Scarlet Dynasty - Klaroline

17 Helena de Tróia - Parte II


Notas iniciais
Então, meus Klarobitches. Está aí o segundo capítulo de hoje, tal como falei. Eu ia esperar alguns dias, mas demorei muito para voltar. Então, como uma tentativa de me redmir, coloquei logo os dois. Espero que isso ajude no perdão que um dia vocês possam me dar haha. É isso. Por favor, comentem. Estrei aguardando ansiosamente. Vamos láááá!

Klaus

Elijah me segurou. E na velocidade vampírica me levou pra longe, para o meio de um beco escuro e fétido.

— Mas, o que você está fazendo? – Olhei de olhos arregalados para meu irmão insano.

— Não acabou ainda, Niklaus. A irmã está viva, lembra? Se você matar Marcel e seu grupo e não seguir o acordo, as bruxas não a deixarão fazer o feitiço para você – Merda, era um fato. Contudo, não era garantido.

— Eu não confio no poder da mais nova. Ela parecia ser uma idiota.

— Pode ser, mas uma idiota descendente de Qetsiyah, com o mesmo sangue e poderes da irmã. Vamos até ela agora. Ela sabia que a irmã ia morrer. Mas, pense, destruindo o Outro Lado, a irmã estará de volta. Ela sabe disso, todas elas sabem disso. Talvez esse fosse o plano delas desde o início – Eu admirava a capacidade de meu irmão raciocinar com clareza mesmo no meio de uma situação crítica. Eu, por outro lado, ficava de cabeça quente e não pensava direito nos meus atos, só queria extravasar a fúria através de assassinatos.

— Muito bem, então, vamos — Me apressei para mais longe ainda de Marcel, antes que mudasse de ideia e voltasse para finalizar esse bostinha de uma vez — Você sabe onde é essa casa da tal Agnes?

— Não, mas já descubro – Elijah sacou seu celular – Sophie, precisamos conversar. Você pode me dizer onde está? – Depois eu perguntaria como que diabos ele conseguiu o número dessa garota.

— Seu irmão já se decidiu? – Ela foi direta. Elijah olhou pra mim.

— Sim, já me decidi. Cumprirei o acordo. Vocês têm minha palavra – Eu sabia que ela podia me escutar, apesar de não ter a super audição dos vampiros.

— Muito bem, então. Nos encontrem novamente no cemitério. Sem truques – Ela ameaçou. Atrevida – Não é prudente aparecerem nas nossas casas. Marcel possui vigias por toda parte.

— Em breve estaremos lá – Elijah desligou o telefone e olhou no mapa online – Vamos, me siga.

— Você tem razão. Elas planejaram tudo. Jane-Anne preparou a irmã para assumir seu posto, mesmo que temporariamente. Filhas da puta engenhosas — Falei enquanto andava em círculos, como um tigre enjaulado — Precisamos de um carro.

— Não vamos roubar – Ele disse. Revirei os olhos.

— Também não gosto da ideia, mas é só devolvermos depois.

— Eu sei. Mas, não é muito longe daqui. Podemos ir à pé.

Corremos na velocidade vampírica no que me pareceu uma eternidade, mas Elijah afirmou que só foram quinze minutos. Que seja. Eu estava absorto nos meus pensamentos enquanto tentava manter o foco. Motivado não apenas por meus sentimentos conturbados e vergonhosamente humanos por Caroline, mas também pela raiva e inveja de ver Marcel no lugar que é meu, na minha cidade, aceitaria essa proposta mirabolante das bruxas. E que a sorte estivesse ao meu favor. E que Caroline me perdoasse um dia.

Fomos direto para a tumba de pedra onde nos encontramos anteriormente, apostei que seria lá que estariam nos esperando e eu estava certo. As mesmas bruxas se encontravam lá dentro, de pé, encostadas nas paredes. Sophie era a única parada no centro. Ela começou a falar quando fui mais rápido.

— Como disse, aceito o acordo. No entanto, seria mais prudente você realizar o feitiço antes, não depois. Você já deve saber que Marcel matou a sua irmã – Ela esboçou uma pequena reação de pesar, tentando disfarçar o sofrimento – Se você o fizer agora, terá a sua irmã de volta mais rápido. E ela poderá te ajudar, ser crucial no processo de destruição de Marcel – Ela não respondeu. Eu não estava nem aí para essas bruxas, só queria destruir o Outro Lado o mais rápido possível.

— Sophie, lembre do que Jane te instruiu. Primeiro ele cumpre o acordo – Uma bruxa intrometida abriu a boca para falar.

— Se vocês realizarem o feitiço agora, todas as suas aliadas bruxas retornam. Poderão formar seu próprio exército – Elijah completou – Conseguirão derrotar Marcel e sua gangue mais rapidamente, recuperando a cidade mais cedo. Sua irmã era uma ótima estrategista e conhece muito bem os passos de Marcel.

— Nós também – Outra bruxa se manifestou – Nosso plano é bem arquitetado, é só você seguir, híbrido, que Marcel não virá a sua desgraça chegando.

— Eu discordo, bruxa – Falei me aproximando lentamente dela – Marcel sempre está um passo a frente de vocês. Não sabemos mais do que essa arma secreta dele é capaz – Elas se entreolharam. Elas sabiam o que era. Isso fez meu coração acelerar — A não ser que vocês saibam exatamente do que se trata — Indaguei, mas elas não responderam. Era por isso que precisavam de um plano mais a longo prazo, por isso não queriam que Marcel morresse imediatamente; pois também estavam interessadas nessa arma. Agora eu estava mais curioso ainda. Não se tratava apenas de recuperar a liberdade e a cidade de Marcel. Elas também queriam acesso ao que estava escondido, seja lá o que fosse, e Marcel morto não as levaria até o objetivo. Essa disputa ia muito além do que me contaram.

— As questões das bruxas é problema nosso – Meu rosto esquentou e minhas presas formigaram na gingava.

— Seja como for, não existe garantia de que o plano de vocês vai funcionar até o final. Pode ser que no meio do caminho Marcel encontre uma forma de derrotar vocês definitivamente.

— Além disso, eu ajudarei meu irmão. Não será mais apenas Niklaus contra Marcel – Eu não sabia se ele estava blefando ou não, mas não gostei. Ele precisava voltar a Mystic Falls, proteger Rebekah e Caroline. Ao destruir o Outro Lado, lá viraria o inferno na Terra, tanto quanto aqui. Mas, não o confrontei na frente das bruxas, claro. Elas se entreolharam avaliando as palavras de Elijah. Ter mais um Original como aliado era bom demais para os negócios.

— Plus, bruxinha – Me dirigi a Sophie – Repito, sua irmã estará de volta. Você não estará mais sem família e perdida num emaranhado de feitiços complexos. Eu sei que você tem muito potencial – Eu não achava isso, não, mas ela era minha última saída – Mas, enfrentar um quartel de vampiros no meio de uma guerra com bruxas que não podem se defender não vai ser nada fácil para você.

— Ela não estará sozinha. E nós somos mais fortes que esse bando de rato de esgoto quando estamos em pleno poder – Uma das bruxas falou.

— Mas, vocês no momento são umas inúteis, bem longe desse suposto "pleno poder". Se vocês a ajudarem com feitiços, vocês morrem. Se ela fizer feitiços, ela morre. Todas de mãos atadas. Vocês podem até se considerarem família, mas em termos de poderes, estão sozinhas. Com a destruição do Outro Lado todas as suas outras aliadas retornam.

— Mas, se morrerem, morrem para sempre – Uma outra bruxa me confrontou – Com a existência do Outro Lado, no fim de todo o processo poderemos trazer de volta as bruxas que morrerem na luta contra Marcel. Se destruirmos agora, será fim de jogo para as que morrerem – Touché. Merda.

— Mas, você mesma disse que havia um plano traçado contra Marcel. Imagino que esse plano era sem mágicas, já que vocês sabem que vão morrer se fizerem – Elijah contra-atacou – Imagino que exatamente por isso que querem uma aproximação lenta e certeira de Niklaus.

