Scarlet Dynasty - Klaroline

23 Love Can Cloud Your Judgment


Notas iniciais
Chegueeei Cheguei chegando Bagunçando a zorra toda E que se dane Eu quero mais é que se exploda Porque ninguém vai estragar meu esquemaa...quer dizer, meu diaa Avisa lá, pode falar Se não gosta, senta e chora Hoje eu tô a fim de incomodar Se não gosta, senta e chora Mas saí de casa pra causar E se acham que quem canta isso para vocês sou eu ou a Ludmilla, Mamãe Original manda lembranças. Esse capítulo seria a segunda parte do anterior, lembram? Mas, mesmo sendo "apenas" a segunda parte, ele terminou com 35 mil fucking palavras. Então, a segunda parte teve que ser dividida em duas hahaha. No final das contas, viraram capítulos independentes. E o que classifica um capítulo em um só, dentro do meu raciocínio? A ideia geral. Não gosto de picotar as ideias, então tive que me virar para cortar esses capítulos sem quebrar o clima da ideia geral. Enfim, vamos acabar com esse blá blá blá e ir direto ao ponto. Divirtam-se! Lá vem tretaaa!

Klaus

Sem dar muita atenção para a figura inconveniente ao meu lado, disquei para meu irmão. Elijah atendeu no segundo toque.

— Conseguiu? — Perguntei ansioso. Mas, nem era uma tarefa complexa se meu irmão utilizasse todos os nossos artifícios ao nosso favor.

— Claro. Estou agora mesmo no pomar decidindo o que fazer com ele.-

— Você não pode tomar decisões sem a minha presença. É a minha casa — Falei indignado.

Nossa casa, Niklaus — Revirei os olhos.

— Mas, fui eu quem mandou você comprá-la. Então, as decisões finais são minhas.

— Que seja. Não estou com paciência para discutir isso agora. Saiba que já mandei os empregados arrumarem tudo para a nossa instalação. Seu quarto deve estar pronto quando você chegar – Será que ele lembrava qual era o meu quarto? Porque eu não queria nenhum outro.

— Ótimo. Estou cansado. Preciso de um minuto de paz – Olhei de esguelha para a sonsa ao meu lado e Esther sorriu; tive que me conter para não xingá-la — Se bem que eu tenho umas questões para tratar com as bruxinhas do gueto – Dessa vez encarei minha mãe e seu sorriso presunçoso sumiu — Talvez eu não possa desfrutar tão cedo da minha adorada Oak Alley. Tudo vai depender da colaboração da nossa mãe que, a propósito, está sentada bem ao meu lado. Acredita nisso, irmão? Uma sina — Elijah ficou calado por um tempo. Só ouvia sua respiração ofegante. Ele realmente parecia atribulado com os afazeres da casa. Ou esse era o Efeito Esther.

— Então, mais um quarto. Esther veio se juntar a nós por um bom tempo, presumo, se teve esse trabalho de vir até aqui. Desde que seja para ajudar, vou atura-la como eu puder – Ele falava calmo demais para uma notícia desse porte. Só faltava ele e Esther estarem de segredinhos contra mim.

— Fale por você. Quando ela estiver dormindo, vou sufocá-la com o travesseiro mais fino que tiver nessa mansão — Sorri para a minha querida mãe. Ela me desafiava com o olhar. Estava se achando demais sem ter onde se garantir.

— Você já está vindo, Niklaus? Eu pedi pra você esperar, mas a quem estou enganando — Elijah parecia impaciente. Ele estava assim agora, perdendo as estribeiras por nada. O que estava acontecendo com meu nobre Elijah?

— Já. Estou a poucos minutos daí, mesmo que você não tenha me informado nada sobre as supostas negociações da minha casa, eu decidi te encontrar mesmo assim.

— Eu imaginei que você viria. Não tem temperamento para ficar sentado esperando.

— Então, essa discussão não tem sentido.

— Até daqui a pouco — E assim, ele desligou sem esperar que eu respondesse. Mal educado.

Guardei o telefone no bolso, antes de dar uma última olhada no visor, na esperança de ver algum sinal de Caroline.

Seu silêncio era pior que sua gritaria. Ela deveria estar me xingando de tudo no momento. Dei um sorrisinho só com a visão dos seus lindos olhos azuis me fuzilando. Eles brilhavam numa intensidade que só o combustível da sua ira contra mim era capaz de fazê-lo. Sei lá como explicar isso, mas era adorável o jeito como eu tirava ela do sério. O jeito como ela batia o pé no chão com petulância e balançava os cabelos com tamanha indignação pelos meus crimes. Bufei consternado por não poder ver aqueles olhos tão cedo e me apressei até à casa. Estava ansioso para revê-la.

Esther às vezes me olhava de esguelha, mas ficava calada. A viagem não era longa, apenas meia hora do French Quarter, mas cada minuto confinado no carro com essa onça era tortura o bastante. Por sorte, o martírio já estava no fim.

Entrei na estrada principal e já se podia avistar o pomar de carvalhos antigos, altos e sofisticados, que acompanhavam toda a extensão de um largo corredor central até à traseira da mansão, que dava para ser vista mesmo de longe. Mas, era necessário contornar o corredor dos carvalhos para chegar à frente da casa, pois além de ser fechado por altos portões de ferro preto, não havia passagem para carros.

A imponência espetacular da mansão era emoldurada por mais carvalhos exuberantes. Vislumbrado com a vista, admirei a minha antiga/nova casa favorita. Apesar de alguns detalhes estarem diferentes, ainda preservava toda a essência de uma Casa Grande das colônias, pois a edificação original ainda estava lá, elegantemente conservada. Fiquei bastante empolgado só de ver a faixada, então mal podia esperar para entrar e explorar seus cômodos clássicos e finos. Se é que ainda estivessem por lá. Eu gostava da arquitetura contemporânea, mas ainda me encantava o estilo da Idade Moderna. Meu sonho de aquisição era o Palácio de Versalhes, mas seria impossível ser dono de um lugar como aquele sem chamar atenção, ainda mais por causa dos turistas que não sabiam nem 1% do que se passou naquela corte.

Contornando os arbustos altos, espaçados e bem cuidados, me deparei com a sua belíssima entrada principal. Não havia portões, apenas umas divisas com arbustos bem podados e mais curtos. Estacionei ao lado da entrada, num pequeno corredor para visitas, deixaria o carro pronto para saída. Em breve eu estaria de volta ao Quarter a negócios.

As portas duplas de madeira estavam fechadas, mas não trancadas, constatei ao passar por elas facilmente. Elijah fez seu trabalho direito e a casa era minha, senão eu não poderia ter entrado. Sorri satisfeito, decidindo por onde que começaria o meu tour de reconexão com aquela propriedade esplêndida. Esther entrou logo atrás de mim, mas meu humor estava tão bom ao estar vagando por aqueles corredores outra vez que nem dei atenção à sua presença.

Por um breve segundo, fiquei parado olhando para a ampla escada de madeira escura que ficava de frente para a porta, encostada na parede esquerda, e meus pensamentos devanearam pelas memórias do passado. A maioria eram boas, pois vivi meus melhores dias naquela casa. Mas, outras...somente desgraça. Lentamente comecei a explorar os cômodos, averiguando o que estava diferente e o que tinha se mantido. Para meu alívio e felicidade, grande parte da decoração e do estilo se mantiveram fiéis às suas origens, embora muitos acréscimos modernos se misturassem ao clássico. Fui para o quintal de trás, passando o olho em cada detalhe que cruzava o meu caminho, e senti um assomo de felicidade ao me deparar com a panorâmica do jardim e do corredor de carvalhos. Me encostei cruzando os braços em uma das muitas e largas colunas que se elevavam até o telhado, ultrapassando a varanda do segundo andar. Um cenário perfeito para as minhas pinturas. Só faltava dar uma visitada no corredor do Mississipi, numa parte mais distante da casa. Eu faria isso mais tarde, mas precisava ao menos da vista de cima. Dei a volta pela varanda que circundava todo o primeiro andar e entrei na casa pelo saguão de acesso à cozinha, onde se encontrava outra escada até o segundo andar. Vagando pelos corredores de cima, entrei no meu antigo quarto e a nostalgia não poderia ter sido maior. A cama de dossel de madeira escura e larga ainda estava lá, mesmo que com acessórios diferentes e cheia de restaurações. Alguns móveis passaram por reformas, notei, mas outros se mantiveram fielmente como deixei. Era como se aquela casa ainda me esperasse, como o destino. Passei o olho pelo quarto e uma pequena pintura minha estava num cantinho, como se fosse apenas parte da decoração minuciosamente planejada. Isso me fez notar que o ambiente estava muito sofisticado e muito bem conservado com os detalhes antigos e originais. Fiquei curioso. Ou o dono era um louco velho antiquado ou a casa tinha virado uma pousada, um hotel histórico. Me irritou o fato de estranhos sem um pingo de zelo e de apreço por relíquias como aquelas tivessem pisado na minha madeira maciça de Carvalho ou tivessem tocado nos meus móveis igualmente valiosos, todos esculpidos por artesãos renomados. Eu passei meses organizando a construção daquela mansão, garantindo que tudo que fosse usado no seu levante fosse autêntico e refinado, me certificando de tudo sair perfeitamente como eu queria. Bufei consternado. Fui obrigado a deixar a casa mais incrível que eu havia construído por causa de Rebekah, de Marcel e de Mikael. Mas, a hora desses três iria chegar, posso garantir. Sem querer enveredar meus pensamentos para coisas ruins justamente naquele momento especial, fui para a minha varanda. Igual ao andar de baixo, também havia uma ampla sacada que envolvia toda a casa. Era perfeito para refeições pela manhã e pela tarde, onde se podia apreciar a vista do Mississipi e de grande parte do arvoredo da propriedade. O meu quarto ficava exatamente em uma virada da mansão, onde eu podia desfrutar tanto do bosque quanto do rio, casando perfeitamente com a minha necessidade de inspiração artística. Foi mais uma das minhas brilhantes ideias para a sua arquitetura.

Me sentei numa banco de frente para o rio e inspirei fundo para sentir o aroma das flores misturado à brisa das águas doces do Mississipi. E fiquei imaginando...será que Caroline iria gostar de um lugar como esse? Mal podia esperar para dar um passeio com ela pela propriedade, mostrando tudo o que há de magnífico naquele lugar, fazendo ela conhecer bem meus gostos. Ela merecia umas férias de qualidade, pois já viveu muitas desgraças para alguém tão jovem. Depois de tantas atribulações, uma tarde genuína como aquela faria bem para a sua alma. E eu queria muito a companhia dela naquele lugar comigo. Seria muita fantasia ter essa esperança? Quem sabe um dia. Ela gostava de cavalos, disso eu me lembrava bem daquele baile da minha família. Ela estava lá, perfeita e radiante, com os seus olhos lindos e azuis brilhando para o cavalo. Só quem era capaz de enxergar a grandeza que entendia a força e o poder dessas criaturas magníficas. A inspiração para o desenho foi imediata e horas depois estava pronto um esboço da sua beleza ao lado do cavalo. Bem, a casa possuía um estábulo bem diversificado. Perguntaria depois a Elijah se ainda fazia parte da propriedade. Se não fizesse mais, eu mandaria construir um. Tenho certeza de que ela iria às alturas por comandar um projeto como esse. A Miss Mystic Falls adorava um grande evento onde ela pudesse dar ordens para todo mundo. Imagina se eu desse uma obra desse porte em suas mãos, ela iria surtar de felicidade que nem uma criança feliz, da mesma forma que ficaria uma completa lunática controladora compulsiva exigindo perfeição de tudo e de todos. Sorri com essa lembrança, pensando na cerimônia de entrega do prêmio à nova vencedora, pois mantinha bem vivo na minha mente cada momento daquele dia especial com ela. Não éramos mais inimigos em guerra, nem mesmo ela me tratou com hostilidade, para meu alívio e alegria. Eu vi seu lado mais gentil comigo, de coração e de mente aberta para me conhecer mais e assim passamos a tarde mais pacífica de toda minha estadia em Mystic Falls.

Afinal, acho que foi um encontro, tal como ela havia me prometido. Não um apropriado, com tudo o que eu faria pra e por ela, mas contava.

