Scackson - Lights Up
7 heroes.

As semanas que se seguiram foram estranhamente calmas. Jackson teve exercícios de autocontrole quase todo dia com Derek depois do treino de lacrosse. Testaram sua resistência à desidratação, outros possíveis gatilhos para a transformação e as diferenças do seu desempenho na água e em terra firme. O Dr. Deaton tem feito algumas ligações pra conseguir mais algumas informações sobre banshees e tritões, enquanto Stiles e Lydia ajudaram Jackson a pesquisar mais sobre seus pais biológicos. Até agora, havia descoberto seus nomes (Margaret e Gordon Miller) e que eles também eram afortunados.
Allison e Scott haviam terminado de vez, por iniciativa dela. Os dois claramente ainda estavam a fim um do outro, mas Allison precisava de um tempo para processar tudo o que aconteceu. Sem mencionar que o pai dela estava ciente de que Jackson e Lydia também haviam sido mordidos e, embora ele não soubesse que eles não haviam se tornado lobisomens, o fato deles ainda estarem vivos indicava que algo havia acontecido. Allison ainda mantinha contato com eles, justo para não chamar a atenção, mas agora que Scott e Stiles também faziam parte do grupo, ela preferia não sentar perto deles no intervalo.
— Vocês pretendem contar pros pais de vocês? — Lydia perguntou pros meninos no intervalo. — Sabe, sobre todo o lance do sobrenatural? — ela elaborou quando viu o olhar confuso de Scott.
— Eu não sei. — ele respondeu, desanimado. — Depois do lance com a Allison, eu não sei se falar a verdade vai melhorar ou piorar as coisas em casa. Além do mais, acho que a minha mãe já se preocupa demais comigo.
— Eu te entendo, irmão. — Stiles se debruçou sobre a mesa. — Também não faço ideia. Meu pai já se arrisca demais com as coisas normais, não quero tornar o trabalho dele mais difícil.
Jackson estava mais inclinado a contar pros pais. Tanto pela ajuda que eles poderiam prover em relação aos seus pais biológicos, como também pela promessa que ele fez a si mesmo de parar de deixa-los de lado. Mas preferiu não falar na frente dos amigos. Desviou o olhar da mesa, encontrando os olhos castanhos de Danny lhe encarando da mesa dos populares. Ele estava com uma sobrancelha arqueada, como se perguntasse: O que você e a Lydia estão fazendo com esses dois?
Uma figura familiar passando não muito longe do seu amigo chamou a sua atenção. Um garoto alto, de cabelo loiro cacheado, e que parecia tentar desaparecer no capuz do seu moletom azul. Uma onda de culpa tomou conta de Jackson. Ouviu na sua cabeça os gritos de dor que saíam da casa vizinha com frequência alarmante. Aquele era Isaac Lahey, claramente vítima de abuso do pai e ignorado por todos os ricaços da vizinhança, incluindo os Whittemore.
— E quanto a você, Jackson? — Lydia perguntou, trazendo sua atenção de volta para a mesa.
— Eu... — olhou pra baixo, tentando pensar no que dizer. — Eu também não sei, galera. Eu não quero mais esconder nada deles, mas eu também não posso garantir que eles vão reagir bem.
Os outros assentiram e a mesa ficou quieta por um instante. Jackson se surpreendeu com as próprias palavras. A reação dos seus pais não parecia algo a se preocupar até que ele mesmo falou. Mas antes que começasse a pensar mais sobre isso, a figura de Isaac passou em direção à máquina de refrigerante. Correndo o risco de parecer um stalker, Jackson o olhou sem disfarçar, notando um roxo no seu olho muito mal escondido com maquiagem. O sentimento de culpa voltou com o dobro da força.
— Eu... Tenho que fazer uma coisa. — Jackson se levantou abruptamente, chamando a atenção dos outros.
Sem esperar por uma resposta, se afastou da mesa e andou na direção de Isaac, antes que o perdesse de vista. Ao se aproximar, notou o garoto se encolhendo, como se quisesse ser evitado. Manteve uma distância segura, tentando não assustá-lo e chamou:
— Isaac! — tentando manter a voz suave.
Isaac virou-se lentamente, seus olhos azuis encontrando os de Jackson com confusão e desconfiança.
— O que você quer? — perguntou, com um tom seco, mas Jackson sentiu sua voz tremendo.
Engoliu em seco. Não havia pensado nessa parte. Não havia maneira boa de trazer à tona a situação de Isaac. E também não podia se oferecer para ser o seu guarda-costas. Além de ser uma proposta ridícula por eles não se conhecerem direito, também não era viável e nem uma solução definitiva. Optou por oferecer suporte, torcendo pra não soar falso ou desinteressado, como a maioria das pessoas que faz isso.
— Eu... Só queria saber como você está. — Isaac pareceu tão surpreso que uma pequena parte de Jackson se sentiu ofendida. — Eu... Ouvi algumas coisas acontecendo... Na sua casa.
