Santuário Dos Condenados
6 Capítulo 6 AMORES BRUTOS PARTE II
Notas iniciais
A biblioteca era grande, surpreendente, até. Tinha um grande acervo de livros, romances, biografias e didáticos. Havia uma seção informatizada com cinco computadores onde se podia acessar a internet, sob controle e monitoração da segurança e câmeras de vigilância instaladas em locais estratégicos.
O grupo de Kardia entrou animado, encontrando o responsável pelo espaço, um homem alto e albino usando óculos redondos. O homem tinha uma voz enrouquecida e com um timbre estranho. Seu nome era Russel e ele era conhecido como o maníaco das letras, um psicopata condenado à prisão perpétua por matar suas vítimas enforcadas com finíssimos fios de metal, enquanto recitava trechos de obras de diversos autores.
William Shakespeare, Emile Zola, Camille Paglia, George Orwell, José Saramago, Honoré de Balzac, Michel Foucault, Virginia Woolf, Frederick Forsyth, a lista era imensa e o conhecimento de Russel também. Suas vítimas eram encontradas nuas, enforcadas pelo fio de metal e, no braço direito de cada uma delas, sempre a mesma frase escrita com nanquim e uma letra caligráfica: “Se abrissem suas mentes ao conhecimento, não precisariam que lhes mostrasse as consequências do horror da ignorância”.
– Boa noite, senhores. Já sabem como funciona. Os computadores são monitorados e qualquer acesso à pornografia ou site impróprio será bloqueado e o usuário, penalizado. A seção de livros, se alguém se interessar, possui obras interessantes e atualizadas. Qualquer solicitação de retirada deve ser feita a mim. – disse ele.
Os presos o olhavam com seriedade. Russel parecia um personagem saído dos contos de terror. Sua magreza cadavérica associada à brancura da pele e ao olhar desprovido de emoções por trás dos óculos, parecia falar por si. E não era, somente, uma impressão. Havia a lenda urbana que ele havia matado um preso, simplesmente porque o homem arrancara a página de um livro.
Máscara, Aldebaran, Afrodite, Misty e o novo integrante, Jabu, foram direto para os computadores. Kardia estava com Dégel e se mostrava pouco interessado no montante de livros que o médico parecia apreciar.
– Isso é impressionante! Jamais esperaria encontrar uma biblioteca assim em uma prisão. – disse Dégel.
– Prá mim é perda de tempo.
– Então porque vem aqui?
– Hã... prá mudar de ambiente e... Bem, tem os computadores e eu gosto de jogar.
Dégel olhou Kardia bem dentro dos olhos, percebendo que havia algo oculto, porém já estava se acostumando em saber que sempre havia uma segunda intenção. Tentou então chamar a atenção do grego para algo que achava que iria interessá-lo.
– Existem livros para todos os gostos, Kardia. Veja esse aqui. – disse Dégel puxando um livro da estante. – Este livro fala da sua cultura. Eu posso retirá-lo junto com os meus.
Kardia olhou de má vontade, mas quando leu o título franziu o cenho e mudou a expressão.
– Zorba, o grego. – repetiu ele. – Meu avô... Eu lembro que ele nos levou ao cinema do bairro prá ver um filme com esse nome. Era um filme velho e em preto e branco, mas minha avó adorou e foi a primeira vez que eu a vi chorar...
Dégel sorriu. Enfim achara algo que podia compartilhar com o grego, saber mais dele, entender-lhe a índole violenta e um pouco da sua trajetória pessoal.
– A obra é sempre mais completa que o filme. Você viu o filme quando criança e teve um entendimento dele. Agora, adulto, experimente ler o livro, você vai encontrar coisas muito interessantes.
Kardia pegou o livro. Abriu-o e olhou sem muito interesse. Tornou a encontrar o olhar de expectativa de Dégel e meio a contragosto resolveu aceitar.
– Tá, mas agora eu vou lá jogar com o pessoal. – disse ele estendendo o livro de volta para o médico.
Assentindo com a cabeça, Dégel foi sentar-se em uma imensa mesa de mogno, enquanto Kardia rumava na direção dos computadores. O grego olhava, discretamente ao seu redor, assim como os demais já haviam feito. As câmeras de vigilância moviam-se, sincrônicas,registrando a movimentação. Entretanto, o que o grego queria, além de se divertir nos computadores, era encontrar material para a confecção de armas a serem usadas posteriormente. Réguas, canetas, lápis, clipes tudo poderia ser transformado em armas potenciais e assegurava a vantagem em um confronto com a facção rival.
Máscara da Morte já havia pegado uma régua, uma caneta e vários clipes e agora distribuía sorrateiramente entre os companheiros.
Afrodite olhou-o quando ele roçou a mão na sua, passando alguns clipes no ato. Havia algo naquele italiano que o incomodava, profundamente. Talvez fosse o modo ostensivo com que ele o olhava e, ao mesmo tempo, mantinha-se afastado. Dividiam a mesma cela, mas mantinham-se alheios à presença um do outro. Máscara se drogava ou saía para transar com Misty, enquanto ele, Afrodite, permanecia em seu mundo particular ou flertava com Flégias na esperança de conseguir obter alguma vantagem naquele lugar.
– O que vamos fazer com isso? – sussurrou Afrodite ao sentir os objetos metálicos em sua mão.
– Quando chegar a hora, eu mostro... Fica com a caneta também. – Máscara sussurrou de volta.
Kardia aproximou-se de Aldebaran e cochichou algo. O brasileiro sorriu e teclou: Doutor Dégel no site de busca Google. A tela se abriu revelando um pequeno histórico sobre o médico.
Dr. Dégel EugeneDelacroix nascido em 2 de fevereiro de 1989, Paris. Foi criado em Flushing, Nova Iorque, filho de Pierre Eugene Delacroix e Adeline Charlotte Delacroix médicos cofundadores do Médecins sans Frontières(MSF), uma organização não governamental que atua em áreas de risco em vários países mundo, na área da saúde.
Graduou-se na Universidade de Washington, em Washington, DC.
Fluente em sete idiomas: francês, russo, japonês, português, dinamarquês, italiano e árabe. Contribui com artigos sobre nanotecnologia em revistas especializadas nos Estados Unidos, Europa e Emirados Árabes.
Chamado "Top Medical da América" em assuntos referentes à nanotecnologia aplicada ao tratamento do câncer linfático pelo Conselho da América Research.
Destaque na Vogue como o mais jovem médico da atualidade, mestre em oncologia, pesquisador e responsável pelo setor de pesquisa do Medical Center Metropolitan em Manhattan.
Noivo da senhorita Sasha Ileana Bertolazzo filha do Dr. Hakurei.
A tela contava um pouco sobre o médico e Kardia leu tudo com atenção. Aquele cara tinha, apenas, um ano a mais que ele e já havia feito tanta coisa que chegava a ser inacreditável. Enquanto o médico salvava vidas, o grego já matara muitos, na mesma proporção.
