Sawbridge

1 CAPÍTULO 1: É hora.


capítulo 1

É HORA

Querida, Abigail.

Se eu tivesse que pensar em um momento para começar a minha história — a nossa história —, o único que me vem em mente é esse. Foi nesse momento em que me encontrei em um carro com meu irmão mais velho, a caminho de uma cidade que eu odiava por toda a minha vida e presa a uma realidade que não me pertencia.

Esse não é só o começo da minha história, mas é a história que me levou até você e, por isso, sempre serei grata.

Permiti que um suspiro resignado deixasse meus lábios e cruzei os braços em minha melhor pose de insatisfação — previamente trabalhada em anos de convivência como caçula da família —, sentada no banco do passageiro no jeep cinzento do meu irmão mais velho.

Quem quer que fosse o fodido idiota que havia dito que viagens de carro eram divertidas, merecia passar a eternidade sofrendo no inferno e, claro, três horas e meia em um carro com Kyle.

Eu amo meu irmão, mas já estava ficando cansada de aturar seu infinito arsenal de piadas completamente sem graça. Tinha que lhe dar o crédito, no entanto, as primeiras piadas tinham sido realmente engraçadas, três horas depois? Nem tanto.

Acima de tudo, não aguentava mais olhar pelo para-brisa e encontrar somente a eterna estrada a minha frente, cercada pelas características e grandes florestas de pinheiros altos. E claro, eu também precisava ir ao banheiro urgentemente.

— Eu não consigo acreditar que não tem nenhum posto de gasolina em duas horas. — murmurei irritada, chutando os tênis apertados para fora de meus pés.

Kyle soltou uma risada, as orbes azuladas não se desviaram da estrada nem por um momento, até mesmo quando ergui os pés e os coloquei sobre o painel. Os lábios dele se apertaram em desagrado e eu sorri, contente por conseguir irritá-lo.

— Você vai ter que segurar, estamos a apenas há quinze minutos de Sawbridge. — respondeu Kyle, uma das mãos abandonando o volante para trocar a música que havia acabado de começar.

A lembrança da proximidade com a nossa nova cidade fez o sorriso abandonar meus lábios no momento em que Kyle mencionou. Recoloquei os óculos de sol e voltei para a minha pose anterior. A única coisa pior do que aguentar a viagem de quase quatro horas no desconfortável carro do meu irmão, era ter que me mudar para a merda de cidade em que eu havia nascido.

Sawbridge tinha o impressionante número de treze mil habitantes em seus míseros vinte e cinco quilômetros de extensão — sendo a metade deles apenas reservas florestais — e era o completo pesadelo de qualquer pessoa com menos de oitenta e cinco anos de idade. Exceto, é claro, para a minha família, que demonstrava o maior interesse do mundo em voltar para aquela cidade esquecida pelo mundo.

— Eu vou mijar em seu carro. — devolvi mudando a música novamente.

A cabeça de Kyle virou em minha direção abruptamente, abandonando a estrada pela primeira vez desde que haviam a tomado, ainda na frente do prédio em que vivíamos em Boston. Havia três coisas em todo o mundo que Kyle Black levava a sério e uma delas era a direção.

— Você não teria coragem. — devolveu, seu tom despreocupado sendo traído pela relutância em voltar a focar seus olhos na estrada.

Soltei uma risada, dando de ombros despreocupadamente.

— Quer testar?

Kyle acelerou o carro enquanto eu repetia minha risada e me inclinava pelo banco de trás para pegar outra embalagem de Doritos, abrindo com facilidade antes de colocar um punhado de salgadinho em minha boca. Não me dei ao trabalho de oferecer para meu irmão. Ele realmente levava a direção a sério.

Voltei a observar a paisagem através da janela do carro, notando a placa gasta que nos dava boas vindas a cidade. Arrumei-me contra o assento, tirando os óculos para que pudesse ter uma visão melhor da cidade em que nasci pela primeira vez em onze anos.

Não era parte do meu interesse morar ali, mas não poderia negar que eu estava curiosa. Não me lembrava quase nada de Sawbridge e, somado ao fato de que eu sempre me neguei voltar para visitar meus avós, nada me parecia muito familiar.

A floresta de pinheiros continuou a ser a única paisagem a disposição até cruzarmos uma ponte extensa, onde os pinheiros foram trocados pela vista de um lago e, após cruzar a ponte, encontramos o que parecia a versão de Sawbridge de uma civilização. Abri a janela, sentindo o vento de outono bater contra o meu rosto.

