Notas iniciais
Entao, meus Klaroliners. Mais um capítulo para vocês. Espero que tenham gostado do anterior e que apreciem esse também. Voltarei o mais breve que puder! Amo muito vocês, meus Klaroliners! Vamos lá! E comentem , pelo amor de nosso Klaroline. Amo loucamente os comentários de vocês! Se vocês pudessem ver os pulinhos de felicidade que dou quando vocês comentam, não me negariam tamanha felicidade! Entao, vamos ao o que interessa! Boa leitura!

Doze semanas depois

Elijah

Fui ao quarto dele mais uma vez. E mais uma vez estava vazio. Suspirei. Estava muito preocupado com Niklaus. Ele quase nunca mais voltava para casa. Só aparecia para pegar roupas ou qualquer outra coisa de que estivesse precisando. Ele praticamente estava morando naquela biblioteca velha. Não saía de lá para quase nada. Sempre mergulhado naqueles papéis amarelados e mofados na esperança de encontrar alguma coisa, qualquer que fosse. Claro que eu sempre o ajudava, mas voltava para casa e tentava viver. Bem, no nosso caso isso era um pouco complicado, mas não era impossível. As coisas estavam um pouco remotas ultimamente. Pelo menos a cidade estava na paz. Sem ataques ou ameaças. E Niklaus ocupado e confinado até que tinha as suas vantagens; era uma dádiva e um bom agouro para o resto da vizinhança. O único problema era que ele acabava ficando muitos dias sem sangue. Então, quando saía para "caçar", eu tinha que ir junto, senão ele era capaz de causar um massacre. Meu objetivo era tentar controlá-lo, para que a vítima não acabasse morta. E, é claro, tenho muita dificuldade em alguns casos, especialmente quando seu humor, devido às incessantes e fracassadas pesquisas somadas à falta de sangue, ficava horrendamente negro. Embora, devo admitir, ele estava menos sangrento que o normal, cometendo apenas um erro ou outro, me surpreendendo todas às vezes que sem a minha interferência controlava os próprios impulsos.
Suspirei de novo.
Até à noite passada eu estava lá na biblioteca com ele, cavando buracos cada vez mais fundos em todo conhecimento do Professor Shane, mas aparentemente muito ainda na superfície para os nossos objetivos e longe de encontrarmos alguma coisa. E a verdade é que eu nem sabia exatamente o que procurávamos. O que Niklaus esperava fazer, baixar o véu outra vez? Não havíamos achado nada sobre Qetsiyah além do que já sabíamos. Horas e mais horas de leitura sobre mitologias ou segredos de magia. Outros apenas lendas e histórias inventadas. Mas, nada de útil para a nossa atual causa.

E havia Katerina. Parecia envolvida num coma mágico profundo. Dura feito pedra. Várias vezes me aproximei dela e lhe toquei o pescoço, na esperança de encontrar algum fio de mudança no seu estado vegetativo e algum vestígio de vida. Era estranho demais. Ela parecia mais morta do que o normal da morte. Mas, não estava dissecada. E essa era a única coisa que nos fazia acreditar que não estava realmente morta. Sua forma física permanecia impecável. Mas, eu também não conseguia identificar o som de seu sangue correndo nas veias. Era como se tudo dentro dela estivesse paralisado. E embora parecesse respirar, era só uma ilusão. Não respirava de verdade. Niklaus jurava que a tinha visto respirar na casa dos Salvatore, mas as evidências mostravam o contrário. O que causava mais desespero e ansiedade em Niklaus. E até em mim. Pois, para nós, está parecendo cada vez mais que ela nunca vai acordar novamente e nós é que teremos que desvendar o mistério imposto por ela. Se um dia conseguíssemos desvendar. Se realmente houvesse mistério para ser desvendado.

Entrei na água quente do meu chuveiro tentando relaxar, mas com os ouvidos apurados e focados no resto da casa, especialmente no porão. Rebekah não estava mais lá, constatei surpreso. Ela ficava de olho em Katerina uma vez ou outra, quando eu a implorava quase de joelhos por esse favor. Claro que ela sempre reclamava e não aceitava os nossos motivos (até porque estávamos mentindo descaradamente para ela a respeito deles e ela sabia disso) e muito menos concordava conosco em nada, mas pelo menos às vezes me ajudava quando eu precisava dela. Pedi que confiasse em mim e esperasse, pois no dia que Katerina acordasse eu seria capaz de lhe dar explicações mais detalhadas e plausíveis. Disse uma meia verdade ao afirmar que precisava de Katerina acordada para contar a ela o que, possivelmente, Niklaus estava guardando para si. E, quem sabe, ela até poderia nos apoiar. Ela ficou desconfiada e demorou para concordar, mas aceitou o acordo no fim das contas. Pelo menos ela parecia confiar em mim, embora não tenha entendido nada do que eu estava querendo dizer. Eu percebia que ela, na verdade, tinha se convencido de que Katerina nunca mais acordaria e aceitava me ajudar apenas para não me frustrar, pois achava que não era nenhuma ajuda de fato. E é Claro que ela não sabia sobre Caroline e os possíveis feitos inéditos de Niklaus por ela. Mas, já tinha entendido muito bem o que Niklaus fazia naquela biblioteca, que ele pretendia alguma coisa que estava, de certa forma, relacionado a Katerina e ao Outro Lado. E isso provocou uma série de discussões entre eles; ou quando ele vinha em casa para pegar seus pertences ou quando ela fazia questão de ir à biblioteca só para infernizá-lo. E eu ficava no meio. Tentando, de um lado, ajudar meu irmão, e de outro, não magoar a minha irmã. Era exaustivo. E assim tem sido desde que trouxemos Katerina para cá. Suspirei mais uma vez e saí do chuveiro. Me enrolei no roupão azul marinho que estava dobrado cuidadosamente sobre a pedra branca de mármore da banheira e saí do banheiro. Com a mente latejando, me sentei na cama. Rebekah estava lá vigiando Katerina para que eu pudesse tomar banho. Não era para ela ter saído no meio dessa tarefa. Provavelmente se aproveitou da minha breve distração para escapar e fez isso de propósito, para me dar um recado claro de que não era a fantoche dos irmãos. Suspirei fundo e fiquei um pouco chateado com isso. Rebekah alegava constantemente que nós estávamos sendo irracionais e atrapalhando a vida dela. Hoje ela esquentou meus ouvidos dizendo que tinha planos para a noite e não ficaria de babá inutilmente e perderia a "diversão". Nessa cidade, que diversão seria? E foi por esse mesmo motivo que tive que voltar para casa noite passada e deixar Niklaus sozinho. Ela não sabia dos nossos motivos. Se eu pudesse contar para ela sobre o que sei a respeito da garota Caroline Forbes, talvez ela fosse mais razoável e ao nosso favor. Ou talvez só compreendesse e parasse de dificultar as coisas. Logo ela, que sempre foi a mais romântica e sonhadora, com desejos utópicos de ter filhos e formar família...

Suspirei longamente e vesti minhas roupas. Calça preta e blusa branca sociais. Penteei os cabelos e me olhei no espelho. Algumas sombras superficiais de olheiras apareciam discretamente. Esse era um dos mistérios do vampirismo. O corpo permanecia funcionando praticamente da mesma forma desde que o mantivesse abastecido com sangue.

Então, era isso. Eu ficaria de guarda de Katerina até à noite cair, imploraria a Rebekah mais uma vez por esse favor na esperança de que ela voltasse para casa e depois rumaria para a biblioteca, assim como prometi a Niklaus. Há semanas não dormíamos direito e algum tempo que ele não bebia sangue. Deveríamos ir logo "caçar". Nem tentava mais levar bolsas de sangue para ele. Na última vez ele se irritou tanto com isso (além de já estar extremamente enraivecido com a situação) que tacou os frascos em uma das estantes de livro, derramando litros do líquido vermelho para todo canto. O problema foi que depois ele se arrependeu muito disso. Vai que em num daqueles livros estivesse justamente o que precisávamos...

Desci as escadas e rumei até o porão.

Enquanto cruzava os cômodos da casa, escutei a chegada de alguém. Fiquei em alerta para um possível perigo, mas logo o mistério acabou.

Niklaus apareceu bem na minha frente, após interromper sua velocidade vampírica, erguendo um frasco transparente contendo um líquido azul claro. Antes que eu pudesse indagar do que se tratava, ele começou a explicar todo ofegante. Ele jurava que tinha encontrado uma poção mágica que faria Katerina finalmente acordar. Ele tagarelava exasperado, enquanto sacudia na minha cara o vidro e as folhas encardidas e amassadas de onde ele tirou a informação. Me dizia, enquanto andava às pressas até o porão, quase correndo, que achou várias das anotações e artefatos do professor Shane sobre a magia do Outro Lado escondidos num mini sótão. Falava quase sem fôlego enquanto tropeçava no caminho. Olhei para ele incrédulo e ao mesmo tempo com pena. Eu podia enxergar em seus olhos o brilho do desespero, que o fazia se agarrar até às mais ínfimas possibilidades.
Seria um golpe de sorte ele ter achado justamente aquilo de que mais precisávamos. Shane teria sido desleixado a esse ponto, de largar na sua sala, ultra exposta, as informações mais importantes de todo o processo? Bem, sabemos que foi lá na biblioteca onde Niklaus e companhia acharam os detalhes sobre os massacres. Mesmo assim, parecia muito amadorismo do professor. Será que ele previu que Qetsiyah poderia ganhar de Silas? Mas, ele trabalhava para Silas. Eu remoía minhas dúvidas enquanto Niklaus se apressava até o calabouço de Katerina. Ele entrou na cela quase arrancando o portão de grades e se abaixou ao lado dela. Sem pensar duas vezes, ele agarrou sua nuca e forçou algumas gotas do líquido nos lábios entreabertos dela. Eu fiquei ali, parado, prendendo a respiração ao esperar alguma coisa acontecer. Fiquei receoso. E se não fosse um antídoto, mas um veneno, que pudesse matar de vez Katerina? Fiquei tentado a impedir meu irmão de piorar mais a situação, mas fiquei rígido, estancado no mesmo lugar. No fundo eu também criava esperanças. Eu podia ouvir o coração de Niklaus batendo freneticamente, enquanto ele olhava apreensivo para Katerina, que permanecia tão imóvel quanto antes. Ele chegou a virar todo o conteúdo do frasco na garganta dela. Mas, nada mudou. Então, ele começou a sacudir seus ombros, desesperado demais para se controlar. Seus olhos esbugalhados e sua respiração ofegante estavam me preocupando. Vampiros não tinham ataque de pânico, mas poderiam sofrer consequências muito piores pela perda da sanidade. Uma delas nós tínhamos vivido três meses atrás, quando ele assumiu sua outra personalidade animalesca.

— Niklaus, vamos esperar algumas horas. Talvez ela não acorde de imediato. Não sabemos nada sobre esse feitiço, não é? — Ele nada respondeu, apenas sentou encostado na parede de pedra, desolado demais para formar palavras. Pior do que não ter esperança era criar alguma e ter-lhe arrancada de novo. Ele olhava para o corpo semi morto de Katerina, mas parecia não enxerga-la de verdade.

Quis me aproximar, mas temia alguma reação violenta. Quando Niklaus ficava quieto assim, era bem mais perigoso do que quando ele dava seus típicos ataques de fúria, pois ele poderia implodir e acarretar eventos mais catastróficos.

Passei a mão no cabelo tenso demais para raciocinar com clareza. O que mais poderíamos fazer? Olhei em volta e me concentrei nos ruídos externos, em busca de algum movimento na casa. Onde estava Rebekah? Seria muito reconfortante poder ter alguém para conversar no momento. O ressentimento deu lugar à solidão. A companhia da minha irmã sempre me deixava mais leve, mas só o que ela fazia ultimamente era me desprezar por apoiar Niklaus. Talvez uma dose de whisky viria a calhar. Pensei em ir para a sala de visita, onde ficava a maior lareira da casa. Seria ótimo sentir o calor do fogo, apenas ouvir o seu crepitar, num ritual silencioso de paz. Fazer isso sempre me deixava mais calmo.

— Niklaus — me aproximei dele cautelosamente — Eu vou subir. Venha comigo. Melhor passar o tempo num ambiente mais confortável, não? Vamos nos distrair um pouco. Depois voltamos aqui para saber se surtiu efeito — Coloquei a mão no seu ombro e isso pareceu desperta-lo. Ele me olho de esguelha e se esquivou do meu toque, levantando com pressa.

— Eu vou voltar lá. Talvez eu tenha deixado passar algum detalhe — Ele pegava novamente a sua fonte, lendo as informações do papel sujo — Aqui diz que se deve administrar direto no sistema. E se eu me enganei e não era para ela ingerir? — Agora ele falava mais com ele mesmo — E se fosse para injetar no sangue? Preciso de uma seringa. Como que eu não me liguei nisso...

