Santuário Dos Condenados

3 Capítulo 3 O DIA “D”


Notas iniciais
Oi, amadas todas!!! Feriado no sul e eu aproveitando prá postar mais um capítulo! Espero que gostem! Bjs e desde já, obrigada pela presença especial e pelo carinho que recebo!!XD

Três semanas haviam se passado. O “Santuário” permanecia em paz, como se, realmente, fosse um lugar diferente das demais prisões. As rotinas já tinham sido estabelecidas com os novatos, distribuindo os trabalhos que iam da cozinha, lavanderia, ajudante na barbearia até a faxina dos corredores e celas.

Kardia se mantinha cuidadoso, esperando... Nada de anormal havia acontecido durante esse tempo. Fora escalado para ajudar na lavanderia e tudo corria sem incidentes. Já conhecia as três facções que dominavam a ala B e parecia que faziam isso de forma discreta e silenciosa, muito estranho para uma prisão de segurança máxima. Já se comunicava com alguns e até ficou surpreso em ser reconhecido pela grande maioria. Caronte, apesar de encará-lo todas as vezes que comandava a troca de turno dos guardas, também se manteve distante. Havia algo em suspenso, Kardia percebia a vibração dentro de si, a mesma sensação de perigo iminente que, em outra época, ele não soube decifrar, mas aprendera a fazê-lo, após a perda dolorosa que mudara a sua vida.

O tempo estava limpo e bom e todos estavam ao ar livre, desfrutando do banho de sol. A temperatura ali era baixa, um tanto fria, mas o calor do sol era gostoso e os presos caminhavam e conversavam entre si. Havia duas quadras de jogo, uma de basquete e outra de futebol onde se podia jogar. Alguns homens ficavam sentados em mesas, jogando damas, xadrez, dominó ou em uma parte coberta onde ficavam os aparelhos de musculação, fazendo flexões e levantando pesos.

Um grupo significativo se juntava nos cantos para fumar baseados ou cheirar um pouco de pó comprados dos guardas, a única coisa parecida, realmente, com o que comumente acontecia nas prisões. E, mesmo assim, era tudo feito dentro de um clima de mistério e disfarce.

– Vai ficar só olhando? – perguntou o moreno.

Kardia voltou-se para o italiano que chegara junto com ele. Era Máscara da Morte, um sujeito meio psicopata que adorava degolar seus inimigos. Olhou-o bem dentro dos olhos, depois tornou a fixar-se no grupo que conversava em um pequeno círculo.

– Ao invés de ficar fazendo perguntas idiotas, tá a fim de agitar o negócio por aqui? – respondeu Kardia.

O italiano olhou-o com desconfiança, depois sorriu e deu uma tragada no cigarro que acabara de acender.

– Agitar? Bem, dependendo da parada... – disse por fim.

– Então vem comigo. – falou Kardia movendo o piercing de metal em sua língua.

Aldebaran, Afrodite e mais três presos estavam conversando quando Kardia surgiu com Máscara da Morte.

– Oi! O negócio é o seguinte, eu to a fim de marcar um território e preciso de caras fodões comigo. Tão interessados ou vou ter que garimpar por aí?

Afrodite elevou os olhos devagar, as pestanas longas criando um movimento que deixou o italiano excitado. Os dois não haviam se falado, o belo loiro se mantinha altivo e indiferente, mas isso parecia prestes a mudar.

– E o que se ganha em pertencer ao seu... grupo? Você é um recém-chegado e pelo que eu ouvi por aí, perdeu seu território para alguém mais fodão que você. – disse Afrodite.

Estreitando os olhos e assumindo uma postura agressiva, Kardia chegou perto de Afrodite, encarando-o. O grego era mais alto e com o torso mais musculoso.

– Você é bem bonito, loiro. Bonito até demais... rivaliza com o Misty. Se estiver disposto, pode até tirá-lo do posto de puta exclusiva. Se for isso que deseja, pode ir se afastando que a minha proposta é prá homem e não prá uma versão de Barbie presidiária.

Afrodite sorriu de um jeito perigoso, olhando Kardia dos pés à cabeça. Depois o encarou de forma que seus olhos azuis pareciam duas chamas frias.

– Sou mais homem que você, grego, portanto dobre a língua ao falar comigo. Você não sabe nada sobre mim e se, ousar me chamar de Barbie outra vez, vou abrir um sorriso maior nessa sua cara, de ponta a ponta! – disse o loiro.

Kardia sorriu de forma debochada e Aldebaran resolveu interferir.

– Ei, ei!Não vamos brigar entre nós. A gente é novato por aqui e se ficarmos unidos estaremos mais protegidos. Vamos lá, Kardia, o que tem prá gente? – disse o grandalhão.

Máscara olhou para Afrodite e depois para os demais.

– É, grego. O que tem para propor, afinal? – falou Máscara.

Inspirando fundo, Kardia começou a falar:

– Tá,vamos deixar as nossas diferenças de lado. Bem, eu acho que essa paz é só fachada. Os guardas mandam na ala B, enquanto a ala A é uma espécie de área de elite. Tem algo errado por aqui e a gente tem que ficar esperto. Os Demônios ali dizem serem os únicos a fazer transação com os guardas, mas eu observei que os Caveiras tão a fim de inverter esse negócio. Minha ideia é tirar os Demônios do ramo e nos aliarmos aos Caveiras.