— Olhe, Ky, a loja de Call. — apontei para a loja a minha direita.

Os grandes letreiros em letras cursivas em um tom de verde musgo escreviam “Four Seasons” em frente a uma edificação quadrada de dois andares, a placa amarelada na frente informava que a abertura oficial da loja de camping aconteceria no dia seguinte.

A loja parecia ficar no centro comercial da cidade, cerca de dois quarteirões de uma praça circular com uma estátua de três pessoas, acima de um chafariz que se situava em seu centro. Havia um par de crianças jogando baseball e andando de bicicleta, alguns adultos conversando e caminhando pelas lojas que ficavam ao redor do local.

Desde que foi decidido que mudaríamos novamente, sempre achei que me sentiria diferente estando de volta a Sawbridge, não uma espécie de sentimento de pertencimento, mas sim o pânico causado pelo motivo de termos abandonado a cidade abruptamente há tantos anos, no entanto, eu estava surpresa ao constatar que eu não carregava nenhum sentimento por aquela cidade. Apenas resignação.

Kyle virou a terceira rua à direita após a praça, andando por mais cinco minutos antes de estacionar no meio fio em frente a área residencial. Guardei o Doritos em cima do banco do carro enquanto descia, os olhos fixos na casa idêntica a foto que havia recebido de minha mãe há uma semana.

A casa — a minha nova casa — era muito bonita e moderna em comparação às demais casas do quarteirão. Ela mantinha o estilo clássico vitoriano, com um grande e verde gramado, com um pequeno caminho de pedras até a grande varanda elevada, as escadas destacadas por um arco de pedra emoldurado por tijolos avermelhados. De dois andares, possuía três grandes janelas na parte da frente, com a garagem parecendo ser capaz de estacionar três carros e uma peculiar porta de entrada azul escura.

Aquilo era muito maior que o minúsculo apartamento de dois quartos em que estávamos vivendo e, a melhor parte de tudo, é que eu não precisava mais dividir meu quarto com Kyle. Isso soava fodidamente espetacular.

A porta de entrada foi aberta e mais rápido do que eu havia lhe dado crédito, Kyle já estava indo em direção a nossa mãe com os braços abertos, como se fizesse anos que não nos víssemos, não somente três dias. Atrás dela, nosso padrasto vinha com um sorriso no rosto.

Callum passou os braços ao meu redor e depositou um beijo em minha testa antes de começar a tirar o que havia restado de nossas coisas em Boston.

— Seu irmão se comportou na viagem? — Callum perguntou com um sorriso. Ele parecia ainda mais feliz por estar em casa.

Eu ri.

— Da única maneira que ele sabe.

— Ei! — protestou Kyle, voltando para buscar o resto das malas antes de seguir Call para o interior de casa.

— Tenho certeza de que você foi um cavalheiro. — mamãe piscou para mim, passando o braço pela minha cintura antes de me virar em direção a casa — Você gostou?

Eu assenti, em silêncio.

— É bom estar em casa, Abby. Você verá. — ela prometeu, a convicção pingando de sua voz.

Não tive a coragem de dizer para mamãe que acreditava profundamente que ela estava errada, que eu nunca poderia me sentir em casa em Sawbridge. Nunca havia me sentido em casa em Boston também, então, pelo menos, não estranharia tanto assim o sentimento. Ela apertou meu braço antes de seguir meu irmão para dentro da casa gigantesca.

— Pizza! — ouvi o grito de Kyle no andar de cima quando a campainha soou por toda a casa.

Do meu quarto, eu consegui ouvir seus passos apressados pela escada e soltei os livros que estava prestes a colocar na estante ao lado da minha nova cama. Pela primeira vez desde que eu conseguia me lembrar, eu não precisaria dividir o quarto ou um banheiro com um garoto e, apesar de estar profundamente empolgada com essa perspectiva, ainda assim algo parecia estar faltando.

Call era o único para quem eu havia verbalizado a minha falta de vontade para voltar a Sawbridge. Tinha certeza de que Kyle também sabia como eu me sentia, mas nunca perguntou sobre o assunto e eu não fiz questão de contar.

Kyle era o garoto da mamãe, enquanto eu era a menina de Call. Ele sempre havia estado lá. Desde antes de nosso pai morrer, Callum já era uma figura definitiva em nossas vidas e, após o incidente, era quem praticamente tomava conta de toda a nossa família.

