Santuário Dos Condenados
2 Capítulo 2 BEM VINDOS AO SANTUÁRIO...
Notas iniciais
A gravata de seda amarrava, fortemente, seus pulsos, mantendo seus braços para trás. A linha da coluna era bem visível e a mão forte passava os dedos por cada vértebra, fazendo-o gemer baixo.
Na suíte ampla e envidraçada, Valentine estava vendado e nu sobre a cama king size, sendo segurado firme pela cintura, enquanto a outra mão desvendava sua pele com carícias cada vez mais ardentes, até chegar às nádegas e alisá-las, lentamente...
Um gemido escapou dos lábios entreabertos no mesmo instante em que a mesma mão se elevou e converteu-se em uma palmada forte, deixando as marcas dos dedos na pele clara.
Exultante, o autor das palmadas sentia seu membro endurecer, sua mão aquecer no ato de tocar aquela pele nua e receptiva...
Sentindo o ardor da pancada, Valentine gemeu alto e, em seguida sorriu, mordendo o lábio inferior com força.
— Bata! Bata com força... Me puna, senhor juiz! Eu... mereço... – murmurou ele.
A mesma mão voltou a deslizar em uma carícia e então, mais uma forte palmada estalou nas nádegas roliças, criando um ritmo que fazia o jovem arfar e esfregar-se nos lençóis. Seu falo roçava na seda, pulsando, enquanto as palmadas continuavam cada vez mais fortes até que ele gritar, implorando para ser penetrado.
Excitado, o amante sorriu e cessou as palmadas. Numa lentidão torturante, levou os dedos aos lábios arfantes de Valentine e os introduziu na boca úmida e quente.
— Chupe... e chupe bem se me quer mesmo, dentro de você... – sussurrou a voz forte e grave.
Valentine obedeceu, deixando os dedos longos molhados de saliva e, em seguida, sentiu-os sendo introduzidos dentro do seu corpo... Arfou quando o amante moveu os dedos de forma circular, alargando-o, preparando-o para a tão desejada invasão. Os movimentos se tornaram profundos, atingindo-o na próstata, fazendo-o gemer cada vez mais alto e empurrar os quadris de encontro à mão que o penetrava.
— Ainda me quer bem dentro ou... vai se satisfazer assim? – perguntou o amante cessando os movimentos, mas mantendo os dedos no interior do corpo de Valentine.
— P-Por favor... me coma... – implorou Valentine e o amante sorriu, retirando os dedos e afastando as pernas do jovem.
— Empine essa bunda gostosa para mim... – ordenou puxando-o pelos quadris e levando a mão até o falo pulsante de Valentine, iniciando uma lenta masturbação.
Arfando, Valentine obedeceu e logo sentiu a língua quente invadir sua entrada, enquanto continuava a ser masturbado, agora com força. Estremecendo com tantos estímulos prazerosos, o jovem começou a contorcer-se e a desejar a penetração com desespero.
Gemeu e implorou até que o falo túrgido do amante deslizou para dentro de seu corpo num único e brutal movimento. Um grito estrangulado irrompeu de sua garganta, enquanto seu amante rosnou exultante com a sensação de aperto em volta de seu membro.
Movendo seu corpo para trás, Valentine sentiu não só o falo mergulhado inteiro, dentro de si, como também os testículos do amante chocando-se contra as suas nádegas e isso o fez afastar mais as pernas e mostrar o prazer que sentia com a invasão profunda e ritmada...
— Ah, Valentine... Isso, mexe assim... Me deixa te encher de... porra!
A frase dita aos berros sincronizou com o orgasmo fulminante que atingiu a ambos, fazendo-os urrar e desabar sobre os lençóis. Valentine se desfez na mão do amante, ao mesmo tempo em que sentia o líquido quente e viscoso inundá-lo em jatos que se aliavam aos movimentos dos quadris e da forma como o amante se chocava de encontro ao seu corpo.
Sem fôlego, Valentine permaneceu arfando com o amante sobre si. Sentiu o hálito quente dele em sua nuca e os braços dormentes por permanecerem amarrados e naquela posição.
