— Jackson, eu não vou dirigir até o outro lado da cidade pra pegar o seu Porsche! — Stiles protestou enquanto seguia para o estacionamento do hospital.

— Você já vai ter que dirigir até o outro lado pra buscar o Scott! — Jackson devolveu, seguindo-o. — E rodar Beacon Hills nessa lata-velha vai ajudar a gente a achar a Lydia como?

— Ei! — Stiles gritou. — Essa lata-velha te salvou de morrer na mão dos caçadores, lembra? Quando você tava doidinho pra ser mordido!

Jackson apenas revirou os olhos e entrou no jipe. Os dois haviam esperado o xerife sair para que pudessem procurar por Lydia. Stiles avisou Allison enquanto Jackson tirava a bata do hospital e colocava novamente as roupas do baile. Derek não havia dado as caras ainda, então Scott era a melhor opção, considerando que Jackson não estava sentindo nenhum sentido se aguçar.

— Depois da ponte, eu te deixo na rua da escola e vou buscar o Scott. — Stiles deu a partida no jipe.

...

— Stiles! — Jackson gritou, mas ele já havia arrancado com o carro.

Devia ter suspeitado quando Stiles disse “rua da escola”. Fora deixado à quatro quarteirões de distância do Colégio Beacon Hills.

Se isso for vingança por eu ter largado o Scott antes, eu vou relevar. Desta vez.

Jackson começou a correr em direção ao colégio, chegando no estacionamento esbaforido, alguns minutos depois. Apesar da noite fria, estava morrendo de sede. E pra piorar, a mordida de Peter voltou a doer na metade da corrida, como se os analgésicos já tivessem perdido o efeito.

Entrou no carro e deu a partida, avisando Stiles por mensagem que iria buscar a Allison antes de sair do estacionamento. Mas assim que virou a esquina, viu o Camaro preto de Derek bloqueando a passagem, com o dono encostado nele. Pelo olhar, ele já esperava que Jackson fosse aparecer.

— O que você está fazendo parado aqui? — saiu do carro, irritado. — A menos que correr pelado seja parte do processo, tem um membro da alcateia em perigo!

— Eu sei. — Derek manteve seu tom estoico. — Mas nem a Lydia nem você viraram lobisomens.

— É, o Scott me contou num... Sonho? — Jackson se deu conta do quão bizarra havia sido a experiência no meio da frase. — Lobisomens se comunicam por sonhos? Como isso aconteceu se eu não virei lobisomem?

Derek franziu a testa, visivelmente confuso.

— Não, lobisomens não fazem isso. Como você sabe que era realmente o Scott e não só parte do seu sonho?

— Ele me contou sobre a morte da Kate e do Peter e sobre você virando o alfa. Mas não dá pra falar disso agora! Precisamos encontrar Lydia!

— Você é quem a conhece melhor. Tem algum palpite?

— Se enganou aí. Quem conhece melhor a Lydia é o Stiles. — riu um pouco da própria afirmação. — Infelizmente eu estava muito obcecado comigo mesmo pra prestar atenção nela. Fora que eu duvido que ela esteja agindo conscientemente. Lydia nunca andaria nua por aí.

— Tudo bem. — Derek suspirou, frustrado. — Vou procura-la pela floresta. Tem alguma coisa dela no seu carro? Preciso de algo com o cheiro dela pra me ajudar a encontra-la.

— Ela deve ter deixado alguma coisa no meu porta-luvas. — virou-se em direção ao Porsche, sentindo a boca seca.

Notou uma garrafa d’água pela metade assim que abriu a porta do veículo. Bebeu tão rápido que mal sentiu o líquido na boca. Abriu o porta-luvas, tirando toda a sorte de coisas de dentro — recibos de fast food, óculos de sol, esmalte e maquiagem que Lydia passava enquanto esperava no carro — até achar um lenço coral que imediatamente o lembrou do último verão. Lydia usava o tempo inteiro para proteger o cabelo do vento.

— Isso aqui serve? — perguntou, colocando a mão que segurava o lenço pra fora do carro.

— Vai ter que servir. — Derek se aproximou, pegou o tecido e cheirou. — Ela foi pra a praia com esse lenço?