Quando cheguei no jardim lindamente decorado pelas suas inexperientes súditas, após muita represália por parte da organizadora, Caroline andava apressada de um lado para o outro reclamando com seus serviçais. Era engraçado de ver, ao mesmo tempo fofinho. Era muito boa no que fazia, mesmo custando a sanidade de todos os envolvidos. Como uma verdadeira perfeccionista, ela se irritava com os mínimos detalhes fora do lugar. Era inadmissível para ela haver taças de champanhe vazias e largadas nas mesas. Eu sorria divertido com cada investida indignada que ela fazia sobre os incompententes subordinados. Fiquei parado por uns minutos observando a beleza de seu rosto se contrair ao notar suas ordens sendo desobedecidas. E para o terror dos funcionários, ela não deixava barato. Ela não reparou na minha aproximação pois estava distraída demais tagarelando ordens por onde passava. Ajeitei minha gravata com um pouco de receio de estar fora do seu padrão do aceitável, pois bastava um passo em falso para ela se mostrar mais resistente às minhas investidas. Eu precisava estar perfeito para ela não ter uma desculpa esfarrapada para me ignorar durante a festa. Só faltava me dizer que eu estava com a blusa errada ou com os sapatos sujos demais de lama para andar ao lado da rainha consorte da festa. Uma certa insegurança bateu no meu peito quando ela sacudiu os cabelos loiros quase gritando com os músicos impecáveis, mas confesso que estavam mesmo fora de sintonia com o concurso. Ela estava certa em manda-los trocar de música, pois ganhava um ritmo deprimente. Revirei os olhos com a estupidez daquele grupinho mequetrefe que se achava a quinta sinfonia de Beethoven e me concentrei no que ela dizia. Quando ficou de costas pra mim, ganhei mais coragem de me aproximar. Eu pegaria ela de supresa. Gostava de ver a cara que ela fazia quando eu chegava do nada. Era uma mistura de prazer com "estou ferrada". Ao se virar de repente, ela se surpreendeu comigo e parou de andar imediatamente. Consegui capturar a atenção da Miss Mystic Falls?

E como estou indo?Indaguei serenamente, esperando ansioso por uma resposta positiva. Ela levou uns segundos antes de responder, piscando sem graça, mas com o olhar preso no meu.

— Você está perfeito – Custou a ela admitir – Mas, tão irritante que mal consigo olhar para você — Eu entendi o recado. Estava perfeito demais para ela me colocar algum defeito. Sorri um tanto envergonhado e abaixei a cabeça. Era bom demais ouvir isso. Dificilmente alguém conseguia me arrancar esses sorrisos sem graça e esse constrangimento todo, mas foi uma sensação boa, com direito a borboletas no estômago. Era um tanto patético me sentir um adolescente inseguro, mas era estranhamente bom ao mesmo tempo.

Fiquei pensando naquele dia por mais um tempo, lembrando da sua risada contagiante e alegre. Até hoje o seu discurso estava cuidadosamente guardado comigo, numa caixinha de madeira maciça dentro do meu Closet lá em Mystic Falls, onde eu deveria estar no momento. Se eu tivesse sorte, poderia trazê-lo comigo e adicioná-lo às relíquias daquela mansão. Daqui há mil anos, o discurso dela poderia ser um achado arqueológico.

Me levantei me sentindo um pouco mais relaxado que antes e uma sonolência se apoderou de mim. Entrei no quarto com a intenção de tomar banho e olhei cobiçando a minha cama, que parecia macia e aconchegante. Mas, antes de descansar, pensei em ordenar algo especial para hoje. Nosso primeiro dia em Oak Alley deveria ser comemorado. E Elijah até que merecia ser agraciado por seu trabalho duro. Talvez até promovido. Peguei o telefone que repousava na mesinha de cabeceira ao lado da cama e interfonei para a cozinha. Isso provou que eu estava certo, a casa tinha virado um hotel cultural. Revirei os olhos e esperei ser atendido. Após algumas instruções, estava razoavelmente satisfeito. Então, resolvi me instalar de vez, iniciando meus dias ali com um banho de banheira relaxante. Iria precisar. Em breve estaria no Quarter outra vez derramando um sangue aqui e outro ali, se fosse estritamente necessário, como prometi a Caroline.

Saí da banheira enrolando a toalha verde clara em volta da minha cintura, me enxuguei um pouco com outra toalha e deitei na cama desse jeito mesmo. Me virei de bruço, cheirando a seda dos travesseiros e lembrei do perfume dos cabelos dela, que dava para sentir sempre que ela fazia questão de jogá-los na minha cara ao me dar às costas com petulância. Esse pensamento, misturado à umidade do pano, me deixou excitado, me acendendo enquanto a minha consciência lutava para desligar. Minha mente começou a viajar num certo corpo esbelto, enquanto imaginava minha língua passando naquela pele de porcelana.

Ela vinha na minha direção sorrindo de canto um tanto maliciosa. Passando os olhos nela de cima abaixo, admirei seus contornos, que eram valorizados pela camisola curta e justa de seda azul clara, destacando seus lindos olhos. O tecido era pequeno o bastante para mostrar suas pernas perfeitas e começo dos seus quadris, quase me dando uma visão completa da sua calcinha branca e minúscula, e era tão fino que transparecia o bico dos seus seios redondos e rígidos. Senti meu membro endurecer mais só com essa visão. Bastava só uma olhada nela para me atiçar completamente. Lambi os lábios na vontade que ela me dava e me aproximei até a ponta da cama. Ela sentou no meu colo protegido apenas pela toalha, enlaçando suas coxas ao meu redor, mordendo meu pescoço e apertando a minha perna. Apertei seu corpo contra o meu num abraço caloroso, cheirando seu cabelo enquanto ela roçava seu quadril esmagando minha ereção latejante me deixando louco. Agarrei seus seios com as duas mãos e ela tremeu, suspirando meu nome bem baixinho no meu ouvido. Niklaus. Estranhei, ela nunca me chamava assim. Segurei seu rosto e mais uma vez sua boca rosa se franziu com meu nome. Niklaus. Apertei seus peitos com mais força e os mordisquei por cima do pano translúcido. Passei o dia todo esperando ela chegar em casa, para que eu pudesse extravasar todo o desejo acumulado após as incessantes atribulações do dia. E meus dias sempre terminavam gostosamente assim, com ela se contorcendo e gemendo nos meus braços. Eu precisava tê-la agora, antes que eu explodisse...

Niklaus! – Acordei sobressaltado, ouvindo a voz eufórica do meu irmão ao longe. Olhei em volta procurando por ele, mas não estava no meu quarto. Pelo menos isso, desgraça – O Brunch já está pronto – Ele disse. E que merda é essa? Pensei zonzo, tentando me recuperar da avalanche de sensações frustradas.

Me encostei na cabeceira da cama, esfregando os olhos. Ainda estava cansado e agora morrendo de tesão. Ótimo, olhei para baixo. Que agonia, chegava a doer. Senti meu corpo um tanto molhado e passei a mão na testa, constatando estar lavado em suor. Não tinha ar-condicionado nesse lugar? Estávamos quase no verão, porra. Eu não ia aguentar esse calor. Tomando nota mentalmente de mandar alguém resolver isso, me levantei apressado e fui até o chuveiro. Talvez uma ducha fria me ajudasse. Eu não poderia descer assim. Pensar em coisas grotescas e nada sexys, bem diferentes daquele corpo gostoso e tentador, também poderia ser eficiente. Enquanto lavava o rosto, sorri. Só ela para mexer com a minha cabeça desse jeito, mesmo a quilômetros de distância. Tentei me concentrar em coisas ruins, como descer e olhar na cara de Esther. Só isso já foi um tônico anti-libido que me fez amolecer quase instantaneamente. Me sentindo mais calmo, saí do banho e arrumei meu cabelo, enquanto olhava em volta. O banheiro recebeu muitas reformas e possuía artefatos fora do design original, como a banheira de mármore branco. Claro, tudo isso para agradar turistas. Peguei algumas coisas da mala dentro do closet improvisado e vesti uma calça jeans preta e também uma blusa preta de manga e gola em v. Desci animado até à sala de jantar, que estava bem decorada, com móveis antigos e novos se misturando em perfeita harmonia. Pelo menos quem decorou não era um sem noção inútil. Me sentei à mesa apreciando os quadros velhos. Pude notar satisfeito, um deles era meu. Estava sorrindo orgulhoso das minhas obras terem sobrevivido tanto tempo assim nas mãos de incompetentes quando meu irmão entrou na sala. O mirei de cima a baixo com um sorriso debochado. Revirei os olhos, meu irmão era uma figura.

— Vai usar terno até para jantar, Elijah?

— É nesses momentos que mais precisamos de elegância — Revirei os olhos. — Olha, o que temos aqui, Salmão grelhado — Elijah sorria genuinamente.

— Com vinho branco, seu prato favorito. Mandei os criados prepararem especialmente para você.

— O que você quer, Niklaus? — A bondade perdeu lugar para uma desconfiança notória. Ele largou a tampa de metal e cruzou os dedos ao se recostar na cadeira.

— Só agradar meu querido irmão, não posso?

— Você nunca faz gentilezas sem querer algo em troca. Então, poupe nosso tempo e diga logo — Ele terminou se servindo de um bom pedaço.

— Só quero agradecer o seu apoio, irmão.

— E mais o que?

— Sério, Elijah. É tão difícil assim de acreditar?

— Você levou mil anos para me levar a esse status de descrença. Serão necessários mais outros mil anos para reverter o processo.

— Não parece o Elijah otimista de sempre, que busca pela minha redenção custe o que custar. Desapontado.

— Só é difícil de presenciar tamanha gentileza e gratidão tão de repente quando só se vê o contrário. Força do hábito.

— Seja como for, aprecio a sua ajuda. Tem sido um braço direito exímio — Elijah franziu o senho — Não que eu mereça muito...

— Têm dificuldade para aceitar seu valor, mesmo sendo egocêntrico. Interessante — Bufei contrariado. Ele não precisava ficar me analisando.

— Só estava pensando no por quê de você ainda não ter fugido para o outro lado do mundo.

— Algumas conexões não podem ser explicadas, não é? — Seu olhar sugestivo me fez entender exatamente do que ele falava. Melhor, de quem ele falava. Resolvi não responder a essa afronta e tomei um gole do meu vinho branco. Percebendo a deixa, ele mudou de assunto. Para um pior.

— E a nossa mãe? Ela me disse que desceria para almoçar conosco.

— Por Deus, não fale dessa onça. Estamos melhor sem ela.

— Vai precisar aturá-lá por um tempo se quiser vantagens contra as bruxas. Tem que admitir que até agora a presença dela fez diferença — Olhei rápido e surpreso para Elijah.

— Como sabe?

— Ela me disse tudo quando chegou, enquanto você se escondia nessa casa sabe-se lá onde só para não aturar a nossa mãe. Eu te conheço bem, Niklaus. Está claramente fugindo dela.

— Que seja. Ela só está barganhando. Ela quer alguma coisa, posso sentir. Quero ela fora da minha casa o mais breve possível.

— Estou atrasada para o almoço? Desculpem. Eu sei o quanto vocês valorizam a pontualidade — Ela entrava na sala com um sorriso presunção e irritante. Esther se sentou à mesa com muita familiaridade, bem próxima de mim, e já se servia de vinho. Era muita audácia. Elijah me olhou sugestivamente. Talvez quisesse que eu ficasse calado.

— Estou atrapalhando alguma conversa importante? Estão como umas caras...

— Sempre há tensão quando você está por perto, querida mãe.

— O que Niklaus quis dizer é que só estamos surpresos com a sua aparição tão de repente em New Orleans.

— Pois é. Vou me instalar aqui, obviamente. Mas, quais são as novidade de hoje?

— Nós é quem perguntamos — Disse Elijah enquanto se servia de torta de maçã — Você parece estar sempre um passo a nossa frente.

— O que as suas novas amiguinhas do gueto estão tramando? Algo a nosso favor, espero – Indaguei desconfiado, enquanto me servia de mais vinho.

— Estou fazendo o que posso para descobrir o paradeiro de Agnes e o esconderijo de Davina, como você bem sabe. Enquanto você dormia ou sei lá mais o que, eu estava trabalhando. Você nunca foi relaxado, Niklaus. Anda muito desconectado dos seus deveres – Fuzilei essa vaca com os olhos. Ela apenas sorriu fingindo não notar — Andei trocando informações com algumas bruxas que estão dispostas a me encontrarem no French Quarter hoje mesmo. Então, é só uma questão de tempo, não se preocupem.

— Você quem deveria se preocupar. Se nos enganar, já sabe. Adaga, caixão — Ela me olhou me censurando.

— Até eu decidir pulverizar essas adagas — Ela disse com um sorrisinho debochado e Elijah parou de mastigar, me encarou preocupado. Ele sabia que não era preciso muito para a nossa mãe acabar com o pescoço degolado.

— Logo em seguida você quem será pulverizada.

— Talvez você consiga, mas não vai ser hoje — Minha frieza na direção dela não foi o suficiente para fazê-la deixar de me encarar — Então, podemos fazer um refeição civilizada? Quanto tempo não temos uma assim. Só faltam os meus outros encantadores filhos para ser perfeito, claro — Ela falou enquanto se servia. A olhei incrédulo, tamanha a sua cara de pau. Elijah apenas me olhava receoso, pronto para me segurar se fosse preciso. Eu suspirei consternado — Me diga, Niklaus. Qual o seu cronograma de matança para amanhã?

— Você está no topo da lista.

— Niklaus — Elijah proferiu em advertência

— O que? Ela quem começou.

Querida mãe, você chama essa conversa de civilizada? — Elijah disse enquanto balançava a cabeça em reprovação.

— Desculpem. Saiu naturalmente. Estranho como não temos mais nada para falar a não ser das chacinas de Niklaus.

— Você acha realmente estranho? — Perguntei irônico, virando a taça de vinho de uma vez. Para aturar Esther sob meu teto, eu teria que ficar bêbado o tempo todo.

