Scarlet Dynasty - Klaroline
12 Baby, Don't Go
Notas iniciais

Caroline
Eu não sabia se continuava ou não, porque a essa altura já o tinha perdido de vista. E ficar parada no meio de um vendaval não me parecia uma ideia muito inteligente e atrativa. Mas, não precisei me decidir, pois o já então conhecido borrão de imagens indicando a troca de memória tomou conta da paisagem. Quando tudo entrou em foco e eu já conseguia distinguir as formas umas das outras, me vi parada sob um dia nublado e sem chuva, diante de outra cabana. Esta, por sua vez, se encontrava às margens de um rio, de ribanceiras bem angulosas. Estava bastante poluído, pois nele jaziam muitas carcaças de animais já em decomposição e grandes quantidades de lixos cujas formas eu não soube reconhecer. Ele não era muito largo, poderia ser atravessado com pouca dificuldade, porém era de grande extensão, já que meus olhos não conseguiam alcançar o seu fim, que parecia mergulhar para interior da floresta que o circundava.
Já estava ansiosa para saber o que eu fazia ali. Aquele ambiente fugia um pouco dos padrões do povoado e parecia estar bem distante dele. Queria saber por que Elijah me trouxe até esse lugar estranho. Então, para a minha surpresa, Klaus surgiu das sombras da floresta e caminhava apressado, ao que parecia, em direção àquela cabana. Ele não trazia nada em suas mãos, o que fazia me perguntar se aquela lembrança era de antes ou de depois dele ter partido de sua casa. Ele estava abatido, um pouco sujo e olhava ao redor com uma frequência demasiada e uma expressão assustada.
Quando chegou à porta, deu algumas batidas de leve, enquanto girava a cabeça olhando ao redor mais uma vez.
A porta se abriu, e por ela surgiu a figura de Tatia. O espanto em sua face era nítido ao reconhecer Klaus tanto quanto era o meu ao reconhecê-la.
— O que faz aqui? – Ela disse confusa.
— Vim buscar você. Não precisará mais se esconder nas sombras. Poderemos viver felizes em outro lugar bem longe daqui, se você aceitar essa aventura e vir comigo. Esse lugar não é para nós dois – Klaus falava ansioso.
— Você perdeu a razão? Não posso simplesmente fugir com você. Eu tenho um filho para cuidar. Não posso expo-lo aos perigos de uma viagem imprudente – Tatia falava com incredulidade, como se Klaus fosse louco.
— Não vejo irracionalidade querer morar em outro lugar, tentar ser feliz com quem se ama. Você não gostaria de viver bem com que ama, sem ter que olhar para trás ou se preocupar com o que as pessoas pensam ou dizem sobre você? Com uma reputação passada a limpo? Pensei que fosse o que você mais desejava, Tatia. Aqui você é perseguida – Klaus começava a se inquietar.
— Sim. Você tem razão. Mas, como você disse, quero fazer isso com quem eu realmente amo – Ela disse com dureza e um certo brilho maldoso no olhar. Se isso me constrangeu por ele, nem consigo imaginar o que ele sentiu. Ser rejeitado tão friamente e sem um pingo de cortesia. Olhei diretamente para Klaus e nunca vi alguém tão desapontado e desarmado. E a compreensão transpareceu em seus olhos.
— Então, é isso? É Elijah? – Ele falou baixo, como se tivesse dificuldades de se pronunciar.
— Você já sabia disso, Niklaus. E nunca foi segredo para ninguém – Ela respondeu friamente, com dureza.
— Aparentemente, era para mim. Você brincou com a minha cara, então? – Ele respondeu rouco, nitidamente se esforçando ao máximo para esconder sua tristeza, mas não estava sendo muito bem-aventurado. E ela simplesmente não disse mais nada — Bem, então... – Ao dizer isso, deu às costas à mulher, com os olhos marejados, e saiu apressado em direção às profundezas da floresta.
O cenário mais uma vez trocou de figura com seu já conhecido borrão de imagens me pegando de surpresa e fazendo minha cabeça girar. Eu estava outra vez diante daquela cabana. Era de dia e o Sol brilhava forte. Todos os homens da casa estavam do lado de fora talhando seus equipamentos e seus vizinhos andando de um lado para outro, ocupados em suas próprias tarefas. Finn trabalhava numa espada robusta e pesada junto de seu pai enquanto os outros três se concentravam em tarefas individuais. Kol, que parecia não ter mais que seus quinze anos, talhava um belíssimo conjunto de arco e flechas. Elijah polia desnecessariamente uma espada que já estava tão brilhante que reluzia a luz solar como um diamante de mil facetas. Klaus, por sua vez, amolava a sua espada em um pedaço grande de rocha e o som estridente ecoava pelos arredores enquanto o irmãozinho caçula, Henrik, o rondava e apreciava o seu trabalho o olhando com um brilho intenso de admiração e adoração. Uma vez ouvi Rebekah dizer que Henrik adorava Klaus, que ele era o seu favorito e que o irmão mais velho o mimava de todas as formas que ele podia. Sorri para os dois e olhei em volta. Através de uma das janelas da cabana, observei Rebekah ajudando Esther a preparar a comida, provavelmente o almoço. Aquela parecia ser uma manhã comum na vida daquela família.
— Você vê como é difícil mantê-la assim? – Ouvi a voz de Klaus e me voltei para ele novamente. Ele apontava para a lâmina afiada – é fácil uma espada perder a sua utilidade se não houver manutenção – Ele falava pacientemente com o irmão caçula.
— Ela é muito pesada, Niklaus? – Pela primeira vez ouvia a voz de Henrik. Ela era aguda, doce e gentil. Seus olhos eram de um azul intenso e ele era uma cópia minúscula de Elijah, exceto pelos olhos, como eu havia notado numa outra lembrança, com seus cabelos castanhos até um pouco acima dos ombros e uma franjinha quase cobrindo suas sobrancelhas grossas e espessas. Eu não saberia dizer o que mais ele estava admirando no momento; se era a espada ou se era Klaus – Posso segurar?
— Ela é muito pesada para alguém do seu tamanho segurar sozinho – Klaus respondeu com doçura e o irmão abaixou a cabeça com tristeza – Mas, se ele tiver um irmão mais velho para ajudá-lo a segurar – Klaus se apressou em dizer ao ver a expressão do irmãozinho – Nada o impedirá de fazê-lo – Henrik levantou a cabeça com um sorriso gigante de felicidade. Klaus esboçou a mesma alegria e se prontificou a mostrar-lhe a espada. Ele colocou o cabo do punhal cuidadosamente nas mãos do irmão e o ajudou a equilibrá-la.
— Um dia quero ser igual a você, Niklaus – a vozinha infantil soou sonhadora e fantasiosa – Quando eu crescer, também quero ser tão guerreiro quanto você é.
— Você já é um guerreiro, Rik. E acho que você pode ser melhor que eu com o devido treinamento – Ele falou bagunçando os cabelos do irmão o fazendo gargalhar.
— Não como você – Ele disse com a voz embargada. Klaus se abaixou nivelando suas alturas e colocou as mãos nos ombros de Henrik.
— Então, esse é verdadeiramente seu desejo? – O irmão balançou a cabeça em afirmativa – Muito bem. Eu vou ensinar você. Vou forjar uma pequena espada para você. Em alguns dias ela estará pronta.
— Verdade, Niklaus? – Ele perguntou exultante – Me ensinará a lutar? Dará uma espada só para mim?
— Sim. Não é o que você deseja? – Klaus sorria amorosamente para o caçula.
— Sim! Sim! – Henrik se jogou nos braços de Klaus com tanta alegria que os dois caíram no chão, rindo felizes e genuinamente.
— Só não conte ao pai. Ele não permitirá que eu o faça – Ele disse baixinho no ouvido do irmão e ele concordou – Quando a espada estiver pronta, eu falo para você. Não me pergunte sobre ela até lá, entendeu bem? – Mais uma vez ele concordou – Muito bem, então, levante-se e venha me ajudar a guardar as ferramentas no celeiro – Os dois se levantaram e Henrik pulou nas costas de Klaus, fazendo esse o carregar.
— Eu amo muito você, Niklaus. Você é o melhor irmão de todos. Claro, todos são legais, mais você é mais – Henrik disse. Eu pude ver os olhos de Klaus se inundarem.
— Não deixe Rebekah ouvir isso. Também amo muito você, Rik – Ele sorriu e correu com o irmão nas costas até os equipamentos jogados no chão ao lado da cabana. Henrik abriu os braços como se estivesse voando e gargalhava gostosamente. A cena chamou atenção dos outros e os três irmãos mais velhos riram com a cena, enquanto Mikael os olhava seriamente. Os dois pegaram as iguarias e entraram no celeiro. Parecia estar exatamente igual ao de anos atrás, quando a versão criança de Klaus havia passado a noite no local junto de uma Rebekah infantil, mas muito madura para a idade. Os dois irmãos faziam brincadeirinhas um com o outro entre guardar as ferramentas e arrumar. Olhei em volta e não vi Elijah por perto. Se ele não fazia parte dessa lembrança, como ele poderia estar me mostrando ela? Assim como foi com a anterior, onde só Klaus estava com Tatia. Larguei esses pensamentos para lá e me concentrei nos dois irmãos perto de mim. Henrik parecia estar transbordando de alegria por estar sendo útil para o irmão que ele idolatrava. Porém, sua expressão foi modificando deixando a alegria de lado e dando lugar a uma mais sombria e embaraçada.
— Niklaus? – Ele chamou com a sua vozinha infantil.
— Sim? – Klaus olhou para ele curioso.
— Eu queria te pedir mais uma coisa – Ele falava olhando um pouco de esguelha para Klaus, sem muita coragem para encará-lo.
— O que você quer, Rik? – Klaus perguntou com paciência, mas logo notou o comportamento estranho do irmão.
— Eu sei que quando a Lua está viva no céu, você vai até à tribo dos lobos assistir à sua dança – Ele falou e eu vi Klaus engolir em seco. Talvez ele achasse que fosse segredo e ninguém soubesse das suas aventuras ilegais.
— Não me entregue ao pai, por favor, Rik – Ele tinha medo nos olhos. E eu entendia perfeitamente. Se Mikael descobrisse, não haveria quem o salvasse da cólera do pai.
— Eu jamais faria isso com você, Niklaus – Henrik se apressou em dizer exasperadamente, sacudindo os cabelos. Klaus pestanejou algumas vezes com o olhar aturdido e esperou que o irmão voltasse a falar – Eu apenas queria pedir para ir junto com você, na próxima Lua viva – O espanto e a negação no olhar de Klaus foi de imediato.
— De jeito nenhum, Henrik – Ele sacudiu a cabeça e se virou novamente para as ferramentas.
— Por favor, Niklaus. Eu te imploro. Quero ir com você – Ele se agarrou às pernas do irmão mais velho fazendo pirraça para conseguir o que queria. Klaus parecia estar perdendo a conjuntura e dividido entre o prazer em fazer a vontade do irmão caçula e o que bom senso lhe dizia. Por fim ele pareceu se decidir.
— Já disse que não. Essa é a minha palavra final – Ele falou duramente com o irmão – Não posso levar você para um lugar daqueles. É muito perigoso. Faço isso para te proteger, não para te deixar triste. Agora, volte lá para fora com os outros. Essas aqui são muito pesadas para você – Henrik se soltou dele com lágrimas nos olhos e saiu correndo.
