Sawbridge

2 CAPÍTULO 2: Simples Assim


No domingo, a família de Callum havia nos convidado para jantar com eles, mas depois da minha experiência no dia anterior, todos entenderam quando eu pedi para ficar em casa, pedindo desculpas a mãe de Call pela desfeita.

Ele estava ansioso para esse jantar. E não digo isso porque ele havia afirmado para mim na madrugada de domingo, depois de me ajudar a despertar do distúrbio de sono. Durante a maior parte da noite de sábado, ele se mantinha checando o celular e o relógio em seu pulso a cada dez minutos, como se quisesse ter certeza de que a hora estava passando.

Eu sabia que era porque ele iria contar aos seus pais que depois de seis anos de namoro, ele finalmente iria se casar, além de ser a primeira vez que eu veria sua família desde que tínhamos saído da cidade. Pelo que eu sabia, a família de Callum era importante na cidade. Seu pai não podia viajar por causa dos negócios que mantinha na cidade, sua mãe se recusava a viajar sozinha e seu irmão era um advogado muito ocupado com a carreira.

— Cora sentiu sua falta. E eu tenho certeza de que o sobrinho de Call está curioso para ver você. — mamãe contou, apoiada contra a porta do meu quarto assim que eles haviam voltado para casa.

Girei a cadeira enquanto tirava os fones de ouvido, virando-me para lhe dar um sorriso apologético. Eu me sentia verdadeiramente mal por não ter ido.

— Eu sinto muito, mãe. — pedi, apoiando meu queixo contra o joelho.

Ela sorriu antes de entrar no quarto, sentando-se contra a minha cama bagunçada. A vantagem de ter passado o dia em casa era que eu havia quase terminado de desempacotar minhas coisas. Todas as minhas roupas estavam no armário e os livros nas estantes, faltando apenas alguns itens pessoais que eu não estava nenhum pouco animada em mexer agora.

— Está tudo bem. Eu sei que estar de volta aqui é demais para você, Abby, e eu respeito todo o sacríficio que você está fazendo. Nunca pediria isso de você se eu não soubesse que você está pronta.

Fiquei em silêncio, virando desnecessariamente a cadeira. Eu não podia concordar com ela, pois a última coisa que eu me sentia no momento era pronta. Não me sentia pronta para enfrentar a morte do meu pai, nem para começar uma nova vida em uma cidade. Por outro lado, eu também não podia discordar com ela, o dia de ontem impedia isso.

— De qualquer forma, — o sorriso em seus lábios se tornou contagiante, demonstrando toda a sua animação — Cora me convenceu a marcar a data do casamento.

Eu sorri.

— Sim?

— Doze de outubro.

Fiquei dividida entre arregalar os olhos e soltar uma risada. Nunca, em um milhão de anos, tia Luna conseguiria lidar com o prazo de um mês para organizar o casamento. A risada estava quase vencendo a minha batalha interna quando eu me lembrei que eu seria a madrinha, por isso, eu estava tão na merda com isso quanto minha mãe.

— Isso é rápido. — consegui murmurar.

— Sim, eu acredito que seja, mas Call está esperando por isso por tanto tempo. E ele está tão feliz por estar de volta a Sawbridge, com nós três… Eu o amo, Abby, quero ser a esposa dele.

Joguei-me contra o colo dela e mamãe me abraçou enquanto caímos contra o colchão macio. No fim, eu estava deitada de frente para ela, rindo quando mamãe ergueu as mãos para afastar os fios de cabelo que teimava em cair sobre meus olhos.

— Kyle não parou de falar sobre como ele vai jogar basquete no time da escola e trabalhar com Call na loja… Ele está empolgado. — contou — Quais são os seus planos?

Virei-me para ficar de costas contra o colchão, observando o teto branco em cima de mim enquanto dava de ombros, sabendo exatamente onde ela queria chegar.

Assim como a vida de Kyle se resumia a basquete, a minha era assim com a natação, apesar de eu não desejar seguir carreira com isso. Eu era boa e gostava da sensação de nadar. E claro, ser competitiva estava em meu sangue.

Isso era até eu não conseguir ficar embaixo da água sem ter um maldito ataque de pânico como se eu estivesse prestes a morrer.

— Não sei, mãe. — respondi honestamente — Eu acho que vou pedir para vovó me arranjar um emprego como recepcionista da pousada. Juntar dinheiro para a faculdade.

Mamãe estalou a língua e negou com a cabeça, como ela sempre fazia quando estava frustrada. Ela não gostava que mencionassemos sobre guardar dinheiro para ir para faculdade, dizendo que isso era uma preocupação dela e que já tinha sido resolvido há muito tempo.

Como? Isso ela nunca dizia.

— Você quem sabe, bebê. — ela disse, por fim, sentando-se na cama — Já está tarde, você provavelmente deveria ir dormir.

Como uma criança, sorri para ela enquanto dobrava meus joelhos e arqueava uma sobrancelha na sua direção. Mamãe riu e se inclinou para me cobrir com o cobertor, depositando um beijo em minha testa.

— Deixe sua mente te guiar em seus sonhos e sua criatividade te mostrar que a vida não tem limites. — ela sussurrou, exatamente como meu pai fazia todas as noites por cinco anos.

Eu não chorei como teria feito há um par de dias atrás e quando ela deixou o quarto depois de desligar as luzes, eu peguei no sono quase instantaneamente, sabendo que acordaria em breve entre gritos e lágrimas.



Mordisquei a unha do meu indicador enquanto olhava as opções de camisetas em meu armário. Eu não achava que iria ficar nervosa para esse dia, mas eu estava. Já havia trocado de roupa três vezes e nada parecia bom o bastante.

Eu tinha colocado uma calça jeans skinny clara, mas nenhuma camiseta parecia combinar com isso. O verão estava indo embora e eu queria aproveitar os últimos dias, mas não havia nada no inferno que me fizesse ir de saia, vestido ou short para a escola no primeiro dia de aula, sem contar que não estava quente.

Bufei e peguei uma camiseta branca e simples, junto com uma camiseta de flanela azul clara. Calcei os tênis e peguei minha mochila em cima da cama antes de descer pelas escadas, pulando os últimos dois degraus.

Call e eu já havíamos tomado café da manhã, mas mesmo assim que me sentei em meu lugar em frente a Kyle, servindo-me de um pouco de suco.

— Você parece animada. — murmurou Kyle.

Dei de ombros.

— Curiosa. — o corrigi.

O cabelo loiro de Kyle estava molhado e caía na altura de seus olhos — os mesmos olhos azuis turquesa que herdamos de nosso pai —. Ele vestia a sua camiseta da sorte do Lakers de manga comprida branca e cinza e eu sabia que era somente porque ela evidenciava o seu porte físico de atleta. Eu o odiava por conseguir parecer tão bem as oito horas da manhã.