— Me desamarre... – pediu ele, enrouquecido, no mesmo instante em que, um dos celulares que jaziam sobre o criado mudo tocou.
Ofegante, o homem loiro e com um físico invejável começou a desamarrar a gravata com que amarrara os pulsos de Valentine, enquanto verificava o número e atendia o celular.
— Por que tem que atender? – perguntou o jovem retirando a venda e mostrando-se aborrecido, enquanto esfregava os pulsos, fortemente marcados.
— Porque é importante e eu devo atender. – respondeu o homem sentando-se na cama.
Valentine inspirou fundo e levantou-se da cama, passando rente ao amante numa provocação explícita. A bunda de contornos perfeitos exibia um avermelhado que resultara das palmadas... Ele sorriu malicioso ao sentir o sêmen escorrer pelas pernas e andou até o banheiro da suíte, enquanto o loiro o observava com a luxúria instalada nos olhos dourados.
— Em que posso ajudá-lo? – perguntou o homem, ao celular, sem deixar de olhar para Valentine.
— Kardia foi preso. Quero que ele seja condenado e posto em uma prisão de segurança máxima fora dos Estados Unidos. Pode ser na Tailândia, América do Sul, China ou qualquer outro lugar bem longe e, de preferência, que seja uma viagem só de ida!
— Será feito.
— Ótimo, sei que não me desapontará. Meio milhão será depositado em sua conta bancária na Suíça, quando eu tiver a confirmação do destino daquele grego maldito.
— Obrigado, pode considerar menos um empecilho em seu caminho.
Assim que desligou, Radamanthys retirou do balde de gelo um champanhe Dom Pérignon 1949, uma bebida cara e rara que se podia dar ao luxo de consumir. Pegou duas taças e as serviu, observando as bolhas de gás subindo em um movimento ondulante.
Era um dos mais jovens, famosos e implacáveis juízes do sistema judiciário de Nova York. No entanto, havia em sua trajetória, uma única mancha obscura, a sua estreita ligação com o gângster conhecido como Hades. Não havia nada que ele lhe pedisse que não fosse realizado. A razão disso? Um segredo que ele guardava muito bem e que jamais revelara a ninguém...
Quando Valentine retornou, ele levantou-se e se aproximou oferecendo o líquido borbulhante. O jovem sorveu um gole e, antes que o engolisse, Radamanthys o beijou com fúria, provando da bebida na boca do amante e agarrando-o pelos cabelos, estreitou-o contra o corpo ainda quente do sexo feito há instantes...
Valentine gemeu, mais uma vez, e agarrou-se ao amante, as línguas se encontrando com fúria e desejo, os corpos novamente ansiando um pelo outro...
— Vai me comer de novo? – murmurou o jovem.
— Bem que eu gostaria, mas... sabe que tenho muitos processos para ler e estudar. Mais tarde, talvez... – respondeu o juiz.
— Posso ajudá-lo a livrar-se deste trabalho mais rápido... – falou Valentine passando a língua nos lábios de Radamanthys,
— Você é o estagiário-assistente da Defensoria. Eu seria acusado de ser antiético e favorecê-lo, caso nos descobrissem- — disse o juiz.
Uma gostosa gargalhada irrompeu da boca de Valentine e, em seguida, Radamanthys também riu, empurrando-o sobre a cama e tomando-lhe os lábios em mais um beijo ardente e profundo.
— Pensando bem... acho que vou sim, te comer de novo. – murmurou o juiz se insinuando entre as pernas de Valentine e sendo recebido com muito prazer...
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O dia cinzento combinava com o humor de Kardia. Não bastasse ter sido preso, ainda tinha que aturar aquela chatice de julgamento. As instruções do juiz ao júri eram incompreensíveis e durava uma eternidade.
Na noite em que fora preso, muitas coisas haviam acontecido. Graças ao planejamento cuidadoso, mesmo cercado pela polícia, cuidou para que Aspros, Defteros e Hasgard tivessem a chance de escapar.
