Santuário Dos Condenados
12 Capítulo 12 AMOR EM TEMPOS DE CÓLERA
Notas iniciais

“Amar o perdido
deixa confundido
este coração...”
Kardia sentiu uma tensão imediata e seu olhar cravou-se em Spinne. O alemão sorriu, satisfeito e malicioso, enquanto o grego fechava os punhos.
– Filho da puta... – murmurou Kardia entre dentes.
Máscara da Morte e Aldebaran se aproximaram do líder. Estavam sérios e prontos a apoiar qualquer decisão tomada por Kardia. Misty ficou boquiaberto e Afrodite franziu o cenho, enquanto Jabu sentiu um incômodo na boca do estômago.
– Esse cara já tá passando dos limites... – murmurou Máscara.
– Ele quer começar uma guerra. – disse Afrodite, mais para si mesmo que para os demais.
– Eu vou acabar com este nazista de merda. – falou Kardia.
– Lock down! Não ouviram? Todo mundo prá dentro das celas! Agora! – gritou Caronte e mais cinco guardas com seus cassetetes bem visíveis e uma expressão de poucos amigos.
Todos obedeceram, porém quando Dégel entrava na cela, Flégias o chamou:
– O senhor não, doutor. Pegue as suas coisas e me acompanhe até a outra ala.
O médico olhou para Kardia, sentindo um estremecimento, embora nada demonstrasse. O grego continuava em silêncio, o que o preocupava.
– Kardia... – disse ele e o grego voltou os olhos na sua direção.
– O que foi?
– Por favor, não faça nada no impulso. Não é o momento para conflitos aqui dentro.
O grego olhou-o bem no fundo dos olhos e disse com os seus, o que os seus lábios não pronunciaram, e Dégel compreendeu muito bem. Pedir ao grego para ficar longe de problemas era o mesmo que pedir ao sol para não brilhar, ou ao fogo para não queimar!
Tente! Pronunciou Dégel, somente com o movimento dos lábios, antes de acompanhar Flégias pelo amplo corredor.
Em sua cela, Milo observava de canto a movimentação, enquanto Jabu estava nervoso.
– P-Podia ter sido eu... – murmurava o jovem.
– O que fez para acabar aqui? – perguntou Milo, estranhando alguém tão medroso em um lugar de alta periculosidade.
– Hã... Por que a pergunta?
– Curiosidade.
– Na verdade eu... Eu aceitei a culpa no lugar de um dos chefões da máfia. Minha mãe, ela... ela é doente e eu só dei trabalho prá ela a vida toda. Aceitando a condenação ganhei uma grana suficiente para ela se tratar e ainda deu para comprar uma casa pequena.
Milo se aproximou do rapaz, tocando-o no ombro.
– Eu preciso de um olheiro. Fica esperto e de ouvidos abertos. Sei que você é leal a Kardia, mas a coisa vai ferver se ele quiser revidar.
Jabu olhou para Milo, enquanto pegava uma carteira de cigarros.
– Posso não ser um exemplo de coragem, mas sou leal. Não vou trair Kardia.
– Não estou pedindo para traí-lo e sim prá ficar esperto e... de quebra ver umas coisas prá mim.
– Como o quê? – perguntou Jabu desconfiado.
– Quem fornece as drogas por aqui.
– Ah, isso eu já sei! Os guardas negociam com alguém de fora e repassam para o líder da ala, que agora é o Kardia.
– E quem é esse alguém de fora?
– Isso ninguém sabe, só os guardas. E por que você quer saber?
– Coisa minha.
– Não vai me dizer que você é *X-9!
A rapidez como o jovem disse aquilo, fez o grego mudar de atitude.
– Não sou novato neste tipo de empreendimento e não pretendo, apenas, revender aqui dentro. Quero o controle total, sem guardas, para ser mais exato. Quando eu souber todos os detalhes importantes, vou oferecer sociedade à Kardia e então, dominaremos aqui dentro e lá fora.
– Você acha que Kardia vai dividir a liderança com você?
– Eu não acho nada, eu, apenas, faço acontecer.
Jabu acendeu o cigarro e tragou. Depois, ofereceu um à Milo que aceitou olhando-o bem dentro dos olhos.
– Fique ao meu lado e todos nós vamos ganhar. – falou o grego soltando a fumaça.
– Depois do que aconteceu, já será uma vitória continuarmos vivos. Kardia vai querer revanche e, embora o nosso grupo seja um dos mais fortes, não sei onde isso vai dar. Os nazi estão muito confiantes e acho que tem treta nessa história.
Pela primeira vez, Milo olhou para o jovem com admiração. Era certo que Jabu não exibia uma inteligência privilegiada, mas ele tinha razão. Algo muito estranho estava acontecendo ali e não era, apenas, uma briga de gangues pelo domínio. Havia um mentor acima destas questões e ele descobriria quem era...
0000****0000****0000
A aparelhagem bipava sem parar e o enfermeiro suava, abundantemente, por baixo da máscara de proteção, sendo observado pelo colega que se mantinha sob controle, mas seu olhar denunciava o pavor que se desenhava neles.
– N-Não sei o que fazer! – gaguejou ele.
– Chame Caronte e diga para ele avisar o diretor. – disse o outro.
Sem hesitar, o enfermeiro obedeceu, deixando o outro com o olhar fixo no paciente. Todos os outros haviam adoecido, morrido e, em seguida, mostrado uma falsa ressuscitação, mantendo alguns instintos básicos graças à sobrevida de certas áreas do cérebro. No entanto, esse paciente, em especial, não se parecia com os outros... Esse, falava e sua voz arranhada era um tanto arrepiante, principalmente em se tratando de um morto recente.
– F-Fo-m-e...
O homem preso com fortes tiras de couro forçava os braços e as pernas cuja coloração macilenta evidenciava que ele morrera. Porém, as atitudes e a voz não eram de um morto.
– F-Fique calmo. Mandamos chamar o médico. – disse o enfermeiro.
– N-N-ã-o...C-C-o-m-i-d-a! – gritou o homem, ainda mais alto.
Mesmo com a máscara de proteção, o enfermeiro se assustou quando da boca cadavérica saltaram gotas de saliva pútrida.
Em seguida, Albafica adentrou a enfermaria. O olhar firme do bioquímico encontrou o do enfermeiro e o terror que viu neles, o deixou apreensivo.
– O médico... Ele não vem? – indagou o enfermeiro.
– Ele virá, daqui a pouco. Vou tirar uma amostra de sangue para análise. – respondeu Albafica.