— Temos que ir mais cedo para a orientação?

Call riu, levando a xícara de café para seus lábios.

— Sawbridge High School não tem orientação. Eu acho que somos as primeiras pessoas a nos mudar nos últimos dez anos. Isso considerando que também fomos os últimos a abandonar a cidade. — respondeu Kyle com um dar de ombros.

— Ah, ótimo. — resmunguei — Tudo o que eu queria era ser a novata que não conhece ninguém enquanto todos são amigos de berço.

— Você dividiu o berço com meu sobrinho. — apontou Call, olhando-me por cima do jornal — Na verdade, eu me lembro de seu pai odiá-lo.

Franzi o cenho.

— Por que?

— Você e Rhys eram inseparáveis quando tinham quatro anos. — mamãe respondeu — Cora cuidava de vocês três para que eu e seu pai pudéssemos trabalhar. Um dia, Athos foi buscar vocês na casa dos pais de Call quando você correu até ele dizendo que tinha se casado com Rhys. Depois disso, ele foi inflexível sobre contratar uma babá e manter você longe do garoto.

Eu sorri, contente por ter uma nova memória de meu pai e não querendo me prender a estupidez de uma eu de quatro anos de idade. Eu só esperava que o sobrinho de Call não se lembrasse disso. Não era uma boa memória para ter de alguém que você não via em onze anos.

— Vamos? — perguntei a Kyle.

Ele olhou para o relógio em seu pulso antes de assentir, ainda mastigando a sua panqueca. Peguei uma tira de bacon antes de me levantar da cadeira, beijando mamãe e Call na bochecha antes de seguir para a garagem atrás do meu irmão.

Kyle me provocou o caminho inteiro, murmurando sobre como eu seria a excluída e a estranha da escola. Empurrei o seu ombro para fazê-lo ficar em silêncio enquanto eu tentava memorizar o caminho que estávamos tomando. Eu odiaria me perder na tentativa de ir para a escola.

— Qual a sua primeira aula?

Fiz uma careta, tirando do bolso a minha grade de horários que mamãe havia me entregue no sábado. Não tinha prestado muita atenção nela por não querer me envolver com as coisas da escola antes que fosse minha obrigação. Ou seja, a partir de hoje.

— História. — murmurei, analisando o resto das minhas aulas — E você?

A grade de horários não era muito diferente da que eu tinha em Boston. Com exceção de Biologia e História, que, em meu outro colégio, eu fazia Economia e Química Avançada. Pelo que eu tinha entendido, a escola não fornecia a matéria de Química Avançada, então eu estava presa com Biologia. Nunca havia feito Estudos Aplicados, mas o nome soava legal o bastante.

— Eu tenho Economia, Literatura Avançada, Física, Francês, Estatística, Educação Física e Clube de Jornalismo. — disse Kyle. Era óbvio que ele havia memorizado suas aulas.

E depois eu era a nerd da família.

Kyle virou a esquina e, de repente, a Sawbridge High School ficou visível. A escola era uma junção de prédios acadêmicos interligados entre si para formar apenas um, logo acima de uma pequena colina elevada. Nenhum dos prédios parecia ter mais do que três andares e as paredes dos andares superiores eram feitas quase que inteiramente de vidro, com grandes persianas brancas que não deixavam visualizar o seu interior.

Fomos saudados por uma placa que nos desejava um bom retorno a escola, em seguida, Kyle manobrou pelo estacionamento lotado a procura de uma vaga para estacionar. Eu podia sentir todos os olhares curiosos para o jeep desconhecido e queria me esconder ou voltar para casa e me esconder em casa pelo resto do ano letivo.

Kyle conseguiu uma vaga entre um Nissan e um Ford, o modelo novo de seu jeep cinza se destacando entre os dois. Quando o motor do carro foi desligado, meu irmão puxou uma respiração profunda, sem se mover.

— Não tem nenhum jeito no inferno que você está nervoso. — não consegui deixar o tom incrédulo fora da minha voz.

— Eu não estou nervoso. — mentiu Kyle.

Meu irmão sempre tinha sido um péssimo mentiroso.

— Você não parou de falar sobre esse dia por semanas. Você foi coroado o rei do baile por dois anos seguidos em Boston. Você era o garoto mais popular da escola.

Ele revirou os olhos, se inclinando para pegar a mochila no banco de trás.

— Isso não quer dizer que eu não tenho medo das coisas darem errado para mim, Abby-cy. — murmurou — Esse é meu último ano. Minha chance de conseguir a bolsa para o time de basquete de Stanford. Metade dessas merdas é ligado com quem você andou e o que você fez no ensino médio.

— Ky, você tem o histórico impecável. Você poderia perder o prazo de inscrição para o MIT e eles abriram uma exceção para você. Além disso, você tem todo o charme Black ao seu favor.

Terminei a frase movendo as sobrancelhas sugestivamente, do mesmo jeito que ele havia feito para mim diversas vezes. Eu nunca esperava ver meu irmão nervoso para seu primeiro dia de aula e isso fez o meu próprio nervosismo desaparecer. Se Kyle não estava pronto para essa merda, não havia chance no inferno de eu estar.

E isso me fez abrir a porta do carro e descer. E Kyle fez o mesmo. Andamos lado a lado até as portas duplas vermelhas, desviando de alguns carros e cumprimentando até algumas pessoas mais ousadas que nos disseram oi.

Kyle abriu a porta para mim, dando a visão de um corredor largo e extenso, ladeado por armários do mesmo tom de vermelho bordô que a porta, painéis com os times de basquete, natação, atletismo e xadrez, além de três salas de aula.

— Qual o número do seu armário? — perguntei para meu irmão, retirando o papel novamente do meu bolso para que eu pudesse descobrir o meu.

— Cento e dezessete. — ele disse.

Grunhi em resposta. Eu gostaria de apenas uma vez ter o universo colaborando com o meu comodismo.

— Trinta e três. — respondi — Eu vou buscar meus livros, tudo bem?

Ele assentiu, observando o painel do time de basquete como se eu nem estivesse ao seu lado.

— Você almoça comigo hoje, Abby-cy. — afirmou, movendo as sobrancelhas.

Eu sorri, contente por ele ter oferecido. Eu tinha plena certeza de que até o intervalo Kyle já teria um grupo de amigos e provavelmente não precisava da minha companhia para o almoço. Ele a queria, apesar disso.

As vezes, eu realmente amava meu irmão idiota.

— Você paga. — brinquei, ficando na ponta dos pés para depositar um beijo em sua bochecha antes de seguir pelo corredor tentando localizar o meu armário.

O encontrei menos de três minutos depois, a primeira fileira de armários virando o primeiro corredor a direita. Coloquei a combinação e agradeci por ter aceitado a oferta de mamãe para arrumá-lo no dia seguinte que ela havia vindo fazer nossa matrícula.

