Scarlet Dynasty - Klaroline

24 The Destiny Is At Your Door


Notas iniciais
E aí, meus Klaroliners! Prontos para mais um capítulo gigante? Esse foi o maior de todos até agora e com certeza serei banida do site depois disso hahaha. Como podem ver, seria inviável eu ter publicado um capítulo com mais de 50 mil palavras, por isso veio fracionado em três e essa foi a terceira parte. Dessa vez, fui obrigada a postar pelo celular, pois não estou com meu computador por perto. Foi um sacrifício. Estou desde ontem tentando postar e a edição do word não entrava aqui de jeito nenhum. No fim, tive que redigir o capítulo todo para ficar do jeito que eu queria. Se os erros persistirem, consertarei ao longo da semana. Enfim, espero que gostem. Boa leitura ;)

Caroline

Respirei fundo e atravessei a pequena calçada revestida da grama bem cuidada que dava boas vindas à casa. Entrei direto a passos firmes e chamei por Stefan. Ele apareceu no segundo andar, encostado na cerca de madeira.

— Até que enfim. Eu já ia atrás de você. Por que não me atendeu? — Ele falou agitado enquanto descia a escada, mas percebeu meu semblante anuviado — O que foi? Você não ia para a casa dos lunáticos Originais? Ainda bem que voltou a si e não foi. Eu estava quase indo te convencer a ficar. Ainda não entendi o que te deu na cabeça — Ele parou bem de frente pra mim, cruzando os braços. E sem perceber, minhas palavras saíram.

— Lexi – Minha voz soou fraca. Pigarreei tentando limpar a garganta — Ela estava me escoltando até Rebekah — Ele franziu o cenho, me esperando terminar — Mas, aquelas bruxas, do massacre...- Parei de falar na esperança de que não precisasse terminar, mas Stefan só contrariou as feições com impaciência – Elas tentaram nos matar, fizeram nossos carros capotarem e Lexi... estava bem no meio de uma explosão...- A compreensão se formou lentamente em seu rosto, indo de apenas preocupado para estado de choque assombroso. Ele arregalou os olhos e andou para trás, se escorando na parede cheia de quadros velhos.

— Onde ela está, Caroline? – Ele sussurrou sem energia. Eu apenas abaixei e balancei a cabeça negativamente, enquanto começava a chorar. De repente, ele pegou uma das cadeiras estofadas e jogou na janela. O objeto atravessou facilmente a camada grossa de vidraça colorida. Virei e cobri meu rosto com os braços para me proteger dos cacos de vidro que se quebravam num estrondo e se espalhavam para todos os lados. Senti alguns cortes arderem, mas ignorei. Stefan sentou no batente que dava para a sala de estar e começou a chorar convulsivamente. Eu queria me aproximar dele, mas estava presa no chão, pois meu corpo se recusava a se mexer pelo choque. Meu coração estava apertado de angústia e de culpa, fazendo meu corpo se arrepiar e tremer um pouco.

— Mas, que porra está acontecendo aqui? — Damon apareceu correndo, sendo seguido por uma Elena espantada. Ela se apressou até Stefan e o segurou pelos ombros, tentando fazê-lo olhar para ela. A sua dualidade sempre seria um problema pra mim. Ela nunca seria capaz de escolher de verdade entre os irmãos, por mais que recentemente tivesse declarado seu amor ao asqueroso Damon.

Barbie, o que você fez com meu irmão? — O mais velho se aproximou ameaçadoramente de mim — Por que Tefinho está tendo uma síncope?

— Lexi morreu — Stefan disse com a voz embargada, olhando diretamente pra mim — No meio de uma briga com bruxas — Damon olhou pra ele piscando aturdido até que se virou pra mim.

— Não se pode matar o que já está morto. Mas, desembucha logo, blonde. Eu sei que você está bem a par do que está acontecendo, Liz deixou isso claro. Por que temos mortos vagando pela cidade? A bruxa louca milenar levantou o véu semanas atrás.

— Não estão mais mortos – Disse resignada. Damon paralisou de olhos arregalados. Elena me encarou pasma também. É inevitável, chegou a hora de dizer. Mentir ou maquiar a verdade não daria em nada — Klaus destruiu o Outro Lado. Estamos todos vivos de novo. Não existe mais purgatório eterno de contenção sobrenatural – Stefan continuou de cabeça baixa, atormentado demais para esboçar mais reações.

— Por que ele faria isso? Por Kol? — Elena balançava a cabeça horrorizada.

Nãaao... — Respondeu Damon com os olhos pregados em mim, me analisando. Ele mantinha um pequeno sorriso debochado de lado, mas seus olhos nunca estiveram tão frios. Então, Stefan me olhou com o mesmo choque que os outros, parecendo ver além do que eu dizia — Ele fez isso por você, não foi? — Pude detectar reluzindo o brilho malicioso nos olhos de Damon — Aquele maldito tacou o zaralho em tudo só por você, como ele sempre faz. Ele não olha pra trás quando se trata de você, não é, Barbie? E no meio dessa obsessão asquerosa ele está sempre fudendo com a nossa vida. Isso explica muita coisa do comportamento suspeito dele nas últimas semanas. Ele simplesmente sumiu. Lembra, Stefan? Soubemos que ele estava enfurnado na biblioteca do Shane cheirando a catinga do professor e demos glórias aos céus por isso. Mas, nada do que interessa a ele pode ser bom para o resto da humanidade. Ficamos curiosos; o que tanto ele faz lá? Qual o planinho sujo dessa vez? E depois o filha da puta mais velho apareceu com uma poção mágica de sangue para Elena...

— Só não lembro de você ter reclamado do inconveniente da obsessão dele por mim quando era para te beneficiar — Cruzei os braços encarando ele — Quantas vezes vocês me usaram, me colocaram na rota do perigo com ele quando era para ajudar a Elena?

— Ta de sacanagem com a minha cara? – Damon arregalava os olhos que nem um alucinado.

— Não. Só pode quando é para vocês – Apontei acusadoramente. A onda de raiva que se apoderou de mim suprimiu meu choro.

— Estamos falando da porra do Outro Lado! — Damon gritou, sacudindo os braços num espetáculo — Estamos totalmente fudidos. Isso vai muito além de apenas balançar os peitos para distraí-lo, blonde. Nos colocou numa grande enrascada apenas para salvar o seu pescoço — Damon me encarava com um brilho assassino nos olhos. Se ele pudesse, me matava naquele instante, eu podia ver, sentir. E eu também adoraria acabar com ele de vez — Impressionante como ele fez tudo isso só para trepar com você! Guerra pela buceta de ouro de Caroline Forbes!

— Pare, Damon! — Stefan se levantou, prevendo o caos que se instaurava. Meu rosto estava lívido e quente de raiva. Minhas presas saíram e eu estava no estopim do round 2 — Aposto que ela não pediu a ele para fazer isso. Sabemos que Klaus faz o quer, completamente inconsequente – Stefan me olhava como se pedisse uma confirmação. Mas, eu vi certo ressentimento em seus olhos verdes e no seu tom de voz. Não respondi, só mirava em Damon.

— Pode ser. Mas, não estou ouvindo ela se lamentar de nada. Você gostou, não foi? Vai negar até o fim, mas eu sei que você gostou. Você está doida para trepar com ele, se já não estiver dando a rodo.

Seriously?! Se você acha que estou satisfeita que LexO tenha morrido ou que estão em perigo por minha culpa, então você é pior do que eu imaginava! — Ele tentou se aproximar mais de mim, mas Stefan se colocou na frente, segurando o irmão pelo tronco.

— Eu sou o pior? Como posso ser o vilão agora? Você sempre distorce tudo o que tem a ver comigo.

— Só acho que você é um hipócrita de primeira linha! — Dessa vez eu também gritava — Klaus poderia ter me matado todas às vezes que vocês me puseram para cercá-lo. E para você estava tudo bem. Ele era o maldito do híbrido Original e você não se importava com isso, se era meu pescoço na reta e não o seu.

— E pelo visto eu estava certo em apostar no fraco dele por você. Eu já não me arrependia disso antes. Agora menos ainda. Antes ele tivesse arrancado a sua cabeça, não estaríamos nessa situação — Eu estava tocando em pontos sensíveis, podia ver em sua cara lívida.

— Então, você admite que não estava nem aí pra mim todas às vezes que me colocou em perigo apenas para salvar a Elena?

— Eu nunca pedi que fizessem isso por mim, Caroline. Eu nunca concordei que os outros se arriscassem dessa forma. Todos aqui sabem disso. Você também deveria saber — Ela se aproximou falando visivelmente ofendida. Bonnie apareceu no corredor, surpreendendo a todos e nos olhando espantada. Fiquei feliz em revê-la, algo de bom nesse mar de intrigas. Após o choque, ela sorriu pra mim de relance e veio me abraçar. Aquele aperto confortável era o que esperava encontrar de todos após semanas morta. Mas, o caos era o meu anfitrião consagrado. Olhando para Bonnie, lembrei de mais injúrias que eles causaram. Nem meu curto episódio de amor fraternal foi o suficiente para interromper a discussão.

— Mas, fizeram – Me virei de volta para Elena — E você nunca impediu. Não reclamava dos benefícios que vinham para você, no fim das contas — Ela pareceu magoada com o que falei, mas não retrucou. Então, continuei, me voltando para o desgraçado — Você matou a mãe da Bonnie, Damon, apenas por Elena. Transformou a mulher numa vampira mesmo sabendo a repulsa que bruxas sentem pelo vampirismo. Ela perdeu seus poderes e foi obrigada a viver se odiando para sempre. Não se importou nem com a Bonnie ou em destruir a vida dos outros. Matou a Lexi para que o Conselho não descobrisse que você era o vampiro assassino em série de Mystic Falls. Eu poderia ficar aqui a noite toda dando exemplos de todas às vezes que vocês colocaram a vida de alguém em jogo apenas por interesses próprios. E eu também não pedi para que Klaus me salvasse, Elena – Olhei para ela, tentando controlar o ressentimento claro — Mas, cá estamos nós, tendo que viver com as consequências das decisões dos outros, como sempre. Só que agora, Damon, não são as suas decisões e por isso te deixa louco. Acho que talvez devamos começar aprender a não girar em torno do triângulo fechado que vocês formaram, pois no fim das contas, vocês só querem se proteger. E eu sempre de lado. Nunca sou uma prioridade para vocês. Nem eu e nem os outros — Olhei para Stefan — Você me salvaria no lugar da Elena ou de Damon, Stefan? Você diz que sou sua melhor amiga, quase irmã. Você faria essa escolha caso ela viesse até você e não tivesse saída? — Ele me olhou calado antes de abaixar os olhos e meu coração rachou um pouco — Bem, então a nossa conversa está acabada — Dei às costas, mas Elena se colocou no meu caminho.

— Isso não é uma competição, Caroline. Você está sendo muito egoísta e injusta agora. Nunca deixamos de te proteger ou de lutar por você — Elena parecia verdadeiramente irritada.

— O problema é que se precisassem me sacrificar para se safarem, fariam num instante. Não foi isso que aconteceu com a Bonnie várias vezes? Ela sempre teve que perder algo para que você pudesse ser feliz, Elena. A última coisa que ela perdeu foi a própria vida. Então, é injusto que me julguem por alguém ter me colocado em primeiro lugar só porque não foi tudo para você.

— Você está parecendo uma vagabundazinha invejosa – Damon me encarou bem de perto — Eu sempre achei você uma fútil idiota, mas agora a futilidade está subindo à sua cabeça perigosamente. Está se achando muito com a atenção que o híbrido maluco tem te dado — Damon estava a centímetros de mim, apenas sendo segurado por Stefan, enquanto Bonnie me agarrava pelo braço.

— Quando vocês se protegem, não são vistos como egoístas ou fúteis invejosos, mas quando eu faço o mesmo, eu sou — Meu rosto formigou e pude sentir minhas presas voltando.

— Acontece, Barbie, que eu sou o babaca da história. Todos sabem. Todos esperam as escolhas ruins vindo de mim, esperam que eu faça o trabalho sujo. Até porque alguém tem que fazer, alguém tem que ter o culhão para tomar as decisões que ninguém tem coragem de tomar. E não é por isso que você está livre para fazer a merda que quiser.

— Ah, é assim que você se explica para se sentir melhor com a bosta de pessoa que você é? – Me aproximei mais dele.

—Estamos todos no limite agora. Não vamos nos exceder — Bonnie levantou as mãos na nossa direção, em posição de defesa.

—Você está tentando desviar do assunto e justificar as atrocidades do seu namoradinho psicopata!

—Não estou! Mas, não posso voltar no tempo e desfazer. E nem posso decidir as ações dos outros. Então, vá até ele agora e o obrigue a mudar tudo só porque você quer.

— Talvez eu vá – Ele elevou a voz — Ou talvez eu mate você só para ele aprender uma lição! — Eu ia avançar nele com minhas presas à mostra. Ele reagiu e colocou seu vampirismo e toda a sua raiva pra fora. Quando fizemos menção de partirmos para o ataque, Bonnie foi mais rápida. Ela lançou um de seus feitiços e nos jogou para longe um do outro. Eu caí no chão derrapando com o tapete, enquanto ouvia o estardalhar de objetos se quebrando. Mesmo do chão, eu continuei. Estava totalmente virada hoje. Era a segunda vez no mesmo dia em que esse babaca me provocava assim. Pior dia para Damon Salvatore se meter no meu caminho.

— Você está tão nervoso assim porque tem muito a temer — Me levantei ofegante, afastando os cabelos da minha cara, enquanto Stefan e Bonnie ficavam do meu lado. Elena se colocava na frente de Damon — Você sabe muito bem o contigente de inimigos que virão atrás de você. Nesse momento, os Originais podem ser o menor dos seus problemas. Não está preocupado com o bem-estar dos outros. Só se importa com a sua bunda.

— Eu vou adorar o dia em que você vai quebrar a cara com o filha da puta Original – Ele resmungou entredentes.

— E eu vou adorar o dia em que ele vai quebrar a sua cara. Eu vou sentar e assistir.

— Já chega! — Stefan olhou direto para o irmão — Temos que nos concentrar no que vem a seguir — Damon não se mexeu, mas não tirava os olhos de mim. Então, Stefan se virou para me encarar — É possível desfazer? — Ele perguntou assombrado.

— Não sei. Não tenho muitos detalhes de como Klaus fez isso. Só que ele conseguiu uma bruxa poderosa em outra cidade — Falei com dificuldade em buscar o ar. Não iria contar tudo. Eram questões pessoais do Klaus e seria muita invasão e falta de lealdade revelar seus segredos.

— Então, todos estão de volta de verdade, não como fantasmas? — Elena perguntou, certamente pensando na sua família. Afirmei com a cabeça.

— E dessa vez, a morte é para sempre. Não existe mais um purgatório sobrenatural para concentrar os mortos.

