Notas iniciais
*Sam*
Dois dias depois de tudo ter começado, eu e Rose estávamos sentados em um restaurante renomado, esperando por ele. Parecia que seria ali que Morte estaria pronto para nos encontrar.
— Por que um restaurante? – Rose perguntou confusa. – É um lugar muito comum para encontrarmos a Morte. Literalmente.
— Ele sempre teve um fetiche por comida. Acho que a comida de seja lá de onde ele tenha vindo não é tão gordurosa quanto a nossa. – Ela deu uma risada. Eu me diverti com o seu sorriso até ver um homem entrar pela porta.
Naquele exato momento, uma leve brisa mais fria bateu. O barulho do restaurante diminuiu consideravelmente quando aquele homem com um sobretudo preto e um semblante austero adentrou o restaurante.
Rose não havia percebido quem chegara. Ela continuava com as pontas dos lábios curvadas pra cima, mexendo na batata frita que conseguíramos pedir. Um garçom foi atender Morte, e o guiou para uma mesa no canto do restaurante. Aos poucos, as conversas e os tilintares dos talheres voltaram a tomar conta do silêncio.
— Rose. – Eu a chamei, e olhei para Morte. Assim que seus olhos avistaram aquela figura, senti seu corpo inteiro se enrijecer. O olhar amedrontador dela tomou conta do seu pequeno e silencioso sorriso, e o punho se fechou de forma que suas juntas ficassem brancas. – Acho que ele não vai vir até aqui.
Ela então se levantou da mesa e foi abrindo caminho entre as mesas do restaurante até chegar em Morte. Rose tomou o lugar na frente dele, e eu me sentei logo ao lado dela.
— Sam Winchester. – Ele me observou com um olhar indecifrável. – Há quanto tempo.
— Eu sou... – Começou Rose, mas antes que pudesse terminar o que estava dizendo, foi interrompida por Morte.
— Rosemarie Berkenhout. Eu sei. E tenho certeza que não será necessário eu me apresentar. – Ele lançou um olhar penetrante a ela, mas Rose manteve-se o encarando. – A que lhes devo tal companhia?
— Precisamos de ajuda. – Eu disse. Morte desviou o olhar de Rose para mim, e largou os talheres enquanto limpava a boca com um guardanapo de linha. Prossegui. – Lúcifer e Miguel escaparam da jaula.
— Eu já sabia disso. – Disse Morte sem pestanejar.
— Dean e Clarisse foram pegos por Lúcifer. Não sabemos sobre Adam, mas com certeza um dos dois o pegou também. – Eu continuei.
— E você espera que eu faça o que, sr. Winchester? – O sarcasmo nas palavras de Morte era evidente. – Que me proponha a me arriscar por você e por seus amigos? Vai ter que me oferecer algo bem valioso em troca de minha ajuda, sr. Winchester.
Olhei para Rose. O punho dela estava cerrado em baixo da mesa. Era possível ver faíscas saindo de seus olhos. Era capaz de ela avançar sobre Morte naquele momento. Eu não poderia deixa-la chegar perto disso, senão não teríamos chance de recuperar Dean, Clarisse, ou até mesmo chegar perto de Adam.
Fiz então a primeira coisa que me veio à mente naquele momento: segurei sua mão. Eu não havia pensado antes que não era a mão de uma pessoa comum e como qualquer outra. Era Rose. Eu iria tirar minha mão de cima da sua antes que ela enfiasse uma faca no meu braço, mas então ela entrelaçou os dedos nos meus. Quando eu olhei em seu rosto, as feições estavam mais leves e os olhos suavemente fechados. Ela estava bem.
— Você nos propõe alguma coisa? – Eu perguntei, bem mais calmo também. – Algo que possamos fazer?
Morte nos olhou com um olhar indecifrável. Eu fiquei observando enquanto esperava ele esboçar alguma reação. O olhar dele parou em Rose. Ele a observou por alguns segundos, e então voltou a manusear seus talheres.
— Existe uma coisa, na verdade. – Rose e eu o olhamos interessados – Tem um grupo de bruxas se reunindo a um grupo de djinns ao leste do país. Eles, bem, estão com várias pessoas, muitas as quais já deveriam ter morrido. Presumo que vocês já saibam o que fazer.
— Se acabarmos com eles – perguntou Rose — e trouxermos essas pessoas à você, irá nos ajudar?