Afrodite riu com sarcasmo, Máscara da Morte continuava encarando-o com aquele brilho insano nos olhos azuis e Aldebaran coçou a cabeça.

– Não me diga que pretende desafiar o líder dos Demônios. O homem tem contato com Caronte, não dá prá desafiar os caras!– disse um rapaz franzino com aparência de fuinha que estava junto do grupo.

– Primeiro, a gente se livra do Caronte e, com isso, chegamos aos Demônios. – respondeu Kardia.

– Isso é loucura! – falou o rapaz arregalando os olhos pequenos e amendoados.

– Essa é a minha palavra favorita... – disse Máscara da Morte ao rapaz que assumia uma postura amedrontada.

– Creio que o grande rei deve ter um plano, não? – Afrodite falou de forma sussurrada e desafiadora.

Aldebaran permaneceu em silêncio, o cenho franzido. Depois de apertar o nariz como se estivesse tentando reter o ar, falou:

– Se eu entendi bem, vamos ter que chegar em outro guarda, alguém que não goste do tal Caronte e esteja disposto a tomar o lugar dele. Nos aliando com esse novo chefe podemos desafiar os Demônios.

Kardia olhou para Aldebaran e abriu um imenso sorriso.

Bingo! Cara, você lembra um grande e velho amigo. Red Bull diria o mesmo.

– E como vamos saber quem não vai com a cara do Caronte? – questionou Afrodite.

– Isso, nós já vamos descobrir... – falou Kardia direcionando o olhar para outro grupo cujos murmúrios e falas exaltadas mostravam que algo diferente estava acontecendo.

Um grande e excitado grupo fazia uma roda em volta de algo ou alguém. Ao aproximar-se, Kardia e os demais se depararam com uma esteira e uma bela bunda desnuda e empinada recebendo os raios de sol. O pivô de todo aquele alvoroço era Misty que simulava ler um livro, enquanto o sol banhava suas costas e as belas nádegas roliças.

– Eu pago cinco dólares só prá você me deixar passar a mão e depois morder essa bunda deliciosa! – gritou um.

– E eu, vinte dólares prá você me chupar bem gostoso! – gritaram dois, ao mesmo tempo.

– Eu pago trinta prá me deixar foder o teu rabo apertado e meter bem fundo. — disse o líder dos Demônios se aproximando da roda e passando a língua nos lábios, sugestivamente.

Misty piscou e dignou-se a olhar para o grupo ao seu redor. Era sempre assim, ele expunha o material e depois escolhia as ofertas mais vantajosas, além de também tentar unir o útil ao agradável. Podia ser uma puta, mas exigia certos requisitos para trepar. Um deles era que o cara estivesse limpo, de preferência de banho recém-tomado e sempre usasse camisinha, tanto para o sexo anal, quanto oral. Não ia engolir porra de qualquer um, muito menos dar o cu sem proteção. Orgulhava-se tanto da sua beleza, quanto saúde e, ademais, embora dissesse que não, era protegido do terrível Caronte, o único que dispunha do seu corpo como bem lhe provinha.

O líder dos Demônios, chamado Marte, era um homem cruel, sanguinário, mas ainda assim dotado de um magnetismo e fascínio que mantinha sua facção unida, forte e sob controle. Tinha os cabelos negros e presos em um rabo de cavalo baixo e frouxo. O boneco Chucky tatuado no braço esquerdo e um demônio flamejante no peito o identificavam como assassino violento e sem remorso, ou seja, quase um psicopata. Diziam que quando ele escolhia alguém para foder, o cara ficava quase um mês sem poder sentar, quando não era despachado de imediato para a enfermaria.

– E então? – perguntou ele.

– Eu pago cem dólares. – gritou Kardia.

Houve uma comoção no grupo. Marte virou-se para o grego, enquanto Misty tentava assimilar aquela oferta generosa e, também, a pessoa que a fizera.

Marte encarou Kardia com desdém e curiosidade.

– Mas, vejam só! O grego deve estar louco por uma foda! Bem, pelo que eu soube, Hades mandou matar a puta que ele comia, deve ser isso! Não deu tempo de ele fazer o serviço! – disse o assassino rindo e provocando.

Kardia sorriu, somente com a boca. Os olhos continuaram faiscantes e concentrados em Marte. A raiva se avolumava dentro do peito. Quem era aquele filho da puta prá falar mal da Hilda? Hilda era sua amiga, sua melhor amiga, aquela que o acolhera em um momento de dor extrema e que o ensinara que o corpo tem várias maneiras de superar ou, pelo menos, minimizar a dor emocional.

– Não, eu não estou pagando prá comer e sim prá ele não ter que dar para um otário feito você.

Os olhos de Marte se estreitaram, depois quase escaparam das órbitas. Ele cerrou os dentes e fechou os punhos. No entanto, uma voz conhecida se fez ouvir:

– Dispersando! Terminou o banho de sol, hora de voltar ao trabalho! – gritou Flégias.