Klaus se virou apressado para o olhar partindo e sua expressão não estava nada boa. Certamente não era seu desejo magoar ou contrariar o irmão, mas não havia nada que ele pudesse fazer. Infelizmente eu sabia que de alguma forma Henrik iria com ele e morreria no processo. Eu só não estava com vontade de presenciar uma criança sendo brutalmente morta por uma matilha de lobisomens. Esperava que Elijah não me mostrasse isso.
Fiquei observando Klaus por alguns instantes até que o escuro familiar voltou e fui novamente transportada para outra lembrança. Era noite e estava um breu. Eu mal conseguia distinguir a paisagem a minha volta, exceto por notar a quantidade excessiva de árvores com o terreno totalmente irregular ao perceber que estava no meio da floresta. Era incrível a facilidade com que Elijah me transportava para o meio do nada. E eu não podia contar com a minha sensibilidade extra para me localizar. Nenhum dos meus sentidos de vampira funcionavam nessas lembranças. Por fim detectei uma luz um pouco longe, fogo, ao que parecia. Caminhei até ela me perguntando o por quê da besta do Elijah sempre me deixar um pouco mais longe do que o necessário. Não é como se alguém fosse me ver, droga.
Fui me aproximando da luz até estar bem perto e entrar numa área bem mais iluminada e conseguir distinguir o que estava acontecendo. Para o meu horror, comecei a ouvir gritos de agonia e dor que eram de arrepiar a pele. Diminuí os passos em cautela e percebi que nada me aconteceria. Eu nunca estive ali de verdade. Mas, ainda assim era instintivo ficar na defensiva.
Ao me aproximar da orla da floreta, me escondendo entre algumas árvores, percebi que estava diante de uma vasta campina circular, em cujo centro jazia uma grande fogueira. E, para o meu terror, em volta dela se encontravam algumas pessoas se contorcendo e se debatendo no chão. É claro, minha mente deu um estalo. Era aquela tribo de pessoas que se transformavam em lobisomens. Eu havia suplicado interiormente que Elijah não me mostrasse esse acontecimento terrível. Tentei centralizar meus pensamentos de alguma forma que ele pudesse entendê-los e me tirar dali. Fechei os olhos e esperei, mas nada aconteceu. Argh. Fiquei ali parada feito uma idiota esperando alguma coisa mudar. Não adiantaria de nada eu correr para o meio da floresta e ignorar a história. Eu havia pedido por aquelas lembranças, não é? Agora que eu aguentasse. O grupo continuava incessantemente a passar pela transformação e alguns já se encontravam totalmente em forma de lobo. Gigantes massas peludas e fatais, com expressões assassinas e derradeiras. Sob esse ângulo, a luz da fogueira me fazia ter uma visão razoável de suas faces perturbadas pela maldição. Nunca havia visto tantas criaturas como essas reunidas. Era horripilante e incrível, como se fosse real. Seus uivos para a Lua me faziam estremecer. Gritos de agonia ou de medo, eu não saberia dizer. Tyler nunca me falou ao certo o que se passava na mente deles depois de transformados. Mas, certamente não eram mais os mesmos, pois eram capazes de matar até familiares.
Me sobressaltei ao ouvir som de gravetos sendo triturados e o farfalhar de folhas e terra. Distingui a forma pequena e magra de Henrik por entre algumas árvores próximas a mim. Ele estava sozinho e parecia assustado e perdido, olhando o tempo inteiro ao redor. Certamente procurava Klaus, por tê-lo perdido de vista no caminho enquanto o seguia. E até aquele momento, nenhum sinal dele. Senti um frio na barriga. Era horrível saber o que iria acontecer e não poder fazer nada para mudar. Então, para o meu absoluto terror, ele começou a chamar pelo nome do irmão mais velho. Meu instinto foi correr até ele e tentar tapar a sua boca. Mas, obviamente, foi em vão. Passei direto por ele como se atravessasse fumaça. E ele não parava de gritar por Klaus. Que irritante! Cala a boca, menino! gritei. Olhei diretamente na direção dos lobos e eles farejavam o ar na nossa direção. Passei as mãos nervosamente pelos cabelos implorando aos céus que aquilo acabasse. Para o meu alívio, Klaus apareceu de repente e fez o que eu tentava fazer. O silenciou com uma das mãos em sua boca, fazendo sinal com o indicador da outra para que ele não fizesse mais barulho e o arrastou para o coração da floresta. Os segui sem olhar para trás.
Klaus caminhava a passos largos, carregando Henrik nas costas, se desviando com grande graciosidade dos galhos errantes que lhe atravessavam o caminho e da superfície sinuosa à frente. Eu, por outro lado, tropeçava e me desviava o tempo todo, com imensa dificuldade de acompanha-lo.
Ficamos assim por algum tempo, onde tudo parecia estar indo muito bem, até um lobo gigante se eriçar contra nós, me fazendo sobressaltar e gritar de susto. Klaus jogou Henrik no chão e empunhou a espada avançando para o lobo. Minha reação foi tentar pegar a criança no colo e fugir com ela. Eu sempre me esquecia de que eu nunca fiz parte daquela vida ou de que aquilo nem mesmo era real no meu presente. O garotinho soltava gritos agudos e chamava o nome do irmão em súplica. Klaus conseguiu acertar o lobo depois de muitas tentativas e o jogou para longe. Na crença de que o havia derrotado, virou de costas e foi em auxílio do irmão. E esse foi o seu maior erro. O lobo se levantou e voltou com ferocidade, o atacando com violência e o jogando contra uma das árvores, o debilitando. A essa altura eu estava paralisada. Minhas emoções congelaram. A criatura avançou contra Henrik e mordeu seu pescoço, enquanto passava as garras longas e afiadas por toda a extensão do seu corpo. Virei o rosto e fechei os olhos, deixando as lágrimas involuntárias caírem na minha face. Coloquei as mãos por sobre os ouvidos a fim de neutralizar todo o som do choro de terror daquela criança. Mas, foi em vão. Eu ainda podia ouvir tudo. Podia ouvir os rosnados do lobo misturados aos gritos de Henrik, enquanto ele destroçava o seu copinho indefeso e fraco demais. Cada detalhe não passou direto pela minha audição. Ouvi o esbravejar de Klaus, um som de fúria de doer os ossos. Eu não vi o que aconteceu, mas certamente ele perfurou o lobo com a sua espada, pois seu uivo de dor foi alto e agonizante. Senti minhas pernas fracas e me ajoelhei involuntariamente naquela terra rochosa e úmida. Ouvi Klaus chorando descontroladamente e suplicando aos deuses que mantivesse seu irmão vivo. Não tive coragem de me virar para olhá-los e comecei a soluçar. O senti passar desesperado por mim; ele não esperou um segundo a mais e saiu correndo com o irmão no colo. Meu corpo o seguiu antes mesmo da minha cabeça realizar o comando de maneira consciente.
Ele corria rápido demais, eu mal conseguia acompanhar. Meu peito ardia e minha respiração era ofegante. Já havia amanhecido e só fui notar quando estávamos a poucos metros da orla que separava a floresta do vilarejo. As atividades dos moradores já seguiam intensas e tudo parecia dentro do normal. Klaus apressou ainda mais os passos até diminuir por completo sua distância da aldeia. Todos ao redor os olhavam assustados e temerosos, procurando por alguma ameaça invisível até perceberem a existência da criança desfalecida em seus braços. Ele corria descompensado e seu foco estava todo a sua frente, na direção de sua casa, certamente. Eu não aguentava mais correr até que ele começou a gritar pela mãe sinalizando que já estávamos perto. Finalmente ele cessou a correria e passou a caminhar com menos velocidade. A família Mikaelson reconheceu a voz de Klaus e todos correram ao seu encontro. Ofegante e extremamente cansado, Klaus se agachou num canto ao lado de uma cabana que não pertencia a sua família enquanto seus irmãos e sua mãe corriam agitados.
— Henrik! – Gritou Rebekah, correndo, seguida por uma mulher negra de cabelos volumosos e trançados, que estava em outra lembrança, colocando-se ao lado de Klaus.
— Não, não! – Gritava Esther enquanto se prostrava diante do corpo sem vida e estraçalhado do filho e o pegava nos braços, alisando seus cabelos – O que aconteceu? – Esther disse agitada, tremendo da cabeça aos pés. Elijah vinha correndo com a expressão mortificada e pálida, juntando-se ao grupo e se ajoelhando ao lado da mãe.
— Os lobos – Respondeu Klaus com a voz chorosa, quase inaudível – Me desculpe, me desculpe – Ele se desculpava entre prantos.
— Devemos levá-lo – Esther falou desesperada e sem ar se dirigindo a mulher que veio com Rebekah. Quase não conseguia fazer a voz sair – Por favor. Ayana, deve haver algum jeito. Não vou perder mais um filho! – A mulher tocou a face de Henrik com as duas mãos e olhou para ela consternada e sem esperança.
— Os espíritos não nos darão algum jeito, minha irmã. Não existe jeito para a morte – a mulher falou triste – Seu garoto se foi – Rebekah deitou-se nos ombros de Klaus, enquanto este se jogava no chão com as mãos cobrindo os olhos e chorando abundantemente. Elijah abraçou a mãe em conforto, o que era em vão, pois a expressão de terror e de descrença de Esther denotava o seu desespero. Esther se jogou histérica sobre o corpinho retalhado de Henrik, vociferando soluços. Eu senti pena dessa mulher. Perder um filho deve ser uma dor incomparável, ainda mais da forma brutal como fora. Eu estava tão concentrada na dor daquela família que mal notei a chegada dos outros membros. Mikael vinha correndo ao lado de Kol e de Finn, todos os três com animais de caça em suas mãos. O patriarca possuía a mesma expressão que a esposa misturada a um pouco de ferocidade e ódio. Ele largou os restos dos animais no chão, se sentou e pegou o caçula no colo, alisando seus cabelos e balbuciando palavras que eu não consegui entender. Kol se aproximou e começou a chorar tão intensamente quanto Klaus. Finn apenas acariciava o topo da cabeça de Rebekah, com o olhar distante, mas demonstrando imensa dor. E eu me senti uma intrusa, alguém que não deveria estar partilhando daquele momento terrível na vida daquela família. Mas, se Elijah estava me mostrando, ele queria que eu fizesse parte.
Mikael de repente se levantou e falou:
— Quem foi o responsável por essa atrocidade a uma criança inocente, ao meu filho? – Ninguém respondeu. Todos ainda estavam presos no seu luto. Ninguém queria conflito – Me respondam! Eu vou destruidor quem quer que tenha feito isso! – Ele berrou, num grito aterrorizante.
— Os lobos, meu pai – Rebekah corajosamente falou, com a voz embargada pelo choro.
— Os lobos invadiram a nossa vila? Tiveram essa audácia? Se foi assim, devemos cercar a nossa aldeia, devemos reunir os guerreiros já! Temos veneno contra lobos o bastante para derrubarmos esses animais asquerosos. Vamos matá-los hoje mesmo! — Então, se virou para os filhos, os olhando de cima a baixo — Alguém mais se feriu? – Ele falou verificando em volta, com a expressão confusa, a procura de algum vestígio do ataque aos outros filhos m. Ele se esforçava para parecer forte e racional, mas suas feições estavam esgotadas e quebradas. Não havia coração de pedra no mundo que não sofresse com a morte de um filho.