Eram a antítese um do outro, mas mesmo assim, Kardia passara a gostar bastante da presença do médico e agora, buscava compreender porque sentia que ele também gostava da sua, afinal, eram muito diferentes como se fossem água e azeite.
– E então? Parece que o seu companheiro é uma daquelas personalidades dignas de filme... O cara é, simplesmente, Uau! – murmurou Aldebaran.
– É. Aí não fala mais nada sobre a noiva?
– Vamos ver... Ah, aqui está: Jovem de 22 anos, única filha, formada em Assistência Social, paciente da ala de oncologia do Medical Center Metropolitan, falecida em 10 de maio de 2013 decorrente do desligamento dos aparelhos que a mantinham viva.
Com o cenho franzido, Kardia olhou na direção de Dégel que lia alguns títulos.
– O crime dele foi ter compaixão da mulher que amava. – disse Aldebaran um tanto emocionado.
– É. – falou Kardia com certo desdém. – Bem, Máscara já pegou o que viemos buscar. Vamos jogar um pouco e debandar.
Máscara, Misty e Jabu jogavam, enquanto Afrodite ia ter com Dégel. O loiro aproximou-se do médico e falou:
– Por que o mandaram para esta ala?
Surpreso, Dégel fechou o livro e respondeu:
– Porque me recusei a integrar um projeto do diretor.
– E que projeto é esse?
– Pesquisa de drogas e efeitos colaterais.
– E por que recusou?
– Tenho meu próprio código de ética e conduta.
– Compreendo. – disse Afrodite pegando um dos livros selecionados por Dégel. – Deve estar sendo difícil prá você conviver com pessoas muito diferentes das que está acostumado. Isso aqui é um inferno maquiado. Sorte que Kardia gosta de você.
Dégel surpreendeu-se com a fala de Afrodite. Kardia gostava dele?
– Kardia me parece ter seus próprios códigos de conduta. Creio que ele me protege, não por gostar de mim e sim porque ocupo o mesmo espaço que ele.
Afrodite sorriu.
– Ele gosta de você, sim. Talvez nem mesmo ele saiba o quanto, mas gosta. Eu soube do incidente nos chuveiros.
Sentindo o rosto quente, Dégel interrompeu o assunto e levantou-se da mesa.
– Bem, acho que já vou indo. Obrigado pela conversa. – disse o médico.
Afrodite sorriu, novamente. Depois olhou na direção dos computadores e quando o fez, seus olhos encontraram os de Máscara da Morte e ele ficou sério.
– Ei, doutor! Espere, eu vou com você. – disse o loiro.
Kardia viu os dois se encaminhando para a saída e aproveitou para combinar algumas coisas com Aldebaran, Máscara e Jabu. Alheio às combinações, Misty estava concentrado em um jogo de beleza onde se podia colocar a própria imagem com a webcam e tentar várias tonalidades, formas e cores de cabelo.
Quando Dégel e Afrodite se encaminhavam na direção das celas, três homens passaram por eles, olhando-os com malícia. O médico não baixou olhar e tampouco Afrodite. Porém, enquanto os três seguiam em frente, outros quatro se aproximavam do loiro e do médico. Afrodite reconheceu um deles, era o mesmo que fora surrado por Kardia. Após o incidente com o grego, ele ganhara o apelido de Broken nose, seu nariz ainda inchado deixava ver que o septo fora quebrado o que lhe dava um aspecto ainda mais grotesco.
– Ora, ora... Duas belezinhas andando sozinhas por aqui. – falou o homem com a voz anasalada enquanto os demais se aproximavam pelos lados.
Afrodite ficou sério, sentindo o clima de provocação, mas seguiu caminhando e tentando ignorar o grupo. Dégel seguiu-lhe o exemplo até que o homem do nariz quebrado posicionou-se frente à Afrodite.
– Quer se divertir um pouco e ainda ganhar uma grana, loiro? É só ficar de joelhos e me chupar. – disse o homem rindo.
Um sorriso sarcástico se abriu nos lábios rosados de Afrodite.
– Acho que você está me confundindo com a senhora sua mãe!
O restante riu, porém o homem ficou sério e se aproximou ainda mais tentando pegar Afrodite pelo colarinho.
– Seu puto convencido! Vou te ensinar a não meter a mãe dos outros na conversa!
Ao terminar a fala Broken nose se aproximou de Afrodite com a intenção de agredi-lo, mas, logo se afastou urrando de dor com a forte cabeçada que o loiro lhe deu, atingindo-o em cheio no nariz já quebrado.
– Arrrghhh! M-Meu d-dariz! P-Puta que pariu seu... seu...
O homem não chegou a concluir a frase, pois Afrodite completou a ação chutando-o nos genitais e fazendo-o cair em posição fetal. Logo em seguida, o loiro retirou da manga a caneta bic que Máscara havia lhe dado e, com um olhar fuzilante, ameaçou:
– Se mais algum engraçadinho quiser bancar o esperto, já aviso que vai se arrepender!
No chão, Broken nose se contorcia e urrava ordens, enquanto o médico tentava acalmar os ânimos.
– Por favor, não vamos começar um novo conflito. – disse Dégel colocando-se ao lado de Afrodite.
Os três homens hesitaram alguns segundos, mas logo decidiram partir para cima dos dois. Nesse exato momento, Máscara, Aldebaran, Misty, Jabu e Kardia adentraram o corredor.
– Mas o quê tá acontecendo aqui? – gritaram juntos, Kardia e Máscara da Morte vendo que o loiro e Dégel estavam cercados pelos homens.
Caído no chão, o homem de nariz quebrado arregalou os olhos e tentou se arrastar para longe, enquanto os demais encaravam o grupo do grego.
– Você de novo? Parece que alguém ainda não entendeu uma coisinha básica. – disse Kardia franzindo o cenho.
– É... Quem sabe a gente faz mais uma demonstração no capricho. – falou Máscara.
Os três que ainda não tinham feito nada se entreolharam, decidindo se enfrentariam o grego e Máscara da Morte.
– A gente não fez nada. Foi só uma brincadeira. – disse o menor deles.
– É-É v-verdade! A-A g-gente... A-A g-gente... n-não i-ia f-fazer n-nada. – gaguejou o homem, ainda no chão.
Kardia pegou-o pelo colarinho, suspendendo-o. Dégel quase teve o ímpeto de pedir ao grego para deixar assim, mas Afrodite tocou-o no braço e fez um movimento com a cabeça sinalizando que não falasse.
– Escuta aqui, seu merda! Eu já arrebentei essa tua cara feia uma vez e posso muito bem terminar o serviço e te deixar todo quebrado. Esse é meu último aviso. Na próxima, não tem mais papo! Eu acabo contigo, entendeu? Entendeu? – gritou Kardia.
– S-Sim! – respondeu o homem com o nariz sangrando.
Perto dos outros três, Máscara os encarava com um brilho malévolo nos olhos.
– Olha aqui, cambada... se qualquer um de vocês olhar na direção de um dos nossos, cabeças vão rolar. E esse é o meu único aviso, entenderam?
