Notas iniciais
Meus Klaroliners, finalmente, I'm here. Depois de 84 anos. Eu sei que já implorei por seu perdão e que, provavelmente, vocês não me perdoaram pela demora. Mas, tenham certeza de que abandonar a história eu nunca irei. Embora o tempo seja curto, eu adoro escrever essa história. Tanto para vocês quanto para mim. Portanto, mesmo que demore a postar, podem ter certeza de que em algum momento o capítulo vai chegar. Acho que vocês até já perceberam os meus padrões hahaha. Entao, vamos ao que interessa! Espero que vocês curtem esse capítulo e que ele não tenha ficado muito grande ou muito maçante! E, pelo amor de Klaroline, não deixem de comentar ou recomendar. Nada me deixa de coração mais acalorado do que ver o que vocês comentam. Sério, eu me derreto toda. Especialmente por aqueles detalhistas (porque, acho que vocês já devem ter notado, sou muito detalhista hahaha). Vamos lá, meus Klaroliners! Vamos ao que interessa!

Elijah

Tudo a minha volta passava rápido, mas com clareza e detalhes. Corria velozmente com destino, com propósito. Tentaria chegar à floresta e entrar naquela caverna abandonada. Talvez aquelas correntes ainda servissem, só precisaria ser mais ligeiro que ele. Tarefa que não seria nada fácil, mesmo para um vampiro com as minhas habilidades. Se ao menos tivesse Rebekah aqui para me ajudar... O traria até a armadilha, me faria de isca. Arriscaria minha própria vida a fim de garantir que nenhum inocente naquela cidade enfrentasse a fúria de um lobisomem milenar, feroz e cruel.
Conseguia ouvir suas patas batendo contra a terra e as pedras mesmo a uma distância moderada. Não era difícil para um Original detectar certos ruídos, principalmente se esses ruídos não são nada meticulosos, se tratando de um lobo que corria freneticamente e totalmente controlado pelos instintos assassinos. Ao que parecia, ele estava comprando a idéia. Me seguia alucinadamente, com certeza na esperança de rasgar o meu pescoço. Aquele não era mais o meu irmão, mas sim uma máquina mortal, mais mortal que antes. Continuei minha corrida até que, de repente, não ouvi mais nenhum barulho. Silêncio total. Isso me trouxe um mau agouro, pois, por mais aguçados fossem meus sentidos, eles eram diferentes e menos potentes que os de um lobo assassino, cuja rivalidade com os vampiros fazia parte da natureza imposta pela contra-magia e sua principal tarefa era eliminá-los. Mesmo assim, permaneci correndo, ele poderia estar bem próximo de mim e eu não saberia dizer.
Então, confirmando meus receios, de repente um lobo gigantesco pulou das sombras na minha direção, me atacando com fúria. Nem tive tempo de reagir. Fui atirado contra uma árvore, a derrubando no chão com estrondo. Ainda cravado no solo e com os pensamentos girando velozmente, percebi o que estava por vir. Teria de lutar com uma outra força que a mãe natureza não havia dado permissão para existir, uma força que, aparentemente, era maior que a minha. Teria que lutar contra meu próprio sangue, com meu próprio irmão, que agora se encontrava numa forma mais letal e mais monstruosa que a outra. Mas, de um jeito ou de outro, eu precisaria ganhar. Se ele me vencesse, o que seria dessa cidade? O que seria da nossa família? Quando ele voltasse, sucumbiria à escuridão eterna ao descobrir que matou o próprio irmão e aí seria tarde demais para Niklaus. Nos encaramos por um breve segundo. Vi em seus olhos verdes o brilho assassino, aquele que faz você saber que chegou a sua hora, que era o seu fim. Mas, não poderia ser o meu. Minha família precisava de mim. Niklaus precisava de mim. E eu precisava derrubar um lobo quase invencível tomando o cuidado para não ser morto e para não matá-lo porque, afinal de contas, era meu irmão mais novo embaixo daquela pelagem grossa e dentes afiados. Com essa idéia pouco positiva, mas motivadora o suficiente, empertiguei meu corpo e me coloquei em posição de ataque. Ele rosnou ameaçadoramente para mim e me preparei para o que estava por vir. Teria uma tarefa quase impossível pela frente...
—-------------------------------------

Klaus

Abri os olhos e fui cegado pela luz intensa que batia diretamente no meu rosto, originada de um círculo perfeito no teto bem alto. Senti um arrepio perpassar pelo corpo, um vento gélido do fim da primavera. Com a cabeça latejando e as ideias absolutamente embaralhadas, com lentidão fui tomando consciência e percebi que estava completamente nu e caído num chão duro coberto de sujeira e de terra. Me sentei lentamente, enquanto cobria e esfregava os olhos. Ao fazer isso, senti os músculos dos braços pesarem e doerem, e um cheiro intenso de sangue, misturado à umidade e podridão, que se originava das minhas mãos. Com sobressalto, notei que, na verdade, partes do meu corpo estavam sujas de sangue.

Então, num choque pavoroso, como se quilos de concreto afundassem meu estômago, me recordei dos últimos acontecimentos. Todas as lembranças se apoderaram da minha mente em alta velocidade, me deixando zonzo. Ataque da Bruxa; Descoberta da morte de Caroline; quase desliguei a humanidade, mas, no lugar disso, me transformei em lobisomem; Elijah tentando me deter, mas fracassando relutantemente. Ou pelo menos era o que eu pensava. Afinal de contas, eu estava, percebi enfurecido, preso dentro de uma cela, numa caverna estranhamente familiar. A mesma em que Mikael prendeu Rebekah menos de três dias atrás. Procurei pela figura do meu irmão mais velho e lá estava ele, alguns metros de distancia de mim, fora da cela, caído e encostado de mau jeito na parede pedrosa. Mesmo sob pouca luz após as grades dos portões da cela, era possível distinguir com facilidade a forma fantasmagórica de Elijah. Suspirei não dando muita atenção a ele de imediato. Procurei pelas minhas roupas e lembrei que nada deve ter sobrado após a minha transformação. Irritado, tentei andar para me livrar daquele lugar, com ou sem Elijah. Mas, ao tentar fazer isso, senti minha carne arder em alguns pontos específicos. Meu corpo doía fortemente e meus ossos pareciam estar travados. Então, percebi que estava acorrentado e, certamente, as correntes possuíam muita Verbena e a maldita Wolfsbane. Senti o cheiro forte e ácido da erva queimarem as minhas narinas, indicando que eu estava certo. No máximo poderia me causar um pouco de dor e me deixar zonzo por alguns segundos quando eu não estivesse na forma de lobo. Não possuía o mesmo afeito sobre mim, contudo, na forma vampírica; eu era um híbrido, afinal de contas. Mas, quando transformado em lobisomem, o efeito era catastrófico e perdurava um pouco dele até um certo tempo após o retorno à forma vampira, séculos atras, lembrava-me muito bem disso, mesmo que já tenham se passado muito tempo desde a minha última transformação, era impossível deixar pra trás aquelas sensações. Com certa dificuldade, comecei a me arrastar até as grades, tentando alcançar meu irmão que, aparentemente, estava desacordado. Ao focar nele, notei que estava bem ferido. Seu paletó fino e caro estava ao seu lado com alguns largos rasgos e ensanguentado. Olhei mais atentamente para meu irmão e percebi que na verdade suas feridas eram de garras e mordidas; mordidas de lobisomem. Eu havia ferido meu irmão mais velho com uma das formas mais letais para um vampiro. Mas, Elijah não era um vampiro comum, era um Original. Não morreria pela mordida e nem pelas feridas venenosas, mas passaria pela agonia das alucinações até que eu o curasse. Até onde eu tinha conhecimento, e eu conhecia muita coisa por esses mil anos a fora, diga-se de passagem, garras de lobisomens também tinham um pouco de veneno, não o suficiente para matar até mesmo um vampiro comum, mas o bastante para causar alucinações alternadas e facilitava que a ferida demorasse a cicatrizar. Como uma espécie de doença incurável para os vampiros. Incurável até a descoberta de que meu sangue era a cura, a única no mundo. Elijah encostava a cabeça numa pedra disforme e possuía a expressão tensa, o que me levou a concluir que não estava inconsciente. Ele estava acordado, mas com os olhos fechados e apertados, respirando com urgência. Sua aparência estava lastimável, muito pálida e lavada em suor. Me perguntava há quanto tempo ele deveria estar nessa agonia e quanto mais levaria até perder a lucidez. Se ele já a tivesse perdido, não estaria tão quieto e controlado. E certamente sentia muita dor. E eu não senti pena alguma dele num primeiro momento. Meu único pensamento foi que ele mereceu aquilo. Talvez merecesse ficar agonizando por mais algum tempo. Talvez por mais alguns séculos. Talvez encontrasse nas suas alucinações a vida patética e fantasiosamente feliz que ele tanto sonhava em ter. Então, por que não conceder esse presente a ele? Porém, bem no fundo, ainda que não quisesse admitir nem para mim mesmo, eu sabia que estava sendo injusto e ingrato com meu irmão. Ele não merecia meu tratamento agressivo. Senti uma mistura de nojo e desapontamento por mim, mesmo que fosse em grau bem pequeno. No entanto, não transpareceria isso para ele. Uma certa dificuldade e resistência o faria bem , mostraria que ele precisava tomar certos cuidados no futuro. Ser condescendente demais não era bom para ninguém.

