Sapatinhos de Cristal
3 CAPÍTulo III
Notas iniciais
O céu acinzentado fazia um contraste melancólico com a brancura da paisagem, algo de entristecer qualquer coração que viveu ali anos atrás, quando o inverno era apenas uma palavra dentre várias.
Em meio a tanta neve e árvores secas, Karin, sem pressa, envolvia um dos cobertores que trouxe ao redor de uma Sakura surpresa, meio perturbada e desorientada. A cena da amiga se curvando após dizer com muita clareza uma saudação um tanto quanto antiga era no mínimo assustadora, causando mais confusão na mente da Haruno.
— Não faça essa cara estranha. Você deveria estar feliz em saber que é uma rainha, qualquer pessoa ficaria assim ao descobrir isso. – disse Karin, fazendo um nó com as pontas do cobertor.
— Você não está falando sério. Reis e rainhas deixaram de existir a séculos.
— No planeta Terra sim, mas você não está mais lá. – e envolveu o outro cobertor em torno si.
— Ainda continuo achando que você está delirando e precisamos ir a um hospital. – falou Sakura, fixando seu olhar na blusa manchada de vermelho da outra.
— Devo lembra-la que pulou em um livro e foi sugada pelo mesmo há trinta minutos, que viu papel envolvendo suas pernas sem ajuda de uma pessoa, e que sobreviveu a uma grande queda? Se sim, vamos logo a uma clínica psiquiátrica, porque você também está delirando. — falou enquanto jogava o cabelo ruivo para trás.
— Tudo isso aconteceu, porque estamos sonhando.
— Você quis dizer que estamos vivendo um sonho. – a corrigiu, se divertindo com a confusão de Sakura.
— Karin! – exclamou enfurecida e uma rajada de vento frio atingiu as duas mulheres.
Apesar estarem protegidas, o frio que passou pelos corpos foi inevitável, fazendo com que a expressão séria da ruiva se suavizasse. Sua protegida se encontrava muito confusa e sua atitude não estava a ajudando.
— Desculpe. Eu prometi que explicaria tudo quando chegasse, mas aqui não dá, espere só mais alguns minutos. Então eu tiro todas as suas dúvidas. – disse, pegando as mãos da Haruno, que se esquivou do agarre rapidamente.
— Fodam-se as dúvidas, eu quero ir embora, ou melhor, eu quero acordar. – explodiu nervosa ao mesmo tempo em que beliscava os braços.
— Não é um sonho, acredite isso é real.
— Real é eu acordar na minha cama após uma maratona de séries. – e beliscou com mais força.
— Se continuar com isso, acabará toda marcada, majestade. – avisou ao mesmo tempo em que a impedia de começar mais uma sessão de apertões pelos braços cobertos, mas que Karin conseguia ver pelos movimentos que o pano fazia.
— Solta Karin! Eu não vou parar até acordar. – falou irritada enquanto tentava se desvencilhar das mãos da ruiva. — E não me chame de majestade.
— Larga de ser teimosa, Sakura. – censurou entre suspiros, tentando se controlar. — Caso ainda não percebeu, os beliscos não vão te acordar, só machuca-la.
— Então me leve para casa. – pediu.
— Não dá. Ou melhor, não posso, pois você estará em perigo lá na Terra. – disse, abaixando a cabeça levemente.
Havia se esquecido de que o temperamento genioso e a teimosia de Sakura poderiam se somar e torna-la uma pessoa facilmente irritadiça quando algo não ia conforme ela queria, e isso poderia piorar ao coloca-la em um lugar desconhecido.
Karin bateu-se mentalmente ao assistir as bochechas da Haruno tingirem-se em carmim e as mãos fecharem-se em punhos enquanto bufava em irritação.
— Ótimo, eu acho o caminho de casa sozinha. – e deu as costas para a amiga, sacando o celular do bolso, o GPS a ajudaria mais que Karin.
A ruiva respirou fundo e contou até cinco mentalmente, estava se controlando para não estourar como havia feito na livraria, e conseguiu, pois a última atitude de Sakura a fez encontrar mais um nível que seu estresse poderia atingir.