– Tu tá marcado comigo, grego... Tua hora vai chegar e eu quero ver se vai manter esse sorriso no rosto depois que eu fizer o que Hades deveria ter feito!

– To pagando prá ver... Não pense que eu tenho medo desse boneco tatuado que você se orgulha em mostrar. Prá mim, macho mesmo não fica tatuando figurinhas de brinquedo! – provocou o grego.

– Vou te mostrar o poder da figurinha de brinquedo, *scheißkerl!

– Ei! O que eu falei? Dispersar! – ordenou Flégias, novamente.

Do alto do posto de observação, Caronte percebeu o clima entre Marte e Kardia, sorrindo de forma quase imperceptível. No entanto, quando viu Flégias interferir, seus olhos se estreitaram deixando-o com uma expressão maligna e descontente.

Bufando, rapidamente, ele desceu até o pátio e aproximou-se de Flégias.

– Mas o que você fez? Porque interferiu, idiota?– disse Caronte entre dentes.

– O diretor não quer saber de confusão. – justificou Flégias.

– Não me interessa! Se Kardia se indispuser com Marte, novamente, deixe rolar! To com esse grego atravessado na garganta. Minos não vai se importar com um pouco de confusão se puder ter mais cobaia para os seus experimentos.

– Está bem, desculpe.

– Saia daqui! – falou Caronte com desprezo.

Flégias tomou o rumo das galerias, quando encontrou Afrodite encostado à parede. Devagar, o loiro moveu a cabeça e depois fitou o guarda com um sorriso cativante.

– Sabe... Eu posso ser novo aqui, mas sinto que esse tal Caronte deixa você prá baixo.

O guarda piscou uma vez, estava cheio de receber ordens e quando ouviu a voz aliciante, sentiu uma espécie de energia dentro de si.

– Ele não tem tanto poder assim. – rebateu Flégias, retesando o corpo para ficar mais ereto.

– Isso mesmo... Nunca deixe que alguém o enfraqueça... Você me parece muito mais viril que qualquer guarda desta ala. – falou Afrodite passando pelo guarda e tendo o cuidado de roçar, propositalmente, o corpo no de Flégias e, em seguida, murmurar algo que fez o guarda estreitar os olhos e sentir um arrepio na nuca.

Um calor subiu pelo corpo do guarda e ele custou a acreditar que aquele homem lindo o notara. Desde que o belo prisioneiro chegara ali, ficara admirado que o tivessem colocado na ala B, o lugar dos perigosos.

– Vou visitá-lo hoje à noite. – disse Flégias em resposta ao que Afrodite sussurrara.

Com um sorriso perverso, Afrodite nada disse, apenas colocou os dedos nos lábios e jogou um beijo, fazendo com que Flégias sentisse seu membro pulsar apertado dentro das calças do uniforme.

Kardia fez um movimento com a cabeça quando Afrodite sussurrou-lhe somente com o movimento dos lábios:

– Está feito!

Beleza! Pensou Kardia e começou a achar que aquele loiro afetado era um braço importante para a facção que tinha a intenção de formar.

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A mesa retangular estava coberta com uma fina toalha de linho e sobre ela um vaso transparente e cheio de rosas vermelhas. Rosas... O perfume delas ainda lhe impregnava as narinas, assim como o cheiro dele! Devaneou Minos ao ver tudo disposto como ordenara. Dali a pouco, Dégel, Albafica, Morfeus e Asmita seriam trazidos para uma refeição e conversa, enquanto o restante da ala A seria levada ao pátio para tomar sol e confraternizar. Desde que assumira aquela prisão, Minos fazia questão de gerenciar horários diferentes para cada ala.

– Por favor, acomodem-se! – disse ele mostrando a mesa, quando os presos foram trazidos.

Morfeus olhou ao redor de um jeito perscrutador, enquanto Asmita mantinha-se sereno e Dégel, junto de Albafica, mostrava-se cuidadoso. Os quatro tomaram os seus lugares e Minos sorriu, o olhar intenso detendo-se em Albafica.

– Senhores, creio que o tempo dado para que pensassem na minha proposta foi o suficiente. Após a refeição, gostaria de um posicionamento final.

Dégel permaneceu impassível, enquanto Albafica remexeu-se na cadeira. Morfeus sorriu, enquanto saboreava o salmão com alcaparras e degustava um Cheval Blanc, finíssimo vinho que Minos fez questão de mandar servir.

– O senhor sabe como agradar alguém, diretor. Minha resposta é sim. – falou Morfeus.

Um sorriso contido distendeu os lábios de Minos e ele logo olhou na direção de Dégel, Asmita e Albafica. Os três pareciam uma trindade etérea e cúmplice. Dégel foi o primeiro a levantar, mal tocara na comida e, definitivamente, não se sentia à vontade ali.

– Minha resposta continua a mesma, diretor. Agora, se me permite, gostaria de voltar a minha cela. – disse o médico.

Mesmo contrariado, Minos não demonstrou, apenas gesticulou para o guarda que permanecia sob o arco da antessala.

– Leve-o de volta. – disse ele, seco.

Asmita também pediu o mesmo, sendo seguido por Albafica. No entanto, quando o bioquímico levantou-se, Minos falou:

– Dr. Albafica, fique!