— Vai ficar aí parado só me olhando? Posso sentir seus olhos em mim – Ele falou ironicamente com a voz fraca.

— Estou desfrutando da paisagem, da vista – Respondi maldosamente.

— Se está esperando que vá te implorar pelo seu sangue, está muito enganado – Respondeu ainda com os olhos apertados e a expressão contorcida. De vez em quando seu corpo sofria alguns espasmos – Cansei de implorar por algum traço seu de humanidade, Niklaus.

— Ah, e lá vamos nós de novo – Desdenhei com escárnio – Nem à beira do abismo você larga essas merdas, Elijah.

— E nem você. Está numa situação deplorável quase tanto quanto a minha e continua sendo intransigente. E não vou deixar de ser quem eu sou em nenhuma circunstância – Ele falou mais fraco do que antes. Ignorei tudo o que ele disse. Tinha assuntos mais urgentes a tratar do que ficar discutindo com o imbecil do meu irmão no meio dessa caverna podre. Talvez eu só tivesse alguns minutos para ter as minhas respostas antes que ele perdesse a razão de vez, pois não daria a ele meu sangue tão cedo. Além disso, eu precisava sair logo desse lugar.

— Bem, isso não me interessa nem um pouco, verdade seja dita – Dessa vez falei me forçando a levantar, mas as correntes impossibilitaram. Eu ainda estava fraco demais para me livrar delas. Elijah com certeza me deu uma dose muito forte de Wolfsbane quando conseguiu me abater. Só não sabia como ele tinha feito isso, como conseguiu me envenenar. E as correntes de ferro impregnadas do veneno só pioravam a minha condição – Como você conseguiu Wolfsbane a tempo contra mim? — Ele inspirou fundo e demorou a me responder.

— Quando infernizou o povo dessa cidade para reativar seu outro lado, sempre tive o receio de que você poderia virar um lobo novamente em um dos seus ataques de psicopata. Então, deixei esse cativeiro prontinho a sua espera. Com um estoque bem grande de Wolfsbane de cortesia pra você. Desculpe ter deixado seu precioso Bourbon de fora — Que desgraçado. Meu queixo travou de ódio. Era impressionante como meus irmãos ainda conseguiam me surpreender. Não sei por quê eu ainda era capaz de aturar esses traidores.

— Como sempre, agindo pelas minhas constas, irmão — Ele não disse nada, apenas ergueu as sobrancelhas ainda de olhos fechados — Vai discordar de mim se eu disser que merece uma punição por essa afronta?

— Você sabe que foi uma medida necessária, Niklaus. Preferiria destruir Mystic Falls? Existem pessoas aqui em que você nem sonha em por as mãos, eu sei bem — Dessa vez ele abriu os olhos, me encarando significativamente. No geral, ele não me faria essa pergunta, pois saberia a resposta. Mas, agora era diferente. Assassinar aquelas pessoas estaria no caminho extremo oposto de conseguir atingir meus objetivos, vulgo Caroline. Mas, ela não está mais entre nós, ecoou na minha cabeça uma voz maldosa. Mas, não mancharia sua memória derramando o sangue de seus amigos.

— Quero que me tire essas porras de correntes e me conte o que aconteceu ontem à noite com a bruxa — Rosnei chacoalhando o metal causando um barulho de trituração, enquanto fazia meus ossos doerem com o movimento. Uma outra hora ele pagaria pela traição. Mas, agora eu precisava focar em Caroline. Talvez ainda existisse alguma chance para ela, pensei sem acreditar realmente nisso.

— Você já sabe. Nós perdemos – Eles respondeu odiosamente displicente. O que não condizia com a sua pose de bom moço.

— Para de ficar repetindo essa merda pra mim. Quero saber de tudo, seu imprestável. Quero que fale como você deixou tudo desandar, como você conseguiu destruir tudo o que tentei construir – Falei já um tanto sem paciência.

— Se você quer um relatório detalhado, não perca seu tempo. Minha mente está instável ao extremo, graças às suas façanhas de lobo. A qualquer momento perderei a realidade.

— E assim vai permanecer até eu decidir o contrário. Se eu decidir algum dia – Falei com prazer venenoso. Era ótimo estar no poder, ver Elijah tão destruído, tão vulnerável. Ele achava que eu era o fraco da história, mas na verdade era ele. E depois de saber que ele mantinha escondido um calabouço, um jeito de me trancar, mais eu apreciava o sabor de vê-lo agonizando.

— Então, desfrute da sua estadia tão confortável nessa caverna. Ninguém sabe que você está aqui. E duvido que alguém se importe em te libertar. Rebekah e Kol não tem ideia de nada. E duvido que não irão gostar da ideia de te verem preso. Se não for eu a te tirar daí, vai ficar assim até o efeito passar – Ele disse raivosamente – E se conforme. A bruxa milenar venceu. Ela conseguiu completar o feitiço e fechar o véu. Usou o sangue das dopplegangers para...

— O que? – Minha mente deu um estalo. Falei baixo demais, quase num sussurro, mas ele podia ouvir muito bem. Fiquei perplexo. Tinha me fugido completamente tudo o que aconteceu nas últimas horas com a Doppelganger. Ir buscá-la em New Orleans, o que ela me contou... Como não tinha me ocorrido isto ainda... Katerina Petrova poderia saber de alguma coisa. Aquilo que ela estava tentando me fazer acreditar sobre uma tal bruxa no French Quarter... — Onde está Katerina Petrova, Elijah?! – Gritei dessa vez. O desespero tomou conta de mim, fazendo meu coração acelerar e meu sangue esquentar as veias. Talvez realmente ainda houvesse alguma chance... O desgraçado nada respondeu, mas me olhou espantado. Depois seu rosto tomou uma expressão dura e fria, com desprezo. Talvez ele estivesse associando minha fúria à minha vingança eterna prometida à Katerina. Ele deveria achar que eu perguntava por ela porque queria matá-la. Que se fudesse Katerina Petrova e a vingança naquela hora. Eu apenas precisava daquela desgraçada para algo imprescindível.

— Mas, é claro que não vou te dizer, não para você causar mais mal do que já causou. Deixe ela em paz de uma vez por todas, Niklaus. Você já desgraçou a vida dela o suficiente – Ele respondeu cansado de mim.

— Não é por causa disso, seu idiota! Não quero matá-la. Ainda. Preciso dela imediatamente! Ela pode saber de coisas importantes – A essa altura já tinha perdido toda a calma que me restava. Era, mais uma vez, uma questão de vida ou morte. Estava correndo contra o tempo e a teimosia de Elijah estava me fazendo perder minutos preciosos – Me diga onde ela está e agora mesmo te dou meu sangue! — Estendi meu braço desesperadamente pra ele, tentando mostrar que não estava blefando.

— Se você acha que eu seria tão baixo a ponto de vender a vida de alguém só porque isso me daria alguma vantagem, então, irmão, você não me conhece bem – Ele falou calmamente, me irritando ao extremo. Avancei sobre ele sem cerimônias me esquecendo completamente que estava acorrentado. O ferro me impediu de continuar, me causou mais feridas e queimaduras, mais dor, mas a essa altura eu não estava nem aí.