Se não fosse pelo braço direito ainda levemente dolorido, o respeito pelo Reino do Fogo e o juramento feito no início de seu treinamento para ser guardiã, já teria cometido uma besteira. Relaxou os ombros, indo atrás da amiga.
— E para piorar, esse lugar não tem sinal! – a Haruno resmungou com o celular levantado.
— É claro que não há sinal. – uma voz masculina soou meio divertida. — Coisas de outra dimensão não funcionam aqui na dimensão Tau. – a voz parecia vir de todas as direções.
Algo que assustou Sakura e a fez procurar o dono dela, virando a cabeça de um lado para o outro, mas só encontrou troncos de árvores, arbustos e copas cobertos de neve. Na última passada de olhos, eles se fixaram na figura de Karin e, sem pensar duas vezes, correu em direção da amiga com uma expressão amedrontada.
— Pensei que fosse procurar o caminho de volta, majestade. – a voz comentou no tom divertido.
— Karin, você está ouvindo? – indagou na metade do caminho.
— Ouvindo o que? – perguntou de volta com um sorriso zombeteiro. – Provavelmente é coisa de sua cabeça.
— Sem brincadeiras. Eu sei que você ouviu o vento falar.
— Que rude de sua parte, majestade. Chamou-me de vento. – a voz mudou para o tom ofendido.
A Haruno parou de forma brusca a um metro de distância de Karin, e ficou, apenas a expressão facial mudou, dando lugar a uma de choro enquanto que os olhos brilhavam em pavor.
— Pode ser que em seus sonhos, o vento fale Sakura. Mas aqui, eu lhe garanto uma pessoa está se comunicando com você. – a ruiva disse, afagando o topo da cabeça da outra. – Apareça, sei que está atrás da árvore. Já assustou a nossa rainha demais. – disse num tom mais firme, apesar de um sorriso querer aparecer em seus lábios.
— Você é uma estraga prazeres, Karin. Isso era a minha forma de dar às boas-vindas à Sakura. – a voz masculina voltou ao tom divertido.
E no instante seguinte, passos abafados soaram atrás da Haruno, que em um impulso se jogou em direção da amiga, abraçando-a com o corpo tencionado pelo medo.
— Então encontre uma forma diferente de saudá-la. Ela está apavorada. – indagou, fuzilando a figura masculina se aproximando. – Não precisa ficar assim, Sakura, seu cunhado não irá nos machucar. – confortou e continuou a afagar os fios de coloração rosa.
— Cunhado? – questionou, franzindo as sobrancelhas.
— É. – concordou enquanto a via desfazer o abraço abruptamente.
— Há quanto tempo, Sakura. – a voz a fez desviar a atenção para uma figura masculina próxima de si, era alta de cabelo preto e uma expressão gentil. – Ou devo dizer majestade. – corrigiu-se sorrindo para em seguida se curvar em uma pequena reverência.
A careta em estranheza e incredulidade foi a única reação de Sakura, cada vez que a palavra “majestade” alcançava seus ouvidos um desconforto lhe atingia o corpo, e isso a estava irritando, sem contar que ser chamada daquela maneira a confundia. A ideia de ser uma rainha não se fixou em sua mente pelo modo que a amiga ruiva lhe contou.
— Majestade é a pu... – foi interrompida.
— Nunca imaginei que o líder em pessoa viria nos buscar. – disse Karin, relaxando os ombros.
— Senti sua presença do quartel-general, mas eles acharam que era um invasor, porque você não vem ao Reino do Fogo há anos, por pouco não são recepcionadas por um grupo de soldado.
— Devo considerar sorte? – indagou e lançou um olhar desafiador ao homem.
— Muita sorte, Karin, mas pensando bem, acho que desenferruja-la usando os soldados, que se voluntariam para vir em meu lugar, não teria sido uma má ideia. – e sorriu.
— Seria uma ótima ideia, até porque estou me sentindo muito bem desde que cheguei aqui. Que tal um aquecimento quando chegarmos lá?