— Pode continuar a me dizer sobre como está seu progresso a respeito do paradeiro de Agnes ou sobre o esconderijo de Davina. O que você falou com essas bruxas? Não acha estranho aceitarem te ver depois de te entregarem informações da garota? Não vão querer se comprometer mais do que você já deve tê-las obrigado. Cuidado, pode ser uma armadilha.

— Calma, Elijah. Não cheguei não faz nem um dia. Preciso de tempo. E não sou tão burra assim para ser manipulada — Ela claramente enrolando Elijah, parei de prestar atenção nessa mulher. Peguei meu telefone na esperança de haver algum sinal de Caroline. Talvez ela quisesse se desculpar pela grosseria.

— Niklaus, você está ouvindo? — Elijah me trouxe de volta da bolha. Esther olhou para o telefone em minhas mãos e soltou uma risadinha abafada e irritante.

— Problemas no paraíso — Ela me olhava com um brilho nos olhos divertido e ao mesmo tempo maldoso.

— Do que está falando?

— Seu querido irmão teve um breve desentendimento com a vampirinha recém-criada de Mystica Falls.

— Caroline?

— Quem mais seria?

— O que você fez dessa vez, Niklaus?

— Por que você acha que sou sempre eu o culpado das desgraças?

— Porque geralmente você é.

— E você parece interessado demais nos meus problemas pessoas com ela.

— Está de brincadeira. Eu estou aqui em New Orleans por causa desses problemas pessoais.

— Eu sabia que a hora de jogar isso na minha cara não demoraria muito.

— Niklaus, só estou falando como irmão, como alguém para você compartilhar os seus pesares. Ainda podemos ter essa irmandade.

— Não é porque você queira saber mais sobre meu nível de intimidade com Caroline, para saber se há alguma esperança para você? – O silêncio que se fez em seguida foi mortal. Elijah parou de repente de comer, me olhando mais sério do que nunca o fez, e Esther alternava seus olhares entre nós dois visivelmente se esforçando para não demonstrar o quanto estava se divertindo.

— O que você disse? – Elijah me fuzilava com os olhos.

— Você entendeu muito bem. Posso saber porque anda rodeando Caroline? Eu sei que você tem se comunicado com ela pelas minhas costas. Vai ser mais um dos seus golpes, Elijah?

— Pelo amor de Deus, Niklaus. Essa é sua preocupação? Que eu esteja nutrindo sentimentos pela garota? Que ridículo — Ele jogou os talheres na mesa com petulância.

— Não está? – Embora eu quisesse a verdade, tinha medo de descobri-la.

— Claro que não – Ele abriu os braços com indignação.

— Você não seria capaz de me trair dessa forma outra vez, seria, irmão?

— Outra vez? Que absurdo. O caso com Tatia foi outro. Ela mentiu pra nós e manteve um relacionamento secreto com os dois até descobrirmos e tentarmos nos matar — Ele vendo que eu não estava convencido, continuou — Isso foi totalmente diferente, Niklaus. Minha aproximação de Caroline foi apenas por você. Quando eu passei a conhecê-la, os limites já estavam impostos e claros. Eu não me atreveria a ultrapassa-los.

— Só me pareceu que você estava se importando com ela mais do que meramente por mim. Não vi você se aproximar tanto assim de outras.

— Simples. Você não amou mais ninguém depois de Tatia. Até agora. Nem mesmo Aurora. Sobre a Caroline, fiquei curioso e me aproximei da garota – Era demais pra mim ele falar na frente da Esther que eu amava Caroline.

— Você passou a cortejar Katerina quando soube do meu suposto interesse.

— Você não amou Katerina. Queria ela apenas para ser a sua bolsa de sangue – Ele cuspiu desgostoso.

— Verdade – Sorri orgulhoso – Mas, você não sabia disso até o último momento. Acreditou na pureza de meus sentimentos por ela.

— Àquela altura, eu não acreditava em mais pureza nenhuma vinda de você. Só não imaginei que os seus planinhos sujos iam muito além de apenas se divertir com a cara dela – Ele afrouxou a gravata, parecia sufocado — Eu não fui atrás da princesa da corte, Aurora, e eu sabia que você estava tendo um caso com ela. Até achava que nem Rebekah nem Kol sabiam. Se o que você diz fosse verdade, eu deveria ter me insinuado para ela — Ele tragou o ar com impaciência, bebericando seu vinho.

— Só porque não aconteceu nada oficialmente, não significa que você não tenha tentado. E Aurora era obcecada por mim. Ela jamais teria flertado com você ou com qualquer outro.

— Eu não te aguento mais com isso, Niklaus – Ele bateu a taça na mesa — Vai ficar me infernizando todas às vezes que se interessar por alguém?

— Você parece desfrutar demais da amizade da Caroline mesmo assim – Não me daria por vencido. Arrancaria a verdade dele de um jeito ou de outro.

— Mas, é claro. Ela é uma figura notável. Você não se interessou por ela à toa. Não tem nada de ultrajante em admira-la. Acho que você pode guardar esse ciúme infantil e essa insegurança. Tem tanto medo de ser deixado de lado que está sempre delirando e de paranoia.

— Tenho meus motivos e você sabe. Não tem a ver só com mulheres. Você sempre faz isso, Elijah, se interesse por algo só porque eu coloquei os olhos primeiro – Esther se levantou de repente.

— Não sou obrigada a participar desse circo. Vou me ocupar daquilo que me comprometi. Espero conseguir algo o mais rápido possível e não farei nenhum avanço ao ficar aqui sentada ouvindo vocês discutirem por causa de mulheres. É impressionante que mesmo após séculos vocês repitam esse padrão. Vocês nunca serão capazes de confiarem totalmente um no outro enquanto houver essa sombra das histórias sobre amantes passageiras. Não podem ser totalmente amigos enquanto esperam que um roube a mulher do outro.

— Ótimo. Primeiro era a nossa assassina. Agora virou a nossa analista. O que vai ser na próxima?

— Serei sua mãe, Niklaus, você gostando ou não. Então, trate de me respeitar – Sendo assim, ela saiu com pressa e um tanto raivosa. E eu fiquei ali, encarando de mal grado meu irmão traidor. Ele ficou um tempo passando dedo na taça, perdido em seus pensamentos. Eu analisava seu semblante, buscando nele alguma pista de que estivesse me enganado com falácias. Estava quase me levantando da mesa quando ele se atreveu a continuar o assunto.

— Nunca entendi porque Tatia flertava com você se claramente ela demonstrava interesse em se casar comigo, não com você. Talvez ela só estivesse gostando de ser cortejada por dois cavalheiros como nós, mas no fim ela me escolheu, não foi? A situação era diferente. Eu nunca seria capaz de me intrometer numa história complicada de interesses amorosos dos meus irmãos se nitidamente não sou nem uma opção.

— Está me dizendo que não fará nada apenas porque não recebe o afeto dela de volta e não porque não queira? Me trairia se enxergasse alguma chance com ela, é isso? — Ele hesitou antes de responder.

— Nós já repetimos os mesmo padrões tantas vezes, como frisou nossa mãe. Acho que está na hora de traçarmos caminhos diferentes em busca de novos horizontes e correr atrás da namorada do meu irmão não é uma boa forma de fazer isso.

— Ela não é minha namorada.

— Mas, há algo acontecendo. Não vou embarcar nessa. Não se preocupe comigo. Você tem ameaças maiores para enfrentar nessa sua jornada com ela do que a simples interferência do seu irmão mais velho.

— Eu só quero que me diga a verdade, Elijah. Não vou travar uma briga com você. Só esperava mais sinceridade, já que estamos agindo um com o outro mais abertamente do que nunca.

— Exatamente o que você quer saber, Niklaus? Eu já disse tudo.

— Você sente mais que amizade por ela?

— Não.

— Eu olho nos seus e não acredito.

— Você vai acreditar no que quiser, independente do que eu disser, independente da verdade. Isso é o que um paranoico que nem você faz.

— Não é somente pelo medo de ter uma afeto roubado, mas pelo estrago que isso pode fazer na nossa irmandade. Já passamos por coisas tenebrosas nesse sentido. A pior de todas foi Katerina. Nunca vou perdoar essa injúria contra mim — Ele riu abafado, mexendo no garfo — O que foi?

— Você guarda coisas de séculos atrás. Pelo amor de Deus, supere tudo isso! Mas, que porra – Me espantei. Elijah raramente xingava. Ele precisava estar muito puto para isso.

— Eu vou superar no dia que eu tiver certeza que você não vai me apunhalar pelas costas outra vez — Tomei um gole calmamente do meu vinho.

— Isso tudo já foi. E Você já deu sua cartada final em Katerina. Adianta de que continuar reclamando dela? Que disco chato e repetido.

— Quem disse que foi a final? Aquela pilantra vai voltar com algum truque. Conheço bem. E aí sim será o minha cartada final. Nunca vou entender a fissura nas Doppelgangers – Falei olhando para o nada.

— Katerina era uma jovem doce e inocente. Isso me atraiu. Mas, já passou.

— É disso do que você gosta, então? Caroline te pareceu doce e inocente? – Senti um arrepio na espinha com medo da resposta.

— Tá de sacanagem comigo? – Ele abriu os braços indignado.

— Eu quero entender qual o gatilho da sua atração, se existem padrões. Você se interessa sempre por alguém com quem eu tenho alguma relação. Isso não pode ser apenas coincidência.

— Eu não sei mais quantas vezes repetir que é paranoia sua. Não importa o que eu diga, no fim das contas você vai achar o que bem lhe entender. Só pare de encher minha paciência com isso. Foque no que você tem pra fazer e assim poderá retornar mais rapidamente a sua famigerada Mystic Falls. Caroline espera isso de você — E sendo assim ele levantou, jogando petulantemente o guardanapo de seda na mesa — E seria bom se você não tocasse nesse assunto ridículo com Caroline. Só vai parecer um imbecil ciumento. Ela já deve saber que você é um babaca monumental, sem um pingo de escrúpulos, mas não vamos dar mais motivos, não é? Você sozinho já se lança na merda — Ele sorriu enquanto me fazia um brinde falso, engolindo de uma vez só o vinho restante da taça. Eu quis cortar a garganta dele com a garrafa, mas me contive. Ele bateu o copo e saiu apressado.

— Vai aonde? Temos assuntos a tratar no French Quarter, esqueceu? – Ele nada falou — Tá bem, eu vou sonzinho, então. Mas, depois não reclame! – Disse alterando a minha voz. Odiava que me dessem às costas.

Elijah era muito dúbio e instável. Eu nem sempre sabia dizer o que ele realmente estava pensando ou querendo. Gente assim é muito perigosa.

Terminei minha refeição, mas sem apreciá-la de verdade. Meus planos desandaram drasticamente com a nossa discussão. Eu queria mesmo agradecê-lo pela ajuda, mas ficou impossível controlar a raiva quando ele tocou no nome da Caroline com tanta intimidade. Quem ele pensa que é pra se meter nos meus assuntos com tanta propriedade? Estava passando da linha.

Sem querer ficar remoendo meus demônios internos, que não me ajudariam em nada no processo de ascensão ao poder, rumei para a saída da casa. Meu tempo em Oak Alley foi subaproveitado, constatei de mal humor, mas Já estava na hora de visitar as bruxinhas imundas de esgoto para entender melhor o que Esther tramava. Se ela acha que ficarei de braços cruzados enquanto ela me sabota, está muito enganada. Alguma coisa parecia muito estranha nessa súbita aliança dela com as amiguinhas do gueto. Minha mãe estava escondendo coisas de mim e eu podia sentir o cheiro da dissimulação de longe.

Dei a volta na casa para pegar minha caminhonete quando escutei passos atrás de mim. Elijah apenas fez cara de paisagem, me ignorando por completo, e entrou no seu carro. Eu sorri. Ele não deixaria essa passar sem o seu controle obsessivo guiando o processo. As nossa doenças mentais nos controlam mais do que controlamos ela.

Então, era isso. Eu chegaria no Quarter e procuraria por Jane-Anne Deveraux, que parecia ter evaporado. Enquanto dirigia, pensei que uma visita a Marcel primeiro seria melhor. Observaria o seu quartel general enquanto meus súditos muito bem hipnotizados fariam uma varredura na cidade em busca dessa bruxa. Alguém tinha que saber onde ela estava. Juliette Mercier, a primeira bruxinha com quem falei ao chegar na cidade e que morreu horas depois nas mãos de Marcel, saberia e ela seria meu ponto de partida. Não dá pra se esconder para sempre, Jane-Anne, pensei sadicamente. Que lástima para ela quando nos encontrarmos.

Controlei o carro um pouco ansioso, ora pela expectativa do que viria a seguir, ora pela dúvida sobre o que Caroline estaria fazendo ou pensando de mim naquele momento. Será que eu tinha me excedido sobre o carro? Não. Ela quem foi uma grossa e coberta de ingratidão. Eu só queria que ela ficasse bem, estava me virando para demonstrar isso e ela me pagava com insultos. Sorri com isso. Ela ficava tão sexy quando me xingava.

Sem perceber, já virava perto da Bourbon Street. Lá seria impossível de estacionar. Procurei uma rua mais afastada e consegui uma vaga perto da esquina principal da avenida dos desfiles. Elijah me seguiu, pude notar pelo retrovisor. Ao sair do carro, fui até ele, mas não pronunciei uma palavra sequer. Sua cara não estava nada boa, mas quem se importa? Tudo o que eu falei era verdade. Se ele ficou tão pinicado, é porque a carapuça serviu.