Analisei a minha grade de horários novamente, abrindo a mochila para guardar os livros. Guardei os livros de Álgebra, Humanismo e Biologia na mochila antes de pegar o de História em minhas mãos e fazer o meu caminho para procurar a sala de aula.

Fechei a porta do armário quando notei uma garota saltitando até parar na minha frente. Ela tinha cabelos castanhos compridos e olhos da mesma cor, em um tom mais claro, quase esverdeados. A garota ainda era alguns poucos centímetros mais baixa que eu e vestia o uniforme de líder de torcida. Ela era a combinação perfeita da garota mais popular da escola e eu já me preparava para revirar os olhos para qualquer discurso pronto de boas-vindas que ela havia sido obrigada a recitar.

— Abigail é muito formal. — a saudação nada usual estava carregada de uma simpatia nada forçada, assim como o sorriso em seus lábios cobertos por gloss — Como eu posso te chamar?

Talvez eu estivesse um pouco errada sobre ela.

— Todos me chamam de Abby. — forcei-me a sorrir de volta para ela.

O sorriso em seu rosto somente cresceu.

— Eu adorei! — exclamou — Achei que eu era a única com complexo de nomes. Meu nome é Cassandra Hudson, mas eu obrigo todos a me chamarem de Cassie.

— Abby Black. — respondi, acompanhando seus passos quando ela começou a caminhar pelo corredor. Todos os olhares pareciam estar em nós.

— Oh, eu sei… — ela murmurou maliciosamente — A cidade inteira estava esperando por vocês. Sinto muito por isso, parece irritante.

Eu dei de ombros.

— Nada que eu já não estivesse esperando. — brinquei — Você é o meu comitê de boas-vindas?

Cassie soltou uma risada e alisou a saia do uniforme carinhosamente.

— Você me tem por um clichê do ensino médio, Abby Black? — devolveu, estreitando os olhos em falsa indignação — Não, obrigada. Eu somente pensei que você precisava de uma amiga. Se estiver tudo bem, eu não quero me intrometer e…

— Eu poderia precisar de uma amiga. — a interrompi com um sorriso. Essa coisa de garota nova estava se mostrando mais fácil do que eu tinha dado crédito.

— Ótimo! — exclamou animada. Cassie era realmente boa nesse negócio de animar a torcida, a sua felicidade era quase contagiante — Quais são seus horários? Nós temos que ter alguma aula juntas.

Entreguei para ela a grade de horários que eu estava tentando decorar para não viver carregando pelo resto do dia — e principalmente da semana — enquanto caminhávamos sem rumo pelo corredor. Em algum momento eu teria que pedir para ela me ajudar a chegar na sala de História.

— Nós temos História, Álgebra e Educação Física juntas. — ela murmurou, a unha do indicador pintada em um tom vibrante de vermelho pousada sobre o papel amassado em suas mãos — Ugh, eu queria ter créditos sobrando para pegar Estudos Aplicados.

— Eu nunca ouvi falar disso antes.

Cassie riu novamente e parou em frente a um armário, colocando a combinação do cadeado. De lá, ela tirou alguns de seus livros, arrumando-os na bolsa que carregava no ombro.

— A maioria dos idiotas daqui usa isso como um período livre. Você vai para a Sala de Estudos, onde tem o horário da aula para estudar o que quiser, ler um livro ou simplesmente dormir. A escolha é sua. — ela deu de ombros — Tem uma lista de presença e você tem que entregar um projeto no fim do ano, porém.

Bom, a ideia ainda soava legal para mim. Me preparava para perguntar para Cassie sobre as atividades extracurriculares da escola quando três garotas pararam na frente dela, apesar dos olhos estarem fixos em mim. Todas as três vestiam o mesmo uniforme de torcida que a garota ao meu lado e pareciam estar ocupadas demais me avaliando.

— Sim? — Cassie chamou a atenção delas, arqueando a sobrancelha.

A do meio moveu seus lábios em um sorriso não muito convincente, brincando com a ponta de seu rabo de cavalo.

— Oi, Cassie! Rhys disse que o teste de basquete é hoje depois da aula… Estávamos pensando se o nosso não poderia ser no mesmo horário. Ele adiantou por causa do aluno novo e queríamos…

A porta do armário de Cassie se fechou com força quando ela se virou para as três garotas. A sua sobrancelha ainda estava arqueada quando ela cruzou os braços contra o peito em uma pose muito autoritária que não combinava exatamente com a garota animada que eu estava conversando até agora.

— Vocês queriam ver se ele é tão gostoso quanto as fofocas? — ela perguntou, o sarcasmo escorrendo por seu tom. Mordi os lábios para segurar uma risada.

Se elas soubessem…

— Bem, não… — a garota da esquerda começou a dizer.

— Querem saber? Pode ser. Digam a Rhys que eu quero metade da quadra para o teste das Líderes de Torcida. Vamos, Abby. O sinal vai tocar em breve.

Eu ainda mordia os lábios para segurar a minha risada quando dei o primeiro passo para seguir Cassie pelo corredor. A expressão descontraída de seu rosto tinha desaparecido e eu podia ouvi-la resmungando, apesar de não compreender o que ela estava dizendo.

— Ugh, eu não suporto mais elas. — reclamou, virando a esquerda no corredor — Eu juro que elas só sabem falar sobre garotos. Elas fazem o feminismo retroceder por uns trinta anos.

Eu ri mais uma vez, subindo a escada em passos rápidos para acompanhá-la. Para alguém menor que eu, Cassie se movia com rapidez, desviando das pessoas com uma perícia surpreendente, às vezes, cumprimentando-os rapidamente.

— Você é a capitã das Líderes de Torcida? — perguntei.

Cassie se virou para sorrir para mim por cima do ombro, os olhos castanhos claros brilhando em uma diversão não revelada.

— Não parece, certo? — brincou — Eu ganhei o título somente esse ano. A capitã se formou e me escolheu para substituí-la. Metade da equipe também se formou, então eu tenho que encontrar quatro garotas até a próxima semana. Você se interessa?

Ela falou tão rápido que por um momento eu quase me perdi na conversa e, em seguida, soltei uma risada com seu convite. A ideia de usar aquele uniforme para animar uma plateia durante um jogo realmente não soava muito a minha cara.

— Tenho certeza de que não sirvo para isso. — falei com sinceridade.

Cassie revirou os olhos e entrou no que eu imaginava se tratar da nossa sala de aula. A claridade da sala me incomodou no início, com todas as persianas erguida e o sol batendo diretamente contra as carteiras divididas em cinco fileiras dispostas de frente para o quadro negro.