— Não, meu pai – Klaus falou e eu desejei fortemente que ele não abrisse a boca para dizer o que eu achava que ele iria dizer. Se ele confessasse ao pai a verdade, ainda que a morte de Henrik não fosse sua culpa, Mikael iria condená-lo ao sofrimento excruciante para o resto de sua vida – Rik foi comigo assistir à transformação dos lobos pela Lua Viva e fomos atacados no caminho de volta para a casa – Ele era louco? Como poderia dizer isso a Mikael? E ainda fez parecer que levou o irmão com ele. Omitiu parte da verdade, mas por quê? Para proteger a memória do irmão, para não jogar a culpa no garoto? Eu estava indignada com ele pela tamanha burrice. Ou altruísmo. Klaus estava morto. A expressão de espanto de Mikael variou rapidamente para o ódio. Sem pensar duas vezes ele agarrou os cabelos de Klaus e os arrastou com brutalidade. Os irmãos e Esther gritavam lhe suplicando em parar. Nem o luto afastava de Mikael a crueldade contra Klaus.
— Pai, não faz isso outra vez comigo, por favor – Klaus soluçava. Eu não sabia a que ele se referia, mas deveria ser algo terrível para deixá-lo nesse temor. Ele se debatia e tentava se livrar das mãos rancorosas do pai, mas era em vão. Mikael era mais forte fisicamente e apenas olhava para frente concentrado enquanto o arrastava como se fosse uma caça morta e mantinha a frieza em seus olhos. O pai entrou numa espécie de transe cruel, parecendo ter desligado a humanidade mesmo não sendo vampiro. Os outros vieram ao seu alcance, inclusive Esther, sendo obrigados a deixar o corpo sem vida de Henrik para trás.
Chegamos a um lugar remoto, mais para dentro da floresta. Lá havia dois troncos finos e ligeiramente altos de madeira, talhado em formato de "cruz". Mikael jogou Klaus no chão e começou a chutá-lo. Kol, Rebekah, Elijah e Esther tentavam fazê-lo parar, mas era em vão. Cada um que se atreveu a chegar perto o bastante, levou algum tapa ou chute com igual rancor.
— Qualquer um que se aproximar, terá o mesmo destino – Ele disse transbordando de fúria. Ayana se aproximou e puxou Esther, lhe dizendo que Henrik precisava dela. Ela relutou em sair, se debatendo e aos berros, ainda gritando com Mikael, mas foi arrastada pela irmã, obrigada a ir. Talvez Ayana só quisesse lhe poupar mais sofrimento, pois sabia que de nada adiantaria desafiar Mikael.
— Agora, terá seu castigo por matar o seu irmão, seu bastardo – Ele agarrou Klaus e o jogou por sobre os ombros, que a essa altura já não possuía muitas forças para resistir. Ele apenas aceitou o seu destino. Eu olhei para os outros na esperança de que intervissem, mas apenas estancaram jogados no chão que nem árvores. Mikael o prendeu naquele tronco por amarras de ferro pré-distribuídas e constatei que se tratava de um objeto de tortura. Senti um embrulho no estômago e vontade de vomitar. Depois de ter visto uma criança sendo destroçada, eu não precisava ver Klaus sendo torturado. Kol saiu correndo sem olhar para trás, chorando em silêncio. Eu não poderia culpá-lo. Também não queria ver. Mikael pegou uma das varetas compridas e de espessura razoável que se mantinham ao lado dos troncos. Rebekah começou a soluçar e a implorar que soltasse o irmão. Elijah tentou impedi-lo, mas só o que ele conseguiu foi um golpe forte da vara em seu rosto, gerando um corte e um hematoma largo. Elijah caiu no chão outra vez pela força do golpe e foi assistido pela irmã, que olhava Mikael com ódio. Eu nunca a vi, nas lembranças de sua vida humana, com uma expressão dessa dirigida a nenhum de seus familiares. A Rebekah dessa época era gentil e formidável, incapaz de tais sentimentos ruidosos. Mas, nesse momento, pude ver o brilho assassino que tanto presenciei em Mystic Falls.
Então, o pai começou a rasgar as roupas de Klaus e o deixou nu por completo. Seu corpo era perfeitamente bem trabalhado, com músculos em boa forma. Sem esperar por mais, suas mãos brandiram e seus golpes vieram com toda violência contra o corpo do filho, o fazendo urrar de dor.
— Irmão, me ajuda, por favor! Ah! – Klaus pedia socorro desesperadamente em meio aos golpes, gritos e soluços. Ele chorava compulsivamente e se retorcia a cada investida do pai, incapaz de se desviar dos golpes. Eu não aguentava ver aquilo. Gritei ferozmente contra Mikael e por ajuda a Elijah, mas eu sabia que eles não podiam me ver ou ouvir. Minha vontade era de pegar aquela vara e espancar Mikael até a morte. Ele não parava de chicotear o filho, com um brilho de prazer nos olhos. Meus olhos arderam e minhas lágrimas vieram com intensidade. Klaus já não mais gritava ou chorava, ele parecia estar perdendo os sentidos. Elijah se debruçou no chão e começou a chorar, mas Rebekah avançou e se lançou contra o pai, o jogando no chão. Ele se pôs de pé e ela lutou contra ele na posse da vara, mas ele era, obviamente, muito mais forte que ela. Rapidamente a derrubou no chão e avançou contra ela, também lhe dando alguns golpes. Mas, ela se desvencilhou, correu e agarrou outra vara de madeira próxima ao tronco e vociferou:
— Se você fizer isso comigo ou com meu irmão mais uma vez eu juro, Mikael, que vou embora dessa vila com Nik e você nunca mais vai nos ver. E se os outros quiserem vir, melhor ainda. Isso se eu não me vingar de você primeiro – Ela falava ofegante e com a voz embriagada pelas lágrimas e pelo ódio – Nunca mais nos toque, nunca mais!
— Como se atreve a falar comigo desse jeito, Rebekah?! Com seu pai! – Mikael falou entredentes e agitado, com a voz trêmula de raiva, mas desarmado pelo súbito ataque e surto da filha.
— Eu não sou sua filha. Não quero alguém assim como meu pai! – Ela gritou, na defensiva. Ele ameaçou se aproximar, mas ela avançou contra ele outra vez, o fazendo recuar – Vai embora daqui. Não chegue perto do meu irmão. Ou irei reunir cavaleiros contra a tua injustiça. Vai levar uma surra pior do que essa para cumprir a sua pena. Você não sabe do que eu sou capaz. Existem cavaleiros que repudiam o comportamento como o seu e estarão prontos para fazerem justiça!
— Não tenho medo desses idiotas que se acham cavaleiros – Ele disse com desdém.
— Então, vamos pôr as tuas palavras e toda essa tua valentia à prova, o que você acha? Vou manda-los te amarrarem exatamente dessa forma e te espancarem até à morte – Ela respondeu com ódio e naquele instante eu quis beijar os pés de Rebekah.
— Meu trabalho já está feito, afinal de contas – Ele falou com desprezo, olhando na direção de um Klaus desacordado e todo retalhado, e isso fez meu sangue ferver. Se eu encontrar esse homem mais uma vez em Mystic Falls, vou esquecer das minhas desvantagens em relação a ele e vou descontar todas as minhas frustrações. Ele deu meia volta e foi embora. Rebekah o seguiu com os olhos e se manteve em posição defensiva até ele se desviar de suas vistas, então, baixou sua guarda e correu em socorro do irmão.
— Elijah, me ajuda aqui, por favor. Não o aguento sozinha – Ela falou, enquanto soltava as amarras e fivelas de ferro que prendiam Klaus. Elijah se arrastou e depois levantou, um pouco tonto. Pude ver que um de seus olhos estava involuntariamente fechado e com a massa ao seu redor bastante escura.
— Não consigo ver direito, minha irmã. Você só terá parte de minha ajuda.
— Já é o bastante – Ela disse sem humor. Klaus caiu pesadamente em seus braços enquanto Elijah a ajudava a sustentá-lo. Os dois o deitaram no chão e o analisaram por uns instantes. Seu corpo inteiro estava com hematomas e cortes, alguns mais profundos que outros. Não havia um pedaço sequer que não estivesse afetado. Parecia uma colcha de retalhos em carne e sangue. Com horror eu percebi que ele poderia estar à beira da morte. Mikael era um mostro, um assassino. Me ajoelhei ao lado dele e me debrucei contra o seu corpo a fim de ouvir seu coração, mas nada senti, foi como atravessar o vento. Me conformei em apenas observá-lo de perto, lembrando que ele ainda teria no mínimo mais mil anos de existência, enquanto Rebekah imitava o meu gesto e se deitava no corpo disforme do irmão, se sujando de sangue — Vamos levá-lo para a tia. Diferente de Henrik, Nik ainda está vivo – Ela tentava se recompor, mas sua voz falhava e tremia. Tentar ser forte para lidar com o espancamento do irmão mais velho logo em seguida da morte do irmão mais novo era penoso ao nível de crueldade.
— Temo que seja tarde, minha irmã – Elijah disse com os olhos marejados.
— Não diga isso! Vamos. Não temos tempo para perder – Os dois levantaram e o carregaram até a casa da tia, foi uma caminhada demorada e irregular. Eles tentavam ao máximo não piorar as condições do irmão, mas eu não via como isso era possível. Por vezes eu me aproximava para ver se ele ainda respirava, num temor imenso de que ele viesse a morrer. Só o que me dava esperança era lembrar que Klaus ainda estava vivo, numa realidade mil anos distante daquela, mesmo assim era inevitável ficar pesarosa. Depois do que pareceu uma eternidade para meus saudosos nervos, chegamos próximo à cabana de Ayana, mas Rebekah parou e mandou Elijah fazer silêncio – Vou trazê-la até nós. Não quero que Mikael saiba que estivemos aqui.
— Não seja boba, minha irmã. Como Niklaus terá se curado se não pelas mãos da tia? O pai terá certeza de sua origem, e será bem capaz de declarar o nosso irmão como um amaldiçoado pela magia.
— Não me importo. Só quero o meu irmão vivo. Que se dane se vai ser por magia negra. Parece que você não quer o mesmo, Elijah! – Rebekah falou aos sussurros, mas era nítido a indignação e raiva na sua voz.
— Que disparate, Rebekah! Eu daria a minha vida pelo meu irmão! Você bem sabe disso – Ele respondeu com a expressão assombrada, magoado e ofendido com a irmã. Ela apenas abaixou os olhos, envergonhada, mas rapidamente mudou e assumiu uma postura alarmada. Ela espiava pela janela, um pouco curvada para não ser vista. Suas feições eram de alguém confuso e temeroso. Então, também me aproximei para olhar e descobrir o que causou aquela reação em Rebekah. Estava ficando agoniada com essa lerdeza dos dois. Klaus não poderia ficar muito tempo sem ajuda.
— Por favor, Ayana. Eu estou te implorando. Você precisa fazer isso – Mikael falava um pouco nervoso. Só de olhar para ele, sentia vontade de vomitar minha bile – Você precisa contatar os espíritos antes da próxima Lua Viva – Suas últimas palavras causaram confusão tanto em mim quanto em Rebekah, ao que pude perceber em sua expressão. Pensei que Mikael repudiasse magia.
— Eu não o farei. Isso é um crime contra a natureza – Ela respondeu.
— E não foi um crime o que fizeram hoje? Ayana, nós já perdemos demais – Esther se pronunciou, com a voz bastante trêmula – Não podemos mais perder. Os espíritos podem nos ajudar a encontrar um jeito de proteger as nossas crianças.
— Tudo neles poderia ser maior, mais forte do que nos lobisomens – Mikael retomou a palavra – E nossa família poderia viver para sempre.
