Scarlet Dynasty - Klaroline

16 Helena de Tróia - Parte I


Notas iniciais
Volteeeeeeeei!!!!!!!! Meus Klarobitches. Espero que não tenha perdido vocês para sempre. Eu sei, Eu sei. No que se trata de prazos, eu sou uma bitch. Mas, uma bitch que agora terá mais tempo para escrever e atualizar a história. Não estou dizendo que terão capítulos toda a semana, mas pelo uma capítulo por mês vocês terão. Como uma prova da fé que sei que colocarão em mim, estou postando hoje logo dois capítulos enormes para vocês. Os capítulos são grandes e não é tão fácil assim pensar em todos os detalhes para não errar na lógica e na escrita. Contudo, não abro mão da qualidade de jeito nenhum e sei que vocês também não. Estava sumida mesmo. Estudar para ser alguém na vida consome muito tempo e energia, mas a nossa história Klaroline eu não deixarei para trás. Espero que tenha ainda alguém lendo (triste). Se tiver, pelo amor de Klaroline, comentem. Vocês são o oxigênio dos escritores e a nossa bússula. Sem vocês, não existem histórias. E sem vocês, não conseguimos identificar todos os erros da história, o que deve ser melhorado, o que tábom.... Então, por favor, comentem. É o melhor momento de um escritor de fic, o momento de ler o que vocês acharam. Enfim, vamos acabar com a enrolação e vamos lá! Espero que gostem!

Klaus

Caminhava apressadamente pelas ruas lotadas e barulhentas de uma tardezinha comum no French Quarter. O endereço em New Orleans me dado por Katerina era próximo das ruas mais movimentadas da cidade. Se ela estivesse mentindo, seu fim seria trágico. Mas, eu não seria idiota, não iria direto para a sua armadilha. Sondaria primeiro os arredores e tentaria descobrir informações sobre essa tal Jane-Anne Deveraux antes de me dirigir ao endereço. Convenientemente, as calçadas estavam abarrotadas de charlatãs fingindo serem videntes, com suas mesinhas bem enfeitadas com objetos inúteis e decorativos, enganando os turistas com as suas falsas visões sobre um futuro feliz e esperançoso, falando exatamente o que queriam ouvir. Revirei os olhos com a estupidez desses humanos e comecei a caminhar entre as bruxas impostoras observando cada uma. Talvez encontrasse alguma pista. Um dos mistérios de minha existência híbrida inexplicável é que eu podia identificar seres sobrenaturais, especialmente bruxas e lobisomens. Eu saberia se cruzasse com uma bruxa verdadeira.

Continuei caminhando, mas dessa vez mais lentamente, observando com mais atenção as mulheres com seus turbantes e roupas coloridas, cobertas de joias falsas e baratas. Uma mais impostora e mais inútil do que a outra, comecei a perder a fé em encontrar uma legítima até que avistei aquela e soube...

Seus olhos escuros cruzaram com os meus num assombro. Ela sabia quem eu era. Sorri cinicamente para ela, alegre, porém nada surpreso, por causar esse efeito. Seu comportamento de reflexo foi suspeito, guardando imediatamente alguns objetos que não quisesse que eu visse. Isso me deu mais certeza de que eu estava na trilha certa.

— Boa tarde. Tem espaço para mais um? – Perguntei, de bom humor encenado, ao me sentar despretensiosamente na cadeira vazia de cliente, sorrindo com cinismo.

— Não tenho nada a dizer a você – ela respondeu com petulância. Sua expressão tentava se manter firme, mas suas mãos de pele negra a traiam, tremendo vagorosamente.

— Ah, isso não é muito amável, não é mesmo? Você nem ao menos me conhece – Claro que conhecia, mas eu ia jogar com ela.

— Eu sei o que você é. Meio vampiro, meio animal. Você é o híbrido – Ela me encarava tentando mostrar firmeza, mas seu coração falhava algumas batidas, eu podia ouvi-lo bem.

— Na verdade, sou o Híbrido Original, mas essa é uma longa história para outra hora – Continuei sorrindo cinicamente para ela, esperando seu próximo passo. Mas, ele não veio. Aproveitei a deixa – Estou procurando por alguém. Uma bruxa. Talvez você possa me ajudar a encontrá-la. Jane-Anne Deveraux.

— Lamento, eu não sei – Ela respondeu olhando em volta receosa, antes de voltar a me encarar.

— Isso é uma grande mentira, não é mesmo? – A confrontei me inclinando para ela, a intimidando silenciosamente. Peguei sua mão delicadamente num gesto de ameaça – Eu sei que você é uma bruxa verdadeira, no meio desse mar de impostores. Então, pare de fingir. Meu temperamento é meio forte para isso.

— Bruxas não saem falando no French Quarter – Ela respondeu puxando sua mão de volta – Os vampiros não permitem. São as regras. Eu não quebro as regras do Marcel.

— Regras do Marcel... – Repeti em voz alta, mais para mim mesmo. Foi um choque ouvir aquele nome depois de mais de um século sem nenhuma notícia sequer após eu ter deixado New Orleans, foragido da perseguição vingativa e sangrenta de Mikael. Não poderia ser coincidência – Onde eu poderia encontrar esse Marcel? – Perguntei sorrindo, disfarçando a surpresa. Ela hesitou, mas me entregou o endereço. Provavelmente por querer se ver livre de mim o mais rápido possível e por saber que não tinha escolha – Agora, me diga. Onde está Jane-Anne Deveraux?

— Você não ouviu o que eu disse? – Ela respondeu de olhos arregalados.

— Sim. E você não disse que sabe o que eu sou? Quer pagar para ver? – A encarei ainda sorrindo, mas dessa vez sem um pingo de humor disfarçado. Pude ver a camada fina de suor brilhando na sua testa rente ao seu turbante roxo.

— Marcel mata as bruxas que desobedecem às regras – ela respondeu olhando a rua, um tanto paranoica.

— Não se preocupe com isso. Apenas quero saber se ela realmente mora no endereço que foi informado. Só precisa dizer sim ou não – A bruxa continuou calada. Falei o endereço para ela – Então, é mesmo esse lugar? – Ela levou alguns segundos antes de apenas acenar com a cabeça confirmando – Não vou encontrar nenhuma armadilha lá, correto? Não seria bom para você não me contar a verdade.

— Eu já disse que não posso sair falando sobre as bruxas debaixo do nariz de Marcel – seu olhar era de súplica.

— Tudo bem, então. Vamos descobrir se você vai morrer pelas mãos desse tal Marcel ou pelas minhas. Você me contou tudo sobre onde posso encontrá-lo, não é, bruxa?

— Sim – Ela respondeu rapidamente, ansiosa para me ver longe.

— Obrigado pela informação – Falei com cinismo e levantei. Ela me encarava na defensiva, mas temerosa. Ótimo. Assim deve ser.

O endereço não era longe dali. Não precisaria pegar algum carro por enquanto. Mais tarde me preocuparia com isso. Contudo, não foi fácil desviar de toda aquela multidão que continuaria até o anoitecer. Parei numa esquina para confirmar o local, próximo ao meu destino; uma ruazinha no French Quarter típica de New Orleans, um pouco menos conturbada. Encontrei uma fachada de um prédio, pequeno, antigo e francês, laranja escuro, com dois andares e varandas que cobriam toda a extensão de cada andar. Sem mais perder tempo, fui direto até a entrada no primeiro andar. Bati educadamente na porta de metal e esperei sem paciência. Bati outra vez. A minha vontade era de arrombar a porta. No entanto, sem ser convidado, eu não poderia entrar. Ao abrir a porta, o barulho suave e agudo de sinos ressoou. Uma jovem que aparentava ter uns vinte e poucos anos, de pele branca e cabelos escuros, me atendeu, com olhar desconfiado e uma tigela de barro na mão. Ela demorou apenas alguns segundos para me identificar tal como a bruxa na rua.