A sala estaria vazia se não fosse por nós duas, apesar do corredor lotado. Cassie sentou em cima da penúltima carteira, balançando os pés no ar. Fiz o mesmo com a carteira ao lado dela.

— Eu acho que você se sairia muito bem na torcida. É uma ótima distração para essa cidade. Você sabe, não tem muito o que fazer por aqui.

O sinal da primeira aula tocou, mas o sorriso de Cassie não deixou seus lábios enquanto ela esperava por uma resposta. Mantive o lábio inferior preso entre os dentes e o olhar analisando as pessoas que entravam.

— Vou pensar, Cassie. — disse, voltando a olhá-la — De qualquer forma, estou presa aqui depois da escola. Meu irmão vai fazer o teste para o time de basquete.

Os olhos dela quase brilharam.

— Sim, eu ouvi tudo sobre esse irmão… — respondeu maliciosamente antes de soltar uma risada — Escute, o pessoal mais ou menos legal desse pequeno inferno costuma a se reunir no Grill depois dos treinos. Você quer ir? Juro que até o fim do dia você conhecerá mais gente que a sua mente é capaz de processar.

Foi a minha vez de rir. Esse dia não estava sendo nada como eu havia imaginado. Eu estava gostando disso mais do que eu iria admitir.

— Claro, parece legal.

A essa altura, a sala estava quase cheia. Voltei meu olhar para a porta quando o garoto mais bonito do mundo atravessou a sala. O garoto era alto, de ombros largos e o verdadeiro porte físico de atleta, os cabelos cacheados de fios pretos eram organizadamente bagunçados para todos os lados. Ele sorriu de lado, uma covinha se evidenciando em sua bochecha, os olhos esverdeados brilhando ao cumprimentar o garoto que havia chamado sua atenção.

— E você conheceu Rhys. — o tom provocativo não estava fora da voz de Cassie, nem o brilho malicioso de seus olhos.

— Esse é Rhys?

Sempre que eu imaginava o sobrinho de Callum — e a ausência de fotos permitia isso —, eu fazia uma referência ao novo ator de Power Rangers, o vermelho, pois Call tinha uma semelhança absurda com ele. Eu nunca o tinha imaginado como alguém com quem eu, de fato, poderia achar bonito.

— Eu já fui casada com ele. — murmurei debilmente, sem saber porque o primeiro pensamento que cruzou foi a história que mamãe me contou hoje no café da manhã.

Cassie, ao meu lado, somente soltou uma risada e pulou para baixo da carteira quando o homem — de aparência jovem demais — entrou na sala. Soube que ele era o professor quando todos começaram a se mover para sentar. Fiz o mesmo, meus olhos traidores seguindo o sobrinho de Call quando ele sorriu para a garota ao meu lado, escolhendo a carteira vazia atrás dela.

Os olhos dele recaíram sobre mim enquanto ele fazia o seu caminho e o seu sorriso tornou-se maior, evidenciando ainda mais as covinhas em sua bochecha. Rhys largou sua mochila contra o chão, apoiando os cotovelos contra a mesa ao se inclinar para me olhar.

— Olá. — a voz dele era tão charmosa quanto todo o resto e ele parecia saber disso.

Hey. — forcei um sorriso para sua direção, virando-me para frente logo em seguida.

O professor largou sua maleta em cima da mesa no centro da sala, apoiando-se contra ela antes de cruzar os braços e observar os alunos a sua frente. Ele não aparentava ter mais do que trinta anos de idade, os cabelos curtos de um castanho meio ruivo e óculos de grau sobre os olhos negros.

— Bom dia, turma. — ele saudou jovialmente — Eu sinto tanto quanto vocês pelo fim das férias e o início de mais um ano letivo. Para quem não fazia essa matéria no ano passado, eu sou Zachary Buckard e estarei dando História para vocês esse ano.

O Sr. Buckard se afastou da mesa e começou a caminhar por entre o corredor, a postura relaxada quando seus olhos me encontraram. Eu quis me esconder quando todos se viraram para me encarar, como se eu fosse uma alienígena que tivesse acabado de me materializar entre eles. Ótimo jeito de passar despercebida.

— E temos uma aluna nova entre nós. Isso é inédito! — brincou — Acho que você deve se apresentar, senhorita.

Eu queria morrer.

Usei a carteira como suporte para me colocar de pé, evitando olhar para todos os olhos curiosos ao meu redor.

— Meu nome é Abby Black e eu acabei de me mudar de volta para Sawbridge depois de alguns anos morando em Boston.

O Sr. Buckard assentiu e se deu por satisfeito enquanto eu voltava a me sentar, desejando que uma cratera se abrisse aos meus pés e a terra me engolisse. Ele retornou a sua caminhada por entre as carteiras, voltando a sua aula.

— Esse ano a nossa cidade comemora o marco de cento e cinquenta e oito anos desde a sua fundação oficial. A prefeitura, em parceria com a escola, estará promovendo um desfile no sábado, dia 17 de novembro. Nesse meses que nos faltam, nós vamos estudar a história da cidade de Sawbridge, assim como produzir e participar do desfile. Vocês irão se dividir em grupos e cada grupo será responsável pela produção de um carro, retratando algum aspecto da cidade da escolha do grupo. Vocês entenderam?

Houveram diversos ruídos em concordância, enquanto tudo o que eu fiz foi segurar uma careta. Eu deveria imaginar que cidades pequenas vinham com ideias alternativas nada agradáveis. Por que diabos eu não podia me formar em Boston, onde a ideia de um desfile escolar faria a direção do colégio dar gargalhada?

Sr. Buckard voltou para perto do quadro, retirando de sua pasta diversos papéis e um par de livros, distribuindo-os pela mesa antes de se virar para a turma.

— Como um presente, deixarei que vocês escolham o grupo, mas lembrem-se, vocês tem apenas um mês e meio para a montagem e pesquisa. É um tempo muito curto. — ele enfatizou — Darei cinco minutos para vocês escolherem os grupos e o aspecto que desejam retratar.

Virei-me para Cassie com um sorriso que revelava completamente as minhas intenções. Eu já não estava na empolgada com um trabalho como aquele e a ideia de fazer com um grupo que eu não conhecia ninguém soava pior do que qualquer outra coisa. Por sorte, ela também me olhava com o mesmo sorriso.

— Tudo bem se Rhys fizer parte do nosso grupo? — ela perguntou, os olhos brilhando em malícia novamente — Nós sempre fizemos os projetos de História juntos.

Dei de ombros, voltando meu olhar para ele. Rhys mantinha o mesmo sorriso de lado que havia me lançado antes de se sentar, como se soubesse a quantidade de charme que parecia escorrer por ele. Eu o odiava levemente.

— Hum, claro. Sem problema.

— Ótimo. — Cassie exclamou animada, de repente, seus olhos se arregalaram, como se ela tivesse acabado de ter uma epifania — Eu já sei sobre o que podemos falar!