– Por mim eu acabaria com tudo! Isso aqui, essa pesquisa, nada disso devia ter acontecido! – desabafou o enfermeiro.
– Acalme-se. Não poderá ajudar se perder o controle.
– Me acalmar? Você não sabe... Você não...
O enfermeiro cambaleou, o suor escorrendo por entre os olhos, a expressão aterrorizada. Albafica arregalou os olhos, a pele do enfermeiro ficou rubra e o suor mesclou-se ao filete de sangue que escorria pelo nariz.
– Não se mexa. Fique calmo e sente-se! – ordenou Albafica.
– Eu... Eu estou doente, não é? Posso sentir... Minha pele... O sangue...
– Você teve algum contato com o paciente sem a roupa de proteção? – perguntou Albafica.
– S-Sim... minha luva rasgou quando ele agarrou minha mão, ontem. Ele me arranhou, mas eu lavei e desinfetei em seguida.
– Calma, vou isolá-lo e pedir que o médico o examine.
Minutos depois, Dégel entrou e sua testa franzida, após examinar o enfermeiro, indicava que a situação era crítica. Ele encontrou o olhar de Albafica e ambos pareceram conversar por pensamento. Era preciso fazer o que já havia sido sinalizado: isolar a todos e, a partir dali, criar uma força-tarefa para impedir que aquele vírus mortal se disseminasse por toda a prisão.
0000****0000****0000
O olhar furioso de Kardia percorria as barras da cela, enquanto pensava em vingança. Dégel não estava ali para contê-lo ou fazê-lo refletir e isso o libertava. Ou melhor, libertava aquela parte insana e violenta que fazia parte da sua natureza e que, ao lado do médico, adquirira uma espécie de verniz.
Melhor assim. Dégel estará protegido e eu vou por um fim nesse bando escroto, aqui dentro! Dizia para si mesmo, enquanto pensava em uma forma de acabar com a ameaça do grupo de Spinne.
Do outro lado, Máscara também andava de um lado a outro sob o olhar silencioso de Afrodite. O loiro já demonstrara que podia ser tão mortal, quanto belo, mas no momento, apenas observava o amante, sentindo-lhe a ira e pensando em como acalmá-lo.
– Se atacarmos agora, faremos exatamente o que Spinne quer. Tem algo errado nisso, ele não faria algo assim se não tivesse suporte. – falou Afrodite.
– Não interessa. Esse filho da puta vai pagar! — falou Máscara da Morte.
– Você está sendo irracional.
– Se não impormos a nossa lei, vai haver mais chacina. É assim que funciona. Não existe racionalidade aqui, Afrodite. Aqui, é como na selva, sobrevive o mais forte. Ponto final!
Assim que terminou sua fala, Máscara viu o sinal de Kardia. Era um simples assovio, mas o italiano sabia o significado. Fica atento a tudo. Assim que terminar o lock down vamos nos reunir e acabar com a festa dos nazi.
– Escute... Não quero que se meta nisso. Kardia, Aldebaran e eu vamos dar um fim nisso. – disse Máscara se aproximando do loiro.
Os olhos cristalinos encontraram o azul em fúria do italiano. A mão delicada tocou-lhe a face e ele fechou os olhos. Em seguida, os lábios carnudos roçaram os de Máscara da Morte, a boca sensual deslizando como fogo...
O loiro era a sua perdição e, cada vez que o beijava, a dança erótica das línguas fazia o seu corpo tremer e ansiar por algo além do desejo, mas que permanecia escondido em seu coração.
A mão de Afrodite foi em direção ao zíper da calça do italiano, abrindo-o suficiente para tocar-lhe a ereção. Máscara gemeu e o loiro virou-se de costas, encostando as nádegas roliças no falo túrgido, convidando-o...
Ainda tinha luz nos corredores, mas nenhum dos dois se importou. Afrodite apoiou-se na parede, afastando as pernas e empinando a bunda. A mão de Máscara baixou-lhe a calça com pressa, excitando-o e ficando excitado com a visão daquele corpo alvo e perfeito.
Afrodite lançou a cabeça para trás e Máscara viu que ele sorria. Então, tomou o falo na mão e o preencheu com força, começando a estocar num ritmo deliciosamente frenético, puxando-o pela cintura para ganhar uma penetração ainda mais profunda.
O loiro gemeu alto, consumido pelo prazer dolorido e ardente. Os corpos se chocaram, carne contra carne e o suor surgiu em pequenas gotas nos rostos afogueados...
Afrodite ouviu seu próprio grito no momento em que o orgasmo rápido convulsionou seu corpo inteiro. No poder daquele fogo sensual, deixava-se possuir pelo italiano sem reservas. Já não tinha mais vergonha em ceder ao desejo e seus ofegos atestavam esse sentimento. Máscara da Morte investiu uma última vez com um grunhido de satisfação e então se desfez dentro do corpo do loiro, sentindo-o engoli-lo com as contrações desencadeadas pelo orgasmo.
Por alguns segundos, o loiro permaneceu apoiado na parede saboreando o peso do corpo másculo, as batidas fortes do coração e a respiração ofegante do italiano. Naquele instante, sentiu-se sem pensamentos ou medos...
– Mais calmo agora... –perguntou Afrodite.
– Calmo? Você me deixa mais esperto, loiro. – respondeu o italiano.
Os olhos amorosos de Afrodite encontraram a expressão relaxada, porém séria no rosto do italiano.
– Não quero que nada aconteça com você. Prometa que...
O dedo indicador calou o loiro, antes que continuasse.
– Sem promessas. A única coisa que eu posso te assegurar é que cada vez que eu possuo esse teu corpo gostoso, eu me sinto no paraíso e até agradeço ter vindo para esse buraco. Agora vem cá...
Os braços poderosos o puxaram de encontro ao corpo musculoso e quente, por alguns instantes. O barulho do cassetete batendo na grade o fez recuar e encarar o guarda. O homem sorriu malicioso, e Máscara, sem se preocupar em fechar as calças, foi até a cama, pegando um pequeno envelope que jazia preso embaixo do seu colchão.
O papelote pousou nas mãos do guarda que tratou de colocá-lo num bolso interno do uniforme.
– Podem continuar. Os gemidos do bonitão são muito sugestivos... até eu que nunca fui a fim de homem, fiquei de pau duro. Quem sabe eu não possa entrar nessa brincadeira qualquer dia... – disse o guarda.