— Boa tarde, love, estou procurando Jane-Anne. Ela está? – Perguntei educadamente e sorrindo, mas ela não retribuiu o gesto.

— Jane-Anne! É para você. É ele — Ela chamou o nome da mulher e isso fez meu coração ficar consideravelmente mais agitado.

— Finalmente – Ouvi a voz de uma mulher, que apareceu depois de virar um corredor, talvez com mais de trinta anos, uma versão física mais velha da outra, também segurando uma tigela de barro – Estava me perguntando quando você viria, se realmente viria – Ela também sorria, mas disfarçadamente.

— Então, presumo que já esperava por mim. Posso entrar? – A olhei intensamente.

— Ainda não – Respondeu – Depende do que você veio fazer aqui. Vamos descobrir em breve, não é?

— Se você já me esperava, pensei que soubesse – falei com cinismo.

— Tenho uma ideia – Ela respondeu deixando a tigela em cima de uma mesa e me encarando. Se aproximou da porta e ficou ao lado da mulher mais nova, mas espertamente do lado de dentro – Apenas me confirme, híbrido – Não gostei do jeito como ela falava comigo. Petulante, desafiadora. Querendo jogar comigo.

— Recebi informações de que você possa estar relacionada a uma bruxa antiga e que pode ser a solução que busco – Não queria entrar no seu jogo, mas precisava ser objetivo para não perder mais tempo.

— Correto. Imagino que essas informações vieram de Katherine Pierce. Ela esteve aqui e me acrescentou umas coisinhas sobre você. Muito espirituosa e convincente – A mais jovem se distanciou de nós e foi se sentar num sofá bege de frente para a porta, mantendo seus olhos enraivecidos bem pregados em mim. Só então que percebi, ao olhar mais atentamente, que o local não era uma residência. Claro, não me levariam direto para o território particular delas. Parecia mais uma loja de consignação de artefatos mágicos duvidosos. Provavelmente para enganar turistas supersticiosos. Mas, ainda assim, eu estava impedido de entrar. Então, era propriedade privada.

— Acrescentou? Isso significa que você já possuía outras? – Falei controlando a impaciência.

— Quem, no mundo sobrenatural, nunca ouviu falar de Klaus Mikaelson?

— De fato. Meus feitos me procedem a fama – Coloquei a mão na parede, me aproximando.

— Alguns feitos nem tão honrosos assim, pelo o que me contaram.

— Depende do ponto de vista. Katerina tende a ser... persuasiva e tendenciosa para quem não sabe se blindar contra seus múltiplos charmes. Não sabemos até onde ela foi justa e verdadeira. E, plus, ela me odeia. Acho que não seria justa ao me descrever.

— Ela deve ter seus motivos. A senhorita Pierce foi bem útil para nós e objetiva. Mas, não é a nossa única fonte de informações.

— Cuidado, love, ela nunca é útil para ninguém a não ser para ela mesma. Acredite, tudo o que ela te contou foi apenas para benéfico próprio – Estava no limite da barreira invisível que me impedia de entrar na loja. As mulheres apenas me encaravam – Então, bruxa, me diga, você realmente é descendente de Qetsiyah?

— Sim – Ela cruzou os braços em desafio.

— Eu posso estar precisando dos seus serviços a respeito disso. E você já deve saber, já que esperava pela minha visita.

— Bruxas não são serviçais de vampiros. E o que você quer exatamente? – Ela perguntou, mas eu desconfiava de que ela já soubesse a resposta.

— Eu quero que você destrua o Outro Lado — Ele me encarou por alguns segundos, me avaliando.

— É um pedido e tanto. Ninguém em sã consciência pediria ou aceitaria isso. Quem está daquele lado não está sem um motivo. Então, o mínimo que você me deve é dizer o por quê.

— Isso é assunto meu, Love.

Ela soltou uma risadinha sem humor e me encarou como seu fosse insano. E daí? Eu era mesmo.

— Destruir o Outro Lado? Trazer todos os mortos sobrenaturais de volta à vida permanentemente? Acabar com a única barreira entre o aqui e o além? Sabe, eu sempre escutei que você era louco e sem escrúpulos. Mas, isso transcende todos os limites.

— Talvez. Mas, não me importo. Um louco acredita nas suas ideias como se fossem sãs.

— Pelo menos você admite a gravidade das suas ideias. Sabe, bruxas e vampiros nunca foram amigos. Uma vez ou outra, talvez, foram algo próximo de aliados. Por que eu faria isso para você? Você quer um feitiço sem me dar nada em troca? Não funciona assim, híbrido.

— Talvez você e sua irmã simplesmente não queiram morrer agonizando – sorri maldosamente. Ela me olhou com raiva.

— Ainda que eu aceitasse, existem regras na cidade. Bruxas ou bruxos não podem praticar bruxaria. Caso contrário, morrem. E não podemos sair daqui. A nossa magia é canalizada dos nossos ancestrais enterrados nessa cidade. Fora daqui, não temos poderes. Não há saída para você, seja lá quais forem as suas razões – Ela me encarava com firmeza.

— Nossa, nunca encontrei bruxas tão fracas assim. Mas, se não fizer o que estou mandando, também pode acabar morta. Contudo, já me informaram a respeito disso. Regras do Marcel. Talvez eu consiga uma brecha para vocês – Então, ela sorriu com triunfo e eu soube que era naquilo que ela queria chegar. Guiou e manipulou a conversa para que chegássemos nesse ponto.

— Você quer que eu destrua o Outro Lado? Está bem, então. Mas, com uma condição. Você destrói Marcel e sua gangue e nos devolve o poder e a liberdade que tínhamos antes, quando a cidade era nossa.

— Quem enlouqueceu agora? Isso pode levar meses. Não tenho esse tempo – Respondi, surpreso e irritado com a sua petulância. Encarava Jane-Anne querendo arrancar a cabeça dessa mulher atrevida. Nesse momento, a jovem se levantou do sofá e veio até a porta novamente.

— Sabia que você é famoso nesta cidade? – A jovem falou.

— Sophie, deixe que eu lido com ele – Jane-Anne se manifestou, mas a jovem a ignorou.

— As bruxas contam histórias sobre o poderoso híbrido Klaus Mikaelson. Sabemos que Marcel não passava de apenas um rato de rua órfão, até que você fez dele o que é. E agora ele está fora de controle – A ouvia atentamente e perplexo. Era ele mesmo – Ele faz o que quer. Mata quem quer. Nós vamos detê-lo. E você vai nos ajudar.

— Bruxa, você está maluca que nem a outra? Você quer que eu assassine metade da cidade? Não seria nenhum esforço e nenhuma novidade para mim, seria até divertido, mas atrairia muita atenção, você não acha? Sem contar que os vampiros aliados a ele iriam atrás de vocês, suas estúpidas. Não que eu me importe com vocês, é claro, por mim vocês podem morrer, mas não antes de fazerem o que quero. Só estou apontando a imbecilidade desse planinho. Quer o Marcel morto? Eu mesmo o faço e faço agora. Mas, aguentem as consequências – Falei incrédulo. Não só pela ousadia e insensatez dessas mulheres, mas pela ideia de eliminar o meu mais infame aprendiz. Matá-lo seria agridoce. Mesmo depois de todos esses anos sem vê-lo, ainda guardava bem vivo na memória a época em que o criei para ser forte e poderoso. O acolhi como parte da minha própria família. Eu o via como um filho que eu nunca seria capaz de procriar.

— Não. Não podemos. Ainda não – Jane-Anne respondeu.

— Temos um plano definido que devemos seguir e há regras. Nos ajude a derrubar Marcel dentro dos nossos termos e você terá o que quer – Sophie disse. E isso foi o cúmulo para mim.