— Você já usou tudo, Niklaus — Peguei o frasco vazio no chão. Ele olhou horrorizado para o objeto.

— Porra! — Ele socou a parede com força, fazendo seus dedos estalarem enquanto abria um buraco no concreto. Fraturar a mão não ajudaria em nada.

— Tenho que ir lá. Não é possível que só exista um desses. Não pode...- Então, ele saiu correndo na velocidade vampírica, me deixando para trás meio atônito.

E eu não fiz nada para impedi-lo. Por que eu deveria? E também não queria. Talvez devesse acompanhá-lo nas buscas por mais doses. Mas, Rebekah não estava. Alguém tinha que vigiar Katerina. E se ela realmente acordasse? A esse ponto, nada mais era impossível. E seria mais exaustivo entrar no caminho de Niklaus. Não queria frustar suas esperanças, pelo contrário. Mas, somente se fossem verdadeiras. Esperanças vãs podem ser perigosas. O que me preocupava era que isso pudesse consumi-lo de vez. E se não houvesse saída? Ele ficaria séculos preso a qualquer esperança de trazer Caroline de volta? Era totalmente provável dado as atuais circunstâncias e a tudo o que já vimos nesse mundo. Já perdi a conta de quantas histórias de amor e de obsessão já cruzaram o nosso caminho. Cada uma mais absurda e mais doentia que a outra. Só nunca imaginei que Niklaus um dia seria candidato a uma aventura dessas. Esperaria isso de Rebekah. Talvez até de mim, mas não de Niklaus. Mas, a verdade é que, depois de tudo o que presenciei nas últimas semanas, não me surpreendia mais qualquer atitude dele em relação à garota Forbes.

Então, dando uma última olhada a Katerina, numa ínfima expectativa de vê-la retornar, deixei o calabouço.

Fui para a sala e me sentei de frente para a lareira, enquanto bebericava sem muita vontade um whisky puro malte. Esperei por horas que meu irmão voltasse, mas ele simplesmente não apareceu mais naquele dia. Liguei para ele várias vezes e não me atendia, até que simplesmente as chamadas passaram a cair na caixa postal. Obviamente ele fez de propósito, desligando o telefone para que eu não mais o irritasse. Achei melhor deixá-lo sozinho essa noite. Se ele não tinha voltado, é porque não tinha achado mais nada. Então, seu humor deveria estar o pior possível. Niklaus estava por um fio, a beira de um precipício e eu não seria a pessoa a empurra-lo.
Já era bem tarde da noite quando escutei um carro chegando e ouvi passos mais barulhentos que o comum. Rebekah estava de volta. Chamei seu nome calmamente e em poucos segundos ela estava na sala. Vestia roupa de festa, um vestido brilhoso e prateado. Certamente se divertindo na rua, com os seus planos para a noite. E isso me irritou um pouco. Era como se ela fizesse de propósito, querendo demonstrar a todo custo a Niklaus que ela desprezava as suas atitudes, fingindo indiferença, mas bem magoada.

— Hoje pensamos que houve progresso — Falei sem encara-la — Mas, parece que nos enganamos — Queria desabafar com a minha irmã, me sentir menos impotente.

— Como assim? — Ela se sentou a minha frente.

— Niklaus achou arquivos sobre um possível estado semelhante ao de Katerina, com um suposto antídoto.

— Se pensaram, se se enganaram, então não conseguiram.

— Touché — Levantei o copo sem ânimo algum. Estava me controlando para não gritar com Rebekah. Isso só a deixaria com mais ódio de nós.

— Não me interessa. Vou dormir. Me avise quando vocês finalmente deixarem para lá essa busca sem sentido e voltarem à realidade. Talvez eu consiga recuperar você, Elijah. Você me abandonou de novo para seguir seu precioso Niklaus.

— Está sendo muito infantil, Rebekah — Falei serenamente. Ela me olhou com ressentimento, mas não retrucou. Nos encaramos por um breve momento até que ela me deixou sozinho na sala já escurecida pela hora tão tarde, apenas iluminada pela luz do fogo.

Se havia um momento para eu ficar bêbedo, era esse. Peguei a garrafa e dessa vez não enchi o copo. Apenas bebi direto do gargalo, usufruindo dessa falta de decoro. Fiquei ali, no breu da sala olhando para o nada, enquanto bebia despretensiosamente todo o whisky. Quando finalizei a primeira garrafa, abri mais uma da coleção cara e preferida de Niklaus e virei de uma vez só. Ao esvaziar a garrafa, olhei para a prateleira repleta dos mais finos destilados do meu irmão. Se eu pudesse, acabaria hoje com o estoque intocável dele. Uma pequena vingança pela miséria pelo qual ele estava me fazendo passar, pensei rindo alto, enquanto abria sem jeito o lacre pomposo da terceira garrafa. Bebi a metade e de repente senti uma raiva me consumindo, me esquentando o corpo. Peguei a garrafa e taquei na lareira. O fogo subiu sutilmente e isso me deu uma ideia brilhante. Corri até o bar e comecei a pegar as garrafas das bebidas mais valiosas para o meu querido Niklaus e joguei todas elas no fogo, uma após a outra, e o fogo foi ficando mais vigoroso. Niklaus teria um baita de um trabalho para restituir a sua coleção impecável e cara. Comecei a rir alto da cara que ele faria ao não ver mais seus adoráveis e especiais whiskys nas prateleiras e joguei mais bebidas na lareira. Eu queria vê-lo espumar. Até que tropecei por cima de uma das garrafas que deixei cair e me cortei no vidro. Olhando deslumbrado para os cortes se fechando nas minhas mãos, escutei barulhos suspeitos.

— O que está acontecendo aqui? — Ouvi uma voz ao longe. Alguém me segurou pelo braço. Tentei escapar na velocidade vampírica, mas saí batendo aos tropeços nos móveis — Elijah? Elijah?! — Olhei em volta e minha irmã falava comigo, mas eu não conseguia entender. Não dei muita atenção para essa peste mimada. Saí da sala sem olhar para trás.

De repente fiquei cansado demais. Na dúvida se deitava ali mesmo ou ia para o meu quarto, me arrastei pelas escadas sem pensar, apenas deixei meu corpo me guiar. O que foi uma tarefa um tanto dificultosa, já que minhas funções motoras estavam comprometidas. Subia cada degrau penosamente, me arrastando quase engatinhando. Apesar de ser necessário uma dose maior que o normal de álcool para nos afetar, eu havia bebido o bastante para me deixar um mínimo alterado. Eu só queria uma anestesia por algumas horas e consegui. Talvez até me ajudasse a pegar no sono. Dormir era um privilégio da qual eu não pude desfrutar direito nas últimas semanas e estava desesperado por algumas horas de desapego a esse mundo miserável.
Cheguei no meu quarto e nem tirei a roupa. Apenas descalcei os pés e me joguei na cama, com a cara no travesseiro. Enquanto me esforçava para desabotoar o colarinho, me senti transportado para outros ares...

Então, eu estava lá, de volta aquele vilarejo de um milênio atrás, com meus irmãos a minha volta, exceto Niklaus, enquanto assávamos alguma coisa na fogueira. E ela também estava lá, sorrindo para mim de forma contagiante e angelical, expressando toda a sua gentileza com aqueles olhos azuis brilhantes. Alguém tocava Alaúde, deixando o ambiente com uma melodia agradável e alegre. Levantei e ofereci-lhe minha mão, num convite claro para dançar. Ela aceitou num instante.

— Seu nome é diferente. Não é dessas terras — Eu disse a ela, incapaz de desviar meu olhar de suas vivazes íris azuis. E isso me fez esquecer o ambiente a nossa volta e sentir o ar mais denso.

— Nem o seu é. Você disse que não nasceu aqui.

— Verdade. Meu nome deveria ter a mesma origem que o seu, pois eu também nasci em Mystic Falls.

— Mas, com mil anos de diferença. Acho que isso influencia na cultura local — Sempre de bom humor.

— Eu nasci na época errada, só pode. Séculos fora do tempo certo.

— As coisas acontecem como devem ser.

— Você acha que teria sido diferente, para mim e para você?

— Como assim? — Ela indagou curiosa.

— Se você tivesse nascido na minha época, você teria me notado? Sabe, em um lugar onde não existiria alguém mais interessante para atrair a sua atenção.

— Eu estou dançando com você agora, não é? Não com outra pessoa.

— Só porque ele não está aqui. E isso não é real. Eu sei disso porque você morreu. Eu vi você partir duas vezes e não pude fazer nada em nenhuma delas. E mesmo se estivesse viva, você não estaria dançando comigo. Sempre será ele, não é? Eu não tenho nenhuma chance contra ele. Nem nessa vida e nem em outras — E eu pude ver a triste confirmação em suas lindas íris azuis.

Acordei sobressaltado com a voz de Rebekah gritando meu nome. Rastreei rapidamente o paradeiro da minha irmã, enquanto minha cabeça latejava. E antes mesmo que eu pudesse processar minhas ações, saí correndo na velocidade vampírica e meu coração disparou quando cheguei ao porão. Com os olhos arregalados e o coração na boca, me aproximei lentamente das grades da cela de Katerina.

Ela estava de olhos abertos, arregalados tanto quanto os meus. Tentava inutilmente se soltar das correntes, pois estava fraca demais para conseguir. Pálida e de aspecto adoecido, nos encarava assustada, intercalando seus olhares de medo entre mim e Rebekah.

Entrei na cela me aproximando dela cautelosamente. Em reposta ela se amuou até o canto da parede. Essa não era nem a sombra da vampira implacável que eu conheci. Sabe-se lá o que o feitiço causou em sua cabeça, mesmo quando estivesse parecendo estar num coma profundo. Parei de andar e a encarei.

— Katerina? Você consegue me entender com clareza? Sabe quem sou eu? – Falei tentando conter a minha ansiedade, mas falhando toscamente. Ela acenou freneticamente com a cabeça, com o corpo na defensiva. Imediatamente saquei dos bolsos da calça preta social meu celular. O telefone de Niklaus tocou apenas uma vez e ele atendeu. Engoli em seco e falei – Venha imediatamente para cá. Ela acordou.

— Você está falando sério? – Ele falou exasperado. Ouvi objetos caindo do outro lado da linha.

— Sim, eu e Rebekah estamos de frente para ela nesse momento. Ela parece... – Mas, ele não me deixou terminar. Apenas desligou o celular na minha cara. Suspirei profundamente. Em alguns minutos ele estaria aqui e talvez teríamos alguma resposta hoje. Ou talvez tivéssemos uma rodada de show de horror e de tortura.

— Rebekah, por favor, pode me trazer algumas bolsas de sangue? – falei gentilmente – Acredito que ela vá precisar – Eu não tirava os olhos de Katerina. Minha irmã assentiu e saiu apressada.

Me aproximei mais de Katerina, mas ela continuava a tentar se esquivar de mim a qualquer custo. Sem querer assustá-la mais e não pôr tudo a perder, resolvi recuar. Esperaria por Niklaus. Rebekah voltou rapidamente carregando cinco bolsas de sangue. Peguei uma e imediatamente entreguei à doppelganger. Ela olhava desconfiada entre mim e o saco de sangue, decidindo se era seguro se aproximar. Cautelosamente ela foi se chegando, com os olhos pregados em mim.

— Não seja tola, Katerina. Pegue logo isso. Se eu fosse te matar, não te dava sangue – Eu disse um pouco impaciente. Então, finalmente, vi traços da sua verdadeira dona. Ela me olhou com raiva e, se não me engano, com certo deboche.

Ela pegou a bolsa e a rasgou com os dentes desesperadamente. Tomou o sangue todo em poucos minutos e estendeu a mão com petulância para pegar outro. Aos poucos as suas feições foram tomando cor e sua forma foi se transformando em mais saudável. Até que ouvimos sons de portas se batendo e passos apressados. Ela sabia quem era, sabia o que estava por vir. Ficou estampado em sua cara aterrorizada.

Ele entrou na cela a passos largos, com um brilho assassino nos olhos. Pela sua expressão, ela sabia que sua hora estava chegando.

— Olá, Katerina. Seja bem vinda de volta. Finalmente – Niklaus disse com um sorriso maléfico – Acredito que tenhamos assuntos pendentes, você na acha? – Ela o encarava de olhos arregalados e respiração descontrolada. Ele sorriu para ela e se aproximou ameaçadoramente. Ela tentou fugir na velocidade vampírica, mas é claro que seria inútil em suas condições, sem contar que estava presa com grossas correntes. Muito menos ainda conseguiria escapar com três vampiros Originais a cercando. Ele a pegou pelo pescoço e a atirou contra a parede. Ela caiu com força, mas rapidamente voltou a nos encarar, amedrontada demais para falar.

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Klaus

A piranha desgraçada estava de volta. Era inacreditável, bom demais para ser verdade e me causava extrema felicidade e agonia. Era agora ou nunca. Depois de incessantes e fracassadas buscas, talvez, com alguma sorte, obtivesse as respostas por que tanto buscava.