— Desculpe, mas Izumi precisará de mim. – cruzou os braços, analisando as duas mulheres a sua frente. – E você de algumas curas. – completou ao ver a blusa de Karin manchada de sangue, o que fez a seriedade tomar conta das feições masculinas. – O que houve?
— A Akatsuki nos encontrou na Terra e fomos atacadas. Sem opção, decidi traze-la de volta para cá. – respondeu, tampando com o cobertor a blusa e engolindo em seco.
— Por que eles foram atrás dela?
— Não sei exatamente o motivo, mas ouvi Yahiko dizendo que precisam dela viva, talvez para encontrar o outro par. Foi a única coisa que imaginei, pois só ela sabe onde escondeu o sapato.
— Isso muda todo o nosso plano. – murmurou, fazendo uma expressão cansada.
Sakura assistia a troca de palavras entre a amiga e o homem com o cenho franzido, eles davam a impressão de que eram muito íntimos e conversavam sem ligar para ela, ficando cada vez mais perdida naquela confusão em que, literalmente, se atirou. E ao perceber que o assunto da conversa era ela, mas conversavam como se não estivesse ali, a mesma irritação de minutos atrás voltou.
Era para toda a situação e os acontecimentos estarem sendo explicados a ela, e não a confundindo mais com as informações que assimilava ao ouvir o dialogo. E ainda havia a estranha história de que o homem a sua frente era seu cunhado, mas até onde sabia não havia se casado com nenhum homem, afinal era nova demais. Respirou fundo e enquanto soltava o ar fingiu uma tosse, atraindo a atenção das duas pessoas.
— Não sei se vocês perceberam, mas eu estou ouvindo tudo o que estão falando e isso está me deixando mais confusa ainda. Será que um de vocês com a alma bondosa que tem, poderia me explicar o que caralhos está acontecendo aqui?
— Não fale palavrão Sakura! – lançou um olhar em censura à Haruno.
— O que é “caralhos”?
Uma sentença foi solta atrás da outra e Sakura devolveu o olhar com outro fulminante.
— Vai me dizer que uma rainha não fala palavrão?
— Na verdade ela não deve falar.
— O que é “caralhos”?
— Pois, de acordo com vocês, acaba de ouvir uma.
— O que é “caralhos”?
— Algo que não lhe interessa! – explodiu Sakura irritada por ouvir a mesma pergunta repetidas vezes.
No mesmo instante a surpresa tomou conta de dois rostos.
— O quê? Também vai me dizer que uma rainha não pode ser indelicada? – indagou sarcástica, encarando a amiga, não dando importância a expressão magoada do homem.
— Isso foi não indelicadeza, você foi rude! – disse Karin um pouco assustada pelo nível de estres que Sakura se encontrava.
— É isso que acontece quando se é jogada em um lugar desconhecido sem nenhuma explicação. – murmurou abaixando a cabeça ao se dar conta da atitude desrespeitosa que tomou.
Um silêncio se instalou entre as três pessoas.
Sakura sentiu as bochechas quentes ao mesmo tempo em que sua consciência pesava, não devia ter respondido daquela maneira a pessoa quem acabara de conhecer, descontando a irritação. Já Karin lançou um olhar, desculpando-se pela atitude da amiga, o que recebeu um sorriso e dar de ombros como resposta.
— Já nos expomos muito aqui, não me surpreenderia se sofrêssemos algum ataque, e ainda está frio. Que tal irmos a um lugar quente para conversar com mais calma? – disse o homem com a voz em tom alegre, encarando o cabelo rosa de Sakura. – A propósito, me chamo Itachi.
E em silêncio, começaram a andar. Itachi à frente com Sakura e Karin logo atrás.
— Me desculpe pela maneira que falei. – a Haruno quebrou o clima.
— Tudo bem. – foram as únicas palavras que disse.
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Estavam andando há trinta minutos e nesse período de tempo começou a nevar. Seus olhos não encontravam nenhuma construção que poderia ser um possível lugar quente. O cobertor em volta de seu corpo não estava mais impedindo que a temperatura baixíssima a afetasse.
— Itachi, eu acho que deveríamos nos apressar. Ela está roxa pelo frio. – disse Karin, após mais uma olhada em Sakura.