— A gente passou perto da praia no último verão. Por quê?

— Maresia.

— Acho que esse cheiro tá vindo de mim. — notando o olhar confuso de Derek, Jackson achou melhor explicar. — No sonho, antes de encontrar com Scott, eu estava nadando na piscina da escola e fui parar no mar. E eu sei que era só um sonho, mas tinham essas sereias que...

— Sereias? — Derek o interrompeu, olhando Jackson como se ele tivesse ganhado um terceiro olho.

— Eu sei que parece estranho, mas me escuta: quando eu encontrei o Scott no meu sonho, ele me falou que eu tava com cheiro de maresia. A mordida pode não ter me transformado em lobisomem, mas... E se ela tiver me dado alguma habilidade sobrenatural?

— Eu nunca ouvi falar disso. — Derek enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta. — A mordida mata ou transforma, sem meio termo. Mas... Eu já ouvi falar de outras criaturas além de lobisomens. Talvez a mordida não tenha pegado porque você já tem sangue sobrenatural nas veias.

Foi a vez de Jackson franzir as sobrancelhas em confusão. A ideia de que seus finados pais biológicos fossem sobrenaturais nunca passou pela sua cabeça. Não que ele tenha tido muito tempo pra pensar nisso — havia descoberto lobisomens há menos de uma semana —, mas ainda sim, foi pego de surpresa pela possibilidade. Pena que eu não possa perguntar pra eles. Não fazia ideia de qual criatura ele poderia ser. Nenhuma lenda que conhecia falava sobre monstros que controlavam sonhos.

— Quais criaturas além dos lobisomens são reais?

— Difícil dizer. Já encontrei uma dupla de lobisomens que afirmou ter sido atacada por uma harpia, mas eles nunca mostraram prova alguma. Peter me disse uma vez que os Walcott são wendigos, mas na época eu já estava tendo dificuldades de acreditar no que ele falava. Minha irmã Laura me falou sobre um menino fae que ela conheceu no colegial, mas...

— Ok, entendi. — Jackson ergueu as mãos em gesto de pare. — Vamos... Só procurar a Lydia então. Meu carro ou o seu?

...

— Eu continuo pensando naquele sonho com as sereias. Parecia real demais. Talvez a Lydia seja uma sereia? E eu tenha uma conexão com ela e com Scott por causa do Peter?

— Isso... Na verdade pode fazer sentido. Ele foi o alfa de vocês, afinal. Mesmo que você e Lydia não tenham se transformado, podem ter adquirido o elo que as alcateias têm entre si.

Os dois estavam no carro do mais velho, floresta adentro. Derek havia cheirado o lenço inúmeras vezes, tentando achar algum resquício do cheiro de Lydia no tecido ou na floresta. Jackson estava no carona, sentindo a garganta seca novamente, mais do que antes.

— Então... — engoliu em seco. — Se eu me concentrar, acha que eu consigo usar esse elo pra acha-la?

— Talvez. Não custa tentar, tendo em vista que esse lenço não tá me ajudando muito.

Jackson fechou os olhos e tentou imaginar apenas Lydia. Seu rosto, seu cabelo, seu cheiro, o formato do seu corpo, sua postura enquanto andava e como ela estaria andando agora pela floresta. Não encorajava tanto a sua imaginação — principalmente desde que descobrira sobre lobisomens — para não se dar outro ataque de pânico, mas teve a impressão de estar no caminho certo ao sentir um repuxo estranho no abdômen. Abriu os olhos, sentindo uma estranha ardência no processo, e viu... Absolutamente nada extraordinário.

— Jackson? — ouviu Derek perguntar, mas ignorou, bufando de raiva.

— Argh! — quase socou o porta-luvas, mas lembrou-se que não estava no seu carro. — Eu podia jurar que alguma coisa estava acontecendo!

— Jackson...

— Era como se uma corda estivesse conectando a Lydia até mim, mas cortaram antes que eu pudesse ver! — continuou, sentindo certa dificuldade para falar e respirar.

— Jackson!

— O quê?!

Na mesma hora, um trovão rugiu. Mas Jackson não viu um relâmpago em momento algum. E mais cedo, podia jurar que não havia nuvem alguma no céu.