Sophie parecia perdida. Avaliando cada argumento, tentando decidir que lado escolher. Como eu havia notado, ela era insegura e medrosa. Estaria aterrorizada de ser a única descendente viva de Qetsiyah e ter toda a responsabilidade jogada nos seus ombros. Ela iria querer a irmã de volta. Por mais que o plano da irmã fosse se sacrificar e deixar a mais nova no comando, a garota era burra demais para segui-lo. Jane-Anne errou em confiar na irmã.

— Então, bruxinha – Me aproximei mais dela – Já lhes demos motivo o suficiente para escolher. Você terá mais vantagens com Jane-Anne do seu lado.

— Se você fizer o feitiço agora, Sophie, Marcel te mata e você não poderá voltar – A bruxa ficou de frente para ela.

— Isso não vai acontecer, eu garanto. Falarei com Marcel. Tem algo que ele vai querer em troca.

— Ah, é mesmo, o que? – A bruxa cruzou os braços me enfrentando.

— Eu mordi um dos membros da sua gangue, do seu grupinho particular. Se ele não beber o meu sangue, vai morrer em algumas horas. Marcel não vai querer que seu braço direito morra. Farei um acordo de paz com ele e entregarei meu sangue para o garoto. Posso conseguir barganhar a vida de Sophie e, de quebra, ganhar a confiança de Marcel, tal qual vocês queriam – Esse foi o golpe final.

— Ainda assim não é garantido – Ela falou olhando para Sophie – Marcel vai achar estranho seu empenho em poupar a vida de uma bruxa. Vai saber que você tem interesses além.

— Sim, ele vai. Contudo, ele só vai achar que quero descobrir qual é a arma secreta. Ele não tem noção dos seus planos e dos meus. E, mais importante, Marcel preza muito por aquela família de ratos de esgoto dele. Vai aceitar com certeza – Minha paciência já estava acabando. Se essa garota não se decidisse logo a destruir o Outro Lado, seria difícil conter a minha tentação de assassinar algumas bruxas. Era um dilema ter que ponderar para não matar, desapontar Caroline e não matar, desapontar Caroline também, a deixando morta por mais tempo.

— Não confie nele, Sophie. Só quer o feitiço – Ela me encarou – Jane te mandou esperar.

— Eu não tenho escolha – A garota respondeu. Meu coração bateu forte com o triunfo quase certo – Você vai lá e entrega o sangue a Marcel. Minha irmã deu a vida dela por todos nós. Devemos acabar logo com esse filho da puta.

— Sophie, não foi isso que Jane-Anne mandou você fazer. Esse não é o plano – Uma outra bruxa se revoltou.

— Os planos mudam. As coisas ficaram piores.

— Por causa dele – A mulher apontou pra mim — Quem mandou ele tentar interferir? Aí, justamente você vai fazer o que ele quer? — Ela me olhou com raiva — Tentar salvar Jane-Anne foi muito imprudente, híbrido. Você colocou quase tudo a perder. Agora Marcel sabe que estávamos planejando algo além e que você pode ter alguma coisa a ver com isso. Será que você não pensa? Nós dissemos que haveria regras e você ignorou.

— Eu já disse, bruxa, ele pensa que estou desesperado para saber como ele controla vocês tão habilmente. Não quer me contar o que é enquanto ainda tem chance? Vai ser pior pra vocês se eu tiver que descobrir sozinho.

— Não nos ameace, híbrido, nesse momento é você quem precisa mais de nós.

— Ah, é mesmo? — Fiquei cara a cara com a atrevida. Se ela desse mais um pio, acabaria sem coração — Se a garota não realizar o feitiço agora, eu não entrego o sangue a Marcel e nosso jogo acaba aqui — Claro que na minha cabeça não existia essa opção. Eu precisava dessa mágica desesperadamente.

— Sophie, não seja imprudente. Não faça nada fora dos planos — Ela se dirigiu à garota, mas com os olhos pregados em mim. Eu ia responder com agressão quando Sophie nos interrompeu.

— Não se trata dele, se trata de nós. Eu não aguento mais Marcel. Eu quero ele morto – Ela se virou para mim novamente – Você vai agora lá entregar o sangue a Marcel, Klaus, vai recuperar a confiança dele. Não vou realizar o feitiço até você cumprir isso. Para você ter alguma chance de tentar trocar o sangue pela minha vida, eu teria que fazer a mágica nesse instante. Mas, não farei. O mais importante é destruir Marcel e não poupar a minha vida. Se você tentar, pode estar pondo tudo a perder ao levantar mais suspeitas. Se essa é a sua condição, então assim será. Somente pelo bem maior que aceitarei. Então, assim que você iniciar o jogo contra Marcel, cumprindo a sua parte, eu cumprirei a minha. Quando entregar o sangue, retorne e destruirei o Outro Lado.

— Como vou saber que não é um truque? Que garantias eu tenho, bruxa? Você é mesmo tão burra assim a ponto de achar que pode me dar ordens?

— Você já piorou e dificultou as coisas mais do que deveria. Está na hora de você cooperar. Se não o fizer, então temos um impasse – Eu ia avançar nela, mas Elijah me segurou discretamente pelo braço.

— Eu ficarei aqui com as bruxas. Garantirei que não deixarão o cemitério. Elas não poderão ir a lugar nenhum se eu não permitir – Meu irmão me olhava fundo nos olhos, me incentivando a não resistir ao trato. O olhei resignado. Sophie continuou.

— Você precisa firmar o seu lugar no mundo de Marcel. No círculo interno, no grupo daqueles que andam à luz do dia. Eles são amigos dele. Sua família, tal como você já percebeu. Vamos atingi-lo onde mais dói, mas não com imprudência que nem você fez hoje – Me aproximei ameaçadoramente delas.

— Bruxas, se vocês me enganarem, estou avisando, vou matar todas vocês. Vou caçar cada bruxa, cada descendente seus que viverem nessa cidade. Só vai sobrar a bruxinha aqui para contar a história – Me virei para Sophie — E você querendo ou não, vai fazer a mágica, mesmo que eu tenha que te torturar por semanas – Elas me olhavam com ódio. Mas, não podiam fazer nada. Um passo em falso, uma mágica feita contra mim e Marcel as caçaria até a morte, isso se não morressem pelas minhas mãos primeiro. Olhando para Elijah, deixei o casebre.

A incerteza do futuro, o medo de não ser bem sucedido e Caroline nunca mais voltar me assombravam de uma forma sem igual. Nem mesmo as perseguições de Mikael me assustaram assim. Decidido a conseguir tudo o que precisava, mais uma vez naquele dia, exausto e irritadiço, corri na velocidade vampírica até o famoso bar fedorento e fundo de quintal de Marcel no French Quarter. Cada minuto era uma tortura. Claro que, ao chegar lá, não fui bem recebido. Os olhares indignados e raivosos na minha direção indicavam exatamente o desprezo pela minha presença imposta. Ignorei e subi os andares, até o "escritório" de Marcel, que estava vazio. Adentrei mais nos cômodos do local que um dia foi meu e os encontrei num quarto.

Lá estavam reunidos uns dez membros do grupo, o círculo interno dele. O garoto que eu mordi estava deitado numa cama antiga e luxuosa, com a aparência já bem degradada pelo efeito do veneno. Marcel estava sentado numa cadeira ao lado do garoto, enquanto outro vampiro tentava dar um copo de sangue para o rapaz, mas sem sucesso. O líder instantaneamente se levantou ao me ver entrar, se colocando no caminho, como se ele realmente pudesse me deter.