— Escute aqui, seu inútil de merda – Falei alto e com ódio mortal de Elijah, enquanto tentava inutilmente me desprender — Katerina pode ter informações cruciais a respeito do que houve ontem. Sobre o Outro Lado. Ela sabe de coisas que não sabemos. Preciso falar com ela agora! – Ele me encarou aturdido e descrente, claramente avaliando se minhas palavras eram verdadeiras ou não – Ela mesma me disse em New Orleans, mas não acreditei nela. Me pareceu apenas estar barganhando e tentando me manipular para escapar da morte. É claro que eu ignorei completamente qualquer coisa que pudesse sair da boca daquela vagabunda. Mas, agora, é só o que me resta. Agora tudo o que ela me disse está fazendo sentido. Não vou matá-la, preciso dela. Eu preciso tentar seja o que for – Essas minhas últimas palavras tiveram mais significado para mim do que para ele — Ela me disse que há uma bruxa em New Orleans, descendente de Qetsiyah, que pode ser a resposta de tudo. Foi lá onde fui buscá-la. Katerina estava naquela cidade por causa disso. Queria saber tudo para me repassar e trocar pra sua liberdade. Talvez haja uma saída. Por favor, Elijah, eu te imploro. Me diga onde ela está — Ele pareceu refletir um pouco, me avaliando da cabeça aos pés, no entanto, essas palavras pareceram ter o efeito que eu desejava. Vi reflexos de crenças em seus olhos e senti um alívio momentâneo. Ele inspirou fundo e respondeu resignado.

— Quando a bruxa Qetsiyah completou o feitiço, os Salvatore levaram Katerina e Elena com eles. Permiti que levassem Katerina porque, pensei, se eu a levasse para a nossa casa, você a mataria no instante em que pisasse lá. Agora, o que os Salvatore vão fazer ou fizeram com ela, não é mais da minha conta – Ele falou ainda receoso.

— E isso, meu irmão, prova o quão você me conhece bem — Falei isso sorrindo sem humor, mordi meu próprio pulso e ofereci-lhe de longe, esperando ansiosamente que viesse beber do meu sangue. Meu irmão hesitou por um breve instante, me olhando desconfiado. Ele sabia que nem sempre podia confiar em mim. Em seguida se levantou penosamente, se arrastando com muita dificuldade, respirando ofegantemente. Até mesmo abrir os portões pareceu-lhe muito doloroso e uma tarefa infindável. Lentamente ele tocou em meus braços, levando meu pulso até seus lábios. Diante dos meus olhos a aparência de Elijah foi modificando, ficando mais saudável a medida que ele bebia do meu sangue. Sua cor foi retornando e suas feridas se fechando. Com certeza ainda não estava na plenitude da sua boa forma, isso levaria algumas horas, mas era o suficiente para se levantar dali.

— Podemos ir logo, Elijah? – Falei indicando as correntes, para que me tirasse logo delas. Ele apenas grunhiu em resposta e se pôs de pé ao meu lado. Andava com bastante dificuldade, mas pelo menos andava.

— Pode me trazer roupas? – Falei entre dentes. Estar numa situação tão desconfortável, constrangedora e fora de controle como essa me irritava absurdamente.

— Vai precisar esperar um pouco – Ele respondeu fracamente, enquanto arrebentava as correntes dos meus pulsos e tornozelos. Me senti imediatamente aliviado com a quebra do contato com o veneno.

— Seu carro não está na encosta?

— Você acha que tive tempo de fazer suas malas e correr de um lobisomem num carro? – Respondeu com sarcasmo. Ótimo. Ele levaria um século pra voltar. Teria que correr quilômetros até chegar à nossa casa, porque o santo Elijah não seria a favor de pegar um carro de um estranho na estrada.

Ainda que me sentisse aliviado da pressão do ferro e a sensação de ardência na pele estivesse passando, meu corpo estava detonado. Meus ossos pareciam que tinham sido triturados. Ainda estava sofrendo pelos efeitos do ataque da bruxa, magia forte, ao que parecia. Continuei sentado, encharcado de terra e de sangue. Teria que esperar pacientemente pela volta de Elijah, mesmo que isso me custasse a sanidade.

— Por que você não "pega emprestado" um carro na estrada, seu inteligente? — Falei sarcasticamente — Você não está pensando ir a pé, certo? — Terminei o encarando com raiva.

— É uma lástima que você me ache tão estúpido. Embora eu não queira tomar esse tipo de atitude, as circunstâncias me obrigam — Ele disse enquanto sacudia a terra das suas roupas caras e finas, agora ridiculamente deterioradas.

Revirei os olhos para o seu formalismo, mas sorri disfarçadamente satisfeito. Então, sem dizer mais nada, mas me olhando profundamente nos olhos, ele partiu na velocidade vampírica. Ficar ali parado, olhando para as paredes imundas, cheias de musgos e viajando no mundo sombrio das minhas perdas e desgraças era pior que tortura. Estava tão absorto na minha agonia que não percebi os ruídos do que seria Elijah se aproximando pela floresta. Quando ele, finalmente, voltou, após o que me pareceu mais outros mil anos de minha existência, Elijah apareceu com algumas roupas minhas. Não quis nem saber o que ele trouxe e as vesti por cima de toda a sujeira e sangue. O que mais me interessava era sair dali e resolver logo os mistérios impostos por Katerina. Corremos na velocidade vampírica até chegarmos na encosta da floresta, onde o carro preto social de Elijah, um Audi, estava parado. Não perguntei onde estaria o carro que ele deve ter arranjado na estrada, não me interessava saber disso. Eu apenas focava no meu objetivo.

Por todo o trajeto não trocamos uma palavra sequer. Eu não estava com humor para conversinhas e me concentrava no que estava por vir; Elijah estava absorto em seus próprios pensamentos e olhava fixamente para a estrada, nem piscava, parecendo igualmente querer alguma paz trazida pelo silêncio, me ignorando na mesma medida. Quando percebi que ele pegava o caminho para a nossa casa, precisei interromper a minha paz acabando com o silêncio.

— Pra onde você pensa que vai?- Proferi com raiva — É para a casa dos Salvatore que estamos indo. Será que você não entendeu merda nenhuma do que eu disse?!

— Mas, é claro que entendi, Niklaus. Só não imaginei que você fosse direto para a casa dos outros lavado de sujeira e de sangue alheio – Ele respondeu entre dentes. Visivelmente também já não tinha mais paciência alguma comigo. Que ele se fudesse, então.

— E que merda de diferença isso faz? Como se já não me conhecessem – Ele nada respondeu, apenas seguiu o caminho que eu mandei, mas me olhou de cara feia através do retrovisor. Eu não me importava com isso e com mais nada. Só queria recuperar algum controle, seja qual fosse. Já estava me enlouquecendo a ideia de simplesmente não ser capaz de fazer nada.

A tortura psicológica continuou até que finalmente estivéssemos de novo parados de frente para a casa daqueles babacas Salvatore.

Tão logo que cheguei à mansão, entrei sem esperar ser convidado, largando Elijah para trás. Dado a atual circunstância, não havia mais razão para formalidades. Damon, o imprestável, estava deitado no sofá, com as pernas jogadas para o alto sobre o encosto e um copo de bebida na mão. Ele cantarolava enquanto fazia movimento com as mãos, como se acompanhasse alguma melodia imaginária.

— Acho que você perdeu as boas maneiras. Nem bate mais na porta. Tá louco? – Ele disse ironicamente, sem me olhar. Ignorei o comentário.

— Estou aqui para levar Katerina Petrova – Fui direto ao ponto.

— Imaginei. Já estava demorando. Pensei que a essa hora já estaria cercando a pilantra. Ela é toda sua, pode ir lá matá-la. Embora eu não tenha tanta certeza de que esteja viva – Respondeu com indiferença. Como se eu precisasse da permissão dele. Eu iria levar Katerina ele querendo ou não. Mas, aparentemente, não haveria resistência; se livrar de Katerina era um desejo unânime – A bruxa fez um trabalho e tanto com as Doppelgangers. Estão congeladas – Disse isso amargurado. Provavelmente se lamentando por sua amante sem graça, Elena Gilbert, e isso não era nem um pouco do meu interesse.

— Onde está meu velho amigo? Imagino que ele iria saborear tanto quanto você um momento tão especial como esse. Não era ele que também queria vingança e destruir Katerina? – Falei com veneno. Claro que deixaria que o Salvatore pensasse que aquele fosse meu real objetivo. Não revelaria a verdade para eles.