Katerina me olhava com medo. E assim deveria ser. Sempre me temendo, sempre me vendo como seu superior, porque eu o era. E quando, enfim, ela me desse o que queria, iria destroçá-la em mil pedaços. Mas, não antes de me vingar com intermináveis torturas. Não era nada mais nem nada menos do que essa vagabunda merecia.

— Então, love, vamos nos ater ao que importa. Depois resolveremos nossos problemas pessoais – Sorri maliciosamente — Agora me diga: quem é a descendente viva de Qetsiyah que pode realizar os feitiços que envolvem a magia do Outro Lado? – Katerina se surpreendeu, mas deu um sorriso de triunfo. Ela percebeu que agora possuía alguma vantagem sobre mim e eu sabia que ela tiraria o máximo proveito disso. Confirmando tudo o que ela disse quando a capturei, que em algum momento eu teria que dar alguma credibilidade ao que ela me contava, pois não me restariam mais opções, mais saída.

— Ora, ora, ora – Ela se levantou sorrindo desdenhosa – Eu disse, não disse? Em algum momento chegaríamos nesse ponto. Mas, você resolveu testar a sorte e colocou tudo a perder. Teria evitado muita dor de cabeça se tivesse me escutado – Meu sangue ferveu com a sua petulância. Mais uma vez a peguei pelo pescoço.

— Não brinque comigo, Katerina. Você na está em posição de fazê-lo. Está querendo morrer mais rápido? – Meus irmãos apenas assistiam calados, embora Elijah de vez em quando desse sinais de que iria interferir. Ela engasgava e sufocava. A soltei com violência.

— Não estou brincando – disse rouca, esfregando o pescoço – Você sabe.

— Bruxa descendente que pode mexer com o Outro Lado? – Rebekah disse alarmada – que palhaçada é essa, Nik? Minhas suspeitas mirabolantes não estavam erradas, afinal de contas.

— Agora não, Rebekah – respondi com os olhos pregados em Katerina, mas, de soslaio, vi Elijah fazer sinal de advertência para minha irmã inconveniente que reabria a boca para falar – Então, Katerina, acho que você já pode desembuchar.

— Com certeza. Mas, com uma simples condição – Ela disse triunfante. Essa filha de uma puta era barganhadora demais.

— Como se atreve a tentar me manipular? – Com raiva, fui até ela na velocidade vampírica e mordi o seu pescoço. A desgraçada gritou alto. A ideia não era apenas injetar-lhe o meu veneno, mas também verificar se ainda havia verbena em seu sistema. Para minha surpresa, ainda estava lá. Mesmo depois de meses, a erva ainda circulava em suas veias, não fazendo sentido algum para mim. Talvez a falta de corrente sanguínea tivesse prendido a substância em seu sistema. Afinal de contas, o corpo dos vampiros só funciona normalmente enquanto tiver sangue bombeando nas suas veias. Mas, isso fodia de vez com meus planos. Ao menos iria adiá-los ainda mais. A questão era que meu desespero era tanto que eu não poderia esperar nem mais um segundo. A soltei e ela me olhou com terror e ódio. Ela sabia que nesse momento havia veneno de lobisomem em seu sistema e que suas horas estavam contadas – Acho que agora podemos negociar, não é mesmo? Você pensou que iria me chantagear? Suas informações em troca da sua vida, essa é a condição?

— Eu prefiro morrer a te entregar essas informações de graça. Vai me matar de qualquer forma, não é? Com ou sem o seu veneno de lobisomem, seu plano seria me matar no final do interrogatório.

— Certamente. Fico feliz com a sua inteligência. Porque às vezes você é bem estúpida. Como foi ainda pouco.

— Então, chegamos a um empasse, porque não te darei nada, não se a minha morte for certa – Ela me olhava com raiva e falava sério. O que me irritou extremamente.

— Não banque a esperta. Existem várias formas de arrancá-las de você. Não estou com pressa – Essa era a mentira do milênio. Eu estava desesperado. E limitado também, porque só o que me restava era esperar a verbena sair do seu sangue — Mas, exatamente quais são as suas mirabolantes e fantasiosas propostas, Katerina? – Ela se aproximou de mim, cambaleando um pouco, mas tentando se reestruturar. Essa era uma coisa admirável nessa projeto de demônio; ela não perdia a compostura mesmo quando estava perdendo.

— Me dê a liberdade e sua palavra de que nunca mais irá me perseguir, que nunca mais tentará se vingar de mim e que não irá me matar e eu te entrego tudo o que você deseja arduamente nesse momento. Você terá todas as informações, exatamente como nas suas preces – Ela sorria debochadamente. Minha vontade era de arrancar aquela língua venenosa e depois a sua cabeça. Mas, só fui capaz de rir. Ela deve ter perdido o juízo, só pode.

— Te libertar? É uma pena que alguns vampiros enlouquecem com a idade. Te matar vai ser misericordioso, se você quer saber. Porque meu desejo é te ver agonizando no fogo do inferno. E é o que eu farei assim que tiver o que eu quero – a peguei pelo pescoço novamente, olhando fundo em seus olhos. Ela se manteve firme no olhar, embora seu corpo tremesse um pouco.

— Você tem razão – Ela se esforçava para falar mesmo com meus dedos apertando a sua garganta – Esse feitiço de Qetsiyah não foi o que pareceu. Eu não estava num sono tranquilo e profundo. Eu sentia tudo. O frio dolorido. A escuridão sufocante. A queimação terrível nas minhas veias clamando por sangue fresco, se esfregando uma na outra como lixas. E a longa agonia da espera. Ainda posso sentir – ela me encarava com ódio, de mim e da bruxa – Então, me matar talvez seja mesmo um ato de misericórdia. Mas, se me matar, nunca terá as suas respostas. E se não me libertar, também não. Porque, se vou morrer de qualquer forma, antes que você possa me compelir, seria capaz de arrancar meu próprio coração só para que você não vença. Não importa os métodos que use contra mim, vou dar um jeito de acabar comigo mesma antes de você. Eu me matei naquela vez para que você não usasse o meu sangue. Farei de novo para que você não cometa a maior loucura que o mundo sobrenatural já viu. Eu sei muito bem o que você pretende.

Então, era isso. Escolher entre a minha vingança eternamente declarada a Katerina ou a incerteza de alguma possibilidade de trazer Caroline de volta. Mas, ainda era uma esperança. Meu cérebro trabalhava a todo vapor. Eu sabia muito bem o que desejava escolher, qual era o certo a se fazer, o que meu coração implorava por realizar, sem sombra de dúvidas. Mas, aceitar as condições de Katerina era me rebaixar até o nível mais baixo, me impondo à humilhação e à desgraça pública. O grande e poderoso Klaus Mikaelson, arredio às chantagens e manipulações de Katerina Petrova, vampira insignificante e sem escrúpulos. O temido vampiro Original milenar não sendo capaz de cumprir uma simples promessa e execução de vingança em prol de uma garota nada comum do interior.

É claro que eu poderia torturar Katerina até que ela falasse. Ou até que morresse no processo, se me surtisse algum efeito. Mas, isso poderia levar dias, só me faria perder mais tempo, e, no final das contas, ela poderia muito bem não me entregar o que eu precisava, cometendo seu segundo suicídio para, mais uma vez, não me permitir a vitória. E eu estava ponderando ao máximo para nao derramar mais sangue, tal como havia prometido a Caroline. Mesmo que esse sangue fosse de Katerina Petrova. Até na hora de caçar, envolto a um turbilhão de emoções e a fraqueza da dependência do sangue, até quando eu perdia um pouco do equilíbrio, eu sabia que não deveria matar as vítimas; Caroline nunca me perdoaria.

— Muito bem, então – sendo assim, com raiva, a joguei no chão. Declarando a minha escolha para mim mesmo. Eu escolhia Caroline – Você estará livre após tudo se confirmar. Somente após. Te dou a minha palavra, Katerina. Se o que fala sobre os descendentes for verdade, nossa guerra acaba aqui – Me custava a sanidade proferir tais palavras, ardia feito ácido na minha garganta, mas fazia com toda certeza de que era o que eu queria — Mas, se for tudo mentira, Katerina, se em algum momento você tentar me enganar, te farei enfrentar um fim tão terrível que fará o diabo clamar misericórdia por você – Ela me olhava com raiva e de rabo de olho enquanto massageava o pescoço. Ela sabia que eu cumpriria a minha palavra. Fazia parte do código de honra dos verdadeiros vilões. Respirando fundo, ela se levantando, disse:

— Qetsiyah possui uma descendente viva chamada Jane-Anne Deveraux – Ela começou a falar sem hesitar – ela mora em New Orleans, no French Quarter, exatamente onde você me achou. Ela sabe de tudo o que aconteceu aqui em Mystic Falls, podendo interferir se quisesse. Mas, não quis. Me disse que não era da sua conta. Você deve imaginar que, ao fazer parte da linhagem de Qetsiyah, ela é uma das bruxas mais poderosas do mundo, mais do que um dia as Bennet sonharam ser. Sem contar que ela conhece todos os recursos e segredos da magia profunda sobre o Outro Lado. Ela pode destruir o Outro Lado com facilidade, exatamente como eu sei que você quer. E eu sei exatamente onde ela mora. Ela vive com a irmã, Sophie. Outra descendente. E existem outras bruxas que estão sob o seu comando. Existe um clã inteiro de bruxas leais a ela – Ela terminou triunfante, sabendo do poder que tinha nas mãos. Mas, ela era esperta. Eu sabia que ela não me entregaria tudo de mão beijada. Alguma coisa estava faltando, meus instintos me diziam.

— E posso saber como que você conseguiu todas essas informações e ainda descobriu quem é essa Jane-Anne? – Elijah finalmente falou, desconfiado, se aproximando dela – Tudo está parecendo muito fácil, você não acha? Espera que compremos essa?

— Eu tenho meus contatos, Elijah. Você não é o único – Ela sorriu venenosa.

— Se seus contatos fossem tão bons, te diriam naquele mesmo dia que eu esteva chegando na cidade para te matar – disse com sarcasmo. Ela fechou a cara.

— Vocês não precisam acreditar de imediato. Podem ir lá e constatar. E depois me agradecer devidamente, é claro.

— Você terá a sua liberdade, que vai muito além do que você deveria receber. Só isso? Ou tem mais alguma coisa a me contar? Parece uma estratégia para me jogar numa baita enrascada – Falei mal humorado. Ela balançou a cabeça. Eu sabia que era mentira. Ela escondia alguma coisa. Mas, por hora fiquei calado. Talvez ela caísse na própria armadilha e eu encontrasse uma brecha no nosso acordado que me permitisse matá-la – Me passe o endereço dessa mulher – E assim o fez, me detalhando a localização da bruxa. Mordi meu próprio pulso e ofereci-lhe meu sangue. Ela me olhou desconfiada, mas aceitou – Vamos esperar que tudo o que você disse proceda, pois você já sabe o que virá para você se não. Por enquanto você fica presa aqui, até eu resolver esse mistério. E já que não preciso mais te hipnotizar, já podemos mudar as correntes para as cheias de verbena, não é mesmo? – Falei isso a acorrentando com as outras grossas correntes metálicas. Ela me olhou com ódio e deu um gritinho de dor — Rebekah e Elijah vão cuidar de você – E sob protestos escandalosos da minha querida sistah, saí do porão. Arrumaria as minhas coisas e partiria para New Orleans imediatamente.

Com os pensamento a mil, nem pensava no que estava fazendo. Se estava indo direto para um armadilha, cego de esperança. Só do que eu precisava era desesperadamente de uma solução. Que poderia ser, ao mesmo tempo, a minha ruína e a minha salvação. Rumando para o meu quarto, peguei só o necessário. Desci as escadas com uma pequena mala preta com poucos pertences. Não sabia quanto tempo ficaria naquela cidade, portanto resolvi levar alguns objetos pessoais. Pegaria um carro qualquer na garagem para ir até o aeroporto. Em New Orleans arranjaria outro. Mas, para o meu desgosto total, Rebekah já estava na garagem encostada num carro, aparentemente me esperando. Revirei os olhos e passei direto. Será que minha querida irmã não tinha mais nada interessante, como ter vida própria, do que ficar me seguindo para todos os lados? Passei por ela fingindo que ela nem estava ali. Mas, é claro que a geniosa Rebekah se faria ouvida.

— Se está pensando que vai me enrolar outra vez e me deixar de fora dessa, está muito enganado. Estou farta de você esconder as coisas de mim. Que merda está pretendendo dessa vez, Nik? Lá vem você com mais uma das suas armações mirabolantes para fuder a nossa vida – Falou petulantemente.

— E eu não contei para você a história toda? – Respondi sem paciência, tentando deixar claro que eu não estava aberto a discutir o assunto. Mas, claro que minha sistah não facilitaria pra mim.

