Jackson abriu os olhos, mas duvidou muito que estivesse acordado. Pra começar, o céu brilhava em verde esmeralda, no estilo Aurora Boreal, que definitivamente não ocorria em Beacon Hills. Tudo ao seu redor eram árvores, com exceção da escola e do ginásio, de onde um som — diferente de qualquer outro que já ouvira na vida — ecoava. E havia também essa sensação de estar no mar, mesmo que estivesse seco da cabeça aos pés.

Sem saber o que fazer, Jackson seguiu o som.

Abrindo as portas do ginásio, fora cumprimentado novamente pelas luzes do baile, mas elas também estavam nesse tom frio de verde. Havia algo estranhamente familiar e confortável, quase nostálgico naquele cenário, mas não sabia dizer o que era. O som parecia vir da área da piscina. Novamente, Jackson o seguiu. Contudo, antes olhou uma última vez pro lugar, esperando um sinal.

— Cada vez mais curioso. — seguiu adiante, como se fosse entrar na toca do coelho de Alice no País das Maravilhas.

Chegando à piscina, se assustou com o impulso de mergulhar. Conseguiu se impedir de fazê-lo de imediato, mas parecia uma batalha perdida. Por que eu estou fazendo isso? Se perguntou enquanto tirava suas roupas, ficando apenas de cueca. Porém, se havia uma resposta, ninguém estava ali para lhe dizer. Não havia nada fora do comum no sentido visual — talvez a cor das luzes debaixo d’água estivesse mais esverdeada, mas a essa altura ele já até esperava — e, novamente, não havia ninguém.

Respirou fundo e mergulhou de cabeça, sentindo a temperatura deliciosamente morna da água aquecer o seu corpo. Mas assim que subiu pra respirar, não estava mais na escola. Estava numa enseada de pedras, num dia frio e nublado. A temperatura da água continuava agradável, mas o vento da superfície o fez bater os dentes. O som que estava ouvindo desde a escola parecia bem mais alto agora e, ao virar-se na sua direção, entendeu exatamente o porquê de ser um som tão diferente e hipnotizante.

Sereias.

Havia pelo menos sete mulheres harmonizando em cima das maiores rochas, todas de etnias diferentes, pelos tons de pele e formatos de cabelo. Agora que estava mais perto, Jackson até achava notas familiares naquela canção, mas toda vez que tentava se concentrar em alguma melodia específica, parecia encontrar múltiplas músicas e nenhuma ao mesmo tempo. A única canção que não estava escapando da sua memória era Smooth Operator, da Sade, cantora da época da sua mãe.

Se aqueles livros de Percy Jackson forem verdade, duvido nada que a Sade seja uma sereia.

Parte de si queria revirar os olhos (e rir também, porque ninguém é de ferro). Depois de lobisomens, achou que viriam vampiros, mas estava enganado. Claro, como ele estava sonhando depois de ter sido mordido, esse canto poderia ser só a sua audição se adaptando ao veneno de lobisomem nas suas veias e sua mente conjurando algo relacionado ao sobrenatural para justificar, mas alguma coisa lhe dizia que o seu cérebro não estava inventando nada.

Uma delas, com cabelos escuros na altura dos ombros, o olhou de volta, como se o reconhecesse. Porém, antes que pudesse tentar acenar ou antecipar o seu próximo movimento, foi puxado pra baixo d’água. Abriu os olhos, tentando enxergar quem ou o quê estava por trás disso, mas não viu nada. De repente, a força que o puxava cessou e ele conseguiu voltar pra a superfície, mas já não estava mais com as sereias. Havia voltado para a piscina da escola.

O que diabos foi tudo isso? Era uma entre várias perguntas se passando pela sua cabeça naquele momento, junto com Será que o Scott também teve um sonho bizarro depois de ser mordido? Contudo, novamente teve seus pensamentos interrompidos por um som no ginásio, dessa vez parecendo vir da quadra. Nem de longe um som tão hipnótico quanto o canto das sereias, mas ainda sim um som atraente. Não parecia sobrenatural, mas... Futurista? Como algo que ele ouviria daqui a alguns anos.

Jackson seguiu o som, se vendo novamente no baile. Dessa vez, porém, havia alguém na pista de dança. Parecia estar de frente para si, mas com a luz atrás dele, era difícil dizer. Pelo terno, altura e corte de cabelo, parecia ser um homem. Assim como as sereias, essa pessoa parecia real demais pra ser um sonho, quase como se ele estivesse mais bem definido que o resto das coisas naquele baile.

— Jackson? — ouviu a pessoa na sua frente o chamando e reconheceu a voz.

— Scott? — quis confirmar.

— Onde é que a gente tá? — a luz que vinha de trás diminuiu, deixando o rosto visivelmente confuso de Scott visível.