— Eu tive um assomo de raiva, não pensei direito. Mas, a razão voltou à minha cabeça – Comecei a falar, enquanto Marcel me olhava raivoso e impedia um dos seus comparsas de se aproximar de mim – Você sabe que controlar meu temperamento nunca foi meu forte. Já deveria estar acostumado com meus surtos. Nem sempre o que eu faço é o que eu pretendia — Ele continuou calado, me avaliando — Eu não sou inimigo de vocês. Só fui pego de surpresa, não soube lidar. Mas, me surpreende até aonde essa cidade tenha chegado, até aonde você chegou, meu aprendiz. Onde minha família e eu falhamos nessa cidade, Marcel obteve sucesso – A expressão dele suavizou. Talvez nossos antigos laços ainda o influenciasse. Me virei para uma cômoda antiga que estava ao meu lado e peguei um copo de vidro vazio que se encontrava sobre ela. Mordi meu pulso com minhas presas e derramei meu sangue nele. Ofereci a Marcel – Meu sangue irá curá-lo. Como se nunca tivesse acontecido – Marcel fez sinal com a cabeça para que um dos seus amigos levasse o copo até o garoto. Ele bebeu desesperadamente, enquanto todos assistiam apreensivos – O Quarter é seu lar. E deixou de ser o meu há muito tempo – Marcel se virou de volta pra mim – Então, gostaria de ficar mais algum tempo. Conhecer esse novo paraíso. Se ainda for bem-vindo – A expressão dura e desconfiada de Marcel deu lugar a um sorriso falso, largo e alegre.

Respirei com alívio. Se ele acreditava em mim ou não, pelo menos um passo foi dado até a dianteira. Game on.

— E quanto as bruxas. Não me importo. O que você faz com elas não me interessa, embora me intriga como você faz para domá-las. A curiosidade sempre terá um espaço na minha mente – Marcel me encarou duvidoso, mas não fez nenhum comentário. Ele sorriu abertamente, colocando as duas mãos em volta do meu pescoço, num gesto de irmandade masculina.

— Eu bem sei que seu temperamento não é de todo incontrolável. A emoção deve estar sempre à serviço da inteligência e não o contrário. Você me ensinou isso também — Revirei os olhos sorrindo. Sempre com essa ladainha de mestre e aprendiz.

— Agora, se você não se importa, irei finalmente me instalar no hotel. Mais tarde eu apareço aqui para você me mostrar o que mais fez nessa cidade. Estou ansioso para descobrir. Vai ser divertido o nosso tour — Ele colocou a mão no meu ombro, sorri e fui embora, deixando pra trás um Marcel duvidoso e pasmo. Se eu fui convincente ou não, sei lá. Fingir era dificultoso pra mim.

Estava desesperado para resolver essa questão com as bruxas de uma vez por todas. Usei minha velocidade vampírica para me afastar mais rapidamente do bar e, quando já estava a uma distância considerável em que ninguém pudesse me ver ou me ouvir, entrei num beco escuro e parei. Saquei o celular e liguei para Elijah.

— Está feito. Mande a bruxa terminar logo com isso.

— Ela quer garantias – Respondeu meu irmão. Fechei os olhos e inspirei fundo com irritação. O que elas queriam que eu fizesse? Tirasse fotos?

— Elijah, fale para essas desgraçadas que já está feito, caralho. Não tem como eu provar. Ou ela vai mandar alguma bruxa para verificar? Vai é morrer. Entreguei o sangue. Marcel acreditou em mim. Pronto. É isso. Logo estarei aí. Mande logo Sophie começar – Sem esperar por resposta, desliguei o telefone e corri novamente.

Eu estava exausto. Passei o dia todo rodando essa cidade sem nem ao menos beber sangue. Me sentia imundo, precisava de um banho. Porém, essas questões secundárias não tinham a menor importância se comparadas ao que estava prestes a acontecer.

E mais uma vez naquele dia estava eu entrando naquele cemitério decadente. A paciência já tinha acabado. Que essa bruxa fizesse logo a merda do feitiço ou umas cabeças iriam rolar. Não demorei para encontrá-las, em volta da cova de Qetsiyah. Não me aproximei muito, pois, finalmente, a bruxa estava fazendo a mágica. Meu coração disparou.

Elijah e as outras bruxas também mantinham uma certa distância. Ao me ver, ele veio ao meu encontro, mas sem falar nada. Eu mantinha os olhos grudados em Sophie, exasperado demais, com o coração a mil batendo forte contra o meu peito fazendo meu tórax doer. Podia escutar com precisão as suas batidas, mesmo no meio do estrondo do feitiço. Minha respiração estava ofegante e meus dedos estavam gelados, quase dormentes.

Sophie, de repente, parou. Olhou pra mim e fechou os olhos. Não entendi.

Então, ela recomeçou a esbravejar palavras estranhas e o estrondo de feitiços tomou conta do lugar outra vez. Elijah e eu nos abaixamos quando alguns pedaços de árvores e de pedras voaram até nos. Mesmo com as mãos tapando um pouco meu rosto, visualizei os movimentos de Sophie. Ela estava demorando mais do que a irmã. Eu sabia que ela era uma fraude. Isso ia dar errado, eu estava sentindo. Alguma coisa não estava no lugar...

Então, bem ao lado das outras bruxas, Jane-Anne e Juliette apareceram. Meu coração parou e meus olhos se arregalam. Estava feito.

Jane-Anne olhava em volta perplexa e confusa, já a outra bruxa abraçava as aliadas.

Sophie demorou mais alguns segundos até que tudo silenciou e ela voltou ao normal, mas caída de joelhos não chão, exausta. Jane-Anne foi segurá-la, a abraçando forte.

Eu olhei para Elijah, que possuía um sorriso besta na cara. Eu também queria sorrir, mas meus músculos do rosto estavam duros de apreensão. Foi muito fácil. Nada nunca é simples assim. Elijah se virou para mim e colocou as duas mãos nos meus ombros, acenando com a cabeça. Era isso, conseguimos? Eu estava meio paralisado, com dificuldade de esboçar alguma expressão.

O Outro Lado foi destruído.

Nesse momento, em Mystic Falls, Caroline estava viva...

Fui despertado do estado de transe com a voz de Jane-Anne, mas meus olhos estavam um tanto anuviados de emoção. Eu queria desesperadamente correr daquele cemitério e ligar para ela, só para ouvir sua voz, sua respiração. Ter certeza de que não era um golpe ou alucinação minha.

— Sophie, você enlouqueceu? Eu mandei você esperar! Nós tínhamos um plano. E agora você se pôs em risco. Marcel vai te matar!

— Ainda nosso plano está de pé, nada mudou. E quanto a Marcel, deixe ele vir. Acabo com ele. Estou farta dele.

— Você tá maluca, garota? Tudo mudou. Agora não temos como obrigar o híbrido cumprir a sua parte no trato. Ele vai nos trair – Jane-Anne falava desesperada.

— Não vai. Ele está preso aqui conosco.

Olhei para Sophie estalando o pescoço.

— O que quer dizer? – Perguntou a irmã.

— Antes de destruir o Outro Lado, Agnes fez um feitiço que o prenderá aqui em New Orleans. Ele não poderá cruzar a divisa da cidade. Lá está uma barreira mágica que o impede de passar.

Maldita! Essa vadia me fez seu prisioneiro?

Meu sangue subiu. Sem pensar duas vezes, avancei sobre Sophie, segurando seu pescoço. Eu não sabia quem era Agnes, portanto, quem pagaria o preço seria a caçula desgraçada. Jane-Anne gritou enquanto as outras bruxas correram até nós, mas sem ousarem jogar algum feitiço em mim.

— Me diga, bruxinha, quem é essa mulher? Se não me disser, você morre no lugar dela.

— Niklaus – Elijah me alarmou. Que se dane. Elas não iriam me fazer seu prisioneiro – Sophie, isso não foi prudente. Desfaça o feitiço, por favor. Não fazia parte do trato. Você agiu pelas nossas costas – Será que meu irmão não entendia que existiam situações em que a diplomacia não poderia resolver?

— Não me importo. Vocês acharam mesmo que era só dizer que cumpririam o trato, que nós acreditaríamos e faríamos o feitiço de bom grado e de graça? Realmente acha que somos burras? Eu sabia que você aceitaria o acordo, no final das contas. Você parece desesperado. Tratei de me precaver – Ela falava engasgando, com um olhar alucinado. A garota tinha perdido as estribeiras.

— Aparentemente você é burra, porque nada me impede de matar vocês agora – Só a dor na consciência. Eu não queria ser o monstro que Caroline desprezava. Afrouxei a mão, mas ainda segurava a bruxa.

— Vá em frente. Eu já estou condenada. Marcel vai me matar. Mas, quanto a Agnes, você não saberá quem é, nem você e nem Marcel tocarão nela. Tarde demais.

