sempre o mesmo Céu azul claro, sem o menor vestígio da chegada do entardecer ou anoitecer. Sem vento ou chuva, sem temperatura para dizer se estava frio ou quente. Era agoniante. Presa dentro de um filme parado numa cena. A impaciência, forte traço meu de personalidade, não me permitiu ficar sentada naquela calçada por um período muito longo. Tratei de caminhar e rodar às ruas. Passei a observar atentamente as casinhas bonitas e bem cuidadas. Tentando lembrar de seus donos e seus afazeres, com espanto, percebi que não reconheci nenhuma das casas ou a quem pertenciam. Tomada por um desespero agudo, girei os pés em direção à casa de Matt, que seria a mais próxima do local onde eu estava.
Parece que levei horas caminhando, e, por vezes, correndo. Mas, não achei a casa. Pior, acabei voltando para o mesmo ponto onde eu estava várias e várias vezes. O pânico me dominou e comecei a correr para onde estaria a minha casa. Corri freneticamente, não olhava nem para os lados, só fixava os olhos na paisagem diretamente na minha frente. Não ofegava, tampouco me cansava. Poderia correr por horas e nada sentiria.
Corria e nada. Continuava a correr e nada. Não achava a minha casa. Não achava a casa de Elena, não achava a casa de Bonnie, não achava a casa de Stefan, não achava a casa de Tyler, não achava a casa de Klaus... não achava nenhum lugar que me era familiar e reconfortante. Só o que continuava a acontecer era eu voltar para o mesmo ponto próximo à igreja.
Olhando, desesperada, para cada pedaço das ruas, sem rumo e sem saber o que fazer, resolvi entrar na igreja. Corri até ela na esperança de obter algum sucesso, qualquer coisa que tornasse aquilo bem menos pior. Mas, para meu horror se consolidar de vez, ao tocar na maçaneta da porta, minha mão passou direto. Sendo assim, tentei atravessar a porta, apenas para ir para do outro lado da calçada, atrás da igreja. Era realmente o fim. Estava completamente bloqueada de qualquer interação com o espaço-tempo, com qualquer significância e representação da vida, num eterno looping torturante...
Então, antes mesmo de processar o que me aguardava nessa expressão miserável de existência, fui levada novamente através do túnel branco e ofuscante, mais uma vez arrancada dos meus devaneios. Eu estava desolada demais para me importar com as atividades do mundo morto. Pouco interessada sobre para onde aquele túnel estava me levando, então apenas deixei que ele seguisse seu curso sem me dar o trabalho de ficar ansiosa. Mas, me contrariando totalmente e me criando um assomo de frenesi, percebi que estava parada diante da minha casa. Logo ela, a que estive tão febrilmente tentando encontrar, estava bem ali, inerte, diante de mim. Com os olhos um tanto arregalados e com expectativas nas alturas, corri para dentro dela, desesperada para ter alguma interação com aquele bloco de concreto e madeira que me trazia as mais calorosas lembranças e que me forneceram os melhores momentos da minha vida.
Num súbito, ao cruzar a soleira da porta, fui açoitada por memórias felizes e ao mesmo tempo deprimentes. Não mais voltaria a fazer realmente parte daquele lugar. Já não mais pertencia ao outro mundo. E, certamente, minha visita duraria só alguns instantes para, depois, ser castigada e levada embora para a eternidade de solidão. Era uma tortura. Sem querer abusar da sorte, não questionaria a repentina e estranha mudança na vontade desse incomum universo paralelo em me deixar interagir com ele. No açoite dessa oportunidade imensa, onde eu estava conseguindo penetrar às profundezas de qualquer outro lugar desse submundo, aproveitaria o máximo que pudesse, antes que essa alegria fosse roubada de mim novamente.
A casa estava idêntica. Cada móvel, cada detalhe da decoração, como fotografias e enfeites, continuava em seu lugar de origem. Andei lentamente pelo hall de entrada admirando as fotos. Tentei segurar uma delas (minha favorita, em que minha mãe e eu estávamos comemorando, abraçadas, a vitória do meu time de líderes de torcida por ganhar a competição interescolar), mas, obviamente, minhas mãos passaram direto, como se o retrato fosse apenas vapor. Fiquei desapontada e triste, mas não surpresa. Continuei a caminhar até chegar ao fim do corredor, que tinha três entradas de acesso ao interior da casa e mais uma porta para os fundos. Antes mesmo de me decidir para qual parte da casa iria (provavelmente para meu quarto, à direita) escutei gritos e soluços. Eles vinham da esquerda, onde era a sala de estar. Corri para lá desembestada e encontrei minha mãe de joelhos no chão, enquanto Damon e Matt tentavam reerguê-la. Ela apenas se mantinha presa ao tapete, oferecendo resistência que até poderia fazer alguma diferença para Matt, mas não para Damon. Contudo, percebi que ele não forçava mais para não machucá-la. Damon, de uma forma que nunca entendi ou suportei, gostava da minha mãe.
