Satisfaction
26 Capítulo 22 - Aguardado Retorno
Notas iniciais

A cada olhada ao seu reflexo que a sucessora dos McGarden dava, mais nauseada se sentia. Levy estava de pé sobre um banquinho para auxiliar o trabalho de Natsu, que fizera questão de trabalhar ele mesmo em seu vestido de noiva. Lucy segurava a amiga pela cintura, com ambas as mãos firmes, a pequena havia perdido muito peso desde que Gajeel partira para Crocus – há quatro dias – e não conseguia alimentar-se direito, mesmo que Rogue lhe aplicasse o extrato de pâncreas regularmente.
O trio mal acreditava que o casório seria nos próximos dois dias, tudo havia passado tão rápido. Rogue tentara comunicar-se com o Redfox por telegrama, mas não fora respondido. Apenas Deus sabia o que estava ocorrendo na capital de Fiore, as respostas que o advogado obtivesse de Kagura seriam suficientes para impedir o casamento nada desejado entre os amigos de infância, pois um escândalo vindo de uma família de status como os Cheney causaria um grande choque na sociedade de Magnólia.
— Ei, Natsu, tem certeza de que não está espetando-a com estes alfinetes? — a Heartphilia perguntara, preocupada, ao rosado, mirando o tom amarelado do rosto de Levy.
— Mas é claro que sim, tenho as mãos firmes. — o Dragneel fechara os olhos, forçando um ar arrogante. — Levy reclamaria se eu a espetasse, não reclamaria?
Sorrindo para tentar animar o clima, Natsu perguntara para a futura noiva, mas tudo o que obteve como resposta fora um suspiro. As olheiras da azulada estavam mais que aparentes em sua pele branca, cada vez mais pálida. A alegria de viver parece que deixou seu corpo junto com todas as emoções possíveis um dia após a partida de Gajeel. Ninguém sabia, nem mesmo a Lucy, o porque de Levy ter ficado tão abatida. Rogue não se manifestava sobre o estado deplorável no qual a garota se encontrava, mas via nos olhos da amiga que já havia aceitado o fracasso da missão do moreno.
— Com licença, não quero atrapalhar o trabalho do sr. Dragneel. — Elevínia adentrara o atelier, com dissimulada humildade, botando reparo em cada bordado do vestido de noiva de sua filha.
— Imagine, Elevínia. É a sua filha que vai se casar, não é mesmo? Pode ficar aqui o tempo que desejar acompanhando o processo. — o rosado dissera de forma simpática, mesmo que aparentasse ser um paspalho, ele também sabia fingir.
A mais velha sentara numa das cadeiras ao lado do grande espelho, mesmo vendo o ar doente que Levy emanava, parecia não se importar. Acreditava veementemente que, quando a filha se casasse, esqueceria do Redfox e de sua doença com o poder e o luxo que viriam de brinde. Porém, no resto de empatia que restara em Elevínia, sabia que estava completamente enganada.
—x-
O clima estava um tanto quanto inóspito naquela noite na capital de Fiore. A ventania forçara Gajeel e a desconhecida a procurarem por abrigo, no caso, a casa da mesma. Um quarto alugado numa pensão barata, todavia bem limpo e arrumado. Apenas dois cômodos, o quarto se emendava com a cozinha improvisada – um fogão, dois armários e uma mesa com duas cadeiras, a porta aberta denunciava um pequeno banheiro com uma tina quase cheia. O advogado pensou que a moça teria se banhado antes de sair de casa.
— Pois bem, fique à vontade, senhor…?
— Redfox. — Gajeel respondera automaticamente, observando cada canto do modesto quarto com as mãos nos bolsos.
— Certo, senhor Redfox. Como perguntara, antes de termos de entrar em minha casa, sim, sou Kagura Mikazuchi. — enquanto falava, a morena pusera seu chapéu no cabideiro, assim como seu casaco. — O que me intriga, no entanto, é como o senhor tinha esse palpite. É da polícia?