— Não. Elijah me contou e ele me prometeu o resto da história quando a vadia Petrova acordasse. E você não vai sair daqui sem ele. Não depois de tudo o que ele tem feito por você. Vai simplesmente nos abandonar aqui em Mystic Falls e seguir outro mistério em busca de poder? Você não tem jeito mesmo, sempre repetindo padrões. Nós viemos parar aqui nesse buraco outra vez por sua causa. Não tem o direito de determinar como e onde vamos viver. Além disso, você não está me contando tudo. Eu conheço você, Nik. Está planejando alguma coisa relacionado às informações de Katerina. O que você vai fazer em New Orleans? Que interesse tem nessa descendente de Qetsiyah e na magia do Outro Lado? O mínimo de decência que você deveria ter é me explicar direito – Ela me metralhou com palavras apenas desejando uma confissão. Porque ela não era burra, já havia entendido o que eu pretendia. E Katerina tinha falado claramente.

— Elijah vai demorar muito passando o terno e penteando o cabelo – Respondi isso apenas, ignorando o resto e jogando a mala no carro.

— Como você pode ser tão cínico comigo? Mentir de forma tão descarada? Depois de todo esse tempo que estive ao seu lado, te seguindo? Passei mil anos te acompanhando, Nik! – ela falava alto um tanto estressada.

— Não por mil anos, sistah. Não se esqueça de que muitas vezes eu te dei férias do fardo que te foi me acompanhar e te deixei no parque dos caixões – Sorri maldosamente.

— Como você é ingrato. Eu sempre fui sua melhor amiga, a pessoa que sempre esteve do seu lado desde quando éramos crianças, independente de até onde você fosse ou o que fosse fazer, eu estava lá com você. Sempre te apoiando. Até mesmo quando os outros irmãos, mesmo o santo Elijah, te abandonaram, eu não te abandonei! – ela já começava a se irritar de verdade — Eu mereço no mínimo um voto de confiança.

— Me apoiando? Já recebi mais traições vindo de você do que de qualquer outro inimigo meu. Não se esqueça de que você já fez parte de vários complôs a favor da minha morte, sistah – respondi magoado e super de mau humor. Ela estava me fazendo perder tempo com todo esse show de drama.

— E você sabe muito bem que me arrependi em todas as vezes! E que, também, você merecia a morte em todas elas! Mas, sendo eu a burra que se importa bastante com você, de tal forma a não aceitar fazer parte da morte do próprio irmão, não fui capaz de ir até o final! O mínimo que você deveria fazer era ser grato!

Não respondi, apenas olhava para o nada. Refletindo suas palavras duras, mas verdadeiras. Eu sabia que Rebekah sempre foi fiel a mim, mesmo quando ela cometeu vários deslizes de comportamento e de lealdade. Porém, isso não era o bastante para me obrigar a falar, nem memo para me impedir de fazer o que quer que eu quisesse fazer. Ela me encarou ofegante em silêncio apenas por alguns segundos, me esperando responder, antes de me atacar novamente.

— Por que você está indo para lá? – Ela perguntou sem rodeios, me encarando sem cerimônias – O que você está planejando? Você me deve a verdade, Nik – falou me pressionando ainda mais.

— Não te devo nada. Se você me seguiu por todos esses séculos foi porque você quis. Não te obriguei a ficar do meu lado. E às vezes nem queria você nele. Te mostrava claramente isso quando te colocava no caixão, sistah – falei com raiva. Não era obrigado a dividir meus segredos com ninguém. Com certeza estava ferindo os sentimentos dela, Rebekah era dramática demais, sensível demais. Mas, o que ela esperava, que confessasse todos os meus mais profundos segredos e sentimentos?

Eu a olhei nos olhos de relance e pareceu que só isso bastou. Pois a compreensão pareceu ter brilhado em seus olhos azuis, um pouco marejados e irritadiços.

— Eu entendi direito o motivo dessas suas ações ridículas ou estou tendo um pesadelo? Depois de tudo o que eu ouvi...Quer destruir o Outro Lado...? — Ela dizia quase num sussurro.

— Para de me encher, Rebekah — falei fazendo menção de entrar no carro, mas ela era intransigente ao extremo. Se colocou no meu caminho, na frente da porta do carro.

— Pelo amor de Deus, quem ainda acredita naquela vadia oportunista? — Ela perguntou displicentemente – A chance disso ser verdade são remotas. Mas, ainda que fosse verdade, por que isso nos interessaria? — Era visível a sua descrença e o quão a pergunta era retórica. Me virando de costas para não correr o risco de responder por impulso e nem ter que encará-la nos olhos, virei a cara para as portas da garagem e me perdi nos meus pensamentos, sendo interrompido pela voz estridente e chata de Rebekah de vez em quando – Mesmo que amemos Kol, não é, nem de longe, racional destruir o Outro Lado, Nik. Não precisamos de Mikael nos caçando. Nem de Esther fazendo esquemas mágicos e malucos para nos encurralar. Uns dias aqui e eles já nos torturaram o bastante. Você viu o inferno pelo o que passamos. Isso sem contar com os problemas menores. Teríamos centenas de outros nos caçando e tentando "justiça", querendo vingança contra nós. Nossa família nunca mais teria uma gota de paz. Mas, não estou preocupada. Não existe a mínima chance de isso ser verdade. Nenhum bruxa tem esse poder. E você sempre foi contra Silas e suas pretensões de quebrar a barreira com o Outro Lado, exceto quando ele te torturou mentalmente em troca da Cura. Então, não vejo como isso poderia te interessar de alguma forma. Não tem nada lá para você, nenhuma vantagem. Não faria o menor sentido – Ela falou já interpretando corretamente apenas algumas partes, mas errando feio em outras.

Elijah apareceu e se aproximou, em silêncio por um período, o que eu agradeci imensamente, até que resolveu quebrar a minha nada famigerada paz de espírito. Ele sabia o que eu pretendia, mesmo que não tivesse me dito claramente. Ele sabia que teríamos um embate nesse mesmo instante. Seria uma conversa implacável entre nós três. E Rebekah, embora não acreditasse que eu fosse louco o bastante para destruir o Outro Lado e trazer o inferno para o nosso plano, ela havia acertado em cheio.

— Até quando você pretende manter Katerina presa, Niklaus? Sabe que não vou poder permitir que você a torture, mesmo que a liberte no final – Ele não foi direto ao ponto. Sempre muito calculista, esse meu irmão. Começou comendo pelas beiradas. Revirei os olhos e suspirei tentando retirar alguma paciência do além.

— Não pretendo tortura-la se ela cooperar. Tudo vai depender dela – sorri sadicamente. Elijah não respondeu, mas pude ouvi-lo suspirando profundamente. Após algum tempo de silêncio absoluto entre nós, ele finalmente se pronunciou de novo.

— Precisamos conversar, Niklaus – Não respondi. Estávamos chegando lá – Preciso que você me explique melhor o que isso tudo significa – Ele sabia. E isso me deixava puto com Elijah. Ele tinha essa mania de querer me obrigar a confessar os meus crimes, mesmo quando ele já soubesse quais eram. Era como se ele tivesse prazer em me torturar. Como se sentisse prazer em estar com a razão e vê-la sendo provada. E fazia tudo isso bem na frente de Rebekah, o que aumentava o grau exponencialmente. Ele estava iniciando, nesse exato momento, uma guerra entre nós três. Ou talvez eu estivesse iniciando uma guerra entre nós e por todo o universo sobrenatural.

— Não te devo nenhuma explicação – falei com raiva.

— Mas, é claro que você nos deve. Isso mexe diretamente com a nossa família – Rebekah me enfrentou . Com raiva encarei os dois.

— Eu não devo nada a vocês. Vão cuidar de suas vidas. Vão lá fazer o que fazem de melhor que é conspirar contra mim.

— Algumas vezes você deve, sim. Porém, nesse caso não se trata disso. Nesse caso podemos ter interesses em comum e trabalhar em equipe pode ser mais produtivo – Meu irmão babaca continuou. Franzi o senho chocado. Ele iria cooperar comigo?

— Trabalhar em equipe?! – Rebekah rosnou – Tudo o que você bebeu ontem ainda está te afetando, Elijah? — Meu irmão enchendo a cara? Essa era a nova do ano.

— O que você quer que eu diga, Rebekah? Você não ouviu também o que Katerina me contou? Isso é tudo o que eu tenho — Disse mal-humorado – Saiam daqui. Já me irritaram o bastante e estão me atrasando.

— Mas, por que você precisa ter alguma coisa? – E ela continuou me pressionando. Rebekah me encarava horrorizada. Meu silêncio foi a resposta que ela tanto almejava – Você tem noção do que você está querendo?!

Eles estavam agora fazendo uma das coisas que eu mais odiava nesse mundo, que é me interrogar, me pressionar, tentar me obrigar a confessar os meus pensamentos e segredos. Tal interrogatório me irritou quase que instantaneamente.

— Que interesse você tem nisso? — falei quase gritando.

— Você está brincando comigo? Estava dormindo esse tempo todo? Que interesse eu tenho em você destruir a única coisa que nos mantém vivos e a salvo dos nossos pais, de Mikael, dos nossos milhares de inimigos? Eu não vou discutir as minhas razões com você porque você as conhece muito bem. E essas razões deveriam ser as suas também. O que está em jogo agora não é o por quê de você querer fazer, apesar de conhecer as consequências, mas sim o fato de você estar realmente pretendendo acabar de vez com as nossas vidas! Dessa vez você passou dos limites, Nik! – Rebekah agora gritava. Praticamente chorando. Não sei se era de raiva ou de medo – Nós fomos torturados e perseguidos por séculos, Nik! Não é possível que você tenha se esquecido do horror por que passamos! – Dessa vez lágrimas brotavam incessantemente de seus olhos azuis, que me encaravam com decepção e ódio mortal.

— A sua preocupação, sistah, é se isso tudo interfere nos seus desejos idiotas de casamento e de família. Esther e Mikael não irão atrás de você se estiver longe de mim. Eles querem a mim — Ela me olhava incrédula — Então, vá viajar pelo mundo. Vá ter a família que você tanto quer bem longe daqui e todo mundo fica feliz.

— Você realmente vai ficar bem com isso? Com cada um de nós vivendo em cantos opostos do planeta? Depois de tanta atrocidade que você cometeu apenas para nos prender sob seu domínio não parece ser coisa sua abrir mão de nós... E como seu irmão, como alguém que quer que você se liberte dessa vida assombrada e seja feliz, eu quero saber e entender as suas motivações. Não acredito que você seja louco e tenha tomado essa decisão sem um motivo plausível ou até mesmo compreensível – Disse Elijah tendenciosamente. Ele era um puto fingido, isso sim. Ele falava comigo em código, porque ele sabia muito bem qual era o meu motivo plausível. Mas, ao contrário de Rebekah, ele não parecia com raiva e nem amedrontado. Sua expressão estava difícil de decifrar, impassível. Elijah me dava medo às vezes, porque ele parecia devanear muito para o seu próprio bem, enquanto escondia a sua verdadeira face. Enquanto eu era impulsivo e fazia as coisas na base do ódio, deixando claro meus sentimentos, ele era calculista e pragmático. Isso era psicopatia enrustida. Mas, de alguma forma, só eu era julgado como mau caráter e ele era o mocinho bem visto — Então, quais são as suas motivações, Niklaus?

— Eu não vou dividir meus segredos com vocês e nem com mais ninguém! – Gritei com raiva.

Elijah terminou o seu discurso de merda me encarando profundamente. Só sei que eu estava enraivecido, o encarava na mesma intensidade que Rebekah me encarava, pois ele estava chegando aonde eu sabia que ele queria chegar. Ele estava travando uma trilha com cuidado, mas muito bem objetiva.

Rebekah olhou para ele pasma.

— Você realmente apoia isso, essa insanidade, Elijah?! – Rebekah gritou.

— Não exatamente – Ele respondeu — Possuo as minhas ressalvas. Tudo vai depender muito do que Niklaus me disser, em ser verdadeiro.

— Você enlouqueceu? – Ela disse estupefata – Você não pode aceitar isso, Elijah. Eu não estou acreditando em você! — Ele nada respondeu, apenas aguardava minha resposta.

Não encontrando apoio no nosso irmão, que apenas a olhava culpado, virou pra mim com um brilho assassino nos olhos – Eu não vou permitir. Se tiver que matar Katerina agora mesmo para evitar isso, eu mato!

Ela tentou correr na velocidade vampírica até a entrada interna da casa, mas eu a segurei pelos cabelos. Ela gemeu de dor. Me coloquei em seu caminho, não permitindo que chegasse até a Doppelganger. Nada ficaria no meu caminho até Caroline.

— Você perdeu a cabeça, Sistah? – Rosnei entre dentes.

— Rebekah! – Elijah alarmou.

— Não. Esse foi você – ela falava chorosa — Porque isso seria insanidade! – Ela falava quase gritando, o que me deixava cada vez mais irritado — Você sabe muito bem disso ou não sabe? – Ela me encarava de olhos esbugalhados, com a expressão alucinada – Você sabe o que isso significaria para nós...?