O olhar de Máscara da Morte adquiriu um brilho assassino, fazendo morrer o sorriso do guarda. Nada foi dito, porém a expressão do italiano continuou firme até que o homem desviasse o olhar. O guarda ingressara há pouco tempo na ala, ainda não sabia do que Máscara era capaz, porém, isso se tornava desnecessário, estava em uma ala de alta periculosidade e aquele apelido não havia sido dado de graça àquele prisioneiro.
Continuando a encará-lo, Máscara mudou de atitude. Um sorriso malévolo brincou nos lábios do italiano.
– Espera... Toma aí, essa aqui faz voar mais alto. – disse ele, buscando outro papelote.
O guarda sorriu, pegando rapidamente o pacotinho e colocando-o ao lado do outro. Máscara ficou olhando, enquanto Afrodite se atirava na cama. Assim que o guarda saiu, o italiano voltou-se para o amante, encontrando-o com o olhar vago.
– Não se preocupe, esse escroto não volta mais aqui. – disse ele.
Os olhos de Afrodite se estreitaram.
– O que você fez?
– Nada. – respondeu Máscara pegando um lençol do beliche e colocando-o nas grades, criando uma proteção.
Em seguida, o italiano despiu-se por completo e foi até a cama, deitando-se sobre o corpo do loiro. Sem deixar de beijá-lo, retirou-lhe as roupas por completo.
Quando afastou a boca dos lábios rosados de Afrodite, o loiro falou:
– Eu conheço esse olhar, você não sabe mentir...
Máscara sorriu e beijou-o, novamente, o falo rijo pressionado entre os corpos, sinalizando que ele estava pronto. De novo.
– Chega de conversa, quero você...
Afrodite sorriu, ainda inundado pela sensação intensa do orgasmo vivenciado. Sempre se admirava do apetite do amante. Máscara da Morte nunca demorava entre uma relação e outra. Estava sempre excitado e isso despertava em si, um tesão sem igual...
O falo ereto e poderoso penetrou-o, novamente, fazendo-o arfar. Os dois se abraçaram e os movimentos, agora, eram mais lentos, com ambos se olhando nos olhos em uma intimidade que nenhum dos dois ousava conscientizar.
O belo rosto se aninhou na curvatura do ombro forte, enquanto Máscara deslizava a mão por trás das coxas torneadas, atraindo-o mais de encontro a si. Os dedos longos deslizaram pela pele alva e ardente, deliciando-se com a suavidade e aquela textura única. Ele acariciou os lábios delicados enquanto o sopro úmido de Afrodite ofegava contra a sua garganta em gemidos de prazer.
Depois de senti-lo se mover de encontro a si, sua mão larga segurou-lhe a coxa, levantando a sua perna e movendo o falo túrgido com mais força, mergulhando dentro de Afrodite fazendo-o gritar e arfar, quase sem ar.
Moveu-se com força, sua virilidade intumescida arremetendo fundo, fazendo Afrodite arquear as costas, gemendo cada vez mais rápido e alto, a boca entreaberta para sorver o ar, a cabeça jogando-se para trás ao sentir o amante aprofundado em seu corpo...
Em desespero, Afrodite apertou o corpo de Máscara segurando-o pelas nádegas, cravando os dedos nela de forma ardente, deliciando-se em ouvi-lo grunhir de prazer, enquanto se arremetia cada vez mais forte contra si...
Máscara da Morte sentiu uma espiral de prazer abarcar seu membro. Era estreito e pressionava seu falo daquele jeito alucinante, provocando um prazer tão intenso que o fazia esquecer sua origem, sua insanidade, sua condição. Era como se Afrodite sempre tivesse sido seu.... Gemeu rouco e gozou, levando consigo o amante que se desfazia em jatos sobre o seu tórax. Afrodite não gritou, foi mais como um soluço de quem é pego de surpresa e violentamente pelo clímax.
– Deus... – sussurrou o loiro, enquanto seu corpo ainda pulsava pelo prazer intenso.
O italiano sorriu, deslizando o indicador pelos lábios inchados do outro.
– A culpa é sua... Me sinto insaciável ao seu lado. Mas... não é só isso. Sei que você é demais prá mim, mas ninguém pode mandar no coração. Eu te amo, Afrodite...
0000****0000****0000
Kanon foi até Sorento, enquanto Aiacos e os outros riam e diziam obscenidades. O policial tocou-o no ombro, perguntando:
– Tudo bem?
O jovem olhou-o com espanto.
– C-Claro, não foi nada.
Aiacos soltou uma gargalhada e, em seguida, olhando bem nos olhos de Sorento, falou:
– A putinha tá a fim de trocar uma ideia?
A bofetada foi inesperadamente forte. Aiacos vacilou e antes que seus amigos interviessem, Kanon postou-se à frente de Sorento.
– Ei! Vamos nos acalmar! É melhor não dar chance para o azar... – disse o policial.
– Seu... Seu... puto de merda! Como ousa encostar essa sua mão suja em mim?! – gritou Aiacos tocando a face avermelhada pela agressão.
– Ponha-se no seu lugar, animal!– devolveu Sorento enfrentando-o.
Kanon continuou postado à frente do jovem, a expressão dura também enfrentando a ira de Aiacos.
Os gritos atraíram um guarda que olhou para Sorento e, em seguida, para Aiacos. Era algo inédito haver conflitos ali. A ala A era constituída por homens instruídos, a maioria doutores ou cientistas.
– Qual é o problema? Não quero saber de confusão por aqui. Você, novato vá para a sua cela e fique lá.
– O quê? – falou Aiacos com raiva.
– Você é surdo? Vá para a sua cela ou eu te enfio na solitária! – repetiu o guarda tocando o aparelho de choque junto ao cassetete.
Os olhos de Aiacos brilharam de ódio, mas achou por bem obedecer. Não ficaria ali muito tempo e sua prioridade era outra. Fitou Sorento e Kanon que o olhavam com seriedade. Depois, acompanhou o guarda sem nada dizer. Cuidaria daquele puto depois, assim como ensinaria o loiro que o defendera a ficar em seu lugar!
Kanon tornou a dirigir-se à Sorento e um clima estranho pairou entre os dois.
– Obrigado por me defender... – disse o jovem.
– Não precisa me agradecer. Achei estranho deixarem um cara como aquele misturar-se a nós. Pensei que aqui só ficassem cientistas.
– Eu também, mas... parece que tem uma nova regra.
Kanon sorriu e tocou o ombro de Sorento.
– O que precisar... Qualquer coisa pode contar comigo.
– Falando desse jeito, vou achar que está tentando me seduzir. – disse Sorento com um sorrisinho malicioso.
– Está funcionando? – perguntou Kanon, elevando uma sobrancelha.
