Saving people, hunting things, the family business
27 Just a dream
Notas iniciais
*Rose*
Eu não bati na porta antes de entrar, mas também não cheguei arrombando-a. Assim que entrei, me deparei com algo nada esperado, e nada comparado a outra sala em que eu estive. Não havia uma mesa, prateleiras de livros e nem vasos de flores. O lugar era um cubículo, com apenas um alçapão, que eu não abri para ver porque antes que eu pudesse fazê-lo, um homem apareceu.
Não era um homem, eu sabia. Ele carregava “tatuagens” por todo o corpo, em forma de linhas e tracejados. Suas roupas eram escuras, e ele usava um capuz. Djinn. Sim, ele era um djinn.
Ao momento que ele começou a se aproximar, eu saquei uma faca de minha bota. Djinns morrem apenas quando apunhalados com uma faca mergulhada em sangue de carneiro. Nojento, eu sei, mas não sou eu quem faço as regras. Com sorte, eu já havia preparado essa faca há um tempo. Assim que ele a viu, parou de avançar em minha direção.
— Caçadora tola. – Ele rugiu. – Acha que pode me dominar?
— Não, não acho. – Eu disse com a voz calma. – Eu tenho certeza. – Avancei em sua direção com a faca em punhos, pronta para cravá-la em alguma parte de seu corpo. Contudo, a força dele era bem maior do que a minha, fazendo com que ele pudesse me lançar para o outro lado do cubículo. Eu sabia que não poderia continuar lutando daquele jeito, então minha única tentativa foi tentar fugir pelo alçapão.
Rapidamente desci, e me deparei com alguns corpos inconscientes. Suas características batiam com as das pessoas sumidas, logo a resposta foi óbvia. Eram eles. Mas também haviam outros dois djinns naquele lugar, o que eu claramente não esperava.
Assim que me viram, ambos avançaram em minha direção. Eu, infelizmente, havia perdido a faca quando o outro djinn me jogou contra a parede, fazendo com que o trabalho deles de me segurarem se tornasse bem mais fácil. Droga.
Eles me seguravam, e eu me debatia freneticamente em seus braços. Winchester. Ele foi meu primeiro pensamento, mas a ideia de gritar seu nome foi rapidamente excluída das possibilidades assim que lembrei que eles não sabiam que ele estava lá em cima, e de modo algum eu deixaria que esses djinns nojentos chegassem perto dele por minha causa. Eu nunca iria me perdoar se algo acontecesse ao Winchester.
O outro djinn entrou na sala em que os outros me seguravam, seus olhos estavam azuis, e ele avançou novamente em minha direção.
— Você não deveria ter feito isso. – Ele disse, com a voz baixa e calma. – Nós não fazemos mal a ninguém. Essas pessoas que nos alimentam já estavam moribundas antes de aparecermos. Nós apenas estamos fazendo-lhes um favor.
— Vocês são monstros, isso sim. As pessoas tem o direito de enfrentarem os próprios destinos. – Eu cuspi. – E ainda se aliam a bruxas...
— Isso é por mera política. – Ele debochou. – Você deveria ter ficado longe, Caçadora. – Ele tomou meu rosto em suas mãos, e a partir daí eu não estava mais naquela sala.
Realidade alternativa
Acordei em cima de algo duro, aparentemente de madeira. Ao levantar os olhos para ver o que era, me deparei com as teclas de um piano. Sem acreditar, passei minha mão levemente sobre a superfície lustrosa e macia. Olhei em volta e percebi que eu me encontrava em um teatro. Por todos os lados haviam cadeiras com estofado vermelho, e todo o resto era de um dourado perfeitamente detalhado, com exceção do piano, que era alternado em preto na sua madeira, e branco em suas teclas.
Havia tanto tempo...
Lembro-me de vir aqui quando criança e quando adolescente, também. Os concertos eram fantásticos. Eu adorava ver a sintonia de todos aqueles instrumentos; piano, violoncelo, saxofone, prato, tuba, flauta, clarineta... Acho que tudo isso me fez amar artistas como Mozart e Beethoven.
Foi por isso que comecei a aprender piano aos 10 anos. Vendo aquelas teclas, eu não pude me segurar. Comecei a tocá-las sem me preocupar se havia alguém vendo, ou se alguma hora eu teria que parar. Eu só me via pensando no som harmonioso que vagava pelo teatro como vento.
Pena que deixei de tocar ao começar a caçar demônios. Demônios! É por causa deles que eu estou aqui! Quase me esqueci de que isso tudo... isso tudo não era real. Mas os djinns capturavam nossos maiores desejos.
Apalpei meus bolsos para encontrar alguma pista de minha “vida”. Encontrei 40 dólares, chiclete, um molho de chaves e um celular. Obviamente, peguei o celular primeiro, e logo me deparei com uma solicitação de senha.
— Droga! – Eu exclamei não muito alto. Era uma senha de quatro números. Tentei primeiro meu aniversário. 0112. Senha incorreta. Claro, eu não seria tão burra de colocar o meu aniversário. Bem, a pessoa mais importante pra mim, Clarisse. Só podia ser o aniversário dela. 1903. Liberado! Claro, como não pensei nisso antes?