— Com alguns custos altos demais – Retrucou Ayana – Essa mágica de que vocês falam possui muitas consequências. Isso não é algo com o que vocês devam brincar. A magia tem suas regras e o preço a pagar vai ser grande. Só a morte paga uma vida. Se eu fizer seus filhos viverem para sempre, muitas pessoas serão sacrificadas no processo para manter o equilíbrio. E os espíritos vão se voltar contra você, Esther, por esse atentado à natureza. De alguma forma vão revidar e vocês vão se arrepender da escolha mirabolante. Não vou fazer parte disso. Agora, vocês me deem licença. Vou preparar o que usaremos na cerimônia do menino. Vocês deveriam estar lá com ele agora, e não aqui pedindo esse absurdo – A bruxa olhou séria e saiu decidida daquele aposento indo em direção oposta a nossa. Mikael estava estranhamente sereno enquanto Esther começava a tremer. Ele se aproximou dela e colocou suas mãos sobre os ombros da esposa.
— Se ela não vai proteger a nossa família, então está em suas mãos, meu amor – Ele falava com o olhar delirante enquanto alisava seus cabelos. Ela o olhou profundamente e confusa — Dessa vez você tem permissão para usar magia. Não vejo outra saída, minha doce Esther. Para salvar nossos filhos, teremos que fazer sacrifícios e aceitar a magia é o meu — Então, ela acenou concordando.
Então, foi assim. Onde tudo começou. Eu já conhecia parte dessa história. Esther realizaria o feitiço e Mikael mataria Tatia, numa vingança particular e bem articulada. Usaria o sangue da jovem humana para dar de beber aos filhos e, então, Makel os mataria e completaria o processo de transformação. Mikael usou o sangue de Tatia de propósito, devido ao seu ódio à moça por ter causado uma ruptura na sua família e a quase morte da esposa. Ele jurou acabar com ela e cumpriu. O desespero levou Mikael e Esther a tomarem uma decisão extrema e mudaram o curso do mundo inteiro com o que viria a seguir.
Estava perdida em meus pensamentos quando ouvi Elijah sussurrar agitado.
— Anda, Rebekah, vamos logo. Se você quer alguma chance de salvar nosso irmão, devemos alcançar a tia – Ela, assim como eu, foi tirada subitamente de seu transe e começou a carregar Klaus junto de Elijah. Os dois deram a volta lentamente na cabana a fim de se manterem fora das vistas dos pais, mas calcularam errado. Quando tentava arrastar Klaus para a direção da outra janela, Esther, que já estava do lado de fora e sozinha, avistou os filhos e correu em sua direção.
— Esse é Niklaus?! Parem vocês dois, agora! – Ela sussurrava enquanto corria. Sua expressão era de puro terror. Apesar de tudo, essa Esther amava, da sua maneira, a todos os seus filhos. Ver um deles desfigurado, após a morte de outro, não deveria ser nada fácil de suportar – Pelos deuses! Somos amaldiçoados – Ela falava mais para si, com a voz embargada pelo choro eminente enquanto segurava a cabeça de Klaus.
— Shiu! – Proferiu Rebekah – Fale baixo, mãe! Não queremos que o pai ouça. Não é como se você não soubesse que foi o pai ia fazer isso – Ela gesticulou raivosamente, sussurrando com desprezo — Você estava lá enquanto ele chicoteava meu irmão – Rebekah a acusou espumando. Esther abaixou a cabeça com vergonha e consternação — Por que você é tão fraca?
— Você viu que eu tentei impedi-lo, minha filha – Ela falava com a voz trêmula.
— Não tentou o bastante – Rebekah respondeu com raiva — Tire Mikael daqui, para levarmos Nik até a tia. Estamos perdendo tempo, pelos deuses! Vai se acovardar ou vai ajudar o seu filho? Se não o fizer, Niklaus será seu segundo filho morto num mesmo dia – Rebekah disse entredentes. Esther, aterrorizada, acenou positivamente e correu para dentro da cabana.
— Vamos, Elijah, vamos até a outra porta – Eles deram a volta e se esconderam, esperando ficar seguro invadir a cabana da tia. Rebekah alternava os olhos nervosamente entre o rosto de Klaus e a casa de Ayana. Ela parecia prestes a surtar de ansiedade e pavor. Elijah, por sua vez, parecia estar na defensiva e posição de proteção.
Quando avistaram, logo em seguida, Esther se afastar da cabana com Mikael ao seu lado, os irmãos partiram imediatamente para dentro do ambiente, correndo com Klaus em seus braços. Rebekah gritava o nome da tia, que apareceu correndo e alarmada, com uma colher e uma chaleira nas mãos.
— Mas, o que está havendo aqui para você gritar desse jeito, Reb ... – Ayana parou abruptamente de falar ao ver o estado do sobrinho. Largou com estrondo os objetos no chão e tratou de direcionar e carregar Klaus mais para o interior de seus aposentos. O acomodou em cima de uma mesa longa de madeira, que ficava no centro de uma saleta repleta de prateleiras rudimentares com tubos e garrafas de vidros sujos e arranhados, com os mais variados líquidos de todas as cores em seu interior. Correu até uma das prateleiras e apanhou um frasco com líquido verde musgo, como daquelas águas de rios de pântanos. Ela trabalhava freneticamente com a sua "medicina" medieval misturada à bruxaria e proferia palavras estranhas, enquanto despejava o líquido por toda extensão do corpo de Klaus. Uma espécie de fumaça se desvinculava das partes da carne de Klaus à medida que o líquido cobria uma ferida e um som que me lembrava gotas de água sendo jogadas numa chapa escaldante emanava da sua pele recém coberta, enquanto um vapor verde e mal cheiroso levantava no ar. E, para o meu alívio, alguns ferimentos estavam diminuindo de tamanho. Ele estava retalhado, Ayana ainda teria muito trabalho pela frente, mas, ao que parecia, esse líquido estava funcionando.
— Me ajudem vira-lo, garotos, vou jogar o Adurendum Vulnus no resto de seu corpo. Nem preciso insistir que isso fica em segredo, entenderam? Eu posso ser morta se for pega praticando magia – Ela assim o fez, concordando e ignorando o verbete desconhecido da tia. O resultado foi ótimo, melhorando em muito as feridas de Klaus. Mas, ele ainda estava com muitos cortes profundos e não estava nem perto de se curar completamente – Não sei se devo ou não perguntar a vocês como permitiram seu irmão chegar nesse estado. Apenas digo que um ferimento grave como esse não deve passar do conhecimento do vilarejo – Ela falou rígida, olhando com severidade para os sobrinhos – Niklaus poderia morrer. Suas feridas melhoraram pela minha mágica, mas ele não está curado. Eu não posso enganar a morte. Ninguém pode. Os espíritos se voltariam contra mim – Ela falou essa última parte pensativa, mas para si mesma. Talvez por causa do recente pedido peculiar da irmã e do cunhado. Elijah e Rebekah se entreolharam. Não soube distinguir se era porque sabiam dos pensamentos obscuros da tia ou se foi por talvez Ayana não souber do temperamento agressivo de Mikael. O que não me parecia o mais provável. Ayana viu Mikael prender Klaus.
— Ele vai ficar assim por muito tempo, minha tia? – Falou Elijah sem muito fôlego.
— Não sei, garoto. Como vou saber? – Ela respondeu áspera – Vou ministrar essa cura nele todos os dias e esperar que os deuses estejam a favor dessa família dessa vez. Vão chamar sua mãe.
— Não, minha tia! – Rebekah proferiu agitada – A mãe já sabe que ele está aqui com você. Mas, o pai não deve saber – O olhar de compreensão de Ayana foi o suficiente para eu saber que ela conhecia o que se passava naquela família. Ela soube de imediato que o autor da atrocidade foi Mikael.
— Bem, então. Esse foi o resultado daquele show de horrores, claro. Porém, devem trazer Esther aqui. Preciso falar diretamente com ela. Mas, não sejam tolos. À medida que Niklaus não aparecer, que seja, Mikael irá em sua busca. Vocês não vão poder escondê-lo por muito tempo aqui. Dou até amanhã para Mikael estar na minha porta me ameaçando – Elijah olhou para a irmã e abaixou a cabeça. Rebekah, no entanto, parecia abismada.
— Você tem muitos recursos, tia. Por que até hoje não deu um jeito nele e ajudou nossa mãe, a nós?
— Rebekah, se eu for pega fazendo magia, serei queimada viva. Nem todos entendem as peculiaridades do mundo que não se pode ver.
— Ninguém vai saber, só nós.
— Está me dizendo que quer que eu mate seu pai, garota?
— Não. Só quero ter um jeito de controlá-lo, de fazê-lo parar. Não aguentamos mais viver assim.
— Minha querida, vou pensar em algo que eu posso fazer. Mas, já te aviso que não vou me expor. E sugiro que não fique me pressionando, me seguindo.
Ayana deu um último olhar aos sobrinhos, dessa vez um mais suave e compassivo, e saiu da saleta. Rebekah se aproximou mais de Klaus e levantou uma das mãos para tocá-lo, mas desistiu no meio do processo. Pareceu ter receio de perturbar sua paz e piorar seus vastos ferimentos.
— Eu juro, Elijah, eu não vou permitir que Mikael faça isso novamente – Ela falou baixo, séria e sombria.
— O que você pode fazer contra ele sozinha, Rebekah? – O irmão proferiu alarmante.
— Sozinha? Seu covarde! Eu tenho mais ímpeto que você, seu fraco! – Ela se voltou com seu gênio forte contra o irmão – Se for necessário, eu farei sozinha! Arrancarei os olhos dele com minhas próprias mãos enquanto ele estiver dormindo! E também posso reunir cavaleiros forasteiros ou mercenários que não suportam Mikael. Existem muitos grupos rivais aos de Mikael que adorariam colocar a cabeça dele numa estaca. Não vai ser difícil de encontrar.
— Não sou covarde! Também vou defender meu irmão! A qualquer um de meus irmãos que ele queira machucar. Apenas, não enxergo saída para nós! – Ele rebateu indignado.
— Vamos fugir! Assim que Nik levantar de seu leito! Eu só lamento pela mãe. Vamos Levar os outros conosco.
— Finn não virá – Elijah falou com os olhos desfocados, como se reconsiderasse a idéia da irmã, mesmo achando improvável de dar certo.
— Que ele fique, então. Não me importo. Ele idolatra o pai. Vai ficar ao lado dele.
— Nosso irmão não idolatra o pai, Rebekah. Ele apenas tem medo. Ele segue as regras para não apanhar como nós.
— Essas regras vão mantê-lo preso a esse monstro até o fim de sua vida, isso vai consumi-lo aos poucos, lhe roubando seus últimos resquícios de felicidade, viraremos uma sombra sem amor e sem alegria alguma, e eu não quero o mesmo pra mim. Não quero isso para vocês. Eu quero viver e ser feliz. Não quero ficar à sombra de Mikael, de sua cólera, não quero viver com medo e fugir dele para sempre. Por favor, Elijah, vamos tentar. Eu não consigo mais aguentar. Nosso irmão pequeno se foi numa tragédia da qual nossa família nunca irá se recuperar. Sinto muito pela mãe, não gostaria de partir e deixa-la para trás, mas ela sempre escolhe ficar ao lado do pai. E Mikael jamais deixará Nik em paz. O infernizará e o culpará para sempre – Ela implorava com a voz embargada, enquanto suas lágrimas rolavam. Me comovi com Rebekah. Ela realmente amava Klaus. Estava disposta a enfrentar o impossível para salvá-lo e a seus irmãos, enfrentar o dono das leis da casa e suas regras. Para uma mulher daquela época, ter esses tipos de pensamentos e atitudes era inadmissível. Eu a admirei profundamente por isso. Assim como ela, aguardei a resposta de Elijah, que permanecia calado e parecia travar uma guerra interna, mas não cheguei saber qual seria.