— Como você se atreve a me comandar? – Se elas não estivessem protegidas contra mim dentro daquela loja, não teriam mais cabeças para pensar em planos mirabolantes — E o que me impede de matar todas as suas amiguinhas bruxas dessa cidade agora mesmo? Não tenho a menor paciência para chantagens de bruxas. Eu posso simplesmente acabar com todas vocês de uma vez só.

— Se você nos matar, aí mesmo que jamais terá o seu feitiço realizado, como você mesmo disse – Janne-Anne me respondeu em desafio — Você não tem outra opção, tem? Nós duas somos as únicas descendentes vivas de Qetsiyah. Ninguém mais pode realizar o feitiço que você quer – Jane-Anne continuou – Você quer algo que posso fazer e você pode fazer algo que queremos. Simples. Se aceitar, ficará na cidade e nos ajudará até os planos estiverem concluídos.

Num súbito de raiva, bati com o punho contra a barreira invisível que me impedia de entrar. Elas sorriram triunfantes.

— Bem, aparentemente você tem uma escolha a fazer – Jane-Anne falou — Se decidir aceitar a nossa proposta, nos encontre no cemitério Lafayette às onze horas da noite. Para provarmos que realmente somos quem somos e que podemos fazer o que você quer, Sophie, eu e outras bruxas estaremos te aguardando para uma demonstração de confiança e de poder — Fiquei furioso com a audácia.

— Se vocês não podem fazer feitiços sem que Marcel descubra e alguém morra, como farão essa demonstração? – Respondi entre dentes, controlando meu gênio com muita dificuldade.

— Acreditamos que, pelo bem maior, valem à pena alguns riscos – Jane-Anne respondeu categoricamente — Não temos escolha também. Essa pode ser a nossa única chance de derrubarmos Marcel, ter um Original do nosso lado. O Original que o criou. Fazer pacto com o inimigo para derrotar outro. Não temos mais nada a perder. Já perdemos tudo. Marcel nos tirou tudo o que tínhamos de mais importante. Controla tudo e todos. Controla as nossas terras e inibe nossos poderes. Eu sei que você construiu a cidade, Klaus, mas ela é do Marcel agora – Ficamos em silêncio por alguns segundos nos encarando – Então, onze horas, Klaus – Sendo assim, Jane-Anne bateu a porta na minha cara.

A raiva subiu tão forte à minha cabeça que soquei a porta delas mais algumas vezes antes de ir embora, abrindo buracos nela no formato do meu punho. Saí daquele lugar espumando de ódio. Eu iria àquele cemitério só para ter o prazer de arrancar o coração daquelas vadias que se achavam mais espertas que eu. Tomado pelo impulso, sem conseguir formular pensamentos mais sensatos, rumei até o endereço que a bruxa da rua me deu sobre o paradeiro de Marcel. Precisava ver essa bizarrice ao vivo e em cores.

Então, era isso. A bruxa já estava me esperando com esse plano. Ela sabia que eu viria e que eu queria usar seus poderes relacionados à Qetsiyah e o Outro Lado. Como ela sabia? Katerina avisou? Essa vagabunda está armando pra mim, posso sentir. E Jane-Anne viu a oportunidade perfeita para me chantagear e conseguir vantagem contra Marcel. Eu estava fudido. Se eu aceitasse, seria a chave para uma possível vitória das bruxas e eu teria que viver temporariamente em NOLA metido numa guerra entre bruxas e vampiros, uma guerra em que eu não tinha nada a ver, contra uma pessoa que um dia considerei parte da família, que considerei um filho. Ficaria longe da minha família e de Caroline. Se não aceitasse, Caroline continuaria morta...exatamente o que eu vim reverter...exatamente o que eu não poderia suportar e permitir. Talvez, depois que realizassem o feitiço, eu conseguisse descobrir vantagens contra as bruxas e me livrasse delas...uma gama de gato. Piorava a cada passo que eu tentava dar.

Inspirei fundo, colocando a mão na testa, sentindo um leve latejar na têmpora. Andei pelas ruas com pressa até chegar a um bar movimentado e com música alta. Iria descobrir de uma vez por todas quem Marcel se tornou para ter transformado NOLA no que hoje ela era, para ter criado toda essa cultura de repressão e de medo nas bruxas. Não que eu tivesse feito diferente, não mesmo. Mas, a questão é que foi ele quem criou esse sistema eficiente de controle, tudo o que eu desejava ter criado cem anos atrás. Era dele e não meu.

Entrei no bar e para a minha surpresa inegável a música alta vinha de um karaokê, cuja canção era interpretada por ninguém mais ninguém menos que o próprio Marcel. Parei e esperei que ele terminasse o show ridículo de demonstração de falso talento para a música. Ele continuou cantando como se fosse o dono da cultura musical, dono do mundo. Pelo menos, até onde eu havia descoberto naquele dia, ele era o dono de New Orleans. Dono ilegítimo da minha cidade. Cidade que eu fundei. O pai vai embora por um tempo e o filho se acha o dono da casa. A raiva começou a me dominar. Observei ele atentamente. Sua figura estava mais esbelta. Ele esboçava um sorriso confiante e traiçoeiro, muito diferente do garoto ingênuo e sofredor que eu acolhi na minha casa. Apesar de me sentir traído, não pude deixar de sentir admiração e até nostalgia ao revê-lo.

A música acabou. Ele desceu do palco, foi cumprimentar a sua trupe de circo e tomou um gole de uma bebida. Foi, então, que notou a minha presença, com visível choque. O que ele esperava? Que eu nunca mais fosse voltar a minha terra e descobriria que o patife não só sobreviveu como tomou a minha colônia? Ou talvez ele contasse com o trunfo de Mikael me exterminar de vez. Eu apenas o olhava duramente, irritado por ter sido feito de besta por todas essas décadas. Seus comparsas acompanharam o seu olhar e sua expressão, identificando o perigo.

— Klaus – ele falou, com um sorriso falso.

— Marcel – Eu era o rei do cinismo. Poderia jogar aquele jogo com ele por uma eternidade.

— Deve fazer uns cem anos desde aquele assunto desagradável com o seu pai – Ele respondeu já me alfinetando.

— Já faz tanto tempo assim? Para você fez muita diferença – Respondi me aproximando dele lentamente.

— E para você também. Pelo o que me lembro, ele te expulsou da cidade – Ele também se aproximou de mim. Ele fazia questão de jogar isso na minha cara a cada oportunidade — Deixou uma trilha de vampiros mortos ao despertar – Ele continuava a se aproximar.

— E mesmo assim, felizmente, eu diria, você conseguiu sobreviver – Sorri com deboche – Meu querido pai, por outro lado, recentemente eu o transformei em cinzas – Minhas palavras surtiram efeito nos seus capangas, que vieram habilmente se juntar para proteger o seu mestre. Ao que parecia, incinerar o próprio pai não era bem visto por eles nem considerado honroso. Marcel ficou surpreso. Será que ele achou mesmo que tinha se livrado de mim para sempre? Que Mikael venceria?

— Se eu soubesse que você estava voltando à cidade, se tivesse sido avisado, eu ...

— O que, Marcel? O que você teria feito? – Me aproximei dele impondo claramente o meu poder.

— Teria preparado um desfile – Ele respondeu e sorriu mostrando todos os seus dentes brancos. Então, num gesto que surpreendeu a todos do seu grupo particular, nos abraçamos amigavelmente, rindo – Niklaus Mikaelson. Meu mentor, salvador e criador. Vamos te arranjar uma bebida – Ele me levou para uns andares mais acima, talvez o quarto andar, um ambiente privado, mais próximo de ser o escritório do seu quartel general, de frente para uma varanda ampla e iluminada, deixando entrar o barulho da rua. Sentamos à pequena mesa um de frente para o outro – É ótimo ver você.