Antes que eu pudesse questionar sobre o que ela estava falando, Cassie já estava fora de seu lugar e em frente ao professor, gesticulando rapidamente.

— Você se acostuma. — disse Rhys.

— Com o que?

— O jeito de Cassie. — explicou — Nós somos amigos desde a escola primária e às vezes eu não consigo entender de onde ela tira tanta energia.

Eu ri, esse era um bom jeito de descrevê-la. A porta da sala foi aberta por um garoto magro de cabelos loiros escondidos pela touca do moletom. O Sr. Buckard — que estava conversando com Cassie — pediu para o garoto se aproximar e conversou com ele rapidamente antes de apontar para Cassie. Ela moveu a cabeça negativamente, mas o professor a interrompeu. Trinta segundos depois, ela retornava cabisbaixa para o seu lugar.

— Rhys, eu sinto muito, muito mesmo. — murmurou — Quando Malcolm chegou, o Sr. Buckard sugeriu que ele fizesse o trabalho com a gente, eu tentei explicar, mas ele…

A expressão descontraída de Rhys se fechou em uma carranca, os olhos esverdeados fixos no garoto que caminhava sem vontade nenhuma pelo corredor de carteiras entre a gente. Cassie trocou um olhar comigo antes de voltar a falar com Rhys, que estava em silêncio.

— Bruhnnell, esta é Abby Black. Abby, este é Malcolm Bruhnnell, nosso mais novo colega de projeto.

Malcolm tinha um olhar de extremo desconforto em sua expressão, mas ainda assim colocou um sorriso em seu rosto e esticou a mão para me cumprimentar formalmente. Ele parecia tão desconfortável por estar naquele grupo quanto Cassie e Rhys.

— Hum, Cassie… Você tinha dito algo sobre já saber sobre o que íamos fazer o trabalho?

O brilho no olhar de Cassie retornou rapidamente, junto com seu sorriso. Quando ela começou a falar, a sua linguagem deixava claro que era somente para mim e Rhys, não Malcolm.

— A mãe de Rhys é uma autora. Ela foi responsável por escrever o primeiro romance histórico sobre Sawbridge. O livro é ótimo e um sucesso total, estão até produzindo um filme sobre ele. — olhei surpresa para Rhys, Call nunca tinha mencionado sobre isso, inclusive, ele chamava a cunhada de ‘troféu’ — De qualquer forma, conta a trágica história de amor de Tobias Graywood e Abigail Chateaubriand. Eu tive a ideia por causa do seu nome, achei que podíamos re-encenar a morte dela.

Franzi o cenho pela quantidade absurda de falta de informação que eu tinha. Primeiro: por que a pousada da vovó era baseada em uma personagem de tragédia histórica? Segundo: que história era essa?

Rhys, vendo a minha confusão, soltou uma risada e se inclinou mais para perto de mim.

— Em resumo, há muito tempo atrás, as famílias fundadoras estavam brigando pelo posto de liderança. Foi sugerido então uma aliança através de casamento, dessa forma, as duas famílias que estavam brigando conseguiriam ter o que desejavam, o poder. O clichê da história toda é que os dois herdeiros realmente se odiavam antes de serem obrigados a se casar, mas se apaixonaram depois. — ele revirou os olhos, ainda sorrindo — Você voltou para uma cidade cheia de lendas, Abby. As lendas dizem que a família Graywood eram capaz de se transformar em grandes monstros na lua cheia, enquanto as mulheres Chateaubriand eram poderosas bruxas.

“Então, quando Tobias morreu, Abigail pediu para que a natureza o trouxesse de volta, o que não aconteceu e ela decidiu fazer um feitiço por conta própria para trazê-lo. As histórias contam que o preço do feitiço foi a vida dela e, quando ele retornou a vida e a encontrou morta ao seu lado, se transformou para sempre em uma besta que ainda pode ser ouvida durante as noites de lua cheia.”

A história era realmente uma tragédia digna de Romeu e Julieta, mas eu não conseguia imaginar como transformar aquilo em um carro para o desfile. Cassie já tinha tirado um caderno de desenho de sua mochila e começou a rabiscá-lo, como se soubesse exatamente o que eu estava pensando.

— Isso vai ficar perfeito. — ela exclamou animada.

Quando o Sr. Buckard se aproximou mais tarde, Cassie e Rhys explicaram a ideia para ele. Ele aprovou e disse que estava ansioso para ver o modo como retrariamos isso no desfile. Combinamos que eu e Malcolm iríamos começar a ler o livro da mãe de Rhys para montar ajudar no projeto.

O sinal bateu quando já tínhamos estabelecido tudo para dar continuidade ao trabalho amanhã. E Cassie avisou que eu deveria me apressar, pois a aula de Álgebra era quase do outro lado do campus. Rhys gritou um tchau enquanto eu seguia os passos apressados da líder de torcida.

— Então, o que há entre Rhys e Malcolm? — perguntei, a curiosidade evidente em minha voz.

— Você percebeu, não é?

— Ninguém parecia muito interessado em disfarçar. — dei de ombros.

— Bruhnnell é um idiota preconceituoso e Rhys é um idiota arrogante, mas Rhys é uma boa pessoa.

O jeito como ela afirmou aquilo tornou explícito que Malcolm não era uma boa pessoa e eu resolvi deixar isso de lado quando chegamos na sala de Álgebra. A professora, Sra. Haven, nos esperava com uma lista de exercícios no quadro, efetivamente dando a conversa por encerrada.

A aula seguinte foi Inglês e eu tive que me despedir de Cassie, enquanto ela seguia para sua aula de Alemão. Ela me deixou em frente a sala com a promessa de me encontrar para o almoço antes de desaparecer por entre os outros estudantes. Assim como na primeira aula, a Sra. Blake pediu que eu me apresentasse para turma e assim eu fiz, recebendo o olhar solidário de Malcolm Bruhnnell a minha frente.

— Ei, Black. — ele me chamou quando o sinal do fim da aula tocou, sorrindo timidamente — Você precisa de ajuda para chegar a sua próxima aula?

— Meu Deus, sim, por favor. — o alívio em minha voz o tinha feito rir enquanto eu recolhia minhas coisas e o seguia para fora da sala — Eu tenho Biologia agora.

Ele retorceu seus lábios em uma careta.

— Com o Sr. Everett? Boa sorte. — brincou — A logística daqui é fácil. Cada prédio é destinado a um setor específico. O primeiro é a administração, refeitório, as salas de estudo e biblioteca, o segundo é a Linguagem, o terceiro é a Matemática, o quarto é Ciência, o quinto é Estudos Sociais. Então temos o ginásio e os pátios. Nós estamos no de Linguagem, então você só tem que atravessar o de Matemática. Eu estou indo para Pré-Cálculo, se quiser companhia.