– Quem sabe... – respondeu o jovem e o tom de voz dele fez o policial sentir uma fisgada no baixo-ventre.
O jovem deixou o local e Kanon sacudiu a cabeça como que tentando afastar os pensamentos libidinosos, enquanto buscava entender a situação de Aiacos ali. Estava claro que algo acontecia nos bastidores e ele tinha de descobrir o quê...
0000*****0000****0000
Flégias andava pelos corredores com pressa. O próprio som dos seus passos acentuando seu desconforto. Caronte havia planejado tudo, agora tinha certeza. Fora informado por um dos guardas que a leva de prisioneiros especiais estava acomodada na ala de elite da prisão por ordem expressa de Caronte que, por sua vez, fizera tudo por sua conta e risco.
O que eu vou fazer?Se contar ao diretor, talvez ele mesmo tenha ordenado. E se não o fez, mesmo assim, talvez não se importe. Qual atitude devo tomar? Ele se perguntava.
Nem bem adentrou o perímetro da ala, Caronte surgiu a sua frente junto com mais dois guardas. Os três o olharam com uma expressão de escárnio e, em seguida, seguiram caminho sem nada dizer. Flégias sentiu uma espécie de calafrio. Algo estava errado. Muito errado! A sensação o fez caminhar ainda mais rápido, quando deu de cara com Spinne e seus homens fora das celas.
– O que estão fazendo? – perguntou com voz firme.
O alemão sorriu, exibindo os dentes acavalados.
– Temos contas a acertar e você está no caminho! Sinto muito, senhor guarda, mas... teremos que desobedecê-lo.
Flégias encarou-os. Certamente, eles estariam armados com chuços, prontos para atacá-lo. Não tinha certeza se poderia com os três, mas também não queria passar por frouxo.
– Eu não sei o que Caronte disse a vocês, mas qualquer ação dentro do lock down é passível de tempo prolongado na solitária. Nem mesmo ele pode impedir isso. Voltem para as suas celas e eu esquecerei que estiveram fora delas.
Spinne soltou uma gargalhada.
– Aqui? No Santuário dos Condenados? Acha mesmo que alguém se importa com a ala B? Aprenda uma coisa, senhor guarda, aqui, nós somos a lei! – disse o alemão.
Foi então que Flégias soube que não adiantaria conversar. Agarrou o cassetete e se preparou para o pior...
0000****0000****0000
Minos franziu o cenho após o relatório feito por Albafica. Não costumava ficar apavorado com nada, mas aquele novo acontecimento o deixara sobressaltado.
– Tem certeza disso? – perguntou, mesmo sabendo da resposta.
– Esse vírus é altamente mutável e perigoso. Que tipo de empresa pede um teste deste nível, sabendo que tinha uma verdadeira bomba nas mãos? O homem morreu e renasceu, Minos! Não como um zumbi, mas exibindo funções vitais e neurológicas de um homem normal. Não fosse a aparência decrépita, ele... Deus, Minos! Isso já saiu do controle!
– E Dégel?
– Ele foi até lá, junto com Asmita.
– Vocês três terão a oportunidade de estudar algo raro e, também, buscar uma cura ou até mesmo, uma forma de controle desta epidemia. – disse Minos.
Albafica aproximou-se do diretor com uma fúria velada estampada nos olhos azuis.
– Estudar? Controle? O que você está dizendo? Minos, a situação é grave! Não sei se seremos capazes de escapar de um contágio em massa!
– Sim, nós seremos. Temos um nível subterrâneo na prisão. Quando concebi este projeto, fiz questão de prever um local totalmente seguro caso algo acontecesse.
– Então você sabia... O tempo todo, você sabia que as experiências não eram, apenas, para testar medicamentos.
– Não, eu apenas previ que certos experimentos poderiam nos levar a situações limítrofes. Quando aceitei fornecer grupos para experimentos biológicos, busquei fazê-lo com todos os cuidados possíveis.
– Eu não entendo... Como pode chegar a isso, Minos?
– Você me julga um canalha insensível por usar homens que fizeram toda a espécie de atrocidade lá fora para algo que se reverta em um bem maior para a sociedade. A sociedade que foi massacrada por atos destes mesmos homens! Eu não os obrigo, eu ofereço redenção! Redenção por estupros, assassinatos e toda a sorte de atos ignóbeis. Esses homens jamais voltarão para a sociedade, mas podem ajudar a melhorá-la com o seu sacrifício!
– Pode justificar-se o quanto quiser Minos. A verdade é que os submetendo a esses experimentos, você se sente poderoso e gosta disso. Como eu já disse antes, há mais de Hades em você do que você mesmo admite. Chegará um tempo em que o Minos que conheci não existirá mais!
– Como pode dizer isso? Sabe muito bem quem eu sou e como me sinto. Eu não estaria aqui se não fosse por...
– Chega de dizer que fez tudo por mim! Não me use como desculpa para justificar seus atos.
– Não vou dizer nada. Se me acha assim, tão desprezível, não vou importuná-lo mais. Mas antes, quero sentir você uma última vez... – disse Minos se aproximando.
A proximidade, o calor do corpo, o olhar aflito... Bastava isso para enfraquecê-lo e desejar estar com Minos. Mas não podia! Não mais!
Albafica tentou se afastar, contudo foi agarrado por Minos, apesar do esforço que fazia. O diretor prensou-o entre o seu corpo e a escrivaninha. Mesmo levando as mãos à frente do corpo para pará-lo, Albafica não conseguiu impedir o beijo. Deixou que as mãos longas acariciassem seu corpo, enquanto sentia a língua de Minos tocando a sua, buscando-a para sugá-la, excitando-o naquele patamar que só ele conseguia...
– Você me recusa com a mente, mas seu corpo e seu coração me querem... – sussurrou Minos.
– Então faça... Pela última vez. – disse Albafica estendendo a mão na direção do cinto de Minos, abrindo-o e encontrando a sua ereção... quente, firme, latejante.
E Minos o fez. Despiu-o da cintura para baixo e colocou-se entre as pernas de Albafica, deitando-o sobre a escrivaninha, ignorando relatórios e papéis espalhados sobre ela. Aproximou-se dele e o fez afastar as coxas, agarrando-o pelas pernas, deixando sua entrada completamente visível e pulsando, respondendo ao que estava acontecendo.
Minos surpreendeu o bioquímico, ajoelhando-se entre suas pernas abertas e mergulhando o rosto ma intimidade convidativa. A língua morna parecia vibrar na sua entrada, causando arrepios impossíveis de conter e gemidos que ficavam presos na garganta, oprimidos por um resto de orgulho.