Isaac se enrijeceu na mesma hora, ficando numa posição defensiva.
— Isso não é da sua conta. — murmurou, desviando o olhar.
Jackson bufou frustrado com a resposta de Isaac. Devia ter imaginado que o garoto não fosse se abrir, ainda mais pela reputação nada amigável que Jackson cultivou nos últimos anos. Bom, pensou, antes raiva do que negação. Mesmo com essa resposta, Isaac ainda não havia dado as costas para ele, então ainda estava disposto a ouvir.
— Eu sei que não é. — falou com a voz ainda mais suave. — Mas... Também não dá pra simplesmente ignorar. Se as coisas chegarem a esse ponto de novo, pode bater na minha porta.
Isaac olhou para Jackson incrédulo, como se ele tivesse ganhado um terceiro olho. Mas antes que pudesse responder, a campainha da escola soou, anunciando o fim do intervalo.
— Eu... Tenho que ir. — Isaac murmurou rapidamente, virando-se e se afastando antes que Jackson pudesse dizer mais alguma coisa.
Jackson assistiu Isaac ir embora com uma faísca de esperança. Encontrou Lydia e os rapazes no corredor e murmurou um mais tarde quando eles perguntaram por que ele saiu tão abruptamente antes. Estava cozinhando um plano na cabeça. Um plano que envolvia as suas novas habilidades de tritão, um timing perfeito e talvez umas dicas de intimidação com Derek.
...
Quando o senhor Lahey ouviu barulhos estranhos no porão e desceu as escadas, ele esperava encontrar guaxinins. Já era uma da manhã e, apesar das ondas recentes de crimes e acidentes na cidade, a vizinhança era conhecida pela segurança contra invasores. Na pior das hipóteses, talvez fosse aquele verme que ele chama de filho mexendo onde não devia para tentar se livrar do seu castigo.
Ele não encontrou guaxinins. Talvez ele tenha encontrado o Paraíso e o Inferno na mesma criatura.
Antes mesmo de chegar no porão, os barulhos estranhos ficaram cada vez mais parecidos com música. Mais especificamente, Like a Prayer, da Madonna, mas era um homem cantando. O primeiro instinto do senhor Lahey foi se irritar. Por que diabos havia um homem cantando Madonna no seu porão? Mas parecia haver algo o bloqueando de realmente manifestar o seu sentimento. Como se ele fosse um balão cheio e alguém estivesse segurando a boca para bloquear a passagem de ar.
A cada passo na direção do som, seus pensamentos ficaram cada vez menos coesos. Quando ele pôs a mão na maçaneta da porta, já nem sabia mais o que o levou até ali. Tudo o que importava era aquela voz aveludada que massageava seus ouvidos a cada sílaba. E para a sua surpresa, o dono da voz já o esperava de braços abertos quando terminou de descer os degraus do porão. Ele lembrava alguém familiar, mas era impossível raciocinar na presença daqueles olhos verde-mar brilhantes.
Mesmo sem seus óculos, ficou deslumbrado pela aparência da figura. Parecia uma estátua da renascença trazida à vida, exceto pelas guelras, garras, dentes pontudos e escamas. Era como a união perfeita entre os deuses e monstros da mitologia grega. Em determinado momento, a boca da criatura se fechou, mas a melodia continuou ecoando na sua mente. O senhor Lahey continuou se aproximando, completamente hipnotizado, até que mãos escamosas lhe agarraram pelo pescoço e a música chegou ao fim.
Quando o homem misterioso abriu a boca novamente, o senhor Lahey desejou ficar surdo pelo resto da vida.
Era como se todo som estridente, barulhento e aterrorizante se misturasse numa cacofonia tão abominável que ele gritou de dor, na esperança de que o seu grito abafasse parte do grito daquele demônio. Sentiu algo molhado escorrendo das suas orelhas e quase quis comemorar, mas o som horripilante ainda não havia ido embora. Todo músculo do seu corpo parecia lhe implorar para correr ou lutar ou bater a cabeça na parede até perder a consciência, mas o puro terror de estar de frente para aquela criatura o impedia.
A figura enfim fechou a boca, mas o senhor Lahey continuava tenso, esperando o grito que explodiria o seu cérebro. Não teve vontade alguma de olhar nos olhos do monstro depois daquele momento, mas não havia outra opção. Assim que fez contato visual, a voz que antes era tão doce na sua mente retornou ríspida, dizendo:
— Levante a sua mão para o seu filho novamente e eu vou te mostrar a verdadeira potência do meu grito, seu desgraçado.
E essa foi a sua última lembrança antes da criatura o arremessar na direção do freezer, onde tudo ficou escuro.
...
— Tá aí uma maneira de resolver conflitos familiares. — Stiles comentou no dia seguinte, quando Jackson contou a história para o grupo. — Mandou bem, Jackson.