O cenário mudou novamente e fui parar em outra maldita lembrança. Se já era desgastante demais presenciar uma parcela ínfima do que viveram, imagina realmente o terror que foi fazer parte disso. Eu já não aguentava mais. Queria sair. Queria deixar para trás todas aquelas imagens tortuosas. Eu sabia que elas assombrariam meu sono por um longo tempo, mas, pelo menos por hora, eu queria alívio. Eu já estava mentalmente quebrada. Só o que me restava era esperar que Elijah tivesse misericórdia de mim e não me deixasse ali por muito mais tempo. Eu pedi por isso, eu sei, agora não estava aguentando o tranco. Suspirei pesadamente sem mais forças e prestei atenção ao redor.
Já não me surpreendia mais o cenário florestal. Era o plano de fundo de se viver naquela época. Eu estava numa clareira circular muito bonita e coberta de flores silvestres. Apesar do crepúsculo parecer estar chegando, o Sol ainda iluminava forte e refletia nas folhas as fazendo ficar com suas cores em tons muito vivos. Não sabia o que fazer ou para onde ir, então, sentei e esperei algo acontecer, enquanto admirava a beleza do lugar. E não demorou muito.
Elijah e Klaus caminhavam lentamente em minha direção, os dois carregando pesadas correntes de metal numa cor terracota e o mais velho trazia consigo um manto escuro. Estreitei as sobrancelhas na estranheza daquilo e me levantei num salto. Os dois pareciam muito tensos e Klaus estava com aspecto de doente; cansado e abatido. Pararam no centro da clareira e me aproximei para ouvir sua conversa.
— Vai ser aqui, irmão. É aqui para onde eles vêm, para ficarem bem longe. Nunca tiveram a intenção de atacar a aldeia, mesmo quando o fizeram. Ao menos foi isso o que me contaram. Então, aqui deve ser seguro – Klaus falava com a voz tremida e baixa.
— Não tenha medo, meu irmão, estou aqui com você – Elijah falou ao notar seu estado, enquanto descansava a mão no ombro de Klaus a fim de confortá-lo. Eu só não sabia pelo o que – Você não vai machucar ninguém, nem a mim – Machucar?
— Se as coisas ficarem desastrosas, por favor, vá embora daqui, irmão! – Klaus chorava enquanto repetia o gesto de Elijah.
— Não vou deixar você sozinho, Niklaus. Já discutimos isso. Te prometi ficar – Klaus abaixou a cabeça triste e soluçou.
— Eu tenho medo, meu irmão. Não quero passar por isso de novo, quero que isso pare! – Ele começava a se desesperar.
— Ei, Niklaus, olhe pra mim! – Elijah levantou sua cabeça com força – Vamos conseguir passar por essa noite. Você vai conseguir. Você não precisa mais ficar sozinho, passar por isso sozinho, podemos fazer isso juntos. Estou aqui para você, meu irmão.
— Você nunca viu, Elijah, não sabe como é. Não somos nós mesmos. Perdemos as perspectivas dos humanos e não reconhecemos mais os nossos. Por isso muitos já mataram seus próprios familiares – Klaus respondeu rouco, adquirindo um tom esverdeado em suas feições – Eu não quero matar meu irmão mais querido. Preferiria morrer a ter seu sangue em minhas mãos.
— Isso não vai acontecer, Niklaus. Nenhum de nós vai morrer. Você estará bem preso. Eu estarei seguro. Sou forte o bastante para te parar, se for necessário. Você já passou por isso na outra Lua completa. Mas, desta vez não estará sozinho – Elijah tentava convencer o irmão, mas não estava obtendo muito êxito.
— E se for verdade o que as lendas dizem? E se realmente a mordida puder matar criaturas como a que agora você é? Isso os tornaria não tão imunes quanto aparentam. Nenhum de vocês meus irmãos estão seguros perto de mim. Na outra vez você bem sabe que tirei algumas vidas. Você estava aqui pela manhã à minha espera e se deparou com o seu irmão coberto de sangue inocente. Não quero fazer isso novamente. Não quero virar um monstro. Não quero sentir a mesma dor excruciante, com meus ossos se quebrando e minha pele em chamas. Não existe nada pior – Dessa vez Elijah não soube e não teve o que dizer — Não sabemos ao certo o que eu sou, como posso ser as duas criaturas ao mesmo tempo? Esse meu lado é inimigo natural do meu outro, àquele a que você também pertence. Não consigo entender, Elijah, não consigo – Klaus parecia à beira do colapso, prestes a sucumbir ao desespero e às lágrimas.
— Vamos tentar descobrir, entender ao máximo essa noite, está bem? Suas dúvidas também são as minhas, mas não há nada que possamos fazer a não ser tentar compreender aquilo que é possível, para amenizar os danos e efeitos – Klaus não parecia totalmente aliviado, no entanto se contentou com a resposta do irmão – Tentei me esgueirar de Rebekah na aldeia, mas ela me seguiu e quis me acompanhar, mas não deixei, obviamente.
— Mas, é claro que não! – Klaus ficou ultrajado – Jamais permita que ela se aproxime, Elijah. Não a quero perto de mim assim. Não quero correr o risco de matar minha preciosa irmã. Não vou repetir a história. Tampouco gostaria de ver em seus olhos sua repulsa e desprezo pelo o que eu sou agora.
— Pare com isso, Niklaus. Ninguém te repudia. Rebekah menos ainda. Ela te usa como espelho. Além disso, ela sabe que não deve te julgar. Nenhum de nós está em condições de fazê-lo. Também temos que lidar com a nossa nova natureza, que em nada difere da sua. Somos quase a mesma coisa, eu acho. Também temos uma maldição sobre nós que nos faz tirar vidas inocentes – Klaus parou de argumentar com o irmão, mas ainda travava uma luta interna. Sentou-se pesadamente no gramado. Consigo carregava toneladas de insegurança e pesares em sua mente turbulenta. Permaneceu calado por um tempo olhando o nada, enquanto era observado pelo irmão e por mim.
Elijah ajeitava algumas correntes e parecia concentrado em sua tarefa, mas por vezes eu o pegava olhando de esguelha para o irmão, um tanto preocupado e consternado. Klaus circulava no perímetro próximo, amarrando correntes em algumas árvores. Claro que eu já havia entendido tudo. Klaus iria se transformar em lobisomem, ao que parece, pela segunda vez. Porém, auxiliado por Elijah, a fim de minimizar as mortes e de obter um pouco de apoio de alguém que se importa com ele. Essa parte da história eu não conhecia muito bem. Sei que ele é um híbrido, mas não sei ao certo como foram seus primeiros momentos nessa dualidade mortal. Talvez Elijah fosse me mostrar ou eu teria que perguntar mais tarde, quando "acordasse".
Os dois irmãos acabaram com seus afazeres e se olharam intensamente e depois miraram o céu. Por reflexo, acompanhei seus olhares e lá estava ela. Bela e brilhante, a Lua dava seus primeiros sinais de vida. Estava próximo. Lembro bem de quando Tyler se transformou pela primeira vez. Eu estava com ele e foi horrível de assistir, de ouvir seus gritos de dor e terror. E no meio do processo ele tentou me atacar, deixando de me conhecer por completo. Eu sabia o que estava por vir e também não estava afim de assistir. Foi ruim demais tudo o que já se passou. Eu sentia que estava há anos naquele universo alternativo, de tão mentalmente cansada que eu estava. Elijah já poderia me retirar de sua mente que eu não iria reclamar.
— Venha, meu irmão – Elijah olhava firmemente para Klaus. Este, por outro lado, aparecia nervoso e inseguro – Vai dar tudo certo, como planejamos. Não tenha medo – Klaus acenou e se aproximou das árvores acorrentadas.
Elijah prendeu os ferros medievais, que se encontravam nas extremidades das correntes, em volta dos tornozelos, pulsos e pescoço de Klaus. Só em assistir isso já me deixava enjoada. Senti uma pequena vertigem e me sentei no gramado, um pouco distante e de frente para os dois. Copiaram o meu gesto e também se sentaram na grama. Klaus estava tenso e Elijah preocupado. A fim de tranquilizar o irmão, supostamente, Elijah começou a distraí-lo com assuntos banais e parece que funcionou. Logo os dois estavam conversando descontraidamente sobre assuntos aleatórios, até mostravam estar se divertindo. Riam um com o outro e por vezes faziam piadas e brincadeiras.
O tempo foi passando e a Lua ficando mais brilhante e a noite mais escura. Klaus começou a dar os primeiros sinais de transformação quando se levantou de repente. Elijah se afastou bruscamente, se aproximando de mim. Sua expressão era de pena e dor.
— Você não precisa ficar para assistir, irmão. É melhor você ir. Não vai querer ver o que está por vir – Ele tinha razão. Klaus falava ofegante e trêmulo.
— Já discutimos isso várias vezes, irmão. Eu fico – Elijah permaneceu firme em sua decisão e não arredou o pé nem um centímetro. Então, a agonia começou.
Klaus começou a gritar e repuxar as correntes. A força que ele aplicava nelas me fazia temer por seu corpo. Algum membro seu poderia ser arrancado assim. Ele se debatia e berrava a plenos pulmões. Sua pele brilhava de tão lavada em suor que estava. Klaus caiu no chão se aninhando em posição fetal. Elijah não suportou a visão de seu irmão mais novo sofrendo e foi até ele.
— Ei, Ei, vai passar. Não vai durar para sempre. Eu estou aqui com você – Elijah falava enquanto abraçava Klaus com força, a fim de diminuir sua agitação. Mas, era impossível. Elijah foi jogado para frente por um Klaus descontrolado e animalesco. Ele deveria saber que dali para frente não havia nada que ele pudesse fazer para ajudar o irmão.
Para o meu horror, seus ossos começaram a se quebrar, dando para vê-los perfurando a carne pedindo espaço violentamente para saírem. Klaus se revirava e se dobrava em ângulos humanamente impossíveis enquanto seu corpo forçava a transformação. Seus gritos excruciantes fariam qualquer um se arrepiar. Ele chorava e implorava aos deuses que fizesse isso parar.
Já era possível ver traços de lobo em sua fisionomia. O conhecido tom amarelo-âmbar nos olhos tomava o lugar do verde água e seus caninos ficavam a amostra toda vez que ele rosnava. A essa altura, suas vestes já estavam rasgadas e largadas no chão, incitando sua nudez.
Seu corpo se dilacerava cada vez mais deixando a forma humana e ganhando a animal. Ver Klaus ser todo quebrado e remontado era insuportável. Fechei os olhos e tapei os ouvidos, na esperança de fazer parar, de ser retirada daquela lembrança. Não queria ver o resto. Lágrimas capciosas caiam sem permissão pela minha face. Então, tudo ficou em silêncio de repente. Abri os olhos imediatamente para saber o que tinha acontecido. Eu estava no meio de um breu, tudo preto, como se estivesse num quarto escuro sem um fio de luz. Quando retornou a clareira, estava claro, como o início da manhã.
Klaus estava caído no chão, nu, coberto de terra e de sujeira, agarrando seu próprio corpo e se debatendo insanamente como um hipotérmico. Elijah surgiu das sombras das árvores correndo, trazendo consigo um manto, cobrindo e abraçando o irmão. Ele permaneceu abraçado a Klaus por algum tempo, até torna-lo mais aquecido e controlado.
Klaus se levantou um tanto zonzo e cambaleante e Elijah lhe entregou o manto. Cobrindo-se por inteiro, Klaus não tirava os olhos do chão. O irmão apenas o observava em silêncio. Realmente, não tinha muito o que dizer. Foi, então, que Klaus pareceu sucumbir à fraqueza e caiu de joelhos no chão, chorando compulsivamente. Elijah nivelou suas alturas e o abraçou com força.