— Meus poderes estão de volta — Bonnie falou – Deve significar que estamos vivos. Então, vamos nos concentrar naquilo que não é tão ruim assim – Ela olhou sugestivamente ao encarar Damon – Caroline e eu estávamos mortas. Agora estamos bem. Isso não importa?

— Claro que importa, Bonnie – Elena disse.

— Vicky, talvez Anna, até mesmo a minha vó...poderemos revê-los – Ela disse com os olhos marejados – A sua mãe biológica também, Elena – Ela sorriu de canto.

— Menos a Jenna – Elena respondeu triste. Fiquei arrepiada. Estava aí o maior crime de Klaus contra nós – Esther me disse que ela não estava do Outro Lado, pois encontrou a paz e seguiu em frente...

— Algumas semanas atrás eu pensava que a volta dos mortos poderia ser o pior a nos acontecer, mas o universo sempre encontra um jeito de se superar. Então, vou aproveitar o tempo que ainda tenho com vocês – Bonnie sorriu resignada e se encostou em mim. Agradeci a ela silenciosamente, apenas com o olhar. Ficamos calados por um tempo até que Stefan se pronunciou.

— Onde está Lexi? – Me indagou.

— Ela ficou no carro que pegava fogo — Minha garganta secou — Eu não pude fazer nada — Olhei suplicante pra ele, na esperança de que não me odiasse — E minha mãe se machucou. Eu precisava ajudá-la.

— Ela vai ficar bem? – Stefan parecia afobado, olhando para a porta.

— Sim. Está no hospital.

— Devemos visitá-la — Bonnie olhou para Elena, que concordou.

— Mas, e Lexi? – Meu melhor amigo se aproximou de mim.

— Está perto da praça da Trívia. O fogo ou o alvoroço devem te mostrar o caminho até os carros — Falei olhando para o chão. Sendo assim, Stefan saiu numa disparada vampírica. Eu fiquei parada encarando o vazio que ele deixou ao sair. Ele não notou que eu estava de volta após um mês morta? Bonnie me segurou pelos ombros, me despertando dos devaneios.

— Você está bem, Care? — Minha amiga me abraçou e me senti bem pela primeira vez naquele dia.

— Vou ficar, prometo.

— Eu sei que você vai. Mas, quer alguma ajuda?

— Eu deveria voltar para a minha mãe. E depois levá-la para longe.

— Você ainda vai para a casa dos Originais? — Elena falou incrédula.

— Agora mais que nunca que eu preciso — Damon bufou e, para meu alívio, saiu da sala, xingando tudo o que via pela frente. Segui suas costas com o olhar. Nunca esqueceria o que ele fez comigo e o dia do acerto de contas chegaria mais cedo ou mais tarde.

— Tem certeza de que é uma boa ideia? — Bonnie trocava olhares preocupados com Elena.

— Não tenho certeza de nada só que em breve minha mãe vai ficar de novo na rota da morte se não for escondida e eu não sei onde mais poderia ser.

— Eu posso ser útil. Não estou mais limitada pelos espíritos.

— Normalmente é você quem salva o dia, Bonnie, mas temo não ser o suficiente dessa vez.

— Fazemos tudo por quem amamos, mesmo o inimaginável. Mesmo que seja demais para entender ou digerir. E isso do Klaus...Desculpe, Caroline. Não me parece algo que ele faria. Ele deve estar atrás de alguma coisa importante na sua busca pelo poder e pela desgraça do mundo – A olhei um tanto chateada, mas tentei esconder. Eu não deveria expressar desapontamento por não ser o alvo de interesse do híbrido Original, mesmo me correndo por dentro pela possibilidade de Klaus ter outros interesses, mas Bonnie notou meu desconforto mesmo assim — Talvez eu esteja errada. Talvez ele realmente se importe com você, mas eu não apostaria nisso. Mas, pensando bem nas coisas que ele andou fazendo quanto a você... — Ela parou ao notar o olhar de reprovação de Elena. Bonnie mudou imediatamente de assunto – Vamos logo até a sua mãe. Não vamos deixá-la lá sozinha – Eu ia falar de Kol, até Elena segurar meu ombro delicadamente.

— Depois encontro vocês no hospital. Preciso falar com ele – Ela apontou para o interior da casa. Balancei a cabeça e revirei os olhos quando Elena deu às costas. O intragável Damon vinha em primeiro lugar na cabeça oca da minha amiga. Bonnie me puxou para fora da casa. Quando chegamos na calçada, ela me parou e ficou de frente pra mim com a expressão séria.

— Eu não disse nada lá na frente da Elena para não incitar mais brigas. Mas, ficar com o bad boy geralmente é a pior escolha. Você vê o problema que enfrentamos com Elena todos os dias e Klaus é uma versão potencialmente piorada de Damon.

— Eu não estou saindo com Klaus – Fiquei indignada com a comparação. Ele nunca seria tão imundo quanto Damon.

Ainda. Dadas as circunstâncias e os acontecimentos recentes, é só uma questão de tempo — Eu ia retrucar, mas ela me interrompeu — Eu conheço você, Caroline. Você já está totalmente deslumbrada pelo gesto dele, sendo verdadeiro ou não. Você vai para a casa dele como se não fosse nada demais. E, sinceramente, me preocupa que ele seja capaz de destruir o Outro Lado por você. O que mais ele estaria disposto a fazer só para chamar a sua atenção? Pior...do que você seria capaz por ele? — Bufei consternada, mas não neguei nada — Às vezes somos levados pelo caminho da escuridão sem notarmos. Espero que você fique alerta a qualquer possibilidade de mudar a sua essência que essa relação estranha que você tem com ele seja capaz — Eu não falei nada. Era o segundo aviso que eu recebia hoje, por pessoas completamente diferentes — Mas, no fim das contas, quero que você saiba que eu vou estar aqui por você quando precisar. Estou muito feliz de estarmos de volta. Espero que permaneça assim. Os outros vão entender... com o tempo. A nossa presença deveria valer mais que qualquer ameaça.

— Alguém compreende, obrigada. Mas, acho que só estão em choque – Falei quase chorando, tentando justificar meus amigos para não me ressentir mais ainda. E era só o que eu precisava ouvir. Não precisava de mais julgamentos. Abracei ela mais uma vez — Eu definitivamente vou precisar de uma ajuda sua agora.

— Diga — Ela falou animada.

— Preciso que devolva um carro – Bonnie enrugou a testa e eu apontei para o Sedan prateado. E nas pequenas coisas, eu ainda era eu mesma.

— Às vezes, Caroline, você é tão esquisita. Da onde você tirou esse carro?

— Ah, longa história. Eu te conto no caminho.

Conversamos sobre todas as desgraças recentes até que o assunto cessou, após a nuvem densa do medo pairar sobre as nossas cabeças. Pelo retrovisor, eu percebia de soslaio que Bonnie de vez em quando me olhava preocupada, mas ficava quieta.

Enquanto ela dirigia, eu devaneava nos meus pensamentos. Mesmo depois de todos os avisos, das tretas sem fim, eu ainda não conseguia me sentir culpada ou receosa por gostar de ser apreciada por Klaus ou ter medo dele. Mais que isso. Eu apreciava ele também é estava ansiosa para revê-lo.

Revivi mentalmente a nossa última conversa na presença um do outro. Já estava mais do que na hora de ele retornar a Mystic Falls e eu dizer tudo o que estava engasgado.

Isso me fez pensar no restante do elenco da minha vida. Todos eles concentrados nos seus interesses e nem mesmo demonstraram felicidade com o nosso retorno. Estava esperando uma recepção mais calorosa do que gritos e acusações. Naquele dia na clareira, eu sabia que seria meu fim. Poder reencontrar minha família e amigos era o ápice da minha alegria.

Encostei a cabeça no banco do carro cansada demais para apenas um dia de volta ao mundo dos vivos e quase adormeci quando Bonnie me cutucou.

— Vai ficar aqui mesmo? — Ela olhou em volta preocupada.

— Sim. Deixe o carro naquela oficina perto da igreja. Quando eu sair daqui, te busco e te levo de volta até seu carro.

— Tá bem. Mas, não estou me importando com isso no momento. O que veio fazer nesse lugar?

— Preciso de umas coisas que estão aqui. Lá dentro eu estou segura. Ninguém vai ter coragem de entrar aqui — Saí do carro indo até à porta da mansão dos Mikaelson — E não vou demorar, prometo — Ela contorceu a cara, mas não discutiu. Peguei as bolsas que guardei no Sedan e acenei em despedida para Bonnie.

Quando entrei, o silêncio fantasmagórico era a minha única companhia. Como a porta da garagem estava fechada, eu precisava acessar o cômodo por dentro da casa. Andei fazendo barulho no assoalho e era um tanto assustador. Ao passar pelos corredores vazios, notei alguns quadros que nitidamente foram pintados por Klaus. Sorri, imaginando a expressão entusiasmada que ele fazia sempre ao se referir aos seus preciosos desenhos. Eu reconhecia bem o seu estilo, pois muitas vezes ele me obrigou a olhar para as suas estimadas pinturas enquanto tagarelava por longos minutos sobre elas. E eu tinha que admitir, eram muito boas. Um dia eu perguntaria a ele se fez alguma escola de arte ou algo assim, pois ele utilizava técnicas que iam muito além de puro talento. E isso me deixou curiosa. Eu sabia que ele tinha um ateliê, mas nunca tinha visto. Era intromissão demais ou falta de educação dar uma pequena espiada? Será que ele sentiria desconforto em saber que eu bisbilhotei a sua forma mais profunda de se expressar? Dividida entre a curiosidade e a dúvida pela culpa, vasculhei alguns corredores sombrios. Seria uma baita sorte encontrar o cômodo bem à vista, até porque eu não ficaria procurando muito. Tinha mais o que fazer. E mesmo com esse pensamento, peguei as escadas, largando as bolsas nos degraus. Meus pés agiram antes mesmo de receberem meu comando consciente. Talvez ele preferisse que fosse no segundo andar, mais escondido de olhos curiosos como os meus. Como alguém muito reservado e solitário, duvidava muito que ele deixaria seus impecáveis e estimados quadros tão vulneráveis a intrusos. A casa tinha um jardim de fundos. E Klaus gostava da natureza. Não me surpreenderia se o ateliê fosse de frente para o primoroso verde do quintal. Abri algumas portas brancas e polidas na esperança de encontrar o tão exímio estúdio, onde Klaus guardava parte dos seus pensamentos e sentimentos. Eu queria ver alguma coisa sobre as suas confissões em formas e cores. Para quem prestasse atenção, poderia ser muito revelador. Eu estava quase desistindo, pois talvez fosse o universo me dando a chance de não me intrometer na intimidade de Klaus sem um pingo de respeito, até que eu achei a droga do quarto.

Entrei nele lentamente, olhando em volta. Senti um arrepio estranho, que beirava a nervosismo e a empolgação simultânea. Telas e mais telas estavam penduradas pelas paredes, enquanto outras ainda estavam nos cavaletes na sua fase de produção. Outras telas em branco jaziam bem organizadas e empilhadas num cantinho, sobre uma prateleira dourada. Algumas pinturas pela metade, outras um pouco mal acabadas. Pincéis e latas de tinta espalhadas por todo o canto. Não era tão organizado quanto eu esperava, mas talvez fosse impossível manter um ambiente muito limpo se tratando de um quarto cheio de tintas. Mas, Klaus era tão exigente com as suas coisas que eu imaginei ser a sala do trono do Rei. Até que me deu um estalo e lembrei. Já estive naquela sala, mas me passou totalmente despercebido pelo caos daquele dia. Foi onde encontrei Klaus e Mikael se estranhando como dois animais prestes a se matarem. E naquele mesmo dia conheci um pouco mais da sua história e me embrenhei mais nas tretas pesadas de família. Alguns destroços de cavaletes quebrados estavam derramados pelo chão misturados ao colorido das tintas e o caos daquele dia explicava bem as bagunças inconsistentes com a marca registrada de Klaus. Observei os quadros nas paredes, um mais bonito que o outro e sorri. Pelo menos esses pareciam seguir um padrão de organização bem arquitetado, mais parecido com o estilo do dono. Olhei mais atentamente cada um deles e fui seguindo a trilha com os olhos até o final quando um especialmente me chamou atenção. Estava trás da mesa cheia de artefatos de arte, no chão e inclinado ao se recostar na parede de tom branco.

Peguei o quadro e olhei mais de perto, mantendo na altura dos meus ombros.

Era o próprio Klaus num quarto vazio. Ele estava debruçado sobre a única e pequena janela circular toda ladeada de grades, de costas para a minha perspectiva, enquanto segurava fortemente os ferros da abertura redonda. Ele parceria olhar a Lua que estava erguida bem de perto e grande o bastante para se destacar não só na moldura da janela, mas também formando uma grande sombra elíptica entrecortada em quadradinhos no chão do quarto. Não tinha mais nada no quarto escuro da imagem. Só o cinza das sombras. Inspirei fundo. Nem era preciso ser um gênio das artes cênicas para entender o significado daquela pintura. Então, era assim que ele se sentia? Preso dentro da sua própria maldição? Fazia questão de gritar para todo mundo o quão incrível e afortunado ele era por ser um híbrido, mas no final não enxergava tanto assim como uma dádiva. Ou talvez não gostasse apenas de ser parte lobisomem. Realmente ele quase nunca se transformava, só o vi naquela vez, quando soube da minha morte...

Ou talvez — pensei mais longe — O seu gene de lobisomem que causou grande parte de seu sofrimento com Mikael, assim como as motivações para a criação do feitiço da imortalidade, e ele deve a tudo isso o monstro que se formou ao longo dos séculos. Fui arrancada de meus devaneios quando ouvi o ruído de notificação do celular e recebi uma mensagem de Bonnie:

Cadê você? Estou te esperando na oficina há um tempo.

Nossa, tinha esquecido completamente dela. Dei uma última olhada naquele desenho triste e solitário. Devolvi ao seu lugar de origem e me apressei resignada na velocidade vampírica até a garagem. Queria saber mais, descobrir mais os seus segredos profundos e até vergonhosos através daquelas pinturas. Eram estonteantes e ao mesmo tempo hipnotizantes. Quando eu encontrasse com ele, perguntaria do desenho. Se eu tivesse sorte, ele entraria na empolgação de sempre quando se tratava de explicar seus impecáveis e complexos rabiscos e me contaria mais sobre si.

Pensando no que mais ele escondia no emaranhado de segredos milenares, chegue na garagem quase sem notar. Três carros pairavam descobertos, prontos para uso. Corri com os olhos nas paredes em busca das chaves, mão não encontrei nada. Procurei nos armários e só tinham ferramentas. Argh, Seriously, Elijah, bufei. Então, reparei numa luz azul bem discreta piscando no painel dos carros e isso me chamou atenção. Só para constar, fui abrir as portas do mais próximo, prateado e de estilo mais esportivo, mesmo sem chave e funcionou. Fiquei intrigada. Ao entrar no carro e fechar a porta, uma voz feminina falou comigo, me sobressaltando.