Acordando de seus pensamentos a cerca do imóvel, Gajeel negara com a cabeça, acomodando-se na pequena cadeira da mesa de jantar, oferecida pela dona da casa.
— Sou advogado, e é como profissional que vim procurá-la, a pedido de Rogue Cheney. — dito isso, o Redfox entregara a carta escrita com a caligrafia de Rogue, uma declaração para que Kagura não suspeitasse do homem que estava a sua frente.
Com um olhar afiado como de um felino, a Mikazuchi dera um último olhar a Gajeel e tomara o envelope de suas mãos, abrindo-o com destreza. Seus olhos rígidos passaram rapidamente linha por linha, absorvendo as palavras de seu ex-quase-noivo. Não havia dúvidas de que fora o Cheney que escrevera a declaração, mas ela confiava nele, não naquele estranho. Percebendo o olhar desconfiado de Kagura, Gajeel adiantara-se:
— Rogue fizera questão de escrever sobre os motivos que me trouxeram aqui, espero que colabore comigo, pois duas pessoas que amamos estão em jogo. — o olhar sincero do moreno a fez vacilar, ainda nutria sentimentos fortes por Rogue, fortes o bastante para fazê-la chegar a consequências extremas por ele.
— Duas pessoas…? — a voz da mulher saíra fraca.
— É quase certo que Rogue tenha lhe falado sobre sua amiga diabética de infância, Levy McGarden. — mesmo de costas, Kagura assentiu. — Ela é minha mulher. — com essas palavras, a morena virara-se, de olhos arregalados. — Claro, não estamos casados, digo, ainda não. Creio que Rogue foi sentimental demais na carta, afinal, eu não a li, então vou resumir a história para você.
A mulher permanecera sentada de frente ao advogado durante toda sua narrativa, que começara desde o dia em que conhecera Levy na festa do Conde Jude Heartphilia, frisando que a mesma tentara se matar pela notícia dada de seu casamento arranjado, até a partida da casa dos Cheney para Crocus, em busca da portadora do segredo arrasador da família aristocrata, capaz de anular a cerimônia matrimonial. Kagura prometera ao seu avô não contar para ninguém a bagunça que constituía a árvore genealógica da família de Rogue, mas conforme Gajeel falava, seus pensamentos moldavam-se aos poucos.
— Ele estava certo quando disse que eu tenho esse segredo… O segredo que nem ele sabe. Mas receio não poder contar ao senhor, senhor Redfox. — o moreno estava prestes a exaltar-se quando a Mikazuchi ergueu seu dedo indicador. — Eu não contarei a você agora. Leve-me com o senhor e contarei em frente a toda a igreja, diante de toda a sociedade de Magnólia.
— Como posso confiar em sua palavra? Rogue me disse que é astuta, estou surpreso em não ter que insistir durante horas para que partilhe dessa “bomba”.
— Eu cresci aos cuidados de meu avô, pois meus pais me abandonaram muito cedo. Fiquei só com quinze anos, e a única saída para garotas fracas sobreviverem é o casamento. Mas, para mim, não. Lutei muito para ter meu sustento, senhor Redfox. Quando Rogue me conheceu eu trabalhava num bar que servia de bordel, eu dançava para sobreviver, mas nunca vendi o meu corpo. A vida nunca se mostrou fácil para a pequena Kagura Mikazuchi, ainda bem que cresci. — Kagura rira fracamente, lembrando-se de todos os anos que vivera.
— Aonde quer chegar com isso, senhorita? — Gajeel perguntara, um tanto curioso e impaciente.
— Rogue foi e é tudo para mim. Por mais independente que eu seja, ele é o que a vida me deu, em todos estes anos. Deve confiar em mim porque, como você, senhor Redfox, não estou disposta a perder quem amo.
Inspirado pelas palavras da morena, o Redfox dera seu típico sorriso de canto, cruzando os braços no peito.
— Pois bem, creio que teremos de arrumar uma carruagem para partimos logo de manhã.
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