Atravessávamos a rua num silêncio constrangedor, enquanto a música alta dos desfiles tomava conta do lugar, quando notei uma figura, que eu conhecia muito bem, parada e encostada despretensiosamente num poste. Aquele semblante maldito me fez estancar no chão pela surpresa. Ele me encarou de volta na mesma energia caótica e assombrada que a minha, mas se recompôs com um sorrisinho nojento. Fiquei rígido no meio da rua amontoada fazendo Elijah me encarar preocupado. Ele seguiu meu olhar até pousá-los em ninguém menos que meu mais recente arqui-inimigo. Eu sorri maliciosamente e fui até ele, sendo seguido de perto por meu irmão.

— Tyler Lockwood. Sempre um desprazer. Tem muita coragem de aparecer aqui na minha frente em plena luz do dia.

— Ora, quando você decidiu que me caçar não era mais conviniente pra você, voltei para o seu radar. Se não fosse as suas brincadeiras com o Outro Lado e não acabasse aqui, teria que me aguentar mais cedo ou mais tarde em Mystic Falls – Como ele sabia sobre isso? Caroline contou a ele? Me enlouquecia a ideia de que ela tivesse voltado com esse traste.

— So não entendi por que não foi mais cedo. Eu só saí de lá semanas após te conceder a sua nada merecida liberdade. O que me faz pensar que está na cidade errada, Little Bitch — Eu adorava rebaixá-lo dessa forma – Caroline sabe das suas recentes desventuras?

— Posso entender o que está acontecendo aqui? — Elijah mexia na gravata mal disfarçando o seu incômodo.

— Sou só mais um no tapete de inimigos do seu querido irmão. Ou talvez ele tenha encontrado um rival mais persistente — Eu ri. Sempre tão ridículo.

— Elijah, pode nos deixar a sós, por favor? — Falei sem tirar os olhos do lobo fedorento — Tenho uns assuntos particulares a tratar com esse daí.

— Não vá fazer uma cena em público, Niklaus. Se precisar matá-lo, seja discreto pelo menos — Ele olhou em volta, preocupado com o ambiente lotado de turistas. Inspirei fundo sem paciência.

— Não se preocupe, brother, eu não posso matá-lo, infelizmente. Eu fiz uma promessa — Meu irmão hesitou antes de se afastar de nós rapidamente, nos encarando preocupado. Me aproximei do lobinho sujo até que estivesse a centímetros dele. Seu sorriso debochado estava me deixando puto — A que devo a honra, Little Bitch?

— Podemos ter uma conversa privada? – Ele acenou e apontou em direção a um beco ao lado, longe das vistas curiosas e ordinárias dos turistas. Aceitei de malgrado e caminhei com ele até estarmos totalmente sozinhos.

Mesmo com o som dos saxofones não muito distantes, meus ouvidos se fecharam na bolha do ódio contra Tyler.

— Por que está aqui e não na sua adorada Mystic Falls com a sua linda namoradinha?

— Você é uma questão mais urgente. Estar aqui é o mal necessário.

— Essa é uma grande diferença entre nós, verdadeiros homens, e você, Tylah. Se tivessem me oferecido a escolha entre gastar meu tempo indo atrás de um louco ou ficar com alguém com quem me importo de verdade, nem haveria o que se pensar.

— Exatamente. Você escolheria a vingança, pois é o único caminho que você conhece. Você também está aqui, não está? Caçando poder e desgraça e não lá se fazendo de príncipe encantado, pois na verdade é um amaldiçoado. Essa sua faixada não vai durar muito tempo.

— Estou sendo obrigado a ficar aqui — Ele riu abertamente.

— Vai dizer que não está adorando a guerra de gato e rato pelo poder? Você não me engana. Adora um banho de sangue, adora mostrar que está no comando. Ninguém mais compra as mentiras que você conta.

— Caroline acredita. E já está bom pra mim — Os olhos dele brilharam de ódio.

— Ela é uma idiota. Ou generosa demais. Ela foi comigo, mesmo quando todos me trataram como inimigo. Ela gosta de brinquedos quebrados. De salvar o sofredor dele mesmo. Tão clássico. É assim que ela te enxerga. Ela tem é pena de você, só isso — Meus olhos escureceram e senti minhas presas querendo sair — Você só engana Caroline e seus irmãos, que ainda acreditam nas ladainhas que você conta.

— Vai ficar conversando besteira comigo ou vai direto ao ponto? Pra que me chamou aqui, pra que veio atrás de mim tão longe? Ou talvez você apenas saiba que não pode fazer nada, então só fica proferindo um bando de merda sem sentido. Não pode ser tão imbecil ao ponto de achar que pode me enfrentar sozinho.

— Não estou sozinho. Eu não vim a New Orleans por sua causa. Já estava aqui há semanas quando soube, de forma inusitada, que o abominável Klaus Mikaelson tinha se juntado à panela de pressão conhecida como French Quarter. Pensei, não é possível essa coincidência, é? A mesma cidade? O destino me concedendo essa dádiva. Eu já estava mesmo querendo te encontrar. Então, tive que sair do outro condado para checar isso ao vivo e a cores — Olhei em volta com deboche.

— Não estou vendo mais ninguém. Que condado é esse que é tanto do seu interesse? Não espera que eu acredite que não veio só para me azucrinar. A sua vida deve estar tão patética para que o auge da sua felicidade seja encher a minha paciência.

— Só queria te avisar que nem tudo vai ser tão fácil quanto você pensa.

— O que quer dizer, Tylah? .

— Para derrotar Marcel você vai precisar de muito mais do que apenas enfrentar o grupinho pessoal dele. Tem muita coisa nesse lugar que você não vê, não conhece. Mas, seu egocentrismo e sua cisma com seu inimigo é tão grande que você ignora todo o resto.

— Só está me parecendo que você está enrolando, já que não pode simplesmente me atacar com uma estaca.

— Esse lugar está repleto de gente que quer a sua cabeça. Não é só Marcel. Sua ascensão ao poder não vai ser nada como você espera. Em breve você vai conhecer seus outros inimigos. Mal posso esperar.

— Vou ter que matar mais pessoas? Que novidade. Será apenas mais um dia entediante na minha vida como outro qualquer.

— O problema é que vai precisar sujar as mãos de sangue mais do que já estão sujas. O que vai acima até mesmo dos seus padrões. E talvez Caroline não seja mais tão generosa e complacente com você como ela tem sido — Me aproximei dele ameaçadoramente — Cheguei à conclusão de que apenas te matar não é o bastante. Arrancar de você pedaço por pedaço de tudo o que você almeja e fazer você assistir de camarote será muito mais útil e gratificante. Não se apressa a arte.

— Só está blefando – Bufei, revirando os olhos. Esse moleque estava me fazendo perder tempo, só isso.

— Vamos ver se estou ou não.Vai pagar pra ver?

— Você não é nada, Little Bitch. Não tem culhão para derrotar alguém do meu porte. Vai mesmo me ameaçar?

— Sabe, muitas pessoas acham que você tem que ser expurgado da Terra imediatamente. Eu já acho que você deveria passar mil anos sofrendo, um pra cada que você vagou pelo planeta causando desgraça. Agonizando na dor e no terror, sentindo na pele e na mente. Deveria ficar preso e ser torturado pelos próximos séculos. Quem sabe o nosso antigo plano de te prender a milhas no fundo do oceano não seja realizado agora? E você vai me assistir cumprindo ele. Só vou descansar quando você estiver dentro de um caixão bem acorrentado no fundo do Atlântico. Esse é o meu objetivo e farei o que estiver ao meu alcance para atingi-lo. Vou usar tudo o que eu tiver para destituir você dos seus maiores e mais cobiçados trunfos.

— No momento o que eu mais cobiço é a sua namorada. Mas, você não vai arrancar esse pedaço de mim, não é? Ao menos eu espero que você não seja capaz de cumprir essa parte do seu planinho de merda contra mim. Você seria capaz de machucar Caroline só para cumprir o seu objetivo? — O lobinho mostrou as presas e as garras. Seus olhos atingiram um amarelo âmbar típico dos híbridos. Eu sorri enquanto ficava pronto para o ataque — Vamos, lá, Tylah. Vai me ouvir falar tudo isso e mesmo assim vai ficar quieto? Que decepção. O primeiro dos meus híbridos e mesmo assim o mais fraco.

Ele correu e avançou sobre mim, mas eu fui mais rápido. Joguei ele contra a parede, quebrando a coluna de concreto do prédio bem no nosso caminho. Ele aproveitou a deixa, arrancando um pedaço pontiagudo da pedra e se lançando contra mim outra vez. Brincadeira de criança. Lógico, vindo de um moleque sem eira e nem beira que nem ele. Antes que ele pudesse enfiar a estaca improvisada em mim, eu o segurei pelo pescoço. Seus olhos esbugalhados mostravam a força que ele fazia para manter a consciência.

— Sabe, deve ser horrível ser um imprestável que nem você. Se eu te matar agora, vai ser um ato de misericórdia. Como você se aguenta, Tylah?

— Anda, me mata. Você já tirou tudo de mim — ele falava com força, cuspindo sangue — Não há mais nada para o qual eu possa viver. Me matar não vai fazer nenhuma diferença nessa vida miserável que você leva. Só vai fazer Caroline te odiar ainda mais, se é que é possível ela te desprezar mais do que já despreza — Com isso, enfiei a mão no peito dele, fazendo meus dedos roçarem seu coração.

— Você é uma tremenda de uma decepção. Ainda bem que sua linda mãezinha não viveu para ver isso.

— Você se acho o máximo, mas olha só do que vive, da desgraça dos outros. Uma vida vazia e podre. Você nunca vai me vencer de verdade, pois me matar agora não vai mudar em nada na sua vida desprezível cheia de gente que te odeia, incluindo a sua família.

— Eu já te venci. Venci no dia em que tomei as rédeas da sua vida. Tudo o que acontecerá com você vai ser porque eu decidi ser assim.

— O que mais você pode decidir por mim? Tirou a única família que eu tinha e me obrigou a abandonar a última pessoa que ainda me apoiava. Vai em frente. Talvez me matar seja o começo da sua desgraça. O meu único pesar na minha morte será não poder testemunhar a sua queda vexaminosa — Enterrei mais o meu braço no seu peito, fazendo o filha da puta arfar desesperadamente. Como eu queria puxar aquele coração asqueroso para fora. Seria um prazer indescritível ver a luz apagando de seus olhos, enquanto seu corpo dissecasse. Mas, seria a minha sentença. Sem retorno, sem perdão. O cachorrinho estava certo, Caroline me odiaria para sempre.

A contra gosto, puxei meu braço com força, fazendo o lobinho se contorcer de dor e cair no chão. Olhei pra ele com desprezo. Por que ele precisava vir aqui me infernizar? Ele tragava o ar com desespero, de joelhos perante a mim, como todo bom subalterno desprezível.

— Você vai pagar por mais essa injúria contra mim – Enruguei a testa — Você me fez largar Caroline sozinha no meio do caos e da sua própria morte. Eu te abomino por isso tanto quanto me desprezo.

— Foi sua decisão, Tylah, não minha. Seja homem e encare as suas responsabilidades.

— Passei meses tentando entender — Ele se levantou com dificuldade, segurando no que sobrou da coluna – Conjecturando motivos razoáveis para essa sua perseguição. E a princípio, só uma ideia me fazia sentido: A relação antiga e profunda entre o criador e a criatura. Eu fui o seu primeiro híbrido e isso te fez me exibir como seu troféu. Então, você desenvolveu uma obsessão repugnante comigo e com tudo o que tinha a ver com a minha vida. Como Caroline. Sim, foi isso, porque um psicopata como você não é capaz de ter sentimentos genuínos, você foi atrás dela só para me atingir. Você não gosta da Caroline de verdade, você só quer tudo o que é meu. E quer tirar tudo o que eu tenho só porque você não tem nada. Tudo o que era meu você cobiçou como forma de expressar sua fissuração em tudo o que me cerca — Eu ri sem humor.

— Você acha que eu tinha inveja de você? Me poupe. Quem você pensa que é? — Ele soltou uma risada debochada.

— Você me acha insignificante, mas vive atrás de coisas que só eu tinha. Te parece um absurdo, não é? Ultrajante alguém como eu ser mais afortunado que o poderoso Híbrido Orig... — Não consegui me segurar e lhe dei um soco na cara, quebrando seu maxilar. Ele caiu no chão, mas rindo feito um lunático. Era demais pra mim assistir tamanha falta de respeito pelo seu mestre ao despejar disparates, ao rebaixar meus sentimentos por Caroline como se ela não fosse digna. Segurei ele pela gola da camisa e mais uma vez soquei a cara desse desgraçado, de novo e de novo, transbordando toda a frustração por Tyler Lockwood ter aquilo que eu mais queria. Meu ódio era palpável e o lobinho sentia tudo em seus ossos sendo triturados. Minha vontade era de esmagar o crânio desse filha da puta na porrada até seus olhos saltarem das órbitas, até só haver uma massa sangrenta no lugar da cara. Após intermináveis golpes, ele finalmente revidou, cravando a viga do concreto nas minhas entranhas, me fazendo urrar e cambalear de dor. Meus olhos arderam e minhas presas saíram. Hoje eu iria incinerar Tyler Lockwood.