Albafica fechou os olhos por um instante e depois os abriu encarando os violáceos olhos de Minos.

– Minha decisão é a mesma. Por favor, permita que eu também volte a minha cela.

– Guarda, leve os demais para as suas celas. Eu preciso conversar com o Dr. Albafica. – disse Minos, ignorando a fala do bioquímico.

Morfeus franziu o cenho, sorveu outro gole de vinho e saiu junto com Dégel e Asmita. Antes de deixar a sala, ainda lançou um último olhar para Albafica que parecia tenso e desconfortável.

Assim que ficou sozinho com Albafica, Minos aproximou-se dele, fazendo retesar-se.

– Por que, Albafica? Por que sempre insiste nesse jogo? – disse ele rouco e bem próximo ao ouvido do bioquímico.

– Eu poderia dizer o mesmo a seu respeito. – falou Albafica se afastando.

– Não brinque comigo! Sabe muito bem do que sou capaz! – falou Minos pegando o braço de Albafica e obrigando-o a olhá-lo.

– Sim, eu sei... Sei muito bem do que é capaz e é por isso que quero distância de você! Agora me deixe voltar para a cela.

O tom magoado de Albafica fez Minos deter-se e soltar-lhe o braço. O diretor franziu o cenho e levou a mão aos cabelos num gesto impaciente. Logo em seguida, deu as costas ao prisioneiro e chamou o guarda.

– Leve-o! – disse quase num sussurro.

Obediente, o guarda conduziu Albafica, enquanto Minos se aproximava do vaso com rosas vermelhas. Irritado, ele tomou uma delas na mão, apertando-a até que os espinhos adentrassem sua carne. O sangue escorreu em meio às pétalas amassadas e ele a jogou longe, levando os dedos ensanguentados aos lábios. Ah, Albafica... Sussurrou para si, enquanto sentia o desejo cavalgar-lhe o corpo.

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A noite caiu no Santuário e quando as luzes foram apagadas, um silêncio carregado se instaurou nas celas.

Na ala B, os mais antigos esperavam ansiosos, pois já havia se passado a fase onde os novatos eram poupados da rotina do matadouro. As celas do fundo eram reservadas aos recém-chegados e estavam dispostas de modo que Aldebaran dividia sua cela com Afrodite, Máscara da Morte com outro novato que mais parecia uma raposa, Kardia com Misty e os demais com seus respectivos companheiros desde sempre.

O som do cassetete roçando nas grades era o sinal, Caronte passava junto com Flégias e outro guarda robusto e com a cabeça raspada chamado de Giganto.

Os mais antigos sabiam que o sinal comunicava que era o dia D, o dia em que um dos novatos seria feito de mulher pelos guardas, geralmente aquele que era considerado mais desafiador, pelos líderes das duas facções violentas da ala.

Misty remexeu-se, pensando se contava ou não para o grego. Inspirando fundo, resolveu que sim e espiou para baixo, chamando-o:

– Tá ouvindo isso? – sussurrou ele.

– Sim. – respondeu Kardia.

– Então se prepare, hoje é o dia D. – falou o loiro suspirando. – Alguém vai ser feito de mulher pelos guardas e pelos líderes de facção. E eles escolhem aquele que eles consideram mais desafiador, entende?

– Hummm... Deixe-me adivinhar... Quem comanda tudo é Caronte e o cara escolhido sou eu. Acertei?

– Você não parece preocupado.

Deitado de costas e com as mãos sob a nuca, Kardia sorriu.

– Mas eu estou... Estou morrendo de preocupação.

Misty franziu o cenho e saltou do beliche colocando as mãos na cintura.

– O que está tramando, grego?

– Espere e verá.

– Ai, meu Zeus! Jesus me tranque no armário!

Caronte continuava sua peregrinação cujo destino seria a cela de Kardia. Flégias sentiu-se corar ao passar pela cela de Afrodite e Aldebaran. Lembrou-se do loiro e logo sentiu uma fisgada no baixo ventre. Os dedos grossos apertaram o dispositivo de modo que o som de destravar da cela não fosse ouvido por Caronte e o outro guarda que os acompanhava.

Atrás de Caronte, estavam Flégias e Giganto.

Marte, líder dos Demônios e Kiew de Dullahan, líder dos Caveiras se mantinham logo atrás como em um cortejo. Ambos lidavam com o tráfico e a prostituição dentro do presídio. A diferença era que Marte tinha o aval de Caronte e Kiew vinha em segundo lugar, pois tinha restrições para lidar com os guardas.

O som dos coturnos no piso frio quebrava o silêncio e, pouco a pouco, os presos começaram a bater nas grades, excitados pelo que haveria de acontecer.

Ainda deitado, Kardia ignorava o nervosismo de Misty e, quando viu a porta de sua cela se abrir, permaneceu na mesma posição para a surpresa de Caronte.

– Levanta, grego! Acabou a mamata por aqui... Hoje tu vai aprender a respeitar cada um de nós e vai servir de exemplo. – disse Caronte batendo com o cassetete na mão.