— Nós estamos andando o mais rápido que podemos. Se começarmos a correr, ela não conseguirá nos acompanhar.
— Ei! Posso não praticar exercícios regularmente, mas isso não lhe dá o direito de me chamar de sedentária. – falou Sakura enquanto tremia.
— Juro que não foi essa a minha intenção. Mas você não conseguirá nos acompanhar sem praticar a técnica de usar a energia que recebemos do reino.
— Está dizendo que esse lugar é mágico?
— Pensei que isso estava claro quando nós caímos em queda-livre. – Karin respondeu e Itachi abafou uma risada por considerar a pergunta um tanto quanto obvia.
— Eu achei que a neve amorteceu a queda.
— Mas ela fez isso mesmo, só que a energia “mágica”, – fez aspas com os dedos. – Que emana de qualquer lugar dessa dimensão, impediu que morrêssemos.
— Está falando sério? – indagou abismada.
— Muito sério majestade. – respondeu com um sorriso divertido ao ver a amiga franzir o cenho.
— Saltei contra um livro e fui trazida para outra dimensão...
— Tau. – completou Itachi.
— Tá, Dimensão Tau e ela, ao contrário da Terra, transmite energia mágica para seus habitantes. – refletiu, achando um absurdo.
— Chamamos essa energia “mágica” de chakra, e ela é essencial para as pessoas daqui. – a voz masculina soou divertida.
E como um clique na cabeça da Haruno, lembrou-se de que havia lido sobre o que refletiu em uma coleção de livro de contos de sua livraria. A confusão de antes pareceu se multiplicar e a certeza de que estava sonhando se intensificou.
— Chegamos. – Karin a despertou de seus pensamentos.
Piscou os olhos duas vezes, visualizando um monte arredondado de neve, semelhante a um iglu.
— Achei que iriamos a um lugar quente e não nos tornar picolés. – comentou, analisando o monte que parecia ser apenas feito de neve.
— A sua falta de imaginação me magoa, Sakura.
— Minha imaginação só funciona na Disneylândia, Karin. – contrapôs e tremeu de frio.
— Nem se atreva a perguntar o que é isso, Itachi. – a ruiva avisou para em seguida respirar fundo e encarar a amiga. – Feche os olhos e imagine uma casa.
A Haruno arqueou as sobrancelhas.
— Para que eu faria isso?
— Para não passar mais frio? – respondeu com outra pergunta. – Agora feche os olhos e imagine uma casa.
— Ela é como qualquer outra que você já tenha visto, porém tem o triplo do tamanho e responde aos comandos dos moradores dela. – completou Itachi, assistindo as formas de uma casa enorme de traços vitorianos surgiu no lugar do simples monte de neve.
— Pode abrir os olhos.
— Acabamos de chegar ao lugar quente que eu tinha dito.
— Vocês estão tirando uma com a minha cara. – falou descrente, abrindo os olhos.
Porém, teve que segurar a respiração ao se deparar com a construção que havia imaginado enquanto que a certeza de que se encontrava sonhando se intensificava.
— A nova aparência do quartel-general está aprovada. – disse Karin. – Vamos entrar.
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Um sorriso moldava os lábios de Sakura, livrar-se do frio próxima a uma lareira estava sendo a melhor parte de seu descanso, a sensação de poder sentir novamente os pés na mesma temperatura que o restante do corpo não havia preço.
A porta da sala, onde estava se abriu o que fez seu olhar desviar-se para ela, e assistiu Karin e Itachi adentrarem o recinto, ambos com preocupação e cansaço expressos nos rostos.
— Faltou mais uma palavra para eu ter quebrado o pescoço de alguém! – ouviu a amiga esbravejar.
— Então eles deveriam agradecer Suigetsu por interferir.
— Algo que você deveria ter feito, mas resolveu ir fazer companhia a chata da Izumi.
Eles vão começar de novo? — pensou Sakura, franzindo o cenho em desagrado.
— Não a chame dessa maneira! Além do mais, eles apenas estão eufóricos com a volta da adorada rainha. – defendeu-se, sentando-se em um dos sofás daquele cômodo.