Eu concordei e o segui até o prédio de Matemática. Malcolm manteve a nossa conversa voltada para a minha chegada na cidade. Se eu estava gostando, estava empolgada e etc. Antes dele se despedir e seguir para sua aula de Pré-Cálculo, encontramos Rhys, que estreitou os olhos na minha direção antes de bufar e entrar em uma das salas.

Sim, ótimo.

Despedi-me de Malcolm, o agradecendo por ter me explicado a logística da escola antes de seguir o meu caminho até a sala de Biologia. Foi preciso passar cinco minutos dentro da sala para entender o motivo de tê-lo me desejando boa sorte. O Sr. Everett era insuportável, com sua voz monótona se perdendo com a explicação sobre a morfologia e identificação.

Eu quase saí correndo quando o sinal do intervalo tocou, meus passos apressados para sair da sala o mais rápido que fosse humanamente possível. Logo no primeiro dia de aula eu tinha a plena certeza de que não conseguiria continuar nessa aula. Eu voltaria para Química básica se precisasse.

— Abby. — a voz de Rhys me chamou quando passei em frente a sua sala. Tive que esperá-lo cruzar o mar de pessoas que nos dividia — Você quer companhia para chegar até o refeitório?

Não havia nada demais em seu convite, as encantadoras covinhas aparecendo mais uma vez quando ele sorriu e esticou as mãos para pegar meus livros. Eu deixei que ele os pegasse em modo automático, surpresa demais com sua ação.

Sim, eu estaria na mais profunda merda lidando com esse garoto todos os dias.

Ele caminhou ao meu lado pelo corredor, a mochila pendurada em um único ombro enquanto equilibrava os nossos livros. A mão livre se ergueu até os cabelos, ajeitando-os para o lado distraidamente.

— Eu meio que estava esperando conhecê-la ontem. Imaginei que tornaria tudo mais fácil ter um rosto familiar com a possibilidade de dividir algumas aulas.

— Sim, hum… Eu não estava me sentindo muito bem. Sinto muito. — desculpei-me rapidamente, encarando meus pés. Eu deveria ter vindo de bota.

Rhys riu.

— Imagino que Cassie já tenha te convidado para ir com a gente no Grill?

Ergui os olhos para sorrir pela sua gentileza, eu não sabia que ele estava agindo assim a pedido de Callum ou se Rhys era gentil e encantador por natureza. Uma parte de mim torcia para que fosse a segunda opção, enquanto a outra parte me dizia que era melhor que fosse a primeira. Eu não podia criar expectativas com garotos como ele.

Yep. Eu gostei dessas tradições de cidade pequena. — respondi honestamente. Em Boston, a maioria se perdia fora da escola — O que mais vocês costumam fazer?

Mais uma vez, Rhys arrumou os cabelos e sorriu. Imaginei que ele tinha aquilo como um gesto nervoso. Eu seria estúpida se pedisse para morder a suas covinhas?

— Nada de muito legal, eu posso prometer a você. — disse ele — O Grill é mais a nossa tradição. As melhores festas sempre são na casa de Dylan, ou na Reserva. Fora isso, eu só consigo pensar nas atividades da cidade. Festival, desfile e essas merdas.

Rhys empurrou as portas do refeitório, mantendo as abertas para que eu pudesse passar. Encontrei Cassie sentada em uma mesa maior no centro do lugar, ela se ergueu o suficiente para que pudesse acenar para nós. Retribui o aceno e procurei por Kyle, encontrando os fios loiros chamativos na mesma mesa que minha suposta nova amiga.

— Se você quiser se sentar, eu posso pegar algo para você. — ofereceu.

— Não, eu vou com você. Você carrega os livros e eu a comida.

A fila para o almoço não era tão grande, de modo que em menos de dez minutos, eu coloquei a minha bandeja — que eu estranhamente havia me encontrado confortável em dividi-la com Rhys — ao lado de Cassie. Rhys tomou o lugar ao lado do meu irmão e exatamente de frente para mim.

— Ei, Abby-cy. Você fez amigos. — Kyle exclamou, a falsa surpresa escorrendo em sua voz — Ei, Rhys.

Estreitei os olhos para ele e atirei uma batata frita em sua direção. Ele riu ao desviar com facilidade, nem se incomodando com o olhar de aviso que eu estava lhe dando. Eu conhecia o meu irmão o suficiente para esperar algum comentário esperto sobre a minha companhia.

— Você já conheceu Cassie, Ky? — falei, mudando de assunto rapidamente.

— Mais ou menos. — ela respondeu por ele — Eu cheguei aqui e ele já estava.

Kyle deu seu melhor sorriso para ela e eu quis soltar um grunhido. Quantas amigas mais eu poderia perder por ter um irmão que não sabia se comportar?

— Kyle Black, muito prazer. — ele ergueu a mão na direção dela para que Cassie entregasse a sua, quando ela o fez, Kyle depositou um beijo nas costas de sua mão — Luke me largou aqui antes de desaparecer.

Rhys soltou uma risada e tentou disfarçar com uma tosse, escondendo os lábios com o punho. Cassie, ao meu lado, atirou um olhar sutil para o garoto.

— Eu pedi para ele te apresentar para os caras do time. — informou Rhys — É uma droga que você faça Economia e não História. O treinador Buckard realmente tem um complexo de deus com a sua matéria.

Não consegui esconder a minha surpresa.

— O Sr. Buckard é o treinador?

Cassie riu, fechando a garrafa de água que estava bebendo antes de colocá-la em cima da mesa, provavelmente sendo a única a entender o meu espanto.

— Eu sei, certo?

Uma careta tomou conta do rosto de Kyle, acompanhando o tom de minha conversa com Cassie enquanto Rhys mantinha uma expressão de profunda confusão em seu rosto.

— Seu marido sabe da sua pequena crush no professor de História, Abby-cy? — Kyle provocou com as sobrancelhas arqueadas.

Antes que eu pudesse matá-lo ou morrer de vergonha, duas novas bandejas foram colocadas em cima da mesa. Uma delas do meu lado e outra do lado de Rhys. Olhei para cima, encontrando um estranho garoto de cabelos curtos castanhos e olhos da mesma cor, sorrindo para mim. Ele era alto e levemente assustador.

O garoto ao lado de Rhys parecia ser potencialmente estranho. Tinha o cabelo preto na altura das sobrancelhas e os olhos cor de avelã, com o porte físico magro e parecia até mesmo desastrado. Essa conclusão foi determinada quando ele derramou toda a sua caixa de leite sobre sua bandeja, ocasionando uma risada pela mesa.

— Esses são Dylan Harris — Rhys apontou para o garoto ao meu lado, que me lançou uma piscadela nada cordial — e Luke Wammes. — o garoto desastrado acenou entusiasmado — Esses são Kyle e Abby Black.