— É ótimo estar em casa – respondi só um pouco mais relaxado, mas ainda com a conversa com a bruxa bem vívida na minha cabeça.

— Então, diga, o que te trouxe aqui depois de tanto tempo? – Não contaria a verdade, claro.

— Como eu disse, meu pai agora está vagando no mundo dos mortos. Estou livre para ir aonde eu quiser. Sem mais fugir, sem mais olhar por sobre os ombros. E, dê seu palpite, o primeiro lugar que me veio a mente, para começar a minha jornada de liberdade, foi a minha antiga e adorada colônia – sorri falsamente — Embora, me diga que o Estado atual de Bourbon não é obra sua – Marcel solta uma pequena risada.

— Algo tem que atrair os turistas e forasteiros, do contrário, passamos fome – Ele respondeu me servindo de Whisky. Ele lembrava bem que era minha bebida favorita.

— Vejo que seus amigos saem à luz do dia – Alfinetei, ao perceber o anel brilhando nos dedos de um dos capangas, a postos de prontidão. Chegaria no assunto das bruxas mais cedo ou mais tarde.

— Sim, sim. Compartilhei o seu segredo sobre o feitiço do Anel do Sol com alguns amigos. Mas, só com o círculo interno, sabe, a família – Ele disse tomando um gole da bebida.

— Diga, como encontrou uma bruxa disposta a fazê-los? – Mais perto agora.

— As bruxas aqui comem na minha mão – Chegamos lá. Soltei uma risadinha fingindo achar graça.

— Ah, é mesmo é? Bruxas não tem essa natureza suscetível a vampiros – Sorri, mas cauteloso. Não poderia vacilar e falar algo que me entregasse. Olhei para a varanda e vi que a noite já tinha caído. Não poderia perder a hora do encontro com as bruxas.

— Sim. Logo elas, que se acham as melhores. É incrível ser dono delas. O que eu faço com essas malditas é como uma vingança particular por todas às vezes que se indispuseram propositalmente contra nós. Quer ver? Você vai querer vir comigo. Hora do show! – Ele se levantou da mesa de repente, me surpreendendo. Abrindo os braços e soltando uma risada confiante, espetaculoso e idiota demais para o meu gosto – Vamos.

Ao chegarmos na rua, seus comparsas irritantes nos seguiram, formando um grupo de pelo menos cem pessoas, todas espalhadas por várias partes da rua e varandas dos prédios. No caminho, ele me perguntou – Como vai a família?

— Os que ainda estão vivos me odeiam mais que nunca – respondi sorrindo.

— Ah, esqueça eles. Se seus consanguíneos te decepcionam, crie os seus próprios. Você me ensinou isso – Ele me olhou sorrindo amplamente — E o que é meu é seu, como sempre. Até os meus noturnos, a ralé. Pode ter quantas famílias desejar – falando isso, ele retirou de uma árvore próxima um pedaço fino de um galho com folhas verdes.

— Eles não são muito sutis, não é mesmo? Eles deveriam se conter – Falei enquanto observava o seu grupo falando alto, pulando pelos muros e por cima dos carros, causando bastante baderna e barulho.

— Aqui é o Quarter. Não existe isso de sutil. O bairro é nosso, fazemos o que queremos – Marcel assobiou, chamando para mais perto a sua gangue de vampiros despretensiosos e descuidados, que se agruparam num círculo mais fechado. Um deles trouxe uma mulher amarrada pelos pulsos, a bruxa disfarçada de vidente com quem eu havia falado mais cedo hoje nas ruas do French Quarter. Tive um mau pressentimento. Ela me avistou, mas nada disse, apenas me olhou significativamente, quase me dando um recado.

— Juliette Mercier – Marcel anunciou em voz alta – Recebam a Juliette, vamos lá – Ele abria os braços, como quem apresenta a atração principal de um show, enquanto os telespectadores assobiavam e batiam palmas. Melodramático demais para mim – Juliette Mercier, você é acusada de praticar bruxaria além dos limites das regras criadas e aplicadas por mim. Como você se declara? – Tinha cinismo e comicidade na voz, mas seu olhar era duro – Sério, Julie, vamos conversar. Sabe como funciona. Como você se declara?

— Eu não fiz nada – Ela respondeu respirando ofegante e olhando em volta com a reação de vaia da plateia.

— Mas, isso é uma mentira – Marcel confrontou – Você sabe que eu sei. E você odeia que eu saiba. Enlouquece vocês, bruxas, que eu sempre saiba cada movimento de vocês. Que não possam praticar magia nessa cidade sem serem descobertas – Ele falava enquanto rodava o círculo, olhando para todos e voltando a ficar de frente com a bruxa – Então, por que não vamos direto ao ponto? Melhor para você se não ficar de enrolação – Ele começou a retirar as folhas do pequeno galho enquanto conversava com a mulher – Me diga qual magia estava preparando – Ela me olhou no fundo dos olhos – Diga e garantirei misericórdia e indulgência, porque eu sou, apesar de tudo, um homem misericordioso.

— Apodreça no inferno, monstro! – E assim a bruxa responde finalmente, o olhando com repulsa e ódio.

— Vou te dizer, vou te dar mais uma chance – Marcel se vira de costas para a mulher, mas subitamente se vira de volta para ela, chicoteando o galho na garganta da bruxa com a força brutal de um vampiro. Seu pescoço é cortado como por uma navalha, fazendo sangue jorrar em alta pressão – Ou não – Marcel termina, enquanto a bruxa cai ajoelhada no chão e depois de costas, morta.

A plateia graceja e comemora, como num verdadeiro espetáculo. Me pareceu uma versão mais pobre dos espetáculos romanos. Enquanto Marcel é abraçado e venerado pela sua gangue e seguem seu caminho de volta ao bar, eu só fico ali, parado, observando aquela mulher caída com a garganta arrebentada, sabendo que hoje mais cedo ela conversou comigo e eu mesmo a ameacei de morte. Apesar de brutalidade não ser nenhuma novidade na minha vida, não deixei de ficar atordoado com o que Marcel havia feito, se tornado. Não era nada parecido com o menino gentil e altruísta que um dia já foi. Era um estranho. Se eu quisesse realmente derrotá-lo e ganhar a mágica das bruxas, seria preciso antes muita manipulação e mentiras. Fazer parte do seu grupo íntimo e ganhar sua total confiança. Apesar de não me interessar, num primeiro plano, pela vida que Marcel levava, não pude deixar de sentir inveja e frustração por ele ter conseguido tudo o que eu desejava e que tenho tentado construir há séculos. Um projeto que iniciei trezentos anos atrás naquela colônia, mas que fui impedido de dar continuidade. Um projeto que tentei novamente em Mystic Falls com meus híbridos, mas fracassei outra vez. Poder, família... um exército que me seguisse e me idolatrasse como seu macho alfa. Ele comandava a minha cidade. Aquele lugar era meu por direito de autoria. Contudo, meu foco naquele momento era diferente. Não poderia, nem fudendo, fracassar. Ela dependia de mim.

Sentei-me num banco próximo para pensar, planejar meus próximos passos e continuei devaneando em pensamentos conturbados até notar a presença de dois homens me olhando disfarçadamente. Eram capangas do Marcel, com certeza, instruídos a me rondarem e vigiarem meus passos. Isso me irritou. Levantei-me de súbito e fui até eles. Sorri fingindo amizade, mas os agarrei pelo pescoço quando estava próximo o bastante.

— Vocês dois, cavalheiros, estão me seguindo?

— Marcel apenas disse para sermos seus guias. Você não conhece bem aqui – um dos idiotas respondeu engasgando.