Minha mãe chorava e soluçava compulsivamente, com o rosto chapado no tapete bege e felpudo. Eram como se mil facas em brasa estivessem atravessando o meu corpo. Porque a reação estrondosa dela só significava uma coisa. Fui até ela e me ajoelhei na sua frente, numa tentativa fracassada de tocar-lhe a face ou qualquer outra parte do seu corpo. Suas reações começaram a piorar quando, lentamente, ela foi deixando toda a extensão do seu corpo escorregar para o tapete, se estirando completamente no chão. Seu choro desesperado não cessava e me afligia a alma de maneira transcendental. Saber que era minha culpa o terrível momento pelo qual ela estava passando me esmagava o peito. Tal sensibilidade que eu não achava ser possível estava me destruindo naquele momento. Minha mãe, que sempre foi bondosa comigo e com os outros, que apesar dos meus defeitos estava sempre do meu lado, não merecia aquilo. Queria confortá-la, dizer que nunca a abandonaria, que seria sua eterna filha. Queria pedir perdão pelas vezes que fui egoísta e inacessível, quando me fechava para mundo e não permitia que nem mesmo ela entrasse. Quanto tempo perdi construindo aquele muro em volta de mim apenas para manter distância da minha mãe. Logo ela, a pessoa que me amava incondicionalmente, que daria a vida por mim sem pensar duas vezes ...
Constatei, então, que nada eu poderia fazer para acabar com seu sofrimento. Nada ninguém poderia fazer. Nada poderia ser dito. Então, numa onda de choque repentino e resignação, me deitei ao seu lado e apenas fiquei observando seus membros se debaterem de tanto soluçar. Parei de observá-la e passei a olhar fixamente para o teto da sala sem, de fato, realmente enxergá-lo, com a mente anuviada e dormente. Não ouvia mais seu pranto, não ouvia mais nada. A sensação de êxtase e overdose emocional me levou a ficar como se tivesse sido sedada a força. De soslaio, então, vi minha mãe ser retirada do chão e carregada por Damon. Eles saíram da sala e sumiram pelo corredor. Fiquei mais algum tempo olhando para o nada, não sentindo nada, até que, mais uma vez, fui levada pelo túnel brilhante.
Assim como estava quando fui levada da minha casa, assim fui aterrissada no chão próximo à igreja. E assim fiquei por um longo período. Afetada demais para ter qualquer tipo de reação. Minha mente nublada e de ressaca não permitia nenhum pensamento mais perturbador, não permitia dar vazão a qualquer um dos sentimentos aterrorizantes que teimavam em voltar. Fechei minha mente e meu coração o máximo que pude. Eu só queria isso; ficar com a mente vazia. Ficar com o coração vazio. Não sentir nada. Ir embora para sempre. Talvez isso fosse semelhante a querer desligar a humanidade. Mas, nunca saberia dizer, não estava mais viva, não possuía mais humanidade alguma.
Fiquei um tempo olhando para a figura intocável e imutável do Céu azul. Para um dia normal, numa vida normal, aquilo poderia até trazer paz. Mas, eu estava congelada. Ou me esforçando ao máximo para congelar. Não suportaria mais nenhum cenário como aquele da minha mãe. Era demais até para alguém que já estava morto. Eles sofreriam. Eu sofreria. E não havia mais nada que se pudesse fazer. Eu estava mesmo morta. Com o tempo eles tocariam suas vidas para frente e só o que me sobrava era me conformar e torcer para que fossem capazes de encontrar a felicidade mesmo nos momentos mais escuros. Com tais pensamentos anuviando minha cabeça-fantasma perdi a noção do tempo que fiquei parada ali deitada no chão. Talvez nem tivesse passado tempo algum. Ou talvez tivessem passado milênios no mundo dos vivos. Não tinha como saber. Não é como se tivesse uma lógica temporal no submundo. Talvez eu estivesse perdendo a lucidez. Com certeza enlouqueceria sem ter noção do espaço-tempo, perdida no universo... Totalmente à deriva...
