— Então... Todo o lance de você ser um péssimo namorado pra a Lydia faz mais sentido agora. — Stiles começou, assim que o último atleta saiu do vestiário.

— Rá! Rá! Muito engraçado. — Jackson não escondeu a expressão azeda no rosto.

— Não vou mentir: eu meio que suspeitava. De tanto olhar pra a Lydia, era inevitável que eu acabasse reparando em você de tempos em tempos e, na moral, você não é muito discreto não.

Jackson ia abrir a boca pra se defender, mas preferiu apenas respirar fundo. Outra coisa que ele percebeu depois de passar mais tempo com Stiles é que Scott tinha muita paciência. Stiles, além de verborrágico, tinha zero filtro. Não que Jackson fosse um poço de delicadeza, mas pelo menos ele sabia medir as palavras. A pior parte, porém, era ter o seu orgulho ferido. Sua ex e o seu melhor amigo saberem o seu segredo é uma coisa, mas um colega de sala que ainda nem tem tanta intimidade contigo saber? Era humilhante.

— Eu não sou o primeiro a ter essa conversa contigo, né? — Stiles perguntou.

— Claro que não! Danny e Lydia já sabem. Se duvidar, eles descobriram antes de mim. — Jackson soltou um riso seco. — Danny também suspeita de você, por sinal.

Stiles corou. Jackson arqueou uma sobrancelha em resposta. E depois eu que não sou discreto.

— Bom... Ele não tá errado. — e antes que Jackson falasse alguma coisa, Stiles continuou. — Q-quer dizer, eu ainda tô me esforçando pra a Lydia me dar uma chance, mas... É, garotos também são legais.

— Então quando você perguntou pro Danny se ele te achava atraente...

— A gente tá desviando do assunto principal! — Stiles o interrompeu. — Cê tá a fim do Scott?

— Não! — Jackson respondeu por reflexo, antes de processar a pergunta. — Quer dizer, talvez? Eu não sei, na verdade. Tipo, o Scott é bonito, é legal... Ele também salvou a minha vida aquela vez, o que me ajudou a ver que eu tava precisando tomar jeito, mas eu não acho que eu esteja apaixonado por ele. Sabe quando você vê alguém que te atrai e tem vontade de dar uns beijos, mas aí o pensamento passa e cê segue com a sua vida? Acho que é assim que eu me sinto em relação a ele.

Stiles fez uma expressão pensativa, antes de responder:

— Entendi. Faz sentido. Como eu falei antes, as flexões e abdominais que o Scott andou fazendo desde o ano passado fizeram efeito. Eu super faria ele também. O lance de dar uns beijinhos? Eu não tava brincando. Mas acho que ele ainda tá se guardando pra a Allison, então eu não acho que você tenha uma chance nem tão cedo.

— Eu não teria chance com ele nem se ele esquecesse a Allison. Eu fui escroto com ele até pouco tempo atrás, lembra? Além do mais, o Scott é o cara mais hétero que eu conheço.

— Eu não teria tanta certeza disso, Jackson.

Stiles tampou a boca assim que terminou de falar. Em resposta, Jackson arqueou tanto as sobrancelhas que elas quase foram parar no cabelo.

— O quê?! — Stiles apenas negou com a cabeça. — Stiles, o que você disse?!

— Nada.

— Nem vem com essa! Como assim o Scott não é hétero?!

— Eu nunca disse isso!

— Mas também não negou! — Jackson cruzou os braços e lhe dirigiu um olhar incisivo. — Anda, desembucha!

— É complicado, tá?! — Stiles desviou o olhar, visivelmente desconfortável. — É só que... Eu conheço o Scott há um tempão e tem coisas que ele fez ou disse no passado que me passaram uma vibe meio açucarada. Mas eu já errei antes! Às vezes era só eu querendo que ele fosse pra poder falar de sexo gay sem deixar ele desconfortável.

Jackson semicerrou os olhos. Aquela não parecia ser a verdade inteira. Continuou em silêncio, na esperança de Stiles contar mais, mas ele só fez mudar o assunto.