Comando de voz ativado. Introduza o código de acesso.

Alguns segundos tentando decifrar o que ela disse, lembrei da mensagem de Elijah. Disquei os dados e entrei no sistema, com as luzes em volta do volante me iluminado discretamente.

Escolha um dos perfis abaixo para o controle do veículo ou insira um novo perfil.

Fiquei parada olhando o painel grande e moderno, com os nomes de Rebekah e de Elijah. Resolvi criar o meu. Até que foi legal, gravando minha voz e meus dados básicos. Então, a voz continuou:

Você pode comandar tudo somente falando. É só dizer Hey, Mercedes e fazer o seu pedido.

Mexendo em alguns botões da tela touch, resolvi fazer o primeiro experimento.

— Hey, Mercedes. Ligar o carro — Sutilmente, todos os painéis se acenderam, mas o barulho do motor era quase imperceptível. Talvez fosse para os humanos. Um mapa em 3D apareceu na tela, mostrando a saída da garagem e a entrada da casa — Hey, Mercedes, abrir as portões de saída e dar marcha a ré — E assim, habilmente o carro começou a se mexer enquanto a garagem se abria. Sorri animada. Até que era divertido. Quando o carro parou no pátio principalmente, aguardando mais comandos, digitei a rota do meu interesse, só para me familiarizar com esse modelo totalmente diferente do que estava acostumada. Então, parti para o meu destino.

Olhei no relógio digital e a tarde começava a cair sem eu ter percebido o tempo que gastei com todas as atribulações do dia. Cogitei em entrar em contato com Meridith, mandei uma breve mensagem perguntando do estado da minha mãe. Sua resposta foi rápida e curta.

Ainda na sala de cirurgia. Vai demorar mais um pouco. Não se preocupe, Caroline. Estamos com ela.

Traguei o ar com desânimo. Então, só me restava correr para o hospital e livrar pessoalmente minha mãe de ter que aturar Kol. Talvez ela nem precisasse cruzar com ele. Sabe, só após passar o calor do momento que se percebia o delírio de certas decisões. Em que universo eu cogitei deixar minha mãe humana nas mãos de Kol?! Seriously, Caroline. Pior decisão do mundo. Sendo assim, mandei o carro acelerar. Era impressionante como ele se adaptava a mim ou eu a ele. Não vi o nome do Klaus no painel. Significa que ele não usa esse carro? Eu percebi que ele gosta de caminhonetes, só não entendo nada sobre elas. Eram tão modernas quanto esse? O estilo esportivo era mais a cara dos outros irmãos, não o dele. Soltei uma risadinha. Condenar o gosto dos outros quando não tinha nada a ver com o seu era bem típico dele. Provavelmente passou longe desse modelo só para mostrar a sua superioridade clássica. Mexi no meu telefone e nem sinal dele. Se eu dependesse da sua rapidez para me salvar, eu já tinha virado pó. Será que não tinha recebido a minha mensagem ou estava ocupado demais no caos que ele mesmo causava para notar o meu chamado?

Cruzei Mystic Falls com os pensamentos bem longe, em New Orleans para ser mais exata, quando me assustei com a chamada alta dentro do carro. Ao que parece, o sistema estava conectado ao meu celular. Só falei, Hey, Mercedes, atender chamada.

Não pude deixar de sorrir ao ouvir aquele sotaque de matar.

Olá, Love — Eu ia falar, mas ele foi mais rápido — Sabe que não precisa pedir permissão. É só pegar. Mas, está aprontando o quê para terminar com um carro destruído? — Bufei olhando em volta. Eu tinha que ser bem meticulosa e ao mesmo tempo evasiva para não deixá-lo encucado. Se existe uma coisa que ele não tem é paciência.

— Longa história, como eu disse. Não posso explicar agora — Falei praticando meu auto-controle, mas não fiquei satisfeita com o trabalho.

O que está acontecendo, Caroline? Onde você está agora? – Na merda, pensei. Precisando de você de várias maneiras diferentes.

— Eu já disse que agora não posso explicar. Só atendi você para não surtar, só isso – Uma pequena mentirinha. Eu queria era ouvir a voz dele – De qualquer forma, já consegui o carro.

Em alguma coisa Rebekah é útil — Rebekah estava longe brincando de casinha com o humano dela.

— Ela não está comigo. Precisou fazer outra coisa — Sinal amarelo. Eu deveria ao menos deixar claro que ela estava bem. Quando se tratava de Rebekah, Klaus pirava — Quando eu liguei pra você e não me atendeu, resolvi utilizar meu último recurso. Falei com Elijah — Estava já próxima à oficina, pois avistava Bonnie ao longe falando no celular.

Então, quer dizer que pelo menos com você meu irmão fala no telefone - Enruguei a testa. Elijah não estava lá com ele?

— O que isso quer dizer? – Me armei para a discussão que certamente viria.

Quer dizer que eu não sou útil, mas ele é bastante.

— Foi só um carro, Klaus — Bufei. Era só o que me faltava. Ele com Inveja de um carro. Ou do irmão, pensando bem. Será que ele ainda carregava o ciúme em relação a mulheres mesmo depois de séculos? Seria ridículo.

Um carro que por hora está te salvando a pele — Sim, ele carregava. Revirei os olhos. Em nenhum universo eu cogitaria uma ligação amorosa com Elijah. Que esquisito! Ele era bonito e gentil, mas era quase assexuado ao meu ver. Katherine saiu com ele, mas era muito estranho imaginar isso. Sacudi a cabeça para espantar imagens asquerosas de sexo entre a Doppelganger e o Origianl mais velho.

— Eu prometo que no próximo ataque só vou esperar pela sua ajuda. Só vamos torcer para não ser tarde demais.

Não precisa de drama — Seriously?

— Drama? Eu terminei morta na última vez. E não sou eu quem está fazendo drama por causa de um carro. Eu não quero ter esse tipo de conversa agora.

Rebekah deveria estar com você — Revirei os olhos. Ele conseguia ser incessante — Que outra merda que ela foi fazer que não está aí agora?

— Ah, por isso ela estava insistindo em me seguir. Você mandou ela fazer isso. Típico de você, querer controlar tudo e todos – Não sou tão ingênua ao ponto de acreditar em toda aquela amizade de Rebekah. Sabia que alguma coisa estava me escapando.

Você acabou de me falar que sofreu outro ataque. Está me dizendo que estou errado? Não quer um Original pra te defender? – Claro que eu queria. Mas, admitir isso seria dar razão a ele em toda essa asneira que estava dizendo.

— Quão delirante você é, Klaus? Eu não preciso de babá. E sua irmã não pode ficar plantada na porta do meu quarto o dia inteiro. Nem eu vou ficar trancada. Quer que o perigo acabe? Trate de dar um jeito de sair daí e arrumar a bagunça que você plantou em Mystic Falls. Senão, apenas aceite o que nós fizermos aqui – Eu estava jogando sujo. Queria pressioná-lo para que voltasse logo não apenas para a nossa salvação, mas porque eu queria, precisava vê-lo.

Vai ficar passeando de carro, então? O verão está chegando. Seria realmente muito divertido e prudente sair para um piquenique — Abri a boca em sinal de incredulidade. Que babaca! — Aproveita e leva...- Não deixei que ele terminasse. Apertei o botão no painel desligando a chamada. Se continuássemos a falar, a conversa terminaria em gritos e ofensas, como sempre fazíamos.

Não pude evitar e sorri. Sentia falta até disso com ele, de discutir até ter vontade de arrancar seus lindos olhos verdes. De uma forma estranha, me deixava mais atraída ainda o jeito como ele contorcia a cara de raiva. Como aquela boca vermelha se mexia para pronunciar heresias, desferindo aquele sotaque britânico com palavras de um velho arcaico. Ele dava um sorrisinho de lado debochado que era extremamente sexy. E mesmo quando estava irritado comigo ainda me olhava de um jeito como se estivesse me fazendo um raio-x. Isso, ao mesmo tempo que me deixava constrangida, me deixava acesa. Mordi os lábios lábios imaginando o que se passava naquela mente genial e suja ao mesmo tempo...Será que ele pensava o mesmo que eu? De arrancar aquele sorrisinho arrogante dele na marra à base da...

— Caroline! – Me assustei. Bonnie bateu na janela do motorista. Mandei o carro abrir a porta pra ela. Se sentou ao meu lado me olhando com o senho franzido – Você está distraída demais. Eu te chamei duas vezes. Vampiros deveriam ficar mais atentos, não? – Ela puxou o cinto de segurança – Vamos? Deixei meu carro lá nos Salvatore – Afirmei com a cabeça sem dizer nada. Ela olhou em volta admirada e surpresa – Que carro é esse? Você jogou na loteria do Outro Lado? – Só sacudi os ombros, fingindo indiferença.

— É temporário — Me concentrei nas ruas, jogando para o fundo da mente meus pensamentos mais profanos e safados – Preciso ir até minha mãe agora, ela deve estar de mau humor por ficar confinada com o pentelho Original — Bonnie me olhou confusa, eu apenas inspirei fundo e não expliquei.
———————————————
Dois dias depois

Kol me seguia de perto, enquanto eu me esforçava para manter os olhos na estrada. Estava cansada demais, após dias sem dormir direito, para levar a sério o panaca piscando os faróis pra mim ao me ultrapassar em alta velocidade. Revirei os olhos. Eu não ia disputar corrida com ele com a minha mãe frágil e humana toda esfarelada bem ao meu lado. Olhei pra ela de esguelha e parecia dormir, embora seu rosto estivesse contraído e suas pálpebras, apertadas. Decidi não incomodá-la e fiquei calada. Meridith insistiu que ela ficasse em observação por pelo menos um dia e parecia muita mais preocupada que o esperado para uma fratura no braço. Meus instintos me diziam que alguma coisa estava me escapando e havia mais nessa história do que me contaram.

Chequei o visor do GPS e faltava pouco para Lake Barcroft, para meu alívio. Conforme fui adentrando mais em estradas arborizadas e bem cuidadas, mansões exuberantes se erguiam no meio da mata colorida de flores silvestres. Obviamente, um retiro para os ricos se esconderem de suas atribuições ao se instalarem às margens do frescor do grande lago que se via entrecortado ao se espiar os cantos entre as mansões.

Segui Kol até vê-lo entrar numa rua circular e doméstica, que fazia parte da entrada principal da casa. A essa altura, eu não deveria me chocar mais com o padrão de vida dessa família, mas ainda assim era impressionante saber que eles tinham mansões espalhadas por aí como se não fosse nada. Admirei encantada a faixada da alta e grande casa branca, repleta de paredes de vidro. Seu estilo era bem mais moderno do que que a casa de Mystic Falls, que conservava um toque mais clássico. Duvido muito que tenha sido Klaus a escolher essa casa, pensei sorrindo.

Dei uma averiguada rápida em minha mãe e ela estava de olhos abertos, esticando o pescoço para espiar atentamente cada canto em volta. Seu semblante desconfiado demonstrada o quanto ela não estava gostando da situação. Mas, fazer o que. Nem eu estava certa se me confinar com essa família seria a ideia mais sensata, mas pelo menos em Klaus eu confiava e aqui era o melhor lugar para nós nas atuais circunstâncias. Ironias que a vida nos oferece.

Kol correu até nós e abriu a porta para a minha mãe, fazendo um gesto idiota de reverência esticando a mão para ela. Ele precisava ser tão debochado? Não custa nada ser menos babaca. Minha mãe retribuiu a palhaçada jogando a bolsa pra ele pegar, que segurou prontamente na velocidade vampírica. Ele sorriu pra mim com todos os dentes a mostra, piscando com certa malícia. O que eu estava fazendo aqui mesmo? Só o desespero para me trancar nessa casa com Rebekah e Kol. Falando no capeta, ela apareceu na porta sorrindo e Kol se apressou prontamente para abraçá-la. Ela deixou escapar algumas lágrimas, enquanto segurava nos ombros do irmão. Seu sorriso genuíno me fez pensar na Rebekah amorosa e ao mesmo tempo muito corajosa das lembranças de Elijah. O quanto ainda restava dela nessa nova temperamental e um tanto cruel caçula Mikaelson?

— Fico feliz que esteja de volta, irmão – Ela disse chorosa – Eu pensei que nunca mais fosse te ver conosco.

— Ao menos você aprecia meu valor – Ele pareceu sinceramente emocionado – E falando em valor, não esqueça do que me prometeu — Ele fez um sinal que não pude ver e Rebekah deu um tapa forte em seu braço, fazendo os dois rirem que nem crianças. Eu sorri me aproximando, parecia tão natural, como se não estivéssemos em iminência de guerra.

Então, Ela pareceu finalmente notar a minha presença e me deu um breve aceno, enquanto caminhava até mim.

— Até que enfim. Pensei que eu teria que te arrastar pelos cabelos. Até que eu ia gostar. Você às vezes é muito teimosa.

— Olha quem fala. Estou diante da família mais intransigente que existe.

— Nós podemos, querida – Ela cruzou os braços, mas tinha as feições divertidas.

— Pelo menos meu amigo está vivo? Matt?! – Gritei.

— Não precisa de escândalo. Que falta de decoro – Ela olhou em volta. Estava realmente preocupada com os vizinhos? – Ele já acordou do nocaute. Mas, ele não está nada feliz por ficar preso aqui. Então, passou os dias me ignorando escondido no quarto – Rebekah parecia triste, pois falava enquanto olhava para o chão.

— Nenhum de nós está. Mas, vai passar. Você sabe que os métodos vampíricos não são nada amistosos. E Matt é um pouco sensível às vezes quanto a isso, mas ele gosta de você – Ela me olhou sorrindo mais feliz. Apesar do meu histórico conturbado com os dois, até que me alegrava a ideia de ficarem juntos. Seria bom para Rebekah ter alguém tão puro como Matt, que pudesse levá-la de volta ao seu lado mais humano, assim como seria ótimo para ele encontrar alguém que pudesse defendê-lo a todo custo e Rebekah parecia disposta ao cargo. Num ambiente tão hostil quanto o atual, ter a Original de escudo era muito bom.

— Pois é. Falando em pessoas sensíveis, achei estranho você aceitar de bom grado largar seus precisos em Mystic Falls. Tomara que morram – E cá estávamos de volta a Rebekah geniosa.

— Eu posso começar pela Doppelganger e o irmão pestilento – Disse Kol, se apoiando em Rebekah.

— Se você matar meus amigos, teremos sérios problemas – Me aproximei de Kol, fuzilando ele com o olhar.

— Loirinha, Niklaus já matou alguns dos seus amigos e você ainda está aqui.

— Isso não te da carta branca – Tentei esconder a dor da alfinetada – E quanto aos meus amigos, Rebekah, não posso controlar todo mundo. Eu tentei trazê-los, mas não posso desmaiar todos eles e prendê-los no porta malas como você fez com Matt.