— Como assim, Sophie? – Jane-Anne perguntou preocupada.

— Eu não poderia deixar Agnes aqui, tampouco deixar esse demônio escapar – Ela falou com a voz rouca — Portanto, pelo bem maior, convencemos Agnes a fugir quando chegamos no cemitério. Se ela ficasse, Marcel ou Klaus a matariam, o feitiço estaria desfeito e ele estaria livre para ir embora da cidade e descumprir o acordo. A essa altura, Agnes já está longe. Talvez Marcel esteja descobrindo agora sobre feitiço dela, mas não adianta mais. Acabou que foi uma ótima distração o seu amigo ser mordido. Aproveitamos que Marcel estava ocupado demais preocupado com a iminente morte do seu braço direito. Ele não estaria prestando tanta atenção nas bruxas quanto deveria – Ela sorria, os olhos um tanto lunáticos. Essa garota era um perigo até mesmo para as bruxas.

— Ela ainda pode ser pega no caminho, Sophie. Agnes terá seus poderes enfraquecidos ou anulados longe dos seus ancestrais – Jane-Ane falou aturdida. Não sabia se era por Agnes ou pela irmã doente mental.

— Ela os terá de volta quando Marvel estiver acabado. E não há como alcançá-la mais, irmã – Apertei mais forte outra vez. Eu queria muito arrancar a cabeça dela. Nunca me custou tanto na vida ponderar a morte de alguém.

— Niklaus, solte a garota – Elijah proferiu – Sophie, você poderia desfazer o feitiço agora, por favor? – Ele frisou as últimas palavras – Não serei capaz de controlar meu irmão por muito tempo. E honestamente, não sei se quero. Você foi além do nosso trato. Ninguém ameaça a minha família e sai ileso. Se continuar com essa ideia absurda, eu mesmo te darei um fim merecido – Olhei para ele e sorri. Finalmente meu irmão sendo sensato.

— Poderia, mas não vou. Pode me matar. Eu já vou morrer de qualquer forma – Ela sorriu triunfante. Não fim de tudo, essa garota se mostrou mais ardilosa do que a irmã. Jane-Anne nos olhava aterrorizada, tal como as outras bruxas.

— Niklaus, pensando melhor, se matarmos Sophie agora, Marcel vai suspeitar de nós. Ele vai saber que de alguma forma estamos envolvidos com elas e com seus feitiços de hoje – Elijah veio me afastar da garota – Eu confesso que estou muito tentado a matá-la eu mesmo, mas não é prudente. Deixe que ele cuide dela — Ele tinha razão. Contudo, meu temperamento era complicado demais.

Sem pensar duas vezes, avancei em outra bruxa e arranquei seu coração. Vingança. Retaliação. Justiça. Como quiser chamar. Todas saltaram gritos de pânico, com olhos arregalados, e Jane-Anne correu para alcançar o corpo da aliada. Elijah não me deteve. Dessa vez ele não estava tão tentado assim a salvar a pele das bruxas. Ele apenas ficou lá assistindo tudo displicentemente, parado com as mãos nos bolsos. Eu estava alucinando ou realmente detectei no seu rosto um meio sorriso de canto.

— Matar você, bruxinha – Me virei para Sophie e falava enquanto lambia o sangue dos dedos – Seria suspeito. Marcel já sabe que você fez mágica. Por que eu mataria você? Ele se questionaria. Contudo, nada tem de suspeito na morte de uma bruxa insignificante, cujo nome todos desconhecem. Que isso sirva de lição para vocês. Eu não sou comandado por bruxas imundas de esgoto e nem por mais ninguém. Quando a família perguntar, em prantos, o que aconteceu aqui hoje, apenas falem essa mesma merda que vocês repetiram o dia inteiro: morreu pelo bem maior.

Fui embora desnorteado. A vitória foi agridoce. Matei de novo, mesmo me esforçando para não fazê-lo por ela. A questão é que algumas pessoas não te dão outra escolha. Não me trouxe tanta alegria como antes, mas foi interessante. E necessário.

Claro, nada era mais importante do que destruir o Outro Lado e Caroline viver novamente. Mas, saber que eu estava preso em New Orleans, sabe-se lá até quando, me deixava alucinado. Eu não voltaria pra ela tão cedo. Não veria seu rosto angelical e seu corpo vivo depois de tantas semanas de árdua e ansiosa espera. Não presenciaria seu típico ar mandão e seu tom estridente ao gritar comigo por mais uma merda que eu supostamente cometi.

Mystic Falls, a partir de agora, estaria enfrentando o caos e eu não poderia estar lá para ajudá-la e nem à Rebekah. Suspirei. O universo tinha o dom de fuder comigo. Era carma com certeza.

O que me restava agora era a guerra contra Marcel. Se eu fosse ficar na cidade, mesmo que temporariamente, eu pegaria o que era meu por direito e construiria o meu império a partir das cinzas da tirania atual.

Ao avistar uma pequena fonte, provavelmente destinada aos pássaros, lavei o sangue das minhas mãos na água semi limpa. Não era perfeito, mas daria para o gasto.

Ouvi passos atrás de mim. Elijah. Me virei para ele.

— Você precisa voltar a Mystic Falls urgentemente – Disse enquanto cruzávamos a saída do cemitério.

— E você vai ficar sozinho aqui no fogo cruzado entre bruxas e vampiros?

— Que escolha eu tenho? Mas, me decidi que farei isso por mim e não pelas bruxas. Quero minha cidade de volta.

— Será um processo longo. Quer mesmo ficar e deixar tudo em Mystic Falls para trás? – Entende-se deixar Caroline e Rebekah.

— Não exatamente – fui sincero – Quero voltar. Mas, nós dois sabemos que não posso, não por enquanto — Eu poderia ir até a divisa da cidade e testar, mas talvez fosse perda de tempo. Resignado, continuei — O que farei é buscar um jeito de quebrar o feitiço que me prende aqui e usar esse meio tempo para recuperar a minha terra. Tomar o poder. Vai ser fácil, nem preciso de muita elaboração para vencer o idiota do Marcel. Quero ser o rei dessa cidade. Da minha cidade.

— Não acredito que depois de todo o nosso esforço, depois de toda a teia de confusão em que nos metemos por algo mais importante que seu reinado, você está preocupado com poder, mas não com a família – O olhei revoltado enquanto caminhávamos.

— Como se atreve? Eu fiz o inferno aqui pra destruir o Outro Lado. Fazendo o possível para me redimir da desgraça que causei, da morte dela.

— Mas, essa vida que Marcel leva te chamou atenção e agora você está cobiçando ela.

— Não se trata da vida que ele está levando. Se trata da vida que deveria ser minha e ele roubou. Eu o criei como minha imagem e semelhança e ele aperfeiçoou. Você mesmo se sentiu contrariado quando foi obrigado pelo nosso pai a abandonar New Orleans. Você gostava daqui — Elijah ainda me olhava incrédulo, desapontado. Suspirei – Do que preciso no momento é que você volte a Mystic Falls e fique ao lado de Rebekah e de Caroline.

— Por mais que eu queira, não posso te deixar sozinho aqui. Alguém precisa vigiar a sua retaguarda. É impossível você ficar aqui por conta própria sem que em algum momento alguém te apunhale pelas costas.

— Eu não preciso de proteção. Sou o mais forte dos Originais.

— Verdade. Mas, é o mais imprudente e temperamental. Alguém precisa controlar o seu gênio e vigiar as suas ações. Eu temo que se deixar tudo com você, a cidade acabe em chamas e destruída – olhei pra ele com veneno nos olhos. Já ia lhe responder com malcriação quando ele continuou – Além disso, pense numa questão mais séria ainda.

— O que poderia ser? – Perguntei descrente. Pior do que hoje? Só com muito esforço.