— Todos nós gostaríamos de ver Katherine ser pulverizada e queimar no fogo inferno, é claro. Eu até pediria para você gravar e me enviar o vídeo. Para eu assistir quando quiser ver algum filme relaxante numa tardezinha tranquila, sabe, tipo cinema e pipoca. Mas, não, Tefinho não está em casa. Então, tive que ficar de babá – Ele falou apontando para o andar de cima — Ele está ajudando aos outros a organizarem um velório para Caroline e Bonnie. Talvez você devesse ir, sabe, prestar as suas últimas homenagens à Barbie. Ou já foi rejeitado por ela o bastante para não ligar mais? – Ele terminou com desdém. Meu peito deu uma torcida e meu coração disparou. Socar a cara dele me pareceu muito propício e correto no momento. E, então, finalmente ele me encarou. Talvez esperasse encontrar na minha cara algum resquício de reação ou que transparecesse exatamente o pânico e ódio que se instalaram dentro de mim naquele instante. Sua expressão estava dividida entre a malícia e o choque. Provavelmente a minha aparência suja de terra e sangue deve ter lhe causado algum desconforto. O que seria estranho, já que era muito normal para esse babaca estar nessas mesmas condições. Endureci o meu rosto o máximo que pude e tentei me manter impassível. Mas, depois de ignorar o meu estado e de dar uma olhada mais precisa, ele pareceu me decifrar com exatidão, pois, com certeza, podia ouvir com muita clareza as batidas fortes do meu coração. Além disso, minha expressão certamente me denunciava, o resto do meu corpo me denunciava. Me incomodava ao extremo que me testassem, que me expusessem dessa forma. Que conhecessem algum ponto fraco meu, por menor que ele fosse. Ele ficou me olhando, continuava a me encarar esperando que eu cometesse mais algum deslize. Não agüentando mais essa tortura, virei o rosto e subi às escadas, sem dizer mais nada, sem nem mesmo me dar ao trabalho de responder. Meu tempo era precioso demais para perder com Damon Salvatore. Mas, se ele continuasse me provocando, seria difícil manter a promessa que fiz a Caroline. É só por isso esse babaca ainda estava com a cabeça no pescoço.

Chegando ao andar de cima, fazendo o máximo para controlar as emoções irritantemente humanas e me concentrar no meu objetivo, apurei a audição para descobrir o paradeiro de Katerina. Não foi difícil encontrá-la. Sua respiração leve e monótona não estava muito longe de mim. Ao chegar ao quarto, a vi deitada na cama, com a expressão pacífica, como se apenas dormisse. Sua aparência, porém, não acompanhava seu estado de espírito; suas roupas estavam sujas e rasgadas, além dos cabelos estarem emaranhados. Já que não se encontrava consciente, precisaria entrar em sua mente e descobrir de uma vez por todas o que estava acontecendo, se tudo aquilo era verdade. Depois, sem relutância alguma, poderia matá-la finalmente. Esse pensamento me trazia bastante alegria. Matar Katerina seria prazeroso demais. Contudo, eu queria que fosse quando ela estivesse acordada. Queria ver o medo em seus olhos, a constatação de que seu pior pesadelo estava prestes a se concretizar. Como aquele prazer que o verdadeiro predador sente apenas na perseguição com o medo que as presas sentem. Me aproximei e sentei em um dos lados da cama, próximo à sua cabeça. Então, com sutileza, comecei a tentar penetrar os obstáculos de sua mente, mas fui barrado quase de imediato. Fiquei em choque ao perceber que ela ainda poderia possuir algum resquício de verbena no sistema, o que me impossibilitaria de vasculhar a sua cabeça. Cortei de leve seu pescoço e bebi um tanto do seu sangue. Senti o gosto forte e ácido da Verbena queimando meus lábios. O ódio se instalou de tal forma dentro de mim que soquei com força a madeira da cabeceira, a espatifando em vários pedaços. Meus planos estavam frustrados. Agora dependeria de outra pessoa, das circunstâncias, do acaso. E essa pessoa era justamente Katerina Petrova. E isso me deixava louco. Levantei da cama de supetão e fui até à janela frustrado, tentando realinhar as ideias. Teria que ficar de guarda e esperar que essa demônia acordasse. Teria que mantê-la em cativeiro até que a verbena saísse de seu corpo ou teria que torturá-la para receber minhas respostas. Essa última opção me pareceu muito tentadora e reconfortante. Fazer Katerina sofrer sempre era uma alternativa substancialmente considerável, além de muito agradável. Encarei o jardim à frente, iluminado pelo Sol radiante do final da primavera. Aquele clima não refletia em nada o que eu estava sentindo ou pensando. Senti uma vontade enorme de pintar, de fazer um desenho de uma tempestade, de chuvas torrenciais e Céu nublado. Porque esse era o meu humor atual, totalmente enegrecido e tempestuoso, mergulhado na desesperança e na desgraça.
De malgrado meus pensamentos foram desviados para outras bandas. Em algum lugar perto, nesse instante o corpo de Caroline jazia em alguma caixa de madeira, esperando para ser velado e enterrado. O corpo sem vida, sem aquela alegria contagiante, sem aquele otimismo exagerado, não fazia o menor sentido na minha cabeça. Não conseguia nem visualizar como seria olhar para uma Caroline assim. A imagem do seu sorriso ingênuo, energia positiva, sempre com os cabelos balançando de forma petulante era o que me confortava um pouco, como se ela ainda estivesse nesse mundo, vagando lá fora e esperando por mais uma chance de gritar comigo. Nunca me esqueceria da sensação de estar próximo ao seu corpo quente, de saber que estava ali perto de mim e segura. Só a ideia desse evento fúnebre, que encerra a vida, que dá o fechamento, me deixava possesso, aumentando mais ainda minha ansiedade e expectativa para o que estava por vir. Se eu iria ou não obter sucesso; muita coisa podia dar errado, eram muitas variáveis.
Pude escutar o som de batidas na porta de entrada e logo reconheci as voz do meu irmão pestilento. Revirei os olhos e respirei fundo. Eu realmente não tinha paz, me seguiu até aqui sem necessidade algum. Ele estava aqui para me vigiar, me controlar? E por que diabos ele estava batendo na porta e não entrou de uma vez? Ou estava aqui para garantir que eu não arrancaria o coração da sua preciosa Katerina? Esperei que chegasse até aqui, pois tão logo ele estaria no meu pé de novo. Ouvi Elijah falando educadamente com Damon, enquanto, pelo barulho de seus sapatos engraxados e imundos de terra, caminhava até o andar de cima.

— Ah, ela ainda está desacordada e viva. Bravo, Niklaus— Ele disse um tanto aliviado e desdenhoso, parado à porta e observando Katerina.

— Não por muito tempo, eu espero – Respondi asperamente – Vou levá-la para a minha casa. Lá poderei vigiá-la de perto até que acorde — O encarei ameaçadoramente, caso tentasse me impedir para salvar a amante.

— Se você tivesse me contado antes, quando teve a oportunidade, ela já estaria lá.

— Não me provoque, Elijah. Você sabe que não deu tempo – Alarmei — E você teria aprisionado a sua adorada amante só para ajudar meus planos? Não me parece coisa sua — Afirmei com desdém.

— Nosso caso acabou meses atrás, quando percebi que ela só estava me usando para obter informações sobre Silas e a Cura. Percebi que não há futuro em gostar dela.

— Bravo, Elijah! Agora digo eu. E mesmo assim ainda a protege. Não pode negar que ainda se importa com ela.

— Não me importo com essa Katerina fria e cínica. Eu amava e protegia de você a outra Katerina, a doce e inocente. Mas, essa Katerina não existe mais, você tratou disso pessoalmente. Mas, é loucura sua querer se vingar de alguém só porque estava se protegendo de você. Portanto, realmente acho que a sua vingança não faz sentido e não é justa — Isso me fez lembrar mais ainda de Caroline, que semanas atrás estava jogando essas mesmas palavras na minha cara — Contudo, a família vem na frente. Questões mais urgentes requerem mais a minha atenção do que tentar redimir alguém que claramente não faria o mesmo por mim.

Olhei perplexo pra ele. Fosse porque estava reafirmando o argumento de Caroline, fosse porque ele estava declarando pra mim que aprovava minhas insanidades contra essa doida por quem um dia ele nutriu algum afeto. Elijah às vezes me pegava desprevenido. Sem dizer mais nada, contornei a cama e peguei Katerina no colo, sem mais delongas.
Muitos não entenderiam nada das minhas ações, até as considerariam sem sentido algum, insanas, mas eu estava pouco me lixando. Saí do quarto e desci as escadas o mais rápido que pude nas limitações da velocidade humana. Ao chegar lá embaixo, me deparei com a expressão de incredulidade de Damon.