— Me surpreende você não tentar controlar todos eles. Ouvi dizer que você é um tanto controladora compulsiva. Sabe, Nik também é um pouco assim. Na verdade, ele é muito assim, não é Kol? – Ela apontou para o irmão.

— Demais. Você vai adorar – Revirei os olhos e dei às costas a eles.

— Sejam bons anfitrões e me digam onde posso dormir. Não aguento mais me contorcer no sofá do hospital — Segurei no braço bom da minha mãe, a ajudando a caminhar até a porta.

— Não estou inválida, Caroline, só um braço está ruim – Ignorei a teimosia dela.

— Você revezou comigo, Loirinha – Kol veio andar ao meu lado – E eu te levava comida na mão. Está reclamando de quê, exatamente?

Seriously?! – Abri os braços com indignação, me virando pra ele – Você ficou o tempo todo vociferando no meu ouvido o quanto seus irmãos são injustos com você enquanto ameaçava e flertava com as enfermeiras. Sumia sem deixar rastros e nem quero saber o que fazia com elas.

— Ora, eu te conto mesmo assim. Sexo, Loirinha, porque matar não seria da sua índole perfeitinha e entediante.

— E por que o que eu acho te importa?

— Se eu te desagrado, Nik me odeia e eu fico sem dinheiro – Olhei confusa pra ele. Indaguei Rebekah silenciosamente e ela só fez um gesto para eu ignorar o irmão.

Entramos na casa e gastei uns segundos admirando a beleza e a sofisticação tanto da arquitetura quanto da decoração. Todas as paredes eram brancas e o chão, de madeira corrida em tom caramelo. Na sala, uma alta e larga vidraça, que ultrapassava o primeiro andar, ficava de frente para o lago, proporcionando uma vista panorâmica perfeita e abrangente da paisagem cheia de árvores às margens da lagoa. Uma grande lareira de mármore escuro se encontrava na parede esquerda, de frente para aconchegantes poltronas brancas.

Tentando ser educada, não girei o pescoço olhando tudo a minha volta como uma fofoqueira. Rebekah acenou pra mim, me chamando até a escada curva e de pedra escura, emoldurada por corrimãos iluminados. Subi com minha mãe ao meu lado, enquanto ela me olhava de esguelha de vez em quando, visivelmente desconfortável por estar ali naquela mansão totalmente fora da nossa ossada. Chegamos ao segundo andar, que repetia o padrão do anterior, com a imensa parede de vidro ganhando destaque na beleza do ambiente. Rebekah abriu portas duplas e brancas ao final do corredor, mas não entrou.

— Bem, esse é o seu quarto, Liz. Espero que goste da vista e que sua estadia não seja tão repugnante quanto você está temendo — Rebekah sorriu e eu revirei os olhos – O seu é esse aqui de frente, Caroline – Ela apontou para outra porta branca.

— Obrigada – Ela sorriu debochada e nos deixou a sós. Minha mãe entrou lentamente no quarto, desconfiando até da própria sombra.

— Não acredito que vou ficar hospedada na casa do Klaus. Eu evitei isso a todo custo naquela vez. Mas, você sempre dá um jeito de conseguir o que quer. Me admira, mas também me irrita.

— Ele não está aqui agora, mãe – Olhei em volta. O quarto era grande, com uma larga cama macia, coberta por uma colcha dourada e pesada. Me aproximei da janela que pegava a parede inteira. Lá em baixo, se via o amplo deck de madeira, com uma piscina comprida e brilhante. A floresta do outro lado do rio parecia calma, com o balançar lento das árvores.

— Mas, seus irmãos, com a mesma ficha criminosa, estão. Sabe, eu sou uma detetive trancada com dois assassinos. Minha própria definição de inferno. Nunca minha profissão foi tão inútil na minha vida.

— Aqui eles vão se comportar – Falei totalmente incrédula, me jogando na cama e fechando os olhos. Que delícia.

— Você sabe que nada faz essa gente se comportar.

— Sabe, eles podem te ouvir – Queria cortar esse assunto, que já me cansava. Minha mãe bufou com petulância. Às vezes, ela era tão eu — Eles estão quebrados como pessoas. Mas, ainda acho que há mais que isso para ver neles – Abri os olhos. Minha mãe me olhava como se eu fosse louca.

— Você é vampira que nem eles e não seguiu esse caminho das trevas. É a mesma Caroline. Quando você se transformou, eu pensei que tinha te perdido para sempre. Graças a Deus, você ainda é a minha filha.

— Quase a mesma. E ainda não vivi mil anos e nem sofri o que sofreram – Nem eu me aguentava quando falava isso em voz alta. Parecia uma tentativa desesperada de amenizar os seus crimes, como se eu quisesse uma afirmação para justificar meus sentimentos, mas ainda assim era inevitável não ver o lado bom de cada um, especialmente de Klaus.

— Ah, querida, não podemos arrumar uma desculpa para tudo. E você nunca será igual a eles. Não é a sua índole. Você mesma me explicou que o vampirismo não muda as pessoas, só potencializa suas características. Para chegar ao nível de serial killer ao se transformar, é porque a natureza da pessoa estava enraizada em algo mau.

Contra isso eu não podia argumentar. Nunca foi do meu feitio arrumar desculpas esfarrapadas para Klaus e sua família e nunca faria isso. Mas, apesar de tudo, ainda acreditava que eram pessoas que valeria a pena conhecer, pois havia muito histórico pesado sobre suas costas. O caminho a ser percorrido era longo, mas eles ainda poderiam encontrá-lo de volta a si.

Sem dizer mais nada, apenas desfiz as malas dela e guardei as suas coisas no grande closet. Eu estava me sentindo estranhamente em casa e me instalando nela como se apenas fosse a coisa mais natural do mundo, como se estivesse ali para um passeio cotidiano na minha casa de campo.

Ajudei minha mãe a ficar confortável, trocando sua roupa para uma mais fresca. O verão estava chegando e mesmo a brisa gélida que vinha do rio passando pelas largas e altas janelas de vidro entreabertas não amenizava muito o calor. A casa deveria ter ar condicionado central, pois havia saídas de ar em algumas partes do teto. Deitei minha mãe na cama e perguntei se precisava de algo. Ela balançou a cabeça negativamente, dizendo que apenas gostaria de dormir, pois seus analgésicos a deixavam um pouco zonza. Mas, eu sabia que ela também usava isso como desculpas para não precisar sair do quarto e interagir com os outros. Peguei o pequeno controle sobre a mesa de cabeceira e testei alguns botões. Primeiro ajustei a temperatura para alguma mais agradável. Depois baixei as cortinas brancas e automáticas e a luz forte do Sol diminuiu bastante. Deixei o quarto sem bater a porta e arrastei minhas coisas comigo até meu quarto. Eu também queria descansar, mas dormir era a última coisa que eu podia fazer no momento. Especialmente com Rebekah e Kol como colegas de quarto. E quanto a Matt? Iria até ele para conversar, ver se estava bem mesmo. Matt estaria emburrado se escondendo de todos tal qual minha mãe, mas ele era mais fácil de convencer, especialmente por causa de Rebekah. Inspirei cansada. Pelo menos teria ele, não ficaria tão isolada naquela casa gigantesca.

Quando entrei, também fiquei impressionada com o meu quarto. Ainda maior que o da minha mãe, tinha uma porta dupla e grande de vidro misturada à janela-parede dando para uma ampla sacada. Rebekah estava sendo bem generosa. Eu esperava ser colocada no porão para dormir com os outros prisioneiros. Me acomodando um pouco folgada, guardando meus objetos pessoais, fui tomar banho. A banheira de mármore branco me chamou a atenção, me tentando ao máximo para me perder na água fresca com espumas de aromas deliciosos, mas fazer o que. O dever me chamava. Entrei no cômodo privado da ducha todo trabalhado em mármore escuro e foi uma maravilha sentir a cacheira vigorosa de água gelada batendo no meu corpo. Me deixou mais alerta e mais leve, lavando para fora as preocupações junto da sujeira. Demorei bastante tempo em baixo da torrente de água, sendo grata por esse privilégio depois de dois dias me arrastando capenga entre o hospital e a minha casa. Não eram longe um do outro, mas largar minha mãe por muito tempo na vigília de Kol estava fora de cogitação, então eu nunca demorava mais que alguns minutos em casa. Quando minha pele já ficava enrugada e meu corpo tremia de frio, resolvi sair.

Andando de tolha pelo quarto, manchando o piso de madeira com pegadas d'água, entrei no closet grande, que estava mais para um mini quarto. Vesti uma calça jeans preta e uma blusa azul escura larguinha. Me sentei no banquinho quadrado e de estofado rosa claro para vestir uma bota coturno preta. Seria bom para fugas repentinas, o que não seria nada surpreendente no meu mundo. Penteando os cabelos enquanto me olhava no espelho da penteadeira de madeira também rosa clara, até que notei minha expressão um pouco mais iluminada. Meu humor melhorou bastante ao chegar nessa casa, me sentindo mais esperançosa para o futuro, mais próxima de Klaus. Esse era o poder de Klaus sobre mim, me fazia sentir mais segura e protegida, como se a amizade dele me blindasse contra o mundo devastado fora das suas asas, mesmo através da ótica de uma propriedade. O que envolvesse o seu nome me passava conforto e calmaria.

Balancei a cabeça sorrindo, era tão contraditório.

Alisei a testa cansada, enquanto olhava os cabideiros e armários de vidro fosco. Será que tinham roupas ali? Mas, não cheguei a verificar.

Caminhei até a varanda pensando no que faria a seguir, enquanto inalava o vento fresco. Me escondi aqui igual uma covarde para proteger minha mãe, ok. Essa justificava eu poderia usar. Mas, e então? Ficaria deitada na cama felpuda esperando o caos chegar até mim ou que ele se resolvesse sozinho ou até Klaus voltar? Pensando em procurar por Matt pela casa, passei os olhos em volta da extensão visível da mansão e achei uma figura loira ao longe.

Rebekah estava no deck, debruçada sobre a cerca branca de metal, admirando a linda vista do lago. Desci a escada circular de metal também branco que pegava as varandas e terminava no convés de madeira clara. Me aproximei de Rebekah e imitei seu gesto, me encostando na cerca. Seu olhar estava longe, mas obviamente que ela percebeu a minha chegada. E sem dizer nada, me deixei levar pela paz que a brisa fresca trazia. O silêncio só era quebrado de vez em quando pelo cantar de pássaros, do balançar monótono das árvores e da água de algum córrego ao longe, muito diferente das explosões e das gritarias em Mystic Falls. Fechei os olhos para curtir a sensação de calmaria e...

— Se vamos brincar de casinha, gostaria de esclarecer algumas coisas – Abri os olhos de repente, emburrada por ter sido desviada da minha paz sem nenhuma cerimônia. Olhei ironicamente para a vaca Original esperando pelo seu imprescindível comunicado – Eu não sei o que está acontecendo entre você e Nik, mas espero que ele não se ferre mais do que já está se ferrando por sua causa. Você já deve ter uma ideia do estrago que foi feito, já que está buscando refúgio bem longe da sua adorada cidadezinha. Vamos torcer para que essa nova travessura do meu irmão por mulheres não seja a ruína definitiva dos Mikaelson.

— Se você vai declarar abertamente seu descontentamento com a minha presença, eu nem precisava ter vindo. Ou ao menos poderia fingir que não está infeliz com meu retorno à vida. Sabemos o quanto você me detesta. Mas, eu não te odeio. Não vou ficar numa disputa de gato e rato com você, perda de tempo.

— Não é isso, Caroline. Eu não te detesto – Ela suavizou a postura defensiva e exalou o ar antes de falar – Só estou preocupada. Eu sei que meu pai está de volta. Ele está por aí nesse momento planejando várias formas de eliminar a min e meus irmãos. Não é pessoal contra você – Ela pareceu sincera. Talvez fosse hora de contar sobre Mikael. Ele me salvou por algum motivo que tenho certeza de que não foi nada nobre. Senti um arrepio na espinha com o que quer que ele estivesse tramando – Só espero que valha à pena os sacrifícios que Nik têm feito. Eu confesso que me admira ele ainda ser capa de tamanha sensibilidade mesmo após demonstrar tanta frieza e só por isso estou participando dos delírios dele. E eu não sou ninguém para julgar se tratando de insanidades por amor. Já cometi tantas...

— Assim como Elijah – Sorri sem humor – Até mesmo Kol, do seu jeito...distorcido.

— Estamos desesperados, confesso. Se Nik fizer mais uma contra nós, vamos dar um jeito naquele bastardo – Ela disse sorrindo, embora eu duvidasse de que estivesse só brincando.

— Quero te perguntar uma coisa – Ela me olhou curiosa – Você já foi colocada no caixão inúmeras vezes e nunca deixou seu irmão. Não teve nenhuma vez em que você considerou de verdade ir embora, tipo, para sempre?

— E você acha que aquele bastardo iria permitir? Ele me acharia onde quer eu eu estivesse e sua ira contra mim seria ainda maior – Seus olhos atingiram uma sombra triste – Confesso que já me excedi nas tentativas de me livrar dele, de tal forma que joguei pesado, mas Nik mereceu. Ele me quer perto, a qualquer custo, para me controlar de forma maníaca como se eu fosse uma marionete. Ele não aguenta ficar sozinho, mas também não sabe como lidar com a nossa presença quando ela o desafia. Verdade seja dita, Caroline, eu quero mesmo que ele encontre o rumo dele e seja feliz porque só assim eu poderei ser também. Eu quero meu Nik de volta, quero que ele fique bem, mas quero muito mais a minha liberdade e Nik nunca me dará ela enquanto ele não tiver algo do que se ocupar. E, por mais doentio que isso pareça, eu não consigo abandoná-lo sabendo que está definhando por aí sobrecarregado pelos seus demônios internos.

— Por isso você tem aceitado as ordens dele de me vigiar – Ela me olhou surpresa – Eu não sou burra e conheço o jeito controlador do Klaus – Ela sorriu sapeca – Só não deixe ele saber das suas segundas intenções. Sabe que ele vai interpretar da pior forma possível e te fazer pagar até as últimas consequências.

— Se você não contar, eu não conto.

— Contar o que? – Nós duas rimos e ela pareceu menos a assassina megalomaníaca e mais a gentil humana de um milênio atrás – De verdade, Rebekah, eu espero que encontre o que busca. Depois de tantos séculos sofrendo e causando sofrimento, seria bom para você e para todos se fosse feliz. Talvez o monstro que nasceu em você tenha sido uma resposta à vida miserável e infeliz que você levava. Descontou a frustração nos outros que não mereciam, mas não vai poder jogar as suas transgressões para debaixo do tapete sempre com essa desculpa de pessoa ferida pelos infortúnios da vida e do sobrenatural. Tudo tem limite e mau não pode ser mascarado pelo sofrimento do malfeitor. Você vai precisar se esforçar mais que isso, pois na verdade você não tem feito por merecer. E a gente colhe o que planta.