Mesmo contido, Albafica lambeu os lábios em completo êxtase e sentiu os quadris moverem-se, instintivamente contra a boca de Minos, entrando em um ritmo cadenciado de movimentos. Suas pernas estavam cada vez mais afastadas, deixando seu corpo cada vez mais exposto aos olhos famintos do diretor. Não suportava mais aquela tortura, precisava sentir. Queria-o dentro de si...
Mas antes que chegasse a pedir verbalmente, Albafica sentiu a ponta do membro pulsante do outro acariciando sua entrada molhada pela saliva... Minos forçou-se contra o corpo receptivo, investindo para dentro em um único movimento seco, obrigando Albafica a deixar escapar um ofego de dor e surpresa tão selvagem que não condizia com sua tradicional mansidão.
– Ah....! – Estava dentro dele. O pensamento de Minos se lançava em um abismo de sensações e desejo. Jamais amara assim e jamais sentira tanto prazer. Albafica era a sua fraqueza, talvez, a única que possuía e que era capaz de mexer consigo em níveis profundos e insondáveis.
Imerso nas turbulentas sensações, Albafica mordia o lábio com força, enquanto o homem, por quem nutria sentimentos contraditórios de amor e repulsa, encontrava-se completamente enterrado em seu corpo, fundindo ambos em apenas um.
Estendeu os braços para Minos, vislumbrando os contornos bem distintos pela luz artificial que banhava ambos os corpos e sentiu aqueles braços longos e fortes envolverem sua cintura, enquanto o quadril do mesmo iniciava os movimentos em um ritmo firme e constante. Estocadas profundas, entremeadas pela ondulação lenta e circular dos quadris, faziam o jogo sedutor que o obrigava a permitir que gemidos escapassem em resposta.
Um trovão inesperado cortou o céu chuvoso da ilha, ocultando assim o que foi um dos mais altos gritos de prazer que o jovem bioquímico não conseguiu reprimir. Enterrou o rosto na curva macia e perfumada do pescoço de Minos e lambeu aquela pele delicada, deliciando-se com o sabor levemente salgado e sentindo prazer ao ver que o outro estremeceu perante seu gesto ousado.
Sua boca foi invadida mais uma vez pela língua áspera e quente do diretor, enquanto seu membro rijo sofria pressão entre os ventres, causando uma deliciosa fricção que o deixava alucinado e próximo do gozo. Ser preenchido e excitado, ao mesmo tempo, pelas carícias ousadas do amante arrancava-o do centro, das crenças que o levava a acreditar que seria melhor afastar-se, para sempre, de Minos.
As investidas se tornaram frequentes e as penetrações cada vez mais profundas. Podia sentir o falo excitado de Minos acariciando seu interior e lhe causando aquelas ondas de luxuria e prazer que nunca sentira com mais ninguém. Jogou a cabeça para trás e circulou a nuca de Minos com os braços, apertando-o contra si. Quando aquela última estocada dentro de seu corpo atingiu a próstata, gritou alto, sentindo a força poderosa do orgasmo. Seu sêmen saiu quente, umedecendo os ventres de ambos e escorrendo lentamente em direção ao tampo da escrivaninha.
Minos gozou junto, os dentes cerrados e o rosto crispado pelo prazer extremo. Os dois estremeceram juntos e também juntos sentiram a energia de seus corpos serem drenadas pela força orgástica.
– Humm... – murmurou Albafica, quando sentiu que o outro se retirava de dentro do seu corpo. Observou Minos se afastar, ainda vestido, exceto pelas calças parcialmente arriadas um pouco abaixo da linha dos quadris. Ele também ofegava enquanto ajeitava os cabelos no lugar, tirando-os do campo de visão.
Deu-se conta de que estava nu e completamente exposto sobre a escrivaninha. Pensou que devia sentir vergonha, mas não era homem de fazer-se de vítima. Permitira que Minos o possuísse. Na verdade, pedira por isso. Queria senti-lo uma última vez, porque agora sim, não o deixaria mais aproximar-se de si. Sua única preocupação seria ajudar Dégel e Asmita a acabar com aquela loucura. Começou a descer da escrivaninha e puxou as calças. Já ensaiava alguns passos em direção à porta de saída da sala, quando sentiu seu cotovelo ser pego com força, obrigando-o a parar.
– Eu te amo, Albafica. Jamais vou deixar de amá-lo. Mas, a partir de hoje, não vou mais me impor a você.
Albafica pensou em dizer alguma coisa, mas deteve-se no meio do caminho, antes mesmo de formar a frase. Sentiu as mãos de Minos percorrem seus braços e segurarem ambos os lados dos seus quadris, causando novos arrepios por todo seu corpo. Aproximou os lábios trêmulos, roçando-os nos do diretor, ainda úmidos do ultimo beijo que trocaram. Minos segurou sua nuca, fazendo-o sentir aquela língua áspera outra vez invadindo e domando sua boca. Quando se afastaram um do outro, Albafica olhou Minos bem dentro dos olhos e, apesar da dor, havia uma força que acentuava o brilho de sua íris.
– Adeus... Minos. Esse será nosso último beijo e a última vez que estaremos tão próximos um do outro. A partir de hoje meu único objetivo será ajudar Dégel e Asmita a achar uma cura para a loucura que você permitiu se instalar aqui.
Minos não respondeu, apenas olhou-o da forma dolorida e intensa que revelava o quanto era difícil abrir mão daquele por quem era capaz de morrer, se fosse preciso.
Albafica deixou a sala, sentindo as lágrimas escorrerem pelo rosto. Não olhou para trás, senão, veria que o orgulhoso Minos, também estava chorando...
0000****0000****0000
Flégias tentou lutar, mas a selvageria de Spinne e seus homens foi decisiva. O chuço cravou-se em seu flanco direito, enquanto os demais o chutavam, levando-o rapidamente ao mundo escuro da inconsciência.
Quando ele caiu, o sangue escorria por entre seus olhos e ele sentia o gosto agridoce e metálico do sangue em sua boca, enquanto uma nuvem escura o envolvia. Sua queda pareceu acontecer em slow-motion, um segundo congelado no tempo, enquanto ele se via evanescer junto com as silhuetas que se afastavam de si.
– Vamos embora, rapazes! Esse aí vai sangrar até morrer e vamos dizer que foi o grego. – vociferou Spinne.
O alemão limpou o chuço na perna da calça, enquanto sorria e se dirigia com os demais para a cela de Kardia.