— Seus olhos estão brilhando!

Jackson demorou um instante pra processar a informação e se olhar no espelho retrovisor. Quase se assustou quando viu o brilho verde-mar preenchendo até a esclera, além da pupila vertical. Queria procurar por alguma outra mudança física, mas sentiu uma dor de cabeça tão violenta que precisou fechar os olhos na mesma hora. Sua respiração estava ainda mais apertada, como se o oxigênio dentro do carro estivesse acabando.

— Para o carro! — abriu a porta antes mesmo do lobisomem obedecer, pulando pra fora e rolando no asfalto.

— Jackson! — Derek saiu logo em seguida, se ajoelhando perto dele. — O que é que tá acontecendo?

Mas Jackson não conseguia responder, sentindo a garganta fechar. Seus olhos ardiam com o triplo da intensidade de antes e seu estômago estava se revirando. Meu corpo tá rejeitando a mordida? Cogitou. Arriscou um olhar para Derek, mas ele parecia tão perdido quanto — talvez até mais, pela tristeza no seu rosto. Sua visão começou a ficar embaçada e ele só conseguiu pensar em como esse seria um fim irônico: morrer depois de um ato altruísta.

Estava semiconsciente quando a chuva começou a cair, molhando os dois em pouco tempo. Jackson finalmente sentiu que podia respirar e puxou o ar como um maratonista. Sentou-se e olhou o seu reflexo distorcido no metal do Camaro, vendo seus olhos brilhando novamente. Olhou as suas mãos e viu, além de garras e escamas, uma membrana ligando seus dedos, como uma barbatana. Passou a língua pelos dentes e notou como estavam pontiagudos. Riu seco, olhando para Derek. O lobisomem não riu, mas desfez a expressão preocupada do rosto.

— Era tão óbvio e a gente não percebeu.

Jackson levantou-se, ergueu a cabeça e fez as mãos em concha, na altura dos lábios. Focou-se na chuva que, se as lendas estiverem corretas, ele mesmo conjurou. Eu preciso beber água, concentrou-se, deixando a boca aberta. O fluxo da água foi se intensificando ao seu redor, até que pudesse encher as mãos de água. Bebeu pelo que poderiam ter sido horas ou segundos, numa quantidade que talvez estivesse acima da recomendação médica. Aos poucos, suas garras, presas e escamas foram desaparecendo. Quando finalmente terminou, ouviu Derek perguntar:

— Acha que consegue rastrear a Lydia agora?

— Não custa tentar. — sorriu da mesma forma arrogante que costumava fazer, indo em direção ao carro.

Entrou no veículo, vendo Derek fazer o mesmo. Respirou fundo e repetiu o método de antes da chuva, capturando com clareza a memória de Lydia. Ao abrir os olhos, o rastro de Lydia se mostrou como uma neblina rasa na mesma cor sobrenatural dos seus olhos, parecendo se intensificar à esquerda de onde eles estavam. Derek não conseguia ver, então Jackson indicou o caminho.

— Parando pra pensar, faz sentido que natação sempre tenha sido a minha preferência na escola. — comentou sorridente, enquanto Derek dirigia, com a chuva estiando. — Só falta saber se aquelas sereias do sonho eram só uma alusão ou se elas exist...

Se interrompeu, captando um cheiro nada agradável perto do rastro de Lydia. Olhou para Derek e percebeu que ele também havia notado, pois estava acelerando o carro além do limite de velocidade na direção. A polícia não estava muito longe e o jipe de Stiles também não, mas sabia que eles ainda não haviam a encontrado. Assim que chegaram no local onde a neblina estava mais forte, um rugido que não veio de Derek quebrou a sua concentração.

— Isso não foi o Scott, foi? — Jackson perguntou enquanto eles saíam do carro.

Derek não teve tempo de responder antes de uma figura alta pular em cima dos dois, derrubando-os no chão. Jackson só conseguiu registrar fedor de bicho morto e olhos dourados antes da criatura sair correndo floresta adentro, onde o cheiro de Lydia estava mais forte. Os dois se levantaram e saíram correndo atrás, desviando de paus e pedras que a criatura estava jogando na direção deles enquanto corria, até que os três se depararam com outro cenário.