Os dois, junto com Lydia e Scott, estavam na aula de educação física, conversando depois de já terem feito o exercício da semana — parede de escalada. Allison e uma garota loira estavam subindo enquanto Isaac e outro garoto esperavam a vez deles. Uma parte que Jackson não teve estômago para mencionar foi a descoberta de mais uma forma de abuso, que ocorria justo no porão: um freezer inativo onde o senhor Lahey trancava o próprio filho.
— Era o mínimo que eu podia fazer depois de não ter feito nada por tanto tempo. — Jackson deu um sorriso triste.
— Quem é você e o que você fez com o Jackson Whittemore? — Lydia provocou, deixando-o levemente ofendido, mas ele engoliu o orgulho (junto com um comentário mordaz sobre como Lydia também não é nenhuma santa).
— Tá, eu mereci essa. — sorriu, sem jeito. — Só espero que esse plano realmente tenha funcionado. Depois do que eu vi na casa do Isaac ontem... — quase contou do freezer, mas optou por manter esse detalhe para si. — A última coisa que eu quero é que ele volte praquele porão novamente.
— Piadas à parte, é legal te ver mudando, Jackson. — Scott elogiou, pondo a mão no seu ombro. Jackson esperou que a onda de calor que atingiu o seu rosto não tenha ficado visível nas suas bochechas. — Bom que o Derek te ajudou com isso, já foi bem melhor do que... — se interrompeu, respirando fundo e olhando para as meninas escalando logo em seguida. — Erica!
E sem explicar nada, Scott correu em direção à parede de escalada. Assim que chegou lá, a garota loira despencou. Teria caído no chão, não fosse pelo suporte do equipamento de escalada. Scott a tirou desse equipamento e a colocou no chão, deitada de lado. Jackson e os outros então viram o que estava acontecendo com ela — um ataque epilético.
Erica, ele se lembrou. A menina que virou pária social na escola depois de ter uma convulsão no meio da sala e algum idiota ter gravado e compartilhado. Mesmo antes dos eventos recentes que o fizeram rever suas atitudes, Jackson tinha achado esse vídeo muito sem noção. Mas agora, olhando para o corpo frágil da garota se contraindo, ele queria achar o responsável pela gravação e fazer o mesmo que fizera ao senhor Lahey na noite anterior.
O socorro médico não demorou a chegar e levar Erica pro hospital. A aula de educação física foi cancelada mais cedo e os alunos foram para os seus devidos vestiários. Scott recebeu cumprimentos dos jogadores por ter ajudado a garota e, porque ele é o Scott, apenas deu um sorriso encabulado e agradeceu sem olhar nos olhos deles. Fofo, pensou.
— Não vai nem disfarçar? — Stiles o assustou, lhe dando um tapinha nas costas.
— Não! Q-quer dizer, eu n-não tava...! — foi interrompido antes que continuasse se embolando.
— Tá tranquilo, cara. — Stiles sorriu. — O Scott andou treinando bastante e o resultado tá bem visível. Eu até já perguntei se ele queria dar uns beijinhos, mas ele nunca me leva a sério.
Ele claramente estava falando em tom de brincadeira, mas só de ter sido visto nessa posição, Jackson ficou apavorado. E se mais alguém tivesse visto? E se um estudante que o odiasse também soubesse? E se contassem pros seus pais e eles o rejeitassem por causa disso?
— Assunto delicado? — Stiles desfez o sorriso ao perceber a tensão no colega. — Jackson, tá tudo bem?
— A gente pode não falar sobre isso agora? — Jackson olhou preocupado pros lados.
— Sem problemas. Me desculpa por... — Stiles tentou por a mão no ombro do loiro, mas ele se esquivou.
— Não é sua culpa. — Jackson detestou o quão rude ele soou. — Eu só... Não tô pronto ainda.
Pelo canto do olho, pôde ver uma expressão compadecida em Stiles. Quando Danny comentou, semanas atrás, sobre o comportamento dele parecer suspeito às vezes, Jackson achou que tivesse a ver com o segredo sobrenatural de Scott. Em retrospecto, fazia mais sentido que Danny estivesse especulando sobre a sexualidade de Stiles. Ele definitivamente confundia o seu gaydar também.
— Quer falar sobre isso quando todo mundo for embora? — Stiles sugeriu. — Scott veio de bicicleta hoje, então eu não vou embora com ele.
Duas semanas atrás, ele teria negado imediatamente, mas depois de tantas sessões de pesquisa na biblioteca junto com a Lydia e Stiles, Jackson o conheceu o suficiente pra saber que, mesmo se ele não gostasse de alguém, ele não faria algo cruel em retribuição. Ele com certeza xingaria até a última geração da pessoa, mas nada além disso.
Acenou com a cabeça, aceitando a proposta. Stiles deu um sorriso de canto e foi em direção ao chuveiro.
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