— Que ótimo, agora não precisarei mais ser babá dessa vadia – O Salvatore falou petulantemente, ainda que mal disfarçasse a surpresa no que via – Não conte comigo para mais nada. Tira essa naja logo daqui – Ignorei a peste e fui até a porta principal, sob as exclamações do Salvatore — Estou em dúvida se pergunto ou não o que você está fazendo. Embora eu queira muito me livrar dessa onça, nada do que você faça pode ser bom para o resto da humanidade. Mas, sabe, no fim das contas, não me importo – O ignorei completamente – Bem, enfim, passar bem. Não aceito devoluções! – Ele falou alto abrindo a porta pra mim e me fazendo uma falsa saudação de despedida de bom anfitrião.
Minha paciência já tinha se esgotado fazia tempo.
Levando Katerina e a jogando no banco de trás do carro sem um pingo de cuidado e com certa violência, pensava em como as coisas tinham desandado e saído do meu controle em apenas um dia. Piorava a cada minuto, uma gama de gato sem fim. Entrei no carro, com Elijah às minhas costas, e saí da entrada dos Salvatore. Katerina ainda parecia em coma, a movimentação não pareceu perturbá-la nem um pouco, com exceção de algumas ondulações ou chacoalhões que sofria seu corpo pelo balanço do carro; e eu ficava cada vez mais receoso, beirando ao desespero. E se a bruxa pôs algum feitiço que nunca mais a fizesse acordar? Seria um desastre total, uma brincadeira desgraçadamente filha da puta do universo. O pânico estava prestes a se instalar em mim.

Percebi que Elijah me seguia. Ele entrou no carro e me esperou dar partida. Ótimo. Por que não ia a pé? Não estava a fim de aturar ninguém. Não queria que ele continuasse atras de mim como estava, feito um guarda-costas, uma sombra me secando obsessivamente. Talvez só quisesse vigiar as minhas ações, para tentar me controlar caso eu resolvesse enlouquecer de vez. Mas, eu só queria a minha privacidade para pensar, planejar, colocar os pensamentos em ordem. Talvez construir um plano B. Mas, que plano B? Como poderia haver um segundo plano se nem mesmo eu tive um plano A? Se esse nem era um plano de verdade? Era apenas um tiro no escuro, uma tentativa na sorte. A frustração e ódio me dominavam à medida que a realidade ia caindo sobre mim. Essa desgraçada precisava acordar. Carma é uma filha da puta. Hoje eu estava nas mãos de Katerina Petrova, a quem eu jurei uma vingança monstruosa. Olhei pelo retrovisor e não parecia haver mudança alguma no seu estado. Dura feito pedra, branca feito morta. Minha vontade era de estapear a sua cara para ver se fazia alguma diferença.
Cheguei em casa com uma raiva descomunal, largando o carro em qualquer canto do jardim de entrada. Saí do veículo com pressa, ignorando a existência de Elijah, e me direcionei a Katerina, apanhando e arrastando o seu peso morto. Em nenhuma outra circunstância, nem nos restantes 500 anos de existência, imaginei que passaria por essa situação humilhante com ela. Sempre visualizei meu encontro com ela um pouco mais sangrento, mais mortal. Imaginava o meu triunfo e a cara de desespero dessa que se achava malandra ao constatar que a sua hora tinha chegado.
Perdido em meus pensamentos enquanto caminhava passando pelo belíssimo chafariz próximo à entrada principal, avistei o carro esporte e prateado da minha irmã piolhenta estacionado na frente da casa. Revirei os olhos e suspirei cansado. Já não me bastavam todos os meus problemas. Agora teria também que suportar Rebekah falando sem parar nos meus ouvidos, sem contar as explicações que ela tentaria me obrigar a dar. Me bombardearia com perguntas a respeito de Katerina e, com certeza, iria me infernizar por não ter feito nada para ajudá-la contra o ataque da bruxa, como se eu estivesse de férias em Bahamas e não sendo atacado também. E o que eu poderia fazer? Estava a quilômetros de distância. Até senti um assomo de preocupação na hora, mas nada muito intenso. Ela sabia se virar muito bem sozinha. Agora, tinha que admitir, me peguei aliviado por saber que estava em casa sã e salva (o que me fez sorrir de canto involuntariamente), coisa que eu nunca falaria em voz alta pra ela, é claro. Entramos na casa, passando pelo amplo salão de entrada recoberto de mármore branco. Ele estava fantasmagoricamente silencioso, com seu aspecto bem iluminado e luxuoso, sem uma única poeira quebrando a harmonia da decoração. Fruto do árduo trabalho dos meus empregados muito bem hipnotizados, mas muito bem pagos também. Pegamos um dos corredores de acesso ao interior da mansão, que era um pouco mais escuro, e encontramos Rebekah estirada em um dos sofás de couro preto da sala de estar.

— Estava me perguntando onde meus queridos e cuidadosos irmãos estav... – Falou nos encarando de expressão rabugenta e com desprezo antes de abrir uma boca enorme numa espécie de escândalo contido.

— Mas, o que vocês estão fazendo?! – Ela disse se levantando às pressas.

Essa discussão poderia ficar para outra hora. E o que ela pensava não me interessava nem um pouco. Irmão é a pior raça de gente do universo, pensei distraidamente. Depois eles não entendiam por que eu os colocava para tirar umas férias no caixão. Agora concentraria as minhas energias em desvendar esse novo mistério, começando por Katerina.

Devido às minhas ações violentas e temperamento sádico, mantinha algumas celas no porão para hospedar alguns convidados. Hoje seria a vez de Katerina Petrova. Joguei seu corpo inerte no chão sem delicadeza alguma e a prendi com as grossas correntes. Tomei cuidado para não prendê-la com as aquelas embebidas em verbena, pois precisava que a substância saísse o mais rápido possível de seu corpo. A questão é que, sem verbena, ela poderia se soltar e fugir da casa sem problema algum assim que acordasse, o que tornaria imprescindível a vigilância constante de um Original sobre ela. Eu iria precisar vigiá-la vinte e quatro horas por dia até que acordasse, se acordasse.

Agora era isso. Sentar e esperar que o universo decidisse parar de me fuder. Que essa minha última esperança se tornasse algo concreto, tangível. Que minhas preces (ora essa, eu pedindo ajuda seja lá ao que) fossem ouvidas.

Saí da cela e fiquei olhando a sua figura imutável estirada no chão. Só então que comecei a me importar com o estado deplorável em que me encontrava. Absurdamente sujo de sangue seco e de terra mal cheirosa. Bem, ficar secando Katerina talvez não surtisse efeito algum e não a fizesse acordar. Relutantemente, deixei as celas do porão. Ela não teria como fugir da casa, se acordasse, com três Originais por perto. Ficaria com os meus ouvidos focados nela. Saí do porão e peguei os corredores para o interior da casa. Subi as escadas ao lado da biblioteca, evitando ao máximo meus irmãos, e fui direto para meu quarto. Tomaria um banho rápido e rumaria de volta para o cativeiro. Embora dessa vez eu quisesse muito que ela não estivesse mentindo, a dúvida sempre pairava. Katerina era uma mentirosa sem escrúpulos, manipuladora sem precedentes.
Não demorei muito no chuveiro, minha ansiedade estava me consumindo demais para prolongar mais do que o necessário. Vesti uma roupa simples; calça jeans preta e blusa cinza de manga e com gola em V. Não estava muito interessado em minúcias, apenas queria chegar no meu objetivo. A fim de evitar totalmente meus irmãos e impedir que me seguissem, peguei a escada de outra parte da casa e usei uma saída diferente dos corredores do andar de cima. Peguei a parte dos fundos e caminhei até o porão, para começar a minha vigilância sem prazo de validade.
Me sentei em um banco de madeira encostado na parede cavernosa, de frente para o portão de barras de aço da cela onde havia posto Katerina. As sombras causadas pela baixa iluminação geravam um efeito sinistro. A luz aqui era pouca; apenas duas lâmpadas iluminavam o corredor que dava acesso a essa parte restrita do porão. Era preciso passar por outros dois corredores antes de chegar ao pedaço onde se encontravam as celas. Era bem escondido, de difícil acesso. Katerina jamais seria encontrada aqui por quem não conhecesse o lugar. Essa casa era um labirinto e eu adorava ela por isso. E aqui a maldita ficaria até que esse mistério se resolvesse. Depois, ela é quem seria resolvida.

No que me pareceu centenas de milhares de anos passados, com os pensamentos mergulhados nas sombras da desesperança e em ideias tortuosas, ouvi passos se aproximando de onde eu estava. Ao que parecia, não percebi pessoas se movimentando na casa até que estivesse muito perto de mim. Eu estava assim ultimamente, distraído demais, vulnerável demais. Obviamente, eram Elijan e Rebekah, e estavam vindo para me infernizar, é claro. Essa era a função de vida dos meus irmãos. Sem contar que vinham diretamente até o cativeiro, local que só minha família sabia onde era – e os convidados especiais, é claro, diga-se de passagem, mas os poucos que sobreviveram para contar a história não se lembravam de nada.