— Ah, ele disse, não é mesmo? Então, deixem-me ser bem claro sobre uma coisa. Se os vir me seguindo de novo, ou qualquer outro da gangue, vão ficar sem o benefício da coluna espinhal – eles se entreolharam preocupados. Deveriam – Se Marcel quer saber o que pretendo, ele que venha me perguntar pessoalmente – Joguei seus corpos para bem longe de mim e os deixei para trás.

Voltando à espelunca de Marcel, o encontrei na escada para o segundo andar, conversando animadamente com uma mulher ruiva. Ele me avistou e desceu.

— Ei, cara, por que demorou? – Ele sorriu – Pensei que você estava logo atrás de mim.

— Eu não preciso de guarda-costas. Por que você os mandou me seguir? – Fui direto ao ponto, com a raiva à flor da pele. Marcel percebeu.

— Vamos subir, vamos conversar calmamente, ok? — Ele disse pondo as mãos nos meus ombros.

— Você pode me contar por que mandou me seguir e me mostrar o que fez com o lugar, enquanto me explica o que pretende com a minha cidade — Disse de mau humor. Marcel ignorou o que disse no final, mas certamente não gostou. Disfarçando habilmente, ele sorriu.

— Venha comigo – ele me guiou de volta ao seu "escritório, mas dessa vez indo direto para a varanda ampla e descoberta, que dava uma visão incrível a panorâmica do French Quarter e mais além, com muitos prédios altos e bonitos ao longe. A cidade brilhava como mil facetas de diamante bem lapidado – Veja o horizonte. As luzes da noite ofuscando. A cidade viva. Isso é progresso – Ele sorria olhando apaixonado o mar de prédios – Mais hotéis, mais turistas, mais sangue fresco. E os humanos? Os ensinei a fazerem vista grossa.

— E as bruxas? – Marcel vira a cara impaciente – Na minha época era uma força a se contar, um grupo poderoso. E, agora, vivem com medo. Escandidas nas sombras – Indaguei. Era anormal todo esse controle de Marcel sobre essas bruxas. Ele escondia alguma coisa. Algo que talvez pudesse me ajudar a destruir o Outro Lado sem precisar me submeter a essas manipuladoras – Como sabe quando estão usando magia?

— Talvez eu tenha uma arma secreta. Um Ás na manga. Algo que me dá controle total sobre a magia exercida nessa cidade.

— Isso é um fato? Você tem? – perguntei verdadeiramente interessado.

— Pode ser. Ou talvez eu só esteja blefando e não tenha nada – Ele sorria sapeca, como alguém que realmente esconde um tesouro. Olhou novamente para o horizonte, retirou um pedaço de uma erva e ingeriu, queimando como ácido os seus lábios, mas ele ignorou a dor.

— Você toma verbena – Fiquei impressionado. O garoto realmente cresceu.

— Queima feito uma vadia, mas percebi que devo limitar o número de coisas às quais sou vulnerável. Você me ensinou isso – Ele me olhou, me avaliando – Não fique irritado porque mandei te acompanharem. Falei para meus caras cuidarem de você, só isso. É o que fazemos aqui, cuidamos uns dos outros – Talvez o garoto não tenha crescido tanto assim, se realmente era estúpido o bastante para achar que eu cairia nessa. Resolvi entrar no jogo e sorri. Ele colocou a mão no meu ombro amigavelmente.

— Então, me seja útil sem me vigiar. Preciso achar um lugar para dormir. Um hotel. Me recomenda algum? – Embora eu realmente precisasse de um local para me instalar, mesmo que temporariamente, não estava preocupado com isso. Só queria uma desculpa para ir embora e me preparar para o encontro com Jane-Anne.

— Claro. Ainda que eu possa dizer que prefiro que fique instalado nas minhas propriedades. Ficará mais a vontade – Marcel não era idiota. Não tanto assim. Me instalar no seu território significava mais oportunidades de me manter sob vigia e sob controle. E o mais cara de pau de tudo era que estava me convidando para me hospedar na minha antiga casa.

— Eu agradeço, mas confesso que quero uma cobertura bem luxuosa, mas com a preservação da cultura antiga da cidade. Sem ofensa – Sorri. O motivo era falso, mas realmente esse era meu gosto para hotéis.

— Não me ofendi – Ele sorriu amarelo – Então, você quer um lugar que nem o Bourbon Orleans Hotel. Não fica longe daqui e suprirá todas as suas expectativas.

— Ótimo – Me preparei para ir embora – Mas, antes, saiba que ameacei seus capangas e já te aviso: se me seguirem de novo, não importa quem seja, vai morrer.

— Ninguém machuca meus homens, amigo. São as regras – Ele respondeu disfarçando a afronta.

— Não me importo com as suas regras, Marcel. Não preciso de guias. Conheço bem a minha antiga cidade. Ou você acha que estou tramando contra você? – Eu estava quase. O encarei em desafio.

— Nunca disse isso. E nem penso assim – Ele apenas sorria.

— Ótimo. Então, estamos entendidos. Nos vemos em breve. Boa noite – Sem mais delongas, saí daquela pocilga.

Estava quase na hora de encontrar a bruxa no tal cemitério e ainda teria que desviar o caminho, para o caso de estar sendo seguido novamente. Espero que o recado dado surte efeito. Olhei no celular a localização do cemitério e era a uns vinte minutos a pé dali. Como faltava mais que isso para onze horas, daria algumas voltas pelas ruas para me certificar de que estava realmente sozinho.

Andando por bastante tempo em círculos e espreitando os becos escuros e sombrios, finalmente cheguei no cemitério. Deserto e fantasmagórico, no arco de ferro da entrada constava o seu nome, Cemitério Lafayette de New Orleans. Provavelmente existiam outros, mas esse deveria ser o maior. Entrei, procurando por algum sinal que me levasse até essas bruxas. Continuei perambulando por entre as tumbas impaciente, adentrando cada vez mais nas profundezas do cemitério, ouvindo atentamente em busca de alguma pista, até que avistei uma outra jovem, atrás de uma tumba em forma de casebre. A mulher me viu e me chamou com as mãos. Eu sabia que poderia estar me metendo numa puta de uma enrascada seguindo essas traidoras. Mas, tal como disseram, eu não tinha muita escolha.

Entrei no casebre de pedra, apenas iluminado por algumas velas. Lá estavam Jane-Anne e sua irmã mais nova, Sophie, acompanhadas de mais quatro mulheres. Certamente, todas bruxas.

— Então, estou aqui, bruxa. Mostre logo o que veio fazer. Não estou de bom humor, não me enrole – Jane-Anne apenas me olhava séria. As outras não pareceram gostar do meu tom.

— Vamos – A líder, Jane-Anne, falou. Ela indicou com a mão que eu a seguisse. Já estava me irritando com esse joguinho.

Andamos por poucos minutos até chegarmos numa parte com bem menos tumbas e desprovida de manutenção. Com epitáfios em pedras simplórias e covas desleixadas, parecia ser a parte esquecida do cemitério.

As bruxas pararam em volta do que apenas parecia ser um espaço de terra vazio, se não fosse por um pedaço quebrado de pedra mal esculpida, na qual dava para identificar metade de um nome, "Siyah". Eu bem sabia que lugar era aquele.

— Ela foi enterrada aqui? – Perguntei, descrente. Não fazia sentido. A colônia de New Orleans surgiu comigo trezentos anos atrás e Qetsiyah tinha morrido há dois mil anos.

— Originalmente, não – Imaginei — Mas, seus ossos foram transportados e realocados muitas vezes por todos os seus descendentes através dos séculos – Estava parecendo até eu. Carregando e mantendo em depósitos os corpos desacordados dos meus irmãos em caixões luxuosos pelos séculos afora.