— Sou um homem de palavra, Rosemarie Berkenhout. – Ele disse, com um pingo de indignação na voz. – Se eu disse que iria, então irei. Agora, creio que vocês dois tem muito trabalho pela frente se quiserem minha ajuda. E eu não perderia muito tempo se não quisesse ver meus amigos mortos antes disso tudo acabar.
— Achou alguma coisa? – Rose e eu estávamos a caminho do leste dos Estados Unidos. Eu dirigia, enquanto ela procurava o lugar exato aonde teríamos que ir.
— Nova Iorque. – Ela me respondeu. – Parece que algumas pessoas estão sumindo por lá.
— Algum padrão, alguma coisa assim?
— Na verdade sim. Acho que entendi a preocupação de Morte. Parece que todas essas pessoas que estavam sendo levadas estavam a beira da morte. Foram dois idosos, um garoto de 17 anos que sofreu um acidente de carro, uma mulher de 41 com câncer terminal. Tudo isso em duas semanas, pelo menos foi o que descobriram até agora.
— A polícia descobriu alguma coisa até agora? Tem algum suspeito em vista?
— Aqui não diz nada sobre isso. Acho que isso vai ser com a gente mesmo. – Ela deu uma pausa. – Você pode passar em algum lugar para comprar umas batatas fritas e uns hambúrgueres?
— É claro que eu posso. – Então compramos comida, e seguimos até Nova Iorque.
*Dean*
— Nós não temos muito tempo. – Ela sussurrou no meu ouvido, então saiu do abraço. Olhei dentro de seus olhos verdes por um tempo. – Ele me deixou vê-lo só por quinze minutos, e está vigiando tudo o que fazemos. Dean, eu estou com medo. Eles querem Rose. Eles querem minha irmã. – Eu vi lágrimas escorrendo pelo seu rosto.
— Rose é inteligente. – Eu disse, abraçando Clarisse. – Eles não vão conseguir pegá-la. Lúcifer está fazendo isso por causa de Sam, não é? – Ela assentiu.
— Dean, eu não posso deixa-la chegar até aqui. E ela vai vir por minha causa. Por nossa causa. Ela pode ser inteligente, mas no final a coragem dela é maior do que qualquer inteligência. Ela vai ser torturada e morta se vier aqui. Eu não posso deixar que isso aconteça. Eu não iria suportar. – Mais lágrimas rolaram por seu rosto.
— Ei, não chore. – Eu segurei o rosto dela. – Não chore, Clarisse. Eu já estive nessa situação milhares de vezes por causa de Sammy, e agora estou também. Mas eu precisei ser forte pra encarar a situação com a cabeça focada, e chorar não adianta merda nenhuma. Você precisa ser forte, Clarisse.
— Tudo bem. – Ela limpou as lágrimas das bochechas. – Rose me diria a mesma coisa. Eu vou ser forte por ela.
— Espere. Como sabe de tudo isso?
— Lúcifer vem me ver todos os dias. Ele me traz comida, me conta algumas coisas, e com o tempo passou a trazer filmes, CDs e livros. Se não me prendesse aqui, e não estivesse prestes a pegar Rose e Sam, ele seria uma boa pessoa.
Ninguém nunca me trouxe livros, música ou filmes nesse lugar. Minha comida era jogada por um buraco debaixo da porta. Ninguém nunca havia vindo falar comigo, ou me contar alguma coisa. O fato de Lúcifer estar dando uma atenção especial para Clarisse me encheu de uma mistura de raiva e algo que eu não sabia exatamente o que era.
— Não se distraia com nada disso. Nós vamos sair daqui, e Rose e Sam estarão bem. Prometo. – Ela deu um sorriso, e começou a se afastar, já que a chamaram lá de fora. Quando estava prestes a sair pela porta, Clarisse virou-se e veio em direção a mim. Não havia mais distância entre nós quando descobri o que ela estava fazendo. Segurei sua cintura, enquanto ela puxava meu cabelo. Eu queria fazer muito mais do que só beijá-la naquele momento. Começamos a aprofundar o beijo, quando a chamaram de novo. Uma onda de raiva me atingiu, então ela me soltou com uma mordida no lábio inferior.
— Eu vou dar um jeito de voltar. – Então ela saiu pela porta.
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