Uma segunda bomba de efeito retardado explodira no clube, segundos depois da ordem de prisão dada por Aioros, causando uma confusão suficiente para que os três melhores homens de Kardia pudessem escapar para cuidar dos negócios, enquanto ele era tirado de cena.
Virou-se para o lado e encarou seu advogado. Sylphid era jovem e muito competente para reverter causas perdidas. No entanto, nesse caso específico, ele não tinha muito que fazer, principalmente ao tomar conhecimento de algumas mudanças de última hora.
— Quais as minhas chances? – perguntou baixo.
— Poucas. Mas, vou tentar uma pena reduzida e rezar para que escape da pena máxima.
— Como assim rezar? Se eu acreditasse em milagres, contratava um padre e não um advogado.
— Tenho que confessar que estava otimista até ontem, antes de ser comunicado que haveria uma troca de juízes para o seu caso. Radamanthys de Wyvern tem a fama de ser um juiz de sentenças máximas e vê-lo aqui, sinceramente, me faz pedir por um milagre.
— Puta que me pariu!— resmungou Kardia.
A sessão foi exaustiva, assim como a próxima que julgaria o médico Dégel Eugene Delacroix. Em ambas, tanto o discurso da defensoria quanto da promotoria havia sido longo, tenso e provocado um burburinho no público que fora assistir.
Após o encerramento das explanações, o júri foi encaminhado à sala secreta para discutir a votação, chegando a um consenso comum em ambos os casos. A decisão acabou por unir o destino de dois homens, totalmente opostos, tanto em personalidade, quanto na vida e visão de mundo.
E, enquanto a inexorável roda do destino tecia os acontecimentos, os dois réus, enfim, receberam a sua sentença. O juiz Radamanthys leu o veredicto. A voz profunda e clara pronunciando, cada palavra, com firmeza e autoridade:
Kardia Nicholas Stephanopoulos foi considerado culpado pelo crime de formação de quadrilha, pelo assassinato de Zelos Paddock, por agressão, invasão e destruição de propriedade privada. Sentença: trinta anos de prisão em cárcere privado e sem direito à condicional. Local: Prisão Federal Experimental sediada na Ilha de Hornos, no arquipélago da Terra do Fogo.
Dégel Eugene Delacroix foi considerado culpado pelo crime de homicídio doloso, pela violação do senso moral e do código ético do exercício da medicina quando da prática da eutanásia com sua paciente, Sasha Ileana Bertolazzo. Sentença: vinte e oito anos de prisão em cárcere privado e sem direito à condicional. Local: Prisão Federal Experimental sediada na Ilha de Hornos, no arquipélago da Terra do Fogo.
Dégel permanecera em silêncio todo o tempo do julgamento. Sua mente vagava, enquanto olhava os rostos do júri. Parte de si desejava aquela punição devido à culpa que se instalar em seu coração e a outra gritava que tinha sido fiel a sua promessa, que Sasha não merecia uma vida sub-humana e que, portanto, fizera o que devia. Quando o levaram de volta para a prisão, ele deu-se conta que a vida como conhecera, havia acabado e que seu sonho de mudar o mundo e a vida das pessoas seria sepultado com aquela sentença.
Kardia mantinha uma expressão debochada. Já havia sido preso algumas vezes, mas nunca com esta perspectiva de permanência. Mordeu o lábio, sentindo o movimento do piercing na língua. Inspirou fundo, sentindo o coração acelerar e, em seguida riu alto, como se estivesse embarcando em um cruzeiro de férias. Afinal, ele já escapara de tanta coisa e ser sentenciado não seria tão horrível assim.
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A ilha de Hornos, vista de cima, era uma imensa mancha surgida no oceano. Famosa por pertencer ao arquipélago da Terra do Fogo e por conter o Cabo Horn, lugar de tempestades violentas que sempre dificultaram as navegações, abrigava, agora, um complexo prisional construído num esforço conjunto da Comissão de Caridade e correções de Nova York e duas instituições filantrópicas ligadas à pesquisa sobre comportamento humano.