Em sua cela, o grego sentia algo no ar. Um assovio vindo do fundo, indicava que algo estava errado e, logo depois, os passos confirmavam a sentença. De repente, a sua cela se abriu com aquele som típico. As outras permaneceram fechadas e ele soube...
– Aquele filho da puta...
– Então, Kardia! Tá pronto prá me enfrentar? – gritou Spinne.
Kardia levou a mão ao colchão, tirando dali um chuço muito bem feito que tinha a mesma configuração de um punhal. Respirou fundo, já antevendo que Spinne tivera ajuda e que não seria uma luta justa. Colocou a arma na parte de trás da calça e saiu, confirmando suas suspeitas ao ver o alemão e seis homens com suas armas improvisadas à mostra.
Outro homem teria estremecido ao ver que, dificilmente teria chance contra tantos. Porém, o grego sorriu.
– Não esperaria menos de um covarde como você. – disse ele.
– Não me importa o que pensa, hoje o teu reinado acaba, maldito! E, saiba que assim que eu acabar com a sua vida, aquele doutorzinho vai saber o que é um macho de verdade... Vou arrombar aquele cuzinho todas as noites...
Kardia apertou os punhos, mas continuou sorrindo.
– Sonhar não custa... – provocou.
Nas outras celas, Máscara da Morte, Afrodite, Aldebaran, Misty, Jabu e Milo se juntavam aos outros presos que batiam nas grades, em vão. Ninguém aparecia.
Entretanto, quando Spinne e seus homens se preparavam para agir e Kardia para reagir, Caronte voltou com sete guardas. O alemão franziu o cenho tentando compreender aquela traição.
– Mas o quê está aconte...
Não teve tempo de concluir a frase. Os guardas se aproximaram com os tasers. Spinne foi vencido pela surpresa e pela corrente elétrica de 12.000 volts que saiu dos fios e atingiram seu corpo.
Kardia custou a compreender a razão de Caronte ter montado todo aquele esquema até que um dos guardas se aproximou dele e sussurrou algo.
– Ele está vivo? Levem-no para a enfermaria. E vocês, levem esse lixo de volta para as suas celas. – falou Caronte.
Os prisioneiros ficaram em silêncio, enquanto os homens de Spinne e o próprio eram arrastados corredor afora. Kardia continuou encarando Caronte que exibia um olhar sádico e cheio de orgulho.
– Ainda não chegou o teu dia, grego. Isso foi só uma amostra do que eu sou capaz, aqui dentro. Flégias não vai estar mais aqui para livrar o teu rabo, nem fazer negócios por um bom tempo... É bom se acostumar a dormir de olhos bem abertos e ficar sabendo que teu reinado está acabando! – disse Caronte com um sorriso malévolo.
Kardia não desviou o olhar.
– Teve todo esse trabalho prá me deixar com medo? Sinto dizer que não funcionou.
Caronte sorriu, novamente.
– Markino! – chamou ele.
– Sim, senhor! – respondeu o policial baixinho e com aspecto de um ator saído de filmes do tipo ET.
– Mostre ao prisioneiro o que acontece com quem me desafia.
O guarda acionou o taser e Kardia recebeu a descarga elétrica, caindo de joelhos.
Normalmente, uma arma de choque serve apenas para imobilizar. O disparo atua no sistema nervoso central, neutralizando as ações voluntárias, mas não impedindo as ações involuntárias. Ou seja, o prisioneiro é temporariamente paralisado, mas continua respirando e mantém seus batimentos cardíacos.
Entretanto, Kardia sentiu o efeito com maior intensidade. O problema em seu coração desencadeou uma falha abrupta nos batimentos e ele desmaiou.
– S-Senhor... Ele...
– Leve-o para a enfermaria! Não quero que ele tenha uma morte tão fácil e insossa. – vociferou Caronte.
Os prisioneiros recomeçaram a gritar e a bater nas grades.
– Calados! Vamos acabar com a gritaria ou deixo Kardia dentro da cela! – falou Caronte.
Enquanto Markino se incumbia de arrastar Kardia, o grego abriu um olho e piscou para Máscara da Morte. O italiano sorriu, aliviado, e sinalizou que passaria adiante.
Milo observava a tudo com atenção. Ainda não tinha dado o ar da sua graça a nenhum dos guardas. Porém, dadas às circunstâncias tinha de pensar em tomar uma atitude e fazer valer o esforço de toda aquela operação. Notou que os companheiros de Kardia acompanhavam tudo com nítida preocupação e que o grego tinha um papel importante dentro dos esquemas engendrados pelos guardas. O tal Caronte era um dos contatos com o externo, pensou, e tinha em Kardia um rival poderoso.
– Acha que ele vai ficar bem? – perguntou Misty em um tom choroso para Aldebaran.
O brasileiro ouviu dois assovios curtos e sorriu.
– Não esquenta, foi tudo encenação. Kardia está bem e achou um jeito de investigar esse poder repentino do Caronte. A gente vai ter que ficar esperto. – respondeu o grandalhão.
Máscara da Morte começou a andar na cela e Afrodite aproximou-se dele.
– Precisamos pensar em uma estratégia de sobrevivência. É obvio que Caronte planejou tudo nos mínimos detalhes. – disse o loiro.
– Deve ter sido ele... Tenho quase certeza que foi ele quem matou o prisioneiro, fazendo parecer uma execução. Tudo só prá tirar o Flégias de circulação e humilhar Kardia.
Afrodite não disfarçou a expressão de preocupação.
– Tem mais coisa por vir, eu sinto.
– Eu sei. Mas, por ora, vamos ficar com os olhos e os ouvidos bem abertos.
Mesmo não desejando parecer frágil, Afrodite abraçou Máscara da Morte. Sua intuição dizia que aquilo era, apenas, o começo de um longo período de conflitos.
O italiano envolveu-o, sentindo o calor do corpo trêmulo. Não disse nada, apenas transmitiu com gestos, que não deixaria que nada lhe acontecesse.
Em sua cela, Misty também buscava conforto nos braços de Aldebaran.
– Estou com medo... – murmurou o loiro.
– Não tenha, estamos juntos nessa não é mesmo?
– Kardia é forte, mas... Eu penso que, se algo acontecer com ele, estaremos desprotegidos.
– Não pense nisso, agora. Quando cessar o lock down nós conversaremos entre nós e pensaremos em algo.