Então, num solavanco fui mais uma vez envolvida pelo túnel branco e brilhante. Bem, já constatava eu, aqueles seriam os dias em que mais seria chamada à realidade. Minha morte recente trataria disso. A princípio ignorei o fato. Não me interessava ver mais ninguém sofrendo por minha causa. Que eles seguissem em frente e me esquecessem. Mesmo que levasse tempo. Assim como eu, eles deveriam aceitar a realidade, por mais cruel que ela fosse. Que fossem viver felizes suas vidas sem a egoísta da Caroline. Contudo, com surpresa verifiquei o ambiente ao redor. Eu estava na casa do Klaus. Como num estalo, como se um interruptor tivesse sido acionado, minha mente voltou a trabalhar com força total e me levantei abruptamente, olhando em volta alarmada.
Andando apressada e vasculhando apreensiva a mansão, ouvi gritos e uma barulheira tremenda, com objetos se espatifando. Assustada, corri na direção das vozes, como se fosse fazer alguma diferença.
Klaus e Elijah estavam discutindo.
Socando a cara um do outro, para ser mais exata. Com horror presenciei uma briga furiosa entre dois Originais. Quebravam e destruíam tudo que atravessassem seus corpos imbatíveis tempestuados de ódio. Se fosse possível, penso que se quebrariam ao meio. Depois de muitos socos, golpes e berros, que misturavam dor e raiva, os dois se afastaram. Ou melhor, Klaus derrubou Elijah e não mais atacou.
Observava o embate com muita atenção, mesmo que não quisesse. A minha presença me fazia sentir que era invasão de privacidade, sobretudo num diálogo tão intenso e íntimo como aquele. Com certa relutância, percebi o caminho que aquela conversa turbulenta trilhava. Se convergia em mim. Me emocionei com as palavras de Elijah e arregalei os olhos com espanto ao notar a reação de Klaus. Nunca o vi assim. Era pavoroso, ele parecia estar prestes a entrar em colapso. Vampiros não tinham ataque de pânico, tinham? A cólera vampírica sempre terminava em assassinato.
Então, era assim que Klaus se sentia sobre mim? Podia ver em seus olhos e nas suas reações o impacto que minha morte trouxe sobre ele, me dando um choque de realidade sobre a profundidade de seus sentimentos por mim. Era mais sério e mais forte do que eu achava. Então, instantaneamente depositei minha total crença em relação às suas atitudes nas últimas semanas. Ele não estava flertando apenas para se divertir um pouco. Eu estava certa. Ele estava apaixonado por mim. Como pude duvidar depois de todas as provas escancaradas? Mas, só agora tudo se encaixava perfeitamente. Era negação, constatei. Eu queria que fosse apenas um flerte, pois assim eu teria mais uma desculpa para escapar dos meus sentimentos por Klaus.
Involuntariamente corri até ele e tentei levantá-lo do chão. Mas, passei direto por ele como fumaça. Uma angústia terrível se apoderou de mim. Algo que eu achava ser impossível de ser sentido tendo em vista as minhas circunstâncias. Não podia ajudá-lo. Não podia abraçá-lo como da vez que Mikael o atacou. A prisão da morte caiu como chumbo sobre mim. Senti uma raiva colossal do universo. Senti raiva de tudo o que me impedia de chegar até ele nesse momento em que ele mais precisava de alguém. Em que ele mais precisava de mim. Gritei para ele que eu estava ali. Que jamais o abandonaria. Ordenei que ele olhasse para mim e me ouvisse. Tentei de todas as formas tocá-lo. Mas, abarreira entre os dois mundos era impenetrável.
A vontade estranha de chorar sem lágrimas tomou conta. Queria consolá-lo com todo carinho e cuidado de que ele tanto estava precisando naquele instante, todo aquele que lhe foi negado. Não apenas negado pelos outros, mas, por ele próprio, ao se fechar dentro da mágoa e do ressentimento. Queria dizer-lhe para não perder a esperança só porque eu não estaria mais com ele. Para não perder a fé em um dia ter uma vida melhor. Ele não precisava de mim para isso, tinha a sua família para ajudá-lo nessa caminhada, só batava que ele se permitisse, que abrisse o coração para eles. Também queria dizer que, mesmo de uma forma inédita e incompreensível até para mim mesma, me apeguei a ele e criei sim fortes sentimentos por ele. Eu iria aceitar esse desafio, o de estar com ele. Mas, agora era tarde demais. Percebi, pela segunda vez no mesmo dia, que desperdicei minhas chances de estar próxima a pessoas que eu amava, já que havia chances de eu partir para sempre. Deveria ter me assegurado de deixa-las totalmente a par sobre como me sentia. Especialmente Klaus, que era repleto de inseguranças, que precisava de afirmações claras para dar os próximos passos. Porque, sim, eu sentia algo por ele...