— Eu sei! – Gritei a plenos pulmões, a fazendo calar a boca imediatamente. Ela apenas me encarava sem realmente acreditar no que via. Como se eu fosse louco. E talvez eu fosse mesmo. O que eu planejava era a maior loucura dos meus mil anos de existência. Mas, eu nem sabia se era verdade, se ia dar certo. E já estava sendo julgado por isso. Não aguentava mais ser julgado por ela, por Elijah, por mais ninguém. Não iria aturar mais nenhum desaforo de Rebekah. Mas, ela era petulante demais. Ela sorriu com desdém e abriu a moldura da boca pra falar de novo.

— Eu não vou deixar... E não é como se fosse verdade. Katerina Petrova sempre teve o dom de enganar vocês.

— Não sabemos a verdade ainda – respondi querendo acabar de uma vez por todas com aquela conversa. Ser pressionado e criticado só me faziam nublar o humor. E era a última coisa de que eu estava precisava no momento – Se você já acabou com a palhaçada, já pode sair da minha frente e sumir daqui, Rebekah.

— Acho melhor você não tentar me impedir, Nik. Eu não vou deixar você destruir as nossas vidas de novo – Ela falou tentando se desvencilhar das minhas mãos que a seguravam com firmeza – Não vou permitir que você faça isso. Ou me dá a sua palavra de que vai desistir dessa ideia mirabolante ou eu mato Katerina Petrova assim que você estiver fora dessa casa – eu a encarei com surpreso desdém. Ela estava mesmo achando que podia me dar um ultimato, que podia me enfrentar desse jeito?

— Vocês, já basta! Vamos tentar nos entender sem brigas! – Elijah se aproximava de nós cautelosamente, como quem quer separar dois cachorros raivosos sem fazer alarde para não espantá-los. E nós simplesmente o ignoramos. Larguei Rebekah, mas a encarava bem de perto.

— Acho que o ataque da bruxa não te fez bem à cabeça, sistah. Não tem nada que você possa fazer para me impedir. A essa altura, você já deveria saber que não se pode me enfrentar – Falei sério, a olhando com dureza. Minha paciência tinha acabado.

Meu corpo se preparava para o ataque. Ela me odiaria por isso mais tarde. Mas, eu já tinha feito tanta coisa pior com Rebekah que essa nem faria muita diferença. Eu lidaria com ela quando chegasse a hora. Num ato de reflexo ela sentiu o perigo chegando e tentou me atacar primeiro, mas eu fui mais rápido. A peguei pelo pescoço e o quebrei girando seu corpo com toda força, não antes de ver o espanto e a mágoa atingirem com força os seus olhos azuis, agora brilhando de medo. Seu corpo girou antes de bater com estrondo no chão. Não é como se ela pudesse se machucar de verdade. Algumas horas apagada me daria um pouco da paz e do tempo de que eu precisava, sem ela me infernizando.

— Você ficou maluco?!

Escutei a voz sobressaltada de Elijah nas minhas costas. Nem me dei o trabalho de me virar.

— Daqui a pouco ela acorda, Elijah. Não precisa fazer esse show.

— Show?! Você quebrou o pescoço da nossa irmã caçula, seu... – Ao que parece, meu querido irmão tinha perdido um pouco a compostura. Olhei para ele. Alisava freneticamente os cabelos e andava de um lado para o outro exasperado. Ultimamente Elijah estava um pouco assim, à flor da pele. Mas, não liguei. Ou pelo menos eu tentava me convencer disso. Quando Elijah perdia o controle significava que a situação tinha atingido o extremo.

Eu apenas me encostei no carro de braços cruzados, mas sem prestar muita atenção no que fazia. Só pensava no quão na merda eu estava afundado e continuava afundando. Observei Elijah pegar Rebekah no colo e levá-la para dentro da casa, pelo acesso interno.

Por que eu ainda não tinha entrado naquele carro e me mandado dali? Alguma coisa me prendia ao chão, pois fiquei parado olhando para o nada desnorteado demais para esboçar alguma reação. Desencostei do carro e comecei a andar encurralado, tentando planejar. Mas, planejar o que? Não sabia mais o que fazer. Estava perdido. Elijah retornou alguns minutos depois em passos apressados. Quando chegou, falou sem rodeios, jogando na minha cara uma tonelada de acusações.

— Já que Rebekah não está mais aqui, por causa das suas gracinhas inaceitáveis, acho que já podemos falar claramente, sem o seu cinismo absurdo. Já estou cansado dele. Você não é capaz de ser sincero comigo nem mesmo depois de tudo. Nada de gratidão ou de confiança. E Ainda machuca a nossa Irmã. Eu não vou fingir que estou feliz com as suas últimas ações e nem vou dizer que estou totalmente de acordo com esse seu plano mirabolante. Mas, se ele representar o fio de milagre que tenho esperado por todos esses séculos, posso engolir as dívidas que você tem com essa família se isso te deixar capaz de se redimir conosco futuramente. Farei isso apenas pelo bem maior que seria recuperar a nossa felicidade. Deposito a minha fé nisso na esperança de que possa lhe dar aquilo que você nunca acreditou ser capaz e digno de conseguir, e por isso se sabota em todas as oportunidades, que é o amor incondicional de alguém e de uma família.

— Do que você está falando, Elijah? – Perguntei parcialmente surpreso, porque eu já imaginava do que se tratava. Estávamos voltando ao caminho que ele havia trilhado antes de Rebekah interromper com as suas criancices.

— Quais são as suas verdadeiras motivações, Niklaus? – Ele perguntou sério.

— Eu já disse que não te devo...

— É a garota Caroline Forbes, certo? Isso já está claro. Mas, quero ouvir de você – Dessa vez foi direto, na cara dura. Ele engoliu essa pergunta o dia inteiro. Mas, agora ele despejou.

O olhei espantado pelo seu descaramento e não respondi. Meu ar tinha sido arrancado do peito de supetão. Eu apenas o olhava muito quieto, não tinha energia para responder. Mas, meu silêncio já foi resposta o suficiente. Ele permaneceu me encarando sério por um tempo, enquanto lia minha expressão corporal. Então, sorriu de canto e isso me arruinou. Me senti humilhado. Vulnerável. Preso ao desespero patético e à irracionalidade por causa de uma garota simples do interior.

— Bem, só o que nos resta, então, é esperar que Katerina esteja certa no que disse ou que não tenha mentido – Elijah falou banalmente.

O olhei com surpresa. Ele estava do meu lado? Depois de tudo o que eu havia feito? Meu lado insano que poderia pôr tudo a perder e causar a morte da nossa família? A morte dele? Porque o resto do mundo que se fudesse. Só os que me importavam eram eles. E agora ela também. Não falei nada. Qualquer coisa que eu dissesse poderia me trair e me fazer confessar o que eu não estava pronto para confessar. Era demais pra mim digerir meu irmão mais sensato embarcar nessa aventura perigosa comigo. Algumas vezes ele me assustava, pois era delirante demais. Ele estava disposto a permitir um inferno na Terra só para que eu tivesse o que eu queria. Isso me preocupava na mesmo medida que me deixava feliz. Meu irmão sempre foi o meu equilibro, aquele que servia de exímio fiscalizador e atenuante das minhas loucuras. Sem ele, eu já teria sucumbido aos meus impulsos há muito. Elijah encostou no carro e cruzou os braços, me olhando sério.

Não sabia o que era pior: Elijah me apoiar insanamente nas minhas aventuras mortais e ficar idiotamente alegre por causa de uma esperança imbecil de me ver feliz com alguém que eu amasse, mesmo que isso matasse todo mundo no processo, ou eu saber que estava preso a essa ideia mirabolante mais do que a qualquer outra coisa por causa de uma garota e, para fincar, dependia do acaso, do universo resolver conspirar ao meu favor. Mais fudido que isso, impossível.

— Você vai para New Orleans ainda hoje? – Ele me perguntou.

— É o que eu pretendo. Vou agora.

— Irei com você.

— Não podemos largar Rebekah sozinha aqui com Katerina, Elijah. Você não viu a reação dela? – Disse sem paciência com esse idiota.

— Apenas espere. Vou convencê-la a cooperar – Elijah era muito besta mesmo.

— Não tenho tempo a perder. Mas, obrigado, brother. Obrigado pelo seu apoio – Falar isso foi como beber Wolfsbane concentrada. Mas, o fiz com sinceridade. Dizendo isso, apertei a sua mão amistosamente. Era a primeira vez em meses que tínhamos um entendimento decente e isso me alegrava. Então, percebi, era isso o que eu estava esperando para ir de vez. Queria uma última conversa com meu irmão, queria uma espécie de sinal verde, pois ele era o único capaz de me entender naquele momento.

— Ficarei de olho em Katerina, não se preocupe. E não deixe de me manter informado – Acenei para ele e já estava prestes a entrar no carro quando ele me chamou novamente.

Ele estava parado a poucos metros de mim, com mistério no olhar. Não processei bem o seu comportamento e perguntei com aspereza:

— Posso entender o que você está fazendo?

— Antes de você ir, preciso que você seja sincero comigo, Niklaus. Você só está me enrolando, nunca fala claramente. Eu quero palavras de verdade – Falou ele sem rodeios. Me fazendo de desentendido, mas sabia exatamente ao o que ele se referia, respondi:

— O que? Não tenho tempo para isso. Não preciso de sermões agora, Elijah. Você insiste na mesma tecla e... – Respondi malcriado e trincando os dentes.

— É claro que eu já entendi bem suas motivações. Só queria uma confirmação. E também sei que você não precisa de mim para essa tarefa. Sei que você pode muito bem dar conta sozinho de ameaçar e de arrancar umas cabeças. Quanto a isso você realmente não precisa de ninguém, é o melhor do mercado – Ele falou me olhando intensamente – No entanto, você precisa sim de mim. Não para te ajudar a detonar umas bruxas, mas porque você precisa de alguém para te apoiar. Precisa da sua família. Te apoio porque é meu irmão e porque acredito na causa. Portanto, vou te dar suporte tal como prometi. Quando chegar a hora, estarei lá com você em New Orleans, mesmo que seja apenas para eu ficar sentado num banco de uma praça, lendo jornal e comendo croissant, enquanto você tortura umas bruxas. Não importa o quanto você finja, o que você mais quer é ter gente que se importe com você e eu estou aqui, Niklaus, te apoiando nessa loucura que, se der certo, vai significar o nosso inferno e, até mesmo, pode ser o fim das nossas vidas. Portanto, só o que te peço em troca é que você seja verdadeiro comigo. É tão difícil assim? Por que sentir vergonha de se importar com alguém? Portanto, vou perguntar mais uma vez. Por que você está fazendo isso? É apenas mais um de seus caprichos passageiros ou devo me alegrar com a possibilidade de algo nobre? Eu já disse o que acho, mas você precisa confirmar verbalmente as minhas suspeitas – Ele terminou com olhos penetrantes, aguardando com disfarçada ansiedade. Baixei os olhos e encarei o chão de concreto. Não poderia retribuir o olhar, pois ele me condenaria. Eu sabia exatamente o que Elijah esperava ouvir. Porque, sim, ele já sabia a resposta, mas queria ouvir claramente de mim. De alguma forma doentia, isso dava certo prazer para ele. Por fim, falei:

— Você sabe por quê. É exatamente o que você pensa que é, não é mesmo, brother? Por que precisa que eu diga em voz alta? Você sabe que me expressar é custoso pra mim. Tente respeitar minhas limitações – Falei sincero, mas contrariado por ter de confessar meus sentimentos vergonhosamente humanos. Isso era o máximo que ele teria de mim.

— Mas, por que, afinal de contas? Só quer que ela viva? Eu nunca te vi se esforçando tanto – Ele continuou a insistir irritantemente.

— Elijah, não me pressione – falei com raiva voltando a encará-lo.

— Apenas quero entender. Não é mais fácil, mais conveniente, deixar as coisas como estão? – Disse ele logicamente – Não me entenda errado, por favor, não queria que tivesse acontecido do jeito que foi, você sabe disso. Não era do meu interesse muito menos do meu agrado que ela morresse. E acabei de dizer que estou com você. Mas, tem que me dar um motivo substancial para eu me esforçar na mesma medida. Vai mesmo arriscar tudo por um flerte passageiro? Por uma paixão estridente que depois de um tempo não fará mais sentido? Não seria ...