— Cê disse que não tá pronto ainda. O que te impede?

— Eu não sei. — Jackson suspirou. — A galera em Beacon Hills é bem tranquila, pelo que o Danny falou, mas... Sei lá, quando eu vejo as notícias ao redor do mundo, parece essa tranquilidade vai acabar logo na minha vez.

— Olha... Não que isso seja impossível, mas eu acho mais provável que eu me transforme numa fada antes de um homofóbico pisar nessa cidade. — Jackson revirou os olhos, mas acabou sorrindo. — É sério! Sabia que Beacon Hills tá no top 5 dos lugares mais queridinhos da Califórnia pros gays?

— Como você sabe disso?

— Eu tinha muito tempo livre antes do Scott ser mordido. — os dois riram. — E mais uma coisa: mesmo que essa cidade tivesse uma galera escrota, cê tem poderes agora, lembra? Pode hipnotizar todo mundo pra ganhar um tempo ou berrar até todo mundo ficar atordoado!

Jackson deu um riso fraco. Conte com Stiles para te tratar como um super-herói.

— Valeu, Stiles. Você até que leva jeito com as palavras às vezes.

— Vou fingir que eu não ouvi o “às vezes”. — Stiles cruzou os braços, mas deu um sorriso de canto.

...

O restante da semana se seguiu sem grandes eventos. Derek diminuiu a frequência dos treinos, dizendo que Scott e Jackson já estavam bem melhores no domínio das suas habilidades. Jackson agradeceu internamente, pois a semana de provas estava bem próxima e ele definitivamente precisaria pegar pesado nos estudos com Lydia e Danny.

Falando em Danny, Jackson o chamou pra sair no fim de semana. Os dois botaram o papo em dia e Jackson fez uma ou duas perguntas sobre a experiência de Danny como um cara gay assumido. Pro seu alívio, Danny basicamente confirmou as palavras de Stiles. Para um cidadão comum de Beacon Hills, era muito mais provável morrer na mão de uma criatura sobrenatural do que levar uma surra de um homofóbico.

Mais tarde, naquele mesmo dia, Jackson teve outro sonho vívido, como aquele que teve depois de ser mordido. O sonho começou com Jackson na casa de Danny, deitado numa das suas espreguiçadeiras à beira da piscina. Assim que viu a água, sentiu aquele mesmo impulso de mergulhar. Vestindo apenas a sua samba-canção, pulou na piscina, sendo recebido por uma água fria e salgada. Poderia continuar submerso por tempo indefinido, mas o mesmo canto das sereias que ouviu da última vez começou a tocar novamente.

Ao emergir, foi cumprimentado pelo mesmo cenário do outro sonho: uma enseada de pedras, num dia frio e nublado, com sereias no topo. A chuva estava mais forte, mas elas continuavam harmonizando, quase que para despeitar a tempestade. Jackson as olhou sem saber o que fazer. Deveria cantar junto? Não achou que seria de grande ajuda, como alguém que ainda estava descobrindo a extensão dos seus poderes, mas elas não pareciam estar ganhando essa batalha contra a chuva.

Antes que pudesse fazer algo, porém, aquela mesma sereia que o olhou de volta da última vez mergulhou na água e se aproximou dele em segundos. Jackson ficou apreensivo por um instante, mas assim que ela emergiu, ele foi envolvido por uma sensação calorosa e familiar, como se estivesse na presença de uma amiga. Agora que ela estava mais perto, Jackson podia reparar melhor no seu rosto. Ela tinha sardas e olhos azuis, como ele, além de um nariz bem arrebitado.

— Adrien? — ela chamou, olhando pra ele.

Jackson franziu a testa.

— Eu... Me chamo Jackson. — Ele corrigiu, hesitante.

Ela suspirou, parecendo decepcionada. Jackson esperava que ela não tivesse confundido ele com outro garoto tritão, porque naquele momento ela era a sua melhor chance de se conhecer melhor.