Elijah entrou no meu campo de visão, mas em silêncio. Não me virei para eles, tampouco fiz parecer que notei a sua chegada.

— Sabe, Nik – escutei a voz chata e estridente da minha irmã, sem realmente vê-la – Acho que você e Elijah me devem uma explicação. Ele se recusou a me informar o que fosse antes de descermos aqui, esperando você terminar o seu banho da noiva. E nada disso está fazendo sentido algum. Você aparece aqui carregando Katerina Petrova no colo e age de forma infame, como se nada tivesse acontecendo, como se eu não estivesse no direito de questionar. Acho que vocês enlouqueceram de vez...

— Você é que vai acabar me enlouquecendo se não calar essa boca, Sistah – respondi entre dentes. Ela me ignorou e continuou falando sem parar, dessa vez se pondo bem na minha frente.

— Vocês nem se dão ao trabalho de me avisar se estão a salvo e nem de checar onde estou, se estou bem, se estou viva. Tanta coisa me acontecendo, como aquela bruxa me atacando e vocês sumiram por quase um dia. Vocês não tem ideia do quão aterrorizada fiquei pensando o pior – Ela terminou nos olhando com raiva.

— Claro, sistah, minhas sinceras desculpas. Esqueci que o mundo gira ao seu redor – Respondi ironicamente — E acho que as suas habilidades de vampira Original podem te manter viva sem precisar da nossa interferência.

— Desculpe — disse Elijah — estávamos ocupados tentando resolver a questão da Bruxa, Rebekah. Também fomos pegos no fogo cruzado, você sabe. E logo vamos te esclarecer tudo. Nós não estávamos em melhores condições que você. Ela nos atacou também. Mas, tudo foi tão caótico...– Ele falou gentilmente, lhe alisando os cabelos. Revirei os olhos. Elijah era muito mole – Sinto muito pelo ataque. Espero que você esteja melhor. Não queríamos ter te abandonado – Ele terminou lhe afagando os cabelos carinhosamente.

— Já que você se importa, irmão, te digo que estou bem – Ela respondeu me encarando feio, mas visivelmente mais branda – Mas, agora me expliquem tudo o que aconteceu enquanto Kol e eu estávamos sendo massacrados – Disse amarga, porém mais contida. Elijah sabia como dobrar Rebekah. Falava exatamente o que ela queria ouvir. Eu já não sabia e nem queria ter toda essa paciência.

Sendo assim, atualizamos rapidamente nossa irmã dos acontecimentos, sem detalhes desnecessários. Eu estava com pressa para que essa conversa logo terminasse, portanto não fiz nenhum rodeio. Tampouco contei que me transformei em lobo, fazendo sinal de advertência para Elijah não abrir a boca também, senão seria mais uma rodada de sermões e questionamentos de que eu não estava nem um pouco afim de ouvir e nem disposto a perder mais tempo e energia explicando. Não aturaria isso dela e nem de ninguém. Apenas nos concentramos em falar sobre a Bruxa, mentindo descaradamente sobre o excesso de sangue seco espalhado no meu corpo, para não mencionar a transformação. Nem sabia exatamente porque eu ainda estava ali explicando alguma coisa pra ela, não era do meu feitio. Ocasionalmente ela fazia comentários inoportunos, como se me interessasse pela sua opinião petulante. Para meu alívio, Elijah não deixou transparecer que se interessava pelo bem estar de Caroline, principalmente por minha causa e que, muito menos, estava lá na clareira para protegê-la por mim. Seria um inferno que Rebekah tomasse por conhecimento dos meus verdadeiros sentimentos. Embora não tenha falado abertamente para Elijah, eu sabia que ele sabia. Ele praticamente havia me confessado na noite anterior que sabia. Então, era reconfortante que ele mantivesse em segredo, que respeitasse a minha privacidade. Agradeci internamente pelo bom senso do meu irmão mais velho. Porém, eu sabia que Elijah não ficaria satisfeito por guardar segredos de Rebekah por muito tempo. Ele era assim, com todos aqueles lemas de família e blá blá blá. Ele abriria a bico mais cedo ou mais tarde. Mas, eu não deixaria que ele expusesse a história de Katerina. Não era seguro. Era uma informação muito preciosa, frágil e evasiva. Um tanto perigosa, admito. Além de ter grandes chances de não ser verdadeira. Era fundamental que mantivéssemos em segredo, pois, se outras pessoas soubessem, poderiam usar isso contra nós. E Rebekah tinha a fama de linguaruda desde quando éramos crianças. Quantas vezes já nos expôs a quase morte certa por não manter a língua dentro da goela. Nem sempre fazia por mal, mas era uma verdadeira imbecil iludida e inconveniente exatamente quando mais deveria não sê-los. Era só alguém ser um mínimo gentil com ela que se abria que nem uma flor, tagarelando todos os nossos segredos.
Veja só, minhas esperanças estavam tão afincadas nessa mísera possibilidade que já a estava tomando como verídica. Pior ainda era saber que essa mínima esperança vinha exatamente da odiosa Katerina, a quem jurei matar imediatamente assim que pusesse minhas mãos. Suspirei pesadamente passando as mãos nos cabelos, exausto demais, sentido meu corpo pesar no banco de madeira.

— Então, por que você a trouxe para cá, Nik? – Rebekah falou me olhando com deboche, me tirando do transe – Vai apenas esperar Katerina acordar para matá-la?

— Exatamente, Sistah – Respondi sorrindo maliciosamente e olhando para Elijah. Ele sabia que essa não era a verdade. E, com a minha resposta, ele entendeu muito bem que era para não abrir a boca para falar nada.

— Vocês fiquem aqui de olho nela. Se precisar sair, me esperem voltar. Em hipótese alguma deixem esse lugar sem a vigia de um de nós, entenderam? – Os encarei. Talvez com um pouco mais de dureza do que o necessário, mas meu humor não estava bom para ser gentil.

— Você não manda em mim, Nik. Não vou ficar de babá – Rebekah era um saco às vezes.

— E você vai fazer o que agora? – Elijah indagou curioso, mas não lhe dei resposta alguma. Não na frente de Rebekah. Depois, se eu estivesse com vontade, contaria a ele sobre meus planos. Iria até à biblioteca daquele palhaço do Shane. Quem sabe eu não encontraria alguma coisa sobre a linhagem de Qetsiyah. Esse não foi o plano estúpido deles mais cedo? O problema é que eu não fui para ajudar, então não poderia confiar nas habilidades daquele povinho. Talvez tivessem deixado passar alguma coisa que estava bem debaixo dos seus narizes. Era ridículo eu reproduzir as ideias absurdas daqueles idiotas, mas que escolha eu tinha a essa altura? Dei um olhar significativo para Elijah enquanto saía pelos corredores. Mas, fui seguido pelo meu irmão até o jardim. Ele permaneceu em silêncio até que estivéssemos longe o bastante da nossa irmã, já do lado de fora da mansão.

— Aonde você vai, Niklaus? Vai ao enterro de Caroline Forbes? Não estamos vestidos apropriadamente. Devemos nos trocar – Ele disse genuinamente, me pegando desprevenido outra vez. Eu olhei para o céu azul claro, sentindo o calor do Sol. Meus olhos arderam, me fazendo sentir fraco.

— Não tenho nada para fazer lá – respondi com dureza – Vou a outro lugar.

— Não vai ao menos se despedir? – Seu tom era pasmo e descrente.

— Ela não está morta ainda, Elijah – falei sem encara-lo.

—Sim, ela está, sim, Niklaus.

— Acredito que posso ser mais útil ao buscar respostas em outro lugar – Falei não crendo totalmente nisso. Claro que eu gostaria de vê-la. Só não aguentaria presenciá-la dentro de um caixão. Isso seria tornar real a sua morte, contrariando a minha negação interna. Na minha cabeça ela só estava em algum lugar daquela cidadezinha dando ordens em alguém e me esperando com seus comentários petulantes e sarcásticos, pronta para brigar comigo por ser um cretino. Eu não queria ter que constatar que ela realmente tinha morrido e perder totalmente as esperanças. Além disso, certamente tudo o que eu tentei esconder durante todo esse tempo ficaria exposto pra quem quisesse ver. Mas, talvez eu não me importasse mais. A essa altura, quem não tinha certeza do que eu sentia por ela, ao menos desconfiava.

