— Jackson, tá tudo bem? — ouviu Stiles perguntar.

Jackson havia terminado de cantar a segunda música e, perto do fim, as emoções vieram com força, fazendo-o cantar com uma voz mais rasgada, tentando compensar a falta de firmeza. Não havia ficado ruim — ao menos não desafinou —, mas Stiles deve ter percebido que isso, junto com a sua postura menos composta, era sinal de alguma coisa.

— Tá sim. — mentiu. — É só... Paramore, sabe? — respirou fundo, tentando não deixar o nariz escorrer. — Difícil não se emocionar. — riu um pouco, tentando passar por cima da dor.

E o peso de saber que eu tô sozinho enquanto todo mundo nesse baile tem alguém, pensou.

Desceu do palco antes que Stiles fizesse mais perguntas, dando sorrisos vazios pros alunos que elogiaram a sua performance. Viu Lydia olhando na sua direção como se quisesse falar algo com ele, mas não estava com cabeça pra isso agora. Parou na mesa do ponche e virou um copo sem pensar duas vezes. Tanto esforço pra ser o grande Jackson. Nada disso importa agora.

Jackson tentou olhar pra qualquer outra coisa pra se distrair, mas só via pessoas dançando juntas, se abraçando, se beijando e parecendo bem mais felizes do que ele. Juntando isso com a música alta e as luzes, ele estava oficialmente pronto pra dar o fora, apertando o passo até a saída do ginásio. Pôde sentir a quietude do lado de fora por um total de cinco segundos antes de ouvir uma voz muito familiar chamando-o.

— Vai embora, Lydia. — respondeu, um pouco irritado.

— Não, Jackson. — ela insistiu. — Qual é o seu problema?

— O meu problema?! — virou-se lentamente. — EU TÔ SOZINHO, PORRA! — berrou, assustando a garota por um segundo. — Esse é o meu problema! Eu passei todo esse tempo investindo em ser o melhor em tudo e eu ainda tô sozinho! Eu acabei de ajudar o Scott e a Allison a ficar juntos, você veio com o Stiles... — soluçou, o álcool desacelerando a sua fala. — E eu?! O que eu tenho, Lydia?!

Sua voz falhou na última frase. Não tinha nem mesmo forças pra ficar irritado, ainda mais com Lydia. Caiu de joelhos no chão e começou a chorar, sentindo o peso dos últimos dias cair sobre os seus ombros. Achou que se abrir com os outros o deixaria mais leve – e deixou, pelo menos antes do baile – e que talvez o fizesse se sentir menos mal por ter sido tão babaca nos últimos anos, mas a única coisa que vinha na sua cabeça é que era tarde demais e o seu destino era a solidão.

Ouviu os saltos de Lydia se aproximando e escondeu o rosto nas mãos, querendo desaparecer dali. Ela tinha todo o direito de ser a ex-namorada vingativa com ele. Motivo não faltava. Mas ela apenas se agachou e fez carinho na sua cabeça. Às vezes Jackson se perguntava se ela também sentia essas pontadas de culpa pelas próprias atitudes ruins. Ela definitivamente tinha um histórico de crueldade menor que o dele, mas ainda sim ele ficava curioso.

— Então, você está sozinho agora. — Lydia concordou. — E daí?

Jackson se assustou com a fala, tirando as mãos do rosto para ler a expressão dela.

— Como assim, “e daí”?

— Você mesmo disse que passou todo esse tempo buscando ser o melhor em tudo. Isso já não é o suficiente?

Jackson não sabia o que dizer, então não respondeu a pergunta.

— Acho que você está com medo dessa nova atitude, Jackson. Você, sozinho, aprendeu a dirigir um Porsche. Você, sozinho, se tornou capitão do time de lacrosse. Você, sozinho, desenvolveu um senso de estética quase tão bom quanto o meu. — Jackson não pôde segurar um risinho frouxo com esse comentário. — Claro, você pode precisar da ajuda do Danny pra tirar um A em química às vezes, mas ninguém consegue fazer tudo sozinho! — Lydia se levantou, estendendo a mão pra que ele fizesse o mesmo. — E você fez tantas coisas sozinho! Não teve parente, amigo ou namorado do seu lado!

Jackson queria teimar e dizer que ela estava errada, mas duvidava muito que conseguiria convencê-la. Mal conseguia se convencer naquele momento. Talvez devesse tentar terapia mais tarde, porque a facilidade com a qual mudou de humor nas últimas horas foi bizarra. Talvez fossem anos reprimindo as emoções, tentando ser machão. Talvez tenha sido só o ponche.

— Que tocante. — uma voz desconhecida chamou a atenção dos dois.

Viraram-se na direção da voz e viram um homem de sobretudo preto se aproximando. Jackson pensou que fosse apenas um membro da banda que estava tocando mais cedo, mas algo sobre esse cara parecia... Perverso. Fazia Jackson se sentir como quando Derek o levou para o que restou da residência Hale: como se devesse correr pra bem longe.