Misty tocou a mão grande e quente de Aldebaran, sentindo um misto de confiança e arrepio. Seus olhos encontraram os dele e o que viu neles, fez seu coração palpitar. Todo o tempo em que permanecera na prisão usara seu corpo para ganhar dinheiro e privilégios. Era a forma mais básica de sobrevivência para alguém como ele que não nascera para a violência. No entanto, seus sentimentos nunca estavam envolvidos no ato. Prazer sim, paixão não, era o seu lema até conhecer Kardia e sonhar que um dia ele se apaixonaria e os dois viveriam um belo caso de amor. Porém, nada disso acontecera. O grego se apaixonara pelo médico e ele, Misty, voltara ao circuito de sexo pago. Então, porque se sentia estranho ao ser olhado por Aldebaran? O grandalhão fora o único que nunca o procurara para transar, mas sentia que ele o cuidava de um jeito diferente...
– Deba?
– Sim?
– Posso perguntar uma coisa?
– Pode.
– Por que você... nunca quis transar comigo?
Aldebaran coçou a cabeça, olhou para Misty e, em seguida, voltou sua atenção para as grades da cela.
– Porque... Quer mesmo saber? – questionou ele.
– Quero.
Em sua mente, Aldebaran procurou formular uma desculpa, mas a única coisa que lhe vinha a mente era a verdade, nua e crua. Então, tomou coragem e voltou-se para Misty.
– Porque eu gosto de você, Misty e não quero ser mais um a abusar do seu corpo. – desabafou.
Os belos olhos de Misty se arregalaram de imediato. Então era isso! Aquele monumento masculino estava apaixonado por ele?!
– Satisfeito com a resposta?
– Hã... Sim... Eu... Eu acho que vou dormir. – respondeu Misty sem saber como reagir com aquela revelação.
Um suspiro de alívio e mágoa escapou da boca de Aldebaran. Ele havia, finalmente, confessado seus sentimentos e tido a confirmação que jamais alguém como Misty o aceitaria como amante.
– Eu também to cansado e vou dormir também. – disse ele deitando-se na parte debaixo do beliche.
As sombras da noite recaíram sobres as celas. Misty permanecia deitado e imóvel, o olhar fixo no teto. Seu corpo parecia remexer-se, internamente, embora ele continuasse em sua postura impassível. Enquanto isso, Aldebaran estava com os olhos fechados, fingindo dormir. No entanto, seu estômago estava apertado e ele sentia-se um idiota. Por que não tinha inventado uma história qualquer?
– Deba? Está dormindo? – perguntou o loiro.
– Estou.
Misty não conseguiu conter um sorriso.
– Se está, como respondeu?
– Eu falo dormindo.
Os dois riram e aquela atmosfera esquisita pareceu se desfazer. Misty não soube responder para si mesmo o porquê da atitude que tomou, a seguir. Ele desceu do beliche e deitou-se sobre o corpo avantajado de Aldebaran vendo-o abrir os olhos, assustado.
– O quê?
– Shiihhhhh... – sussurrou o loiro levando a mão delicada aos lábios grossos de Aldebaran.
Olhando-o naquela penumbra, Misty beijou Aldebaran nos lábios de um jeito erótico e agressivo, impedindo-o de manifestar qualquer outra reação que não fosse corresponder a sua investida. Mesmo surpreso, Aldebaran o recebeu com a boca ávida pela língua voraz, sentiu a saliva de Misty misturar-se a sua e gemeu deliciado ao sentir a ereção potente pressionada contra o seu corpo.
O cheiro e o gosto de Misty levaram Aldebaran à loucura e ele inverteu as posições, deitando o loiro na cama estreita sem parar de beijá-lo, bem devagar para que não deixasse de tocar um centímetro sequer do corpo dele. Quase cego pelo desejo, desabotoou a camisa de Misty e a arrancou de vez. Desceu a cabeça pelo pescoço alvo e com a boca roçou os mamilos que endureceram de imediato, fazendo o jovem gemer.
Misty tremeu de prazer quando Aldebaran mordeu de leve um mamilo e com a língua acariciou-o ao redor. E tremeu ainda mais quando, após despi-lo com as mãos grandes e ansiosas, ele desceu devagar e tomou-lhe o falo túrgido na boca, enquanto movia as mãos por suas coxas e gemia deliciado, fazendo com que a sua língua vibrasse no membro que engolia com gosto.
Embora fosse experiente na arte do sexo, Misty jamais tinha sido tratado assim e nunca tinha sentido tais sensações com a intensidade que vivia neste momento. Gemia e arfava sem controle e seu corpo arqueava de encontro às mãos e lábios do grandalhão, fazendo-o sorrir e continuar a torturá-lo com carícias cada vez mais íntimas e aliciantes...
Aldebaran dominava-o, beijando-o de forma cada vez mais intensa, com o corpo firme, poderoso e rígido pressionando-o numa mensagem clara que seria ele a dar-lhe prazer, a seduzi-lo vertiginosamente como um amante ardente e apaixonado.
Com as mãos encaixadas na bunda voluptuosa de Misty, Aldebaran o levantou e levou a língua até a sua entrada, molhando-a lentamente e fazendo um caminho que ia do falo à virilha e voltava até aquele ponto que já se contraía de excitação.
Após uma longa sessão de lambidas e carícias, ele voltou aos lábios que o enlouqueciam e se encaixou na entrada, roçando seu sexo túrgido e sentindo o corpo de Misty corresponder com uma pulsação desesperada pelo toque profundo e ardente.
Então, finalmente, o penetrou, afastando-lhe as pernas e entrando dentro dele num movimento harmônico de puro êxtase. Misty o pegou pelos cabelos e quase chorou quando foi tocado nas profundezas e sentiu um prazer tão grande que pareceu que ia morrer.
– Al-Aldebaran... – gemeu ele contra os lábios grossos que lhe sorriam com ternura e, ao mesmo tempo, uma luxúria insana e bem-vinda.
– Eu te amo...Misty... – sussurrou ele de volta, enquanto movia-se de forma lenta e circular, sentindo o interior aveludado do amante ceder e acolhê-lo, úmido e quente.
Misty gemia, sentindo o corpo forte de Aldebaran possui-lo com fome, mas também com cuidado. A largura do tórax, a pressão das coxas fortes e vigorosas, o falo potente preenchendo-o, completando-o, tornando-o dele... Tudo tão novo e tão profundo que trazia calor ao seu corpo e ao seu coração como uma brisa plena de delícias...
Agarrando-se ao pescoço largo e retesado, Misty colocou a boca junto aos lábios entreabertos dele e os lambia à medida que Aldebaran se afastava e voltava com mais vigor, mais profundamente, mais forte...