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Esther

Pedi a um dos empregados que me conseguisse um táxi. Ainda podia ouvir ao longe o esbravejar dos meus dois filhos imbecís quando fui até a ala de serviço. Essa conversa seria longa e eu não tinha saco pra atura-la. Se bem que era divertido vê-los espumando por algo tão banal. Às vezes dava umas alfinetadas só para vê-los se engalfinharem, mas a verdade é que a discórdia entre eles podia ser muito útil para os negócios. De uma euforia dessas que saíam as melhores informações, aquelas que faziam toda a diferença. Deveria ter ficado para ouvir, pois quando se tratava de mulheres, meus filhos perdiam o bom senso e a noção do perigo, especialmente Niklaus, logo ele...Deixei escapar uma risadinha abafada. Então, eu estava certa esse tempo todo. Niklaus estava mesmo de cabeça virada pela vampirinha recém-criada. Apostei nas fichas certas e essa ainda era a minha maior vantagem em prol dos meus objetivos. Deu tudo certo até agora, eu só precisava continuar agindo meticulosamente como tenho feito.

Cheguei ao French Quarter em tempo record. Até que o motorista era bom. Paguei a ele com uma generosa gorjeta e saí bem de frente para um prédio azul e de apenas quatro andares. Suas varandas ao redor do ambiente destacavam as luzes coloridas e penduradas pelas grades da sacada. Isso era muito comum nessa cidade, pude notar. O bairro francês tentava imitar a França em tudo. A colônia nunca esquece o colonizador, por pior que ele tenha sido.

Quando entrei e chamei o elevador, verifiquei no celular se ela já tinha me respondido. Eu avisei que viria, não perguntei se poderia me receber. Para o bem dela, que não viesse com truques pra cima de mim. Mas, levando em conta as restrições de Marcellus, a pobre coitada não tinha muitas vantagens.

Bati na sua porta e esperei pacientemente. A bruxinha de cabelos escuros e de pele clara ficou ainda mais branca ao me ver. Mesmo um tanto receosa, ela falou com firmeza.

— Esther Mikaelson. A que devo a honra? Fiquei curiosa sobre você quando soube que estava na cidade.. Nós podemos sentir que algo está mudando no French Quarter quando uma lenda da magia vem nos visitar.

A soberana entre as bruxas, Marie Deveraux comandava as aliadas na surdina. O verdadeiro líder nunca sai das sombras, sabe como usar seus lacaios no momento certo e jogar com o elemento surpresa contra os inimigos. Marie não parecia mais tão jovem, talvez já tivesse chegado à quarta década de vida. Mantinha em seus olhos a dureza dos infortúnios do tempo e sua postura, alta e esbelta, demonstrava certa rigidez e segurança demais para uma bruxinha inexperiente, se comparada às minhas habilidades.

— Olá, Marie. Fico feliz que meus feitos me procedem e que causem esse impacto.

— Realmente é um ser notável. Só acho estranho você se intitular a Bruxa Original quando sabemos que não é a primeira bruxa a existir.

— Não sou a Original por ser a primeira, mas por ter sido a criadora dos primeiros vampiros no mundo.

— E naquele dia você cometeu um perjúrio, se quer saber. Você enganou a morte e amaldiçoou a Terra.

— Talvez. Mas, a sua ancestral Qetsiyah, a primeira bruxa como você gosta de frisar por aí, também tem suas faltas. Ela não deveria ter criado o Outro Lado. Se criaturas sobrenaturais são um desequilíbrio para a natureza, o ideal seria que pudessem morrer para sempre e não ficarem presos num purgatório com possibilidades de assombrarem os vivos outra vez.

— Admito que isso também trouxe muitos problemas, tal como o seu inédito feitiço. Vocês duas mudaram o universo para pior.

— Ela criou o primeiro feitiço da imortalidade, não eu. Apenas o aperfeiçoei e o disseminei. E mesmo assim vocês, descendentes dela, não abrem mão da sua magia. Orbitam ao redor daquele cemitério capenga na esperança de um dia chegarem ao nível dela.

— Canalizamos a sua magia, mas não toda ela. Isso é impossível. E quanto a você, Esther, quem é o seu ancestral? De onde vem a sua magia? Sempre soubemos da sua força, mas também sempre foi um grande mistério.

— Não conheço toda história, mas acredito ter vindo da minha mãe. Ela era um pouco singular e vivia comigo e com minha irmã, de acordo com o pouco que me lembro. Morreu quando eu era muito jovem, no meio das suas brincadeiras perigosas, e por isso fui obrigada a me casar cedo. Apenas após sua morte que descobri minhas habilidades, quando comecei a fazer coisas estranhas, se é que me entende. Acho que a morte dela foi o meu gatilho para a magia. Uma bruxa do Vilarejo, Ayanna, notou minhas peculiaridades e passou a me ensinar como controlar e explorar meu potencial. Para justificar a sua presença constante na minha vida, mentimos que ela era minha irmã mais velha – Decidi ser sincera, para distraí-la.

— Deve ser muito frustrante não saber muito sobre si. Tentamos ao máximo conhecer a história de Qetsiyah. Assim evitamos surpresas desagradáveis no nosso caminho pela magia.

— É bastante. Mas, não me atenho mais a isso. Já fazem mil anos e nunca tive contato com outros familiares além delas. Não vi mais minha irmã depois que me casei, pois meu marido me levou para longe. Tudo sobre a minha linhagem se perdeu no tempo.

— É uma pena. Com o intuito de explorarmos toda a magia que podemos canalizar, buscamos sempre pela genealogia da nossa precursora. Seus descendentes podem ter o gene da magia sem saberem.

— E o sangue desses descendentes são muito úteis para vocês, não? – Sugeri ironicamente. Ela me olhou de cara feia, mas não respondeu. Eu chegaria na resposta em breve — Nenhum dois meus filhos apresentou tal característica. Não que eu saiba. Mas, vocês não sabem tudo sobre ela. Existem algumas inconsistências no seu conhecimento, ao que me parece.

— O que quer dizer? – Marie abriu a porta e me deu espaço para entrar. Olhei bem ao redor, me certificando de encontrar o que precisava.

— Por que Davina é mais poderosa que vocês três? Ela não é da sua família. Como ela pode ser mais forte que os descendentes de Qetsiyah? Por que foi ela quem Marcel prendeu e usa para fazer o trabalho sujo dele e não você ou Jane-Anne ou a inesquecível Sophie?

— Ah, soube que você tem andando por aí indagando as minhas aprendizes e buscando informações sobre Davina e Agnes. Não vai funcionar, Esther. Não vamos permitir que ajude o híbrido.

— Nesse momento só estou curiosa, como uma bruxa antiga que admira e respeita a magia, para saber como o clã Sinclair se encaixa na história das famosas, mas oprimidas bruxas do clã Deveraux. Eu soube que vocês eram as mais poderosas devido à relação de sangue com a sua precursora, mas algo não se encaixa. Vocês não querem apenas derrotar Marcel. Querem a garota de volta. Por que ela é tão importante?

— Então, você veio aqui para isso, para descobrir mais sobre os artifícios de Marcel, mais sobre as bruxas do French Quarter. Sem dúvida foi enviada por aqueles monstros que você chama de filhos.

— Você sabe que bruxas nunca são comandadas por vampiros. Existe um motivo para isso mais profundo que apenas orgulho. Se foi uma bruxa a criadora, seria incoerente e ultrajante que ela estivesse subjugada aos caprichos das suas criaturas. Faz parte do nosso código mágico.

— Eu conheço bem a magia antiga, Esther. Não precisa me ensiná-la. Então, se não está aqui para servir aos comandos dos seus filhos, que interesse tem em saber os nossos segredos?

— Sabe, a verdade às vezes é a mais simples. Independente da Era ou das circunstâncias, sempre caímos nas mesmas armadilhas, como o amor, que te leva a cometer loucuras. Veja meu filho. Não está preocupado com as consequências de seus atos insanos. Apenas estava focado em um objetivo. E ele sempre vai até o limite ou após ele só para conseguir o que quer. Características que herdou dos pais. De mim.

— Não espera que eu acredite que faz tudo pelo seu amor incondicional ao híbrido. E nem mesmo vai me ameaçar com o temperamento nada ortodoxo de que ele faz uso. Não tenho medo dele.

— Claro que não. Eu também estou focada em um objetivo por amor, mas não pelas sombras do que um dia foram meus verdadeiros filhos. Existe uma pessoa que ficou intacta, que manteve a sua pureza. Eu passei anos me arrependendo por tê-la abandonado. Mas, hoje tenho certeza de que foi muito melhor para ela ter vivido longe de Mikael e da maldição que joguei nas minhas crianças. Ela se salvou.

— Você abandonou um filho? – Ele se surpreendeu.

— Minha primogênita, Freya. Ela está morta há séculos, pois não virou vampira. Mas, ainda assim gostaria de saber onde foi enterrada. De alguma forma isso me trará paz. E descobri recentemente que Niklaus sabe onde estão os ossos dela. E se ela foi a única a expressar os meus genes, morreu como bruxa e estava do Outro Lado esse tempo todo? Se ela estiver entre nós novamente, gostaria de acessar seus ossos para descobrir a verdade. Se estiver viva, você sabe que posso encontrá-la através dos seus restos mortais. Se ela não carregou o meu gene mágico e estiver morta, eu vou saber. Niklaus nunca contou nada disso aos irmãos porque é um egoísta miserável. Mas, eu pretendo arrancar essa informação dele a qualquer custo. E por isso, apenas por isso, tenho participado dos joguinhos sujos dele de ascensão ao poder. Até tenho conspirado para ele conseguir a mulher que quer, se isso for me dar alguma vantagem. Tenho me rebaixado ao ridículo me envolvendo nos seus vergonhosos sentimentos humanos.

— Então, é verdade. Ele fez tudo isso por uma mulher? Nós sabíamos que era por alguém. Tão clássico. Só me surpreende que venha de quem veio. Katherine Pierce sugeriu isso, garantindo que ele viria até New Orleans quando soubesse de nós, mas eu duvidei. Ela foi até a casa de Jane-Anne exigindo saber sobre a nossa suposta descendência. Minha irmã resolveu testar a sorte após as ameaças que recebeu daquela vampira abusada e confirmou a nossa origem. Se ele viesse, seria a nossa chance de ouro. E por que está me dizendo tudo isso? Está me contando segredos sujos e valiosos do seu filho. Quais suas verdadeiras intenções, Esther? Não pode ser aliada das bruxas e do maior inimigo delas ao mesmo tempo.

— Ah, querida, eu até vou te contar tudo, serei bem sincera, mas você não vai se lembrar de nada quando eu acabar o que vim fazer. Só queria conversar com alguém antes, pois a curiosidade mágica ainda surte seus efeitos. Fiquei surpresa quando você aceitou me receber. Se esconde de todos como uma rata de esgoto. Eu sei que a maioria das bruxas nem sabem do que você anda aprontando nas sombras.

— Sabe de mim quem deve saber. Sua maldita manipuladora, não vai me ameaçar usando a força dos seus filhos nojentos. Eles não podem controlar a minha mente. Eu vivo numa cidade rodeava de vampiros. Acha que não tomo verbena?

— Quem disse que a minha solução é a hipnose? – A compreensão em seus olhos brilhou tarde demais. Girei as mãos e joguei ela contra a bancada da cozinha.

— Ficou louca?! Como se atreve? — Ela tentou se mexer, mas foi em vão. Conjurei cordas mágicas a prenderem seus braços e pernas.

— Você e suas aliadas não vão se comprometer com mais mágica. Vai querer medir seus poderes com os meus? Vai ser divertido.

— Marcel vai saber dos seus feitiços, Esther, e vai te matar.

Me matar? — Eu ri — Querida, posso liquefazer os órgãos daquela trupe de circo em segundos só com meus pensamentos. Quando Marcel vier até mim, saberei como lidar com ele, não se preocupe.

— Me disseram que a poderosa Esther estava longe dos seus dias de glória — Ela falou enquanto tentava desprender os pulsos inutilmente – Parece que se enganaram.

— Eu estava mesmo — Caminhei até o seu pequeno antiquário, revistei as prateleiras e peguei um vidro transparente contendo um líquido preto e viscoso. Amadora demais para o meu gosto. Mas, me bastaria – Contudo, após a brilhante façanha de Niklaus ao destruir o Outro Lado, estou viva de novo e com minha força total. Claro que eu não contei nada disso a ele. E eu e você vamos manter em segredo por enquanto.

— E como me atacar ajuda no seu plano doentio de rever os ossos da sua filha? — Ela suava frio, enquanto girava os olhos em busca de algo que pudesse ajudá-la.

— Você sabe onde está Agnes. Me contaram que você escolheu precisamente onde ela iria se esconder. Se eu ajudar meu filho a se libertar de vocês, ele ficará mais suscetível a me contar o que eu preciso.

— Vocês são todos iguais. Não é o vampirismo que faz seus filhos serem como são. É o sangue. O sangue ruim da mãe e do pai.