Os homens assentiram com a cabeça e logo seu companheiro era empurrado na direção dos três. No instante seguinte, Flégias e mais dois guardas surgiram com a expressão fechada de sempre.
– Nada de agrupamento por aqui! Vão circulando! – disse Flégias.
Kardia encarou-o, mas nada disse. Olhou para os amigos e todos se encaminharam para as celas. No caminho, Máscara da Morte colocou uma bala na boca e aproximou-se, ficando ao lado de Afrodite.
– Gostei de ver, loiro... Isso só veio provar que você não é, somente, um rostinho bonito. – disse o italiano sorrindo. – Aliás, não é só o rosto que é belo... Seu corpo todo me deixa com água na boca, sabia?
Afrodite olhou-o, demoradamente. Notou que ele estava mais solto e continuava a olhá-lo daquele jeito. Suspirando, o loiro falou:
– Vou deixar uma coisa bem clara, italiano, eu só dei para o homem por quem fui apaixonado e foi graças a ele que eu aprendi a me defender. Se você está pensando em me seduzir com essa fala mansa, esqueça! Agora, quem come sou eu! Se quiser dar prá mim, eu até posso pensar no seu caso.
– Uia! – exclamou Kardia arregalando os olhos e arrancando risinhos dos demais.
Máscara ficou sério e saiu do lado do loiro que, por sua vez, aumentou o passo e ficou à frente dos demais. Dégel permaneceu em silêncio, apertando nas mãos, os livros que retirara, enquanto os demais ficavam fazendo piadinhas entre si sobre a fala de Afrodite.
Ao chegar à cela, Dégel estendeu o livro para Kardia.
– Tome, eu retirei para você. Leia um pouco e relaxe.
Kardia olhou para o livro de forma superficial, estava com outras preocupações na cabeça. Sentia que Marte o estava provocando, chamando-o para briga, mandando aqueles otários como isca... Mesmo assim, contrariando a sua natureza, estava disposto a esperar a oportunidade perfeita.
– Por que quer que eu leia isso? – perguntou com uma expressão aborrecida.
– E porque não? – rebateu Dégel.
Inspirando fundo, Kardia pegou o livro e deitou-se na cama para ler. Dégel sentiu-se feliz e foi fazer o mesmo. Meia hora depois, o médico ficou curioso com o silêncio do grego. Devagar, espiou para baixo e viu Kardia com o cenho franzido e uma expressão interrogativa. Ele estava lendo e com muita atenção...
(...) Zorba levantou a cabeça e olhou-me. Estava estirado na cama e por cima de mim brilhava a lâmpada de azeite. Fitou-me um longo momento, com severidade; depois, agarrando os bigodes com ambas as mãos:
–Você é ingênuo e pedante, patrão... salvo o devido respeito que lhe tenho. – disse finalmente.
–Como assim? – protestei – Compreendo o mundo muito bem, Zorba!
– Sim, você compreende com a cabeça. Você diz: “Isto é justo, isto não é justo; é assim ou não é assim; você está certo ou está errado”. Mas isso leva a gente para onde? Enquanto você fala, eu observo seus braços, seu peito. Pois bem, que é que eles fazem? Ficam mudos. Não dizem nada. Como se não tivessem uma gota de sangue. Então, como é que você quer compreender? Com a cabeça? Pff!!!
– O que quer dizer pedante? – perguntou Kardia.
– É o mesmo que arrogante. O tipo de pessoa que acha saber tudo. – respondeu Dégel.
– Hummm... sei, conheço um cara bem assim.
O silêncio retornou à cela e, na meia hora seguinte, Dégel espiou para baixo, novamente. Kardia continuava sério, mas agora com uma expressão que parecia raiva. Viu-o fechar o livro com força e ele parecia estar emocionado.
(...) “Quando eu era criança, eu não acreditava nem um pouco nos contos de fada que minha avó me contava, e, no entanto, eu tremia de emoção, eu ria, eu chorava, como se acreditasse.”
– Tudo bem? – perguntou Dégel.
Kardia olhou-o e nada disse. Parecia lutar consigo mesmo e então, tornou a abrir o livro e ler a página seguinte. E assim, ficou quieto e imerso na leitura...
– Como morreu o seu avô? – perguntaram-me um dia meus amiguinhos da escola pública. E eu, imediatamente, forjei um mito; e à medida que ia forjando, ia acreditando.
– Meu avô usava sapatos de borracha. Um dia quando sua barba já estava branca, ele pulou do telhado da nossa casa. Mas, ao tocar a terra, ele pulou como uma bola e subiu mais alto que o telhado, e sempre mais alto, mais alto, e ele desapareceu nas nuvens. Assim morreu meu avô. (...)
Dégel desceu da cama e tomou a iniciativa de sentar-se ao lado de Kardia na cama de baixo. O grego continuava concentrado no livro e isso agradou ao médico.
– Então, está gostando? – perguntou ele com um tom, controladamente, animado.
Kardia parou de ler e encarou Dégel. Sua expressão era séria, porém desarmada, como nunca o médico tinha visto.
– Eu vim para os Estados Unidos com meus avós. Meu avô mal sabia ler, mas cozinhava muito bem. Ele fazia souvlaki e kefthedhes para vender na rua junto com a minha avó. Eu adorava esses dois pratos, achava que era a melhor comida do mundo. Sempre que eu voltava da escola, eu sentia o cheiro da comida de longe e corria até o trailer para almoçar com eles, até o dia em que... eu cheguei atrasado e vi um aglomerado em volta. A polícia havia cercado a área para impedir as pessoas de se aproximarem e havia sangue na calçada. Eu gritei e esperneei para me deixarem ver, mas o policial me pegou pelos braços e disse: “Seus avós estão mortos, nós vamos cuidar de você”.
– Seus avós, eles... foram assassinados?
– Sim. Houve um acerto de contas entre gangues e o trailer do meu avô ficou no meio. Houve troca de tiros, meu avô morreu na hora com um tiro na cabeça e minha avó com dois no peito.
– Kardia, eu... sinto muito. Quantos anos você tinha? Você só tinha os dois?
– Eu tinha sete anos e acabei sendo levado pela Assistente social para ser adotado. Passei por vários lares, mas sempre acabava fugindo. Preferi as ruas e não me arrependo. A história desse livro me lembra do meu avô. Ele era meio parecido com este Zorba.
– Eu não tinha a intenção de deixá-lo triste eu...
– Ah! Não estou triste! – interrompeu Kardia. – E nem sei por que estou te contando isso. Chega de ler! – concluiu atirando o livro sobre a cama e levantando.
Dégel sentiu-se desconfortável e falou a primeira coisa que lhe veio à mente.
– Quer jogar alguma coisa?
Kardia virou-se, como se tivesse escutado algo fora do comum.
– Você? Querendo jogar?
– Sim, porque o espanto?
– Porque você é como o cara do livro, sempre mergulhado no seu mundo intelectual, sempre acima dos outros. Você é... Como é mesmo aquela palavra? Pedante! Isso!
– Eu não sou pedante. – respondeu Dégel e mesmo que não desejasse demonstrar, sentiu-se ofendido.