Ele se mostrava bem relutante em tomar qualquer atitude, acredito que tenha medo de estar ‘roubando’ o lugar de seu melhor amigo em nossas vidas, mas nenhum de nós o vemos dessa forma. Call sempre tinha sido nossa família, em breve, isso se tornaria oficial.

Na mesma noite em que mamãe anunciou que voltaríamos para Sawbridge — há menos de três meses —, eu comecei a ter crises de terror noturno. Kyle e mamãe dormiam igual uma pedra, mas não Callum. Ele despertava com o menor dos sons.

Então se tornou nossa rotina despertar antes das seis horas da manhã. Na primeira noite em que aconteceu, recobrei a consciência com ele sentado na parcela vazia da minha cama, tentando me acordar. Call perguntou com o que eu havia sonhado e, verdadeiramente, eu não conseguia me lembrar.

E a nossa rotina se tornou tê-lo me acordando e tentando me ajudar a lembrar com o que eu havia sonhado entre uma xícara de leite quente e canela antes de começarmos a fazer o café da manhã para mamãe e Kyle.

Na última noite de Call e mamãe em Boston — eles viajaram duas semanas antes de nós para que mamãe pudesse começar seu novo emprego no hospital, comprar e arrumar a nova casa e Callum conseguir montar a filial de sua loja aqui —, ele fez a pergunta que todos estavam evitando.

— Você está pronta para voltar para Sawbridge?

Eu neguei com a cabeça. Callum me abraçou e pediu desculpas, dizendo que ele desejava que eu nunca precisasse retornar à cidade. Depois daquela noite, ele havia feito o possível e o impossível para se certificar de que eu estaria minimamente feliz nessa cidade.

Uma batida na porta afastou os pensamentos e eu me virei para encontrar meu padrasto apoiado contra o batente da minha porta, as sobrancelhas arqueadas para as cinco caixas de papelão ainda fechadas aos pés da cama, ao lado das três malas de roupas que Kyle e eu havíamos trazido hoje.

Eu odiava desempacotar.

— Se você não se apressar, seu irmão vai sumir com a pizza em dois minutos. — brincou Call.

Soltei uma risada, retirando os últimos cinco livros da caixa que eu estava esvaziando antes de colocá-los em cima da cama, pegando o papelão vazio e seguindo para o corredor.

Estava faminta e eu não confiava o bastante em meu irmão para ver se sobrava algo para mim. Tinha dois dias para terminar de arrumar o seu quarto antes de retornar às aulas.

— Ele poderia comer duas pizzas inteiras e ainda estaria reclamando que está com fome. — murmurei, largando a caixa em cima das outras duas que eu havia conseguido esvaziar antes.

Desci as escadas em passos apressados, ouvindo a risada de Call atrás de mim. Mamãe e ele tinham combinado de ir jantar com alguns amigos do colegial que encontraram no mercado há um par de dias, antes de saber que dia conseguiriamos vir.

Encontrei Kyle sentado em um dos bancos altos, com a caixa de pizza aberta sobre o granito branco. Em menos de cinco minutos, eu já conseguia contar que dois pedaços de pizza estavam faltando enquanto meu irmão estendia a mão para pegar o terceiro.

— Você mastiga? — a pergunta deixou meus lábios de maneira provocativa ao tempo em que eu arrastava o banco vazio ao seu lado.

— Vá se foder. — murmurou com a boca cheia — É melhor beijar os meus pés se você não quiser ir a pé todos os dias para a escola.

Estiquei a mão e peguei um pedaço de pizza, lançando um olhar irritado para Kyle antes de arquear minha sobrancelha. Aparentemente, Sawbridge High School era longe o bastante de casa para que meu irmão ganhasse um carro, no entanto, eu sabia que Call e mamãe havia lhe dado a condição de dividir o carro comigo.

Chupa essa, bebezão, zombei.

— Aposto que você não vai ter nem dinheiro para abastecer. — o provoquei, dando uma mordida generosa na fatia em minhas mãos.

Kyle riu, esticando as mãos para pegar o seu quarto pedaço. Revirei os olhos para ele e depositei meu pedaço em cima de um guardanapo antes de dar a volta no balcão até a geladeira. Eu havia visto algumas latas de Pepsi quando vim atrás de água.