— Ninguém nunca tentou roubar para alguma tarefa? – Perguntei lembrando da bruxinha Bennet e na sua incompetência de realizar os feitiços com o outro pedaço da pedra, seja lá como Shane conseguiu aquela pedra. Teria sido útil ela descobrir o paradeiro dos ossos de Qetsiayh e não ter deixado aquela merda toda acontecer em Mystic Falls.

— Mantemos em segredo o máximo que podemos.

— Mas, agora eu sei. E se eu quiser matar todos vocês, roubar os ossos e colocar outra bruxa para realizar os seus serviços? – Sorri cinicamente.

— A bruxa Bennet pode ter sido capaz de derrubar o Véu por algumas horas por ser muito poderosa e por ter algum resquício de Qetsiayh com ela. Mas, para destruir o Outro Lado, desfazer definitivamente o feitiço, precisa ser a própria criadora ou uma descendente de quem criou a mágica para ser capaz de manipulá-la. Você sabe bem como funciona a magia, tendo em vista que é filho de uma bruxa. Se nos matar, é fim de jogo para você – Jane-Anne respondia com triunfo. Bruxa filha de uma puta. Ela sabia sobre os feitos da bruxinha Bennet. Com certeza por Katerina — Assumindo você como o vampiro mais experiente da Terra, fico surpresa por acreditar que tem alguma chance sem a minha linhagem – Ela sorriu levantando as sobrancelhas em falsa descrença.

— Eu sei como funciona. Mas, a magia sempre tem as suas brechas – Minha vontade era de enfiar a mão na sua garganta e arrancar aquela língua venenosa.

— Não dessa vez – Parou de sorrir — Vamos ao que interessa. Eu vou baixar o véu por alguns segundos e te mostrar que realmente posso fazer isso. A Bennet, certamente, só conseguiu após muitas cartas na manga e muito esforço físico, mesmo poderosa. Ela chegou a morrer, não foi mesmo? Pelo o que eu soube — E como ela ficou sabendo disso? — E continua morta. Eu sou uma descendente, carrego o sangue e o poder. Posso fazer num piscar de olhos. Sem sofrer quase nada. Mesmo se fossem pequenos resquícios de Qetsiyah e não seus restos mortais.

Ela começou a abrir buracos na terrar com sua mágica misteriosa e a libertar pedaços putrefatos de ossos, que flutuavam organizados próximos ao seu corpo. Brandindo palavras estranhas, os ossos começaram a sangrar...

De repente, a bruxa com quem falei mais cedo hoje na rua e que havia sido morta por Marcel, apareceu na nossa frente. Foi absurdamente rápido. Fiquei abismado.

— Jane-Anne. Você conseguiu? – A mulher falava com os olhos brilhando de felicidade.

— Ainda não, Juliette. Estou apenas na amostra grátis ainda.

— Você não pode demorar. Em breve Marcel estará na sua mira.

— Eu sei. Se algo acontecer comigo, Sophie dará continuidade – A irmã mais nova fez cara feia – Mas, por hora, eu sinto muito, Juliette, preciso levantar o véu. Em breve nos veremos novamente. Muito obrigada pelo seu apoio mais cedo. Foi imprescindível. Seu feitiço nos deu um norte.

— Não há de que. Pelo bem maior, certo?

— Pelo bem maior— Jane-Anne recomeçou o processo ágil e em poucos segundos a outra bruxa já tinha desaparecido.

— Então. O que nos diz, aceita o acordo? – Jane-Anne foi direto ao ponto.

— Você está me dizendo que acredita que vou aceitar um acordo inescrupuloso depois desse truque ridículo? – Soei zombeteiro, mas eu sabia que de ridículo não tinha nada. Essa bruxa estava muita além das Bennet.

— Você sabe que esse não é o caso. Não nos faça gastar mais tempo e energia.

— Então, quais são os termos? Vocês destroem o Outro Lado agora, eu fico na cidade, monto uma teia de conspirações e armações para derrubar Marcel e sua facção, é isso, não é, resumindo? – Falei agitado, incrédulo.

— Não. Você cumpre primeiro a sua parte e depois cumprimos a nossa.

— Você está louca, bruxa? – Me aproximei ameaçadoramente dela — Acha que vai ficar me comandando e me controlando aqui na minha cidade? Que vou ser a sua marionete? Seguindo e cumprindo cegamente as suas ordens? Aguardando pacientemente você cumprir a sua parte no acordo, te dando brechas para me trair? – Não deu tempo de ela responder.

— Niklaus – Ouvi a voz calma e elegantemente irritante de Elijah. Fechei os olhos resignado. Eu mandei esse puto ficar em Mystic Falls de olho em Katerina.

— Mas, que surpresa desagradável. O que você faz aqui que não está longe executando o que mandei?

— E que boas-vindas previsível. O seu problema é que você se esquece de que eu não sou sua marionete, tal como você disse à bruxa – revirei os olhos – Porém, em breve a surpresa da minha presença não será mais tão desagradável assim – franzi a testa esperando explicações – Ouvi nas redondezas alguns minutos atrás. Marcel já está atrás de você, Jane-Anne. Ele já soube que você realizou um feitiço. Melhor se esconder – era impressionante a agilidade e competência com que Marcel descobria os movimentos das bruxas. Isso não era normal. Ele não estava blefando, como quis me fazer acreditar. Ele tinha sim uma arma secreta.

— Não há nada que impeça Marcel de me achar. Os únicos lugares onde ele não pode entrar são as nossas casas e ele sabe onde são. Montará guarda até eu precisar sair.

— Então, vai apenas esperar pela morte? – Elijah perguntou descrente.

— Pelo bem maior — a mulher estava convicta.

— Por que não foge da cidade até sua irmã terminar o serviço? – Elijah continuou.

— Não está nos planos. E essa cidade também é nossa. Não vamos sair. Praticamos magia ancestral. Esse cemitério é cheio de restos dos nossos antepassados. Sem acesso a isso, nossos poderes são fracos ou não se manifestam. E se fugirmos, deixamos nosso legado para trás. Nossa casa, nossa família. Além disso, a essa altura, ele deve estar desesperado para saber por quê, num mesmo dia, duas bruxas realizaram mágicas. Ele vai querer saber qual feitiço foi, vai querer entender o que está acontecendo, pois sabe que algo grande está vindo para duas bruxas se arriscarem assim.

— Ele te mata e você não realiza o feitiço, sua estúpida, e eu não fico para cumprir minha parte no acordo.

— Você é o estúpido aqui. Claro que eu já sabia que tudo isso iria acontecer. A tarefa será de Sophie.

— Até agora, não vi a sua irmãzinha nem realizar um simples truque com cartas – falei espumando – Vai deixar um dos feitiços mais poderosos que existe nas mãos dessa garota abestada? – A mais nova me olhou com raiva. Foda-se.

— Você se esquece de que ela também é descendente de Qetsiyah.

— Você pode ao menos dispersar as suas amigas, para que elas não sejam punidas – Elijah nos interrompeu. E eu estava lá interessado na segurança dessas manipuladoras?

— Não somos burras – Uma das outras mulheres que vieram junto respondeu. Então, começaram a dizer boa sorte para Jane-Ane e Sophie e foram embora, sumindo na escuridão por entre as tumbas – Sophie, apenas vamos sair daqui. Você vai para a casa de Agnes, será seu álibi. Lá eles também não podem entrar. Não foi você quem realizou o feitiço, Marcel não tem nada contra você. Eu vou para o Antiquário — Ela abraçou a irmã, olhou para mim significativamente e seguiu um caminho diferente de Sophie, que nos deu as costas assim como a irmã. Eu estava atônito.

— Como você já sabe de tudo isso? – Virei para Elijah espumando.

— Eu cheguei algumas horas depois de você, antes de anoitecer. Também sondei a cidade antes de te procurar. Fui até Jane-Anne Deveraux, esperando te encontrar com ela. Ela me contou tudo.