Sincronicamente, Kardia percebeu que o olhar de Dégel desviou do seu e o tom baixo da voz o fez perceber que o magoara com aquelas palavras. Aproximou-se do médico e agarrou-o pelos ombros, fazendo-o encará-lo.
– Tá, desculpa. Vamos jogar cartas.
Dégel ergueu a sobrancelha.
– Está desculpado. Mas... Eu não sei jogar cartas. Só xadrez, sudoku e Go.
Kardia revirou os olhos.
– Puta que pariu, nerd! Até prá se divertir você é um saco! Fora o xadrez que eu não tenho paciência prá ficar horas olhando para aquele maldito tabuleiro, esses outros dois eu nunca ouvi falar!
– Quer aprender sudoku? É fácil. – falou Dégel mordendo o lábio inferior, algo que provocou uma reação esquisita em Kardia.
– Tá, que seja! – respondeu Kardia focando nos lábios delicados de Dégel e se perguntando o que tinha aquele cara que conseguia desarmá-lo todas às vezes em que lhe dirigia a palavra.
Assim, após alguns minutos, lá estavam os dois tentando resolver as sequências do sudoku quando o sinal tocou indicando a hora do jantar.
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O setor de passagem das roupas estava imerso em vapor. As pranchas desciam sobre as roupas, deixando-as lisas e o responsável, um senhor grisalho as dobrava, pacientemente, sendo auxiliado por Broken nose que xingava baixinho.
– Já falei prá não se meter em encrenca. Por que faz isso? – perguntou o homem mais velho.
– Tu não sabe de nada, velho! Esse Kardia chegou há pouco e já tá cantando de galo. Marte mandou jogar uma isca pro maldito, mas os guardas chegaram antes da coisa acontecer.
– Esse Marte só te traz problemas.
– Cuidado com a língua, velho. Se ele te ouve, tu tá frito.
O homem grisalho sorriu, exibindo uma falha entre os dentes.
– Ainda não nasceu o homem que vai me meter medo. Só temo a Deus.
Assim que o homem terminou a sua fala, Marte entrou no setor. Olhou para Broken nose e fez um sinal com o dedo, chamando-o. Os dois ficaram falando baixo, enquanto o velho continuava a passar as roupas. Em seguida, o sinal para a janta irrompeu o ar e tanto Marte, quanto Broken nose estavam com um sorriso maldoso e um brilho assassino nos olhos.
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O refeitório estava cheio, as bandejas eram supridas com arroz, purê de batatas, feijão, carne assada, salada verde e pão.
– Próximo! – gritou o homem que servia as bandejas.
Kardia se aproximou, vendo que Máscara da Morte estava sério, mas ainda alto da droga que ingerira. Rindo e lembrando da fala de Afrodite, o grego cochichou no ouvido do amigo:
– E aí, Fera... vai queimar a rosca com o Belo?
– Vai se foder Kardia. – respondeu o outro de mau humor.
Afrodite estava na mesa com Dégel, Misty e Aldebaran. Máscara sentou-se na ponta, ao lado de Kardia e o ignorou. As conversas giravam em torno de amenidades, até Marte e um pequeno grupo passar pela mesa e derrubar o copo com suco em cima de Dégel.
– Oh, me desculpe doutor! Foi um acidente terrível... – disse ele em tom de deboche, enquanto seus companheiros riam alto.
Dégel ficou com a camisa manchada de amarelo e parte do rosto também, porém não demonstrou nenhuma contrariedade. Buscou um guardanapo e secou onde havia sido molhado.
Kardia encarou Marte bem dentro dos olhos. Depois riu e falou alto:
– É, ficar molhado é terrível, mas ter o cu fodido por meio mundo é muito pior! Não é mesmo pessoal?
Muitos riram e bateram com os pés. Os olhos já injetados de Marte ganharam um fogo extra e ele avançou na direção de Kardia. Aldebaran levantou, assim como Máscara da Morte que notou Broken nose pronto a dar cobertura para Marte.
Dégel percebeu que Marte levava a mão às costas, tirando um objeto pontiagudo que brilhou por poucos segundos. Então ele fez algo inesperado e totalmente instintivo, colocou-se entre Marte e Kardia no exato momento em que o objeto foi levado à frente...
A sensação de algo frio perfurando a sua carne, a forte ardência e, em seguida o calor do sangue fez Dégel ofegar. Ele empalideceu e o ambiente desfocou por completo.
– Dégel! – gritou Kardia sentindo o médico cair em seus braços.
Notando a movimentação, a guarda gritou:
– Todos no chão! De joelhos! No chão! No chão!
No entanto, vendo que Broken nose se aproximava de Afrodite, Máscara da Morte não obedeceu a ordem e sim, pegou a bandeja e usou-a como arma, projetando-a para frente e fazendo com que ela batesse em cheio no pomo-de-adão da garganta do homem. O impacto violento fez o homem arregalar os olhos e emitir um ruído rouco com a boca, caindo morto, logo em seguida em meio aos restos de comida.
– No chão, italiano! Ou vamos te crivar de bala! – gritou Flégias.
Caronte apenas observava com uma expressão de prazer contido, enquanto Afrodite olhava sem acreditar para Máscara. Ele matara aquele homem e iria para a solitária por sua causa, mesmo depois de tê-lo humilhado na frente de seus companheiros.
O italiano se ajoelhou e colocou as mãos na cabeça. Mesmo estando puto com o que Afrodite dissera, ainda assim não deixaria que nenhum escroto o ferisse. Ele tinha avisado e muito bem o que aconteceria se alguém se metesse à besta.
Aturdido, Kardia olhava para Dégel em seus braços, verificando onde ele tinha sido ferido. As mãos fortes ficando manchadas com o sangue que vertia do ferimento e uma forte angústia se apoderando de si. Os guardas continuavam gritando, mas Kardia parecia não ouvir, até Flégias afastá-lo do médico e ordenar que ficasse na mesma posição dos outros presos ou seria punido.
– Lock down! Lock down! Levem o ferido e o morto para a enfermaria e o restante para as celas. Marte e o italiano vão direto para a solitária! – gritou Flégias tomando as rédeas da ação, enquanto Caronte, apenas olhava.
Quando estava sendo colocado na fila, Kardia olhou para Flégias e murmurou:
– Não deixa o Dégel nessa enfermaria. Leva ele pra outra ala.
– Não posso fazer isso. Ele foi mandado prá cá. – respondeu o guarda.
– Dá um jeito! Eu fico te devendo essa.
Flégias estranhou a angústia do grego, mas, ao mesmo tempo, tê-lo como devedor poderia ser muito interessante...
– Vou ver o que posso fazer.
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– Mas como isso aconteceu? – perguntou Minos batendo na mesa.
– Foi uma briga, diretor. Acabou que o médico foi ferido por acidente. Eu pensei em trazê-lo para a enfermaria da ala A. – disse Flégias, após o relato do acontecido.
– Fez bem. Foi algo grave?