— Me ofereceram uma vaga de trabalho. Dezessete dólares a hora. — a voz de Kyle soou presunçosa e, apesar de não poder ver seu rosto no momento, eu sabia que o seu característico sorriso torto estava presente em seus lábios, somente porque ele sabia o quanto isso me irritava.

Peguei duas latas de refrigerante, colocando uma em sua frente e abrindo a outra enquanto voltava a me sentar. Uma parte de mim estava surpresa que, em menos de quatro horas de volta a cidade, Kyle já havia conseguido um emprego. Eu, por outro lado, não havia conseguido nem terminar de desfazer as minhas malas.

— Quem, em sã consciência, te daria um emprego? — brinquei, tomando um gole da Pepsi antes de pegar o resto do meu pedaço de pizza.

— Call. — Kyle respondeu, limpando seus dedos em um guardanapo — Ele disse que aqui o movimento será maior que a loja de Boston e com todas as idas e vindas até lá, ele precisa de alguém de confiança para o negócio.

Eu queria fazer uma piada, provocar Kyle sobre a parte de ‘confiança’ do negócio, mas mordi os lábios para me segurar. Eu havia trabalhado para a Four Seasons por seis meses em Boston e, apesar do salário ser muito bom, eu não servia muito bem para o trabalho. Com meu irmão, talvez, fosse outra história.

— E se você conseguir entrar no time de basquete da escola? Você não calou a boca sobre isso o caminho inteiro. — apontei, limpando a gordura da pizza que havia se acumulado em meus dedos.

Desde os seus sete anos de idade Kyle sabia que estava destinado a grandeza — palavras dele, não minhas. Em seu primeiro aniversário depois da morte de nosso pai, Call havia o levado para o jogo do Celtics contra o Knicks e, segundo meu irmão, no momento em que o juiz jogou a grande bola alaranjada para o alto, ele tinha encontrado a paixão da sua vida e o seu destino; o basquete.

A partir daquele dia, todos os aspectos da vida de Kyle giravam em torno de se tornar um jogador profissional. A sua metade do nosso antigo quarto era um santuário aos Lakers e eu sabia que havia ao menos um olheiro universitário em contato com ele desde o ano passado.

Isso tudo não me ajudava a compreender o porquê de Kyle ter aceitado voltar para Sawbridge. Grandes universidades mal davam uma merda por cidades pequenas e o sonho dele sempre havia sido ir para Stanford.

— Você sabia que papai e Call jogaram juntos no time da escola? — a tentativa nada sutil de mudança de assunto não passou despercebida por mim.

— Nenhuma surpresa nisso. Papai e Call faziam tudo juntos. — devolvi, recolhendo os guardanapos que eu havia usado e os levando para o lixo — Eles só deviam ter abandonado essa merda de cidade quando tiveram chance. — murmurei em baixo tom.

Eu soube que Kyle havia escutado meu resmungo quando ele parou, a caixa de pizza pela metade em suas mãos a caminho da geladeira. Soltei um suspiro, imaginando o que estava por vir quando ele voltou a se mover.

— A verdade é que nunca deveríamos ter deixado Sawbridge, Abby-cy. Talvez um dia você seja capaz de ver isso por si mesma.



— Abby!

O grito de Callum ressoou por todo o quarto, mas eu sabia que não havia sido aquilo a me acordar. As mãos dele ainda apertavam meus pulsos com força enquanto eu sentia as lágrimas ainda escorrendo por meu rosto. Puxei uma respiração profunda antes de me desabar em mais lágrimas novamente, irritada comigo mesma por não lembrar do maldito sonho.

As mãos de Call largaram os meus pulsos quando ele me puxou contra o seu peito, tentando acalmar a merda dos soluços que escapavam por meus lábios. Era o mesmo ritual de todas as madrugadas pelos últimos meses e nunca, nunca eu conseguia me lembrar do que é que me assustava tanto assim.

— Acho que está na hora de contarmos para sua mãe. — sugeriu Callum.

Neguei com a cabeça, afastando-me para limpar as lágrimas.

— Ela irá querer que eu fale com uma terapeuta, que irá dizer que isso é por causa da morte de papai. Eu li na internet que terrores noturnos costumam ir embora sozinhos.

Call assentiu, os olhos castanhos me dizendo que eu não o havia convencido.

— Você sabe melhor do que acreditar em tudo que a internet diz. Vamos lá, eu pensei em fazermos um café da manhã especial. Nosso primeiro dia em Sawbridge. Encontro você lá em baixo.