— A chamo da maneira que eu quero, está bem? – cruzou os braços.
— Ainda guarda ressentimento por Izumi ter escolhido a área da inteligência?
— É claro que não. – a voz de Karin soou em tom agudo e as sobrancelhas masculinas se arquearam. – Mas ela deveria ter ficado na nobreza assim eu seria a guardiã dela, como nós havíamos combinado.
Havia muitas atitudes que Sakura detestava e a sensação de não existir não estava na lista até aquele momento. Ser ignorada uma vez a irritou, porém a segunda vez a desagradou totalmente, mesmo assim contou até dez mentalmente, tentando encontrar a tranquilidade de antes das duas figuras aparecerem.
No entanto, a confusão, um estado de espírito que ela vinha sentindo muito nas últimas horas, a fez desistir da tranquilidade que procurava.
— É a segunda vez que vocês conversam como se eu não estivesse aqui, se querem discutir vão para outro lugar, caso não perceberam essas discussões me deixam mais confusa. – desabafou, elevando a voz uma oitava, e encolheu-se ao sentir dois pares de olhos fixando-se em si.
— Tem razão. Desculpe-nos. – pediu o moreno após suspirar em cansaço.
— Agora vocês podem, por favor, explicar o que cara... – recebeu um olhar repreendedor da amiga. – Bulhufas está acontecendo? – corrigiu-se rapidamente, pois não queria discutir. – Você me prometeu que todas as minhas dúvidas seriam esclarecidas quando estivéssemos em um lugar seguro, eu estou louca por respostas.
— Foi para isso que viemos te atormentar. – sorriu zombeteira. – Mas primeiro você tem que parar de colocar palavrão no meio de suas frases. – ficou séria. – Palavras como: caralho, filho da puta, foda-se, puta que pariu ou cacete ainda não chegaram ao vocabulário daqui, isso são totalmente palavras da Terra.
— Mas pelo menos vocês entendem o que é merda ou idiota, né? – perguntou, voltando a sua atenção para o moreno.
— Claro.
— Ainda bem, e respondendo a sua pergunta de antes, caralho é um palavrão muito usado na Terra.
Itachi assentiu com a cabeça em concordância.
— São os “xingamentos contemporâneos”.
— Que você terá que parar de usar.
Um grunhido indignado foi solto pela mulher de cabelo rosa.
— Não adianta fazer birra, majestade. De acordo com o protocolo você deve ser uma pessoa polida e educada, no mínimo pode dizer um ‘droga’. – contrapôs com um sorriso cínico, ignorando a careta em puro azedume da amiga. – Agora vamos começar a esclarecer as coisas. – disse, acomodando-se no mesmo sofá que ela e, por pura provocação puxou um pouca da coberta.
Itachi se aproximou das duas mulheres, contando a vontade de rir da expressão brava de Sakura. A facilidade de deixar-se provocar ainda existia e isso o alegrou.
— Por onde podemos começar? – questionou, assistindo a disputa de cabo de guerra com o cobertor travada entre as duas.
— Pelo início, eu agradeceria. – respondeu e puxou com mais força a sua ponta.
— Ai. Ela era afiada assim?
— Solta a porcaria do cobertor e vá pegar o seu! – exclamou após ver a metade do mesmo ser puxado pela amiga.
— Pare com isso Karin. – pediu Itachi. – Não a provoque mais. Sakura está vermelha de raiva e eu quero começar, já enrolamos demais!
Com um último puxão, a ruiva soltou o tecido quentinho e endireitou-se sobre o sofá, sendo imitada pela amiga, que tratou de enrolar-se, ficando na forma de um casulo.
Sakura cruzou os olhos com Itachi, que se encontrava sentando no sofá a sua frente, pelo olhar o mesmo perguntava novamente por onde poderia começar.
— Por que vocês me chamam de “majestade”?
— Não é possível! – lamentou Karin em tom baixo. – Qual a parte que você é uma rainha ainda não entendeu? – era tão absurdo que a amiga não conseguia digerir a informação?