— Mikael e Esther – Ele me olhou. Sim, isso era pior. Com tudo o que aconteceu, com todas as minhas energias fincadas em apenas recuperar a vida de Caroline, tinha me esquecido dos pais do ano – Eles já estão de volta. Todos já estão. É bom que estejamos longe delas, de Rebekah e de Caroline. Pelo menos por enquanto. Mikael virá atrás de você aqui. Onde quer que você esteja, ele irá atrás de você. E de quebra, atrás de mim se eu estiver do seu lado. Ele quer você morto de qualquer jeito e me mataria também no processo apenas para conseguir isso. Porém, ele sempre foi mais suave com Rebekah. Com a gente longe dela, ela ficará melhor. E por consequência, Caroline também – Por pior que seja, ele tinha razão. Era um caralho admitir isso. Significava que eu teria que aceitar ficar longe de Caroline por um tempo, mesmo se conseguisse derrubar a barreira na divisa da cidade. Eu seria capaz disso? Eu não era conhecido pelo meu auto-controle. Mas, quando Mikael viesse, eu acabaria com ele – Eu sinto muito, Niklaus, mas nem sempre os planos saem como queremos. Nem sempre as coisas dão certo. Não se pode ter tudo. Sempre se perde algo no processo – Ele abaixou a cabeça resignado. E eu também estava. Mais do que isso, estava puto – Porém, nós conseguiremos a nossa família de volta, mesmo que tenhamos que adiar, conseguiremos – Ele terminou sorrindo. Esse era Elijah, otimista mesmo com o universo conspirando contra nós. Sorri também, mas sem muito entusiasmo. Eu não tinha tanta certeza assim. Já estava acostumado a esperar pelo pior, levando em consideração todo meu histórico de fracassos.

Eu estava destruído física e emocionalmente. Só queria um descanso de toda essa confusão. Deitar e apagar a mente. Era hora de visitar o hotel e ver se realmente satisfaria as minhas expectativas. Porém, percebi uma movimentação em direção ao French Quarter, próximo ao local onde já estávamos. Elijah e eu nos entreolhamos. Desconfiávamos do que se tratava. Para a minha alegria de um lado e desgosto do outro, era o julgamento de Sophie.

Corremos para lá na velocidade vampírica e nos deparamos com o mesmo cenário baderneiro e desleixado dos habituais julgamentos de rua de Marcel. Era vergonhoso e sem um pingo de classe.

Sophie estava amarrada pelos pulsos, sendo segurada por um vampiro. Fiquei pensando o quão rapidamente ela foi pega, se foi no cemitério...Eu precisava urgentemente descobrir que arma era essa de Marcel se quisesse ganhar vantagem contra ele.

Marcel me viu e esboçou um sorriso carismático, mas ao mesmo tempo demoníaco.

— Sophie Deveraux – Ele anunciou como se fosse um juiz – Digam olá para ela, pessoal – O mesmo show de horrores acontecia, como num ritual. Um roteiro a ser seguido. Ela o olhava com desprezo enquanto os outros brandiam suas vozes, com gritos e assobios de alegria mórbida – Você é acusada de praticar bruxaria além dos limites das regras criadas e aplicadas por mim. Como você se declara? – Ele sorria triunfante. Se aproximou dela o bastante para tocá-la.

— Culpada – Ela respondeu com um sorriso enviesado. A garota realmente era insana. Merecia o crédito pela coragem disfarçada de insensatez.

Percebi um reboliço vindo da minha direita. Duas bruxas que estavam conosco no cemitério estavam presentes. Uma delas correu até Sophie, mas foi barrada por um dos capangas de Marcel. Olhei em volta à procura de Jane-Anne, mas não a encontrei. Ela se esconderia por enquanto. Afinal, Marcel pensava que ela estava morta. Ele mesmo cortou a garganta dela horas atrás. Deveria ser duro saber que a irmã estava sendo julgada e condenada à morte certa e nem ao menos poder estar perto para se despedir. Desviei meus pensamentos de uma humanidade passageira e me concentrei no evento.

— Então, você admite abertamente que quebrou uma das minhas regras mais importantes e de que está consciente das consequências? – Marcel se aproximou dela com curiosidade, quase incrédulo – Eu confesso que não gosto quando vocês mentem pra mim, mas pelo menos tentam alguma coisa. Você nem está se esforçando, mulher. Você precisa ter algum senso de outro-preservação, Sophie. Mas, nesse caso, não vai precisar mais dele. Porém, o que mais me intriga é o seguinte: três feitiços no mesmo dia. O que vocês estão aprontando, posso saber? Eu exijo saber. Estão armando algo grande. E onde está Agnes Moreau? Um mistério intrigante à beça. Ela faz um feitiço e some do mapa. Seja o que estiverem planejando, eu vou pegar vocês – Com expressão de ódio, Sophie cuspiu no rosto de Marcel, soltando uma gargalhada histérica.

A multidão cessou o barulho bruscamente e se concentrou na reação do líder. Sem pensar duas vezes, ele encostou suas mãos nos lados da cabeça da garota com violência. Apertou tão forte que em poucos segundos sua cabeça estourou, fazendo miolos e sangue voarem para todo lado.

A reação do grupo era repugnante. Não que eu sentisse alguma compaixão pela garota. Ela mereceu morrer depois de todo o inferno que me causou. Contudo, não deixava de achar asqueroso o comportamento da multidão. Para eles não era apenas um acerto de contas. Era uma espetáculo divertido.

Elijah me olhou significativamente enquanto Marcel se dirigia a nós. Olhei em volta e percebi que as bruxas estavam chorando envolta do corpo semi desfigurado de Sophie. Desviei os olhos. Não me interessava mais interagir com aquelas traidoras por hoje e evitaria isso o máximo possível.

— Você perdeu a chance de torturar a garota até obter respostas. Nunca se deve jogar fora uma boa pista — Falei com falsa indignação quando ele se juntou a nós. Ele não aprendeu tudo o que eu ensinei, pelo visto.

— Não gosto de interrogatórios, mas entrei no jogo. Uma hora ou outra eu vou descobrir o que estão tramando. Nada fica escondido de mim por tanto tempo assim na minha cidade — Senti a alfinetada — Pensei que já tivesse ido para o hotel – Ele foi categórico, me olhando desconfiado.

— Estava, mas percebi que estou há muito tempo sem sangue e resolvi me divertir um pouco – Eu realmente estava sem alimento há muitas horas. Ele sorriu.

— Espero que não tenha deixado rastros. Não queremos assustar os turistas. Eles são a nossa fonte valiosa.

— Até parece que você está falando com algum amador.

— Amador, nunca, mas eu conheço o seu estilo. Gosta de amedrontar e de perseguir a presa. Isso te deixa empolgado.

— Touché. Infelizmente, tenho a companhia de um estraga prazeres que não me deixa fazer isso — acenei na direção de Elijah – Ele não acha elegante brincar com a comida.

— E não é – Meu irmão imbecil respondeu.

— Enfim, estávamos nas proximidades e ouvimos o burburinho dos seus vampiros. Passei para conferir. Mais um julgamento? O dia está bem atarefado pra você hoje. Ou é assim sempre?

— Não é. Não estou reclamando, adoro manter essas bruxas na linha. Mas, estão me dando trabalho além da conta hoje. Coincidentemente no dia que você chegou. Foi premiado — Porra, ele estava ligando os pontos.

— Confesso que é espetaculoso demais para o meu gosto, mas admito que adoro um bom derramamento de sangue. Especialmente vindo de bruxas – Tentei desconversar. Elijah me olhou com repreensão.

— Então, somos dois – Marcel respondeu sorrindo.

— Se vocês não se importam, me retirarei para descansar – Elijah falou – Espero contar com a sua hospitalidade, Marcellus. A cidade está esplêndida e gostaria de aproveitar um pouco da sua cultura, partilhar da nostalgia. Espero que sejamos bem-vindos. Meu irmão não deu as melhores primeiras impressões, mas você já sabe como ele é.

— Sem dúvidas. O que é meu também é dos Originais fundadores – Ele sabia fingir muito bem.

— Então, é isso. Boa noite – Meu irmão deu as costas e eu o acompanhei, me despedindo de Marcel.

Andamos um do lado do outro calados, esperando estarmos bem longe do radar dos comparsas de Marcel, até que Elijah se pronunciou.