Balancei a cabeça em concordância, suspirando. Acompanhei a saída de Call pelo quarto até ele desaparecer pela porta, jogando-me contra os travesseiros. Não via a hora de conseguir ter uma noite completa de sono e não um despertar abrupto todos os dias às 5:23 da madrugada, principalmente do meu último sábado antes do retorno das aulas.

Não fazia sentido ficar na cama sabendo que eu não conseguiria voltar a dormir, por isso, decidi seguir a sugestão de Call e ajudá-lo a preparar o café da manhã. Vovó tinha me ligado e afirmado que eu e Kyle tínhamos que almoçar com ela e vovô assim que estivessemos de volta. Eu devia isso a ela, principalmente depois de ter me recusado a visitá-los por onze anos.

Chutei a manta de cima de mim, esticando os músculos tensos por causa do distúrbio de sono antes de seguir para o meu banheiro e acender o interruptor. Um sorriso involuntário se formou em meus lábios ao constatar que, exceto em casos de extrema emergência, eu seria a única pessoa a usar aquele banheiro. Sem mais a necessidade de dividir o espaço com meninos fedidos.

O meu reflexo no generoso espelho do banheiro me dizia que eu aparentava tão merda quanto eu me sentia naquele momento. Vovó sempre chorava quando vinha nos visitar em Boston, dizendo sobre o quanto eu e Kyle éramos iguais ao nosso pai, principalmente os olhos.

Nossos olhos eram de um azul turquesa que naturalmente já atraía bastante atenção pelo tom incomum e chamativo e, somados a grandes olheiras fundas que se encontravam embaixo deles, eu realmente não sabia qual dos dois chamava mais atenção.

Soltei um outro suspiro ao me aproximar ainda mais do espelho, apoiando-me contra a bancada. O que meus olhos encontraram no reflexo do espelho não ajudava em nada me manter calma para começar o ano letivo em uma escola nova.

A pele pálida era ainda mais intensificada pelas grandes olheiras que se formavam sobre meus olhos, em conjunto com os fios loiros ondulados, eu poderia muito bem ser chamada para estrelar alguma série porcaria sobre mortos-vivos. Pelo menos, eu tinha certeza de que Kyle assistiria. Ele adorava séries porcarias.

Bufei e resolvi deixar isso de lado, sem saber o porquê eu me importava tanto com o que pensariam de mim na escola nova. Não era como se eu tivesse amigos ou alguma reputação a zelar. A vantagem daqui era que ninguém me conhecia.

Escovei os dentes e prendi o cabelo enquanto descia as escadas em passos rápidos, ainda que de pijamas. O cheiro de café dominava o primeiro andar e eu quase flutuei em direção a cozinha, movida por ele. Encontrei Call me esperando com uma xícara em suas mãos, esticada na minha direção.

— Meu precioso. — brinquei, aceitando a xícara.

Call riu e pegou as torradas que haviam acabado de ficar prontas, as colocando em um prato junto com as outras antes de sumir pelo arco que separava a cozinha da sala de jantar.

Tomei um gole generoso de café, ajudando — dessa vez realmente ajudando — Call a fazer o café da manhã. Eu ainda estava um pouco perdida com a nova cozinha, mas meu padrasto colocou todos os ingredientes para waffles em cima do balcão enquanto eu os preparava.

Um pouco depois das oito horas, mamãe desceu as escadas já vestida para o dia, sorrindo com a quantidade absurda que havíamos feito. Call realmente gostava de café da manhã. Mamãe passou por mim, depositando um beijo no topo da minha cabeça e tomando o seu lugar ao lado do noivo.

— Eu não sei como vocês conseguem fazer isso todas as manhãs. — ela murmurou, servindo-se de um copo de suco.

Troquei um sorriso com Callum, dando de ombros.

— Abbs está tentando chegar ao seu coração para ganhar um carro novo. — brincou ele.

— E um celular novo, não se esqueça. — acrescentei, dessa vez, falando sério. Eu havia perdido meu último celular na festa de despedida que Connor havia feito em sua casa e, desde então, nenhum sinal do aparelho.

A cabeça de Call se virou para mim expressando toda a sua surpresa.

— Há quanto tempo você está sem celular?

Dei de ombros, beliscando um pedaço de waffle que eu não tinha terminado de comer antes.