Os presos só podiam chegar em navios ou helicópteros militares.
Kardia e Dégel, assim como outros seis presos, desembarcaram na famosa penitenciária numa manhã fria e ensolarada. O complexo era parecido com uma fortaleza moderna, com linhas arrojadas que a faziam parecer com o Pentágono em menor escala. As paredes externas eram de um cinza chumbo, enquanto, internamente era tudo muito claro e com um sistema de luz natural que impressionava.
Já na chegada os presos foram separados em dois grupos de quatro. Kardia ficou no grupo considerado de alta periculosidade, enquanto Dégel permanecia no grupo selecionado como baixa periculosidade. A divisão era feita com base no histórico criminal de cada prisioneiro.
— Sejam todos bem-vindos à Prisão Federal Experimental chamada, carinhosamente por todos de Santuário! Eu sou o Dr. Minos de Griffon, diretor-chefe deste lugar e quero esclarecer algumas regras aos recém-chegados. – disse o homem belo e exótico que os recebeu junto de uma fila de guardas uniformizados.
O rosto do diretor era impetuoso, tinha cabelos prateados, quase brancos. Seus olhos estreitos e de reflexos violáceos eram, peculiarmente penetrantes e com um misterioso brilho. A pele alva combinava com aqueles cabelos presos em um rabo de cavalo apertado e baixo que acentuavam sua aparência jovial. Estava na faixa dos trinta anos e mesmo quando sorria, demonstrava uma frieza de modos que deixava alguns com calafrios.
Ele estava bem vestido, num caríssimo terno escuro com camisa de algodão branco e gravata de seda, parecendo mais alguém pronto para receber o prêmio Nobel que ditar regras em um presídio. Olhando para os homens a sua frente, ele continuou:
— Como todos sabem, esta prisão é de segurança máxima e como tal, pelas regras, deveria ser dirigida sob lock down. No entanto, ao participar deste novo projeto que visa mudar o sistema prisional, não teremos confinamentos totais, a não ser que haja desobediência ou infração das regras. Não queremos animais aqui e sim homens dedicados a corrigir suas faltas e tendências. O Santuário é o lugar onde vocês resgatarão suas vidas e suas almas com a ajuda de profissionais competentes e regras invioláveis. Fracasso, derrota e desistência são palavras abolidas do nosso dicionário. Espero estar sendo bastante claro.
“Claríssimo...”
“Essa bicha empertigada se acha.”
“Vou me dar muito bem aqui.”
“Cambada de frouxo! Vai ser moleza.”
Os mais diversos pensamentos permeavam as mentes dos recém-chegados.
No grupo de Kardia estavam Aldebaran, condenado por tráfico de drogas, Máscara da Morte condenado por assassinato e formação de quadrilha e Afrodite condenado por assassinato e prostituição.
Ao lado de Dégel estavam Albafica, famoso bioquímico, condenado por assassinato, Morfeus, psiquiatra condenado por assédio sexual, estupro e assassinato e Asmita, hematólogo condenado por quebra de sigilo industrial e assassinato.
— Bem, agora, todos serão encaminhados para a triagem. Por enquanto é só.
A triagem consistia em despir, banhar e inspecionar os recém-chegados de maneira rigorosa para garantir que não estavam contrabandeando nada. Suas posses eram catalogadas e colocadas em caixas. E não era permitido trazer objetos de fora. Era deixado passar, somente, alguns livros, óculos e documentos.
Um homem alto e com feições de poucos amigos se apresentou:
— Sou Caronte, responsável pela segurança da ala B e estou aqui para revistá-los. Tiram toda a roupa e depois da inspeção, dirijam-se até os chuveiros. As roupas com que vieram, serão guardadas e os uniformes estarão distribuídos segundo peso e estatura de cada um. Depois, aqueles cujos números no uniforme sejam ímpares, serão escoltados por Ox até a galeria A e os com números pares serão levados por mim até a galeria B.