Kardia se levantou de um jeito preguiçoso sob o olhar arregalado de Misty. Lá fora, os outros presos começaram a bater nas grades e a gritar. O grego encarou Caronte e Marte que se aproximavam para rendê-lo. Flégias e Giganto, atrás deles, exibiam máquinas de eletrochoque, lembrando-o do dia da chegada e revista.

Caronte avançou, recebendo um chute de Kardia no baixo ventre, enquanto Marte também se aproximava e recebia outro, bem no meio do joelho, fazendo-o cair.

– Seu miserável! Imobiliza o maldito, Flégias! – gritou Caronte.

Flégias avançou, mas ao contrário do esperado, encostou a máquina de eletrochoque no pescoço de Caronte, enquanto Kiew chegava perto de Marte e encaixava um mata-leão em seu pescoço fazendo-o ficar vermelho pela falta de oxigênio, enquanto Giganto o acertava com um soco bem na boca do estômago.

Kardia puxou Caronte pelos cabelos ruivos e desferiu uma joelhada em cheio no nariz que afundou espirrando sangue e, logo em seguida, um soco que acabou deslocando o maxilar do guarda. Entontecido pelo choque, Caronte recebeu os golpes sem reagir, enquanto Marte jazia desmaiado.

Ofegante, Misty assistia a tudo encolhido num canto da cela, enquanto Kardia assoviava e logo, os prisioneiros daquela parte da ala, saíam de suas celas, previamente, destrancadas por Flégias e vinham ao encontro de Caronte e Marte.

– Bem, acho que o dia D vai ser trocado pelo dia C! Arrombem o cu destes otários! – disse Kardia abaixando as calças de Caronte e depois as de Marte.

Os dois ficaram com as nádegas expostas e, para completar, o grego retirou as algemas de Caronte, colocando-as nas mãos do guarda e unido-as ao tornozelo, enquanto Flégias usava as suas em Marte e o deixava na mesma posição humilhante.

Algemados e seminus, os dois foram violentados pelos prisioneiros da ala. Marte despertou quando um dos presos enfiou o cassetete em seu ânus, enquanto puxava seus cabelos para trás e o chamava de puta sem-vergonha. O líder dos Demônios urrou quando sentiu seu interior ser lacerado pelo objeto duro e introduzido com violência. Desmaiou quando, após toda a brutalidade, outros abriram as braguilhas e o estupraram sem trégua, fazendo o sangrar por entre as pernas em meio ao sêmen que se depositava dentro de si.

Caronte também foi violentado à exaustão, o corpo inerte sacudido pela selvageria de todos aqueles que haviam sofrido o mesmo com ele. Por alguns segundos, ele voltou à consciência e foi nesse instante que Kardia se aproximou dele com um objeto afiado cedido por um dos presos.

– Olha bem prá mim, seu escroto! Vou te deixar a minha marca prá você se lembrar de quem manda, a partir de agora!

Dita a frase, Kardia usou o objeto que mais parecia um prego e riscou a nádega direita de Caronte, escrevendo a letra K de forma que ocupasse toda a área de carne. O guarda gemeu, mas em seguida desmaiou, novamente.

– Tirem eles daqui! – falou Kardia.

Flégias e Kiew olharam para o grego e fizeram que sim, com a cabeça. Os presos voltaram às celas como se nada tivesse acontecido. Misty olhou horrorizado para o sangue mesclado ao sêmen que manchava o chão da cela.

– O-O que vai ser agora? – perguntou o loiro mordendo os dedos de forma nervosa.

– Agora começa uma nova era, loiro. – respondeu o grego acariciando o próprio punho. – E, ao invés de ficar aí me olhando, pega uma toalha e limpa essa bagunça.

– Eu? Limpar tudo isso?

– Sim, você! – disse ele dando uma palmada sonora na bunda de Misty.

– Ai!

– Não faz essa onda toda que eu sei bem o que pensou.

– Sabe? Então... que tal me recompensar? Eu limpo tudo, mas vou querer um trato.– falou Misty mordendo o lábio inferior.

Kardia olhou-o, demoradamente. Misty tinha uma bela bunda e se, fechasse os olhos, até poderia imaginar que estava comendo uma mulher. Todo aquele movimento o havia deixado excitado, louco prá trepar como sempre ficava, após uma briga. Moveu a cabeça de lado e estreitou os olhos. Misty sorriu malicioso e abaixou-se, sugestivamente, para evidenciar seu traseiro.

O grego aproximou-se do loiro, fazendo-o levantar-se e encostar as mãos na parede. Baixou-lhe as calças e sussurrou-lhe rente ao ouvido:

– Eu vou te comer, mas eu tenho as minhas regras. A primeira, eu não beijo homem! Se tentar isso comigo, te meto a mão na cara. Segunda, é só uma foda, então nada de chamego depois ou ficar pegando no meu pé como se fosse mulher. Entendeu bem?

– Entendi... – murmurou Misty e, após ouvir o barulho de um invólucro de papel sendo aberto, sentiu a dor rascante e prazerosa, quando Kardia o penetrou.

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Dégel não conseguia dormir. Ouvia o ressonar baixo de Sorento e os passos dos guardas que faziam a ronda. Era nessa hora sombria que os pensamentos lhe invadiam a mente e ele apertava os olhos, tentando livrar-se da sensação de vazio e culpa.