— Eu acho que faz dois dias, mas só fui notar ontem quando estávamos vindo para cá. Enviei um e-mail para Connor, talvez tenha ficado na casa dele.

Call assentiu e se levantou carregando o prato e a xícara que havia usado.

— Você não pode ficar sem celular. Vou passar na loja e comprar um novo.

Os olhos castanhos de mamãe me encararam com as sobrancelhas arqueadas por cima de seu copo de suco. Ela tomou um gole demorado antes de abaixar o mesmo, os lábios se retorcendo para segurar um sorriso. Ela achava ‘adorável’ o modo como Call era protetor com a nossa família. Ele não os via como os filhos da sua noiva ou os filhos do seu melhor amigo falecido. Ele nos via como dele, os filhos que ele não tinha e nem queria ter.

Filhos era um assunto complicado para Call e ninguém sabia exatamente o porquê. Eu suspeitava que se devia ao fato da história entre eles. Callum e papai haviam crescido juntos, sendo melhores amigos por toda a sua vida. Mamãe nos contou que quando ela e sua família chegaram à cidade, ela havia feito amizade com os dois, mas sempre havia sido apaixonada por nosso pai.

Como todo clichê adolescente, ela e papai levaram o namoro adolescente para o altar — somado ao fato de Kyle ter sido concebido cedo demais no processo — e Callum havia sido o padrinho de casamento deles, assim como, sete meses mais tarde, o padrinho de Kyle.

Depois da morte de papai — quando eu tinha cinco anos de idade —, mamãe não aguentou continuar vivendo entre as lembranças da vida que tinham juntos e, no meio da noite, acordou Kyle e eu e dirigiu até Boston. Conseguiu um emprego no General Hospital e estava bem em começar uma nova vida lá. Ela disse que Call apareceu um mês depois, com todas as suas coisas e a herança de seu avô, alugou um pequeno prédio e começou a sua loja de camping.

No aniversário de onze anos do meu irmão, Callum levou Kyle e eu até o circo, onde pediu autorização para namorar nossa mãe. Eu me lembro de ter perguntado se eu teria que chamá-lo de pai ou se podia continuar com meu ‘velho pai’.

Call se ajoelhou na minha frente, segurando minhas mãos e sorriu.

— Eu adoraria ser seu pai, Abbs, mas Athos é o seu verdadeiro papai. Eu só estou cumprindo a promessa que fiz para ele. Cuidar de vocês três e amá-los mais que tudo nesse mundo.

Eu entendia que Callum tinha medo de tirar o lugar de nosso pai. Ele estava presente em cada passo importante da nossa vida. Tinha sido ele a levar Kyle para o seu primeiro jogo de de basquete, tinha sido ele quem havia me levado para a primeira — e fracassada — aula de balé e estava na platéia para cada jogo do meu irmão. Ele comprou meu primeiro livro não-infantil e me ensinou a dirigir.

Athos Black era meu pai, mas Callum Graywood também era.

E eu suspeitava que ele também tinha medo que ter seus próprios filhos o faria nos ver de uma maneira diferente. Sinceramente, eu não podia lidar com a possibilidade de perder Call também. Um pai era o bastante para se perder.

— Obrigada, Call, mas… — eu finalmente comecei a responder quando ele voltava da cozinha, mas ele me interrompeu negando com a cabeça.

— Nada disso. Estamos em uma cidade que você não conhece, Abbs. Eu e Clarissa precisamos saber que você tem como entrar em contato com a gente se alguma coisa acontecer.

Olhei para minha mãe, esperando que ela me desse alguma ajuda naquele momento, mas tudo o que ela fez foi dar de ombros enquanto mastigava sua torrada com manteiga. Fui salva de precisar responder Call quando Kyle atravessou as portas da sala de jantar, reclamando sobre estar com fome.



Johan e Abigail Black eram os melhores avós do mundo.

E eu não estava dizendo isso somente porque me sentia culpada por nunca ter vindo para Sawbridge vê-los e nem pela comida deliciosa que vovó tinha nos servido de almoço, mas sim pelo fato de que eles eram os melhores avós do mundo.

Kyle mal havia estacionado o jeep quando vovó apareceu na varanda, o sorriso estampado em seus lábios enquanto corríamos pela entrada de carros até ela. Eles tinham ido nos visitar em março para o aniversário de meu irmão, no entanto, parecia muito mais tempo.