– Não, senhor. Os primeiros socorros foram feitos na outra enfermaria e foi constatado que ele não teve nenhum órgão perfurado e também não foi nada muito profundo.
– Ótimo. Mantenha-me informado.
Assim que Flégias saiu, Minos foi até a janela e lá olhou para o horizonte. Ao seu lado tinha, somente, Morfeus. Asmita e Albafica continuavam irredutíveis, embora estivessem predispostos a cuidar dos doentes terminais, para que não sofressem. No entanto, ele precisava de Dégel e seu conhecimento de ponta. Suspirou e a imagem de Albafica retornou a sua mente. Ainda sentia o calor do corpo dele, o olhar febril...
Ah, Alba... quando vai admitir que somos incompletos afastados um do outro?Murmurou para si mesmo, enquanto continuava observando as nuvens negras que cobriam o céu.
Há alguns metros dali, na enfermaria, Dégel voltava a si. As luzes brancas feriram seus olhos, porém ele reconheceu o rosto de Sorento.
– Onde estou? – perguntou olhando para os lados e sentindo a agulha em seu braço com o soro descendo em pequenas e lentas gotas.
– Na enfermaria da ala A. Você foi ferido, mas já está tudo bem.
– E Kardia? Ele...
– Ele está bem. A ala B está em Lock down. Um homem morreu e aquele que feriu você foi para a solitária.
Dégel fechou os olhos e suspirou. Ainda se lembrava da sensação que tivera ao ver Marte empunhando aquela arma... Pela primeira vez, não usou a razão e sim se deixou levar pela emoção visceral de proteger o homem que mexia consigo.
– Descanse, agora. Estará protegido aqui. – disse Sorento.
Assim que Sorento deixou a enfermaria, Minos entrou.
– Dr. Dégel, este incidente foi lamentável. O senhor será reintegrado a esta ala, assim que tiver alta.
– Não vou mudar de ideia quanto ao seu projeto. E, sinceramente, prefiro voltar para onde estava. – disse Dégel.
Minos franziu o cenho.
– Prefere ficar entre os selvagens e violentos a ajudar a humanidade? Eu, sinceramente, não o compreendo!
Dégel sentia a cabeça latejar e os olhos ficarem, cada vez mais, pesados. Inspirou fundo, mas quando tentou falar nenhum som saiu de sua boca. Minos dirigiu-se ao enfermeiro e falou algo, baixinho, deixando o local, sem seguida.
Imagens dançaram na mente de Dégel, enquanto ele afundava em um sono induzido pelos analgésicos que lhe eram administrados.
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Desde o incidente com Dégel, Kardia andava na cela de um lado a outro, o cenho franzido e uma inquietação atroz. Quando Flégias passou e relatou a situação estável do médico, o grego sentiu-se um pouco aliviado. Olhou para o livro que ele o convencera a ler e tocou a capa com os dedos longos. A verdade era que estava mexido com a situação e num nível mais profundo do que tinha consciência. Dégel era inocente e tinha sido atingido em seu lugar!
Já se passara dois dias do ocorrido e a ala B permanecia em regime fechado, sem direito ao banho de sol ou qualquer outra atividade que não fosse o trabalho. Todos faziam as suas funções e voltavam às celas para as refeições.
Marte e Máscara da Morte tinham sido levados à solitária. Cada um ficara em uma sala e ambos sofrendo o mesmo processo: ambiente frio, nudez absoluta e a música monótona que acabava deixando-os desnorteados.
Ainda sob o efeito do confinamento anterior, Marte batia nas paredes e gritava, enquanto Máscara da Morte, apenas gargalhava e repassava na mente todos que já havia matado. Eram todos uns filhos da puta pervertidos e, cada vez que a música atingia um timbre insuportável, ele revivia a sensação de ver o sangue quente e ria de forma insana.
Na hora do almoço, quando a comida foi levada às celas, Kardia encontrou um cartão de identificação em meio ao purê de ervilha e colocou um pequeno embrulho embaixo da bandeja.
Após pegar o cartão e escondê-lo dentro da cueca, simulou estar passando mal. Os guardas foram chamados e o grego foi levado até a enfermaria. Chegando lá, foi examinado por um enfermeiro que já o esperava. Uma cartela de ecstasy foi passada, sorrateiramente ao enfermeiro que deixou o grego deitado na maca, em observação.
Duas horas depois, Flégias adentrou a enfermaria e sinalizou, discretamente, com a cabeça fazendo Kardia perceber que estava na hora. O grego espreguiçou-se na maca e levantou devagar.
O enfermeiro sentou-se frente aos aparelhos que faziam bip o tempo todo e preparou-se para curtir o pequeno suborno.
Kardia deixou o local de forma sorrateira e, como um felino, dirigiu-se para o subsolo onde ficava a solitária. O corredor era longo e escuro, com apenas algumas luzes de segurança.
Ao encontrar a cela onde Marte se encontrava, o grego passou o cartão na porta, ouviu o clic quase imperceptível e entrou.
Insanamente, Marte socava as paredes brancas quando percebeu que tinha companhia. Franziu o cenho ao ver Kardia ali e, por um momento, pensou estar tendo uma alucinação... Entretanto, logo percebeu que a presença era real.
– Você sabe que a parada era contigo, não é?... Aquele idiota nerd atrapalhou tudo, mas confesso que me deu prazer enfiar o chuço naquela barriguinha branca dele. — disse Marte soltando uma sonora gargalhada.
Kardia não se mexeu, apenas olhou-o com intensidade e uma espécie de raiva contida. A cena de Dégel sendo ferido pelas mãos daquele homem se repetiu em sua cabeça e ele fechou os punhos.
– Eu nunca matei por prazer... até agora. Vou gostar de te enviar para o inferno, seu covarde escroto...
– Veremos, grego... – disse Marte fechando os punhos. – Vamos ver se tu é homem prá me vencer no mano a mano.
– Toma. Vou até te dar uma vantagem. – disse Kardia atirando o mesmo chuço que Marte usara contra Dégel.
Marte olhou para o objeto jogado aos seus pés e sorriu, enquanto Kardia mostrava as mãos vazias.
– Vem, filho da puta... Quer me matar, não é? Vamos ver se esses teus bagos são de homem. — disse o grego.
Corpulento e completamente ensandecido, Marte atirou-se sobre o grego, buscando atingi-lo no ventre com o chuço. Kardia esquivou, mas recebeu uma cotovelada na altura dos rins.
O grego cerrou os dentes e preparou-se para o golpe que se seguiu, outra estocada, agora vinda de cima. Bloqueou o golpe e deu uma joelhada no flanco esquerdo de Marte que, mesmo assim, ainda permaneceu em pé e empurrou-o com força. Kardia bateu com as costas na parede branca e, quando Marte avançou, esquivou para o lado e golpeou-o na altura do fígado e logo em seguida emendou outra joelhada, agora na altura dos genitais derrubando-o no chão.