— Você não considerou que ela poderia estar mentindo para você, seu idiota?

— Eu conheço você, Niklaus, tudo o que ela me disse parecia bem plausível.

— Ela nem ao menos mencionou você quando eu cheguei aqui no cemitério – traidora.

— Claro que não. Você poderia pôr tudo a perder. É sua especialidade. Minha tarefa era ficar na espreita e vigilância, sem ser notado, para descobrir os passos de Marcel, saber quando ele descobrisse o feitiço de Jane-Anne e avisá-la. À princípio essa tarefa seria de outra bruxa, mas nada melhor do que um Original como aliado.

— Então, você está conspirando contra mim, como sempre.

— Contra você? Estou confuso. Pensei que fosse do seu interesse manter essas bruxas vivas.

— Sim. Mas, não é do meu interesse ser manipulado e enganado.

— Niklaus, você é cansativo e repetitivo – Revirei os olhos. Ele é quem era – Estou te fazendo um favor. E agora? – Sei lá. Estava perdido.

— Essa bruxa está desiquilibrada com essas ideias mirabolantes. Eu não confio no potencial da mais nova. Ela vai fazer merda. Não vou deixar Marcel matar Jane-Anne Deveraux. Eu preciso dessa mulher viva – Dito isso, saí apressado do cemitério e iria atrás da maluca.

Marcel não tinha como ganhar de mim. Seria fácil. As bruxas estariam sob meu poder se eu decidisse naquela cidade que ninguém tocaria nelas. Eu as manteria fora do alcance de Marcel e sua gangue e elas fariam exatamente tudo o que eu mandasse por querer proteção. Pronto. Agora eu estava no poder de novo, no comando, e isso me fazia sentir muito melhor. Liberto. Ar puro entrando nos meus pulmões reprimidos.

— Vai piorar as coisas – A voz da razão do santo Elijah soou atrás de mim – Seu objetivo deveria ser ganhar a confiança de Marcel, não acabar com ela.

— Assim eu não fico preso aqui, Elijah. Esse é o plano delas. Querem um processo árduo e longo de derrota para Marcel. Se eu o confrontar e proteger as bruxas, existe a chance de destruírem o Outro Lado agora e não depois.

— Duvido – Ele foi categórico.

— Que seja. Farei o que eu quiser – vi de soslaio meu irmão balançar a cabeça negativamente.

Caminhamos num silêncio constrangedor rumo à casa da bruxa. Eu queria perguntar sobre Mystic Falls, falar sobre Caroline. Mas, mesmo depois de todas as conversas com Elijah, ainda era difícil tocar num assunto como esses com ele. Ou com qualquer pessoa. Resolvi começar pelas beiradas.

— Então, deixou Katerina sozinha com a nossa irmã temperamental? Mas, que jogada inteligente.

— Rebekah concordou em nos ajudar – estranhamente, ele desviou o olhar. Mais estranho ainda foi ouvir que minha sistah resolveu ajudar alguém só porque quis.

— Por que? O que você ofereceu a ela em troca? Um ticket para a Terra do Nunca? – Ele revirou os olhos.

— Às vezes, Niklaus, basta apenas pedir com gentileza. Você poderia tentar – Inspirei fundo. Elijah era mole demais.

— Espero que você não tenha contado nada a ela – Falei pensando o pior.

— Rebekah merece saber, Niklaus.

— Talvez. Contudo, a existência dela serve apenas para me fuder. Então, melhor deixa-la de fora por enquanto.

— Tarde demais.

Parei de andar, estupefato.

— Que?! – O encarei de olhos arregalados – Você não tinha esse direito! – Gritei – O que exatamente você contou a ela? – Continuei, baixando a voz.

— Tudo. A verdade – O desgraçado apenas disse.

— Você é o maior traidor que existe! Não tem o direito de falar sobre minha vida pessoal com ela e nem com ninguém! – A vergonha queimava na minha cara, imaginando Elijah contar meus motivos naquela cidade, contar meus sentimentos por Caroline. Me fazer parecer um fraco arredio por uma mulher – Você não deveria...

— Desculpe, mas eu precisava! – Elijah alterou a voz alguns decibéis – Eu sabia que você ficaria irritado, não queria te expor de nenhuma forma, mas Rebekah precisava saber. Agora ela está do nosso lado, nos ajudando. A recrutamos, ela está cooperando um pouco mais de bom grado do que antes. Tudo o que ela queria era receber alguma consideração de nós. Ela não te julgar ou te ridicularizar pelos seus sentimentos.

— E por que precisaríamos da ajuda dela, hein? Você já estava lá com Katerina, seu idiota – Eu espumava de raiva.

— Mais um original não é nenhum atraso. Além disso, nossa irmã se importa com você e estava muito magoada, Niklaus, com o seu comportamento nas últimas semanas. Você que não tem o direito de tratá-la assim. Precisamos cuidar da nossa irmã.

— Você e seu sentimentalismo... – Cuspia fogo.

— Niklaus, escute. Rebekah ama você – O olhei mais suavizado. Era ótimo ouvir isso, mesmo que custasse acreditar, porque eu não merecia – Contar a verdade para ela foi como quebrar uma barreira entre vocês. Aquela que esteve lá durante todo esse tempo. Tudo o que ela mais quer é ter o irmão de volta e ela saber os seus reais motivos aqui é mostrar que ela pode conseguir. Podemos ter o nosso irmão de volta. Nós vamos lutar com você e por você. Tendo uma chance de felicidade, não vamos te deixar olhar para o outro lado. Eu, particularmente, só vou parar de buscar pela sua redenção quando acreditar que não há mais nada a encontrar. Contudo, felizmente, ainda não cheguei a esse ponto. Estou na direção oposta, na verdade. Estou te apoiando, nós estamos te apoiando na maior loucura da sua vida em prol do amor incondicional. Sob nenhuma outra circunstância eu faria isso. Se faço, é porque realmente acredito no potencial dessa sua atitude – Ele vendo que conseguia me abrandar, continuou — Queremos a nossa família unida, feliz. Eu sei que é isso que você também quer. Embora seja péssimo nas suas tentativas. Eu acredito que essa pode ser a sua chance. Pode ser a nossa chance. Temos uma chance de recomeçar, recuperarmos tudo o que perdemos, tudo o que foi tirado de nós. Niklaus, nossos próprios pais nos menosprezaram. Nossa família foi arruinada. Nós fomos arruinados. E desde então tudo o que você sempre quis, tudo o que nós sempre quisemos foi uma família.

— Não seja ridículo. Eu quero poder – Meia verdade. Queria poder, sim, mas também queria tudo o que ele disse. Mas, não poderia ser vencido pela sensibilidade excessiva e perigosa do meu irmão.

— Família é poder. Amor, lealdade é poder. Você pode ter tudo. Amor incondicional por alguém, seja fraternal ou romântico, é poder.

— Não dá para ter tudo, Elijah. É uma fantasia. Amor é uma fraqueza. Pelo menos poder é mais garantido e estável – Eu sabia que a última parte não era verdade – Os vínculos, o respeito criado pelo medo são mais fortes do que pelo amor**.

— Nunca ouvi tamanho disparate. E por que é tão importante assim que tremam ao ouvirem o som do seu nome?

— As pessoas tremem pois tenho poder para fazê-las temerem. Entende o que realmente é poder?

— Não é porque você pode que precisa fazê-lo — Nos encaramos a poucos centímetros um do outro até que me dei conta. Jane-Anne.

— Não tenho tempo para essa conversa ridícula agora. Tenho que impedir Marcel – Ele suspirou.

