Saviors of Aernas
1 Prólogo
— Você se considera uma Sieghart lutando desse jeito? Vamos! De pé!
A ruiva estava ajoelhada no chão. Suas mãos calejadas se ergueram do solo junto com o tronco, e em seguida a cabeça levantava para focar os olhos rubros na figura à sua frente.
O homem apressava-a, e ela logo deu uma meia-cambalhota no chão para alcançar sua espada de ferro, e rolou novamente para esquivar-se do ataque que veio em seguida.
De pé em um instante, posicionou sua espada à frente do corpo, punhos na altura da cintura, pernas levemente flexionadas. Sua franja colava em seu rosto, o que a incomodava, mas não tinha tempo para limpar o suor. Seu oponente, Gerard, podia dar um golpe no exato momento que vacilasse.
— Treino encerrado! Recolham seus pedaços e limpem o lugar!— gritou uma voz, não muito distante dali.
Um vasto som de gemidos e sons de alívio ecoaram como em uma caverna, apesar do local ser a céu aberto. Se tratava do campo de treinamento dos cavaleiros vermelhos, em Canaban.
— Você durou o treinamento inteiro dessa vez, mocinha. Mas não está nem aos meus pés.— disse Gerard, com um sorriso no rosto. Ele era jovem, loiro e forte, cerca de 30 centímetros mais alto que sua oponente. – Treine mais antes de me desafiar de novo.
Elesis, a jovem que aos treze anos já desafiava o rapaz de dezessete, apoiou sua espada no chão e resistiu para não cair de joelhos novamente. Deu dois passos trôpegos antes de se equilibrar e endireitar o tronco. Pegou sua bainha, que estava jogada ao chão de terra pisoteada e ajustou os cintos para levar sua espada como uma mochila, nas costas. Gerard já tinha lhe dado as costas e caminhava ao quartel. Ele jogou a espada dele na pilha de espadas de treino, que estava na entrada do campo.
— Elesis Sieghart!
— Aqui!
— Correspondência pra você!
O rosto dela brilhou de felicidade, e ela esqueceu todo o cansaço do treino em um instante. Correu até o homem, que carregava uma sacola de cartas, e gritava também o nome de outros guerreiros que estavam treinando ali. Ele sorriu para a ruiva.
— Você está um caco hoje hein.
— Fala isso de novo que te quebro em dois.— Ela fez um rosto emburrado, enquanto pegava das mãos dele a carta, mas logo dava um sorriso de novo. Não tinha envelope, apenas uma folha dobrada com um pouco de cera para prender. O nome da jovem estava escrito com letras garrafais, e a caligrafia ela já conhecia. Era de seu pai.
Como vai, minha filha? Estou com saudades.
A guerra é um atrito sem fim, espero que a cidade esteja segura. Sei que um dia estaremos lutando lado a lado, então poderei ficar de olho em você.
Não posso voltar pra casa agora. Talvez em alguns meses essa tensão acabe.
Não brigue muito com o Gerard, ok? Mas estou torcendo por você.
Até logo
Elscud Sieghart
Pelo breve momento que lia, ela dava um sorriso de conforto, e tinha uma mão ao peito.
— As coisas estão difíceis lá no vale. Não estão lutando, apenas remontando suas bases pra um novo ataque.
— Até quando essa guerra vai continuar?— ela suspirou e guardou a carta em uma pequena bolsa presa à cintura. – Quero terminar esse treinamento logo pra ir até lá.
— Você ainda é muito nova pra isso.
— Ouvi dizer que o garoto que se tornou guarda-costas da rainha assumiu o cargo aos doze anos! Não me chame de nova!
— Ora, mas ele é um caso à parte, ele... Tá bom, tá bom, me desculpe.— Ele recuou ao ver a baixinha emburrar-se mais e mais.
— Eu vou derrotar aquele idiota do Gerard. Vocês vão ver.
— Estou ansioso pra isso. Seu pai também. Ele ficou impressionado ao ouvir que você lutou contra ele na outra vez.
— Tch.— Elesis virou o rosto. Se lembrava bem de como foi a luta.
— Bom ânimo, minha jovem— ele bateu a palma da mão no topo da cabeça dela, o que a deixou com mais raiva ainda. – Gerard está um passo à frente, afinal ele é mais velho. Um dia você vai conseguir.
Despedindo-se do mensageiro, Elesis seguiu ao quartel, e depois de suas tarefas foi para casa.
Era uma construção estreita, de dois andares. A parte de cima era dividida ao meio, sendo um quarto para Elesis e um quarto de seu pai, Elscud. Ela passou algum tempo relendo a carta que recebeu em sua mesa, à luz da vela, e depois pegou as outras cartas, que guardava em uma caixa que tinha em baixo de sua cama.
Ficava relembrando dos poucos momentos que teve com seu pai. Ele sempre ficava longe de casa, fazendo missões, então ela dava valor até a essas pequenas cartas que ele escrevia.
Tinha esperança de que um dia faria missões com ele.
...
Dois anos depois, uma invasão de monstros assolou a cidade de Canaban, e a Rainha enviou um seleto grupo de combatentes, os Rastreadores de Canaban, em busca da feiticeira que orquestrou as guerras ao longo de cinco anos.
— Pai, me deixa ir contigo! Essa guerra... essa... Cazeaje... se você vai, eu quero ir também!
— Filha, não me impeça de ir, é meu dever para com a Rainha de Canaban. Eu preciso de soldados experientes, não posso levar você.
— Mas eu sou uma oficial agora! A número um dos recrutas! Eu sou capaz de lutar ao seu lado!
— Mas eu quero você em segurança! Você me assustou de verdade aqui na cidade, achei que você fosse morrer!
— Você prometeu! Prometeu que iríamos lutar lado a lado!
— Dessa vez não!
A moça em prantos caía de joelhos com o grito impaciente do pai. A lua quase cheia estava no céu, e as poucas nuvens ao longe tinham um tom avermelhado. O pai se arrependia de rejeitar a promessa que fez com ela, mas ele sabia que levar a moça inexperiente consigo seria imprudente.
Ele se ajoelhou diante dela, e e armadura dele fez um leve som de metal quando se chocou contra a dela, envolvendo-a em um abraço, rapidamente correspondido.
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