— Niklaus não é filho de Mikael — Passei o líquido na sua testa, fazendo um pequeno círculo preto. Ela soltou um pequeno grito de dor quando o conteúdo queimou sua pele.

— Muito conviniente para você a desgraça que seu filho causou ao destruir o Outro Lado, pôde recuperar seus poderes. Timing perfeito – Ela ofegava ruidosamente, se esforçando para falar.

— Você pensa mesmo que foi sorte? Quem você acha que deixou escapar um rumor para Katerina Petrova sobre os descendentes de Qetsiyah? Aquela lá é esperta, mas eu sou a Bruxa Original. Eu conheço toda a magia que existe. Katerina não descobriu nada sozinha. Eu fiz as informações chegarem até ela discretamente. Eu sabia que se o Outro Lado fosse destruído, eu teria meus poderes de volta. Com o véu levantado eu era apenas um fantasma, não poderia acessar completamente minha mágica. Então, dei ao meu filho os recursos necessários não só para eu voltar de vez, mas para ser quem eu realmente nasci para ser. E tão profundamente conheço a magia, conheço meus filhos. Niklaus é perigosamente conduzido pelas suas emoções. Quando a namoradinha vampira recém-criada dele foi morta pelos lobos, eu sabia que ali jazia uma grande oportunidade para eu retornar. Seu desespero para trazer a garota de volta era tão grande que ele nem notaria as pontas soltas e nem se importaria com elas. Eu sabia que ele seguiria o caminho das pedras que eu fosse deixar. Era do meu conhecimento que Qetsiyah pretendia completar o ritual com as Doppelgangers e eu precisava que ela fosse bem sucedida. E ela não seria sem a minha intervenção, pois ainda não conhecia o paradeiro de Katerina Petrova. Ela poderia levar anos na busca da Cópia perdida. Mas, se existia alguém que sabia onde estava Katerina era Niklaus. Então, fiz meu filho buscá-la e levá-la direto para o radar da bruxa. Eu disse a ele que precisava proteger as Cópias para que Qetsiyah não as encontrasse. Mas, eu sabia que no momento que Katerina pusesse os pés em Mystic Falls, era game over. Era necessário que Qetsiyah vencesse, para que ela levantasse o véu e matasse de vez a loirinha recém-criada. A obsessão dele por essa garota seria a motivação necessária para cruzar todos os limites e me trazer de volta com a destruição do Outro Lado.

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— Sua louca. Me parece muito elaborado para dar certo. Tantas variáveis. Tanta manipulação...

— Claro, foi muito arriscado. Mas, resultados grandes só chegam com apostas altas. E não deu certo? Minha querida, o amor é a arma mais forte e mais perigosa que existe. Sob nenhuma circunstância Niklaus deixaria a garota morta. Só o que eu precisava fazer era esperar a Doppelganger acordar e isso dependeria do quão rápido Niklaus acharia o antídoto que eu deixei na sala do Professor, uma poção que eu preparei com muito carinho. Nessas horas, a inteligência e o comportamento maníaco de Niklaus são muito convinientes — Me sentei ao lado dela

— E se ele matasse Katherine Pierce? Todos que conhecem a história do híbrido sabem da inimizade entre os dois — Ela tentava ganhar tempo, eu notei, me manter falando até achar uma saída.

— Ele jamais faria isso antes de obter as informações que precisava exatamente pelas razões que acabei de frisar. Nunca sacrificaria a vida da vampirinha recém criada. E Katerina sabia que estava na posse de uma informação preciosa. Ela usaria essa carta com maestria.

— E como você chegou a essa conclusão?

— O único jeito de vencer é conhecendo bem as peças do jogo. E, sabe, no dia do ritual eu até poderia não estar em pleno poder, mas eu poderia ter enfrentado a bruxinha, ainda que eu não estivesse na minha melhor forma. Poderia ao menos ter derrubado a barreira para Elijah salvar as Doppelgangers, mas eu não quis. Melhor, não era interessante para os meus planos. Pelo bem maior era necessário que Qetsiyah completasse a sua missão.

— Você se acha a mais esperta, acha que tudo o que aconteceu foi por causa de você. E se nós nos recusássemos a destruir o Outro Lado? Seu planinho sujo iria por água abaixo.

— Eu conheço muito bem meus inimigos. Especialmente aqueles ambiciosos. E você, Marie, é a mais ambiciosa de todas no seu condado. Estava disposta até sacrificar as suas supostas amigas, as suas irmãs. Tem tipo pior que esse? — Ela me olhou surpresa — Sim, eu sei. Ao menos desconfio, mas já vou descobrir toda a verdade. Você achou mesmo que fiz tudo isso me garantindo na pura sorte? Até me ofendo com a falta de respeito.

— Então, foi isso que andou sondando por aí? Não quer informações para o híbrido, mas para você. Se o que dizem sobre ele for verdade, você vai perder a cabeça quando ele descobrir.

— Ele não vai saber nadinha. A única que até agora sabe é você e em breve tudo estará apagado das suas doces lembranças – Me levantei e me debrucei sobre ela – Foi muito bom me reconectar com as minhas iguais. Se eu não tivesse um bem maior a cumprir, adoraria entrar no clube. Quem sabe no futuro — E assim encostei minhas mãos nela e acessei suas memórias, seu subconsciente.

Marie gritou desesperadamente, enquanto se debatia na bancada. Eu segurava sua cabeça com firmeza, enquanto adentrava mais profundamente na sua psiquê. Ela tentava me bloquear, utilizando todos os seus recursos mágicos. Mas, fraca e sem seus poderes, era impossível me impedir.

Então, eu estava em sua mente, como se assistisse a um filme. Vasculhei várias memórias, em busca daquelas mais importantes para a minha causa. Ouvi algumas conversas desinteressantes até que encontrei o sinal, como um radar mágico das memórias que fazia a sintonia perfeita ao encontrar o caminho certo.

Marie caminhava sorrateira e apressadamente, olhando o tempo todo por cima dos ombros. Então, ela virou de repente num beco deserto escuro e se deparou com duas mulheres já esperando por ela. A mais nova sussurrou:

— O que era tão urgente que eu precisei vir até aqui? Não podemos ser vistas assim. Tem vigias pela cidade, você sabe bem.

— Sophie, eu não podia falar com Jane-Anne na nossa cola.

— O que é tão grave a ponto de escondermos de Jane-Anne? Diga logo, para sairmos logo dessa reunião suspeita — A outra se manifestou olhando em volta.

— Eu chamei vocês duas pois temos uma fase a mais no nosso plano. Vamos manter o plano original, prender o híbrido e recuperar Davina. Mas, e se pudéssemos ir além?

— O que quer dizer?

— Agnes, Sophie e Jane-Anne te disseram, Qetsiyah está de volta em Mystic Falls. A nossa incrível ancestral está a solta de bandeja para nós. Não podemos perder uma oportunidade como essa, que levou dois milênios para surgir. Katherine Pierce afirmou que ela pretende levantar o véu assim que fizer Silas beber a cura e mata-lo. Podemos captura-la. Usar o seu sangue para o sacrifício. Ficaremos muito mais poderosas e imbatíveis do que se usarmos o de Davina.

— Nós não podemos deixar o nosso território e persegui-la. Vamos perder os últimos resquícios de magia que temos no nosso sangue se nos afastarmos daqui por muito tempo. E ela deve estar no caminho de ser bem sucedida nesse exato momento. Soube que o híbrido chegou na cidade e capturou Katherine Pierce — Agnes disse.

— Eu sei. Quando fiquei sabendo, já era tarde.

— Poderia ter nos dito — Sophie respondeu — Teríamos segurado a vampira.

— Sem magia? Não teria como, Sophie — Agnes se encostou no muro alto do prédio, cruzando os braços.

— Um último feitiço seria possível. Só mais um sacrifício pela causa — Sophie disse e Marie sorriu com aprovação.

— Katherine afirmou que se Qetsiyah conseguir cumprir seus objetivos, o híbrido vai interferir — Continuou Marie — Ele tem interesses próprios. Podemos usar isso ao nosso favor. Aparentemente, tem alguém morto que o híbrido não quer que morra de novo. Ele deve querer o véu abaixado ou destruí-lo. Se Qetsiyah vencer, ele vai querer destruir o Outro Lado, tal como Katherine Pierce nos falou. Só precisamos que a vampira conte a ele onde estamos. E ela vai contar, foi para isso que nos procurou. Quer informações para barganhar pela liberdade dela. Me pareceu óbvio o seu desespero.

— Mas, quando ele vier, não vamos destruir agora, esse é o plano. Só quando derrotarmos Marcel e pegarmos Davina. Teremos as nossas aliadas de volta ao finalizarmos o feitiço após a guerra contra o vampiro — Agnes ainda resistia à ideia.

— Mas, se destruirmos agora, nós poderemos usar o sangue de Qetsiyah e sermos as mais poderosas do mundo. Não podemos dar a chance de ela se perder de nós.

— Trair as nossas amigas dessa forma? Isso pode gerar revoltas — Agnes balançou a cabeça em negativa.

— Às vezes, minha querida Agnes, é necessário o sacrifício de algumas pelo bem maior. Vamos dominar o French Quarter se canalizarmos os poderes direto de Qetsiyah — Sophie e Agnes se entreolharam na dúvida. Marie se empertigou confiante — Vamos deixar o híbrido perder. Vamos esperar que Klaus Mikaelson venha desesperado atrás de nós em busca da sua solução milagrosa. Uma de nós fará o sacrifício. Faremos tudo numa jogada só. Prenderemos o híbrido, destruiremos o Outro Lado e teremos Qetsiyah de volta com força total. Se algo der errado com ela, teremos Davina como o plano B e o esquema permanece o mesmo. Klaus Mikaelson recupera a garota para nós e a matamos.

— Jane-Anne não vai concordar. Ela garantiu a todas as bruxas que cada uma receberia a sua parcela do poder canalizado no sacrifício de Davina.

— Ela não precisa saber. Ninguém mais precisa saber. Quando chegar a hora, dividiremos os poderes do sacrifício de Qetsiyah com as nossas aliadas que sobreviverem. Elas vão agradecer, no fim das contas.

— Eu farei o sacrifício, então. Vou destruir o Outro Lado — Constatou Sophie — Você quem deve continuar, Marie. Tem mais gana para liderar que eu.

— Não! — Agnes se exaltou — Não pode permitir, Marie, é sua irmã mais nova na reta da morte!

— E quem ficará no meu lugar? Jane-Anne? Ela é fraca e sentimental demais para jogar as cartas pesadas contra Marcel. Não te desmerecendo, Sophie, mas se você ficar, talvez não consigamos o mesmo número de seguidoras fiéis, pois elas respondem a mim.

— Isso é verdade, Agnes. Corremos o risco de separarmos os grupos se Marie ou Jane-Anne morrerem. Eu já disse que estou totalmente de acordo com a minha parte.

— Isso está soando delirante e cruel demais, Marie.

— É um mal necessário. Um dia todas nós nos uniremos de novo — Agnes permanecia em dúvida, mas se calou — Então, temos um acordo?

— Sim — Sophie respondeu — Quando Agnes prender o híbrido, para aonde ela vai?

— Washington D.C., bem perto de Mystic Falls — Marie disse olhando para a outra bruxa — Para atacarmos assim que Qetsiyah puser os pés de volta. Lá existe um clã de bruxas da minha confiança que te darão esconderijo e todo o suporte necessário, Agnes. Basta uma palavra sua e deixarei tudo pronto para a sua fuga — Sendo assim, sem poder mais se esquivar, Agnes acenou afirmativamente resignada.

— Elas sabem das nossas questões?

— Uma parte. Elas sabem da repressão no French Quarter, então compreendem que preciso de apoio numa missão. São servidoras dos Espíritos e combatem a mágica da Expressão, do sacrifício, pois consideram magia negra. Elas não precisam canalizar a magia para fluírem seus poderes, já que preferem uma mágica mediana a terem que sacrificar almas. Nesse ponto, discordamos e exatamente por isso nunca vierem pra cá antes de Marcel. Porém, ajudam quando precisamos de libertação, pois a nossa lealdade mágica é mais forte que a divergência sobre as nossas fontes e os nossos diferentes estilos de vida. Mas, recentemente caíram na armadilha do clã Bennet, em Mystic Falls. A maldita bruxinha sem um pingo de noção enganou minhas amigas. A Bennet estava sob o domínio de Silas e as fez acreditarem numa suposta missão de resgate, mas na verdades foram levadas direto para um dos massacres liderados por Silas. No final, foram mortas por alguém de lá relacionada ao híbrido, pelo o que me disseram.

— Como você soube da morte delas? – Sophie se aproximou da irmã, claramente assombrada. Marie demorou a responder, analisando a reação de Agnes.

— Eu já contava com a sua colaboração, Sophie. Só precisava de mais alguém – Ela jogou um olhar sugestivo para Agnes — Então, me comuniquei com elas essa semana na esperança de que tudo fosse dar certo. Foi quando me contaram desse infortúnio, que só estão entre nós pois o véu está caído no momento, me alertando sobre uma possível morte definitiva delas a qualquer instante. Eu disse que estava trabalhando em um plano para reverter esse quadro. Só do que eu precisava era do apoio delas em Mystic Falls sobre Qetsiyah.