Haviam chegado no lago da reserva. Lydia se encontrava à margem do rio, de costas para eles, ainda nua e com o cabelo cheio de folhas. A criatura alta e fedida, agora mais exposta pela luz da lua, se revelou um lobisomem, de cabelos castanhos e roupas cinzentas, desgastadas como a de um morador de rua. A viatura da polícia passou pela estrada mais próxima, mas não notou a cena. Stiles, por outro lado, estava encostando o carro o mais perto possível, enquanto Scott vinha ao encontro deles, já meio transformado.

— Se afasta dela! — ele gritou para o lobisomem desconhecido, disparando na sua direção. Se Lydia estava ouvindo, não estava reagindo.

Scott nem teve chance contra o outro lobisomem, que num chute só o mandou voando para o lago. Derek investiu logo em seguida, conseguindo antecipar a maior parte dos golpes e atingindo-o algumas vezes. Jackson aproveitou para se aproximar da amiga, se colocando no seu campo de visão e segurando a sua mão. Lydia o olhou, mas ainda não parecia cem por cento acordada. Jackson aproveitou que Stiles estava chegando e sinalizou para que ele a tirasse dali o quanto antes, mas Lydia segurou a sua mão com força.

— Alguém vai morrer aqui hoje. — ela disse, olhando-o nos olhos.

Jackson arregalou os olhos e engoliu em seco novamente. Iria perguntar como ela tinha tanta certeza, mas um baque o fez olhar para a luta dos lobisomens novamente. Derek estava no chão e o desconhecido mancava na direção dos dois, presas brilhando com saliva.

— Sai da minha frente, moleque! — berrou, apontando para Jackson. — Eu vi a banshee primeiro!

— Vai ter que passar por cima de mim! — Jackson sentiu suas presas e garras voltando.

— E de mim! — Scott retornou do lago, bufando de raiva.

— De mim também! — Stiles gritou, segurando seu bastão de beisebol. — Pera, “banshee”?

O desconhecido avançou na direção de Jackson, que teve uma ideia na mesma hora. Scott estava quase o alcançando e Derek já estava se levantando, então só precisava ganhar tempo. Copiou o movimento de Scott, um pouco mais pra a direita, perto da água. Como esperava, também foi jogado no lago. Contudo, assim que afundou, Jackson pensou na força da água dos gêiseres e a água o cuspiu de volta na mesma hora, fazendo-o aterrissar com o pé na cara do lobisomem inimigo.

Stiles, que estava atrás dele, assumiu uma expressão de choque.

— Você virou um...? — ele se interrompeu, provavelmente tentando pensar no masculino de sereia.

— Um tritão? Sim. — Jackson completou, sorrindo com dentes pontiagudos.

Assim que voltou seu foco para a luta, foi levado ao chão por uma rasteira do desconhecido e bateu a cabeça, ficando desnorteado por um instante. Já estava para receber outro golpe quando Scott interveio, arranhando as costas do lobisomem inimigo. Não satisfeito, Scott chutou sua cabeça como uma bola de futebol, também derrubando-o no chão. Antes que ele tentasse se levantar, Derek o jogou novamente no chão e, assim como fez com Peter, meteu as garras na sua garganta. Se o desconhecido tinha algo a dizer, as palavras morreram junto com ele.

Jackson não pôde evitar a careta. Sorte a minha não ser lobisomem, pensou. Scott também não parecia contente com a morte súbita e brutal, mas não abriu a boca.

Derek limpou o sangue das garras no lago e os meninos se juntaram a Stiles, que havia coberto Lydia com uma camisa sua e estava guiando-a para o jipe. Porém, antes que entrassem no veículo, a ruiva virou-se na direção do lago, pôs as mãos na cabeça e deu um berro ensurdecedor, claramente sobrenatural. Stiles apenas fez tampar os ouvidos, enquanto os outros sobrenaturais ficaram de joelhos, temporariamente atordoados.

— Banshee. — Stiles repetiu as palavras do lobisomem inimigo, ajudando Scott a se levantar. — É, faz sentido.