Vovô apareceu logo depois, não dando nem tempo de sair do abraço caloroso de nossa avó antes de tê-lo me tirando do chão em um abraço digno de Kyle. Apesar de ser sábado, ele estava vestindo o uniforme de polícia, o distintivo de xerife em exibição orgulhosamente em seu peito.

— Pequena Abigail! — ele depositou um beijo em minha testa antes de me puxar para dentro de casa.

Kyle, que já havia seguido vovó para dentro, virou-se por cima do ombro para me lançar um sorriso carregado de provocação, sabendo que eu não gostava de ser chamada de Abigail. Na verdade, vovô é a única pessoa que ainda insistia nisso. A única pessoa que eu deixava insistir nisso.

— Estamos tão felizes que vocês voltaram! — exclamou vovó, incapaz de conter o seu sorriso — Temos certeza de que vocês vão adorar estar de volta na cidade.

Meu irmão arqueou a sobrancelha para mim, um lado de seus lábios se erguendo em um sorriso desafiador. Revirei os olhos para ele e forcei um sorriso para nossa avó, incapaz de tirar a felicidade de seus olhos.

— Eu só queria ter aproveitado mais as férias aqui. — murmurou Kyle — Chegamos ontem e as aulas já começam na segunda-feira.

Isso fez os olhos de vovô se desviaram do jogo de futebol americano que passava na televisão, se aprumando na grande poltrona que parecia ser seu móvel favorito na casa inteira.

— Encontrei seu treinador no mercado ontem e avisei que você iria se inscrever para o time. Ele disse que era para você procurá-lo depois da aula, na quadra.

A conversa então se voltou para o time de basquete da nossa nova escola até a hora que vovó informou que a comida estava servida. Seguimos ela até a sala de jantar, praticamente salivando com o que ela havia preparado. Se eles não fossem nossos avós, eu teria sido compelida a pedir desculpas pela quantidade ridícula de comida que Kyle havia ingerido, mas por sorte, vovó já estava acostumada com meu irmão.

Depois do almoço, voltamos para a sala, onde vovô e Kyle continuaram conversando sobre basquete, desta vez, com vovô contando sobre os jogos de papai e Callum na época da escola. Ele costumava a ser o treinador do time, por isso, poderia ter ficado o resto da tarde contando todas as experiências deles se vovó não tivesse o interrompido.

— Johan, os meninos tem mais coisas a fazer do que ouvir suas histórias. — ela colocou a mão no ombro dele, dando uma piscadela para mim — Podemos combinar outro jantar. Talvez na sexta-feira?

Eu assenti animada, disposta a recuperar a proximidade perdida entre nós. Vovô me abraçou com força antes de ir e vovó acariciou meu rosto, sussurrando o quanto havia sentido a nossa falta e que estava ansiosa pela sexta-feira. Prometi que ligaria em breve e subi no jeep de Kyle.

Os olhos azuis de meu irmão encontraram os meus e eu balancei a cabeça em concordância. Havia mais um lugar que tínhamos que visitar hoje.

O sol se preparava para desaparecer por entre as colinas quando Kyle segurou minha mão com força, me guiando através das grandes lápides de mármore cinzento. Era a primeira vez que eu visitava o túmulo de nosso pai e Kyle havia prometido estar comigo quando eu estivesse pronta. Ele usava qualquer desculpa para voltar para a cidade, por isso, além de conhecer a cidade e saber como se locomover por ela, sabia também onde nosso pai estava enterrado.

Tentei focar na minha respiração, lembrar a mim mesma de que fazia onze anos desde que papai havia morrido, buscar em minha memória as lembranças que eu tinha dele, mas nada realmente ajudou quando Kyle parou em frente a uma lápide cinzenta de tamanho médio, com dois buquês recentes de flores dispostas a sua frente. Ao seu lado, havia uma lápide exatamente igual e com as mesmas flores, mas meus olhos não ousaram se desviar daquela em específico. A escritura no mármore trouxe lágrimas a meus olhos.

Athos Johan Black

Um Black nunca desiste

Eu não sabia exatamente quando começou, mas eu chorei. Kyle apertou sua mão contra a minha antes de me puxar contra seu peito e deixar que minhas lágrimas escorressem por sua camiseta. Quando eu não tinha mais o que chorar, ele nos sentou na grama em frente ao túmulo e contou os nossos últimos onze anos para o nosso pai.