No GPS, encontrei um endereço intitulado de “Casa”. Perfeito. Eu iria para minha casa. Era boa a sensação de ter uma, eu senti falta. Um lar para dormir, para fazer uma ceia de Natal, para se casar e ter filhos...
Saí do teatro, e imediatamente bati o olho na minha Harley-Davidson.
— Ah, minha querida! Sabia que era você! – Eu sorri, e corri em direção à moto. Não foi difícil encontrar a chave naquele molho, afinal, eu já estava acostumada.
Dirigi seguindo as orientações do GPS. A minha primeira reação ao ver a casa foi abrir a boca, chocada. Só podia estar errado. Olhei de novo o endereço, certa que havia errado alguma coisa. Conferi três vezes, mas parecia ser aquilo mesmo.
Era praticamente uma mansão. Tinha, no mínimo, quatro vezes o tamanho da casa em que eu morei minha vida toda. O jardim era repleto de rosas, minha flor favorita. A casa era alta, cheia de vidros e detalhes em mármore; dava pra ver que luzes se acendiam no andar de cima, então tinha gente lá dentro.
Abri a porta, e me esforcei para não deixar meu queixo cair novamente. Eu deveria ter um emprego muito importante. Mas o que mais me impressionou foi ver a minha imagem no espelho.
Eu não me reconheceria. Minhas roupas não eram todas pretas, e nem de couro. Eram roupas bonitas, mas não tinham a menor flexibilidade, eu notei. O meu cabelo, ao invés de bater um pouco abaixo dos ombros e ser liso, estava perfeitamente arrumado, batia abaixo do meu peito, e tinha alguns cachos nas pontas. Eu também usava maquiagem, obviamente não muito forte, mas ela ainda estava lá. Podia-se dizer que eu estava bonita.
Andei mais adentro da casa, então meu coração quase saiu pra fora quando eu vi Clarisse deitada no sofá, assistindo televisão. Ela usava um jaleco branco, simbolizando que ela havia se tornado médica, como sempre quis.
— Oi. – Ela disse do sofá. Um bipe veio de algum lugar da casa. – Eu fiz chocolate quente para nós duas.
Ela se levantou para ir buscar o chocolate, mas eu imediatamente corri e a envolvi num abraço. O corpo alto e magro dela ainda era bem difícil de ser abraçado por alguém como eu. Tudo bem, eu não era baixinha e nem gorda. Eu cheguei no 1,70m e eu tinha um pouco mais de curvas do que ela. Só isso, mas mesmo assim, seu abraço me dava alívio.
— Hm, obrigada, Rose. – Ela disse meio sem jeito. – Aconteceu alguma coisa?
— Saudades, Lissa. – Eu disse olhando em seus olhos verdes. – O dia no trabalho foi duro? – Eu perguntei, querendo saber de sua vida. A vida que ela queria.
— Não, na verdade não. Mas você sabe que é meio cansativo às vezes. – Ela disse, indo buscar o chocolate na cozinha. Fui atrás dela. – Falando em trabalho, me ligaram lá da prisão agora há pouco. – Me espantei imediatamente.
— Prisão? – Eu perguntei, com medo da resposta. – O que queriam?
— Te elogiar. Acharam seu projeto maravilhoso, Rose! – Ela disse animada. Então eu não havia sido presa, eu havia projetado a prisão. – É claro, depois que viram o projeto do Hospital, não tinham como recusar esse.
— O que você sabe sobre demônios, Liss? – Ok. Eu não pude me conter. Precisava saber.
— Que o meu chefe pode ser um. — Prendi a respiração por uns segundos. – Que tipo de pessoa manda as outras irem trabalhar agora? Inacreditável... – Ela terminou seu chocolate. Demônios não existiam nessa vida. – Você viu algum filme de terror, Rose?
— É. Vi sim. – E ele se chama “Minha vida real”, eu tive vontade de acrescentar.
— Não vai tomar seu chocolate? – Ela perguntou, e eu beberiquei a bebida, que estava muito boa, por sinal. – Desculpe, Rose, mas vou ter que ir agora. – Ela beijou minha bochecha e saiu pela porta.
Eu olhei pro chocolate por alguns segundos, até que me toquei que eu havia visto luzes acendendo no andar de cima. Me animei com a ideia de poder ver meus pais novamente.
Saí correndo em direção às escadas, e subi o mais rápido que pude. Olhei em todos os quartos, e nada. Só restava um quarto, o último do corredor. Saí correndo em direção à porta branca, e ao chegar nela, não foram meus pais que eu vi.
Parei bruscamente, e fiquei observando. Eu não acreditava em meus olhos, minha mente girava e tentava achar outra explicação para aquilo, enquanto o meu coração quase explodia.
— Não... – Eu sussurrei no ar. – Isso não é real... Isso está errado... – Eu pus a mão em meus cabelos. – Como eu...? Você...
Mas então, o sonho acabou.