— Como assim? – Se desencostou da grade e cruzou os braços revoltada. Inspirei fundo antes de continuar, pois tocar em assuntos tão delicados assim com Rebekah era motivo para tiro, porrada e bomba

— Não pode ser digna da felicidade enquanto causar desgraça na vida dos outros. Eu vejo você reclamar que Klaus nunca te deixa ser feliz, mas já parou para analisar as vidas que você destruiu?

— Cuidado, Caroline – Vi o brilho assassino acender em seus lindos olhos azuis.

— É disso o que estou falando – Apontei para a sua expressão malcriada – Por que você acha que merece ter paz se está sempre infernizando quem atravessa o seu caminho? Não estou falando isso de maldade ou para travar uma briga com você – Me apressei em dizer quando ela abriu a boca para retrucar – Só estou dizendo que vai ser muito mais fácil para você se o carma não te perseguir. Experimente ser uma pessoa melhor e você vai ver como tem muita gente que vai retribuir o favor. Começando pelos seus irmãos. Vai receber atenção e o amor que tanto procura, até das pessoas mais inusitadas, sem precisar brigar por isso – Pensei em Matt.

— Você julga a gente como se fosse tão perfeita. Em algum momento você vai se sujar. Não tem como ser boazinha o tempo todo.

— Claro que não sou, mas não tenho mil anos de banho de sangue nas minhas mãos. Existe uma diferença enorme entre apenas se defender e deliberadamente destruir a vida dos outros por prazer.

— E mesmo assim você está aqui, correndo atrás do maior psicopata da história.

— Acho que as pessoas podem mudar se elas quiserem. Esse é o meu ponto. Se você quer que o universo te permita ser feliz, comece agora a melhorar seus maus hábitos. Quando você foi uma pessoa melhor, Matt fez amizade com você de bom-grado. Bastou um fio de gentileza sua e ele não te julgou ou te desprezou. Que bom seria se você pudesse estender e propagar esse bom comportamento.

— Ele ainda tem suas ressalvas comigo – Ela se voltou para o lago, com o olhar perdido – Aposto que está me fulminando pelo o que fiz com ele hoje.

— Claro que ele está. Mas, explique as suas razões, com gentileza. Com certeza ele vai se ressentir primeiro, mas depois vai parar para pensar e enxergar que você só estava tentando protegê-lo. Mostre o seu melhor lado e mostre o quanto se importa com ele, que você teve motivações incontestáveis para fazer o que fez. Duvido muito que ele não reconheça o seu valor. Matt é genuíno, sabe, de coração puro. Ele será capaz de detectar seu lado bom se você facilitar pra ele.

— É assim que pensa e sente sobre Nik? – Ela me encarou com um sorriso torto e senti minhas bochechas esquentarem. Inspirei fundo e resolvi ser sincera.

— Em parte, sim. Eu gosto do jeito como ele me trata. Ele parece tão incrível quando não está sendo um louco. Então, não acredito que seja apenas maldade naquele coração – Pensei sorrindo, eu vi o lado bom do Klaus – Ele é um imbecil insensível às vezes, não tem um pingo de tato para demonstrar seus melhores sentimentos, então acaba caindo na própria armadilha e se enrola até o pescoço para se expressar. Porém, se prestar atenção um pouco, você pode ver que ele tenta, só não consegue – Disse olhando para o nada, enquanto viajava nas memórias das vezes que ele tentou se aproximar de mim falando um bando de besteira sem sentido, mas até que ficava bonitinho.

— Só isso? Você me disse lá em casa que nutre sentimentos por ele. Não está aqui apenas para se esconder, não é? Está esperando por ele – Eu gaguejei para responder, mas antes que fosse obrigada a me confessar, fomos interrompidas pela chegada do Kol. Respirei aliviada. Ainda não estava pronta para falar sobre isso assim tão abertamente.

— Temos que ir, Rebekah – Ele disse olhando o celular. — Ir aonde? – Indaguei alarmada.

— Ora, loirinha, temos que fazer a limpa na cidade, não é? Não dá pra esperar o Rei do Crime voltar.

Rebekah se apressou até ele quando seu telefone tocou. Ela olhou o visor e revirou os olhos bufando com raiva. Atendeu visivelmente de má vontade, fazendo bico e contorcendo a cara.

— Diga, mãe – Fiquei alerta. O que estava acontecendo em New Orleans?

— Preciso da sua sua ajuda, minha querida filha. Finalmente poderemos tirar seu irmão da arapuca em que ele mesmo se colocou – Meu coração quase saltou do peito, me fazendo arfar. Rebekah e Kol se entreolharam preocupados.

— Do que você precisa? – A caçula indagou.

— Venha até Washington D.C. me encontrar. Eu achei a bruxa que prendeu seu irmão – Engoli em seco, com o coração a mil e um ardor na pele — Não vejo a hora de reunirmos a nossa família de vez.

Eu quis falar, mas de repente minha garganta estava tão seca que era impossível proferir algo em voz alta.

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Esther

Apreciava um delicioso capuccino enquanto vigiava a faixada do prédio alto e domiciliar do outro lado da rua. Quando Agnes entrasse ou saísse, seria a minha vez de surpreender a bruxinha. As memórias de Marie foram o suficiente para me mostrar o prédio, mas não o apartamento, claro. Não se pode ter tudo na vida. Mas, não seria nenhum desafio acha-la. Mesmo com as ruas movimentadas cheias de carros e pedestres, ainda era possível distinguir muito bem a figura da mulher que eu procurava. Bruxas têm um radar para a magia que não se sabia explicar. Somos capazes de reconhecer a mágica, é como um sinal de ondas deixado para atrás ao se propagarem. Criaturas de outras espécies jamais se assemelhariam a tamanha habilidade e glória. Sorri satisfeita; era tão bom estar de volta com toda a minha força. Me sentia livre, capaz de qualquer coisa. Chequei o celular, talvez Elijah quisesse notícias, mas nada. Ele ainda seria um problema pra mim, eu podia sentir. Esperava de verdade que ele não atropelasse meus planos com as suas loucuras internas por causa de mulheres. Meus filhos nunca aprendiam a lição, era patético. E pensando na minha prole, aguardava com cautela e sabedoria o momento de fingir necessidade do auxílio de Rebekah ou de Kol. Depois que eu tivesse uma conversa franca com a bruxinha e pudesse arrancar dela toda informação útil pra mim, ligaria para um deles, numa súplica de que viessem me ajudar a resgatar o pobre irmão das abomináveis e quase imbatíveis bruxinhas do Quarter. Eu poderia arrastar Agnes até New Orleans sozinha, não precisava dos intragáveis Originais, pensei com desdém, mas era preciso manter o disfarce da minha temporária incapacidade. Inspirei fundo. O que não fazemos pelos nossos anseios. Somos capazes de até confraternizar com o inimigo...

Meu radar me sinalizou. Estiquei o pescoço para conseguir ver por entre os muitos carros e lá estava ela. Precisa ser tão óbvia, querida? Agnes usava um turbante rosa choque, contrastando com a sua pele negra. Pulseiras e cordões multicoloridos se misturavam e reluziam cegamente com seu vestido azul claro. Revirei os olhos, uma perfeita caricata. Antes que ela sumisse no tumulto, me apressei até ela, atravessando na faixa despretensiosamente. Ela baixou a cabeça para procurar alguma coisa na bolsa preta e isso me deu a oportunidade de me aproximar bem sem ser notada. Quando ela levantou a cabeça e deu de cara comigo, apenas pediu desculpas por quase ter me atropelado e saiu andando na pressa, não sem antes me jogar um olhar desconfiado. Como eu disse, nós podemos sentir...

— Agnes – Chamei alto seu nome para que minha voz pudesse se destacar no barulho típico do centro de Washington. Ela se virou assustada estalando o pescoço. Seus olhos amedrontados se prenderam nos meus até que ela me analisou de cima a baixo.

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— Não conheço você – Ela olhou em volta preocupada.

— Mas, a essa altura nem pode negar quem é. Atendeu ao seu nome.

— O que deseja? – Me falou um tanto ríspida.

— Podemos conversar? Não sou uma inimiga. Venho do French Quarter. Marie sabe que estou aqui. Fui enviada ao seu auxílio – Menti para ganhar sua confiança.

— Se fosse verdade, ela teria me avisado.

— Ela me disse que vocês mantém um contato restrito, para não dar nenhuma brecha de Marcel descobrir onde você está. Muito menos o híbrido original – ela pareceu insegura, ainda pregada no chão. Acenei para o prédio e ela concordou resignada. Andou rápido para ele, olhando por sobre os ombros. Até aqui bem longe da terra dela ainda ficava nessa paranoia?

Entramos em silêncio, enquanto, pude perceber, ela me jogava olhares preocupados de soslaio. Me mantive o mais centrada e calma possível, para que ela não se sentisse pressionada e dificultasse a minha vida. Pegamos o elevador até o sexto andar. Segui suas costas bem de perto, sempre um passo atrás, claro, era melhor assim, para evitar surpresas. Adentramos no seu apartamento, que era pequeno, mas bem arrumado e limpo. Ela foi até a bancada da cozinha e se serviu de xerez, me oferecendo um pouco. Prontamente recusei, não era amadora a essa ponto de aceitar bebidas de bruxas estranhas e inimigas.

— Pode me dizer como seria essa sua ajuda? Marie e eu temos um acordo e não recebi nenhum aviso prévio sobre mudanças de planos.

— Eu posso te dar Qetsiyah – Fui direta ao ponto. Ela parou de beber de repente – Não precisa mais mandingar a colaboração do híbrido. Eu sei que ele é o plano B, para capturar Davina. Mas, se eu vou te garantir o peixe grande, Klaus Mikaelson não é mais tão imprescindível assim.

— Seria imprudente descarta-lo antes de termos garantias.

— Até concordo. Mas, dessa vez você terá a mim. E terá que jogar com a fé na sua aliada.

— E quem é você mesmo para eu ter toda essa certeza e fé?

— Esther Mikaelson – Ela riu sem humor, batendo o copo na bancada.

— Por isso está aqui, para libertar seu precioso filho.

— Não é por isso que estou aqui. A liberdade dele é um meio para um fim, assim como eu te entregar Qetsiyah. Tenho tanto interesse quanto você de te dar a sua ancestral, só que por motivos diferentes. E pelo o que eu vejo, vai ser difícil você conseguir isso sozinha e sem poderes. Marie te colocou numa missão suicida.

— Então, você já descobriu que as bruxas foram mortas outra vez – A olhei surpresa brevemente, mas me recompus e disfarcei. Para a minha sorte ela olhava para o copo – Eu não disse ainda a Marie, pois ela ficará uma fera. Estava tentando encontrar outras aliadas antes que tudo desandasse – Tive que segurar o sorriso. Era bom demais para os meus negócios que as bruxinhas tenham morrido.

— Parece que o seu silêncio despertou a atenção de Marie, senão eu não estaria aqui.

— E por que ela trocaria as suas amigas bruxas pela mãe do híbrido?

— Eu não sou apenas a mãe do híbrido, minha querida, eu sou a bruxa Original. Diferente de vocês, eu posso enfrentar Qetsiyah.

— Nós sabemos algumas histórias dos famigerados vampiros Originais e sempre ouvi que o híbrido matou a própria mãe. Mesmo assim você quer tirá-lo de lá?

— Como eu disse, tenho interesses. Você liberta Niklaus e eu te dou Qetsiyah. Simples assim.

— Não farei nada até as ordens de Marie – Revirei os olhos com a pretensão. Gente teimosa me cansa.

— Você nem queria estar aqui para início de conversa, Agnes – Ela enrugou a testa surpresa – Marie e Sophie te convenceram, ou melhor, Marie te forçou. E pobre Sophie. Você quer o mesmo destino para você e para as suas amigas? Quer ser degolada por Marcel em praça pública para satisfazer os caprichos e ambições de Marie? Fazer Niklaus roubar a bruxinha Davina só vai aumentar a fúria do moleque lamacento que é Marcel contra vocês. Agora, imagina ter em mãos os poderes da sua ancestral sem precisar de grandes sacrifícios e de vampiros asquerosos. Quanto antes vocês puserem as mãos nos seus poderes, antes terão o French Quarter de volta. Poupará muitas vidas, Agnes – Olhei em volta, me familiarizando com o ambiente – Estamos ao lado de Mystic Falls, bem pertinho da bruxinha milenar. E você está aqui, dando mole e desperdiçando tempo porque perdeu o seu suporte. E eu, a bruxa Original, estou te estendendo a mão de bom grado. Mão essa que vale muito mais do que as aliadas medíocres que estavam a sua disposição. Basta você tomar a decisão certa, Agnes, pelo bem maior.

— O que me garante que fará a sua parte? – Quero meu filho desesperado se rastejando pedindo minha ajuda ao não conseguir lidar com as poderosas do French Quarter graças aos poderes de Qetsiyah, pensei satisfeita. Assim eu terei Freya.

— Nada. Como eu disse, terá que se contentar com a fé na nossa fidelidade mágica, que pode muito em seus efeitos. Mas, como uma prova de minha lealdade e das minhas boas intenções, vou te dar umas informações interessantes e muito úteis – Ela pareceu confusa e descrente – Eu posso te dizer quem matou as suas amigas, está mais perto do que você imagina – Ela se inclinou na minha direção enquanto mantinha uma expressão assombrada – Uma vampirinha recém-criada de Mystic Falls, Caroline Forbes. Foi ela quem matou na primeira vez e deve ter sido ela de novo. Provavelmente os amiguinhos dela sem eira e nem beira ajudaram no crime para protegê-la. Se um dia Marie quiser vinga- las, já sabe a quem procurar – Agnes pareceu se impressionar um pouco, mas logo enrijeceu a postura.

— Então, você primeiro me entrega Qetsiyah e depois eu liberto o híbrido. Esse é o trato.

— Sabe, Agnes, essa conversa foi mera cortesia, pois eu esperava que você fosse mais inteligente que as outras e tomasse a decisão certa sem que precisássemos de medidas mais extremas – Seus olhos brilharam de desprezo — Eu vi que você discorda dos métodos de Marie. O que me fez perceber que você é mais sensata e mais leal às suas amigas. Eu realmente quis te dar uma chance de provar seu valor. Mas, se for necessário, não serei mais tão complacente – Agnes travou o maxilar e nada respondeu. Inspirei já cansada dessa conversa – Você vai para New Orleans e vai libertar Niklaus querendo ou não – Sorri prontamente, jogando nela um feitiço incapacitante. Ela caiu desmaiada por sobre a bancada e o copo de vidro tombou, derrubando a bebida no chão. Peguei meu telefone, sorrindo largamente, e disquei para a minha adorada caçula. Rebekah seria mais fácil de aceitar. Seu amor doentio por Niklaus e suas esperanças infantis para o futuro faziam dela uma perfeita melodramática manipulável.

