Notas iniciais
*Rose*
Eu não queria encontra-lo. Não queria ver sua cara e pensar que ele era o homem que me fez sofrer a vida inteira. Ele era o homem que me fez achar conforto na dor, que me fez degenerar aos poucos minha alma cada vez que matava um demônio. Eu o odiava por isso, e sabia que de forma alguma seria capaz de chama-lo de pai. Meu pai se chamava Marcel Berkenhout, e ele era um engenheiro casado com uma professora chamada Alexandra Berkenhout, e juntos tinham uma filha chamada Clarisse, que era também minha irmã.
Todavia lá estava eu. 11h45min. O hospital abandonado era frio, tinha macas ensanguentadas por todos os cantos, as janelas estavam fechadas e tampadas por madeira, as luzes estavam quebradas, assim como a maioria das coisas naquele lugar. Eu tinha um machado de ferro na mão, caso aparecesse algo “indesejado”.
— Não precisa ficar aqui se não quiser. – Sam disse à mim. Eu mal conseguia enxerga-lo na escuridão daquele lugar.
— Eu sei. Mas eu vou ter que enfrentar isso uma hora ou outra, e fico feliz que seja por alguém que amo. – Ele riu.
— Vocês sempre foram unidas assim? Você e Clarisse? – Ele perguntou.
— Nos aproximamos quando eu tinha uns quatorze anos. Antes disso ela não gostava de mim. Uma vez escutei ela dizendo que tinha inveja porque minhas notas sempre eram maiores e porque nossos pais preferiam eu.
— O que a fez mudar de ideia?
— Na nona série tinham umas meninas que se sentiam superiores à todo mundo. Elas eram o tipo de gente que usava salto alto pra ir pra escola e transavam com todo o time de futebol. Uma vez estavam incomodando Lissa, e eu dei uma lição nelas.
— Você bateu em patricinhas? – Ele perguntou surpreso e tirando sarro.
— Ei, não ria! – Eu disse brincando, dando um soco em seu braço. O braço dele era grande e duro. – Elas mereciam.
O sorriso dele era cativante, e me fazia querer sorrir também, o que acabei fazendo. Nos entreolhamos no meio de risadas, e acabamos sendo interrompidos por Crowley. Parei de sorrir no momento em que o vi. Um sentimento de repulsa cresceu em mim, e tive vontade de mata-lo. Contudo, apenas me levantei e cruzei os braços.
— O que você tem? – Sam perguntou, se levantando também.
— Direto aos negócios? – Ele riu, e andou pela sala. – Eu ia comentar como adoro lugares abandonados, eles tem um mistério e uma história... interessantes. Os hospitais, particularmente, tem milhares de espíritos presos, já que é onde muitas pessoas morrem.
— Eu perguntei o que você tem. – Interrompeu Sam, antes que Crowley pudesse continuar. – Olha, se você tem tempo pra perder falando de coisas inúteis, o problema é seu. Nós temos pessoas que amamos com dois arcanjos que, aliás, estão prestes e aptos a destruir o mundo.
Crowley olhou para Sam com um meio sorriso no rosto. Sam o olhava com uma mistura de raiva e desespero. Às vezes eu me esquecia que ele também tinha um irmão que significava tudo pra ele, e que fora capturado.
— Sabe, Alce, você tem atitude. Eu admiro isso, e acho uma pena que sempre viva a sombra de seu irmão, já que vocês tem o mesmo potencial. Mas enfim, vamos ao ponto. Sei onde achar Clarisse e Dean.
— Então diga. – Eu disse. – Vamos até lá e os pegamos. Depois só precisamos achar um jeito de mandar Lúcifer e Miguel de volta pra jaula.
— Não é tão fácil assim. Chegar lá é fácil, o problema é como vamos entrar, ou sair, se tivermos sorte. Enquanto Lúcifer estava preso, os seguidores dele construíram o que podemos chamar de fortaleza, pois acreditavam que ele iria sair de lá. Eu mandei uns demônios meus checarem os detalhes, e me disseram que tanto Dean quanto Clarisse estão lá. Mas pra entrar lá é preciso ter uma chave.
— Uma chave? Tão simples assim? — Perguntou Sam, caçoando.
— Não é tão simples, porque essa chave está com um monstro chamado Kraken.
— Kraken? – Eu ri. – Você quer que eu acredite nessa lenda?
— Acho que vampiros e lobisomens também já foram lenda pra você. – Disse Crowley. – Mas o Kraken é muito pior do que as lendas. Ele não fica apenas no mar, ele também pode estar na terra, e se alimenta de almas.
— E como fazemos para chama-lo? – Perguntou Sam.
— Aí vem a parte complicada. Nenhum demônio ou anjo é capaz de invoca-lo, apenas quem tem sangue humano correndo nas veias pode fazer isso. No caso, são vocês. E não é nada fácil, nem simples.
— Eu vou fazer de tudo por Clarisse. – Eu disse com firmeza. – Não importa o que. Então, se eu fosse você, Crowley, pularia logo pra parte em que eu ajo.
— São três tarefas. E apenas os que vão realiza-las tem conhecimento delas, por isso que não tem como eu saber. E se algum de vocês contar para uma pessoa, um caçador, um anjo, um demônio, ou qualquer um... – Ele fez um movimento horizontal com o dedo pela garganta, simbolizando a morte.
— Ótimo. – Sam debochou. – E como exatamente descobrimos quais são? – Com essa pergunta, Crowley riu.
— Morte.
*Dean*
Eu não tinha mais ideia de quanto tempo havia se passado desde que eu estava preso naquele lugar. Eu recebia comida e água, apenas o necessário para eu sobreviver. As únicas coisas que tinham no quarto eram uma cama, um banheiro com um chuveiro quente, uma pia e uma privada; e uma janela que dava para o mar.
Nos primeiros dias eu tentava destruir inutilmente a janela, mas era de vidro blindado. E mesmo que eu conseguisse destruí-la, não tinha jeito de eu escapar. Primeiramente, eu estava a pelo menos, vinte metros de altura. E ainda assim, não teria para onde escapar. Eu estava cercado pelo mar e pelos demônios. Então, com o tempo, eu comecei a desistir de quebrar aquela janela, e passei a apenas ficar observando o movimento do mar e das ondas. Uma vez eu, Sam, Clarisse e Rose planejamos ir pra praia, mas acabamos sendo atrapalhados por demônios.
Agora cá estou eu, observando a praia, sozinho, esperando que alguém me tirasse desesperadamente dali. Então alguém entrou. E antes que eu pudesse ver quem era, a pessoa se jogou em cima de mim. Eu estava prestes a quebrar o pescoço dela, mas então vi os cabelos loiros no canto do meu olho.
Clarisse.
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