— Se vamos ficar aqui por mais tempo do que prevíamos será melhor comprarmos uma casa e não ficarmos hospedados em hotéis. Embora eu goste muito de serviços de quarto, prefiro a nossa privacidade. Na nossa casa não precisamos esconder a nossa natureza.

— Eu não sei por quê você continua falando no plural. Eu já disse que quero que você volte a Mystic Falls – Ele revirou os olhos – Não aceitei o meu destino, mas por hora terei de lidar com ele. Você não precisa ficar preso comigo.

— Eu sei. Mas, já lhe expliquei porque vou ficar e não vou repetir. Está decidido – Ele olhava para algum ponto distante a nossa frente — Amanhã de manhã verei uma casa. Talvez a nossa antiga casa seja uma boa ideia. Só contratar alguns empregados para limpá-la e deixa-la pronta para nós.

— Marcel está na nossa casa. Ele dorme nas nossas antigas camas. Perambula pelos nossos antigos corredores. Usa os nossos móveis vitorianos...- Falei com raiva.

— Não digo a casa principal da Província, mas a antiga do Canavial. Sempre gostei mais de lá. A Mansão Oak Alley, ladeada por carvalhos e um esplêndido vislumbre das águas do poderoso rio Mississippi. Sempre me senti em paz com aquela vista.

Eu teria que admitir para mim mesmo, partilhava dos mesmos sentimentos pela casa. Recuperar a mansão do centro de NOLA que estava com Marcel era uma questão de honra e de política, mas não uma questão de preferência. A casa de Oak Alley foi uma das que mais gostei de morar ao longo dos meus mil anos. Tanto espaço aberto para cavalgar e desfrutar de uma tarde relaxante. O rio límpido e ótimo para nadar. E a vista. Toda a casa tinha vista para o rio e para o os prados e carvalhos. Era incrível como só a poucos minutos de carro do French Quarter se encontrava um dos maiores grupos de bosques e de mansões majestosas que um dia já foram de Colonos administradores da agricultura do século XVIII. Eu fui um desses colonos... Me perguntava como estaria o canavial hoje, tendo em vista que a Era dos Plantations naquela região havia acabado, tardiamente, algumas décadas depois que me mudei.

— Tá. Faz o que você quiser, mas ainda terei a nossa outra casa de volta. Mas, como por hora não temos nenhuma das duas, só nos resta o hotel. A mansão de Oak Alley já deve ter outro dono. Vai fazer o que para consegui-la tão rápido? – Indaguei curioso – Eu sugiro morte dos proprietários. Não teremos muita dor de cabeça. Poderemos entrar imediatamente – Sorri cinicamente e Elijah me olhou feio.

— Vamos fazer uma boa oferta e comprar de volta. E contar com a sorte de que toda a área externa ainda seja do mesmo proprietário. Se não for, a gente compra mesmo assim e anexa. Amanhã verei isso. Será a primeira coisa que farei – Elijah esboçava um sorriso pequeno e uma expressão sonhadora e animada. Idiota. Ter a nossa casa de volta vai ser ótimo, mas ainda assim ele era um idiota.

Chegamos no hotel que Marcel me indicou. Olhei em volta para conferir se ninguém nos seguia. Não poderia confiar que Marcel apenas me indicou o hotel sem nenhuma carta na manga. Contudo, a rua parecia normalmente movimentada, sem figuras suspeitas.

Entrei no hotel e me deparei com um saguão luxuoso e iluminado, que preservava e misturava a elegância da beleza clássica da cidade com detalhes modernos. Marcel tinha razão sobre o hotel atender às minhas expectativas. Pelo menos era o que parecia. Apesar de ser um traidor, ele me conhecia muito bem.

Cheguei na recepção e fui atendido por uma loira alta, de sorriso brilhante e alegre. Isso me lembrou da Caroline. Meu coração se apertou na angústia de lembrar que não a veria tão cedo. Elijah também foi falar com outro atendente da recepção.

— Boa noite, senhorita. Quero a sua cobertura, por favor – Fiz o pedido.

— Desculpe, já está ocupada – Ela sorriu muito largamente – Mas, temos muitos outros quartos com luxo semelhante.

— Tenho certeza de que você encontrará um jeito de conseguir o que eu quero – A olhei diretamente nos seus olhos, a hipnotizando. Verbena não estava na água desse povo, Marcel garantia isso para seu pequeno grupinho se divertir sem contratempos.

— Deixe-me ver – Ela disse ao sair do transe. Ela pegou o celular e falou com alguém – O senhor aguarde só alguns minutos que o quarto já estará pronto – Sorri satisfeito. Elijah se colocou ao me lado.

— Claro que você vai conseguir seu próprio quarto. Quero paz, pelo menos por essa noite – Fui direto. Ele revirou os olhos.

— Não se preocupe. Já pedi o meu. Só vim te dar boa noite. Amanhã nos falamos – Sendo assim, ele chamou o elevador largo e luxuoso e entrou. Me concentrei na mulher na minha frente.

— Vai demorar muito? – Perguntei impaciente. Só queria me alimentar, tomar banho e dormir. Se não tivessem tantas pessoas espalhadas pelo saguão, eu morderia o pescoço da atendente ali mesmo. E também não estava a fim de me prolongar mais fora do conforto, além de que teria que ouvir mais um dos sermões enfadonhos de Elijah.

— Aqui está seu cartão-chave. Se precisar de algo, só nos ligar. Tenha uma excelente noite – Ela sorria demasiado feliz. Não liguei e fui para meu quarto.

Olhei no cartão e a cobertura ficava no vigésimo quarto andar. Gostei. Teria uma visão incrível da cidade.

Olhei no relógio e já se passavam das cinco horas da manhã. Eu estava exausto.

Mas, a única coisa que martelava na minha mente era a visão de Caroline. Viva.

Peguei o celular e procurei por seu nome na minha lista de contatos. Precisava ouvir a sua voz. Só assim me sentiria um pouco aliviado, (mas não totalmente...). Precisava ter uma prova de que ela realmente havia voltado, de que estava a salvo e de que me perdoaria.

Então, lembrei, era a mesma hora em Mystica Falls, muito tarde para ligar.

Faria isso amanhã, quando estivesse com a mente fresca e soubesse o que iria falar para ela. Teria que achar uma forma de contar que eu não estaria de volta para recebê-la.

Inspirei fundo, cansado e frustrado.

Ao chegar no corredor luxuoso e bem iluminado, com o chão de mármore brilhando como um espelho, me deparei com as portas duplas e brancas do meu quarto. Entrei e bem de frente, a alguns metros de distância, se encontravam as portas e janelas que davam para a varanda larga, já indicando o esplendor da vista.

Dividido entre o cansaço, a curiosidade e a mente turbinada em pensamentos tortuosos, decidi adiar o banho para daqui alguns minutos e fui até a varanda.

Era incrível. Dava para ver quase toda a cidade e seu mar de pontinhos de luzes brilhantes mesmo naquela hora da madrugada, com seus prédios altos e majestosos impondo toda a sua magnitude de arranhas céu mais em direção ao Mississipi e seus prédios mais clássicos, antigos e baixos, mais ao centro do French Quarter.

Corria um vento leve e fresco. A sensação de paz ao sentir a brisa um pouco gélida no rosto me fez ficar menos tenso. Sentei-me em umas das poltronas de vime e fiquei admirando a paisagem urbana.

Então, era isso. Poderia ser frustrante ficar preso aqui sem Caroline e ser manipulado por bruxas, mas a sensação era de puro dever cumprido. Ela estava viva e era somente isso que importava.

Sorri e olhei para o céu, admirando as estrelas salpicando de prata a imensidão do tapete negro.

Só esperava que um dia ela me perdoasse e entendesse que tudo isso foi necessário. Eu falaria com ela, explicaria. Ela daria os seus chiliques de sempre, mas no fundo entenderia. A sua alma era generosa e transbordava compaixão. Ela perdoava e apoiava mesmo quem não merecesse.

O desejo era convidá-la para vir, ficar aqui comigo. Mas, ela não aceitaria, não agora. Não estava pronta ainda. Ela jamais abandonaria sua mãe e seus amiguinhos numa cidade em colapso, os deixando para trás numa zona de guerra e iminência de morte. Além disso, ainda estava muito presa às convenções humanas, ela ainda teria que entender que está livre, para finalmente se libertar.