— Então, quando o híbrido viesse, estariam de volta e dispostas a nos ajudar, especialmente por gratidão ao terem suas vidas restituídas.

— Exatamente, Sophie. Elas ficaram particularmente interessadas no plano quando eu disse que envolvia Klaus Mikaelson e companhia. Elas têm questões não resolvidas com quem quer que tenha matado elas, obviamente.

— Você tem certeza de que podemos confiar nelas? – Agnes era difícil de se convencer.

— Mas, é claro, somos amigas de longa data e sempre ofereceram seus serviços. Após a ascensão de Marcel, elas queriam vir me ajudar. Eu não deixei, pois seriam mortas por ele com certeza. E elas jamais aceitariam o que fazemos com as garotas, de qualquer forma.

— O que temos a perder, Agnes? Elas estão longe. Marcel não vai saber delas, se isso te preocupa – Sophie murmurou antes da resposta da aliada.

— E como pegaremos Qetsiyah? Só o elemento surpresa não basta. Não somos nada perto dela.

— Silas – Marie sorriu com triunfo e seus olhos brilharam intensamente – A nossa querida ancestral é obcecada por ele. Estamos todos aqui agora justamente por essa história de dois mil anos atrás. Ao pegarmos ele, pegaremos ela. Com a destruição do Outro Lado, ele voltará como um bruxo comum, não mais como um imortal psíquico.

Vasculhei mais um pouco, viajando pelo seu consciente e subconsciente até encontrar exatamente o paradeiro de Agnes. A sua última lembrança indicava um apartamento no centro de Washington; a bruxa estava escondida no meio da multidão urbana, num prédio residencial comum. Aposta perfeita, pois ficava a meia hora de Mystic Falls.

Mas, faltava outra coisa. Davina e Jane-Anne, a terceira e a mais alheia das Deveraux.

Após vagar por suas memórias com a garota, só me deparei com cenas bizarras. O Clã Deveraux e mais outros se juntavam contra algumas meninas, visivelmente em rituais de sacrifício, pois as garotas estavam amarradas e sangrando em cima de uma pedra imunda no meio do cemitério, enquanto levavam apunhaladas fatais no peito. Presenciei uma disputa mortal entre o que pareceram ser os famigerados vampiros de Marcel e algumas bruxas atrevidas, que terminaram no chão sem seus corações. Mas, não havia nada além disso que pudesse ser crucial nas minhas buscas. Marcel pegou a menina e foi embora, e depois disso ela desapareceu dos olhos e da mente de Marie, como se tivesse sido hipnotizada. Enruguei a testa intrigada. Adentrando mais ainda no subconsciente de Marie, pude achar Jane-Anne, escondida e assustada por seus planos terem saído ao avesso, ironicamente sabotados pelas próprias irmãs. A suposta líder ainda estava em New Orleans, mas afastada do Quarter. Seu prédio mantinha as características do centro, embora ficasse numa rua esquecida e mal cuidada. Marie estava claramente de olho na irmã, se precavendo contra possíveis reviravoltas nas suas artimanhas nada honrosas. Mesmo sabendo que esse seria o máximo a conseguir, com nada sobre Davina, por hora estava satisfeita. Isso iria me servir o bastante.

Então, saí das memórias de Marie, sorrindo com meu progresso. Ela parou de se debater, mas ainda tremia convulsionando. Demorou alguns minutos para se recompor. Esperei pacientemente sentada no banco, arquitetando minuciosamente meus próximos passos. Mais um avanço, e que avanço, dei na minha jornada até Freya. Quando Marie abriu os olhos, estavam desfocados, mas ela mesmo assim, com a voz tremida, falou comigo.

— Você se acha muito esperta. Mas, nós somos as maiores que existem, Esther. Seja lá o que você pretende fazer com Agnes, no fim nós vamos vencer.

— Talvez. Podemos encontrar um meio termo. Não estou contra você. Só tenho meus interesses que podem entrar em conflito com os seus em alguns momentos. O que você e Agnes pretendem fazer caso as doze bruxas morram outra vez? Parte dos seus planinhos acabariam aí, certo? Na verdade, a parte que mais te interessa acabaria com a morte delas. Talvez a minha intervenção seja requerida e mais eficaz – Tive que me controlar para não soltar a verdade sobre a loirinha recém criada e o assassinato em massa que ela cometeu contra as amiguinhas de Marie. Ela sabia que foi alguém de lá, mas não sabia quem. E se Rebekah estava em Mystic Falls dando cobertura para a vampirinha, as bruxas enfrentariam um grande problema se chegassem na sua assassina. E se Marie souber dessa conexão com Niklaus, talvez interfira nos meus planos de outra forma. Então, por hora, achei melhor guardar isso para usar quando fosse mais propício. Ofereceria meu apoio a Agnes e às bruxinhas de Mystic Falls na caçada por Qetsiyah. Talvez se eu entregasse a cabeça de Caroline Forbes, Agnes ficaria mais suscetível ao meu futuro pedido. Sorri maravilhada. A vampirinha estava me saindo mais útil do que o planejado.

— Está satisfeita com seus próprios feitos, Esther? – Ela indagou entre-dentes.

— Confesso, estou, sim. Que vergonha, Marie — Balancei a cabeça em reprovação — Traindo suas aliadas, matando crianças para canalizar poderes.

— Você não é ninguém para me dar sermões.

— Pode ser. Mas, me diga, por isso Marcel impediu que vocês chegassem na garota, ele sabia dos seus massacres e que Davina faria parte de um deles? Ele literalmente encontrou a menina quase morta por vocês.

— Ele só quer usar a garota. Finge que se importa com ela, mas sabemos que é só um jeito de manipula-la. E a burra acredita em tudo o que ele fala. Acha mesmo que ele quer protegê-la.

— Então, ela está lá por vontade própria.

— Não exatamente. Ela teme pela própria vida se abandonar o seu esconderijo. Ela acredita ser melhor pra ela obedecer ao rato do Marcel.

— Então, você não sabe onde está a bruxinha.

— Obviamente que não.

— Que pena, me seria muito útil – Não insisti, pois vi em sua mente que ela realmente não sabia mais nada sobre a garota — Mas, vamos só esclarecer isso – Ela me olhou irritada — Davina era o plano A, mas quando soube por Katherine Pierce que Qetsiyah estava em Mystic Falls, ela virou a sua prioridade. Por que utilizar o sangue e a carne das descendentes se pode ter a própria? Percebeu que se destruísse logo o Outro Lado, Qetsiyah serviria a você muito melhor. Com os poderes dela, Marcel não pode te segurar, nem Davina pode – O silêncio dela foi resposta o suficiente – Mas, você escondeu isso das suas aliadas. Só Sophie e Agnes sabiam, não é? Por isso nenhuma das bruxas entendeu a atitude da garota Deveraux quando ela seguiu um caminho diferente dos planos que as outras conheciam.

— Quanto menos souberem, melhor.

— Muito esperta, porém muito arriscado. Sabe, Marie, eu e você, somos parecidas.

— Vá pro inferno, sua maldita — A olhei incrédula. Era preciso muito para tirar do sério uma pessoa fria e calculista que nem Marie. Mas, eu não precisava ficar nem mais um minuto compartilhando meu tempo com essa impostora.

— É uma pena acabarmos por aqui. Seria imprescindível entregar uma informação como essa para Niklaus, mas por hora estou satisfeita com a nossa sessão – Sorri afavelmente pra ela e toquei novamente em sua têmpora, proferindo uma nova rajada de feitiços.

Era hora de apagar as suas memórias relacionadas à nossa crucial reunião. Era uma pena uma obra de arte como essa minha ser esquecida pelo tempo. Ou melhor, pela necessidade, ser jogada fora assim como se não fosse nada. Suspirei consternada enquanto terminava meu trabalho impecável. No final, Marie dormia serenamente, como se nunca tivesse me encontrado. Ao acordar, ela estaria na sua cama, bem longe de qualquer vestígio da minha presença.

Saí do prédio exultante, com a sensação de missão cumprida ou de quase cumprida. Mas, só por libertá-lo, Niklaus já ficaria no caminho da gratidão. No mínimo Elijah iria contribuir comigo. Alguma coisa eu deveria conseguir.

Caminhava apressadamente por algumas ruas vazias do French Quarter. A noite já tinha caído e eu precisava me preparar o mais rápido possível para a viagem até Washington D.C. Pensei em andar até algum lugar mais movimentado, como a Bourbon Street, e pegar um táxi lá, já que nem todos tinham a proeza da velocidade vampírica. Mas, decidi antes falar com Elijah.

Pensando no meu segundo filho, peguei o celular para dar as boas notícias a ele, quando fui interceptada pelo fatídico e esperado encontro. Ao atravessar a rua, notei alguns homens me seguindo, que logo foram se amontoando e ganhando proporções de dezenas de figuras desleixadas, com semblantes de pura malícia. A falta de decoro e a indiscrição me fizeram reconhecer rapidamente do que se tratava. Ótimo, pensei divertida. Capangas de Marcel. A essa altura, ele já deveria saber da minha brincadeira. Sorri. Showtime.

Marcel me olhava com as pálpebras semicerradas, nitidamente intrigado e alarmado com a minha presença. O único inconveniente de ter que enfrentar o seu grupinho sem eira nem beira era o tempo precioso que eu perderia.

— Coincidência você estar justamente no local onde feitiços foram detectados. Esther Mikaelson – Ele pronunciou meu nome com um certo drama – Fiquei surpreso ao ouvir sobre sua chegada. Pensei que estivesse morta – Não respondi. Ele balançou a cabeça — E a infestação na minha cidade só piora. Seus filhos reaparecem e você faz mágica descaramento no meio do meu bairro, bem debaixo do meu nariz. O que estão tramando?

— Acredito que eu e você já saibamos, afinal não temos algo em comum? Queremos Niklaus morto – Distrair inimigos de Niklaus com esse tema era sempre eficiente — Eu sei das suas indiscrições no passado com Rebekah para eliminar o grande estorvo que era meu filho. Não precisa fingir indignação – Ele pareceu surpreso por eu saber disso. E o que eu não sabia sobre minha insana prole?

— Então, não nega sua participação na magia agora pouco?

— De coincidência não teve nada. Fui eu. Sou a culpada de todos os feitiços neste recinto, de todas as acusações que me fará a seguir.

— Está protegendo as suas amigas? É algum código de honra da bruxaria? Porque não é a primeira vez que vejo isso no French Quarter. Vocês nunca se entregam.

— Eu? Protegendo essas parasitas? Não me insulte.

— Então, você confessa um crime contra as minhas regras? Sabe quais são as consequências, Esther?

— Estou bem a par delas – Cruzei os braços entediada.

— E não está preocupada com fato de que vai morrer em alguns minutos? — Ele se aproximava me olhando ironicamente.

Me matar? — Eu ri — Marcellus, seu verdadeiro nome, certo? Quero ver você tentar, minha criança. Marcellus, não sou uma dessas marionetes que você controla – Percebi de soslaio os subalternos se aproximarem sorrateiramente — Sugiro que seus amigos não atravessem o meu caminho ou vou matá-los. Estou sendo bem generosa ao te dar esse aviso – Seu olhar contrariado foi o bastante para eu medir o nível da ofensa. Ele jamais aceitaria ser desafiado dessa forma sem responder à altura. O problema para ele é que eu estava acima disso. Ao contrário de Niklaus, eu não tinha nada a perder enfrentando essa moleque mimado.

Então, ele acenou para seus parceiros imundos e alguns deles se lançaram contra mim. Revirei os olhos sem paciência. Praticamente sem mover as mãos, derrubei um por um no chão, derretendo seus órgãos internos e arrancando alguns corações. Enquanto eles gritavam e sangravam pelos olhos, Marcel e companhia os encaravam aterrorizados.

— Ao contrário das suas subalternas, que precisam de alguns artifícios extras para praticarem magia, eu não estou nesse infortunado grupo. Você quer continuar? Pior para você. Para eles.

— Não se mata minha família, bruxa, é uma das minhas principais regras — Eu era apenas uma bruxa? Ele estava irado, falava enquanto mostrava suas presas.

— As suas regras só valem para aqueles que pertencem ao French Quarter. Ainda bem que eu não tenho nada a ver com as suas questões internas insignificantes.

— Valem para todos que pisarem no meu território.

— Nós podemos acabar com essa palhaçada agora ou você pode assistir a mais dos seus amiguinhos sangrarem até à morte. Sua escolha.

— O que está aprontando na minha cidade, Esther? Se veio matar Klaus, por que está contra mim?

— Você me ameaçou primeiro, não o contrário – Abri os braços num gesto de descrença – E, querido, no momento em que Niklaus decidiu ficar, você perdeu a cidade. Agora é só uma questão de formalidades sobre quando você vai cair, porque na teoria você já era. Enquanto isso, eu faço a minha parte no que tange aos nossos interesses – Era muito interessante tocar na sua ferida, só assim eu poderia saber o quanto ele realmente se sente ameaçado por Niklaus. E pelo o que pude notar, era uma questão bem sensível, pois sua expressão atingiu um ódio evidente. Arqueei as sobrancelhas, esperando pacientemente que ele se manifestasse.