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Klaus

O lobinho sujo permanecia rindo mesmo com a cara toda ensangüentada. Dava para ver que todos os ossos tinham quebrado, pois seu rosto apresentava um perfil totalmente disforme. Senti prazer com isso. O máximo de sofrimento para esse filha da puta ainda era pouco. Arranquei com força o metal das minhas entranhas, não conseguindo controlar o grito de agonia. Joguei a viga no chão com brutalidade e avancei em Tyler. Segurei seis braços para trás e os dobrei em formatos impossíveis, cerrando seus ossos com bastante agilidade. O clique seco me deu a confirmação de um trabalho bem feito e o fedorento gritou, cuspindo mais sangue. Agora era a minha vez de rir. Tomado por um assomo de raiva, segurei suas cabeça e enfiei os dedos em seus olhos, espremendo e explodindo suas órbitas. Seus gritos de terror eram música para os meus ouvidos. Comecei a gargalhar alto, enquanto ele lutava para se manter consciente. Mas, eu precisava parar, por ela. Nesse caminho, eu terminaria com o lobinho em dois tempos. Contrariado, joguei o corpo dele longe. Ele ficou se debatendo por um tempo como um bicho moribundo, se arrastando no chão mediocremente. Andei até ele de vagar, apreciando a vista. Assim deve ser, Tylah, você sempre aos meus pés. Então, alguém apareceu correndo de forma sobre-humana na minha direção, bem às minhas costas. Meus sentidos mais apurados que do resto do mundo não me permitiriam ser pego de surpresa. Me virei de repente e agarrei o vulto pelo pescoço, prendendo ele na parece. Enquanto a pessoa engasgava e sufocava, reconheci seu belo rosto.

— Lobinha – Sorri maliciosamente – Que prazer em te rever — Sorri cinicamente para ela. Lembrava muito bem do nosso último e safado encontro — Veio defender o namoradinho rato de esgoto? – Hayley Marshal quase não conseguia se mexer. Seus olhos arregalados e sua boca aberta fomentavam uma característica nada sexy, bem diferente do nosso sexo sujo e gostoso – É a convenção dos lobos, é isso? – Apertei mais seu pescocinho fino e pegajoso. Até que senti outro vulto se aproximando.

— Niklaus – A voz de Elijah ressonou atrás de mim – Solte a garota – Não dei atenção para meu irmão. Olhei bem nos olhos verdes dela. Ela que pensa que eu esqueci que foi ela quem ajudou Shane e traiu seus próprios amiguinhos imundos – Enquanto ela buscava desesperadamente pelo amigo, ela me disse que você se interessaria pelas informações que ela tem desde que eu ajudasse a encontrar esse garoto aí e não os matasse – Meu irmão pateta continuou, dizendo quase sem paciência. Elijah nem sempre tinha ânimo para aturar as tramoias em que eu me envolvia – Então, deixe a garota falar.

— Ela só queria te enrolar, Elijah, para salvar a bunda do amante de quinta dela.

— Niklaus, assim você vai matar a garota. Depois de sabermos o que ela tem a dizer, podemos decidir se ela vive ou morre. Parece que ela está por dentro do jogo de Marcel – Arqueei a sobrancelha surpreso e encarei meu irmão – Tem mais coisa do que nos contaram, aparentemente – Assim, a contra gosto, larguei a lobinha traidora. Ela se abaixou ofegante, se apoiando no joelho ao tentar recobrar o ar. Olhei ela de cima a baixo. Ainda continuava um deleite de mulher. Pena que agora eu não conseguia sentir mais nada além de desprezo.

— Em que universo você achou que poderia me enfrentar, hein, lobinha? – Perguntei divertido.

— Me erra, babaca – Ela se afastou, esfregando o pescoço.

— Olha a boca suja. Já não tivemos nosso entendimento no passado?

— Chama de entendimento me enfocar?

— Modos, lobinha, minha paciência tem limite – Um bem baixo. Meu humor já mudava. Se ela falasse mais besteira pra mim, terminaria com a cabeça fora do corpo.

— Podem me explicar o que esta acontecendo? – Elijah disse com nítido tormento na voz, enquanto desabotoava o terno preto e feio – Que palhaçada é essa aqui, senhorita? Lembre do nosso trato. Você me diz o que sabe e eu te deixo viver.

— Eu já conheço o seu querido irmão, de Mystic Falls. Tivemos um encontro inusitado — Ela cruzava os braços me encarando com deboche.

— Essa é a ferinha Hayley Marshal, Elijah. Ela era do clã que se revoltou contra mim. Não te ajudou em nada, não é, lobinha, me trair daquela forma.

— E você não deixou barato para ninguém. Nem a mãe do Tyler escapou – Elijah colocou as mãos no bolso me censurando com o olhar. Ela olhou para o sujinho, que se levantava ainda aos tropeços. Aos poucos, sua fisionomia voltava ao normal.

— Menos para você. Até hoje gostaria de saber como que você conseguiu fugir da minha ira. Quem te avisou que eu iria massacrar vocês, lobinha?

— Shane.

— Diga logo o que nos interessa antes que eu mude de ideia. O que vocês fazem aqui? – Disse Elijah sem paciência.

— As bruxas não são as únicas que te querem no inferno – Revirei os olhos.

— Já estou bem ciente sobre todo o grupinho miserável de Marcel.

— Não falo deles – Ela olhou apreensiva para Tylah — O French Quarter é muito disputado, por todos os segmentos sobrenaturais — Franzi o cenho em indagação — Aos arredores do Quarter existe um clã antigo de Lobisomens. Eles foram destituídos das suas terras originais assim como as bruxas. Eles vivem na clandestinidade numa aldeia improvisada no condado de Bayou — Elijah me olhava surpreso. Minha cara não deveria estar nada diferente da dele

— Tá maluca? Por que está entregando tudo para esse crápula? – Tylah apertou e puxou braço da lobinha com força, fulminando ela com os olhos. Que se matassem, seria mais fácil pra mim.

— Eles vão nos matar se não achar que temos algo realmente importante – Disse olhando de esguelha para Elijah. Até que ela não era burra.

— E o que vocês tem a ver com isso? – Me aproximei dela – Esse povinho sujo de esgoto tem alguma ligação com a sua família, lobinha? – Eu lembrava bem do favor que ela me pediu. Foi uma troca justa. Ela me dava informações sobre Silas e eu mandava meus súditos pelo mundo afora procurarem pela história da pobre órfã e pé-rapada Hayley Marshal. Ela sorriu sapeca e essa foi a confirmação necessária.

— Eu encontrei muitas coisas dos meus antepassados aqui. Tenho vivido no Bayou há semanas, tentando me conectar com meu povo. Tyler veio comigo, pois somos uma verdadeira comunidade unida de lobisomens. Melhor para ele estar entre os seus do que onde querem matá-lo – Arqueei as sobrancelhas com deboche. Eram mesmo uns farofeiros vivendo em bando como animais.

— Então, você estava comendo a lobinha sob as estrelas encantadoras do Bayou enquanto Caroline esperava sentada por você. E ao mesmo tempo brincava de casinha com a grande família feliz e exilada da sociedade sobrenatural. Quanta dignidade, Tylah.

— Não fala merda – Ele voltou a me encarar, contraíndo os músculos. Pude ver claramente a veia da sua têmpora saltando e latejando – Você nunca entenderia como é ser aceito junto aos seus iguais, pois nem a sua aldeia quis te receber ao se transformar. Desprezado desde o início. Talvez os instintos do seu povo indicaram o asqueroso que você é – Meu sangue ferveu e a vontade foi de arrancar todos aqueles dentes nojentos. Eu ia avançar nele outra vez quando Elijah me segurou pelo braço.

— E por que resolveram enfrentar meu irmão no meio do French Quarter? Não podem negar que isso soa como uma afronta grave. Se for o caso, teremos que responder à altura. Meu irmão não é conhecido pela maior das benevolências. E dependendo do que fizerem, talvez eu vá ajudá-lo a silenciar vocês. Você não parecia muito confiante, senhorita, quando correu até min exigindo saber sobre seu amigo.

— Eu não quero nada com seu irmão. Só queria impedir Tyler de fazer uma loucura. Ele pirou ao saber que Klaus estava perto do Bayou – Tyler soltou ela e começou a andar em círculos feito um bicho enjaulado.

— Mas, você chegou dizendo que as bruxas não são as únicas a quererem a cabeça do meu irmão.

— Os lobisomens só querem seus domínios no Quarter de volta. Se seu irmão está disputando o mesmo território, obviamente que haverá conflito – Eu ri. Esse conflito terminaria com todos sem seus corações – Todos soubemos da chegada de Klaus e obviamente que isso acendeu a luz amarela em alguns. Já bastam as bruxas e Marcel querendo o que é nosso. Agora Klaus Mikaelson.

Nosso? Diga a eles que a cidade é minha e eu farei o que eu quiser. Se não gostam, venham negociar diretamente comigo. Vou esperar de braços abertos. Minha vida anda meio monótona, mesmo. Quero muito uma diversão e uma chacina de lobisomens parece um ótimo jeito de começar. E você, lobinha, se ficar do lado deles, vai ser a primeira a rodar. Vou esquecer do nosso prazeroso encontro e usarei sua cabeça como amostra grátis ao pendurá-la numa estaca para todos verem – Ela piscou algumas vezes pra mim, antes de tentar arrastar Tyler, mas ele não cedeu.

— Você não se atreva a tocar nela. Vai começar uma guerra. Não sabe com quem está mexendo.

— Você deveria estar defendendo a sua namorada, não? Que está lá em Mystic Falls esperando sentada você voltar. Você sabia que ela estava morta? Nem deu às caras para o funeral dela. Que grande namorado – As palavras saíram feito ácido da minha boca, mas meu dever era sempre entregar o melhor para Caroline, por mais que me ferisse – Você não tem vergonha, Tylah?

— Eu sei que você usa as mulheres sem se importar com os sentimentos delas, por isso é incapaz de entender a raiz de uma amizade verdadeira – Enruguei a testa pasmo. Ele achava mesmo que iria me convencer com esse papo furado? Ele estava mesmo era trepando com essa garota. Sem problemas, melhor pra mim, pensei maldosamente.

— Saiam daqui antes que eu me arrependa de ter ouvido você, senhorita – Meu irmão abaixou a cabeça e falou um tanto ameaçador – Não voltem ao French Quarter ou eu mesmo terei de lidar com vocês e não vão gostar. Diga aos seus amigos lobos para não se meterem no caminho dos Originais – Eu sorri. Adorava quando Elijah mostrava a outra face.

Tylah me encarou sugestivamente antes de ser empurrado por Hayley. Os dois pé-rapados correram e meu irmão se aproximou de mim. Antes que ele abrisse a maldita boca pra falar, eu me antecipei.

— Por que você estava do lado daqueles traidores? Era pra ter arrancado a língua dessa enxerida.

— Que lado? Eu queria descobrir mais sobre os domínios de Marcel, já que você é incapaz de agir de cabeça fria e raciocinar logicamente. Niklaus, o seu temperamento ferra com a sua inteligência.

— É um pouco difícil controlar o gênio quando você encontra um ser intragável e desprezível que fez de tudo para te eliminar.

— Provavelmente você mereceu. Quem é esse Tyler Lockwood? — Elijah perguntou com sincera curiosidade.

— Um conhecido insignificante de Mystic Falls — Eu disse cinicamente enquanto dava a volta e me apressava até a saída do beco. Meu querido irmão me seguiu calmamente.

— Quer me explicar melhor, Niklaus — Ele me olhava sério. A merda sempre fede – Duvido que seja só isso a julgar pelo fúria dele contra você.

— Ele ficou aborrecido comigo por umas simples questões. Nada demais. Ele é um garotinho birrento e mimado, isso sim.

— Depende do ponto de vista. E qual é o dele? – Inspirei fundo antes de responder.

— Fui atrás da sua linda namorada — Ele levantou as sobrancelhas em surpresa.

— Caroline?

— A única – Olhei em volta na rua lotada, me certificando de não sermos ouvidos. Elijah soltou um longo e irritante suspiro.

— Mais essa. Sua relação com ela é mais conturbada do que eu pensava. Com você nada é simples, não é? Se bem que... — Olhei pra ele. O que? — Mas, por que eu acho que tem mais nessa história?

— Você tem razão, brother. Tylah foi o primeiro dos meus híbridos No início, a ligação o fazia ser devoto e obediente. Mas, depois ele começou a ser desleal e fez os outros híbridos seguirem o mesmo caminho. O clã simplesmente tentou se livrar do seu mestre. Claro que eu não tive opção a não ser massacrá-los.

— E? — Elijah falou enquanto atravessava a rua ao meu lado.

— Não está bom pra você?

— Pra mim já passou do limite. Mas, se tratando de você, acho que é só o começo.

— Adoro como você me conhece. Teve um pequeno incidente com a mãe dele.

— Ah, não, Niklaus – Ele diminuiu a passada, me encarando — Você não matou a mãe dele. Foi isso a que a loba se referiu, então. Isso foi muito pesado, até para você. Não pensou nas consequências que isso traria na sua relação com Caroline? Se ela te odiasse, seria bem feito para você.

— Ele precisava de uma lição – Tentei me justificar, mas não soei convincente.

— Está fadado ao fracasso se atacar o namorado dela.

— Ex namorado, se entendi certo.

— Ainda assim fez parte da vida dela. Seria bom você não matar ele.

— Eu sei. Não sou idiota. Por quê você acha que ele ainda está vivo? Não é pela esperteza dele.

— Isso me faz ter esperança para um futuro melhor pra você. Se é capaz de ao menos ponderar antes de matar, é capaz de ter uma vida digna.

— Elijah, eu vou entrar em guerra em breve com os sobrenaturais do French Quarter, não percebeu? Não vou sair de mãos limpas.

— Eu sei. Só estou dizendo que há mais para você do que apenas o poder. Tem a sua família. E pode ter alguém especial. Claro, se as suas indiscrições contra o namorado dela não ficarem no caminho.

— Ex-namorado. Isso é demais pra mim, essa fantasia toda. Ter a minha família unida ou ficar com Caroline não significa que vou mudar radicalmente e ter um novo estilo de vida. Você espera demais da vida, de mim.

— Me responde uma coisa — Ele falou com o olhar longe, na direção do desfile ao final da rua — Não está cansado de viver assim? Não pensa em se aposentar?

— Como se eu fosse um velho?

— Você é um velho. Nós dois somos velhos. — Me poupe, Elijah.

— Falo sério. Não gostaria de viver de outra forma? Porque, sejamos sinceros, mil anos de desgraça, de derramamento de sangue, já estão me esgotando. Eu gostaria de fazer outras coisas. Experimentar novos horizontes. Você não? Não é possível que você consiga ainda gostar disso tudo.

— Por que está falando isso agora? Está pesando em abandonar o barco e fugir para uma ilha deserta?