Kardia olhou para o lado. Até então, não tinha se fixado em ninguém. Em parte, porque o grandalhão ao seu lado se parecia em estatura com Hasgard, embora se mostrasse menos carrancudo que seu amigo e parceiro e também porque aquele lugar era muito diferente do que já havia experimentado em uma prisão.
Notou o grupo dos bonitinhos e esquisitos que pareciam mais nerds que criminosos. Um deles chamou sua atenção pelo cabelo verde e olhos violeta. Nunca tinha visto alguém como ele, embora na Cozinha do Inferno existisse muita coisa bizarra. Não que o sujeito em questão fosse bizarro, ele era diferente e não parecia e nem tinha energia de um criminoso. Mas logo desviou dele e voltou-se para os homens do seu grupo. Além do grandalhão, havia um homem com cara de insano e outro tão bonito que mais parecia uma mulher.
É... melhor eu pensar como fazer meu nome por aqui, ao invés de ficar analisando e...— Ei! Não se atreva a meter a mão aí! – gritou Kardia, interrompendo seus pensamentos ao sentir as mãos de Caronte em sua bunda.
— Fique quieto! – vociferou Caronte e logo surgiram dois guardas que antes só observavam, portando minúsculas máquinas de choque e posicionando-se um de cada lado de Kardia.
O gângster percebeu que se fizesse qualquer movimento, sentiria uma dupla e dolorosa descarga elétrica. Cerrou os dentes e não reagiu quando Caronte, propositalmente, afastou suas pernas com brutalidade e empurrou-o de encontro à parede.
— Hummm... vejo que não tem nada enfiado por aqui. – disse o guarda abrindo as nádegas de Kardia e olhando. E depois, aproximando-se do ouvido do grego, sussurrou: — Por enquanto...
A revista foi feita nos demais de forma mais tranquila e o encaminhamento dos grupos aconteceu logo após o banho.
Kardia vestiu o uniforme com o número 908 estampado nas costas. A indumentária toda consistia em uma camiseta de algodão azul clara, uma camisa e uma calça em jeans azul escuro. Ele deixou a camisa aberta, revelando o torso musculoso sob a camiseta justa. Arregaçou as mangas, mostrando os braços fortes com algumas cicatrizes e não se importou com o fato da calça ter ficado justa nas coxas e em seu traseiro. Tinha orgulho do seu corpo e fazia questão de mostrar-se em forma e forte perante aqueles guardas escrotos.
Quando adentrou a galeria B, junto dos novos companheiros, ele olhou em volta. Havia celas dos dois lados com cerca de 3 m por 2,8 m, com duas camas de metal presas na parede ao estilo beliche, uma pia e um vaso sanitário em inox, duas pequenas mesas também presas à parede e uma pequena janela no alto que deixava entrar a luz solar.
O ambiente era muito limpo e quem já estava ocupando seu espaço dentro delas os observava em silêncio, mais um fato incomum que Kardia estranhou.
Geralmente, os presos gritavam obscenidades e batiam nas grades polidas. Mas ali não, eles apenas olhavam... Alguns possuíam um brilho selvagem nos olhos, e mesmo não falando, dava para sentir a energia densa se espalhando pelo ambiente. Outros pareciam ausentes, quase parecidos com zumbis exceto pelo fato de estar inteiros e não feder à carne podre.
— Misty, faça as honras e inicie o nosso amigo nas regras da casa. – disse Caronte abrindo a cela onde Kardia iria ficar e fechando-a, após a passagem do grego.
O jovem de beleza andrógena estava deitado na cama de cima e ao ver o grego, olhou-o de cima a baixo. Avaliando cada centímetro de pele e parecendo gostar do que estava vendo.
Kardia percebeu-lhe a beleza quase feminina, à semelhança do outro que integrara o seu grupo e notou que ele tinha uma caixa nas mãos e logo pode ver que era de preservativos. Fingiu não ligar e apenas disse o seu nome.
— Me chamo Kardia.
— O meu nome você já sabe... Então, que tal passarmos para algo mais... interessante que apresentações desnecessárias. – disse Misty pulando da cama e ficando a uma curta distância do grego com um pacotinho de cor metálica nas mãos.