Albafica dividia a cela com Morfeus, porém ao retornar, descobrira que fora separado dele. O jovem bioquímico franziu o cenho, pois interiormente, sabia o que isso significa. Só lhe restava esperar...

Horas depois, passos firmes foram se aproximando cada vez mais de sua cela e Albafica sentiu o sangue gelar. O guarda nada disse, apenas abriu a porta e sinalizou para que ele saísse. Albafica tentou argumentar, porém sabia que não ia adiantar. Resistir seria pior.

Suspirando, ele se levantou e acompanhou Ox, o guarda carrancudo e silencioso que nada dizia. Lentamente, os dois avançaram pelo corredor até chegar a uma porta estreita que os levou até um pequeno lance de escada.

– Suba. – falou Ox e fechou a porta, atrás de si, assim que Albafica colocou o pé no primeiro degrau.

O jovem bioquímico subiu a escada até chegar em outra porta, finamente trabalhada em madeira escura, destoando do ambiente com linhas modernas e frias. Hesitante, ele apertou a maçaneta e, por fim, abriu a porta e adentrou o local conhecido como a Cúpula.

A sala principal era forrada com imensas cortinas em preto e vermelho. Máscaras douradas preenchiam as paredes e, por fim, uma segunda porta dava acesso aos diversos quartos existentes ali. O quarto onde Minos estava exibia uma luz suave e avermelhada e ele estava a sua espera, o robe de seda negra cobrindo seu corpo esguio e nu...

Ele permaneceu de costas, enquanto uma música densa e profunda inundava o ambiente esfumaçado pelo sedutor incenso de mirra, a luz avermelhada acentuando o brilho violáceo dos olhos ardentes, a cama ampla e redonda, com lençóis em seda escura dominando o espaço como se fosse um imenso sol negro...

Albafica apenas observava, a respiração contida, o corpo sentindo um leve tremor...

Minos se virou e estendeu a mão em sua direção, fazendo-o prender, ainda mais o ar.

– Venha... – diz ele, rouco.

Como se estivesse sendo controlado por um títere, Albafica obedeceu, os lábios entreabertos...

– Minos, não...

– Você quer... Não resista... Eu sei, eu o conheço.

Albafica fechou os olhos e sacudiu a cabeça como se isso bastasse para livrá-lo do encanto. Minos tinha razão, ele o desejava com a mesma loucura, o corpo traindo sua mente, enquanto revivia o prazer quase doentio sentido no passado, nos braços daquele homem.

Minos foi até ele, aproximando-se dos lábios entreabertos e olhando-o com uma paixão intensa e desmedida. Com força, agarrou a cabeça de Albafica enfiando os dedos nos cabelos longos e puxando-o de encontro a sua boca ávida.

Por um instante, Albafica tentou resistir até sentir a língua de Minos tocar a sua e tudo mais se evanescer... Os dois gemeram abafado, consumidos no encontro das línguas, lábios e respirações. Os dentes do diretor prenderam o lábio inferior do prisioneiro puxando-o, provocando-o, enquanto as mãos deslizavam, sôfregas, pelas laterais do corpo.

– Você é meu, Albafica... E eu sou seu... Não há como mudar isso. – gemeu Minos e desceu os lábios pelo pescoço alvo, enfiando a mão por baixo da camiseta do jovem e acariciando a clavícula, até chegar aos mamilos e apertá-los, arrancando um gemido baixo do amante.

Com um olhar fogoso, Minos elevou os braços de Albafica, após despi-lo e a si próprio, encostando-o em uma das paredes, prendendo-o a ela com algemas que pendiam de grossas e escuras correntes. O jovem não resistiu e se entregou ao ato, os olhos presos nos contornos da musculatura de Minos, a ereção pulsando, a respiração ofegante do outro, o hálito quente...

Novamente, a boca ávida de Minos tomou a de Albafica num beijo selvagem e intenso, enquanto o torturava girando e torcendo os mamilos eretos e expostos. O jovem gemeu alto e Minos sorriu... Devagar, ele desceu, mordendo e lambendo o corpo esguio, fazendo-o mover-se em agonia nas algemas...

Apreciando os gemidos que escapam cada vez mais entrecortados, Minos foi descendo e lambendo até chegar ao falo ereto de Albafica e tomá-lo na boca. Saboreando os ofegos do outro, Minos começou a chupar com força, engolindo-o, saboreando-o, enquanto massageava o períneo e insinuava os dedos na entrada que se contraia aos seus toques...

Os quadris de Albafica se projetaram para frente e Minos agarrou-o pelas nádegas, introduzindo os dedos dentro dele, ao mesmo tempo em que sentia o falo pulsar no fundo da garganta, passando a língua por cima e em volta, degustando-o até sentir o corpo do amante retesar-se e o jorro quente de seu prazer preencher-lhe a boca.

– Hummm... seu gosto continua o mesmo... – murmurou Minos passando a língua nos lábios.

Exausto, Albafica sentiu o corpo desabar e as algemas machucar-lhe os pulsos. Minos percebeu e sorriu, suspendendo-o e buscando a boca ofegante para beijar intensa e longamente.