— Eu sou a estrela do time. — Dylan informou.

Luke riu, passando o braço ao redor do ombro de Rhys.

— Se você fosse um ano mais novo, dez centímetros mais baixo, fizesse menos uso de esteróides, fosse mais bonito e talentoso. Além de claro, ter outro nome…

O sorriso de Dylan desapareceu e uma falsa expressão de mágoa surgiu em seu rosto, fazendo com que todos nós tivéssemos que rir. Estendi a mão para pegar uma batata, encontrando o olhar curioso de Rhys sobre mim.

— Então, Abby… — o ombro de Dylan chocou-se contra o meu, fazendo com que eu desviasse o olhar do garoto a minha frente — Seu irmão é praticamente do time. O que você faz?

— Abby é uma ótima nadadora e muito boa na corrida. — Kyle respondeu por mim, na sua nada sutil maneira de me pressionar a voltar a nadar.

Lancei um olhar irritado para ele, pronta para discutir quando Cassie se inclinou para responder Dylan.

— Ela vai entrar para a torcida.

Minha cabeça se virou para encarar Cassie com o cenho franzido. Eu me lembrava claramente de não ter lhe dado uma resposta definitiva para o negócio da torcida. Eu realmente não conseguia me ver nos apertados uniformes dançando para toda a escola e conselho de pais.

— Eu não lembro de ter confirmado isso, Cass. — tentei soar o menos rude possível.

Cassie sorriu e deu de ombros.

— Eu sei que você vai entrar para a torcida.

Rhys gemeu.

— Você tem que parar com isso, Cassie. — ele pediu.

Cassie mostrou a língua para ele, efetivamente o ignorando.

— O que nós perdemos? — Kyle perguntou por mim.

— Cassie costuma a pensar que ela é uma vidente.

— Eu disse para você que seu pai iria se mudar para Portland. — ela quase gritou para ele.

— Você também disse que íamos ganhar o campeonato no ano passado, mas o bebezão ali se machucou e nós acabamos em terceiro lugar. — disse Dylan, apontando para Rhys.

Os olhos de Cassie se estreitaram para ele.

— E eu avisei a Rhys para ficar longe de Donovan naquele dia, não avisei? Além do mais, eu também disse que esse ano eu teria uma nova amiga.

Em seus passos rápidos, Cassie se levantou da mesa parecendo extremamente chateada com o fim daquela discussão. Olhei para Rhys e ele teve a decência de parecer culpado antes de se preparar para levantar, provavelmente para ir atrás da amiga.

— Eu vou. — falei para ele.

Mal havia me colocado de pé quando esbarrei contra uma pessoa, sentindo algo molhado e gelado escorrendo por minha camiseta, do meu peito até a minha barriga. Eu grunhi, me afastando e encontrando umas das líderes de torcida que havia falado com Cassie em seu armário.

— O.M.G., eu sinto muito! Eu não vi você aí. — exclamou, o seu tom de voz nada convincente.

— Claro que não. — eu murmurei antes de passar por ela, seguindo pelo mesmo caminho que Cassie.

Ouvi Kyle e Rhys gritando o meu nome, mas não parei para ver o que eles queriam. Apressei meus passos ao redor das mesas no refeitório, empurrando as portas duplas vermelhas com raiva, a última coisa que eu precisava era ter o meu sutiã exposto para todo o refeitório.

Maldita escolha de roupas nesta manhã.

O banheiro não foi difícil de encontrar, com um grupo de garotas deixando o mesmo entre risadas e comentários sussurrados. Fiquei de frente para o espelho para avaliar os danos, segurando a mim mesma para não voltar e socar a garota idiota.

Claro que isso tinha a ver com ter quebrado alguns dedos na última vez que eu tentei socar alguém. Kyle não tinha sentido nem dor, somente se rolou no chão de tanto rir, dizendo que eu não sabia dar um soco. Ele não teve nem a decência de me ensinar a fazer isso corretamente.

— Droga. — resmunguei em voz alta, pegando uma boa quantidade de papel toalha para tentar secar o maior dano.

— Abby?

Uma das cabines se abriu e Cassie se aproximou de mim, seu rosto assumindo uma careta ao ver o estado transparente de minha camiseta branca. Passei o papel pelo tecido, sem muito resultado.

— O que aconteceu? — ela perguntou, se ajoelhando contra o chão para abrir sua mochila.

— Aquela garota que pediu para você adiantar o teste? Bom, ela não parece tão coordenada assim.

Cassie soltou um bufo irritado que realmente não combinava em nada com a sua aparência de garota perfeita. Do interior da sua mochila, ela retirou uma camiseta que eu imaginei ser da escola, pois era do mesmo tom de vermelho que todo o resto.

— Brianna não gosta de dividir a atenção de Rhys. Vista isso, eu acho que vai servir.

Ela esticou a camiseta em minha direção e eu quis santificá-la. Tirei a camiseta de flanela e a branca em uma velocidade surpreendente, vestindo a que Cassie havia me dado. Mordi os lábios em hesitação quando eu notei que havia mais de dez centímetros de pele da minha barriga a mostra.

— Bom, você é mais alta que eu. — Cassie deu de ombros — Eu odeio a sua genética, vocês Black são abominavelmente bonitos. Amarre a outra na cintura.

Segui sua dica antes de me virar para o espelho e quase soltei um gemido em frustração. Eu parecia exatamente o tipo de garota que fazia parte das líderes de torcida e andava com os garotos do time de basquete. Bom, na verdade, eu estava quase lá e não precisava nem da aparência para isso.

Enrolei a minha camiseta molhada em uma bola quando me lembrei que Rhys ainda estava com meus livros e minha mochila estava no chão do refeitório. Isso era ótimo, agora eu teria que voltar até lá antes de ir para o meu armário pegar o livro de Francês.

O sinal bateu e Cassie me deu um sorriso apologético enquanto me acompanhava para fora do banheiro.

— Tenho Economia Doméstica agora. Você precisa de ajuda para chegar na sua sala? — ela ofereceu.

— Eu a levo. — Rhys interrompeu ao se aproximar, trazendo minha mochila contra um de seus ombros e meus livros em suas mãos — Kyle disse que você tem Francês agora. Eu estou indo para Literatura, mesmo prédio.

— Vou aproveitar a companhia então. — murmurei, lançando um sorriso agradecido para Cassie — Obrigada pela camiseta.

Ela sorriu, arqueando uma sobrancelha de modo provocativo.

— Não foi de graça, Abby Black.

Antes que eu pudesse perguntar sobre o que ela estava falando, Cassie já tinha desaparecido entre o corredor. Rhys apenas riu e indicou para seguir o caminho.