— Niklaus, talvez não encontremos solução e essa seja a nossa realidade daqui para frente. Acredito que você possa se arrepender se não...

— Já chega, Elijah! – Gritei. Rebekah poderia muito bem estar nos ouvindo agora e meu segredo estaria exposto – Você só sabe me sufocar! Eu vou se eu quiser. Você pode, por favor, parar de me seguir para todo lado? De querer me comandar? Está me enlouquecendo! Eu não sou o seu projeto de vida e família feliz!

— Você é quem deveria parar! Eu também já estou cansado de você! Toda essa palhaçada sua acaba aqui. Se você quer ficar sozinho, então fique. Só não reclame depois que te abandonarem de novo – Ele disse raivoso. O olhei surpreso – Você querendo ou não, você indo ou não indo, eu irei ao funeral de Caroline. Eu realmente não tenho que te dizer qual é o certo a se fazer, você sabe. E não se atreva a tentar me impedir. Minha paciência com você já acabou. Já tivemos tantos desentendimentos. Pensei que estivéssemos do mesmo lado. Eu te ajudo nas suas insanidades em prol do bem estar da nossa família e a sua ingratidão nunca chega ao fim. Já passamos dessa fase, Niklaus, de brigarmos por tudo. Eu não vou mais tolerar esse comportamento de você. Já te carreguei por séculos. Não mais. Não desperte a minha ira ou vai se arrepender – E, sendo assim, ele me deu às costas e entrou na casa, me deixando para trás boquiaberto. Elijah estava a flor da pele ultimamente, perdendo a sua compostura refinada por qualquer razão. É claro que nem sempre ele era um perfeito aristocrata, já o vi em diversos momentos de fúria e de total descontrole causados pelo vampirismo, mas somente em situações realmente extremas. E essa, certamente, era uma.

Fiquei parado olhando de um lado e para outro, confuso, sem decidir o que fazer. Ir ao funeral era o que eu mais desejava. Mas, vê-la morta era o meu pior pesadelo, o que eu mais temia. Isso acabaria de vez com a minha sanidade, eu sabia disso. Tinha medo do que esse funeral pudesse me causar. Que me fizesse perder as estribeiras de vez, que acabasse com o último fio de auto-controle. Com relutância e os pensamentos a mil, entrei às pressas na casa e fui direto para o meu quarto, passando rápido pelos cômodos sem realmente vê-los. Me sentei na minha cama larga e confortável, tentando lembrar de qual foi a última vez que havia deitado nela e tido um sono tranquilo. O cansaço bateu no meu corpo como chumbo, mas a ansiedade e o medo no peito não me permitiriam dormir nem sob efeito de drogas. Acho que nem a verbena mais forte desse mundo teria o poder de me apagar agora. Olhei para o quarto ao redor e avistei as portas do closet. Sem pensar no que fazia, apenas sendo guiado pelos meus pés com vontade própria, entrei no closet e retirei um terno preto e elegante. O mesmo que vesti na formatura dela. Eu possuía trocentos ternos, mas queria usar esse. Ele representava um dia alegre, um dia que foi um dos mais felizes para ela, eu tinha certeza disso. Talvez trouxesse bom agouro. Me vesti rapidamente, de frente para um espelho grande preso à parede. Minha expressão estava dura e minhas feições estavam cansadas, manchadas por olheiras profundas e falta de brilho nos olhos.
Me sentei novamente na cama, tentando acalmar meu coração que começou a disparar freneticamente. Eu ainda estava decidindo se ir ao funeral era uma atitude sensata, pois uma ótima ideia não era mesmo. Meu estômago embrulhou, me fazendo ficar enjoado. Também nem me lembrava da última vez que tinha comido direito; tanto comida humana quanto sangue.
Decidido a engolir a covardia, me levantei com pressa e saí do quarto. Ao chegar no jardim, o carro de Elijah não se encontrava mais lá. O que significava que ele havia partido sem mim. Mas, Rebekah me esperava me olhando séria.

— Elijah me disse aonde vocês vão – Então, ele sabia que eu acabaria indo — Eu iria também, se não tivesse que ficar presa aqui com Katerina Petrova – disse mal humorada – Eu não detestava Caroline, sabe. Ela foi uma boa amiga de vez em quando. Lamento a sua morte, de verdade. Quando eu puder, irei falar com seus amigos, prestar minhas condolências – ela falou realmente chateada.

— Sinto muito por te obrigar a ficar, Sistah – falei com sinceridade, consternado – Não te colocaria nessa posição se não fosse estritamente necessário.

— Eu ainda não sei por quê. Uma hora ou outra você vai ter que me contar. Mas, enfim – Disse me olhando resignada, antes de entrar na casa.

Sem mais delongas, peguei um carro qualquer que estava próximo à entrada, um Bentley conversível azul, um carro antigo e espalhafatoso de Kol. Provavelmente ele havia usado esse carro um poucos antes do Véu ser levantado e por isso estava largado ali no jardim e não na garagem comendo poeira. Mais outra dor se apoderava de mim. Kol. Meu irmão impertinente e arruaceiro, que me tirava do sério ao fazer de tudo para me infernizar. Mas, era o meu caçula, a quem eu amava incondicionalmente apesar de tudo. Suas palavras acoaram na minha cabeça, quando ele me deu um sermão ao voltarmos de Alexandria. Ele tinha razão. Temos que mostrar aos que nos importam o que sentimos antes de ser tarde demais, como agora...
Mas, ainda não era tarde. Eles voltariam. Eu os faria voltar. Eu ainda aturaria séculos de um Kol tentando me sabotar. E ele ainda comeria muita poeira do caixão.

Fechei a capota preta e dirigi o mais devagar que pude. Não estava ansioso para chegar ao local. Até que me lembrei que não sabia onde seria. Bem, todos os memoriais daquela cidadezinha eram feitos na única igreja que ali existia. Porém, eu realmente não sabia onde seria o funeral. Tomando coragem para engolir o orgulho e ligar para Elijah para perguntar, disquei seu número, me perguntando como ele havia descoberto onde seria. Talvez tivesse perguntado a Damon quando fomos a casa dos Salvatore e eu não tivesse escutado, distraído com Katerina.

— Diga – ele atendeu no terceiro toque.

— Onde é que vai ser? – apenas disse isso. Ele entendeu logo, é claro.

— O memorial já acabou. Não demorou muito. Quando eu cheguei, já estava terminando. Estamos no cemitério – Ele respirou fundo – Se apresse – E desligou.

— Já estou cheg... – Quando disse, ele já desligava.
Achei estranho ter sido tudo tão rápido assim. Não demorou quase nada, mais ou menos o tempo que fiquei na pele do lobo. Conhecendo Caroline como eu conhecia, ela faria um banquete para o próprio enterro, um verdadeiro evento com tudo o que tivesse direito. Sorri com essa ideia cabulosa. Só ela era capaz de coisas assim. Pensar isso só tornou tudo muito pior, pois eu não sabia se algum dia a veria comandando e organizando comitês ou bailes novamente. Se a veria mandando e desmandando, sendo complulsiva como só ela sabia ser.

Cheguei ao cemitério em poucos minutos. Nada era muito longe naquela cidadezinha pacata. O local não era muito grande. Dava para ver da estrada os jazidos e tumbas espalhados pelo gramado verde desbotado e coberto de folhas secas. Saí do carro e caminhei por sobre a mata aparada até adentrar só um pouco nas profundezas do cemitério. Avistei não muito perto da encosta Elijah conversando com Liz Forbes. Involuntariamente, senti um arrepio na espinha. Suas feições demonstravam o quão arrasada ela estava. Olheiras profundas e rosto vermelho manchado de lágrimas. Nunca saberia dizer, mas perder um filho talvez seja o pior dos acontecimentos. Cem anos atrás eu criei alguém como um protegido, mas ele agora era só uma lembrança. Mas, lembro bem de como foi dolorido constatar a sua morte.
Fui na direção deles, sem ter certeza de que estava tomando a decisão certa. Eu sabia que Liz não era a minha maior fã. Eu matei as suas duas melhores amigas de infância e infernizei a cidade em que ela tanto se esforçava para proteger. Além de estar envolvido com a morte da filha dela. É, pensando bem, não era nem de longe uma boa ideia me aproximar. Mas, quando cheguei a essa conclusão, já era tarde demais, já os tinha alcançado. Ela me olhou com desprezo e, possivelmente, ódio contido.