— Não quero passar por isso outra vez, irmão – Pude ouvir a voz embargada e com desespero de Klaus – A dor... é insuportável. Por favor. Faça isso parar. Não consigo lembrar de ter sofrido alguma dor tão excruciante. Desejei morrer.
— Você não vai morrer, Niklaus – Elijah respondei emocionado – Não vou permitir. Daremos um jeito. Vamos quebrar essa maldição de um jeito ou de outro. Você vai ficar bem. Eu vou te ajudar. Estaremos juntos, sempre e para sempre.
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Acordei e levantei num sobressalto atordoada, com a cabeça latejando por tanta informação no que me pareceram horas. Sentei no sofá ofegante e olhando ao redor, lentamente tomando consciência de que estava de volta à sala da mansão de Klaus. Elijah me olhava com um misto de preocupação e curiosidade. Ele semicerrou os olhos me observando à procura de qualquer sinal estranho, como se eu fosse alguma louca a ponto de surtar. Bom, talvez eu fosse. De fato, todas aquelas lembranças me deixaram doida. Isso porque eu sabia que era só um pedaço bem infinitesimal dos mil anos sangrentos de Klaus.
— Você está bem, Caroline? Gostaria de alguma bebida ou comida? – Elijah me perguntou educadamente e eu balancei a cabeça meio agitada, pegando a garrafa de whisky sem esperar que ele me servisse. Enchi o copo quase completamente e bebi a metade de uma vez só em poucos goles – Gostaria de dizer algo a respeito do que você acabou de presenciar? – Me pressionou. A sua expectativa era tangível.
— Quero dizer tudo e nada. Nem sei por onde começar – Respondi com escárnio e revirando os olhos. Ele apenas soltou uma risadinha abafada pelo nariz. Eu estava exausta, pois foi tudo muito real para mim. Pude sentir tudo ao meu redor, como se lá eu estivesse de verdade. Isso sem contar com as cenas horrorosas de alguns momentos – Se são lembranças, como pude estar tão sensível ao ambiente? – Perguntei muito curiosa.
— Quando você sonha, você também não sente? Todas as nossas sensações são interpretadas e decodificadas no cérebro – Ele falou como se fosse óbvio. Mas, aquilo era diferente.
— Sim, mas... Ah, sei lá – Passei a mão nos meus cabelos e me joguei no sofá, tentando organizar os pensamentos. Aquelas cenas não paravam de vir à tona. Me torturando e me fazendo pensar em como aquilo tudo poderia ter sido muito diferente. Mas, não existe nada que se possa fazer para voltar no tempo ou mudar o passado.
E ver o Klaus humano era impagável. Como ele era um outro ser. Alguém idolatrável, diga-se de passagem. Se eu tivesse nascido naquela época, especificamente naquela aldeia, e conhecido ele, teria me apaixonado por ele num piscar de olhos, eu sabia disso. Ele era gentil, mas tinha uma pinta de aventureiro. Esse tipinho agrada qualquer uma, especialmente uma como eu que gosta de Bad Boys. Elijah permanecia calado e me observando intensamente. Mas, que mania chata essa dele.
— Tenho algumas dúvidas – Falei, ora para quebrar o silêncio constrangedor, ora porque eu realmente estava curiosa sobre o assunto.
— Diga – Ele simplesmente falou.
— Até onde eu sei, Klaus passou séculos com seu lado lobisomem adormecido, certo?
— Sim. Quando viramos vampiros e matamos pela primeira vez, Klaus ativou seu gene de lobisomem. Ele se transformou. Foi logo antes daquela última lembrança. Assim, como você deve conhecer essa parte da história, Mikael descobriu a traição da mãe. Então, a obrigou a criar um feitiço para adormecê-lo, a fim de esconder a origem de Niklaus e não cair em desgraça pública. Só recentemente em Mystic Falls que ele conseguiu, através de Katerina e da Pedra da Lua, reativar a maldição. Mas, ele foi esperto o bastante de acrescentar um feitiço para que a escuridão do lobisomem não pudesse mais dominá-lo. Então, ele se transforma só se quiser.
— Entendi – Permaneci em silêncio tentando lembrar de tudo e organizar as ideias. Então, pensei no que me atormentou um pouco numa lembrança — Você aceitou a proposta de Rebekah sobre fugir da Vila?
— Sim, me atrevi a tanto. Planejamos nossa fuga para quando Niklaus acordasse. Tínhamos muita fé que nosso irmão iria viver. Rebekah, para ser mais específico e verdadeiro, estava mais esperançosa que eu – Ele falou olhando para algum ponto qualquer acima da minha cabeça.
— Então, quando se recuperou, vocês fugiram?
Ele me olhou nos olhos e sorriu tristemente antes da sentença – Não.
Me consternei. Claro que já deveria imaginar a resposta, mas me permiti um fio de esperança.
— Algumas horas depois, como bem se pode deduzir, nosso pai descobriu Niklaus na casa da tia e velou seu leito. Não por tristeza, mas para garantir que tudo saísse de acordo com seu plano, como depois viemos a descobrir. Nesse meio tempo Esther trabalhava nesse plano, no feitiço da imortalidade, induzida por Mikael. Logo que meu irmão acordou e estava melhor de saúde, nosso pai nos propôs uma oferta de paz. Rebekah não acreditou nem por um segundo. E devo admitir que eu também não. Mas, estávamos esperando a regeneração total de Niklaus para irmos embora. Certa noite, quando pai se ausentou por suas tarefas, Rebekah contou a Niklaus nossa intenção e ele aprovou e aceitou de muito bom grado, com certeza. Niklaus não via a hora de ir embora com seus irmãos queridos. Kol tinha aceitado vir conosco e só falaríamos com Finn às vésperas da nossa partida, para não corrermos o risco de sermos entregues e impedidos pelo pai. Ainda tínhamos esperanças de Finn vir conosco, mas também não podíamos nos arriscar tanto.
Elijah me olhava triste e um tanto agoniado pelos tempos que já se foram. Continuei calada à espera de mais informação.
— Bom, não tivemos nem a chance de tentarmos ir embora. Quando Niklaus estava forte novamente e se levantou da cama, Mikael, teatralmente, promoveu um jantar com uma caça especial, dizendo ser em prol da paz e da prosperidade em nossa casa. "Sem mais mortes, só muita felicidade e vida longa", ele disse, lembro de cada uma de suas palavras. Claro que só depois fui perceber o real significado delas.
— Foi, então, que ele ofereceu a vocês o vinho misturado com o sangue de Tatia e matou vocês com punhal enterrado em seus corações – Finalizei a história. Ele acenou em conformação.
— O que você e Klaus fizeram quando descobriram sobre Tatia? – Isso era muito curioso.
— Bem, descobrimos isso séculos depois. O impacto foi forte, é claro. Afinal de contas, ela era uma inocente que foi pega no fogo cruzado. Mas não durou muito nosso sofrimento por ela. Tínhamos muitos problemas para lidarmos para ficarmos de luto por alguém de um passado muito distante.
— Mas, Klaus sentiu muito forte quando ela escolheu você. O que significa que para ele não deve ter sido tão simples quanto deve ter parecido a você – Falei com uma certa inquietação.
— Sei que não. Quando soubemos, Niklaus já estava no seu... período de trevas, vamos dizer assim. Ele jamais me deixaria saber de seus reais sentimentos. E, certamente, ele lutou contra sofrer por algo puro como o amor. Mas, sei que ele sofreu – Abaixei a cabeça. Era estranho ouvir isso e me incomodava. O que era ridículo. Sentir ciúme de alguém morto há um milênio, de sentimentos de um Klaus completamente diferente desse. Elijah percebeu e tratou de retificar.
— Mas, foram séculos depois. Honestamente, Niklaus já havia perdido muitos de seus traços de humanidade para se importar. Me atrevo a dizer que ele sofreu mais pela lembrança de sua vida humana do que por serem reais sentimentos. Niklaus não estava mais na fase de se ligar em sentimentos triviais, porém essenciais, como o amor romântico.
Por hora eu aceitaria tal colocação, pois havia outras coisas chacoalhando em minha mente.
— E como foi você descobrir que ela te escolheu? Ela te procurou?
— Foi agridoce. Adorei saber que meu afeto era correspondido. Senti muitas esperanças de uma vida melhor. Mas, ela me escolher significava algo ruim para alguém que eu amava. E, sim, ela me procurou. Com as mesmas fantasias de Niklaus. Queria ir embora do povoado. Claro que eu não aceitei. Tínhamos problemas demais. Meu irmão estava desaparecido. Eu não sabia se ele estava bem ou não. Se voltaria a vê-lo ou não. Meu pai infernizava meus outros irmãos e seu humor estava mais negro do que nunca, devido à situação da mãe, que ainda estava se recuperando criticamente. Como eu poderia abandonar minha família nessa situação?
— Klaus fez isso – Respondi em crítica.
— Penso até hoje que ele foi induzido pelas emoções. O medo de Mikael sempre foi a bússola para Niklaus. Ele sabia que pagaria mais caro que nunca pelo o que houve com a mãe. Acho que foi um instinto de sobrevivência. Mikael teria matado ele na surra se ficasse. E talvez ele, imaturamente, não aguentou o que ocorreu com a mãe e quis fugir. Eu também adoraria ter fugido, mas tinha minhas responsabilidades. Além disso, pense no traidor que eu pareceria ao meu irmão caso fugisse com a mulher por quem ele também nutria afeto.
— Então, você escolheu ele e sua família no lugar de Tatia – Concluí com admiração.
— Eu quis escolher Tatia e fugir também, mas meu dever falou mais alto. No mínimo adiei tudo até a poeira abaixar. Não descartei completamente a ideia de casar com ela, mas aquele seria o pior momento para eu firmar algum compromisso. Não sei o que aconteceria. Talvez ela não tivesse sido assassinada por Mikael se eu tivesse ido embora com ela. E talvez, por isso e por outras coisas, Klaus jamais tivesse retornado para nossa família novamente. E nada do restante ocorreria. E não estaríamos aqui tendo essa conversa. Não sei. Mas, não me arrependo. Teria feito o mesmo se estivesse de volta àquele impasse.
— E você fez, mas em outra época – Levantei as sobrancelhas em indicativo.
— Como assim? – Elijah ficou confuso.
— Katherine — Respondi simplesmente.
— Sim. Katerina – Ele sorriu sem humor – Escolhi Niklaus no lugar de Katerina, é verdade – Ele falava mais para si.
— Mas, você realmente amou Katherine? – Perguntei incrédula. Amar aquela vadia traidora somente alguém como Elijah poderia fazê-lo.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Sim. Mas, eu não poderia abandonar meu irmão. Ele iria usá-la no ritual de sacrifício para ativar seu lado lobisomem e eu jamais permitiria que ele fizesse isso com uma humana inocente, mas não seria capaz de traí-lo por inteiro, fugindo com ela, tal como ela me propôs – Fiz careta com a palavra "inocente". Ele percebeu e sorriu — Katerina, assim como Niklaus, não eram nem de longe o que são hoje. Eu a ajudei a fugir de Niklaus e ela queria que eu fosse junto. Confesso que fiquei tentado, mas não o bastante para a execução. Passei minha vida toda ao lado dos meus irmãos mais próximos, sobretudo ao lado de Niklaus. Ir embora com ela e deixa-lo estava fora de cogitação. Era muito estranha a ideia de viver longe dos meus irmãos, dar-lhes às costas em busca exclusivamente da minha felicidade. Não era justo. Mas, sabe, quanto mais crueldade Niklaus demonstrava, mas eu sentia vontade de larga-lo e ir para longe, ir atrás das coisas que eu quero sem medo. Eu quase fiz isso, uma vez ou outra, verdade seja dita.