— Você já pode me dar minha mochila, se quiser.

Rhys negou com a cabeça e ergueu a mão para arrumar os cabelos novamente.

— Eu sou um cavalheiro, Srta. Black. Carregar sua mochila me garante a sua companhia sem fugas.

Arqueei uma sobrancelha para ele quando paramos em frente ao meu armário.

— Tenho motivos para fugir de você? Além do óbvio.

Peguei os livros que ele carregava, guardando-os dentro do armário antes de tirar o livro de Francês e outro caderno. Rhys se apoiou contra os armários ao lado do meu, sorrindo de lado.

— Ainda não. — respondeu solene — E o que você quer dizer com além do óbvio?

Fechei o armário e comecei a caminhar, olhando-o por cima do ombro enquanto ele me alcançava.

— Acredito que o nome dela seja Brianna?

As maçãs do rosto de Rhys adquiriram uma coloração avermelhada e eu quis rir, mas mordi os lábios para controlar o impulso. Eu realmente tinha que ficar longe dele antes que fizesse algo que pudesse me envergonhar.

— No Jardim de Infância, eu dividi um cookie com Brianna na hora do intervalo. — Rhys começou a contar, se abaixando e aproximando-se para que somente eu conseguisse ouvir o tom baixo que usava — Ela acha que isso foi um pedido de noivado.

Eu não consegui controlar quando virei para olhá-lo e encontrei uma expressão assustada em seu rosto, como se a ideia de estar noivo com Brianna o trouxesse pânico. Soltei minha risada, lembrando a mim mesma que ele havia se casado comigo e não com ela. Mesmo que fosse a sua versão de quatro anos de idade.

Talvez eu usaria isso para não socá-la no rosto na próxima vez que encontrasse com ela.

— Bom, estarei esperando o convite para o casamento. — murmurei sarcástica quando chegamos na frente da sala de Francês.

O segundo sinal ainda não havia tocado, então eu me apoiei contra a parede. Rhys pareceu que não queria seguir para a sua sala também, se apoiando na parede ao meu lado.

Muito perto.

— Qual sua próxima aula?

Fechei os olhos, tentando me lembrar.

— Estudos Aplicados.

Rhys sorriu.

— Finalmente! — comemorou, jogando os braços para cima em vitória — Achei que somente Cassie iria conseguir o privilégio de tê-la somente para ela por uma aula.

Eu ri, exatamente quando o segundo sinal tocou. Rhys retirou a minha mochila de seu ombro e me entregou, antes de dar as costas e começar a caminhar pelo corredor em direção a sua aula.

— Abby. — ele me chamou quando eu estava prestes a entrar na sala, dei um passo para trás — Você se sairia bem como líder de torcida.

E talvez, apenas por um momento, eu tenha considerado entrar para a equipe.



— Então… — Cassie perguntou quando paramos na quadra de atletismo para fazer o alongamento antes de correr — Como foi Estudos Aplicados?

Fiquei fortemente tentada a revirar os olhos com o tom malicioso em sua voz, mas eu apenas ri quando me abaixava para continuar o alongamento. Eu realmente estava animada para essa aula. Desde que eu larguei os treinos de natação, eu não fazia nenhuma atividade física.

E isso no dicionário dos Black era tão ofensivo quanto xingar a própria mãe.

— Divertido. — respondi apenas, sabendo que isso ia deixá-la curiosa.

— E…?

— Eu comecei a pesquisa para o nosso projeto de História enquanto Rhys trabalhava em seu dever de Física. — conclui. Ela não precisava saber que, em meio a leitura do livro da sua mãe e os exercícios de mecânica quântica houveram mais alguns flertes inocentes como os do corredor — A mãe de Rhys realmente é uma ótima escritora. Eu quase matei essa aula para continuar lendo.

Isso a tinha se distraindo, trazendo o brilho animado em seu olhar.

— Eu sei, certo? — exclamou — Você devia vê-la. É quase um chute na autoestima olhar para ela por muito tempo.

Eu ri. Era fácil de imaginar isso somente conhecendo Rhys.

— Acho que talvez vocês se encontrem em breve. — continuou, olhando para algum ponto por cima do meu ombro — Considerando como seu único filho não consegue tirar os olhos da sua bunda.

Em reflexo, segui o seu olhar. No campo de baseball, Rhys segurava o taco de baseball contra o ombro, mas olhava em nossa direção, mais precisamente para mim. Acenei para ele e vi um sorriso surgindo em seus lábios.

— Ugh, vocês dois serão o tipo de casal impossível de ficar por perto.

— Cale a boca. — murmurei rindo. Não havia chance no inferno que eu fosse namorar Rhys Graywood. Eu não fazia ‘o popular’ — Vamos correr.

Cassie saltitou ao meu lado até o início da pista de atletismo, o sorriso em seus lábios começando a me assustar.

— Vamos fazer uma aposta. — ela propôs — Uma corrida. Se você vencer, eu faço todas as suas tarefas de Biologia pelo resto do semestre.

Se ela queria que eu participasse da aposta, eu já estava dentro somente com essa promessa. Adoraria vê-la sucumbir a pilha de exercícios que o Sr. Everett estaria passando pelos próximos seis meses. Seria um bom castigo para ensiná-la sobre o olhar malicioso que ela me lançava sempre que Rhys estava perto o bastante.

— Mas se eu vencer, você será uma líder de torcida. — conclui, colocando ambas as mãos na cintura em sua melhor pose de capitã.

Sorri e ergui o queixo, cruzando os braços. Cassie deveria saber melhor do que apostar contra a competitividade dos Black.

— Aceito.

Ela devolveu o sorriso, se inclinando para apoiar as mãos contra a pista e dar início a largada. Fiz o mesmo na linha ao seu lado.

— Quem voltar primeiro vence a aposta. Um… Dois… Três… Vai!

Peguei o impulso e comecei a corrida. Cassie era rápida e poderia me passar com facilidade se eu lhe desse essa chance, mas eu estava nessa para ganhar. Eu costumava a ganhar as corridas de Kyle e ele treinava quase todos os dias desde os seus sete anos. Ele odiava demais a ideia de perder para somente me deixar ganhar.

Tão focada quanto eu estava por estar na frente de Cassie, eu não notei que eu não conseguia mais vê-la pela minha visão periférica. Sem diminuir o ritmo me virei para encontrá-la correndo de volta para a largada.

Quem voltar primeiro vence a aposta.”

Vadia manipuladora! Diminui a velocidade da corrida antes de dar a volta para encontrá-la pulando alegremente na linha de largada. Apoiei minha mão contra os joelhos enquanto eu tentava normalizar a minha respiração.

— Eu te odeio, Cassandra Hudson.

Ela sorriu.

— Nós seremos melhores amigas, Abby Black. Eu vejo isso.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.