— A parte toda? – sim, para Sakura, ser rainha era algo surreal e bem absurda.
— Isso prova que sua guardiã não contou que é uma rainha de forma coerente. – comentou Itachi, enxergando a brilho de descrença nos olhos verdes de Sakura e recendo um olhar raivoso de Karin. – Então vamos esclarecer isso e depois você acreditará que é uma rainha. Uma rainha muito amada pelos seus súditos e pelo rei também, é claro. – e piscou um dos olhos ao mesmo tempo em que sentia seu peito se apertar com a menção do rei. – Majestade, você é a rainha ou monarca, a forma que preferir, do Reino do Fogo. Sua união foi com o príncipe Sasuke, — um frio passou pela espinha masculina. — Meu irmão mais novo. Você foi escolhida para ficar ao lado dele após muita discussão, porque, de acordo com os conselheiros, você não era nobre o suficiente.
— O que seria ser nobre o suficiente?
— Seu pai, um dos condes mais respeitados, casou-se com uma camponesa.
— Só por isso sou considerada menos nobre? Que ridículo! – comentou indignada ao perceber que não importa a dimensão que estivesse, o pensamento hierárquico existia.
— Foi uma verdadeira guerra para eles aceitaram-na, mas você mostrou ser a melhor escolha do meu irmão ao se oferecer como acordo de paz para evitar um conflito violenta contra o Reino da Terra. Detalhe: vocês não tinham se casado ainda.
— Lembro-me de que nesse dia o príncipe surtou, quase matando os conselheiros. – comentou Karin divertida.
— Acordo de paz quer dizer morrer em nome do reino, certo?
— Certo, mas é obvio que Sasuke não permitiu isso, mesmo assim você foi e mostrou para todos que é uma perfeita rainha pela diplomacia que apresentou ao conversar com o rei da Terra e chegar a um acordo de paz sem mortes e que beneficiaria os dois lados. – tomou um tempo para respirar. – Depois desse feito, os conselheiros tiveram que aceita-la e considera-la a princesa Uchiha.
— O período de princesa foi curto, quatro anos para ser mais exato. De acordo com a tradição do Reino do Fogo, tem que ter vinte e cinco anos completos para se casar, e na época você tinha mesma idade que agora, vinte e um. – a ruiva continuou. – Foi bem aí que eu entro como sua guardiã e a Hinata como conselheira e dama de companhia.
— Quem?
— Hinata Hyuuga, o ser mais tímido e adorável. Conhecerá a figura daqui a pouco. Nesse momento ela está treinando. – explicou Itachi.
— Uau! Estou me sentindo uma socialite depois dessa. Tenho uma dama de companhia e uma guarda-costas, estou começando a acreditar que sou uma rainha mesmo. – surpreendeu-se. – Mas está faltando o rei e o reino, além do mais eu não tenho lembranças de nada disso que me contaram.
O clima mudou dentro daquela sala bruscamente.
— Bom, nós ficaríamos meio incertos se você lembrasse tudo que contamos.
— Como assim?
— Simples você morreu há trezentos e nove anos.
— Como?
— Morrendo. – Karin respondeu, fazendo uma expressão de obviedade.
— De velhice?
— Não. – respondeu o moreno prontamente.
— Sim, vinte e oito anos é muita coisa. – brincou a amiga ruiva, recebendo olhares de censuras. – Está bem, parei. – murmurou com um sorriso e levantou as mãos em sinal de rendição.
— Na verdade, você foi assassinada na véspera do seu aniversário de casamento, e sua morte responderá a sua dúvida. – respondeu novamente Itachi, porém com a voz sem o tom divertido.
— Aconteceu algo parecido com Romeu e Julieta, eu morri então Sasuke cometeu suicídio? – arriscou, maravilhando-se com a possibilidade.
— Não viaja Sakura. – repreendeu. – E Romeu e Julieta são personagens de um livro muito famoso lá na Terra, Itachi. – explicou já prevendo a dúvida do líder. – Antes de você ser assassinada, você lutou contra um ser, que nunca descobrimos quem é, porque ele queria roubar o único par de sapatos de cristal.