Elijah não parecia muito confortável em tratar desse assunto, então, resolvi desviar dele.
— Então, Klaus voltou para casa logo em seguida, logo que Tatia disse que era você?
— Não. Demorou um tempo. Algumas semanas. Ele viveu na floresta, sobrevivendo de caça e água de rios. Viveu como um nômade das planícies. Com certeza foi sacrificante, ficou doente, quase morreu de intoxicação. Foi salvo pelas artimanhas de Ayana, após Esther e Rebekah implorarem por ajuda.
— Ah, mas ele poderia ter voltado para casa e evitado isso – Falei em desaprovação.
— Certamente, mas os homens têm seu orgulho. E ele jurou não precisar mais do pai e de seu sustento. E ainda com a agravante de agressões físicas. Imagine, então, que ele não voltaria implorando de volta a Mikael o seu lugar na casa e na nossa família. E você sabe, Niklaus sempre se sentiu um intruso, mesmo antes de saber que não era filho de Mikael. Mas, não houve um dia sequer em que Rebekah, Kol e eu não buscássemos saber algo sobre ele ou, até mesmo, encontra-lo. Mas, a essa altura, pensávamos que ele já estava longe. Rebekah o odiou no início por ter partido, não queria nem tocar no assunto, mas depois o perdoou e me confessou sentir muita falta do irmão e que deveríamos trazê-lo de volta. Esther, por sua vez, ao acordar, não entendeu o por quê da partida do filho e nos fez procurar por ele todos os dias, mesmo a contragosto de Mikael. Esther não descansou e não ficou em paz até Niklaus estar de volta à família. Do seu jeito peculiar, nossa mãe nos amava. E Mikael a amava e fazia tudo por ela, do jeito nada convencional dele, mesmo que isso implicasse suportar a presença de Niklaus. Claro que isso não significava deixar meu irmão em paz. Mesmo assim, Esther obrigou Mikael a aceitar Niklaus de volta e a não tocar no assunto quando ele retornasse. Quando descobrimos o seu paradeiro, nossa mãe e meus irmão fomos trazê-lo para casa. Esther levou semanas para convencê-lo, obviamente. Só após muita conversa e promessas que ele ficou novamente um mínimo interessado em ficar perto do nosso vilarejo. Ele retornou, mas não foi morar conosco diretamente. Ficou na casa de Ayanna. Com um certo tempo, ele foi se re-acostumando a vagar pela nossa casa até que o convencemos a ficar. Mas, a partir daí, a Cólera de Mikael contra Niklaus só piorou. No início ele tentou aturar meu irmão para cumprir as promessas que fez a Esther, mas não aguentou por muito tempo – Elijah finalizou suspirando fundo. E eu ainda o torturaria mais um pouco por causa da minha curiosidade obscura.
— Sei que esse deve ser o assunto mais pesado e delicado de todos, mas... – Hesitei entes de prosseguir.
— Diga, Caroline – O olhei com pesar – Eu aceitei te deixar entrar na minha mente. Pode perguntar o que você desejar.
— É sobre Henrik, o caçula – Engoli em seco – O que houve, exatamente, depois d ...
— Bom, para ser sincero, nunca mais falamos nisso em voz alta, sobretudo perto de Niklaus. Até hoje não tocamos mais no assunto – Elijah me interrompeu bruscamente — Não foi culpa dele, mas era um tema proibido entre nós. Até mesmo para evitar a dor, pois foi tenebroso para nós aquele dia. Foi se tornando hábito e Henrik foi retirado definitivamente de nosso vocabulário, mas não dos nossos corações. Mantemos esse assunto fechado a sete chaves na intenção de não permitirmos essas feridas sangrarem de novo. Niklaus não é conhecido pela sua estabilidade emocional, então tentamos manter bem longe dos seus ouvidos os assuntos que o fazem perder as estribeiras. Eu agradeceria se você não falasse sobre isso com ele, a não ser que ele mesmo toque no assunto – E certamente uma declaração dessas encerrava o assunto.
— Sinto muito por tudo isso, Elijah. Por tudo o que aconteceu. Realmente desejo que sua família encontre a paz e a felicidade que tanto buscaram por séculos – Expressei meus sentimentos com sinceridade.
— Não se preocupe. Está tudo no passado. Não gosto de reviver e deixo guardado bem fundo na minha mente.
— Então, desculpe por te fazer trazer à tona – Falei encabulada. Talvez eu tivesse sido inconveniente.
— Foi necessário. Você não sabia muita coisa sobre Niklaus e parte da culpa é dele mesmo, por sua falta de tato. Mas, outra parte era sua, temo dizer, pois me pareceu muito fechada para ouvir meu irmão. Tenho certeza de que muitas das suas concepções abrangeram novas perspectivas. E confesso que estou depositando minha fé nisso – E mais uma vez Elijah fazia isso; me pressionava indiretamente. Eu iria responder acidamente quando meu celular tocou.
No visor aparecia o nome de Matt. Isso me surpreendeu e atendi num instante, com o coração acelerado torcendo para que nada mais de ruim tivesse acontecido.
— Sim? – Falei exasperada.
— Caroline – Ele disse calmo do outro lado da linha e isso me fez soltar o ar que estava preso – Nós voltamos para Mystic Falls. O que é isso que Damon falou sobre Rebekah e Kol estarem com a Elena? – Ele parecia preocupado.
— Eu explico tudo quando chegar aí? Stefan acordou?
— Ainda não. Isso é loucura. Essa cidade está se superando. E onde você está, afinal de contas?
— Explico melhor depois, ok? – Eu disse olhando de esguelha para Elijah. Ele me observava calmamente. Isso me irritava. Tinha que admitir que ainda queria esconder de todos essa minha situação estranha com Klaus e Elijah parecia ler a minha alma. Talvez ele estivesse invadindo a minha mente. Desviei do seu olhar como uma criminosa sendo descoberta e foquei os olhos nas paredes repletas de quadros caríssimos.
— Tah. Sua mãe acabou de entrar – Consegui ouvi-la batendo a porta e caminhando em passos firmes. Sua voz ressoou; "É Caroline, Matt?", ela disse. Não ouvi resposta dele. Deve ter acenado.
— Diga a ela que estarei aí em minutos – Falei apressada.
— Ok, anda logo, antes que sua mãe pire – Ele terminou e eu desliguei. Elijah agora estava de pé com as mãos nos bolsos me fitando como se eu fosse um quadro interessante para análises. Que saco, eu hein. O ignorei por completo e fui para o corredor de saída. Não precisaria explicar porque de estar indo embora. Ele certamente ouviu do outro lado da ligação. Para a minha não alegria ele vinha atrás de mim. Bufei impaciente e falei:
— Por que está me seguindo?
— Não estou te seguindo. Irei checar o estado de Stefan e esperar meu irmão voltar para nos reunimos e dar um fim na bruxa lunática. Sabe, Niklaus gosta bastante desse Salvatore, acho que vai querer notícias quando nos encontrarmos – Respondeu com escárnio no final.
— Você não pode simplesmente esperar pelo seu irmão aqui na sua casa?
— Esperar por ele eu posso aqui na minha casa. Mas, não posso checar Stefan aqui. Nem mesmo por telepatia – Revirei os olhos.
— Você não precisa ser o pai de todos o tempo inteiro, Elijah.
— Sou muito novo para ser o pai. Acho que você quis dizer o irmão mais velho controlador e possessivo — Olhei pra ele girando a cabeça de lado em resposta a sua frase besta e, não me contendo, soltei uma risadinha alegre – Além disso, nós viemos no meu carro. Você pretendia voltar a pé? – Ele falou com bom humor, enquanto atravessávamos a porta principal.
— Eu sou uma vampira – Falei em tom de desafio.
— Uma vampira, não o Flash ou o Superman.
— Você conhece esses? – Perguntei em tom de surpresa.
— É claro que conheço! Tenho mil anos de idade – Ele respondeu com divertimento – O mais correto seria eu perguntar se você conhece.
— Exatamente! Você é velho. Eu sou jovem. Sei tudo sobre o mundo contemporâneo. Você já sabe mais sobre o clássico e a velha guarda – Falei o óbvio.
— Como você é preconceituosa. Agora vai me discriminar? Sou do passado, mas vivo no presente. E ser velho tem suas vantagens também – Ele sorriu divertido. Claro que ser um Original era pra lá de vantajoso. Ele bem sabia disso e usou no seu trocadilho.
Caminhamos até seu carro social, impecavelmente polido e brilhoso. Aquele carro refletia em muito sua personalidade, pensei distraída. Era bem verdade que os objetos são a imagem e semelhança do dono.
Conversávamos amigavelmente enquanto nos direcionávamos à casa dos Salvatore. Queria ver Stefan e me certificar de que estava bem. Esperava que ele não demorasse muito a despertar. Talvez com alguma sorte ele já estivesse acordado quando eu chegasse lá. E pensei em Klaus, se já estava perto. Fiquei tentada e lhe mandar uma mensagem perguntando, mas senti que poderia distraí-lo de alguma forma. Mesmo assim, mexi no meu telefone e notei que ele me deixou uma mensagem de voz. Extremamente tentada em ouvi-la, tive que me conter, pois não queria expor nossa conversa íntima a Elijah. Roendo as unhas e sacudindo as pernas de ansiedade, foi difícil não apertar o play. Quando eu estivesse sozinha, ouvir a voz de Klaus seria a primeira coisa que eu faria.
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Elijah
Algumas horas antes
— Bonnie – Terminei a ligação de Klaus e caminhei até ela um pouco descontrolado — Preciso que você dê um jeito de achar Qetsiyah. Agora — Todos pararam suas conversas paralelas e focaram seus ouvidos em mim. Meu desespero deveria estar muito estampado na minha cara, pois todos estavam com sombras escuras em suas feições. Originais desesperados significava que uma desgraça muito grande estava em curso. Caroline saiu do lado de Stefan e veio até mim. Ela tocou em meu braço e questionou:
— O que está acontecendo, Elijah? Ela pegou Elena? – Me olhava assustada, adivinhando metade da verdade. Respirei fundo tentando buscar um pouco de controle, a fim de passar confiança e não desespero. Niklaus confiou em mim que a protegesse e a deixasse fora do caminho da bruxa. Eu não pude olhar em seus olhos enquanto ela me encarava, pois eu não tinha a mínima ideia de como vencer a bruxa e cumprir a minha promessa. Se eu deixasse o feitiço se consumar, talvez Niklaus jamais me perdoasse. Eu não podia perder essa garota que levou séculos para aparecer em nossa vida e realizar o que eu tanto esperava para a vida do meu irmão. Eu não podia deixar Niklaus perdê-la e me concentraria nessa única e exclusiva tarefa. Meu irmão não era muito bom em perdas, especialmente quando ele abria o coração genuinamente. Ele entrava numa onda de ódio e frieza maior ainda e eu temia o que a perda desse fio de esperança pudesse engatilhar não sua cabeça não muito estável. Sem mais delongas, fui direto ao ponto, sabendo o choque que minhas palavras trariam. Mas, isso não era o mais importante agora – Qetsiyah atacou meus irmãos em nossa casa de campo e, sim, levou Elena – O horror foi descomunal e unânime – E também neutralizou Niklaus, pegando Katerina. Ela vai levantar o véu e fechar a passagem. Já deve estar fazendo isso enquanto estamos aqui parados. Precisamos agir agora – Falei ríspido e em poucas palavras. O ponto agora era achar a bruxa. Me voltei para Bonnie, que olhava para os outros em busca de repostas, as quais eu ansiava desesperadamente que ela as tivesse – Você sabe como achá-la, Bennet?