De repente, as algemas se abriram e Albafica se viu empurrado contra a cama, as nádegas alvas empinadas num convite mudo... Minos se aproximou e o penetrou, fazendo-o ficar de quatro e dobrar-se para trás ao sentir o falo tocar-lhe as profundezas, acertando-lhe a próstata já na primeira estocada.

Com uma mão, Minos o puxou para si, enquanto com a outra o masturbou devagar enquanto continuava a estocar com força, porém lentamente e sem pressa... A cada enfiada, sentia a contração do corpo penetrado e gemia satisfeito, lambendo as costas suadas do amante, mordendo-o, fazendo-o seu.

– Ah... Alba... seu gosto... seu cheiro... esse seu corpo apertado...

Mais uma vez, Albafica sentiu o orgasmo se aproximar, o falo dentro de si golpeando sem tréguas e a voz de Minos completando a excitação crescente que o sacudia em tremores convulsos e cada vez mais intensos. Ele abriu a boca num grito mudo e explodiu em jatos quentes na mão do amante.

A contração do corpo e o gozo de Albafica fizeram Minos gozar também e ele inundou o corpo alvo com seu sêmen, o corpo trêmulo, a alma em êxtase... Um grunhido se desprendeu de sua garganta e ele desabou sobre as costas molhadas de suor, levando a língua para sentir o salgado daquela pele, do homem que amava com loucura...

– Você é meu... – diz ele, entre dentes com um tom de voz triunfante.

Albafica apertou os olhos, a vergonha por ter sido fraco ameaçando sobrepujar o prazer que o deixava sem forças.

– Deixe-me, Minos... Essa vez... foi a última. – sussurrou ele de olhos fechados.

Os olhos de Minos ficaram escuros e sombrios. Um vórtex de mágoa e ódio perpassou o rosto belo e agressivo. Ele puxou Albafica pelos cabelos, trazendo-o para perto de si.

– Eu digo quando me fartar de você, Alba, não o contrário!

Albafica tentou soltar-se, mas Minos dominou-o e posicionou-se sobre o seu corpo fazendo-o sentir, novamente, a ereção em suas coxas. Cerrando os dentes, Minos prendeu os braços abertos de Albafica acima da cabeça, abrindo-lhe as pernas com os joelhos.

Olhando-o com fúria, penetrou-o de novo, fazendo-o gritar. Seus quadris se moveram como ondas violentas batendo contra as pedras. O corpo de Albafica era sacudido pelas estocadas, enquanto Minos o segurava no lugar, apertando os dentes, tomado por sentimentos e atitudes angustiosos e primitivos.

Lágrimas escorreram pelos olhos azuis de Albafica, que o fitava no fundo dos orbes violáceos e se deixava violentar sem mostrar resistência. Um soluço estrangulado escapou da garganta de Minos e ele apertou os olhos com força, quando o orgasmo cavalgou seu corpo, deixando-o com um gosto amargo na boca.

Embaixo do corpo poderoso que o havia possuído com furor, Albafica fechou os olhos e apertou o lábio inferior com os dentes e, o simples ato faz sangrar o coração de Minos.

– Por que Albafica? Por que me faz sentir assim? – diz ele entre soluços roucos.

– Porque esse amor é uma maldição... – responde Albafica saindo debaixo do corpo quente de Minos.

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Caronte acordou em seu quarto, o olhar de Flégias sobre si. Havia um cheiro de antisséptico no ar e ele percebeu que havia sido medicado.

– O que... você fez, maldito...? – perguntou ele com dificuldade de falar, a boca inchada e o maxilar quebrado.

– Eu? Assumi o que me é de direito. Cansei de ser, constantemente, humilhado e vê-lo ditar as ordens por aqui. Essa prisão recebeu sangue novo e eu vou aproveitar a maré de boa sorte!

– Quando Minos souber...

– Eu já falei com ele e disse que você sofreu um pequeno acidente e precisa de repouso. Sabe como Minos é. Ele tá pouco se lixando para a ala B, o negócio dele são os figurões que ele mantém em separado para trabalhar em seus projetos científicos. Ademais, é bom que fique fora de circulação, afinal...

– Afinal o quê, seu traidor escroto?– gritou Caronte sentindo a saliva saltar da boca, enquanto uma dor aguda atravessava seu corpo.

– Toda a ala B teve uma provinha desse seu rabo! E sabe como é, nem todos usaram camisinha...

Caronte arregalou os olhos e fez força para levantar, mas logo se deixou cair na cama gemendo.

– Eu... Eu... vou te matar, Flégias! Você e o grego vão pagar por isso!

Inesperadamente, Flégias aproximou-se da cama e pegou Caronte pelos cabelos, fazendo-o gritar e agarrar-se à mão que o suspendia.

– Escute você, seu animal! Você tá acabado por aqui, metade da ala comeu o teu rabo e o do Marte! Vocês dois já eram! Quer continuar vivo? Então fica frio e obedece! Agora sou eu quem dita as regras! Agradeça eu ter poupado a sua vida.

Caronte foi largado e ficou ofegante. Não conseguia pensar em nada, seu corpo jazia dolorido e a mente estava anuviada pela surpresa. Fechou os olhos e nada disse. Flégias deixou o quarto e ele continuou em silêncio. Isso não vai ficar assim! Não vai mesmo! Nem que eu tenha que vender a alma ao Diabo, eu vou acabar com Flégias e aquele grego maldito!