— Você tinha razão. Eu estava sendo egoísta em pensar só em mim – Falei bruscamente, interrompendo seu discurso, antes mesmo de perceber as palavras saindo, pois já me sufocava guardar isso a sete chaves – Confesso que ficarei feliz se for bem-sucedido o plano, mas não faço por mim. Ela merecia muito mais, merecia viver intensa e plenamente. Esse é o porquê, para devolver a ela a vida incrível que era dela por direito, aquela à que eu estou certo de que ela estava destinada. Quero apenas que ela seja feliz. O que aconteceu foi injusto, ela merece muito mais. Não posso deixar barato. Não posso falhar com ela denovo – Respirei aliviado, como quem acaba de se livrar de um peso. As palavras me custaram a sair, mas, uma vez começado, não pude mais parar, porque foi libertador. De certa forma, não precisar me esconder era melhor. Eu poderia, assim, agir livremente sem paranoia ou medo de ser julgado. Foi como me livrar de um afogamento, onde conseguia, finalmente, sugar o ar para os meus pulmões. Reparei que Elijah sorria de canto, um sorriso mal disfarçado. E seus olhos me mostravam surpresa e um certo brilho de garoto sapeca, daquele tipo que descobre um tesouro novo e unicamente seu.

— Bom, acredito eu que você, finalmente, entendeu o que significa amar alguém incondicionalmente (***) – Ele finalizou enquanto me analisava.

É. Eu não estava dizendo alto e claramente e com todas as letras "eu a amo". Mas, do meu jeito, e Elijah o conhecia bem, eu o estava confessando. Estava amando novamente. Depois de mil anos, depois de séculos sem sentir absolutamente nada além de ódio e de dor. E sabe, descobrir isso foi revigorante. Não era tão terrível quanto eu pensava e nem mesmo senti vergonha. Depois de meses renegando isso na minha cabeça, encapaz de aceitar a realidade, pela primeira vez me permiti sentir sem ressalvas e foi libertador. Senti esperança para o futuro, como se realmente pudesse ter algo na minha vida que não fossem apenas traições e derramamento de sangue. Eu poderia ser feliz de verdade. Essa era uma nova esperança.

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Elijah

Depois da partida de Niklaus, fui imediatamente vigiar Katerina. Fiquei algum tempo planejando, tomando uma decisão que poderia fazer Niklaus me detestar a princípio, mas me agradeceria depois. Passei algumas horas me convencendo de que aquela era a atitude mais sensata e que tudo o que faríamos nos próximos dias daria certo para nós, com um pouco de fé e de paciência. Me decidindo por completo e verificando se Katerina estava devidamente bem acorrentada e trancada dentro da cela, dei-lhe uma dose forte de verbena injetada na artéria do pescoço, mesmo que me causasse repulsa esse tipo de atitude. Mas, era aquele mal necessário. Saindo do porão, procurei por Rebekah no seu quarto, onde eu a havia deixado. Contudo, ela não estava mais lá, havia acordado. Chamei por seu nome na esperança de que ela ainda estivesse na casa, mas não estava. Sendo assim, disquei seu número. Ela não atendeu nas minhas primeiras quatro tentativas. Até que, talvez por não me aguentar mais a perturbando, resolveu me entender.

— Diga – falou raivosa.

— Onde você está? Preciso conversar com você – ela suspirou cansada.

— Preciso de um tempo sozinha, Elijah. Só dessa vez, por favor.

— É urgente. Garanto que vai te interessar – ela pareceu pensar duas vezes antes de me responder.

— Duvido. Estou no Mystic Grill. Vai deixar a preciosa Doppelganger sozinha? Ela não pode fugir? Ou eu posso voltar aí e arrancar a cabeça dela enquanto você estiver no caminho.

— Não, irmã. Já tomei as medidas necessárias. E eu te entrego uma boa fé na esperança de que você faça o mesmo. Sabe que não sou Niklaus, não estou tentando te enrolar. E prometo, realmente vai querer saber de tudo. Eu vou te contar quando eu chegar — E assim, ela fez silêncio — Então, me espere aí. Chego logo.

Peguei meu Audi preto e saí da casa. Niklaus surtaria se soubesse que deixei Katerina sozinha, mas ela não tinha como fugir. Pensando melhor, era exagero ficar de guarda tão assiduamente. Cheguei ao estabelecimento e, mesmo pelo lado de fora, ele parecia bem agitado. Também, era o único local razoavelmente divertido na cidade.

Entrei e a vi sentada no bar, de costas para a porta. Rebekah tinha uma taça de bebida alcoólica em sua mão. Ela sabia muito bem que eu não gostava que ela ficasse bêbada. Ela nunca deixava de arrumar confusão quando se embebedava. Seu temperamento não permitia uma diversão inocente e discreta. Sentei ao seu lado e ela agiu como se eu não o tivesse feito. Resolvi baixar a guarda e acompanhá-la na bebida. Afinal de contas, nossa conversa seria tensa demais para que não tivesse nenhum tônico para ajudar. E a essa altura, eu não era ninguém para julgá-la, não depois de ontem. Fiz sinal para o barman, que nesse momento não era Matt Donovan, o namoradinho humano de Rebekah. Ela continuou fingindo que eu não estava ali. Suspirei pacientemente e a olhei.

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— Já podemos conversar sem que você faça birra? – Eu disse calmamente.

— Você veio aqui para defende-lo e justificar essa insanidade que ele quer cometer? Por que se for para isso, você já pode dar meia volta. Você sempre faz isso, Elijah. Sempre fica do lado dele e contra mim – Sem ainda me olhar, ela falou virando a bebida de uma vez só e pedindo outra – Não estou aqui para ouvir você apoiando ele de novo.

— Acho que já está bom de álcool, você não acha? Não quero ter que te arrastar bêbada para casa e me fazer passar vergonha na frente dos vizinhos – ela revirou os olhos.

— Você sabe muito bem que vampiros não ficam bêbados com facilidade. Sua aventurinha de ontem à noite foi a prova. Você entornou metade do estoque daquele bastardo ingrato – respondeu ela. Automaticamente me senti envergonhado – E desde quando você conhece os vizinhos, Elijah?

— E é aí que mora o perigo, ter esse pensamento – Suspirei fechando os olhos e ignorando parte do seu comentário. Não queria lembrar da minha falta de decoro da noite passada. Especialmente não queria lembrar de pensamentos inoportunos e sujos que anuviaram a minha mente fragilizada – E você sabe muito bem que não é bem assim. Isso de que nunca fico do seu lado para ficar do lado dele – Falei olhando para o que sobrava à vista de seu rosto, pois o resto estava escondido pelos cabelos loiros.

— Você se sente em dívida com ele por causa do nosso passado. Acha que não foi um bom irmão quando éramos humanos, por não ter defendido ele do pai todas vezes que teve chance. Toda essa culpa se transforma em negligência, porque você acaba poupando ele mesmo quando ele é um cretino com a gente – Ela respondeu rancorosa.

— Eu confesso que isso às vezes é verdade. Porque eu sou negligente com você também, por esses motivos e por outros. Mas, não é o que está acontecendo hoje. Não vim aqui para ficar do lado dele e contra você. Vim aqui para esclarecer todas as suas dúvidas — Beberiquei meu Whisky antes de prosseguir — Talvez algumas questões muito importantes estejam passando desapercebidas pelos seus olhos e por todo ressentimento que às vezes você tem do seu irmão. Você não passou o dia todo hoje exigindo saber toda a verdade? Então, vim trazê-la a você – Sendo assim, finalmente, ela me encarou – E, talvez, com sorte eu consiga te fazer compreender um pouco mais do que você estava compreendendo hoje mais cedo. E isso pode até ajudar ficarmos mais unidos.

— Do que você está falando, Elijah? – Ela perguntou com pressa, verdadeiramente interessada. Finalmente eu havia capturado a sua atenção. Inspirei profundamente antes de falar. A olhei intensamente nos olhos, que estavam um pouco mais miúdos devido à contração dos seus músculos da testa, fazendo sua expressão ficar ligeiramente mais rígida e tensa.

— Eu acredito, e tenho bases para ter certeza, que Niklaus não esteja sendo coerente com a razão, mas sim com a emoção. Ele não foi em busca de mais poder, Rebekah. Ele quer destruir o Outro Lado para trazer Caroline Forbes de volta. É claro que ele não me disse isso com essas palavras, jamais me diria, mas me disse com outras. E ele me faria queimar no inferno se soubesse que estou aqui te contando – Tomei um gole mais generoso o meu Whisky com gelo. Instantaneamente, bloqueei certas memórias da pequena desventura de ontem. Ela me olhava pasma e icredulamente.

— Você não está falando sério, Elijah – Ela se virou de volta para encarar o balcão do bar, com um sorriso zombateiro e descarado – Você acha mesmo que o sem coração e sem bons sentimentos do Nik iria fazer uma coisa dessas? Ele não se importa nem com a gente. Vai se importar com alguém que ele conhece faz pouco tempo? Estamos aqui de volta a Mystic Falls só faz um ano. Nik não se apaixonaria por alguém assim tão rápido. Eu acredito que ele esteja planejando algo realmente muito sério. Alguma coisa que vai fazê-lo ser mais poderoso do que já é. Não que ele realmente precise. Mas, você bem sabe como é a ganância dele, a sua sede pelo poder. Nik jamais cansa de buscar alucinadamente pelo poder. Quanto mais ele tem, mais quer. Não tem absolutamente nada a ver com algo altruísta como trazer alguém de volta à vida ou com fazer o bem para alguém. Algo tão puro e digno de histórias épicas. Isso não é coisa do Nik. Ele não faria isso nem pela a gente – Ela terminou desdenhando ainda mais.

— Não, Rebekah. Você não está prestando bem atenção. Não se trata de altruísmo. Ele ainda continua sendo muito egoísta, pois o que ele pretende vai ferrar a vida de muitas pessoas e ele não se importa com isso. Você mesma frisou mais cedo no meio do seu escândalo o terror que será com nossos pais de volta. E Niklaus mesmo assim que levar o plano adiante. Mas, você não sabe o que tem acontecido. Não está vendo com clareza. Mas, eu sei. Eu vi. Nesses últimos dias ficou muito claro para mim, através do comportamento do nosso irmão, através do filtro de observadores oculares, que Niklaus está apaixonando por essa garota Caroline Forbes.

Rebekah me encarou totalmente incrédula, balançando a cabeça negativamente. Ela me olhava como se eu fosse louco.

— Ele ainda vai afundar a gente por causa dessas falsas esperanças. Não acredito que você está sendo tão ingênuo dessa forma, Elijah. Se iludindo de tal maneira. Todas às vezes que eu me iludo com ele, acabo na sarjeta. E você também. Mas, parece que a gente nunca aprende. Nik nunca expressou o menor sentimento por alguém em mil anos. E a única vez que ele pareceu amar alguém foi quando ainda éramos humanos. Se me lembro bem, aquela Tatia, a original vadia das Doppelgangers que você também amou. Até pensei que ele estava amando Aurora, mas não sofreu nem um pouco depois da nossa partida da Corte – Ela me olhava balançando a cabeça com assombro de incredulidade – O que te faz pensar que dessa vez, depois de um milênio, após a alma dele ter ido por um caminho tão obscuro e sem volta, ele vai se importar com alguém que não seja ele mesmo? Pior ainda, amar alguém...

— Já te falei. Tenho minhas razões. Você não acha que seria muito extremo ele querer destruir o Outro Lado se não possuísse fortes sentimentos pela garota? As ações do nosso irmão falam por si só. E elas provam que ele não foi realmente por um caminho sem volta e que esse pode ser o milagre de que tanto estamos esperando, Rebekah.

— Eu não acredito em milagres. Muito menos quando se trata do Nik – Ela olhava para frente, bastante pensativa – Já fazem séculos que deixei de esperar por algum traço de humanidade dele. Não fiquei presa a isso que nem você. Eu aceitei o fato de que ele se tornou um monstro e de que nunca mais vou ter o meu Nik de volta.

— Desculpe, irmã, mas essa é uma mentira tão descarada sua. Eu até admito que sei que você parou de criar grandes expectativas em relação a ele. Até mesmo para se proteger de mais decepções. Mas, acreditar que ele não tenha volta ou que não possui nenhum traço de humanidade, eu sei que não é verdade, sei que você não acredita nisso realmente. Você sempre fica sentida quando ele não te trata bem ou quando, aparentemente, não se preocupa com você. Sempre fazendo exigências e condenando o comportamento dele. O que indica que, no fundo, você espera que ele faça o contrário. O que mostra que você acredita que o seu Nik ainda está lá – Ela me olhou de cara feia, mas sem me contrariar. O que pra mim era uma espécie de confissão silenciosa — E por que outro motivo você permaneceu do lado dele por todos esses séculos, mesmo após tantas apunhaladas no peito, literalmente? Você ainda espera pelo nosso Niklaus. Pode ser uma espera inútil e até doentia, mas você ainda está aqui. Poderia fazer as suas malas e ter uma vida bem diferente da atual bem longe dele.

— Você sabe que apenas para me infernizar Niklaus iria atrás de mim. Ele é egocêntrico demais para permitir que outros vivam felizes sem ele. Não é somente por lealdade que eu permaneço. Mas, também por medo.