Mundo real
Eu fui arrancada do sonho bruscamente. Meus olhos estavam sonolentos, eu mal conseguia me sustentar. Minha mente tentava achar mil explicações para o que eu havia acabado de ver, mas apenas uma era válida, mesmo que eu nunca havia percebido.
*Sam*
Com a ajuda de Zaniel, foi fácil matar todos os djinns, demônios e bruxas que restaram naquele lugar. A tarefa estava cumprida, logo Morte seria nossa ajuda agora. Dean e Clarisse não estariam presos por muito mais tempo.
Nós descemos pelo alçapão que encontramos, e já que todos os djinns estavam mortos, o caminho estava livre para acordar as pessoas. Mas a minha mente focou em Rose, que estava amarrada pelas mãos e presa num sono causado por um djinn. A única maneira de tirá-la de lá era acordando-a.
Aproximei-me rapidamente dela, e desprendi suas amarras. Deixei que Zaniel cuidasse dos outros. Ela caiu inconsciente, e eu fui rápido o bastante para segurá-la. Deitei seu corpo no chão, segurando sua cabeça.
— Rose... – Eu a chamei, chacoalhando levemente seu corpo. – Rose... – Eu a chamei novamente. Dessa vez, ela abriu lentamente os olhos.
— Winchester... – Ela resmungou, totalmente sonolenta.
— Oi, Rose. – Eu sorri para ela. – Vamos. Nós conseguimos.
— Conseguimos? – Ela perguntou, enchendo os olhos de alegria. – Vamos ver nossos irmãos de novo, então? – Ela perguntou esperançosa, mesmo ainda estando praticamente inconsciente.
— É, sim! – Eu sorri para ela novamente. – Nós vamos vê-los! – Foi então que um brilho acendeu em seus olhos, e ela abriu um largo sorriso, mas logo então caiu no sono por causa dos efeitos do veneno do djinn. Mas do mesmo jeito, ver Rose sorrindo me fez querer ir naquele exato momento atrás de Dean e Clarisse, só para poder vê-la feliz.
* * *
Zaniel cuidou das outras pessoas que haviam sido presas pelos djinns. Ele as levou para suas respectivas famílias, e cuidou para que não chegassem em um estado, digamos, precário.
Deitei Rose na cama do quarto do hotel em que estávamos. Com sorte, estava bem escuro, e eu consegui despistar os seguranças do hotel para que eles não a vissem. Eu tirei, com todo o cuidado possível, seu casaco sujo e as botas de couro. Em seguida, coloquei um cobertor sobre seu corpo, para que ela dormisse sem frio, e deixei uma garrafa de água no criado mudo para que ela pudesse tomar se estivesse com sede.
Então comecei a sentir toda a dor que eu havia rejeitado esse tempo. Fui até o banheiro, e tirei o casaco e a blusa. Olhei meu peito nu no espelho e encontrei alguns hematomas, e no meu braço havia um corte feito por um pedaço de vidro quebrado, que estava doendo muito.
Comecei a limpar o corte, e percebi que estava um pouco profundo. Peguei uma caixa de primeiros socorros que estava nas coisas que eu costumava levar para os lugares em que caçávamos, e tirei um antisséptico.
— Está tudo bem? – Uma voz veio da porta do banheiro, olhei pela imagem no espelho e vi Rose me olhando.
— Você deveria ir dormir mais, Rose. – Eu disse, ainda jogando antisséptico no corte. – Eu estou ótimo, isso não foi nada. – Ela se aproximou, olhando para o meu braço.
— Acho que vai precisar de uns pontos. – Ela disse, preocupada. – Parece bem profundo.
— É sério, isso não foi nada. Nada com o que se preocupar, Rose. – Mas ela já estava procurando linha e agulha na caixa de primeiros socorros.
— É melhor fazer isso agora. – Ela olhou nos meus olhos. – Prometo que vou tentar fazer o melhor possível, mas vai doer um pouco.
— Tudo bem. – Eu estendi o braço pra ela.
Rose estava certa, doía muito. Mas ela estava se esforçando para não me machucar. Percebi que o melhor jeito de esquecer a dor era falar com ela.
— Amanhã nós iremos falar com a Morte. – Eu comecei dizendo. – E Castiel conseguiu fazer com que o Céu nos ajudasse.
— Que ótimo. – Ela sorriu sem mostrar os dentes, e continuou com os olhos no meu braço. – Nós vamos conseguir.
— Vamos. – E fiz uma pausa. – Como foi? O tempo em que você... bem... você sabe...
— Em que eu estive sonhando? – Ela foi bem direta, e eu assenti. – Foi... estranho. Eu era uma engenheira civil, dá pra imaginar?
— Você teria sido, se não fosse tudo isso.
— É. Talvez. – Ela curvou os lábios. – Eu até tinha uma casa bem legal, e grande.
— Você viu sua família? – Eu perguntei, um pouco mais sério.
— Clarisse. – Ela também ficou um pouco mais séria. – Acho que meus pais estavam vivos, mas eu não os vi. Eu só vi... – Ela não terminou a frase, e seu olhar escureceu.
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