Dei às costas a ele e continuei o meu caminho. Estava preocupado com o que esse atraso causado pela nossa pequena discussão traria de consequência. A bruxa afirmou que estava indo para a loja e era pra lá que eu iria. Ativei a minha velocidade vampírica e não parei até que estivesse na rua da mulher. Não estava vazia. Marcel reunia, mais uma vez, um pequeno tribunal desordenado de julgamento, com sua gangue espalhada pela rua e pelos prédios, causando baderna. Deveria ser um saco ficar perseguindo essas bruxas com uma cidade para administrar. Contudo, ele só conseguia manter em ordem a administração da cidade porque mantinha as bruxas na linha. Círculo vicioso.

— Klaus! – Chamou o líder – Conseguiu seu tao sonhando hotel, meu amigo? Veio assistir a mais um show? – Ele parou de sorrir instantaneamente ao olhar atrás de mim – Veja só. A família se reunindo.

— Meu irmão veio me perseguir, como sempre. Não importa em qual país ou em qual século eu pare, lá está ele – Falei debochadamente.

— Quanto mais melhor – Falou Marcel indo cumprimentar o outro Original e apertando a sua mão – Feliz de estar aqui. Muita nostalgia. Depois, vamos dar uma volta. Relembrar os velhos tempos. Tomar uma bebida saborosa para nos aquecer — Ele piscou se achando o máximo.

— Obrigada, Marcellus – Elijah era um imbecil formal – Será um prazer.

— Ei, ei, ei – Marcel sorria – Não na frente do meu pessoal. Imagina só o que vão pensar desse nome antigo. Então, vamos ao show – Ele colocou alguns dedos nos lábios e assobiou. Para o meu desgosto, Jane-Anne foi pega. Bruxa estúpida. Os comparsas de Marcel a traziam amarrada pelas mãos da mesma forma que a outra – Já entendeu o procedimento, não é, Klaus? Vamos lá! – Elijah e eu trocamos olhares preocupados. Ele porque não achava uma boa ideia interferir e eu porque estava temeroso que ela morresse. Eu tinha que me apressar se quisesse salvar essa mulher.

Corri na velocidade vampírica e joguei longe o vampiro que prendia Jane-Anne e a segurei firmemente pelo braço. A plateia ficou em silêncio. Marcel me encarou estupefato.

— O que você está fazendo, amigo?

— Que tal você começar a me dizer que negócio é esse que você tem com essas bruxas? Como sempre consegue identificar sua mágica? – Claro que também queria muito saber isso, mas só estava ganhando tempo. Ele não a teria.

— E voltamos a isso?

— Sim. Voltamos a isso.

— Você sabe que devo a você tudo o que tenho, mas receio que tenho que limitar essa.

— Não se você quiser a bruxa de novo – Jane-Anne praticamente não respirava.

— Isso é assunto meu, Klaus. Eu controlo as bruxas na minha cidade do meu jeito. Vamos deixar isso pra lá, do jeito que tá.

— Sua cidade? – Meu sangue ferveu.

— Exatamente.

— Engraçado, porque quando eu deixei a cidade cem anos atrás você era só um lutador patético que ainda tremia ao som do chicote daqueles que o dominavam – O bom humor encenado ia deixando a expressão de Marcel – Agora, olha só para você, mestre do seu domínio. Príncipe da cidade – Seus cúmplices mais íntimos se achegaram mais para perto dele – Gostaria de saber como.

— Por que? Inveja? Ei, cara, eu entendo. Há trezentos anos você ajudou a transformar uma colônia sem recursos em algo mais. Você iniciou isso, mas foi embora. Na verdade, fugiu. Eu fui até o final. Olhe ao redor. Vampiros mandam nessa cidade. Não temos que viver nas sombras feito ratos – Ele começava a se alterar. A cortesia diplomática não existia mais – Os humanos conhecem o seu lugar. Fingem que não veem nada. Eu me livrei dos lobisomens. Até arrumei um jeito de derrubar e controlar as bruxas. O sangue nunca para de fluir e a festa nunca acaba. Você quer passar por aqui? Você quer ficar por um tempo? Ótimo. O que é meu é seu. Mas, é meu. Meu lar, minha família. Minhas regras.

— E se alguém quebrar essas regras? – Ele era um arrogante idiota.

— Eles morrem. Misericórdia é para os fracos. Você me ensinou isso também – Ele estava voando alto demais – E eu não sou o príncipe do Quarter, amigo. Eu sou o rei! – Terminou gritando, numa onda de raiva – Me mostre algum respeito – Isso é o que acontece com quem não tem nada e de repente tem tudo. A esmola sobe à cabeça. Todos nos encaravam num silêncio mortal. Alguns esboçando sorrisinhos de triunfo. Sorri também. Eu poderia acabar com aquela trupe de circo em dois tempos. Mas, a diversão duraria pouco.

Um dos seus capangas estava próximo demais para o meu gosto, bem atrás de mim. Ainda segurando a bruxa pelo braço, me virei na velocidade vampírica e rasguei com minhas presas afiadas o pescoço do vampiro aliado de Marcel, injetando nele meu veneno de lobisomem. O gosto foi saboroso. O gosto da vitória. Olhei para Marcel sorrindo e limpando a boca.

— Seu amigo estará morto em algumas horas – Marcel olhava para ele transtornado — O que significa que quebrei uma das suas preciosas regras. E ainda assim não posso ser morto. Eu sou imortal. Quem tem o poder agora, amigo?

Marcel me olhava com puro ódio. Eu ensinei a ele que demonstrações de poder em público são necessárias para apontar quem estava no comando. E era exatamente isso que eu estava fazendo. Meu sorriso triunfante deveria ser um ultraje para ele. Bem ali, na frente de toda sua gangue e de seus seguidores fiéis, eu mostrava que o dono da cidade era eu. Se ele quisesse a bruxa, ele teria que passar por cima de mim. E todos que já ouviram falar o nome Klaus Mikaelson sabiam que isso não era possível. Isso é o poder.

— Então, Marcellus, o que vai ser?

Ele não respondeu. Apenas me encarava. Então, aproveitando a vitória, arrastei a bruxa comigo pra longe da multidão, a puxando sem paciência. Elijah me seguiu, vigiando a minha retaguarda. Porém, de repente, o líder assobiou e toda sua gangue nos atacou. É claro que isso era uma distração. Enquanto eu me ocupava em derrubar os outros, mas sem mata-lós, Marcel conseguiu, num piscar de olhos, alcançar Jane-Anne e arrancar seu coração. Meu choque foi imensurável. Ele segurava o coração da bruxa levantando no alto, mostrando a todos o seu troféu.

— Se as bruxas quebrarem as minhas regras, elas morrem. Sem exceções – Ele proferiu – Eu não sei, amigo, porque te intriga tanto os meus negócios com as bruxas. No entanto, como já lhe expliquei, são meus negócios e eu apreciaria muito se você não se intrometesse – A sua gangue começou a uivar e comemorar.

O meu sangue subiu tão alto a minha cabeça que fui pra cima de Marcel. Eu sabia que poderia estar colocando a perder todos os planos das bruxas e, provavelmente, me sabotando no processo. Porém, o ódio pela atitude arrogante de Marcel, além de interferir diretamente nas minhas questões, me fazia ignorar todo o bom senso. Se fosse necessário eu o mataria ali mesmo, não me importando mais com o acordo com as bruxas. Afinal de contas, ele já havia destruído as minhas chances e esperanças de destruir o Outro Lado e trazer Caroline de volta. Ele se meteu num assunto que jamais deveria ter se metido.

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**Parafraseando Nicolau Maquiavel em O Príncipe

"É mais seguro ser temido do que amado, quando se tem de desistir de uma das duas."

Notas finais
Então, Meus Klarobitches, espero que tenham gostado. Seja como for, gostaria da resenha de vocês. Repito, O melhor momento para o leitor é quando vocês falam o que pensam, digam o que sentira. Qualquer erro ou dúvida, podem falar comigo! Beijos no core e até daqui algumas semanas.