Aproveitando o impulso, Kardia socou-o no rosto com tanta força que Marte sentiu o gosto de sangue misturado às lascas de um dente que se quebrou. Usando o peso do corpo, Kardia permaneceu sobre Marte, socando-o sem piedade até os nós dos dedos ficarem sem pele e o sangue surgir, misturando-se ao sangue do adversário.
Marte ainda resistia e tentava rolar o corpo para escapar da saraivada de socos que recebia do grego. Porém, Kardia foi mais rápido e retirou a pequena seringa que trazia presa na barriga com esparadrapo. Com um movimento calculado, ele fincou com vontade a seringa no pescoço de Marte, fazendo-o gritar.
O conteúdo da seringa foi injetado rápido e logo Kardia rolou de lado, vendo Marte tentar se levantar. Com um esforço sobre-humano, Marte elevou o braço para, em seguida, estremecer e cair, enquanto seu corpo era tomado por espasmos e ele começava a espumar pela boca.
Kardia levantou-se do chão e observou Marte convulsionar por alguns minutos. Havia misturado heroína pura, ecstasy e cocaína em água que, injetados no pescoço produzia um efeito semelhante ao de qualquer veneno.
Quando os movimentos cessaram e Marte teve um último estertor, parando de respirar e ficando com os olhos abertos, o grego aproximou-se para certificar-se da morte do homem.
Pegando a seringa e o chuço de volta, Kardia deixou a cela, olhando para Marte uma última vez.
– Lembranças ao pessoal do andar de baixo! – disse ele, cuspindo sobre o corpo sem vida.
Ao amanhecer, o alarme foi dado. Marte havia tido uma convulsão e estava morto. Nem mesmo uma autópsia fora pedida. O homem já tinha um histórico de problemas mentais e a pressão sofrida na solitária acabara por ser demais. Flégias se encarregara de tudo e, para todos os efeitos, havia sido uma fatalidade..
No mesmo instante em que a morte de Marte era anunciada, Máscara deixava a solitária. Seu rosto estava barbado e ele havia emagrecido um pouco. Vestia apenas uma calça que lhe fora dada para poder sair da cela, já que ficara o tempo todo nu. Estava com olheiras, mas quando adentrou o corredor da ala B, foi recebido com gritos e palmas. Kardia encabeçou um coro de:
Fodão! Fodão! Fodão! Esse sim tem colhões!
O italiano sorriu e fez um gesto obsceno com os dedos. Quando seus olhos escuros encontraram os de Afrodite, ele parou de sorrir e adentrou a cela sem dizer uma só palavra. Deitou-se na cama, colocando o braço sobre o rosto.
O loiro não sabia o que dizer. Mesmo depois de tudo que dissera, ainda assim Máscara matara para defendê-lo e ele sabia que a solitária era um lugar terrível.
Pensou no que fazer e resolveu que um ato valia mais que palavras. Puxou um banquinho na direção dos pés da cama onde Máscara se deitara. O italiano viu a movimentação, mas continuou com o braço sobre os olhos até sentir que Afrodite tocava em seus pés.
– O que tá fazendo? – perguntou ele, surpreso com a atitude do loiro.
– Relaxe, só estou tentando agradecer o que fez por mim. – respondeu Afrodite.
– Não precisa. Nunca fui com a cara daquele otário de merda eu teria matado ele de qualquer jeito, mais dia, menos dia.
Afrodite sentiu a resistência, mas ainda assim continuou. Tomou o pé de Máscara nas mãos e começou a massageá-lo de leve. No início, Máscara tentou resistir, mas depois cedeu e até suspirou, relaxando e parando de sentir aquela vibração incômoda que a música ouvida na solitária, produzia em sua mente e corpo.
Enquanto massageava os pés de Máscara da Morte, Afrodite notou-lhe o corpo robusto, o movimento do abdômen firme ao respirar, as coxas grossas... Um arrepio de desejo percorreu-lhe o corpo, mas ele resistiu e continuou a massagear. Nesse meio tempo, Máscara abriu os olhos lentamente e encarou o loiro. Depois elevou o tronco da cama, sem desfazer a conexão com o olhar. Afrodite ficou com a respiração em suspenso quando ele levantou da cama.
O italiano se aproximou e tocou seu rosto. O olhar dele estava tomado de sombras e desejo...
Mesmo temendo aquela aproximação, Afrodite não se afastou, sentindo-se preso à energia que parecia ligá-los de forma misteriosa. Em seguida, o italiano tomou-lhe a boca devagar, controlando a necessidade que pulsava em suas veias.
Máscara da Morte era um homem rude e de desejos ardentes, mas sentia a necessidade de ser desejado e aquele loiro havia mexido com sua autoestima e emoções que pensava já ter superado. Acariciou-o com toques feitos para provocar, instigar o desejo...
E quando sentiu que Afrodite enterrava os dedos em seus cabelos e puxava-o para mais perto, aprofundou o beijo, sugando-lhe a língua em um toque aveludado e quente que disparou fagulhas no corpo do loiro. Apertou-o com seus braços fortes contra o corpo, fazendo-o sentir o volume grande e rijo contra suas coxas.
Tomado pela sensualidade crescente, Afrodite correspondia ao beijo, igualmente excitado e, instintivamente, esfregava-se contra Máscara da Morte, soltando gemidos baixos de prazer entre os beijos vorazes...
Então, quando tudo parecia evoluir para algo mais, Máscara interrompeu o beijo.
– Preciso dormir. – disse ele e atirou-se, novamente, na cama deixando Afrodite confuso.
O loiro tentou articular uma frase, mas ela morreu quando ele notou que Máscara da Morte já caíra em um sono profundo...
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Dégel dormia, imerso em um sono sem sonhos. O lençol envolvia seus pés e ele estava de barriga para cima, com uma calça de moletom larga, deixando o osso do quadril à mostra e um pouco do curativo no flanco direito, os cabelos espalhados pelo travesseiro e o braço dobrado acima da cabeça.
Kardia ficou um tempo olhando-o... Mais uma que ficava devendo à Flégias. Estava arriscando, mas a verdade era que não se importava, precisava vê-lo, saber se estava bem.
O médico possuía uma aura intelectual até enquanto dormia e seu rosto tinha uma leveza que ele nunca havia reparado...
Aproximou-se dele, devagar... sentindo um alívio em vê-lo vivo e bem. Não estava agindo como devia, travava uma guerra entre os conceitos pré-estabelecidos que sempre defendera e os sentimentos que estavam despertando dentro de si.
Desde que Dégel se ferira para protegê-lo, algo havia mudado e uma batalha interna se acirrava abrindo espaço para os sentimentos e ações que ele custara a perceber.
Chegou mais perto, roçando os lábios entreabertos do médico com o polegar. Aquele toque nos lábios foi o suficiente para acordar Dégel. As pálpebras ergueram-se, revelando o exótico brilho violáceo de suas íris, olhando para o homem que estava inclinado sobre seu corpo, muito perto da sua boca.
– Kardia?!– Indagou, levemente perturbado, os olhos ainda pesados pelo sono.