E Elijah estava certo. Mikael queria a mim. E estar perto dela seria colocá-la num fogo cruzado. Eu acabaria com Mikael e agora seria de uma vez por todas.

O que mais me deixava tenso e preocupado era a situação de Mystic Falls. Caroline estaria no meio de guerrilhas com os seus inimigos e inimigos dos seus amigos. E agora, com a destruição do Outro Lado, tanto ela quanto Rebekah, ou qualquer sobrenatural, se morressem, seria definitivo.

O que significava que, de um jeito ou de outro, eu precisava encontrar logo uma maneira de destruir o feitiço da bruxa e me livrar dessa prisão. Cada dia, cada hora que passava era mais uma oportunidade de Caroline se ferir ou ser morta. Eu precisava estar lá com ela. Eu queria estar lá com ela. Rebekah não precisaria se preocupar com a morte, só com possíveis acontecimentos inconvenientes. A única arma que podia matar um Original estava bem guardada sob o nosso poder. Mas, já Caroline, mesmo sendo forte e um tanto intransigente, não era "imortal" como nós. Eu precisava garantir de alguma forma a proteção dela.

Isso me fez levantar de supetão da poltrona e sacar meu celular. Já passava das cinco horas e em breve estaria amanhecendo. Precisava falar com Rebekah. Ela poderia me ajudar. Reclamaria que nem o capeta no meu ouvido por acordá-la se estivesse dormindo, mas era urgente.

Achei seu nome na lista de contatos e disquei. Chamou até entrar na caixa postal. Tentei outra vez e foi igual. Porra. Xinguei alto. Onde essa peste estava que não me atendia? Chamou mais algumas vezes até que a demônia atendeu. Finalmente.

— Mas, que drogra, Nik. Você já viu a hora? Uma rainha precisa do seu sono da beleza – Revirei os olhos.

— Então, você não precisa do sono. Não é nenhuma rainha. Preciso falar com você. Por que não me atendeu logo?

— Eu estava tentando te ignorar e te fazer desistir. Não entendeu o recado? – a escutei bocejar — Como está Elijah? – Ela perguntou me alfinetando. Ela gostava de fazer isso, demostrar falso desinteresse na minha vida pra mostrar que não se importava comigo. Eu sabia que era fachada, só encenação.

— Está bem e vivo, sem adaga no coração. Por enquanto. Isso o que importa – Sorri com deboche. Eu podia ver a cara de raiva que ela estava fazendo.

— O que você quer, Nik? – respondeu mal humorada.

— Eu consegui realizar os meus planos, Rebekah. O Outro Lado foi destruído. Eu sei que Elijah te contou – Ela ficou em silêncio e prendeu a respiração.

— Espero que esteja muito satisfeito consigo mesmo. Estamos ferrados.

— Você sabe meus motivos e preciso da sua ajuda.

— No que? Não pareceu precisar dela horas atrás quando quebrou meu pescoço. E por que eu te ajudaria? – Sua voz era vacilante. Ela estava na defensiva, mas tocada pelo meu pedido. Raramente eu admitia que precisava dela.

— Eu preciso do seu suporte – Ela ficou muito quieta. Estava eu aqui, prestes a admitir para minha irmã meus sentimentos por Caroline, mesmo que indiretamente. O lado fantasiosamente romântico de Rebekah a ajudaria a entender – Eu sei das consequências e sei que você não concorda, mas eu fiz o que achava ser certo. Mesmo sendo ruim para mim, isso não importa – Ela continuou calada – O que importa são os danos que eu possa causar em você ou em Elijah. E em Kol, se ele quiser se juntar a nós. Eu sinto muito por envolver vocês nas minhas ideias mirabolantes. Não quero que se machuquem. Sinto muito, Rebekah – Eu estava sendo sincero. Verdade, ainda tinha Kol. Em breve meu irmão se reuniria a nós. Isso me deixou feliz.

— Estou ouvindo. Continue – Ouvi barulhos vindo de onde ela estava, provavelmente se levantou – Estou trocando de roupa. Já me acordou mesmo. Pode falar – Ela dizia mais brandamente.

— Então – Respirou fundo – Apesar das nossas diferenças, Rebekah, você é uma das pessoas em quem eu mais confio. Talvez eu seja idiota por isso, mas confio – Ela parou de fazer barulho — Eu preciso que você fique de olho na Caroline por mim – Soltei de uma vez – A cidade vai virar um caos e ela corre riscos.

— Serei sua babá contratada, então? – Ela respondeu indignada.

— Claro que, não. Caroline sabe se virar muito bem sozinha com as suas habilidades de vampira, porém ela não é "imortal'. Ela não é como nós, Rebekah. Existem coisas que estão acima da sua força. Quanto ao resto, não estou preocupado. Ela sabe lidar com os infortúnios da vida – Inspirei cansado – Eu só preciso que você fique de olho. Só isso.

— Sabe, Nik, me dá muita vontade de dizer "não". Difícil engolir a sua cara de pau nesse pedido. Depois de tudo o que você nos causou, você ainda quer apoio.

— Rebekah, você me acusa de ser cruel, mas se não te faltar a memória, deve lembrar muito bem que foi você quem conspirou verdadeiramente para matar seu próprio irmão e quase conseguiu.

— Do que você está falando? – Ela se alarmou.

— Lembra de Marcel, sistah? — Cuspi ironicamente — Ele está aqui. Bem e vivo – Ela prendou a respiração mais uma vez – Ele está governando a minha cidade, enquanto mora na nossa casa. Eu deixei passar muitos anos a sua traição porque pensei que ele tivesse morrido. Era só mais uma tentativa falha dos meus irmãos traidores de me aniquilar, nada de novo no histórico de vocês. Mas, olhar para aquela cara cínica dele me trouxe à tona todo o inferno pelo o que passamos ao fugir de New Orleans. E foi porque você e ele conspiraram contra mim. Eu resolvi adiar o acerto de contas, anos atrás, porque você esteve sempre do meu lado e sempre foi uma cabeça fraca por causa de homem. Eu sei que ele te convenceu a acabar comigo para que vocês pudessem fugir juntos sem mais a minha suposta tirania e posse sobre você. Atraíram Mikael até NOLA para me matar. Isso foi muito grave, sistah, até mesmo para você – O seu silêncio era mortal. Esperei ela se recompor. Estava fazendo o máximo possível para manter a calma e não me ressentir de Rebekah novamente. Eu fazia muito esforço para deixar isso no fundo do baú, mesmo depois de séculos. Mantinha sob controle o impulso de puni-la severamente. E agora que eu precisava dela, era o pior momento para me vingar.

— Marcel está vivo? – Sua voz estava fraca.

— Sim, minha querida sistah. De tudo o que eu disse, só isso te importa?

— Como você descobriu o que aconteceu séculos atrás?

— Você ainda acha que pode me enganar bem debaixo do meu nariz?

— Você nunca me demonstrou nada. Não há justificativa, Nik – ela recomeçou a falar, mas histericamente. Ouvi seus passos no assoalho – Nos atormentou e nos tirou qualquer chance de sermos felizes. Você mereceu toda retaliação que teve.

— Rebekah, eu amo a minha família. Você, Elijah, e até mesmo Kol – Comecei a ficar nervoso – Eu amei todos vocês e isso não mudou. Eu sei que eu posso ser difícil, mas não me tornei assim porque quis. Foi o Mikael que me arruinou. Nada justifica a sua tentativa de me matar.

— Nada?! Você nos infernizou. E ele me arruinou também. É disso que você se esquece. Não é o único com traumas. Séculos depois todos nós sofremos. Você com sua raiva e paranoia e eu com meu medo de abandono. E pobre Elijah, ele se dedica a todo mundo menos a ele mesmo. Somos as criaturas mais fortes do mundo e, no entanto, não temos conserto. Temos a maior poder que existe e mesmo assim não somos felizes. Se Elijah me ouvisse agora, ele ficaria desapontado comigo, por estar sendo tão pessimista. Eu mesma não estou me reconhecendo – Ela terminou resignada – Eu não queria que você morresse, Nik, eu só queria que fugisse. Queria viver alguns anos sem a sua tirania. Sua demonstração de amor sempre foi do avesso. Queria ser livre para amar e ser amada de forma saudável. Se você quiser se vingar de mim, sinta-se livre.