— Eu devia ter imaginado que eles mudariam o seu nome. — comentou, mais para si mesma do que para ele. — Os seus pais te nomearam Adrien quando você nasceu.

Jackson sentiu seu coração falhar por um instante.

— Os meus pais?! Você tá falando d-

— Margaret e Gordon Miller. Meus tios que, infelizmente, foram mortos naquele acidente terrível.

— Então... Os meus pais eram...? — desviou o olhar para as outras sereias, que agora olhavam a cena enquanto cantavam.

— A sua mãe era. O seu pai era apenas um homem. Mas ele foi o melhor homem que eu tive o prazer de conhecer. — ela deu um sorriso triste. — Você é a cara dele.

Jackson ficou em silêncio, sem saber o que dizer de volta. A sereia assumiu uma expressão mais séria e voltou a falar:

— Eu não tenho muito tempo antes de você acordar, então ouça bem: Jackson, você precisa vir para a praia Mesa Lane, em Santa Bárbara, antes do dia 15 de Junho. Há uma guerra que só pode ser vencida com a sua ajuda.

E antes que Jackson pudesse responder, ele afundou e acordou na cama, sentindo os lençóis molhados de suor e a garganta extremamente seca. Depois de se recuperar do choque inicial, ele se levantou e foi beber água. Como diabos ele iria pra Santa Bárbara? Se fosse em Sacramento ou São José, ele poderia ir e voltar de carro no mesmo dia, mas Beacon Hills devia ficar a umas oito horas de distância de Santa Bárbara na estrada. Decidindo que seria melhor pensar num plano junto com a alcateia, Jackson voltou pra a sua cama, torcendo pro sono voltar logo.

...

— Tem certeza de que não era apenas um sonho? — Stiles perguntou, depois que Jackson deixou todos a par da situação.

Estavam na biblioteca da escola, reunidos com Scott e Lydia depois da última aula do dia. Jackson achou que Allison viria dessa vez. Segundo Lydia, seu pai havia lhe devolvido o telefone e voltado a deixa-la sair sozinha. Mas, infelizmente, ela não compareceu. Da última vez que ele a viu, Allison estava conversando com Erica. Jackson pensou, um pouco desanimado, que talvez ela tenha se conformado com as ordens do pai e estivesse procurando fazer amigos normais.

— Foi a mesma sensação de quando eu me conectei com Scott por sonho. — ele respondeu. — Eu não sei se podemos acreditar nela, mas ela também não me deu motivos pra desconfiar. E como o Derek e o Deaton não conhecem nenhuma outra sereia, acho que ela é a minha melhor chance de descobrir mais sobre mim.

— Mas como você vai pra Santa Bárbara? — Scott indagou.

— Eu gostaria muito de saber. — Jackson suspirou, frustrado. — passei o restante da madrugada tentando pensar, mas a única opção viável parece ser contar tudo pros meus pais e eu realmente não queria fazer isso agora.

— E se você contar só meia verdade pra eles? — Lydia propôs. — Fala que você andou pesquisando sobre os seus pais biológicos e descobriu que tem uma prima morando em Santa Bárbara.

— Eu considerei isso, mas aí eles me diriam pra fazer videochamada. E eu não acho que a minha prima tenha acesso a internet.

— Fala que você se inscreveu num campeonato de natação em Santa Bárbara! — Stiles sugeriu. — A gente pode procurar um que já esteja acontecendo e pedir pro Danny hackear o site pra te botar na lista dos competidores!

— Eles imediatamente me perguntariam por que eu me inscreveria pra uma competição tão longe de casa. Além disso, o Danny tá tentando deixar a vida de hacker pra trás. Eu não quero que ele volte só por minha causa.

A mesa ficou em silêncio por um instante, até que Scott falou:

— Eu sei que você não quer contar tudo pros seus pais, mas ajuda se eu estiver lá?

Jackson franziu a testa, confuso.

— Tipo... Mentindo junto comigo?