O grego nada disse e Dégel abriu um pouco os lábios e ergueu o tronco, sentindo uma fisgada no lado direito, mas continuou e tocou no rosto do grego, perdido na penumbra da cela, vendo que a luz que vinha do corredor contornava a silhueta frente a si.
– Com veio parar aqui? – tornou a questionar com preocupação, lembrando-se de todo o transtorno que havia causado. E sua outra mão tocou no braço forte apoiado na cama, sentindo sua musculatura, fazendo seu corpo estremecer com um desejo inédito.
– Queria ver se estava bem. Flégias disse que você já tinha tido alta e que estaria sozinho em uma cela, então eu fiz uma troca de favores prá vir até aqui. – disse Kardia.
– É perigoso vir aqui. Se Minos descobre... Não quero que corra riscos por mim. – falou Dégel.
– Quem disse que tem que me proteger, nerd? Que ideia idiota a sua em se meter na frente do Marte. Você podia ter morrido. – disse Kardia chegando bem perto do rosto de Dégel e olhando-o com angústia.
Dégel fitou-o, sem saber o que dizer. A presença do grego mexia com a sua cabeça e com o seu coração. Sua mente dizia uma coisa, mas suas emoções o levavam a fazer outra. Era uma luta que ficara mais clara, depois que ele fora ferido.
– Eu não podia deixar que algo acontecesse com você por minha causa... – murmurou Dégel e, de repente, seus lábios moveram-se por instinto, roçando nos de Kardia que estavam tão próximos dos seus.
Kardia sentiu o calor da respiração de Dégel e não sabia o que dizer. Faltavam-lhe as palavras e não era muito bom com elas. Os dois ficaram um tempo assim, somente sentindo o calor um do outro, a textura dos lábios, sem finalizar o que ansiavam em fazer sem que tivessem a consciência do fato.
Quando Dégel havia despertado, Kardia pensara em se afastar, mas seu corpo se recusara a obedecer e pela sua cabeça se passara uma série de coisas, todas um tanto confusas para si. Com a proximidade e a total atenção do médico disse a si mesmo que estava ficando louco.
Eu nunca desejei beijar um homem! Eu não beijo homens! Foda-se, eu quero! Sua mente gritou ao sentir Dégel roçar os lábios em sua boca.
Sem pensar mais em nada, Kardia entreabriu mais os lábios e passou a língua pela parte superior da boca do médico, percorrendo com avidez aquela cavidade úmida e quente, tomando-a de vez.
Foi um beijo profundo, íntimo como jamais fora com outra pessoa. Os dois se permitiram comungar da saliva, do gosto, da sensação inebriante das línguas buscando-se entre gemidos e ofegos...
As mãos de Kardia se moveram e enquanto uma passava pelos cabelos fartos, a outra deslizava pela lateral do corpo, sentindo os contornos do corpo esguio de Dégel.
Tudo ficou quente para o médico, seu corpo parecia entrar em combustão, sentindo a excitação começar a tomá-lo de assalto. Ele estava confuso, mas ainda assim, deixou-se conduzir pelo desejo. Abriu suas pernas acomodando Kardia entre elas e sentiu a mão forte e quente subir em uma carícia intensa e o beijo se aprofundar ainda mais.
A língua com piercing do grego se movia de um lado para o outro, sedenta e voraz, aprofundando aquele beijo. Suas mãos pararam entre os fios de Dégel, segurando-os, movendo-os conforme sua vontade, adorando o sabor daquela boca e da saliva que já trocavam de forma alucinante. Separou os lábios suavemente, indo até o rosto corado e o pescoço alvo, beijando e sugando ali.
– Estou ficando louco... Mas não importa... – Murmurou baixinho, inserindo a língua na orelha de Dégel, chupando-a em seguida e fazendo-o gemer.
Não tinha muita claridade e a luz que entrava ali vinha do corredor. Dégel se permitia beijar aquele homem com a mesma vontade ao ouvir as palavras ditas entre ofegos e carícias. Podia ser algo insano, mas o grego passava a ser a única pessoa que ele desejava, verdadeiramente, confundindo suas emoções e superando a razão. Nunca se sentira assim tão próximo das descrições de amor e desejo que lia nos livros. Kardia estava derrubando as muitas barreiras que erguera para si, tornando-o imprudente e até passional, algo que jamais pensara ser.
Moveu as pernas e tocou nas de Kardia, a boca se aprofundava e ofegava baixinho. Percorria a língua acariciando a dele, os dedos entrando pela camiseta justa, subindo-a, até tocar o corpo bem feito. Deslizou sua mão para as nádegas do grego, apertando-as, puxando a barra da calça para baixo, querendo sentir o corpo nu sobre o seu. Quando conseguiu puxar um pouco daquela peça, enfiou a mão de um modo desajeitado a fim de tocar-lhe o membro e sentir a rigidez pulsante e reveladora do desejo.
– Kardia... — murmurou num tom rouco, voltando a beijá-lo, enquanto movia suas pernas, buscando mais contato, remexendo-se do jeito que podia para aplacar o fogo que o tomava como uma febre.
Kardia levou a mão à nuca de Dégel, enquanto a sua boca se ocupava em morder e sugar, tornando o beijo mais intenso. Inspirou o ar e sentiu a respiração de Dégel tocar-lhe o rosto. Moveu mais a mão subindo o quanto conseguia da camisa.
Teria de afastar as bocas e assim o fez. Ergueu o corpo para livrar-se das roupas, tanto as de Dégel, quanto às próprias. No entanto, para a sua surpresa, o médico tomou a iniciativa traçando um caminho de saliva e leves mordidas até alcançar-lhe o mamilo, colocando-o na boca e sugando ali. Kardia sentia o próprio corpo arder e tudo que Dégel fazia, mesmo de forma desajeitada, chegava aos seus sentidos, mais consistente, mais forte, mais excitante...
A língua passava pelo metal do piercing e sugava, enquanto Kardia se deixava explorar... Dégel agarrou o membro do grego e começou a acariciá-lo, sentindo-o ficar ainda mais duro em sua mão, esfregando a cabeça no seu próprio pênis e sua coxa para continuar a apertar e mover, puxando a pele, sentindo o ambiente mudar...
Aos poucos ia guiando aquele membro para o meio das suas pernas, enquanto sua boca se afundava no beijo. Kardia notou a ansiedade do outro e se limitou a um olhar carregado de desejo, tomando-lhe a boca e o beijando lenta e tortuosamente. Mordeu o lábio inferior de Dégel ao ter as mãos dele sobre seu membro e o agarrou pelos quadris, puxando-o para si e soltando...
Moveu o corpo simulando a penetração, mas não o invadindo. As bocas se afastaram e Kardia abaixou-se, tocando com os lábios, o tórax alvo do médico, aspirando-lhe o cheiro e marcando-o ali. Aproveitou-se da posição e segurou Dégel pela coxa, passando por cima de si e fazendo com que fechasse as pernas e ficasse de lado.
Ergueu-se murmurando em seu ouvido:
– Por que você faz isso comigo?