Já estava na hora de eu admitir para mim mesma, ainda que do outro lado da vida. Não tinha mais por que continuar fingindo. Daqui eu não poderia ser descoberta ou julgada. A morte tem suas vantagens. Ela te liberta de amarras e convenções, de falsa moral e hipocrisias. Aqui, neste lado, eu conseguia ser verdadeira sem peso na consciência, conseguia ser livre. Isso era leve, era embriagante, como ar fresco nublando prazerosamente as ideias. Era emergir e ganhar lufadas de ar após muito tempo em baixo d'água.
Agora, ele jamais saberia...e eu passaria a eternidade sofrendo em agonia com esse arrependimento; o de não ter dito ou feito o que eu queria de verdade, mas, ao invés disso, fui covarde o bastante ao me esconder. Com Klaus eu poderia ter tido o mundo, vivido intensamente, do jeito que deve ser. Mas, eu tive a morte ...
Fui arrancada dos meus devaneios por uma mudança na sua figura. Franzi o cenho quando notei sua expressão se modificar. Klaus estava ficando estranhamente calmo, com os olhos vidrados e alheios. Reconheci na mesma hora os sintomas. O tinha visto em Elena não havia muito tempo. Para o meu completo terror Klaus dava indícios de que iria desligar a humanidade. Se ele fizesse isso, o mundo sucumbiria na sua crueldade imbatível. Não sobraria pedra sobre pedra da fúria do Híbrido Original. Mystic Falls seria destruída e sabe-se lá mais quantas cidades no seu caminho...
Contudo, para o meu espanto, seu corpo tomou outro rumo, ele começou e se quebrar; seus ossos se partiam e seu corpo tomava formas irregulares e impossíveis enquanto ele soltava pequenos e abafados sinais de dor. Bem diferente das reações de Tyler, que se contorcia de agonia e em berros de cólera, Klaus parecia estranhamente conformado. Como se não estivesse em tão nível de sofrimento como eu sabia que ele estava. Ou como se apenas estivesse... se deixando levar.
Olhei para Elijah, com desesperada esperança de que ele pudesse intervir. Mas, eu sabia que nada ele podia fazer a partir do momento em que a transformação começou. Ele se ajoelhou de frente para o irmão, enquanto gritava seu nome e o sacudia com exasperação. Mas, Klaus parecia nem notar. Apenas continuava no cominho sombrio de se tornar um lobisomem. Elijah sabia que não podia se demorar muito. Em breve o irmão estaria totalmente em forma de lobo e não mais o reconheceria. E uma mordida poderia ser fatal (eu bem sabia disso), até mesmo para um vampiro Original de mil anos; ainda que não morresse, sofreria com a dor e com a agonia das alucinações.
Esperei paralisada o fim do processo, que não se demorou muito. Tyler chegou a levar horas se transformando. Mas, Klaus completou a transição em poucos minutos, como se tivesse pressa para se tornar a outra criatura. Fiquei instintivamente na defensiva, como se corresse real perigo. Elijah imitou meus gestos e se afastou de Klaus. Ele acompanhava, horrorizado, minuciosamente cada movimento do irmão. Já na iminência de sair correndo quando fosse necessário, Elijah foi lentamente se esgueirando para uma das saídas da sala. Eu apenas observava numa expectativa turbulenta e temerosa, sabendo o que viria a seguir. Era melhor Elijah ir o quanto antes, pois Klaus certamente o perseguiria no momento em que completasse a transformação.
E não deu outra.
De repente, o Klaus em forma de lobo se ergueu imponente e farejou o ar. Seu semblante e formato imbatível e destruidor me fez tremer. Numa fração de segundos olhei bem dentro de seus olhos. Totalmente reconhecíveis. Aqueles olhos verdes que me afetavam mais do que eu gostaria brilhavam de forma assassina. Mais assassina do que os olhos vampíricos. Sua forma era longa, alta, robusta e esbelta. Verdadeira máquina de matar. Até mesmo um Original teria dificuldade de lutar com um lobo como esses.
Elijah o encarou dividido entre terror e o choque. Ainda me espantava o fato dele ter permanecido na sala até o fim. O lobisomem se voltou para ele e rosnou, mostrando todos os seus dentes longos e pontiagudos, que rasgariam qualquer coisa com bastante facilidade. Num golpe de realidade, Elijah parece ter recobrado a consciência. Em sua velocidade vampírica, ele deixou a sala, sendo perseguido fatalmente aos calcanhares, uivos e rosnados de seu irmão.
Fiquei ali parada totalmente estupefata. A cena perturbadora me manteve pregada ao chão até que meus instintos me mandassem agir. Corri o mais rápido que pude atrás deles, mas sabia que era inútil. Nunca chegaria até eles nessa velocidade humana. Resignada e temerosa pelo o que se seguiria, não somente por Elijah, mas pelos outros naquela cidade, fui novamente levada pelas profundezas do túnel brilhante.
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