— Não. Tô falando de contar a verdade. Toda a verdade.

Jackson estava prestes a repetir que não queria isso, mas olhando nos olhos de Scott, as palavras morreram na sua garganta. Havia um misto de autoridade e conforto na maneira que Scott o olhou, como se ele já tivesse decidido, mas não faria nada enquanto Jackson não estivesse confortável. Era parecido com a forma que Derek se portava desde que ele se tornou o alfa, mas Scott inspirava muito mais confiança. Talvez por eles se conhecerem a mais tempo, talvez por Scott ser bem menos assustador. Ou talvez porque esse olhar seja meio sexy nele, pensou, desviando o olhar e tentando não corar.

— Eu... Sei lá, talvez? — foi o que saiu da sua boca. — Mas e se eles reagirem mal?

— Eu me surpreenderia se eles reagissem bem. — Stiles comentou, levando uma cotovelada de Lydia logo em seguida. — Ai! Que foi?

— Olha, Jackson: talvez eles não fiquem super empolgados de descobrir, mas eu duvido que eles fiquem com nojo de você por causa disso. — Lydia pegou na sua mão enquanto explicava. — E se ficarem, então eles não te merecem. No pior dos casos, você ainda tem a gente.

E embora Jackson ainda estivesse nervoso com a ideia, o sorriso dela e as suas palavras o deixaram bem menos tenso.

— Sinceramente? Por que a gente não conta logo tudo pros nossos pais? — Lydia continuou. — A gente podia fazer uma reunião na minha casa e contar juntos!

Stiles a olhou como se um balde de anchovas tivesse caído na cabeça dela.

— Lydia, geralmente eu concordo com tudo o que você diz, mas o meu pai...

— O seu pai é um policial e saber do sobrenatural iria dificultar o trabalho dele. — Lydia o interrompeu. — Eu sei, você já falou isso aqui. E eu ainda tô tentando entender onde isso tornaria as coisas mais difíceis. Stiles, o seu pai deve ter vários arquivos mortos que seriam bem mais fáceis de desvendar se ele soubesse que existem pessoas como nós em Beacon Hills. Além disso, você acha mesmo que, nos anos de carreira dele nessa cidade, o seu pai nunca viu uma criatura sobrenatural?

Jackson deu um sorrisinho de canto. Sabia que Lydia pretendia investir em uma carreira que envolvesse física, mas ela também tinha a oratória e os argumentos dignos de uma advogada ou deputada.

Observou a reação de Stiles. Ele claramente ainda estava desconfortável com a ideia, mas também não parecia capaz de pensar num bom argumento em resposta. Tentando não faze-lo se sentir pressionado, Jackson disse:

— Tá tudo bem se você não quiser fazer isso, Stiles. Eu só vou contar pra eles agora porque eu realmente preciso ver a minha prima. Mas se quer a minha opinião, eu acho que você é quem mais vai se beneficiar se a gente fizer essa reunião.

— Como assim?

— Quando o seu pai descobrir que o filho dele é o único do grupo que não vira um monstro ou tem premonições, ele vai ficar bem mais aliviado que os outros. — Jackson sorriu, o que não fez Stiles sorrir de volta, mas reduziu as linhas de expressão na sua testa.

— Valeu, Jackson. — Stiles pôs uma mão no seu ombro. — Não sei se esse alívio vai durar muito tempo quando ele descobrir que tudo isso começou comigo escutando o rádio dele, mas eu acho que a sua viagem pra Santa Bárbara vai me impedir de ficar de castigo.

— Ótimo, então estamos decididos. — Lydia se levantou da cadeira e pegou seu celular. — Vou checar a agenda da minha mãe e confirmar quando podemos usar a casa. Enquanto isso, avisem os pais de vocês e me digam quando eles estiverem disponíveis. — e antes de se afastar, ela olhou nos olhos dos meninos. — A gente precisa fazer isso o quanto antes. Quanto mais tempo a gente esperar, maiores as chances de dar alguma merda.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.