— Eu acredito que o medo também faça parte. Mas, a sua dependência emocional dele alimenta o poder que ele tem sobre você, te fazendo incapaz de deixá-lo. Eu sei porque é exatamente assim que é comigo — Suspirei profundamente antes de continuar — Seja como for, essa conversa fica para outro dia. O foco agora é você entender que essa loucura dele de destruir o Outro Lado não surgiu do nada, tem um fundamento mais profundo do que os olhos menos atentos são capazes de perceber. Tudo o que ele está fazendo gira em torno de Caroline Forbes.

— Está bem. Se você acha realmente isso, me diga, pelo menos, de onde tirou esses absurdos.

E, sendo assim, contei a ela detalhadamente todos os eventos dos últimas semanas. A cada nova informação, sua expressão ia de incrédula até impressionada. Esperei que ela se pronunciasse, mas ela apenas ficou lá parada, olhando o nada sem realmente enxerga-lo. Resolvi quebrar o silêncio.

— A questão aqui é que os sentimentos dele são profundos o bastante para tomar decisões radicais sem medir as consequências. Isso é preocupante, claro. Mas, desde quando Niklaus foi um antro de sensatez e de domínio próprio? Mas, entende aonde quero chegar?

— Decisões extremas o bastante para nos matar. Por mais que seja milagroso e épico que ele ame alguém, é demais até pra mim, uma romântica incorrigível, aceitar as loucuras dele de bom grado. Você não pode esperar isso de mim. Ele não pode amar alguém sem colocar o nosso rabo na reta?

— Como se pudéssemos escolher quem vamos amar. Ou em que circunstâncias isso vai acontecer. Realmente seria ótimo poder apertar um botão de "liga e desliga". E estamos falando de Niklaus. Claro que a experiência dele no ramo do amor seria trágico e conturbado. Se fosse simples, não seria ele.

— E você veio aqui para me fazer entrar no time "loucuras por amor"? Eu bem já passei por isso. Soa tão ridículo. É a vez de Niklaus, então.

— Não exatamente. Só queria que você refletisse, soubesse que nem tudo está perdido ainda — Ela suspirou e virou a tequila de uma vez — Então, posso contar com o seu apoio? Pelo menos não vire nossa inimiga, se não concorda conosco — Falei enquanto tomava um gole da minha bebida.

— Não sei, Elijah. Tudo está me parecendo fantasioso demais, embora eu acredite em tudo o que você falou. Nem tem como não acreditar. É claro que eu notei um certo favoritismo dele por ela, mas nada que me alarmasse. Só me parecia mais um capricho daquele bastardo. Pensei que ele só estivesse em busca de uma aventura com uma vadia fácil e Caroline definitivamente é uma. Mas, é verdade que ele estava sempre presente nos últimos acontecimentos que envolveram ela, mas eu achava que era por outros motivos, egoístas, é claro, e só uma coincidência. Eu sempre soube que ele se sentia atraído por ela, porém nada de relevante. Só fiquei curiosa quando ela apareceu no nosso baile vestida da cabeça aos pés com os presentes milionários que ele deu pra ela. Mas, amor é outra história... E você sabe, ele não confia em nós totalmente. Nunca abriria o jogo comigo e nem com você. Sempre nos afasta e depois diz que o abandonamos. Um grande imbecil — Nem tinha me tocado nessa questão do baile. Mas, pensando em retrospecto, ele realmente estava cercando a garota desse aquela época. Como eu deixei isso tudo passar?

— Eu sei. Não te culpo por ficar indecisa, por sentir tudo isso. Mas, eu preciso ir encontrá-lo em New Orleans, pois é necessário vigia-lo de perto. Portanto, preciso que você seja meu suporte aqui em Mystic Falls. E quando chegar a hora de a nossa família encontrar alguma paz, quero que você vá se juntar a nós, para que possamos viver bem em família. Sem mais guerras ou destruição.

— Você sabe que isso vai ser difícil, não sabe? – Ela sorriu sem humor — Eu realmente quero acreditar que ele esteja passando por isso, Elijah. Que o Nik que conhecemos ainda esteja lá. Eu quero meu Nik de volta. Também quero nossa família de volta, nosso lar de volta. Nossos irmãos felizes. Só custo a acreditar que nosso irmão seja capaz de toda essa humanidade depois de tanto tempo demonstrando o oposto. Eu não confio muito nas intenções dele, ele não tem se provado ser de confiança. Mas, se você acredita nele, eu posso me esforçar também. Mas, você sabe que se ele for bem sucedido, estaremos ferrados, não sabe? Como vamos lidar com isso? Com Esther? Pior, com Mikael? Eu não consigo imaginar... Fico aterrorizada só de pensar nisso. Então, ainda não estou convencida de que seja a decisão certa.

— Eu também não estou. Mas, sabe, irmã, tudo tem um preço. Vivemos há séculos da mesma forma. Então, se queremos uma evolução, se queremos viver de outro jeito, talvez tenhamos que fazer escolhas difíceis e estou disposto a testar qualquer coisa que pareça promissora e essa é uma delas. E lidaremos com nossos pais quando chegar a hora. Sempre conseguimos, não? Não vai ser diferente agora. Talvez seja a nossa chance de nos livrarmos de nossos pais para sempre, Rebekah, e termos alguma chance nessa vida mesmo se passarmos por mal bocados antes. A felicidade não vai chegar para nós de graça. E já estamos metidos nisso até o pescoço. Eu, pelo menos, já estou envolvido nessa história até onde não consigo mais enxergar além. Só me resta dar continuidade – falei fazendo um brinde com a taça.

— Aparentemente, agora eu também. Mas, você sabe, o custo dessa suposta felicidade pode ser alto demais – ela imitou meu gesto e levantou a seu copo. Tudo o que ela me disse obviamente me preocupa bastante, mas depois de mil anos na escuridão, eu estava desesperado por qualquer oportunidade.


Continuamos um pouco a conversa, com temas mais suaves e até divertidos. Isso me alegrava. Havia recrutado Rebekah para o nosso lado e dado um passo muito largo e importante para a reunião e felicidade da nossa família. Eu sabia que ela não era coração de pedra e que ficaria feliz com o que ouviria. Ela também amava Niklaus, assim como eu. E somos capazes de qualquer coisa por aqueles que amamos.

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Me despedi de Rebekah. Ela não quis vir comigo para casa. Disse que precisava pensar. Claro, eu daria esse tempo a ela. Eram muitas informações e mudanças na nossa vida para se tratar com banalidade. Apenas caminhei bem concentrado até meu carro. Nossa família estava enfrentando uma grande provação no momento. Uma que poderia facilmente ser um divisor de águas. E eu esperava fortemente que não fosse a divisão da nossa família. Estava tão focado em trazer alguma redenção para Niklaus que não pensei na possibilidade de tudo isso significar uma fissura na nossa tão antiga estrutura. Claro, eu queria mudanças. Muitas mudanças, mas não drásticas ao ponto de cada um seguir seu caminho sem união. Será que era realmente impossível de ter os dois? O Amor Eros e o Amor Philia? Parece que estávamos sempre na linha tênue entre os dois. Quando conseguíamos um, perdíamos o outro. O equilíbrio seria encontrado quando fôssemos capazes de alcançar os dois sem grandes perdas no processo. Mas, nada vem sem sacrifícios. E Rebekah parecia ser a única racional o bastante para saber disso. Ela entendeu o preço a pagar muito antes de nós. Mas, agora não havia mais retorno. Lidaríamos com as consequências juntos quando chegasse a hora. E pedia aos céus que isso causasse a união que desejei por séculos. O caos é uma escada, tentei me convencer para não sucumbir ao medo do incerto. Se queremos algo muito diferente, certamente devemos estar dispostos a atravessar a tempestade para atingir a bonança.

Enquanto dirigia para casa e me afogava na paranoia típica de Niklaus, pensei em Katerina. Eu ainda me importava com ela o suficiente para não deixar Niklaus matá-la. Mas, o estranho é que era só isso. Ouvir o nome dela por séculos me causou sensações que claramente eu reconhecia como paixão. Mas, ela não era mais a doce e inocente Katerina por quem me apaixonei. Para sobreviver, ela se tornou uma predadora fria, uma sombra bem distante da original. Levei muito tempo para aceitar e para acreditar que a gentil Katerina há muito não existia. Era muito difícil me desgarrar de preciosidades como nossa ligação do passado. Muito difícil acreditar que uma pessoa que você amou não existe mais. Encontrá-la novamente em Mystic Falls me reacendeu esperanças que há muito tempo estavam enterradas. Cheguei a sonhar com a nossa reaproximação, esperando que ela quisesse o mesmo. O grande empecilho, claro, seria Niklaus. Ele jamais teria me deixado viver em paz com ela. E hoje, depois da sua promessa de liberta-la, me peguei imaginando como seria finalmente ser livre para estar com ela. O problema é que eu descobri que não queria mais isso. O que me pegou de surpresa, dado o tempo que fantasiei com ela nos últimos séculos. Sua traição de meses atrás me fez enxerga-la como realmente é, uma mentirosa sem escrúpulos, que passa por cima de quem seja, fazendo as piores atrocidades apenas em benefício próprio. Eu não queria alguém assim, que não seria leal a mim, que me jogaria aos leões na primeira vantagem que lhe fosse oferecida. Minha Katerina se foi. Agora era tudo uma amarga lembrança. Tenho certeza de que se não fosse a maldição das Doppelgangers, Katerina e eu poderíamos ter tido uma vida feliz naquela época na corte. Ou Niklaus teria matado ela de qualquer forma só para me infernizar. Mas, isso tudo ficou no passado. E eu era estupido demais para continuar sonhando com alguém que claramente não retribui meu afeto. Tive que ouvir várias vezes que ela nutria sentimentos por Stefan Salvatore, se é que ela ainda era capaz de se importar com alguém além dela mesma.

Isso me fez lembrar da jovem Elena. Ainda se encontrava em estado catatônico, presumo. A bendita e milagrosa fórmula encontrada no armazém improvisado de Shane que fez Katerina voltar. E Elena não teve a mesma sorte de tomá-la. Teria que contar com a sorte de alguém daquela turminha ter coragem de buscar alguma solução. Aqueles irmãos não mereciam a nossa ajuda, mas não seria justo deixar a garota num sono profundo para sempre. Pensando bem, deixar a vampirinha empedrada seria uma boa vingança.

Elena Gilbert ajudou a matar meu irmão e isso merecia uma forte represália. Eu deveria matar Elena Gilbert e seu irmão. Ninguém machuca a minha família e vive. Mas, se eu atacasse Elena agora, tudo poderia vir por água abaixo, pois Caroline não aceitaria isso de jeito nenhum. Ela me odiaria e projetaria sua raiva em Niklaus. Suspirei cansado. Mais uma vez precisaria fazer concessões em prol do bem maior. Mesmo querendo matar Elena, eu salvaria ela hoje. Caroline ficaria feliz de ter a amiga de volta. Claro, fazia isso na expectativa de que Caroline realmente voltasse. Se ficar provado que isso é impossível, Elena estará com os dias contados.

Então, como eu salvaria essa pequena traidora? Niklaus parecia não ter encontrado mais exemplares da poção. Mas, e se ainda houvesse resquícios no sangue de Katerina? Seria o suficiente para acordar Elena Gilbert? Eu tentaria a sorte. Se não funcionasse, os amiguinhos dela teriam que fazer buscas mais minuciosas para encontrarem um jeito de recriar o líquido mágico. Pelo menos já sabíamos o que fazer para acorda-las.

Cheguei em casa e fui direto até o porão. Pegaria uma boa dose do sangue de Katerina e entregaria aos Salvatore. E partir daí, seria com eles.
A vampira já estava acordada, mas parecia atordoada. Ela me viu me aproximar e se arrastou no chão como uma cobra ferida. Incapaz de se levantar, apenas rastejava mediocremente.
Sem perder tempo, mordi seu pulso e despejei sangue no frasco vazio de vidro que ficou lá no chão das masmorras.

— Por que você está fazendo isso? — Ela disse fracamente.

— Não é para te machucar. Só preciso do seu sangue.

— Você vai ajudar Klaus a me matar? Você já me defendeu tanto, Elijah. O que aconteceu com você?

— Eu sou a mesma pessoa. Você que não é mais, Katerina.

— Você não me ama mais — Ela constatou após me observar atentamente.

— Você não contava com isso, não é? Queria me manipular de novo e fugir de Niklaus.

— Só é estranho não ser mais amada por alguém que um dia teve tanta devoção por você. É como se perdêssemos uma parte nossa.

— Não seja dissimulada. Nós dois sabemos que eu nunca passei de uma peça no seu jogo de ascensão ao poder. Imagina, ter um Original bem na palma da sua mão. Bom demais para os negócios.

— Você sabe que nem sempre foram apenas negócios, Elijah. Quinhentos anos atrás eu te amei. Você é um cara honrado, apesar de tudo. Ainda é um Original sanguinário, mas pode ser misericordioso. Não é difícil gostar de você.