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O gabinete de Minos recebia os primeiros raios fracos de sol e nuvens negras despontavam no horizonte. Ele olhou para o mar calmo contrastando com aquelas nuvens. A batida na porta interrompeu suas divagações.

– Entre. – disse, secamente.

– Mandou me chamar, senhor? – perguntou Caronte.

– Sim, mandei. Que acidente foi esse? – questionou Minos olhando para o rosto inchado do guarda.

– Estava averiguando umas coisas no teto do pavilhão e caí, senhor. – respondeu Caronte.

Minos estreitou os olhos, mas não foi adiante. Na verdade, pouco se importava, como bem dissera Flégias. Se tudo estivesse em ordem, era o suficiente para si. Levantou-se da poltrona e tornou a olhar o mar.

– Quero que leve o doutor Dégel para a ala B. Ele se recusa a participar do projeto e está influenciando Asmita e Albafica. Veremos se, depois de um tempo com aqueles animais, ele continua preso aos seus ideais éticos. – falou com voz fria.

– Alguma ordem em especial, além dessa? – perguntou Caronte.

– Escolha um companheiro de cela adequado ao Dr. Dégel, alguém que o faça odiar o dia em que trocou a civilidade pela selvageria. – respondeu Minos.

– Sim, senhor.

Com um sorriso perverso nos lábios ainda arroxeados, Caronte foi até a cela de Dégel. Aquela situação era perfeita para o começo da sua vingança. Ele colocaria Dégel na cela de Kardia e faria com que o grego fosse responsabilizado por tudo que acontecesse com o médico. Esse fato seria o suficiente para responsabilizar Flégias também e assim retomar o seu lugar de direito.

O médico lia um livro e franziu o cenho ao ser chamado pelo guarda.

– O diretor mandou transferi-lo para a ala B. Pegue suas coisas e me siga.

Dégel ficou paralisado por alguns segundos, mas logo organizou seus pertences e acompanhou Caronte. Quando chegou ao pavilhão onde ficava a ala B, sentiu-se estremecer. As instalações eram as mesmas, porém os homens tinham uma expressão embrutecida e o olhavam de cima a baixo como se ele fosse um animal raro em exposição ou um suculento pedaço de carne. Alguns sorriam e passavam a língua nos lábios, fazendo gestos obscenos e acenando, porém tudo no mais absoluto silêncio.

– Misty, pegue as suas coisas e saia. – disse Caronte ao chegar na cela de Kardia..

O loiro franziu o cenho e cruzou os braços.

– Como assim? Eu exijo uma explicação.

Ordens do diretor. Você vai dividir a cela com Aldebaran, Afrodite será remanejado para a cela com Máscara da Morte e o outro cara vai ser fodido em outro lugar! Agora pegue as suas coisas e saia, antes que eu o enxote! – grunhiu Caronte.

Misty bufou, mas obedeceu. Caronte havia perdido o posto de chefão, mas ainda era o guarda da ala e mantinha a ordem das coisas. Olhou para Dégel com desprezou e saiu pisando duro.

– Pronto, aqui será a sua nova cela. – disse Caronte para Dégel.

O médico olhou para o beliche e em volta. Havia um aparelho de som portátil, uma caixa de preservativos e duas revistas pornográficas. Minutos depois, ouviu a voz grave e alterada de um homem junto a passos, cada vez mais próximos da cela. Moveu a cabeça no instante exato em que o dono da voz adentrou a cela.

– Mas que porra é essa? Quem é você? – disse Kardia.

– Eu sou Dégel e acabei de ser transferido para cá. – respondeu o médico conectado ao olhar tempestuoso do grego.

Kardia lembrou-se do primeiro dia na prisão e encarou o homem a sua frente com atenção. De perto, ele era ainda mais exótico. Os cabelos longos e presos, a pele alva, os olhos violáceos detrás dos óculos finos.

– Quem deu a ordem? – perguntou por fim.

– O diretor. Recusei-me a participar de seus projetos e...

– Ele resolveu foder com o meu sossego! Era só o que me faltava, um nerd prá me fazer companhia. – grunhiu Kardia interrompendo a fala de Dégel.

O médico nada disse, apenas tornou a deitar-se na cama de cima do beliche, tentando voltar a ler seu livro ou pelo menos, fingir que lia e não estava abalado.

Kardia suspirou e deixou a cela com a cara de poucos amigos.

Quando ficou sozinho, Dégel fechou os olhos. Murmúrios vindos do corredor o fizeram ficar preocupado, no entanto, apesar de estar naquele ambiente, sua consciência estava em paz e esse sentimento sobrepujava qualquer coisa, até mesmo a convivência com aquele homem rude e mal-educado chamado Kardia...

Notas finais
*scheißkerl = filho da puta em alemão. Agradecimentos especiais a todos os comentários, a quem favorita, a quem lê em silêncio. Bjs e até o próximo cap. Próximo capítulo: A convivência entre Dégel e Kardia, as consequências dos pactos feitos dentro da prisão, um passeio na Cozinha do Inferno...