— Eu também queria saber... Achei que fosse só um sonho bizarro, mas você também tá aqui.

— Eu cheguei em casa e fui dormir agora pouco. Stiles está no hospital esperando vocês acordarem.

— “Vocês”?! Não me diga que ele também pegou a...

— A Lydia também foi mordida. — Scott confirmou, com uma expressão derrotada. — Assim que ela nos avisou sobre o Peter, nós tentamos sair de fininho, mas eu sabia que era só uma questão de tempo até nos alcançar. Eu pedi pra a Allison ligar pro pai dela e pedir pra ele vir logo e levar reforços, mas eles não chegaram a tempo. Peter chegou e...

— Espera. Você abriu o jogo com a Allison?!

— Eu nem precisei explicar muito. Ela disse que ontem a tia dela mostrou o Derek acorrentado e transformado. Eu queria ter me explicado melhor, mas o Peter chegou antes.

— Por que os caçadores não chegaram à tempo?

— Eu não sei. Peter deve ter furado os pneus deles. Ele já chegou querendo partir pra cima da Lydia. Stiles ficou na frente e foi nocauteado na mesma hora. Allison tentou fazer a mesma coisa, mas eu fui na frente. Peter me jogou longe e mordeu Lydia antes mesmo de eu me levantar. Ele se virou na direção da Allison e exigiu saber onde o Derek estava. Eu corri pra defende-la, mas ela disse que sabia. Disse que ele estava na mansão Hale. A gente dirigiu pra lá e foi tudo tão rápido... — contraiu o rosto, como se a memória fosse difícil de processar. — Os caçadores chegaram assim que a gente soltou o Derek, mas o Peter foi mais rápido que eles e levou a Kate de refém pra dentro da mansão. A Allison viu o Peter matando a Kate antes dos caçadores fuzilarem ele e Derek deu o golpe final. Agora ele é um alfa.

— Meu Deus... — Jackson processou a enchente de informações por um tempo antes de responder. — Mas por que o Derek matou o Peter?

— O Peter matou a irmã do Derek. Ele não sabia, mas o Deaton me contou e eu contei pra ele. Eu não sabia que ele ia matar o Peter, mas entre os dois, acho que a gente pode confiar mais no Derek como alfa do que no tio psicótico dele. Inclusive, ele também estava no hospital vigiando vocês. Disse que nunca viu uma reação como a de vocês dois.

— Como assim?

— Ele me disse que quando o corpo rejeita a mordida, a pessoa morre. E quando aceita, só fica meio cansado por causa da adrenalina. Mas você e a Lydia estão inconscientes há dois dias.

Dois dias?!

Antes que abrisse a boca para verbalizar a sua surpresa, Scott se aproximou e respirou fundo, como se estivesse farejando-o. Jackson corou um pouco pela proximidade. Não tinha o faro aguçado como o do lobisomem, mas podia sentir o perfume vindo de Scott e era um tanto quanto atraente, embora um pouco amadeirado demais pro seu gosto. Agradeceu mentalmente por ninguém mais estar nesse pseudo-sonho. Se Danny o visse nesse momento, ele o atormentaria com essa cena por um bom tempo.

— Você não está com cheiro de lobisomem. Nem de humano.

— Então, eu tô com cheiro de quê?

— Parece... Maresia? — Scott franziu o cenho, confuso.

— Eu estava nadando no mar antes de vir pra cá. Na verdade, eu estava na piscina e do nada eu fui parar no mar. Foi estranho, tinha um monte de sereias por lá e...

— Peraí! Sereias?! — Scott arregalou os olhos.

E antes que Jackson pudesse falar mais sobre, tudo foi perdendo forma e escurecendo. Scott evaporou como se tivesse sido mandado de volta pra onde veio. A música lentamente foi sumindo e, quando voltou a ouvir, o bipe constante do monitor cardíaco foi o primeiro som que notou. Arriscou abrir os olhos e se viu num quarto de hospital compartilhado, mas a segunda cama estava vazia. Jackson deu um sorriso de canto. Mesmo se recuperando de uma mordida de lobisomem, ela sempre dá um jeito de acordar antes de mim.

Conseguiu se levantar normalmente, apesar da dor no braço. Preferiu não arriscar abrir o curativo pra olhar a ferida. Se o Scott do sonho tiver sido real, aparentemente a mordida não surtiu efeito nele nem em Lydia. O que nós somos, então? Precisava encontrar a Lydia e contar logo tudo o que sabia sobre o sobrenatural. Ela tinha mais chance de descobrir do que ele. Mas um grito estridente e assustadoramente familiar vindo do corredor o tirou de seus pensamentos num salto.

— Lydia! — ouviu Stiles gritar logo em seguida.