Os olhos verdes se arregalaram em surpresa.
— Cinderella?
— Quantas vezes eu tenho que dizer? Não viaja Sakura! Se não existe amor impossível, como Romeu e Julieta, como pode ter Cinderella aqui?
— Oras me responda você, que me fez pular contra um livro! – contrapôs irritada.
Karin suspirou.
— Aqui na Dimensão Tau, existe apenas esse par de sapatos de cristal, por isso ele carrega uma maldição que todos acreditavam ser apenas uma lenda, mas ela se provou real, quando você morreu. – Itachi tornou a falar, a vendo engolir em seco.
— E como é? – hesitou em perguntar, mas a curiosidade foi despertada ao ouvir a palavra ‘ maldição’.
— A maldição diz que quando um príncipe ama de verdade a sua princesa, e o primeiro presente serem esses sapatos, estes se tornam o símbolo de união deles. E se um dia os sapatos forem separados a mulher morrerá e o homem se transformará em um monstro imortal.
— Então por que ele me deu esses sapatos? Pelo que eu entendi, todos sabiam dessa maldição, logo nós também tínhamos conhecimentos dela.
— Mas todos a consideravam uma lenda, porque nunca aconteceu o que ela falava. Além do mais, não é fácil conseguir esses malditos sapatos, Sasuke teve que fazer uma longa viagem. – disse a amiga ruiva.
— Por quê?
— Porque os sapatos ficavam guardados no Vale dos Cristais, onde uma quimera vive. Sasuke havia me contando que não lutou contra a criatura, de acordo com ele, a quimera pode ter uma aparência monstruosa e por isso é entendida erroneamente. Com isso firmaram um acordo, ele a ensinava a voar e em troca poderia levar os sapatos.
— Ele se arriscou apenas para conseguir os sapatos, por quê?
— Porque meu irmão a ama demais e ele quis fazer algo impossível para provar esse sentimento. Quando um Uchiha ama, é de verdade. – respondeu, dizendo a última sentença em um sussurro.
Novamente um clique se fez dentro de sua mente ao relacionar as informações obtidas com a semelhante história que havia lido dias atrás em sua livraria. Espantada, pediu aos céus que tudo não passasse de uma coincidência ou que sua consciência a colocou naquele universo paralelo durante um sonho, porque ela não poderia estar vivendo a continuação da história que se encerrava de forma trágica e infeliz.
Em um ato desesperado, iniciou uma série de beliscos em si mesma.
— Sakura! – exclamaram sobressaltados com a ação dela.
— Por favor, eu quero despertar. Já chega de sonhar. Isso não pode ser verdade. – implorava baixo, intensificando os beliscos.
— Pare com isso. – mandou Karin, segurando-as pelos braços.
— Eu quero ir para casa. Eu quero parar de sonhar esse sonho. – murmurou.
— Você já está em casa, Sakura!
— Por favor, se acalma. – pediu Itachi, agachando-se ao lado dela.
— Pare de bancar a idiota. Você disse que confia em mim, então agora acredite em mim quando eu falar pela décima vez, você não está sonhando. – disse nervosa, abraçando a amiga de modo que imobilizasse os braços. – Se acalma. – pediu com a voz suavizada.
E assim, um silêncio carregado de tensão se instalou no cômodo.
Quando os braços da amiga relaxaram, Sakura tentou recomeçar a sessão de beliscos, porém duas grandes mãos envolveram seus pulsos, impedindo-a. Levantou o olhar para os olhos negros e viu a preocupação se estampar ali. De algo modo, a expressão apreensiva de Itachi a tocou.
Desviou o olhar para o braço feminino coberto por um tecido preto, que a envolvia na região acima dos seios e sentiu Karin afagar seu cabelo. O sentimento de proteção da amiga a tocou também.
Entretanto, o choque de estar realmente acordada e não sonhando aconteceu somente quando visualizou alguns arranhões avermelhados e marcas de unhas, que começavam a sair sangue. Tudo vindo de seus próprios braços.
Era real.
E seu coração disparou enquanto sua visão embaçava-se por conta das lágrimas.
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