— O que faz aqui, Klaus? – Seus olhos derramavam fogo sobre mim – É preciso muita coragem ou falta de escrúpulos para se mostrar aqui, você não acha, não?

— Liz – disse Elijah em tom calmo, a alarmando – estamos todos de corações partidos por nossa perda. Vamos nos ater a isso.

— Você está sugerindo que Klaus possua algum coração e que ele se importe com alguém? – Ela disse ainda me encarando perigosamente. Eu tinha que admitir, ela era corajosa por falar assim comigo. Tentei ficar com raiva, mas só o que vinha a minha cabeça era a voz de Caroline, "Meu Deus. Você tem mesmo um coração" – Eu pediria para você sair. Você não é digno de estar aqui, no funeral dela. Tudo isso é sua culpa. Eu poderiam fazer te expulsarem – Me disse me apontando acusadoramente e fazendo meu coração esmagar contra o peito – Mas, não vou causar escândalos no enterro da minha filha e da Bonnie. Com licença.

E assim ela se foi, sem ao menos me dar a chance de prestar-lhe as minhas condolências e lhe pedir perdão. Porque eu faria isso sem pensar duas vezes. Fechei os olhos e inspirei fundo.

— Você não pode culpá-la, Niklaus – a voz odiosa do meu irmão ressoou, piorando a situação.

— Eu sei que não – respondi esfregando a testa ainda de olhos fechados, os sentindo arder. Os abri e olhei bem para a minha frente, avistando Stefan Salvatore se aproximar de mim. Era só o que me faltava mesmo.

— Quem diria, você por aqui – ele disse sarcasticamente — Veio infernizar a vida de mais quem? Já não fez o bastante? Já passou da hora de você ir sugar a vida das pessoas em outra cidade.

— Pensei que o papel de cão raivoso e o escárnio fossem especialidades de Damon, não suas, Rippah. Por que você não vai lá lamber o chão em que ele pisa enquanto ele fode a sua namoradinha Elena e esfrega isso na sua cara? Ah, desculpe, ela ainda também está em estado vegetativo, a pobre Doppelganger?

— Niklaus, por favor – Elijah suplicou, segurando meu braço. Stefan apenas sorriu sem humor, mas seus olhos exalavam ódio.

— Soube que você levou Katerina com você. Já a matou? Ou vai brincar com a comida? – O imbecil falou, ignorando tudo o que eu disse por fora, mas por dentro estava puro rancor, se roendo, eu sabia.

— Isso não seria da sua conta, seria? – sorri ironicamente.

— Você invade a minha casa e rouba a minha convidada. Claro que é da minha conta.

— Não será hoje e nem amanhã o dia em que te darei explicações – falei me aproximando ameaçadoramente dele.

— Talvez você devesse explicar a Liz o por quê da filha dela ter morrido – Ele sorriu com triunfo, sabendo que aquilo que ele estava prestes a dizer (e eu sabia bem o que era) me arrasaria ainda mais – Se eu me lembro bem, aqueles seus híbridos de merda voltaram para se vingar de você, não foi? Atacando Caroline. Mas, acho que Liz já sabe. Na verdade, tenho certeza. Fiz questão de contar a ela. E até hoje quero entender que merda você estava fazendo que não chegou a tempo de curá-la.– Meu sangue ferveu e meu ar sumiu.

— Também queriam se vingar de Tyler Lockwood – disse apenas para não lhe dar razão, mas eu sabia que não havia como negar.

— Ah, um covarde como você jamais assumiria responsabilidade pelos próprios atos – ele disse já perdendo a etiqueta — Especialmente se esses causam destruição e morte de pessoas queridas no processo. Mas, isso tudo não seria nada de novo para você, não é mesmo? Mas, eu sei que, de um jeito ou de outro, você vai queimar no inferno e pagar por isso. Pagar por tudo. A conta chega para todos, Klaus – Não me aguentei e o peguei pela gola, o encarando com firmeza, fazendo uma cena e tanto. Várias pessoas nos olharam espantadas.

— Niklaus, pare com isso! – Elijah proferiu num tom baixo, mas exasperado — Ou você para ou vamos embora – apenas o ignorei.

— Cuidado com as suas palavras, Rippah. Você não está em posição de se impor a mim. Se eu quiser, você morre nesse mesmo instante.

— Vá em frente – Ele me desafiou – Desonre mais ainda a memória de Caroline.

— Mas, olha só o que temos aqui – Chegou o outro Salvatore infernal – se não é mais um dia normal em Mystic Falls. Enterro e confusão a vera. Posso saber qual foi dessa vez, irmão? – Damon falava sarcasticamente, mas com os olhos pregados em mim. Ele que viesse. Já passava da hora de levar uma surra.

— Seu irmão não sabe cooperar para a paz – eu disse ainda encarando meu ex melhor amigo de matanças.

— Você também não, Klausito. Mas, vamos deixar disso, não é mesmo? — Ele disse enquanto tentava puxar Stefan das minhas mãos — O enterro já vai começar.

Ao dizer isso, ele me trouxe de volta à realidade. Soltei a gola de Stefan e olhei em volta. Muitas pessoas ainda nos encaravam espantadas. Todas elas (ou quase todas) não faziam a menor ideia do que se passava ali, do que nós éramos. Com todos os seus recursos, o Conselho tentava manter na clandestinidade a existência do mundo sobrenatural. Provavelmente para a causa da morte de Caroline foi inventada alguma desculpa esfarrapada e odiosa, diminuindo a sua honra em vida. E esse pensamento me levou de volta ao o que eu estava fazendo ali, no meio de tanta gente detestável e hipócrita. Só, então, que reparei um pouco mais longe dois caixões de madeira bonitos e lustrosos. Os dois estavam fechados e isso me causou certo alívio. Não suportaria ver o rosto inerte de Caroline, ali deitada, dura e fria, sem aquele sorriso iluminado e olhar desafiador... sem vida... Não me atrevi a me aproximar mais. Elijah, por outro lado, foi se colocar ao lado de Liz e do Quarterback, amigo de Caroline. Ao que parecia, Tyler Lockwood não se atreveu a dar as caras, mesmo depois de ter recebido a minha permissão para voltar a Mystic Falls. Muita covardia desse moleque que se acha homem. Além de não merecer, nem de longe, o carinho e preocupação de Caroline. Tomara que morresse agonizando, esse desgraçado filho da puta.
Fiquei observando um tanto distante da multidão, parado próximo à uma árvore e com as mãos nos bolsos, as pessoas falarem para a bruxinha e para Caroline. Algumas me entediavam, pois eu sabia que era pura falsidade. Algumas até me tocavam um pouco. Mas, nenhuma surtiu tanto efeito sobre mim quanto Liz Forbes:

— A razão por que a despedida nos dói tanto é que nossas almas estão ligadas. Talvez sempre tenham sido e sempre serão. Talvez nós tenhamos vivido mil vidas antes desta e em cada uma delas nós nos encontramos. E talvez a cada vez tenhamos sido forçados a nos separar pelos mesmos motivos. Isso significa que este adeus é ao mesmo tempo um adeus pelos últimos anos e um prelúdio do que virá. Pois, aqueles que nos amam nunca nos deixam de verdade*.

E, assim, ela terminou, chorando compulsivamente. E isso já era demais para mim. Não sendo mais capaz de resistir, deixei algumas lágrimas caírem totalmente contra a minha vontade. Me virando para que ninguém notasse, saí apressado daquele lugar repugnante que me sufocava. Sendo tomado por umas ânsia e fúria descomunal, caminhei quase correndo até a encosta da estrada. Com a visão turva de lágrimas, os pensamentos embaralhados e o coração a mil, peguei o carro e acelerei alucinadamente.

—-------------------------------------------

“Pois, aqueles que nos amam nunca nos deixam de verdade.” — Sirius Black em Harry Potter e o Prisioneiro de Askaban.

Notas finais
Entao, meus Klaroliners, espero que vocês tenham gostado e que me perdoem por postar um capítulo a cada cem anos. Mas, não consigo ser muito melhor que isso. Se alguém perceber algum erro de português ou de lógica na linha da história, me avisem por favor, para que eu possa consertar a nossa querida história do nosso casal tão maravilhoso e divino! E não deixem de comentar ou recomendar, eu amo loucamente os comentários de vocês! Leio e releio trocentas vezes e, a cada leitura, é tão inédito e maravilhoso como na primeira vez! Amo vocês, meus Klaroliners!! Então, é isso , meus Klaroliners, até o próximo capítulo!