Cada investida era como se Aldebaran o estivesse marcando, tornando-o dele para sempre. Era como uma possessão, uma exigência de algo maior que os unia além da carne, além da sordidez daquela prisão.
Aldebaran gemia e preenchia Misty num ritmo alucinante. Sentia-o contrair as coxas e ia mais fundo, mais rápido, como se pudesse fundir-se a ele num arrebatamento insano e transcendente.
Misty começou a estremecer e, com os olhos bem fechados, agarrou-se a Aldebaran enquanto seu corpo se contraía convulsivamente. Sentia como se cada parte de seu corpo fosse incendiar e explodir... Sua boca abriu-se, soltando um arfar rouco e alto.
Aldebaran segurou as mãos de Misty e enquanto se movia, os dedos se entrelaçaram aos dele. Com uma última penetração ele sentiu o loiro contorcer-se e gritar, derramando-se em sua pele. Foi então que se permitiu arrebatar pelos estertores do clímax e estocou ainda mais fundo, olhando-o com devoção enquanto seus quadris se chocavam ao corpo do amante como as ondas violentas se chocavam nas pedras daquela ilha...
Por um momento, Misty sentiu-se perdido entre sensações desconhecidas de prazer e também amor. Já passara por tanta coisa, mas nunca sentira um orgasmo tão poderoso e, ao mesmo tempo, carregado de sentimento e ternura.
Então, Aldebaran o beijou com ânsia e também gozou. Um urro profundo escapou-lhe da garganta, enquanto sentia seu sêmen verter dentro de Misty em jatos potentes que pareciam não ter fim.
Os dois se abraçaram com força, unidos à escuridão da noite que continha a eternidade dentro de si.
Tentando recuperar o fôlego, ambos voltaram a se beijar e acariciar enquanto a percepção apaixonada do que haviam feito os tomava tão intensamente, quanto o orgasmo que haviam vivenciado.
– Nós fizemos sem camisinha... Eu nunca deixei ninguém me foder sem uma. – disse Misty tocando, suavemente, os lábios de Aldebaran.
– Não tenho doença, não se preocupe. Também é a minha primeira vez sem uma. – respondeu Aldebaran com o rosto ainda afogueado.
Os dois sorriram, Misty mordeu, suavemente, o lábio inferior de Aldebaran.
– Se eu soubesse que você escondia o jogo, tinha te pegado antes... – disse o loiro.
– Eu? Escondendo o jogo? Sempre fui louco por você, mas nunca achei que... Bem, você é tão bonito e eu sou...
– Você não é feio, grandalhão. E mesmo que fosse, esse seu pau é um tesouro e tanto.
Aldebaran ficou sério.
– O que aconteceu entre nós foi... só isso? Sexo?
Misty sorriu triste.
– Sou um puto, Aldebaran. É melhor não se esquecer disso. Não tenho mais ilusões e não quero enganá-lo.
– Se não quiser mais ser um puto, eu te banco e protejo, aqui dentro. Nenhum homem bota a mão em você, enquanto eu viver e eu pretendo viver bastante.
– Deba... Eu...
– A decisão é sua. Eu já disse tudo o que tinha guardado aqui. – disse ele tocando o peito. — Não precisa me amar, só me deixe cuidar de você.
Misty sentiu os olhos se encherem de lágrimas. Seria possível encontrar ali o que jamais encontrara fora da prisão?
– Eu... vou pensar. – disse ele, engolindo as lágrimas teimosas. Em seguida, abraçou Aldebaran, trazendo-o para mais perto, segurando-o com tanta firmeza contra o seu corpo suado que cada inspiração dele roçava em seus mamilos, eriçando-os novamente.
Então, sorrindo ao perceber que Aldebaran já estava, novamente, excitado, inverteu as posições e cavalgou-o, até ambos gritarem mais uma vez, invadidos pelo gozo avassalador...
0000****0000****0000
Kardia continuou fingindo inconsciência até chegar à enfermaria. Lá, quando o guarda não estava vendo, abriu um olho e observou que os enfermeiros atendiam um paciente que, pelo visto, sangrara muito, manchando os uniformes destes.
Então, ele soube que era Flégias e voltou a fechar o olho.
– O que aconteceu com ele? – perguntou o enfermeiro à Markino.
– Usamos o taser e ele desmaiou.
– Quantos volts?
– O de praxe, 12.0000.
O enfermeiro com trejeitos femininos suspirou.
– O que está havendo nesta ala? O guarda chegou com perfuração no flanco direito e, por pouco não atingiu o fígado. Agora mais um! Pelo amor de Deus, parece que quando chove todo mundo endoidece, aqui dentro! Eu, heim?!
– Como ele está? O guarda. – perguntou Markino.
– Vai viver, mas ficará de molho uns dois meses. Pode ir, guarda, eu tomo conta a partir de agora. – respondeu o enfermeiro.
– Mas e esse aí? – perguntou o guarda apontando para o grego.
Usando o estetoscópio e elevando a pálpebra de Kardia, o enfermeiro franziu o cenho e depois relaxou.
– Esse aqui está bem, foi só um susto. Ele tem uma pequena arritmia cardíaca, pelo que eu escutei aqui. Por isso que desmaiou. Pode ir.
Markino obedeceu, voltaria e faria um relatório detalhado do que presenciara ali. O enfermeiro o acompanhou com o olhar, como que apressando-o.
Representando bem o seu papel, assim que o guarda deixou a enfermaria, Kardia abriu os olhos devagar.
– Como se sente? – perguntou o enfermeiro.
– Um pouco tonto e enjoado.
– Normal, levou choque. Fique aí e descanse. Aproveite antes de ter de voltar para o inferno. – disse ele e saiu rebolando.
Kardia concordou e fechou os olhos. Instantes depois, quando tudo estava quieto e não havia sinais da presença de ninguém ali, ele se levantou e foi atá o biombo que o separava de onde estava Flégias.
O guarda estava com os olhos fechados e respirava baixo. O grego aproximou-se da cama e quando aproximou o rosto, a mão esquerda de Flégias moveu-se com rapidez retirando a agulha que levava medicação intravenosa, enfiada em seu braço direito e ameaçando Kardia com ela.
– Ei, calma homem! Sou eu, Kardia.
– Kardia...! Caronte... ele... ele tramou tudo.
– Eu sei. Ele fez isso prá te tirar da jogada.
– Não só isso... ele... ele escondeu... um homem na ala A. Dizem... que ele é... muito perigoso. Caronte quer... usá-lo... contra você.
– E quem é esse homem?
– O nome... dele... é... Aiacos.
Fale com o autor