— Isso é de família? – Ele se aproximou de mim demais da conta para o seu próprio bem, sendo seguido discretamente por seus capangas.

— O que? – Fiquei alerta. Qualquer movimento dessas páreas e eu fritaria alguns miolos.

— A megalomania. Vocês se acham donos do mundo. Estão realmente convencidos que têm o direito de fazerem o que querem só porque podem.

— Nós iniciamos parte do mundo sobrenatural. Somos os líderes por natureza.

— Natureza? – Ele riu – Tudo o que você fez foi qualquer coisa menos natural.

— Mas, agora você desfruta disso com muita propriedade. Não me parece irritado com os meus crimes já que dá continuidade a eles todos os dias no seu pequeno...quartel – Terminei com desdém.

— Só quero que fique claro para você a que lugar você pertence e não é aqui. Vá construir seu próprio império narcisista em outro lugar e leve seus filhos igualmente perturbados com você.

— Você não me esclarece nada, Marcellus – Fiquei cara a cara com ele – Acabei de dar uma demonstração para você. Agora, faça o que sempre fez e obedeça piamente aos seus mestres. Você ainda está no poder porque não me interessa que você saia. Então, seja inteligente e não meça as suas forças comigo – Seus comparsas imundos se aproximaram mais, mas num gesto silencioso, Marcellus os ordenou que permanecessem quietos. Eu sorri. Até que o garoto tinha bom senso.

Olhei para os corpos caídos e senti desprezo. Que lástima ter que entrar numa disputa física nojenta e ter que aguentar aquela gangue barata tão perto de mim. O cheiro de sangue e de órgãos depredados me lembraram os cavaleiros mercenários que passavam no vilarejo após guerras e mais guerras em busca da conquista de territórios. Senti náuseas, pois era o mesmo cheiro que Mikael exalava ao chegar de alguma batalha e eu era sempre obrigada a me deitar com ele depois disso. A alegria estúpida de uma vitória fazia daqueles homens uns tolos. Eram todos iguais, ambiciosos demais para o próprio bem. O fim era sempre o mesmo, a morte

— Espero que essa tenha sido a última vez que tocamos nesse assunto, Marcellus. Se houver uma próxima, vou esquecer que uma vez Niklaus te amou como um filho e vou transformar seus órgãos em vapor. Vai acabar na sarjeta igual a essa gente imunda que você considerava família – Segurei sua cabeça e o fiz olhar para os corpos liquefeitos no chão, enquanto enviava comandos contra seu corpo. Ele se contorceu e gritou até ficar de joelhos. Seus amigos não se mexeram, pois os imobilizei sem nem olhá-los – Eu queria tanto que você não esquecesse o nosso pequeno incidente, mas se eu não interferir nas sua memórias, você vai sair fofocando tudo para meus filhos. Queria confiar apenas na sua prudência. Imagina só as consequências para você de decidisse me sabotar. Você precisa se lembrar. Precisa saber onde está se metendo para não cometer o mesmo erro outra vez. Mas, seria péssimo para os negócios você estar tão a par das minhas atribulações recentes. E que lástima é saber que minha obra de arte ficará esquecida e nada apreciada como merece – Com poucas palavras, resetei nosso encontro. Ele e seus amigos caíram no chão desacordados. O soltei e imediatamente senti vontade de lavar as mãos. Era asqueroso sentir tão de perto um vampiro. Marcel ficou lá, deitado no chão e tossindo as ventas pra fora, cuspindo sangue e mais sangue. Só senti desprezo. Vampiros nunca serão melhores que nós, nunca.

Sendo assim, arrumei minha jaqueta e saí daquela rua suja fedendo a vampiros. Nenhum deles se atreveu a me seguir. E pra que? Quando me afastei o suficiente, entrei em um beco deserto e disquei para meu filho mais sensato.

— Tenho notícias espetaculares – Abaixei a voz, olhando em volta — Finalmente Niklaus vai poder resolver os assuntos inacabados dele fora de New Orleans.

— Como disse? – Elijah parecia muito surpreso.

— Eu achei Agnes. Ela está em Washington D.C. — Elijah ficou em silêncio por um tempo. Até que o ouvi soltar o ar.

— Bem longe do French Quarter e ao lado de Mystic Falls. Não pode ser coincidência.

— E não é. A ideia delas era pôr alguém para ficar de olho no que os outros Mikaelson fazem por lá – Menti despretensiosamente. A questão de Qetsiyah me seria muito útil ainda para ser revelada tão precocemente – Talvez como uma estratégia para chantagear Niklaus no futuro.

— Não seria nada incomum – Sorri. Elijah não era idiota, mas pareceu acreditar — Como conseguiu encontrá-la?

— Ser a bruxa Original tem suas vantagens.

— Vai começar com os joguinhos, mãe?

— Eu trabalho do meu jeito e vocês do seu, combinado? — Ele inspirou fundo.

— Vai caçá-la sozinha?

— Pretendo levar um de vocês comigo, claro.

— Eu não posso sair daqui. Niklaus não pode ficar sozinho. Em apenas dois dias ele conseguiu colocar três facções sobrenaturais contra ele. Se eu sair daqui, quando voltar a cidade vai estar em cinzas.

— E por que isso te surpreende? E o que vocês fizeram na minha ausência? – Fiquei alarmada. Niklaus sempre seria o elemento instável da equação.

— Não estou surpreso. Só na expectativa de um potencial confronto em tão pouco tempo – Ele soltou o ar cansado. Na hora certa ele saberia que a Bruxa Original estava de volta para dar-lhes o suporte necessário – Fomos ao French Quarter em busca de algumas respostas e só encontramos mais enigmas. Quando você chegar, conversamos mais sobre isso.

— Tá bem. Então, vou falar com Rebekah e Kol. Um deles deve ir comigo.

— Me mantenha informado. Fale diretamente comigo.

— Não vai dizer a Niklaus?

— Nós dois sabemos que não é uma boa ideia deixá-lo ansioso, só piora o temperamento.

— Por isso ele se irrita com você, Elijah. Esconde as coisas dele. Tenta controlar tudo da sua forma. Mas, isso é um tiro pela culatra. A falta de comunicação é o princípio de muitas das suas dores.

— Ele pode ficar distraído aqui e isso é perigoso. E nem sabemos o que ele pode fazer, qual sua reação.

— Ele vai sair correndo de volta para Mystic Falls, você sabe.

— Apenas espere até realmente encontrá-la. Você nem sabe se ela vai estar lá quando você chegar. E se essa esperança for falsa e mesmo assim ele mudar seu comportamento aqui?

— Eu mesma posso ligar pra ele. Não adianta esse segredo todo.

— Por que você, logo você, quer tanto cooperar com Niklaus?

— Estou vendo coisa ou você não quer que seu irmão volte a Mystic Falls? As preocupações de Niklaus quanto a vampirinha são verdadeiras, Elijah? – Alfinetá-lo agora era meu único entretenimento, mas servia muito bem para desviá-lo do assunto.

— Não seja ridícula, por que eu faria isso? Sou uma das pessoas que tem lutado para ele voltar. Eu vim parar aqui nessa cidade, no meio de uma disputa em que eu não tenho nada a ver, apenas para dar a ele alguma coisa que valha a pena. Estou aqui justamente porque estava seguindo as suas indiscrições provenientes de Mystic Falls. Eu tenho contribuído diretamente nas loucuras dele por causa da garota Forbes.

— Tudo bem, não precisa ficar na defensiva – Eu queria rir, mas aí já era muita imprudência.

— Eu só conheço bem meu irmão, ele não sabe lidar com surpresas.

— Mas, que surpresa será? Ele espera avidamente pela quebra desse feitiço.

— Um que Agnes ainda não desfez. Você nem encontrou ela ainda

— Elijah...- O alertei — Também encontrei Jane-Anne. Ao contrário do que vocês pensam, não estou mancomunando com ela e escondendo informações preciosas de vocês. Poderão interrogá-la à vontade sobre Davina — Ele esperou em silêncio, com a respiração ofegante — Ela está perto do French Quarter, escondida. Não mais — Sorri — Só te darei o paradeiro dela se me prometer dizer tudo a Niklaus — Ele soltou o ar pesadamente.

— Tudo bem eu vou contar a ele. Mas, do meu jeito e quando for a hora certa. Eu sei como falar com ele, como previnir um massacre.

— Pode ser – Aceitei um tanto contrariada. E assim, expliquei detalhadamente onde encontrar a tão imprescindível Deveraux. Eu sabia que era arriscado deixá-los chegar tão perto assim de informações sobre Marie, mas Jane-Anne não sabia nada sobre os planos sujos da irmã. Pelo menos eu contava com isso. Além do mais, eu precisava mostrar serviço e lealdade aos meus geniosos filhos para ganhar sua tão dificultosa confiança.

— Estou voltando para casa sozinho. Estávamos... ocupados. Vou falar com ele assim que você me retornar a ligação de que conseguiu ser bem sucedida. Quanto a Jane-Anne, vamos ter uma conversinha com ela. Niklaus vai ficar feliz de finalmente fazer algum progresso.

— Você venceu, Elijah. Mas, nem um minuto a mais.

— De acordo — E assim, ele desligou.

Apesar de ser menos genioso, Elijah ainda era bastante intransigente. Eu conhecia bem cada um dos meus filhos e Elijah poderia ser mais perigoso que Niklaus em alguns momentos, especialmente quando ele guardava a raiva por muito tempo. Elijah era desses, de acumular ressentimentos e depois explodir, de extravasar nas horas mais surpreendentes e mais inoportunas. Então, era sempre uma surpresa como e quando ele iria surtar e arrancar algumas cabeças. Eu não poderia perder a cautela perto dele jamais. Muito menos confiar cegamente. Quando eu encontrasse Agnes, ligaria para Niklaus.

Então, era isso. Tudo indo de vento em polpa. Andando até a Bourbon Street, sorri contente ao avistar um táxi assim que passei pelos turistas.

Notas finais
Vamos combinar: A Esther é uma tremenda de uma filha da puta. Mas, uma filha da puta muito eficiente. Em apenas um dia ela descobriu o paradeiro de Agnes, enquadrou a Marie e seus planinhos sujos e meteu a porrada no Marcel e companhia. Sem contar que deu mais um passo em direção à Davina. Gostaram da treta Tyler vs Klaus? Porque eu adoreeeei hahaha E Klaus infernizando o Elijah. Tão linda, essa irmandade. Klaus sempre pensando na Caroline, inocente ou não haha. Curiosidade importante: Os produtores das séries uma vez disseram que Mystic Falls é inspirada numa cidade real chamada Falls Church, do interior do Estado da Virgínia. Então, todos os lugares que apareceram até agora (como Alexandria, Richmond, McLean, Lake Barcroft, Arlington, Washington D.C. (Capital), New Orleans e seus condados, como o French Quarter, Vacherie e Bayou), entre outros que ainda vão surgir, têm suas posições e distâncias de Mystic Falls baseadas nas distâncias reais dessas cidades até Falls Church. Se um dia vocês tiveram curiosidade para verem como são esses lugares, só jogarem no Google Maps. Mas, já adianto uma curiosidade legal: Oak Alley (Vale dos Carvalhos) foi uma Plantation do século XVIII e hoje funciona como um hotel histórico, recebendo muitos turistas. Achei que seria perfeita para representar a Casa Grande que um dia foi dos Mikaelson. Plus, a propriedade possui um extenso corredor de Carvalhos esplendorosos e pensei que seria uma bela homenagem à mais famosa e mais citada árvore da história: a de Carvalho Branco. Dêem uma olhada nela no google. Vocês vão adorar. E por que essa observação é importante? Não são apenas lugares aleatórios? Não pra mim e nem para Klaroline. Klaus prometeu a Caroline que levaria ela para conhecer o mundo, só que ele começou jogando pesado, pensando em Roma, Paris, Tokyo e etc. Porém, acho que a Caroline começa a ver o mundo através da interferência de Klaus na sua vida de forma nada convencional e aos poucos, fazendo valer a palavra dele de um jeito ou de outro, como se fosse o destino se cumprindo. E muitas coisas nessa história se farão assim, o destino vai conspirar com Klaroline da forma que vier, por mais bagunçado que possa parecer. Então, espero que vocês gostem das aventuras Klaroline pelo mundo afora até que eles possam chegar no nível hard do jogo onde a escapada de inverno seja em outros continentes. Observação Importante: Marie Deveraux é uma personagem original minha. Ela não aparece em nenhuma das séries e as irmãs Deveraux apresentadas são apenas Sophie e Jane-Anne. Mas, precisei de uma terceira Deveraux e hoje vocês tiveram o primeiro vislumbre dela. Ela será importante para um futuro enredo da Caroline. E para quem não conhece, a música citada nas notas iniciais é “Cheguei”, da cantora brasileira Ludmilla. Não é meu estilo de música favorito, mas na hora que escrevi as cenas da Esther, essa música veio à minha cabeça do nada haha. Enfim, espero que gostem. Deixem seus comentários para eu saber melhor o que pensam. Adoro um comentário gigante e cheio de detalhes - Acho que já deu pra notar o quanto sou detalhista hahaha. Um beijo meus Klaroliners e até o próximo!