— Olha, vamos deixar uma coisa bem clara, entre nós. Eu não curto trepar com homem, nem como ativo e muito menos como passivo.
Uma sonora gargalhada preencheu a cela.
— Quantos anos você pegou, bonitão? Vinte? Trinta? Já se deu conta de onde está? Aqui é o fim do mundo, meu lindo! Acha que vai aguentar bater punheta por todo esse tempo? Bem, fique à vontade, mas... aceite um conselho: não vá se achando o macho por aqui. Vai chegar a hora em que vai ter que escolher entre dar ou comer. Isto é, se Caronte permitir que você escolha. – disse Misty voltando para a cama.
Kardia olhou para fora e deu de cara com Caronte que sorria de um jeito sugestivo, enquanto alisava o cassetete que tinha em mãos. Outro guarda aproximou-se dele e os dois cochicharam algo, antes de continuar a patrulhar o corredor.
— O tal Caronte é seu amante? – perguntou Kardia, tornando a olhar para Misty.
— Meu amante? Caronte não é amante de ninguém. Quem ele quer, ele toma, assim como todos os guardas dessa ala. A ala B é comumente conhecida como o matadouro. Aqui, quem não serve de puta ou se recusa a fazer acaba sendo punido de várias formas. E já adianto que nenhuma punição é leve, meu bem!
— Ele que experimente! – disse Kardia.
Misty suspirou e tornou a brincar com a caixa de preservativos. Este grego é bonito prá caralho, mas ainda não sabe que o Santuário devia mesmo era se chamar Inferno! Tomara que Caronte não detone muito com ele... Eu ainda quero ver se ele tem um pau tão gostoso quanto parece ter...
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As celas da ala A, nomeada pelos guardas como Além da Cúpula do Trovão, eram claras e um pouco maiores que as da ala B. Um detalhe importante é que permaneciam abertas e podia-se ver que os presos conversavam entre si como se estivessem em um dormitório universitário.
Dégel havia recebido o número 911 e seus olhos violáceos esquadrinharam a área rapidamente. Os guardas conversavam com alguns presos e pareciam um tanto íntimos trocando cigarros ou revistas. Quase não se podia diferenciá-los, a não ser pelo uniforme tradicional da polícia e os quepes de couro negro. Um dos guardas acariciava o rosto de um prisioneiro e isso o intrigou.
— Eles parecem se amar mesmo, não acha? Difícil ver algo assim, tão explícito à luz do dia.
A voz melodiosa fez Dégel virar-se e ver a mão estendida na sua direção.
— Eu sou Sorento, seu companheiro de cela. Você deve ser Dégel, o famoso oncologista que faz pesquisas sobre nanotecnologia farmacêutica. – disse o homem jovem.
Um tanto constrangido e surpreso, Dégel apertou a mão de Sorento.
— Sim, eu me chamo Dégel. Mas, como sabe sobre mim?
— Todos aqui são informados e devem mostrar interesse sobre os novos companheiros. É um requisito básico para que continuemos tendo certos privilégios.
Sem querer, Dégel franziu o cenho, sendo tomado por sensações contraditórias. Sua mente racional dizia que tudo aquilo confirmava as palavras do diretor sobre mudar o sistema prisional, mas algo dentro de si permanecia em alerta, como se aquela fachada de felicidade fosse ruir, a qualquer momento.
— Sei o que está pensando e... Bem, a liberdade aqui, tem seu preço e existem certas restrições. Temos sexo liberado entre nós e os guardas, desde que trabalhemos nos projetos que nos são destinados. Mas, é proibido transar nas celas. Para isso, uma vez a cada quinze dias, temos a Cúpula, um ambiente com diversos quartos, cada um com acessórios e decoração para vivenciarmos todas as fantasias possíveis e imagináveis. Cortesia do diretor. – disse Sorento.
Dégel tentou imaginar aquela rotina, mas só conseguiu sentir-se mais confuso. Projetos desenvolvidos pelo diretor? Sexo liberado entre presos e guardas? Ambiente privê com nome?