— O que você achou que fosse acontecer, Rebekah? Era de Mikael que se tratava. Ele iria tentar me matar — Ela não respondeu. Suspirei tentando me conter — Não é possível que fosse tão burra ao ponto de acreditar que eu só seria expulso da cidade. Lá no fundo você me queria morto, não é? — Ela não respondeu. Então, continuei. Um dia ela seria obrigada a responder. Eu faria ela me responder. Mas, por enquanto eu deveria me segurar — Você disse que nosso pai nos arruinou. E não posso deixar de pensar se o pai dele o arruinou também. Mesmo assim, se foi o caso, ele não tinha o direito de transferir a raiva dele para nós.

— Eu sei que você mantém um ódio guardado por mim, mesmo que não tenha me dito nada, mas o que está feito está feito – Ela respondeu com a voz embargada. Não gostava de ver minha sister triste e nem chorando — Vai me punir pra sempre? Se for assim, nunca estaremos livres de verdade.

— Eu te puni todas às vezes que te enfiei no caixão com a adaga.

— E foi só isso, sem mais vingança? Não me parece coisa sua.

— Ou eu te arrastava comigo semi-morta no caixão, mesmo querendo te matar, ou perdia meus únicos seguidores fiéis. Marcel já tinha virado cinzas. Por que eu iria admitir que sabia da sua traição? Meu medo de você me abandonar era maior que o ressentimento. Mais fácil fingir que nada aconteceu, pois do contrário eu teria que enfrentar a verdade, que a minha adorada Rebekah me odiava profundamente e que planejou a minha morte — Ela não falava nada, mas eu podia ouvir sua respiração ofegante.

— Mas, o que foi feito nunca passa, isso fica dentro de nós — Ela continuou — Vamos carregar essas feridas para sempre. E sempre será uma história que contaremos a nós mesmos para sabermos quem somos. O pai cruel, o filho bastardo e a irmã que o traiu.

— Talvez seja a hora de uma nova história, você não concorda? Como repete Elijah – Ela não respondeu, mas eu sabia bem que estava de acordo. Ela deseja isso tão desesperadamente quanto eu — O que você quer, Rebekah? Eu sei que nunca perguntei de verdade. Que nunca te dei o benefício da escolha. Mas, me diga, realmente quero saber.

— As mesmas coisas que quero desde criança. Quero viver num lar feliz, quero uma família. Quero alguém para me amar. E quero viver sem medo, sem você me caçando e me ameaçando a qualquer vestígio de insegurança sua.

— Então, sister, você pode ter. Eis a minha oferta de paz. Vá em busca do que realmente quer. Vá ser feliz – A respiração dela ficou mais ofegante ainda – Eu não vou mais interferir. Eu prometo. Não vou mais danificar você. Está livre para ir aonde quiser, morar onde quiser. Começo te oferecendo um lugar aqui em NOLA comigo e com Elijah, mas você está livre para recusar e viver como quiser. Pode até escolher uma vida com o simplório quarterback que eu sequer irei opinar. Prometo não matá-lo. Vai ser com muito esforço, mas farei por você – Como eu poderia estar buscando a minha felicidade quando negava a da minha irmã? Agora que me caiu a ficha. Amar Caroline me fez entender um pouco mais os sonhos de Rebekah, das suas atitudes irracionais e malignas, afinal de contas. Assim como ela, eu também seria capaz do impossível apenas para ter alguns minutos de felicidade com Caroline. Não foi exatamente isso o que me levou a cruzar a linha, meu ímpeto de fazer até o impensado apenas por amor? Como eu poderia julgar Rebekah duramente se eu tinha as mesmas inclinações que ela? Se eu queria ser livre pra viver do meu jeito, eu deveria deixá-la viver também. Eu impedi Rebekah de fazer o que ela queria só porque eu não podia, eu não tinha ninguém. Eu não queria os meus irmãos felizes se eu não pudesse encontrar a felicidade também. Não queria vê-los por aí encontrando a paz enquanto eu me afundava na escuridão. Não parecia justo só eu pagar pelos crimes de Mikael e de Esther enquanto meus irmãos se esbanjavam de alegria, então fiz o impossível para que vivessem miseravelmente igual a mim. E agora, mesmo através de caminhos tortos, nossos rumos se acertavam. Rebekah demorou a responder. Mas, quando o fez, sua voz estava chorosa.

— Eu também amo a nossa família, Nik. Amo você. Eu sei que você quer mais coisas da vida do que ser temido. Do que poder. Você ainda tá muito quebrado para enxergar isso. Mas, eu te digo, não perca a sua chance de ser livre também, livre das suas amarras que te impedem de conseguir tudo o que pode te fazer feliz. Eu realmente acredito que há esperança para você, no fim das contas – Não pude deixar de me emocionar. Meus olhos arderam e logo senti as lágrimas nas minhas bochechas. Apesar de tudo, minha irmã ainda se sentia assim sobre mim. Era reconfortante. Familiar.

— Obrigado, sistah— Não pude dizer mais que isso. Eu sabia que essa conversa era só o prelúdio. Ainda tínhamos muitas coisas a dizer um ao outro.

— Só não entendi uma coisa – Ela falou se recuperando do choro – Por que você me convidou para me juntar a você e a Elijah? Vocês não vão voltar é isso? Me largaram aqui, seus idiotas? – E minha irmã pentelha estava de volta.

— Não. Só vamos demorar mais do que pretendíamos. Sofri um contratempo – Para dizer o mínimo.

— Qual? – Ela perguntou alarmada. Resolvi contar tudo de uma vez. Ela merecia saber. Elijah estava certo. E se eu queria a ajuda dela, era melhor cooperar.

— As bruxas envolvidas com a destruição do Outro Lado fizeram um feitiço para me prender na cidade. Elas querem derrubar a facção de Marcel, que comanda a região, controla todos os movimentos das bruxas e não as deixam praticar magia. Elas querem que eu ajude a derrubá-lo – Mais silêncio. Então, continuei – Eu confesso que estou puto, mas vi nisso uma oportunidade de recuperar a nossa cidade, a nossa casa. Enquanto tento descobrir como me livrar do feitiço, vou seguir com meu plano de derrotar Marcel.

— Mas, você se meteu numa merda sem tamanho. É bem a sua cara, Nik. Fico só pensando na desgraça que vem por aí – Ela disse histérica. Muito reconfortante.

— Olha a boca, sistah. Mas, sim, me meti. Mas, vou resolver isso. Sempre resolvo, de um jeito ou de outro. Você me conhece.

— Sim, conheço. Vai aniquilar e destruir.

— Cadê a sua fé em mim agora, sistah? – Ela só praguejou. Sorri – Enfim, você pode fazer o que pedi?

— Posso, afinal, é algo nobre da sua parte. Isso prova que Elijah e eu estamos certos. Há esperança para você. Meu Nik ainda está aí – Me sentei novamente, sorrindo feito um idiota, emocionado demais para responder, até que um ruído e uma outra voz que eu conhecia muito bem ressonou do outro lado da linha, fazendo meu coração retumbar dolorosamente contra meu peito.

— Klaus? Onde você está? – Ouvi passos apressados batendo contra o assoalho de madeira da minha casa em Mystica Falls — Klaus?

Era Caroline.

Notas finais
Meu povo, meus klarobitches do meu coração. E aí, o que acharam? Me digam pelo amor dos carvalhos brancos. Preciso saber. Vocês são o meu norte. Aguardo roendo as unhas por alguma manifestação de vocês. Enfim, espero por sua resenha e seja como for, qualuer erro, reclamação, sugestão, estamos aqui. Afinal, a história é nossa. Não só minha. Klaroline é o nosso casal que amamos não importa o tempo. Always and Forever. Nos vemos em algumas semanas. Beijos no core.