A pergunta, simplesmente escapara de seus lábios, como se tentasse esclarecer os próprios sentimentos. Voltou a segurar a cintura dele e a virá-lo, deixando os olhos vagarem pelas costas e o colocando de bruços. O corpo reduziu a distância e os dedos percorreram as nádegas macias dele, apertando-as enquanto a boca tocava as primeiras vértebras, mordendo ali.
Dégel estava imerso naquela voragem, pensando no que Kardia dissera e, ao mesmo tempo, arfando ao ser virado de costas. Instintivamente, ergueu levemente o quadril deixando a bunda encostar-se ao membro do outro.
– E o que eu faço? – Indagou, puxando o braço do grego, passando a boca pela musculatura, cheirando e mordendo.
– Não sei... loucura, talvez... – sussurrou o grego, ajeitando-se sobre Dégel, posicionando o membro de volta, entre as nádegas que tinha dispostas.
No momento em que os lábios do grego alcançaram mais da pele, distribuindo longos beijos pelas vértebras, forçou a entrada do falo que pulsava, afundando-o no espaço que se contraiu com a invasão.
Dégel apertou os olhos e deixou escapar um gemido baixo e rascante de dor. Seu corpo queria, mas ainda assim a situação era nova e dolorosa até que se acostumasse. Por alguns segundos, pensou no quê Kardia faria se soubesse que ele era virgem, que aquela era a primeira experiência sexual, apesar de ter 24 anos.
Sentindo a resistência, os lábios de Kardia deixaram escapar um ofego deliciado. Mexeu os quadris e pressionou, novamente, contra aquela entrada. Não havia lubrificante e sim, apenas seu corpo. A pressão era uma barreira a ser transposta e foi movendo-se devagar, sentindo o calor úmido do corpo do amante. Deixou um dos braços esticados e a outra mão segurou com força a cintura estreita.
– Ah... Dégel... – murmurou ele sentindo o corpo tenso do médico.
Kardia já sentia o suor brotando em seu corpo, a cada movimento o calor dominava sua pele e seus sentidos, tornando o ambiente mais carregado de energia sexual. Possuir Dégel daquele jeito o excitava de um jeito novo e estranho. Era diferente do sexo que havia tido com Misty e até mesmo das relações que tivera com as mulheres.
Aspirou o ar próximo da pele dele e afundou mais do membro, movendo-se com um pouco mais de facilidade. Os gemidos de Dégel eram longos e dolorosos, não havia sido uma penetração fácil apesar de ambos quererem muito. Dégel sentiu seu corpo ser atravessado pela dor, mas ainda assim afastou mais as pernas e inclinou-se mais, inspirando o ar de forma entrecortada, enquanto era arremessado para frente e puxado para trás pela mão forte que prendia sua cintura.
Fechando os olhos e cerrando os dentes, Dégel deixou que seus gemidos escapassem pela garganta a cada tranco, concentrando-se naquele homem, no cheiro exótico que ele exalava além de sentir os dedos longos e grossos lhe apertarem a carne. Pensar em Kardia fazia tudo mudar... seu corpo experimentava dor e prazer, mas também uma conexão profunda com alguém, algo que nem mesmo Sasha pudera lhe dar.
A mão livre do grego foi até o sexo de Dégel, apertando-o e voltando a massagear, fazendo com que o médico sentisse o prazer emanar dentro daquela ardência. Aos poucos, Dégel se contorcia, fechando a sua entrada, envolvendo ainda mais aquele falo, pressionando, deixando o caminho mais estreito e mais prazeroso para Kardia.
As ondas do clímax começaram a sobrepujar a dor e, finalmente, Dégel perdeu o controle... a cada estocada forte, sentia sua próstata ser tocada e isso trazia um prazer agônico e enlouquecedor que arrancava gemidos entrecortados de seus lábios.
O falo de Kardia era dominado pelos músculos que ora o apertavam mais, ora relaxavam respondendo a cada mergulho que dava ali. A glande enviava ondas de prazer para o corpo todo e pulsava como se o membro adquirisse vida própria. A pele transpirava e Kardia movia os quadris de forma circular, procurando sempre tocar Dégel mais fundo.
O grego fechou os olhos erguendo a cabeça e mantendo os dedos pressionados naquele corpo... Era esplêndida e inexplicável a sensação de ter Dégel daquela maneira. Alongava-se no movimento de penetração e saía, não tirando o membro todo, pronto para voltar e arrancar mais gemidos do médico. Eram estímulos prazerosos e cheios de cuidado, complementando tudo que sentia. Esboçou um sorriso em meio aos ofegos que os lábios de Dégel soltaram finalizando com o nome dele.
– Você me tira do sério... Nunca ninguém fez isso comigo. – disse Kardia e era estranho para si falar aquelas coisas, mas sua mente podia sentir o prazer do corpo e não conseguia deter as palavras que escapavam cada vez que o corpo do médico se contraía.
Arranhou a coxa do médico e percorreu a parte interna, apertando-a, enquanto acelerava mais e mais as estocadas. Em resposta àquelas palavras Dégel gozou intensamente, seu primeiro orgasmo em uma relação completa deixando marcas no lençol... Um grito contido escapou do fundo de sua garganta e sua cabeça estendeu-se para trás, enquanto todo seu corpo era contraído até o menor nervo.
Seguido ao choque orgásmico, o torpor o arrebatou, fazendo-o ficar relaxado e só então sentir uma fisgada no local em que fora ferido. Não caiu direto na cama, porque ainda sentia Kardia dentro de si e as mãos dele em seu corpo, fortes e quentes o segurando.
Ao ouvir e sentir o orgasmo de Dégel, a forma com que o corpo dele se contraíra com o clímax fez com que Kardia gozasse também, grunhindo rouco e inundando- o com seu sêmen, sentindo os espasmos do prazer sacudirem seu corpo com tanta força que lhe faltou o ar. Reabriu os olhos com a respiração acelerada e os batimentos descompassados. Continuou segurando Dégel e aos poucos saiu de dentro dele. Suspirou profundamente reorganizando a agitação do corpo, enquanto se deixava levar pela sensação do gozo.
Dégel arfava, o rosto corado, os lábios avermelhados e úmidos.
– Eu sou médico e... mesmo assim, jamais poderia imaginar que um orgasmo podia ser tão... tão forte... Meus olhos... estão pesados, não consigo mantê-los abertos..! — murmurou Dégel cedendo ao entorpecimento, após o sexo.
Kardia apoiou-se no cotovelo e olhou para o médico com o cenho franzido.
– Você fala como se nunca tivesse... Espera aí, você era noivo! Dégel?
Dégel não respondeu e Kardia percebeu que ele ressonava num sono imediato e havia uma pequena mancha de sangue no curativo em seu corpo. Tocou nos cabelos esverdeados que agora estavam em total desalinho e seu coração se aqueceu de um jeito quase assustador. Estava se apaixonando por um homem...
Em meio à penumbra, ficou observando Dégel dormir e seu coração falhou uma batida. Quando Flégias sinalizou que estava na hora de voltar, Kardia soube que por mais que desejasse, não devia aproximar-se de Dégel, novamente.
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