— Eu não posso mais usar magia. Os espíritos me bloquearam e levaram meus poderes – Ela sacudia a cabeça enquanto lágrimas escorriam por suas bochechas. Seus olhos esbugalhados me provavam o terror que ela sentia por estar tão impotente justo agora.
— Mas, você tinha aquela pedra enfeitiçada com o sangue dela, não tinha? – Damon se aproximou, colocando as duas mãos sobre seus ombros, a olhando profundamente. Ela confirmou.
— Isso basta. Traga para Esther essa pedra – Falei sem paciência. Ela já deveria estar no caminho para trazer essa maldita pedra. E eu não sabia onde estava minha mãe.
— Não vai servir. Todo o sangue e toda magia foram canalizados no feitiço quando eu baixei o véu. A pedra está morta – Ela falou com a expressão dura, tentando ser forte.
— Nós não temos tempo para opções. Talvez funcione. Traga logo essa maldita pedra – Falei com a voz mais alta que o normal. Essa bruxinha me deu raiva. Era melhor testar a sorte, não ficar fazendo suposições com base em nada.
— Nós vamos buscar essa coisa com você – a vampira loira e desconhecida falou se dirigindo à Bonnie, me olhando de esguelha. Talvez ela me achasse um bruto. Não dei muita importância e tratei de localizar minha querida mãe. Liguei e, para meu alívio, ela atendeu rápido.
— Diga, meu filho. Do que eu preciso te salvar agora? – Ela falou ironicamente.
— Preciso, mais uma vez, da sua ajuda – Falei a contragosto.
— Isso tem se tornado frequente, não acha? – Fechei os olhos controlando meu temperamento.
— Esther, não me provoque – Falei entredentes — Está na hora de provar que realmente está do nosso lado — Ela suspirou e disse:
— Do que você precisa, Elijah?
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Partimos em direção à clareira onde Esther identificou como o lugar mais provável de encontrarmos Qetsiyah. A pedra realmente não estava mais magicamente ativa, mas continha resquícios da sua feiticeira original, o que nos permitiu um radar mágico no qual Esther conseguiu identificar suas vibrações. Enquanto eu não pudesse dar um fim merecido nessa pilantra, pelo menos que me fosse útil.
Sendo guiados pela minha mãe, Caroline, Stefan, Damon, a vampira desconhecida e eu ficamos alguns minutos rodeando a floresta em busca de algum sinal estranho ou mágico. Esther seguia seus instintos de bruxa e a energia canalizada dos feitiços de Qetsiyah. Dizia que estávamos próximos de encontrar o lugar certo. Ficamos automaticamente na defensiva, com nossos sentidos apurados e alertas a qualquer movimento. Então, bem ao longe, identifiquei uma claridade que parecia ser de fogo. Nos entreolhamos concordando mentalmente que aquele deveria ser o local certo. Nos aproximamos silenciosamente até a clareira e nos deparamos com uma cena bizarra.
Katerina, Elena e uma terceira Doppelganger, que eu nunca havia visto, estavam flutuando em volta de uma pequena fonte de pedra e o líquido no seu interior era de um branco perolado. Ele girava num ritmo lento e constante como se tivesse vida própria. Minha mente trabalhava a mil buscando tudo o que vi na minha longa existência e não entendi o significado daquilo. De repente, enxerguei o que parecia ser Silas, pois era a cara de Stefan, caído no chão e desacordado. E lá estava ela. Qetsiyah se encontrava ajoelhada ao chão, com as mãos voltadas na direção das Cópias e estas pareciam estar num sono profundo, flutuando calmamente a alguns centímetros do chão, com suas cabeças jogadas por sobre os ombros. Ela estava completando o feitiço e aquilo me desesperou. Todos nós corremos na direção dela e iríamos atacar com força para desarmá-la. Eu corri na minha velocidade vampírica e senti os outros logo atrás de mim. Meus olhos focaram apenas na bruxa e em como eu arrancaria a cabeça dela. Me alegrei de antecipação com essa ideia. Sem ao menos saber de onde veio, bati com toda força numa barreira invisível e fui lançado para trás. Senti meus ossos quebrarem pela batida bruta e a minha queda no chão foi estrondosa, abrindo um buraco no solo em toda a extensão por onde meu corpo se arrastava com velocidade. Me levantei atordoado olhando em volta, enquanto meus ferimentos se curavam rapidamente. Todos também se erguiam do chão sem muita coordenação, se encarando estupefatos e incrédulos. Por mais essa não esperávamos. Qetsiyah havia bloqueado o seu espaço para que não o penetrássemos e interviéssemos no seu feitiço. Eu não via solução, eu não via como quebraríamos aquela mágica e chegaríamos até ela. Não podia ser o fim. Devia haver mais alguma coisa que pudéssemos fazer. Olhei desesperado para Esther, que estava um pouco afastada, e ela entendeu o recado. Ela foi a única a não correr contra a bruxa. A sua presença ali era para nos dar suporte com a seus poderes. Prontamente ela foi até à barreira e começou a proferir palavras desconexas enquanto os outros se colocavam em posição de ataque, para estarmos prontos assim que a barreira caísse. Onde estava Niklaus? Ele era mais essencial agora do que nunca. O problema era que ainda que ele chegasse a tempo em Mystic Falls, não saberia onde estávamos. Eu não podia parar agora, no meio dessa batalha, para tentar falar com meu irmão. Era tarde demais para ele, de qualquer jeito. Cabia a nós acabar com a bruxa. Esther continuava sua tarefa sem nenhum sucesso e de repente Qetsiyah se levantou e caminhou até as Doppelgangers. Sacou uma faca do interior de seu vestido medieval e um frasquinho pequeno com um líquido vermelho translúcido. Identifiquei imediatamente do que se tratava. Como ela havia conseguido se estava tão bem guardado por mim e por Niklaus? Era a Cura. Essa era a hora. Ela forçaria Silas a tomá-la, ele voltaria a ser bruxo e, então, ela o mataria. Sua fase final seria fechar a passagem e a vingança estaria completa. Agi por instinto e comecei a bater na barreira, numa tentativa estúpida e vã através da força bruta a derrubar aquela barreira mágica e invisível. Os outros chegaram mais perto e alguns começaram a me imitar, enquanto Damon e Stefan gritavam para Elena acordar, sem surtir efeito algum. Esther pronunciava cada vez mais rápido o seu feitiço, mas de nada adiantava. Enquanto a floresta se agitava ao nosso redor, com as árvores balançando e o vento rugindo, a barreira permanecia intacta. A sensação era horrível, de impotência, eu assistia a tudo de camarote e nada podia fazer. Me sentia um lixo e a pessoa mais fraca naquele momento. Qetsiyah se aproximou de Silas e o fez acordar. Ele a encarou assustado e atordoado. Tentou fugir, mas também foi impedido pela barreira. Quando nos viu, correu até nós e começou a pedir que o tirássemos dali enquanto socava o ar, a cúpula invisível. Eu gritei que estávamos tentando. Mas, se Esther não quebrasse o feitiço naquele instante, Qetsiayh completaria a sua missão tão esperada por mais de dois mil anos. Ela andou até ele e o jogou no chão com seus poderes mágicos, o imobilizando. Só o que ele conseguia fazer era gritar e xingá-la de todas as formas que ele encontrava, sua única serventia. Com a expressão de alguém que estava profundamente ferido e com lágrimas nos olhos, ela o silenciou com outro feitiço e forçou a Cura para dentro de sua boca.
— Eu amei você. Meu amor foi puro e inocente. E só o que você fez foi me trair, me apunhalar pelas costas. Cada ação tem suas consequências, mesmo que demore para chegar – Ela falava com a voz embargada pelo choro, contida em emoções – Eu sofri com isso por mais de dois milênios. Agora chegou a sua hora de sofrer também. E dessa vez será por toda a eternidade, meu amor – Ela falava isso enquanto ele se engasgava com o líquido da Cura e perdia a consciência. Seu choro diminuiu um pouco e ela me encarou, me olhando nos olhos. Minhas mãos estavam possessivamente encostadas na barreira, esperando o milagre de que ela caísse. Então, a bruxa levantou a cabeça e se dirigiu a mim:
— Não há nada que você e seu grupo posso fazer, Elijah Mikaelson. Ela não é mais poderosa que eu. Estou apenas cumprindo o meu destino. Meu desejo não é e nunca foi machucar ninguém. Não tenho nada contra aos integrantes dessa cidade – Eu a olhei com horror. Ela era completamente desorientada e lunática. Ela alisava os cabelos de Silas enquanto, lentamente, ele voltava – Esse é o nosso destino, meu amor. Ficaremos juntos por toda a eternidade – E sem esperar por mais, cravou o punhal no coração de Silas enquanto ele arregalava os olhos e expelia sangue pela boca. Ele se contorceu por mais alguns segundos até perder de vez a sua vida. Automaticamente o seu novo eu em vida fantasma apareceu ao lado do corpo inanimado. Demorou alguns poucos instantes até ele perceber o que havia acontecido e atacou Qetsiyah, lutando com ela. E essa foi a única esperança que eu tive, que foi destruída no momento que ela o derrubou e o fez ficar desacordado novamente. Ela andou até as Cópias e começou a verbalizar um feitiço. Levantou o punhal e cortou a garganta das três Doppelgangers enquanto seus sangues jorravam na fonte e transformavam o líquido perolado num vermelho púrpura metalizado. Ouvi o berro de indignação de Stefan e Damon, enquanto os dois socavam a parede invisível. Caroline ficou estática, de olhos arregalados. Ela sabia o que viria. Eu fechei os olhos e abaixei a cabeça. Era agora. A bruxa iria fechar a passagem. E tudo piorou quando Esther parou de tentar e falou:
— Não consigo, Elijah. Não estou chegando nem perto – Ela pronunciou fraca, verdadeiramente desolada. Todos estávamos, afinal. Damon começou a gritar com ela, mandando que ela voltasse com a sua tarefa. Stefan ainda tentava, inutilmente, neutralizar a barreira com a força física. E eu apenas me concentrei na minha verdadeira obrigação. Andei rápido até aquela Caroline imobilizada pelo pânico e coloquei minhas mãos envolta de seu rosto. Notei que ela chorava e soluçava. Isso me quebrou por dentro. Ver esse anjo sofrer era terrível. Segurei as lágrimas que queimaram meus olhos e fui o mais forte que eu poderia ser naquele momento. Tudo o que eu mais queria era ver a minha família feliz e eu estava ali zelando por uma peça importante na felicidade dela.
— Confie em Niklaus, está bem? – Falei tentando controlar a tristeza na minha voz. A decepção pelo meu fracasso. Ela soluçava muito, mas acenou mesmo assim em concordância – Acredite em mim quando eu digo que ele fará de tudo para trazer você de volta – Encostei a minha testa na dela com muito carinho fraternal – Ele ama você de uma forma que eu nunca presenciei. Você vai entender quando chegar a hora – Fechei os olhos – Me desculpe, Caroline. Me desculpe por não conseguir. Eu realmente sinto muito – a abracei com força, como se com isso ela não pudesse ser tirada dos meus braços. Esperando que talvez o universo sentisse piedade de nós e permitisse que meu abraço fosse uma barreira impenetrável. Então, num piscar de olhos ela desapareceu dos meus braços e só o que eu envolvia era o vento.
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