— Quem é você? — Lydia questionou, seu típico tom arrogante de volta.

— Peter Hale. — o homem respondeu e Jackson empalideceu na mesma hora.

— Lydia! — agarrou nos ombros da amiga, empurrando-a de volta pro ginásio. — Corre! Avisa o Stiles!

Apesar de confusa, Lydia o obedeceu. Jackson virou-se para encarar o (provável) lobisomem. Não fazia ideia de quem era o problema que Scott avisou mais cedo, mas o sobrenome Hale definitivamente era um sinal. E Peter, aparentemente, não fez questão de esconder, lhe dando um sorriso cínico.

— Muito louvável a sua atitude, moleque. Mas acha mesmo que um ginásio cheio de adolescentes vai me impedir?

— Deixa ela em paz! — Jackson gritou. — Ela não fez nada pra você! Ela nem sabe o que você é!

— Jackson, Jackson... — Peter se aproximou, fazendo Jackson engolir em seco. — Não é sobre o que ela fez. É sobre o que ela pode fazer. Scott foi o primeiro porque ele estava mais perto, mas definitivamente não seria minha escolha número um. Passei as últimas semanas prestando bastante atenção no grupo de vocês e, pelo que foi demonstrado até aqui, Lydia Martin é a melhor escolha pra adicionar à minha alcateia.

— P-porque não tenta alguém da sua idade? — Jackson quase se engasgou com as palavras.

Duvidava muito que fosse capaz de dissuadir esse cara, mas achou que talvez pudesse ganhar tempo até Scott ou os caçadores chegarem. Só era difícil manter a postura defensiva quando o olhar de Peter brilhava vermelho escarlate, fazendo-o se sentir atravessado.

— Não me entenda mal: eu adoraria manter distância de vocês, adolescentes. Mas seus corpos têm menos chances de rejeitar a mordida. — Peter deu mais um passo pra frente, fazendo Jackson recuar um pouco. — E Lydia é o pacote completo: inteligente, linda, confiante e, quando necessário, manipuladora. Eu não transformaria a filha dos Argent mesmo se fosse a minha única escolha e Stiles, além de filho do xerife, é muito hiperativo pro meu gosto. Então... — e deu mais um passo.

— Espera! — Jackson pediu. Surpreendentemente, Peter obedeceu. — E quanto à mim?

Pelo amor de Deus alguém me ajuda antes que eu fale algo mais idiota ainda!

— Você não se cansa mesmo, não é? Eu consigo admirar isso, pelo menos. Mas eu não preciso de mais um adolescente exibindo as presas no campo de lacrosse.

— E você acha que a Lydia vai guardar segredo? Ela me exibiu como um troféu enquanto a gente namorava! Me transforma no lugar dela. Não ouviu o que ela disse antes? Se eu consegui chegar até aqui sem poderes, imagina o quão útil eu posso ser como o seu... — procurou a palavra que Scott usou no passado. — Beta!

E num ato ainda mais corajoso/burro, Jackson arregaçou as mangas da camisa social e pôs o braço esquerdo perto do rosto do lobisomem, oferecendo um lugar para a mordida. Esperava muito que estivesse falando meias verdades o suficiente pra que desse certo. Desde a situação com Derek e Scott nos escombros da residência Hale, ele realmente não estava mais interessado em se tornar um lobisomem. Contudo, se fosse pra deixar Lydia fora de perigo, ele correria o risco.

— Com o seu histórico de arrogância adolescente acima da média, Jackson, eu acho difícil de acreditar que você iria baixar a cabeça e me obedecer depois de transformado. — e novamente, Peter faiscou vermelho pelos olhos, sinalizando eu vejo através de você por eles.

— Então você não é capaz de conter um simples lobisomem adolescente? — provocou, com seu melhor sorriso arrogante. — Ou tem medo que eu me torne um lobisomem melhor que você? — Pela primeira vez, a postura inflexível Peter vacilou. — Tô começando a achar que você mordeu o McCall só pra não correr esse risco!

Mal pôde ver além de um sorrisinho sem humor de Peter antes de ser empurrado contra a parede e ter o seu braço mordido. A dor foi surpreendente inferior ao que ele havia imaginado, mas ainda foi suficiente para que ele contorcesse o rosto em agonia e abafasse um grito mordendo a mão direita. Cadê o pai da Allison quando a gente precisa dele?!

— Sinceramente, eu espero que o seu corpo não rejeite a mordida. — Peter lambeu o sangue nos próprios lábios. — Vai ser divertido quebrar você na porrada e ver você tentando descobrir como ativar o fator de cura. — largou o seu braço antes de ir em direção à porta do ginásio.

— O que você quer lá dentro?! — Jackson gritou em meio à dor, já imaginando a resposta.

— Não ouviu o que eu disse mais cedo? — Peter limpou o resto do líquido vermelho nas costas da mão. — Eu tenho uma ruiva pra transformar!

— Não!

Tentou avançar no lobisomem, mas a sua visão começou a escurecer e ele caiu no chão, inconsciente.