— Venha, em seguida vai se acostumar e até esquecer que está numa prisão. – disse Sorento conduzindo Dégel até a cela.
O lugar parecia um quarto comum, não fosse pelas grades. O cenário era quase o mesmo da ala B com alguns detalhes a mais. Havia duas camas de metal presas na parede, sendo uma de cada lado, uma pia e um vaso sanitário em inox, duas pequenas mesas presas à parede, dois bancos presos ao chão, três prateleiras cheias de livros e a mesma pequena janela no alto que deixava entrar a luz solar.
— Eu gosto de ficar no lado direito e você? – perguntou Sorento.
— Qualquer lugar, obrigado. – respondeu Dégel, de forma educada.
— Gentil e tímido... Lembre-me de adicionar essas duas características ao seu dossiê, doutor – disse Sorento rindo e tocando o ombro de Dégel.
O médico sentiu-se ainda mais desconfortável, mas permaneceu conectado ao olhar avaliativo de Sorento. Para afastar a sensação, resolveu perguntar:
— E você? Não me disse quem é.
— Eu? Ah, eu não sou tão importante, sou apenas um bioquímico e amante da música. Podemos conversar melhor mais tarde, agora tenho que trabalhar um pouco. – disse ele, se afastando.
Dégel foi até as prateleiras, encontrando livros sobre hematologia, nanotecnologia, psiquiatria e até mesmo um dicionário de termos eróticos aplicados ao homossexualismo. Sentou-se em um dos bancos, notando que as conversas haviam cessado. Todos haviam voltado às celas que agora, estavam sendo fechadas, mas não trancadas. O guarda que ele presenciara acariciando um dos prisioneiros aproximou-se das grades e sorriu malicioso.
— Daqui a dois dias, eu e Niobe iremos à Cúpula. Nós dois gostamos de companhia... Faça bem o seu trabalho e, quem sabe, poderá divertir-se conosco, doutor Dégel.
Os olhos de Dégel se arregalaram.
— Não, obrigado. – disse por fim.
Os olhos escuros do guarda foram descendo pelo corpo esguio de Dégel e então voltaram para o rosto pálido. Os belos olhos violáceos combinavam com aquele cabelo esverdeado natural e exótico, uma constatação que fez o homem passar a língua nos lábios e depois mordê-los.
— Sorento não o colocou a par de tudo, não é? Ele sempre prefere ir devagar, coisas da sua alma de artista... Mas, deixe-me avisá-lo, doutor. Esta ala tem a vantagem de manter a ordem das coisas de modo que cada um sabe o seu lugar e a sua função. Tenha uma boa estadia e se desejar ampliar seus conceitos, pode contar com a minha ajuda.
Indignado, Dégel quase deixou a boa educação de lado para responder ao guarda, porém antes que o fizesse, o diretor surgiu.
— Deixe-nos às sós, guarda.
O guarda murmurou um “sim, senhor” e saiu, logo em seguida.
— Doutor Dégel! Quando eu soube da sua situação, dei alguns telefonemas para que fosse trazido para cá e perdoe a minha ansiedade, sei que acabou de chegar, mas eu ficaria muito honrado se aceitasse integrar um projeto que estamos desenvolvendo. Ele tem muito a ver com as suas pesquisas sobre nanotecnologia farmacêutica. Os doutores Albafica, Morfeus e Asmita também estão cotados para fazer parte da equipe principal e estarão, diretamente, ligados a mim. Como pode ver, esta ala recebe os mais brilhantes profissionais que, por uma fatalidade, acabaram cometendo um crime.
— E que projeto é esse?
— Chama-se Projeto Amplo espectro e, resumindo, constitui em drogas experimentais inovadoras, prontas para serem testadas. Algumas delas são específicas para combater os tipos de câncer mais invasivos.
— De acordo com o que está propondo, suponho que tenha um laboratório aqui. Mas, como são feitos os testes? Um projeto deste nível exige muito dinheiro e exigiria um grupo de controle.