— Porque todas as vezes que nós paramos para conversar eu descubro novos crimes seus. E me fazem pensar que eles sempre voltam para te cobrar. Seria bom se nas nossas próximas reuniões você não me contasse de mais um que quer te destruir por vingança.

— Está dizendo que está parando de acreditar que um dia eu terei redenção? Está desistindo da sua fantasia, brother? – Eu queria rir, mas estava preocupado. Se um dia Elijah desistisse verdadeiramente, seria o fim. Só ele era capaz de nos manter equilibrados.

— Não. Estou dizendo que seria interessante se em algum século futuro você almejasse viver de outra forma e mais saudável. E se quiser mesmo, você deve começar agora a agir diferente.

— Então, você realmente acredita que posso ter minha redenção?

— Nesse momento, as coisas que você me conta me fazem ter umas incertezas, mas nada muito relevante. Não sou cínico. Nós dois já fizemos muita besteira. Não vou jogar tudo nas suas costas. Me arrependo de tanta coisa. Estou cansado, Niklaus.

— Mas, e quanto a você, brother, que tipo de vida normal e fantasiosa você deseja? Está parecendo até a Rebekah. O que você espera que aconteça, Elijah? Que em um remoto feriado de Natal nos reunimos em volta da árvore para abrirmos presentes? Jantares de Ações de Graça? Isso tudo já ficou tanto para trás.

— Então, pra que estamos aqui? Por que está perseguindo alguém se não pode oferecer algo melhor que banhos de sangue?

— Não persigo ninguém – Respondi incomodado — Mas, esse caos será a nossa vida nos próximos meses.

— Eu sei. Mas, não preciso de nada muito elaborado, Niklaus. Só gostaria de ter paz. Não ter ninguém me perseguindo até a morte e muito menos precisar matar em tempo integral já seria bem vindo. E meus planos de paz são a longo de prazo. Só estou dizendo que quando chegar o momento certo, eu irei atrás dessa vida. Vou dar uma volta por aí, em busca de calmaria. Mas, não ficarei totalmente em paz sabendo que você não está. Portanto, esse é um dos principais motivos de eu estar me esforçando muito para a sua redenção. Não é somente por você, é por mim também. E pelos nossos irmãos. Eu só serei integralmente feliz quando vocês também forem. Então, vou te ajudar a conseguir o poder dessa cidade, conseguir a garota que ama. Quem sabe no fim disso você valorize o que realmente importa e finalmente consigamos a felicidade.

— A seu delírio seria comovente se não fosse tosco. Nossos pecados nunca vão deixar de nos assombrar.

— Como eu disse, já pode começar a diminuir ou até zerar os seus pecados que cometeria. Como um bilhete de entrada para um futuro de paz — Ele falou sorrindo e com o brilho da esperança reluzindo em seus olhos castanhos — Para você entender que o poder não é tudo, talvez precise tê-lo primeiro. Quando você sentar no seu trono de rei e se sentir totalmente sozinho, vai ser o momento em que vai desejar desesperadamente estar em outro lugar — O encarei calado, apenas remoendo as suas palavras.

Fiquei pensativo por um tempo enquanto nenhum dos dois se atreveu a falar. Apenas andamos em silêncio até que avistei o bar de Marcel. Afastando as palavras melodramáticas de Elijah da minha cabeça, me concentrei nos deveres. Precisava encontrar Jane-Anne e para isso serviriam meus súditos hipnotizados.

— Vai desafiar Marcel outra vez publicamente? Porque ainda não temos nada sobre Davina – Elijah sacou meus movimentos ao perceber a esquina onde estávamos.

— Que tal você saber só o que interessa? Foque em Jane-Anne. Do resto eu cuido.

— Ainda vai ficar nesse joguinho besta e paranoico? – Ele parou de repente, claramente indignado – Não se esqueça de que fui eu quem negociou com Sophie para realizar o feitiço para você.

— Eu tenho razões para desconfiança. Você e Rebekah são os líderes em fuder com a minha vida — Resolvi mudar de foco. Já era estranho o bastante estar nesse conversa com Elijah sobre Caroline e meus sentimentos, sobre dias de um futuro feliz buscando borboletas nos campos de Andalasia...

— E geralmente você merece o que fazemos. Não sei por quê só descobri agora, mas nada do que fizermos vai te fazer acreditar na nossa lealdade. Você sempre será o babaca paranoico. Erramos às vezes, mas nunca te abandonamos. Você que nos afasta.

— É mesmo? — Cruzei os dedos uns nos outros e me virei para Elijah — Sabe da última da nossa adorada Rebekah? Eu guardei isso por um tempo, pois estava esperando a hora certa de agir. Mas, talvez você deva saber para engolir as ofensas contra mim, como se eu fosse o único a arruinar a nossa paz e felicidade.

— Do que você está falando, Niklaus? Sem enigmas, por favor. Não estou com paciência – Paramos de andar e nos encaramos. Levantei as sobrancelhas e sorri ironicamente.

— Nossa querida caçula tramou a minha morte. E por tabela, a sua também.

— Qual a novidade nisso? — Ele revirou os olhos para as minhas palavras que considerava profanas.

— A novidade é que ela nunca quis me matar de verdade nas outras vezes. Mas, essa foi diferente. Lembra de quando precisamos sair correndo de New Orleans porque Mikael estava nos caçando? Foi ela quem trouxe ele. Ela e Marcel tramaram juntos. Queriam que eu sumisse para que vivessem em paz seu casinho de merda. E você ainda acha que não tenho motivos para me ressentir das suas traições? Essa foi grave, irmão, até para os padrões de Rebekah. Deve admitir — Me recostei na parede entediado. Elijah se virou de repente pra mim e mantinha o cenho franzido e a rosto contorcido ao me olhar sério e chocado. Ficou algum tempo me encarando até que desviou sua atenção para a rua. Eu aguardei em silêncio, saboreando a amarga vitória. Mal podia esperar pelo próximo dia nacional da adaga. Rebekah tiraria umas férias bem merecidas. Dessa vez, Elijah saberia certinho quais minhas motivações. Ele entenderia.

— Não é possível. Nossa irmã não nos colocaria em tamanho perigo — Revirei os olhos.

— Como você acha que nosso pai nos achou depois de séculos nos procurando? Ele sabia exatamente não só a cidade, mas o bairro. Sabia o paradeiro da nossa casa e os lugares onde costumávamos frequentar.

— Ele nos achou em Mystic Falls com facilidade.

— Por causa daquela piranha Petrova. E ele já estava na nossa cola. New Orleans foi o primeiro lugar onde ele verdadeiramente chegou perto de nós. A partir daquele ponto, ele sempre esteve a um passo de nos encontrar.

— Até você queimá-lo até as cinzas. — Obviamente.

— E por que você não puniu ela até hoje? Creio que uma traição dessa proporcionaria uma revanche e tanto da sua parte. O que está tramando?

— Eu pensei, várias vezes, em mantê-la no caixão. Mas, você e Kol sempre me abandonavam. Ela não. Ela me seguia para onde eu fosse. Então, quando ela me tirava do sério e eu era obrigado e enfiá-la naquele maldito caixão, eu me sentia sozinho — Confessei sem pudor, olhando para as paredes. Era demais encarar meu irmão nesse momento — Então, eu punia ela aos poucos, como matar seus namorados ou impedi-la de ter vida própria, é mais doloroso quando o veneno é lento — Sorri com maldade — Nunca deixei ela ser feliz. E nem nunca vou. Ela vai pagar por isso por toda a eternidade.

— Você não tem vergonha? — Ele me olhava enojado — É a sua irmã, que te acudiu quando você precisou, Niklaus. Ela se dedicou inteiramente a você. Nossa irmã é uma sombra que te segue, atendendo às suas necessidades em detrimento das dela.

— E essa mesma irmã é a cobra que quase nos eliminou. Você e Kol iriam cair junto de mim. E a burra também. Ela se esquece de que Mikael também quer o pescoço dela.

— Talvez ela só quisesse nos afugentar para longe dela.

— Você acredita mesmo nessa fantasia?! – Bati com o punho no poste próximo a nós, espumando de raiva por esse imbecil — Ela assinou a nossa sentença naquele dia, Elijah. Escapamos por um triz. Nos afastar é uma coisa. Colocar o nosso potencial assassino declarado bem no nosso caminho é outra totalmente diferente.

— Ok. Digamos que seja verdade o que ela fez — Eu bufei consternado e já ia responder com palavrões quando ele levantou a mão para deixá-lo prosseguir — Tudo o que ela já fez ao seu favor não conta? Um erro apaga todos os acertos? Ela está agora mesmo te ajudando em Mystic Falls, aceitando mais umas das suas travessuras que sempre nos tragam para o abismo e para a desgraça. Como sempre, orbitamos ao seu redor sem termos vida própria e você é incapaz de reconhecer isso. Por que ela faria tudo isso se não fosse por amor a você? Ela te odeia de vez em quando, pois você merece, mas ela te ama mais do que te odeia.

— Ela faz por medo ou por qualquer outro motivo que não sei. Ela em Mystic Falls agora é a única coisa que a mantém a salvo da minha cólera – Eu queria beber. Estava há horas sem meu bourbon ou sem sangue. Era necessário mais álcool para eu ter essa conversa sentimental e vexaminosa — Eu preciso dela para que mantenha Caroline a salvo até que eu possa voltar. Então, eu ofereci a minha querida irmã uma trégua em troca dos seus serviços. Eu não mato os namorados dela, deixo a retardada viver como quiser e ela vigia a Caroline. Mas, esse acordo só vai durar enquanto eu precisar dela. Acho que é mais do que Rebekah merece. Assim que eu pisar em Mystic Falls ou ela pisar no French Quarter, vai voltar para o caixão.

— Só pode estar de brincadeira comigo! — Ele quase berrou na minha cara e em seguida foi até o meio fio, arregaçando as mangas com certa violência, enquanto eu fiquei assistindo calmamente ao seu surto — Você não vai tocar na nossa, na minha irmã! Estou te avisando – Andou até mim, apontando o dedo na minha cara.

— E quem vai me impedir, você? — Eu queria rir.

— Se for necessário. Não vai colocá-la num caixão enquanto eu estiver aqui.

— Talvez eu coloque você primeiro no parque dos caixões — Estreitei meus olhos ameaçadoramente, mas mantive o sorriso divertido — É só entrar no meu caminho.

— Pode vir — Ele abriu os braços teatralmente — Eu te desafio. Eu te ajudei até agora, mas se você me irritar, vai se arrepender. Eu posso ser pior que você quando necessário. Você sabe — De fato, o nobre Elijah não era tão nobre assim.

— Eu sei disso, irmão — Falei a última palavra descarregando o sarcasmo. Ele se aproximou de mim e se abaixou a voz para falar perto do meu rosto.

— Um dia, Niklaus, de um jeito ou de outro, você vai pagar por todas essas ofensas contra nós. Talvez você esteja certo, no fim das contas, e seus irmãos traidores aqui sejam os responsáveis pela sua queda. Já recebemos o título, talvez busquemos o mérito.

Encarei ele bem de perto, já na intenção de meter-lhe a mão na cara se falasse mais merda pra mim. Então, sem dizer mais nada, ele me deu às costas e saiu andando.

— Aonde você vai?

— Se vira. Enfrente Marcel e as bruxas sozinho, já que você não precisa de ninguém e seu julgamento é soberano.

Eu quis rir. Elijah se emputecia às vezes, mas ele sempre voltava. Era contra a sua natureza me deixar à deriva. Pensando nisso, segui sorridente até o bar de Marcel. Uma breve reconexão com meu antigo amigo me colocaria na rota até Jane-Anne. Além disso, eu estava sumido das vistas de Marcel há um tempo. Seria menos suspeito eu aparecer de vez em quando.

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Dois dias depois

Estava no meu novo ateliê improvisado, cercado de telas brancas e de tintas nas mais variadas cores. Mandei meus funcionários arrumarem imediatamente esse aposento que tinha um lado de frente para o Mississipi e outro para o corredor de Carvalhos. Era revigorante pintar enquanto sentia o frescor da água doce misturado ao som do farfalhar das exuberantes árvores. E mais, o desenho em si era de se admirar, me causando imensa alegria só de imaginar que um dia isso seria realmente possível.

Estávamos em um dos meus lugares favoritos do mundo. A Cidade Eterna, toda iluminada à noite, transpassava todo o seu esplendor histórico mesmo através do desenho. Caroline jogava uma moeda na Fontana di Trevi, sorrindo largamente, enquanto eu admirava a sua beleza que conseguia ofuscar a altivez de Roma. Eu também fazia o meu desejo, tal como manda a tradição. Imitando seu gesto, eu também estava de costas para a fonte e de olhos fechados, pois só assim o pedido funcionaria. O meu desejo sabia bem qual era. Ser amado incondicionalmente por Caroline, de maneira a viver bem e feliz com ela por toda a eternidade. Exagerado? Talvez. Até um pouco deprimente e piegas, mas estaria mentindo se dissesse que não desejo isso. E o potencial que temos para vivermos grandes aventuras por aí é tão grande que me causa frenesi só pela expectativa. Seria sonhar demais com isso? Em ver seu rosto se iluminando ao fazer novas descobertas sobre o mundo? Eu queria ser essa pessoa a mostrar a ela o que o mundo tem a oferecer, pois nada me faria mais feliz que ser o responsável pela sua felicidade.

Como assinatura, deixei escrito:

Como prova de que a lenda é verdadeira, joguei a moeda duas vezes e encontrei você.

Parei um pouco para admirar a arte que era o rosto lindo de Caroline na minha tela. Eu não era capaz de representar bem a sua perfeição, mas conseguia chegar perto o bastante para ficar hipnotizado olhando pra ela. Pincelando os toques finais, a porta do quarto abriu de repente e Elijah passou por ela apressado. Eu não gostava dessas intromissões, especialmente quando estava pintando algo tão pessoal. Quando eu ia reclamar, ele encostou o dedo nos lábios para que eu fizesse silêncio.

Prestando mais atenção, notei que ele estava numa ligação com alguém. Pude ouvir claramente a voz irritante da minha mãe do outro lado da linha. Ela apenas disse:

— Está feito. Ele já pode sair. Agnes veio comigo até New Orleans e está desfazendo o feitiço nesse momento – Demorei a processar aquelas palavras. Era o que eu pensava? A confirmação veio no brilho intenso nos olhos castanhos de Elijah. Seu rosto contraído de apreensão deu lugar a um sorriso satisfeito. Ele acenou pra mim e antes mesmo de ouvir a resposta, corri na minha velocidade vampírica, sem me importar com meu estado deplorável, sujo de tinta da cabeça aos pés.

Passei pela casa que nem um raio. Entrei no carro sorrindo, sentindo um arrepio na espinha e desconforto no estômago. Estava ansioso, suava frio e vibrações estranham percorriam todo o meu corpo. Sem acreditar na minha sorte, desconfiei do universo. Poderia ser uma arapuca ou um alarme falso. Iria averiguar primeiro a veracidade das informações. A divisa da cidade me daria as respostas.