— Você deve estar com a memória falhada, Katerina — Falei ao terminar de encher o frasco — Você deixou bem claro seus sentimentos egoístas quando me manipulou para usar a Cura como moeda de troca para a sua liberdade. Naquele dia algo morreu e eu nunca mais vi você da mesma forma.

— Tudo em mim morreu no dia que eu tive que cometer suicídio para ficar livre da perseguição homicida do seu irmão. Agradeça a ele se a sua Katerina deixou de existir. Não pode me culpar por querer sobreviver.

— Não posso, verdade. Mas, também não preciso amar a nova Katerina — Sem dizer mais nada, apliquei nela mais outra dose forte de verbena. Mas, de soslaio e antes que ela desfalece outra vez, pude ver a dor em seus olhos.

Então, era isso. Ela estava definitivamente fora dos meus sentimentos e era libertador. É sufocante e exaustivo amar alguém que está sempre em busca de benefício próprio e não se importa nem um pouco com o bem estar do outro.

Corri até meu quarto no andar de cima e preparei alguns pertences na mala pequena. Não precisaria de muita coisa para uma estadia curta. Pelo menos eu tinha a esperança de Niklaus conseguir logo o contato com a bruxa. Já estava vestido apropriadamente para uma viajem, então já estava bom pra mim. Mas, antes de ir, faltava apenas mais um dever a cumprir.

Dirigi rapidamente até a casa dos Salvatore. Eu precisava me preparar para os próximos passos e não tinha tempo a perder. Enquanto caminhava até à entrada, me peguei imaginando que só estava ali com toda essa generosidade de salvar a doce Elena se não fosse pelo impacto que isso teria em Caroline. Rapidamente, desviei meus pensamentos dela.

Bati na porta e esperei impacientemente que alguém viesse logo atender.

— Olha só, se não é o anfitrião mais velho do mundo — Damon me olhava de cima a baixo — No que posso ajudar, senhor?

— Estou numa missão de paz. E de salvação também.

— Stefan, venha aqui rápido, Jesus veio nos absolver dos nossos pecados — Revirei os olhos enquanto ajeitava a gola da minha camisa. Às vezes Niklaus não estava errado eu silenciar esses boçais. Era uma ultraje a minha inteligência ficar aqui conversando com essa gente menos favorecida de classe. O outro irmão apareceu atrás do primeiro.

Estendi a mão e mostrei o frasco.

— O que é isso, Jesus?

— A resposta para as suas preces. Isso deve acordar Elena — Eles se entreolharam sérios — Niklaus encontrou um elixir na biblioteca do Shane. Aplicamos em Katerina Petrova e ela acordou. Esse é o sangue dela. Se não funcionar, procurem no depósito do professor se há mais algum por lá.

— E se for um truque seu? Se não for acordar Elena, mas matá-la? — Damon deu um passo à frente. Eu sorri ameaçadoramente. Já estava no meu limite de paciência.

— Acredite, eu poderia matá-la agora mesmo. Eu deveria matá-la, você sabe. Mas, se essa fosse a minha intenção, me explique o que eu estaria fazendo parado aqui na sua porta e estendendo um favor se eu posso simplesmente arrancar a cabeça de vocês em alguns segundos? — Stefan pegou o frasco da minha mão — Então, Damon, faça um favor a você mesmo e não cruze o meu caminho. Eu posso ser menos generoso hoje que o de costume e você pode acabar com o coração fora do seu peito.

Sem esperar por qualquer reação, dei às costas aquele lugar. Estava irritado demais para ser um típico gentleman. Agora, precisava me encontrar com Niklaus. Mandando uma mensagem para Rebekah pedindo que não deixasse Katerina sozinha por muito tempo, dirigi apressadamente até o aeroporto.

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Klaus

A caminho do aeroporto tomei uma decisão inesperada. Eu sentia que esse era o certo a se fazer, embora soubesse que encontraria muita resistência da parte de Elizabeth Forbes. Peguei um trajeto já conhecido, um que tracei diversas vezes, mas por motivos diferentes e melhores que esse. Cheguei na ruazinha residencial e bem cuidada, com casas que pareciam pertencer a famílias felizes e comuns.

Peguei os pequenos degraus da escada que levavam à branca e bonita porta de entrada e parei. Inspirei fundo e, após algumas batidas de leve, esperei impacientemente ser atendido. Pelo amplo vidro da porta pude ver Liz virando no corredor com lentidão; notoriamente sem energia alguma. Desejei mais fortemente que meus planos fossem bem sucedidos. Muita coisa podia dar errado, o sucesso dependia de muitas variáveis. Quando ela virou no Hall de entrada da casa, parou instantaneamente num choque ao me ver. Sorri o mais gentil que eu sabia fazer, mas ela ainda assim me olhava com surpresa e desconfiança. Quem poderia culpá-la?

— Você já foi convidado uma vez. Imagino que se você quisesse entrar, já teria entrado – Ela falou friamente.

— Sou um vilão de boas maneiras. Espero novamente pelo seu convite e cortesia – Respondi com certo sarcasmo, mesmo não propositalmente. Ela apenas balançou a cabeça em confirmação e eu abri a porta. Caminhei lentamente até ela para não assustá-la. Ganhar a confiança dessa mulher era uma tarefa quase impossível. E o que ela poderia fazer para me impedir de entrar se eu realmente quisesse atacá-lá? Mas, desrespeita-la ou até mesmo feri-la estava fora de cogitação na minha cabeça. Eu ansiava pelo seu suporte, por pelo menos uma indiferença, desde que não fosse ódio. Eu não precisava dela para nada, não devia nada a ela. Mas, eu sentia que precisava fazer isso, dizer essas coisas para ela, contar meus planos e lhe proporcionar um fio de esperança em ver a filha novamente. É claro, eu fazia isso por Caroline. Somente por ela.

— O que você quer aqui? O que veio me pedir? Deve estar desesperado para se rebaixar assim. Você não estaria aqui se não se sentisse obrigado – Direta. Aprecio isso em Liz Forbes. Ela estava muito abatida, com o rosto inchado, os olhos vermelhos e os cabelos loiros um pouco desgrenhados. Apesar de não estar em suas melhores condições, suas feições me lembravam muito da filha, me causando ansiedade, desconforto e certo reboliço no estômago. Olhar para ela me fazia ter a sensação de que seria olhar para uma Caroline mais velha. E ter uma figura tão parecida com a dela e não tê-la aqui fazia meu coração se espremer de angústia ainda mais.

— Não sei ao certo até que ponto as informações chegaram até você – Eu disse, tentando afastar meus pensamentos.

— Acho que chegou o bastante. Que vocês esconderam a verdade, mentiram o tempo todo para mim. Até mesmo Caroline – Ela falava calma, mas visivelmente resignada — Ela esteve morta esse tempo inteiro, apenas andando por aí porque o véu estava abaixado. É, acho que chegou o suficiente de informação. Eu nem pude me despedir – Ela terminou ressentida.

— Ela não se foi para sempre, Liz — Tentei ser objetivo, afastando para longe meus sentimentos, mas estava difícil. Ela abaixou a cabeça e a balançou em negativa. Ela parecia dividida entre criar esperanças e ser realista.

— O que quer dizer com isso? — Ela perguntou com a voz trêmula.

— Eu vou destruir o Outro Lado. Vou trazê-la de volta, Liz. Marque minhas palavras — Ela ficou uns segundos me encarando perplexa, piscando desnorteada. Até que inspirou profundamente antes de responder, me olhando com desconfiança.

— Não estou reclamando, não entenda dessa forma. Quero a minha filha de volta. Mas, me pergunto: Por quê? Por que você quer fazer isso? Destruí-lo não seria a mesma coisa que trazer todos à vida também? Inclusive, eu suponho, até pessoas cuja presença seja um inconveniente? Não sou idiota. Sei como isso funciona. Você tem interesses além.

— Apenas trazê-los de volta. Ela e meu irmão, Kol – Falei fingindo frieza e imparcialidade. Mas, como eu poderia? Eu estava fingindo que não me importava, mas só a minha presença ali e essa conversa já me condenavam. Além disso, aos olhos dos estranhos, destruir o Outro Lado apenas para trazer duas pessoas de volta era loucura, não fazia o menor sentido. Realmente eu devo ter perdido os últimos resquícios da minha sanidade.

— Mas, por quê? O que você ganha com isso? E você nem é do tipo familiar. Pelo o que sei, você e seus irmãos estão sempre em guerra uns com outros – Ela falou incrédula.

— Isso é verdade. Meus irmãos e eu temos nossos problemas. Mas, nos queremos bem, no fim das contas – Me senti soar ridículo. Não costumava falar tais coisas. Muito menos para estranhos. Muitas dúvidas estavam expostas na sua expressão. Mas, eu vi a compreensão se formando em seu rosto. Ela já sabia a resposta verdadeira. Ela sabia que não se tratava apenas do meu amor incondicional por meus irmãos traidores. Liz não era boba. Uma mulher com sua vivência e inteligência não deixaria passar tais detalhes.

— Nunca entendi quando você apareceu do nada na minha porta querendo salvá-la. Não questionei. Afinal, minha filha viveria. Mas, nunca deixou de ser no mínimo intrigante. Agora, tudo parece fazer sentido, sob um determinado ponto de vista. Mas, minha filha não é a mulher para você, Klaus. Tampouco você é homem para a minha filha – Ela disse secamente.

— Vamos deixá-la voltar e decidir por si própria se eu sou ou não – A desafiei. Ela que não me irritasse agora.

— O quão delirante você é? Você é terrível. Caroline nunca vai se esquecer do que você já fez aos nossos amigos. Devo te lembrar quantos deles você já matou? Ou infernizou? Você realmente acha que ela vai deixar isso para trás?Jenna Gilbert? Carol Lockwood? Você se lembra delas?

— Pessoas cometem erros – Falei controlando o meu gênio e ferido por suas palavras. Ela tinha razão, eu sabia. Embora eu não me arrependesse nem um pouco dessas duas últimas.

— Matar por prazer não é cometer um erro, é sinônimo de uma alma negra, sádica, estragada. Desse ponto não existe mais retorno.

— Sua filha pensa diferente – Nunca me esqueceria de suas palavras. Foi quando comecei a achar que Caroline poderia me aceitar; "Qualquer um que é capaz de amar é capaz de ser salvo".

— Então, ou não conheço mais minha filha ou ela enlouqueceu completamente – Ela disse séria, cruzando os braços e me encarando com intensidade.

— Não me provoque, Liz. Você não está em posição de fazê-lo – Não queria dizer isso, mas as palavras escaparam como água que jorra de fonte.

— Ou o que? Vai me matar? Não vai trazer a minha filha de volta? Não tenho mais nada a perder – Ela controlava a raiva tanto quanto eu. Se ela pudesse, me matava naquele instante, eu podia ver em seus olhos as chamas ardendo. Pensei que ela estaria mais branda pelo "luto". Mas, pelo contrário. Parece que ele foi um combustível para a sua ira contra mim. Ela me culpava legitimamente pelo o que aconteceu.

— Eu não vim aqui para travar uma briga com você. Vim para ajudar, Liz – Falei secamente – Só queria que você soubesse dos meus planos. Você tem esse direito.

— O que você está fazendo não apaga o que você fez de ruim – Ela dizia calmamente, mas com seus olhos em chamas – Você não vai sair impune. Guarde você minhas palavras.

Dividido entre a raiva e a diversão, a encarei rígido, com as emoções extravasando. Quem ela pensa que é para me ameaçar? Pior, o que ela pensava que poderia fazer contra mim? Essa humana fraca e sem poder algum.

— Boa noite, Liz – A olhei intensa e significativamente, sugerindo silenciosamente que ela não travasse uma guerra comigo, porque ela iria perder. Destruir a mãe de Caroline não era algo que eu desejasse fazer. Mas, se ela entrasse no meu caminho, iria dificultar muito para o seu lado e para o meu. Pois, na verdade, eu jamais seria capaz de tocar em fio de seu cabelo loiro, pois Caroline me odiaria para sempre, sem chance alguma para o perdão.

Dei-lhe as costas e saí apressadamente da casa. Tinha muito o que fazer, coisas mais importantes do que ficar discutindo com essa mulher. Liz não era encrenqueira desse jeito. Não que eu a tivesse conhecido a fundo, mas o pouco que interagi com ela pude ver que era racional, inteligente e esperta. Porém, pude reconhecer esse gênio, o mesmo da filha, que poderia ser um pé no saco se decidisse ser. Bem, não iria me preocupar com isso agora. Lidaria com Liz mais tarde, caso essa hora chegasse.

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(***)

O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece.

Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal;

Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade;

Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

O amor nunca falha [...]

1 Coríntios 13:4-8

Notas finais
Entao, meus Klaroliners. Espero que tenham gostado e apreciando a leitura. Por favor, não deixem de comentar. Se vocês pudessem ver o sorriso besta que fica na minha cara sempre que leio o comentário, vocês fariam centenas para mim! Hahaha Entao, até o próximo capítulo. Espero não demorar tanto haha Amo vocês!