— Gosto da sua perspicácia e objetividade. Como bem observou, este projeto é ambicioso e desenvolvê-lo em uma prisão, de certa maneira resolve a questão do grupo de controle.
— O senhor não pode estar falando sério! Ninguém em sã consciência vai candidatar-se a servir de cobaia e, além disso, é proibido usar pessoas sãs para esse tipo de teste.
— Ora, doutor... Sabe muito bem que, para se atingir um objetivo maior, temos que estar dispostos ao sacrifício.
— Sacrifício da vida de homens que o senhor alega desejar recuperar.
— Alguns já estão muito além do que se espera recuperar. Venha comigo, quero mostrar-lhe algo. Talvez assim, entenda meu ponto de vista.
Minos conduziu Dégel por um imenso corredor, acompanhado de um policial que se mantinha um passo atrás deles até chegar a uma grade que antecedia um painel com um leitor de retina. O feixe luminoso fez a leitura da íris do diretor e uma porta se abriu. Luzes azuladas do segundo corredor se acenderam, automaticamente, a cada passada dos dois, até ambos chegarem numa ampla sala que parecia ser uma enfermaria. Mais uma porta, agora de vidro transparente, se abriu revelando leitos individualizados por biombos plásticos e transparentes, parecendo bolhas. O ar estava frio e as luzes brancas pareciam deixar a temperatura ainda mais baixa.
Dégel se aproximou de uma das bolhas, onde havia um homem pálido e cheio de feridas ao redor da boca. Examinou-o, atentamente, percebendo a textura macilenta da pele e as microveias azuladas por todo o pescoço, assim com a aparência de queimado nas mãos.
— Isso parece... Parece contaminação por radiação. Essas feridas e queimaduras são evidentes em casos de vazamento em usinas nucleares ou exposição a material radiativo. – disse o jovem médico.
— Excelente, doutor Dégel! Vejo que não me enganei quanto a sua importância em meu projeto. Uma olhada simples e já descobriu a causa. Sim, este homem foi contaminado por urânio há três semanas atrás e está sendo tratado com um coquetel das drogas experimentais.
— Como isso aconteceu? – perguntou Dégel.
— Foi bastante simples, nós criamos as condições para tal. Esse homem é a nossa cobaia número cinco e o único a responder positivamente ao tratamento. Os outros passaram por outras formas de contaminação. Alguns não sobreviveram e outros não responderam ao coquetel. Ao todo, temos vinte e cinco cobaias com os mais diversos sintomas, prontos para serem estudados e esperamos selecionar mais alguns.
— Está me dizendo que foi o senhor quem fez isso?!
— Sim, eu comecei e você, junto com os demais, irá terminar. – respondeu Minos.
Horrorizado, Dégel olhou para Minos.
— Não conte comigo.
Minos suspirou, depois massageou a nuca, sempre fitando o jovem médico nos olhos.
— Creio que precisa de um tempo para pensar e analisar onde está doutor Dégel. O senhor é um privilegiado em ter sido escolhido para participar ativamente de um grande projeto. Um projeto que pode salvar milhões de vidas. Para isso, terá condições de trabalho e privilégios aqui dentro.
— Não a esse custo, prefiro abrir mão dos privilégios!
— Vou dar-lhe uma chance para pensar melhor. Está cansado e emocionalmente abalado com sua própria situação. Nos falaremos amanhã. Agora, Flégias vai acompanhá-lo de volta a sua cela.
O guarda deixou Dégel em sua cela, cuja grade fechada funcionava, apenas como um limite visível e não um obstáculo real.
O médico olhou para o pequeno espaço e sentou na cama com a cabeça latejando, cheia de imagens chocantes daqueles rostos descarnados e doentes aos quais tinha sido apresentado. Por minutos, perguntou-se o que aconteceria se continuasse se negando a tal loucura. Certamente, o diretor não aceitaria um não, porém era a única resposta que arrancaria de si. Usar pessoas como se fossem cobaias era um crime hediondo, do qual se negaria a participar, mesmo que isso lhe custasse o privilégio de gozar da meia-liberdade ou até mesmo, da sua própria vida.
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