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Quando cheguei na fronteira, me surpreendi com a presença da figura que eu sabia estar a quilômetros de mim. Desci do carro e andei até ela com pressa. Tomado por um assomo de alegria e sem segurar as emoções, um sorriso de canto brotou naturalmente em meu rosto e caminhei até uma das minhas pessoas favoritas nesse mundo.

Little Sistah – Abri os braços em salvação – Não te esperava por aqui.

— Não era o plano. Mas, eu vim com a mãe te resgatar. Você sempre precisando de mim para te salvar das arapucas, não é, Nik? – Ela continha os olhos marejamos.

— E você não perderia a oportunidade de tripudiar a minha desvantagem.

— Jamais – Ela sorriu abertamente e, sem me conter, a envolvi num abraço apertado e carinhoso. Era muito bom rever a minha pilantra irmãzinha. A minha felicidade era tanta que não me importei mais com as injúrias de Rebekah contra mim. Pareceu irrelevante e até sem sentido dar tanta ênfase a isso no momento.

— Mas, me diga, por que está parada aqui e não foi até nós? – Segurei seus ombros delicadamente.

— Alguém precisava vigiar os passos de Esther com essa bruxa — Ela acenou na direção por onde Agnes e minha mãe andavam apressadas — Que garantias eu tinha de que estavam fazendo o que falaram? – Sorri em aprovação. Confiança é para amadores.

Esther me olhou e me deu um breve aceno, enquanto vinha na minha direção presunçosa demais para o meu gosto.

— Ainda bem que estou de volta, não é? O que seria de você, meu filho, sem a minha intervenção nas suas perigosas travessuras — Ela fava comigo num tom como se eu fosse uma criança idiota e malcriada. Eu ia responder a altura quando avistei Agnes. Ela continuou parada ao longe, me encarando friamente. Pude sentir a sua repulsa emanando pelo vento mesmo à distância. Ela não estava nada feliz em me libertar. Sorte dela que eu estava preocupado demais com outras questões naquele momento, mas a hora de cobrar a afronta contra chegaria. Ninguém me trai dessa forma e sai ileso — Bem, meu trabalho ainda não terminou. Devo me apressar para avançar às próximas etapas. Mal voltei à vida e já preciso me articular no meio do caos que te acompanha. Espero que fique bem claro na sua cabecinha que você está livre por causa de mim, Niklaus. Nunca se esqueça disso.

— Tenho certeza de que você não me deixará esquecer — Ela sorriu exalando frieza no olhar e, com um aceno para mim e para Rebekah, nos deu às costas.

Caminhando juntas em direção ao breu da noite, Agnes deu uma última espiada por cima dos ombros, nitidamente me desafiando. Eu sorri ironicamente pra ela, deixando claro que o nosso assunto não tinha acabado. Quando as duas desapareceram no fim da estrada, dei atenção à minha adorada caçula.

— Muito obrigado, Sistah, fez muito bem – Coloquei a mão no seu ombro.

— Fui treinada pelo expert da paranoia.

— Elijah? – Nós dois rimos – Mas, de verdade, irmã, te agradeço profundamente por não me odiar, por ainda querer me salvar apesar de tudo. Sei que ainda vou ouvir seu sermão pelo caos que vim buscar nessa cidade.

— Alguém precisa te fazer colocar os pés no chão – Ela sorriu sem humor — E eu não te odeio, irmão. Mas, você me enlouquece às vezes a ponto de eu querer te esquartejar.

— Tão fraternal. Adoro o jeito como demonstramos nosso amor – Ela deu um tapa no meu ombro. Nos encaramos em silêncio até que ela ficou bem séria.

— Sabe porquê estou aqui, não sabe? – Esperei a resposta em silêncio – No fim das contas eu sempre vou lutar por você, por mais que eu resista no início ou que te deteste no processo – Abri a boca para falar, mas ela me interrompeu — Vá ser feliz, Nik. Um de nós precisa ser. Mas, não se esqueça de que foi graças a mim também – Ela sorriu sapeca, com lágrimas descendo discretamente por sua pele lisa, e dessa vez a ficha caiu, como concreto sobre meus ombros, sobre o mal que fiz a minha irmã.

Mantive Rebekah presa a mim por séculos, torturando a sua alma, escravizando a sua vida. Ela estava quebrada e frágil assim como eu e grande parte dos seus transtornos foram causados pelo meu egoísmo. Meu afeto por Rebekah foi consumado da pior forma possível e agora eu podia enxergar isso com clareza através do filtro dos meus sentimentos por Caroline. Eu só quero o melhor para Caroline, quero fazer o que estiver no meu poder para deixá-la feliz, não quero prendê-la a mim ou força-la a retribuir meu afeto custe o que custar e foi exatamente o oposto que fiz com Rebekah durante todos esses séculos. Era hora de amar Rebekah do jeito do certo, não de forma doentia e criminosa. Analisei a expressão da minha querida irmã e ela parecia genuinamente feliz por mim. Eu não poderia fazer o mesmo? Fazemos concessões por quem amamos. As últimas semanas provaram isso quando, de muito bom grado, compactuei com os maiores absurdos apenas por Caroline. Foi apenas por ela. E minha irmã merecia algo semelhante, merecia muito mais do que recebia de mim. Se Rebekah estava aqui mesmo depois de todas as minhas faltas graves apenas para que eu pudesse ter meus anseios atendidos, significava que minha irmã estava há anos luz mais avançada que eu no entendimento do que é o amor puro e verdadeiro. Certo de que tomava a decisão correta e digna, segurei minha irmã apertando seus braços carinhosamente.

— Minha querida irmã, você está livre. Eu não quero te ferir. Nem quero vingança. Apenas desejo que você encontre tudo o que busca e que seja feliz como estou agora. Eu prometo te apoiar no caminho, seja no que der e vier. Me arrependo de muita coisa que fiz com você e espero te recompensar no futuro. Quem sabe ainda exista uma chance para nós – E essas palavras surtiram como válvula de escape. Um peso que eu não sabia que carregava me aliviava o coração. Inspirei o ar puro da liberdade, pois era sim libertador não perseguir mais minha irmã caçula. Os olhos azuis de Rebekah reluziram de tal forma que eu nunca vi antes.

— Eu não me arrependo do que fiz contra você, pois você mereceu, mas sou grata por não ter ido até o final, por não ter tido essa coragem. Antes eu pensava que era apenas covardia, agora sei que nunca serei capaz de te dar às costas definitivamente. E estou tão feliz por ainda ser possível conversar com você, de ouvir sua voz esbravejando meu nome. Me faz ter a esperança de que meu Nik ainda está aí só esperando para se libertar do Niklaus. Eu amo você, Nik, always and forever.

Já não segurava mais as lágrimas, que lavavam para fora de mim parte dos meus pecados. Rebekah sorria largamente, enquanto chorava tanto quanto eu. Ela me abraçou forte mais uma vez.

Quando se afastou de mim, segurei sua mão por mais um tempo, guardando bem na memória o rosto feliz e pacífico dela. Há muito tempo não via minha irmã desse jeito e faria o que estivesse no meu poder para mantê-lo assim.

— Você vem comigo? – Olhei para o seu carro estacionado bem na divisa da cidade.

— Não. Quero falar com Elijah primeiro. Saudade do meu patriarca. Mas, você não precisa me esperar. Sei que está ansioso para voltar a Mystic Falls – Não respondi. Ainda me constrangia falar de Caroline tão abertamente.

— Vai gostar de como New Orleans está. Pelo menos na parte turística. Sobre seu governo, falamos disso em outra hora – Depois de nosso acordo pacífico, a última coisa que eu queria era tocar no assunto de Marcel.

— Não vou demorar. Ainda tenho assuntos a tratar em Mystic Falls, assim como você – Levantei as sobrancelhas. Claro. O quarterback. Vai entender o motivo que fazia minha irmã gostar desse humano sem eira nem beira. Mas, eu cumpriria a minha promessa. Deixaria ela viver como quisesse, por mais patético que fosse. Larguei sua mão lentamente.

— Te vejo do outro lado, irmã – Ela sorriu e fui até o meu carro.

Saí dali cantando os pneus. Precisava chegar logo até ela. Esperava por isso há meses, antes mesmo de ser preso sem nenhuma cerimônia. Mas, a vida sempre dava um jeito de adiar a realização dos meus desejos mais profundos, como uma espécie de punição pelos meus crimes. Mas, agora nada e nem ninguém iria me impedir de conseguir o que eu quero. Percorri um longo caminho até aqui e estava na minha hora. O destino me aguardava. Finalmente me sentia em casa, pertencente a algum lugar ou a alguém. Parecia tão natural seguir esse caminho, como se Caroline e eu estivéssemos escritos para termos nossos caminhos cruzados.

Meu coração acelerava a medida que me aproximava do aeroporto. Me sentia muito nervoso, com as mãos suando frio e uma eletricidade esquisita percorria pelas minhas veias. O quente na minha pele e no meu sangue estava mais intenso do que quando sentia a empolgação e prazer por massacrar minhas vítimas. Era outra coisa, que fazia meu corpo se arrepiar e ficar gelado mesmo quando emanava tanto calor. Engoli em seco. O que eu diria a ela? Me senti enjoado, com um embrulho no estômago. Seria mais fácil enfrentar um exército de inimigos. Era só arrancar umas cabeças e uns corações. Agora, enfrentaria o meu maior desafio na vida; dizer o que eu sentia de verdade sem um sombra sequer do meu mau temperamento, sem me sabotar no processo. Pior que isso, eu deveria ser capaz de abrir a mente e o coração para ser aceito por ela, para deixá-la se aproximar de como quisesse sem afastá-la de mim de vez.

Como eu faria isso? Alisei a testa agoniado. Não faço ideia de como ter uma relação estável e saudável com alguém. Minha relação familiar mostrava bem isso, como eu era incapaz de me aprofundar nas emoções sem antes lutar fortemente contra qualquer tipo de troca de afeto, fosse por vergonha ou por frieza. Caroline era um espírito livre e bem resolvida consigo mesma. Ela sempre sabia o que queria e como fazer para consegui-lo. Como eu lidaria com essa facilidade toda dela quando eu tinha severas dificuldades para expor meus sentimentos? Como eu conseguiria a paciência dela para esperar meu tempo sem perdê- la pelo caminho? Essas dúvidas me consumiam como ácido corroendo meus neurônios. Estava perdido nos meus medos quando ouvi o sino de notificações no meu celular. Com uma mão no volante, peguei o telefone do bolso e um sorriso besta brotou nos meus lábios quando vi quem era.

Espero que esteja pronto para se desculpar. Mal posso esperar pra ouvir.

Caroline, atrevida como sempre, me desafiava outra vez. Mas, senti a provocação de longe. Resolvi responder a altura.

Estava pensando a mesma coisa sobre você. Ou talvez você tenha quer vir aqui pessoalmente gritar comigo. Também mal posso esperar.

Contava ou não que estava agora mesmo correndo de volta pra ela? Que em breve ela poderia berrar comigo bem na minha cara? Sorri só de antecipação, imaginando seu belo rosto se contorcendo de prazer...quero dizer, de raiva de mim.

Meus pensamentos voaram com essa loira abusada e meus medos de repente pareceram muito longínquos e infantis. Me senti mais confiante, mais alegre. O nervosismo deu lugar a excitação e ansiedade por chegar logo naquela cidazinha sem um pingo de carisma.

Meu humor estava tão bom que resolvi ligar o rádio. Parecia tão humanamente idiota ficar ouvindo música ao dirigir, mas naquele momento eu me sentia normal. Mais normal como nunca antes. Sem conter os risos, comecei a vagar por várias estações. Procurava alguma música clássica ou algum Jazz, mas essa geração de cabeças vazias empurrava para o fundo a verdadeira qualidade da música. Mas, até que encontrei uma popizinha não muito ruim e senti um arrepio na espinha o entender o significado da letra. Sorrindo largamente, me deixei envolver pelo clima da euforia sem medo de ser feliz.

In your eyes, I'm alive
(Em seus olhos
Estou estou vivo)

Inside you're beautiful
Something so unusual
(Por dentro você é linda
É Algo tão incomum)

In your eyes
I know I'm home
(Em seu olhos
Eu sei que estão em casa )

Every tear, every fear
Gone with the thought of you
Changing what I thought I knew
I'll be yours for a thousand lives
(Cada lágrima, cada medo,
Foram embora com o pensamento de você
Mudando o que eu achava que sabia.
Eu serei seu por mil vidas)

I'm free as a bird
When I'm flying in your cage
(Eu sou livre como um pássaro
Quando estou voando na sua gaiola)

I'm diving in deep
And I'm riding with no brakes
(Estou mergulhando fundo,
Estou andando sem amarras)

And I'm bleeding in love
You're swimming in my veins
(E Estou sangrando de amor
Você está nadando nas minhas veias)

You got me now
(Você me pegou agora)

Been waiting for a lifetime for you
(Estive esperando uma vida toda por você)

Been breaking for a lifetime for you
(Estive despedaçando por uma vida toda por você)

I wasn't looking for love 'til I found you
(Não estava procurando por amor até te encontrar)

For love 'til I found you
(Por amor até te encontrar)

Notas finais
E aí, o que acharam? Então…como esse fazia parte de um super capítulo de 50 mil palavras, talvez vocês sintam que foi um capítulo de transição. E foi mesmo. Spoiler alert: Klaroline oficialmente no próximo capítulo. Surtoooo. Acho que deu pra notar só pelo final. Enfim, qualquer dúvida, sugestão ou crítica, podem falar a vontade. Sou toda ouvidos (olhos). Afinal, a ideia é sempre melhorar para o nosso Klaroline ser ainda mais épico. Como vocês tiveram que aguentar mais palavras que o normal, não vou me alongar muito nas notas. Mas, algumas considerações são interessantes. La Fontana Di Trevi fica em Roma e a lenda diz que quem jogar a moeda duas vezes encontrará o amor da sua vida. E se jogar três vezes, se casará com essa pessoa. Roma foi citada por Klaus uma vez na série e outra na fanfic, em convites que ele fez a Caroline de passeio pelo mundo. Inclusive, já foi Tag no Twitter “Klaroline in Rome”. Então, o que acham de Klaroline em Roma? Eu adoro a ideia. A música do final é For you, de Rita Ora e de Liam Payne. E sobre as tretas que rodeiam Klaroline, me digam o que acham. Se está muito denso de acompanhar ou se está dando um tempero interessante. Particularmente acho que todo o drama que fará Klaroline surgir como um casalzão da porra. Então, não gostaria de simplificar as coisas para eles, por mais que seja interessante ver os momentos de felicidade do casal (em breve muitos momentos). Enfim, até o próximo capítulo e mais uma vez obrigada pela paciência com meus atrasos. Adoro vocês, meus Klaroliners, que ainda mantém a lealdade ao nosso casal mesmo depois de todo o perrengue e tempo que se passou.