Santuário Dos Condenados

10 Capítulo 10 LAÇOS DE ALMA!


Notas iniciais
***Amadas e amados!! Em primeiro lugar, gostaria de desejar um Natal incrível e um 2014 criativo, alegre e com muitas fics! Obrigada pela presença de cada uma, pelo carinho expresso em cada review e recomendação. Pelo entusiasmo contagiante, muitas vezes expressado no face ou por Mps. Cada palavra de vocês funcionou e continua funcionando como raios de luz que me aquecem e iluminam. Bjs, XD

Tum-tum, Tum-tum, Tum-tum, Tum-tum, Tum-tum, Tum-tum, Tum-tum, Tum-tum!

A batida acelerada e insistente de seu coração retumbava implacável, dentro do peito. Ele a sentia pulsar em seus ouvidos, em seus pensamentos imersos no caos da revelação que se impusera como uma avalanche sobre si.

Ele podia senti-la tão forte que todo o seu corpo parecia feito de som. Um som doloroso que necessitava de um escape...

Seus dentes estavam cerrados, assim como os seus punhos que batiam com força na parede de concreto úmida pelos vapores que escapavam das caldeiras. O sangue se depositava em casa soco desferido para aplacar a fúria e a tristeza que o abraçavam e penetravam sem piedade.

Ninguém ousava contê-lo, parecia uma fera ensandecida, mergulhada no desespero de ver-se só, insanamente só...

Hilda, Hasgard, Aspros, Defteros, a única família que conhecia estava morta. E ele nada podia fazer trancado naquele maldito lugar. Não podia vingá-los, nem despedir-se.

Máscara da Morte impediu Aldebaran de conter o amigo. Seria loucura e perigoso para o homem que sempre sorria e apaziguava os demais.

– Deixa ele...

– Mas ele... Ele tá esmurrando aquela parede já faz tempo. – respondeu o brasileiro.

– Vai por mim, ele precisa disso, senão vai ficar louco. Não dá prá mexer. Deixa quieto. – falou o italiano, sabendo muito bem como Kardia estava se sentindo.

Aldebaran também podia compreender a dor de Kardia, mas continuava preocupado. O amigo e irmão precisava extravasar de outro jeito, senão acabaria machucado no corpo, além do coração. Então foi em busca da única pessoa capaz de amansar a fera...

Flégias fez vistas grossas e lá foi Aldebaran correndo.

– Doutor Dégel! – chamou ele, entrando na enfermaria.

– Aldebaran? O que aconteceu? – perguntou o médico que terminava um procedimento.

– Tem que vir comigo. Ele não para de esmurrar a parede! Tá machucado e não para!

Dégel não precisou perguntar nada. Kardia precisava dele, então deixaria para saber dos detalhes no caminho. Deixou a enfermaria e foi junto do brasileiro que caminhava a passos largos.

– O Caronte tava comentando com outro guarda sobre o noticiário. Houve um enfrentamento na Cozinha do Inferno e... os amigos do Kardia foram todos executados.

O médico franziu o cenho, sabia que pela história pessoal do grego, a gangue que formara era sua única família, seu vínculo com sentimentos como amizade e companheirismo.

Quando ambos chegaram às caldeiras, ele o viu... Kardia gritava rouco e continuava a socar as paredes. Suas mãos estavam banhadas de sangue, mas ele continuava e ninguém ousava chegar perto. O médico foi até ele.

– Kardia... — a voz de Dégel era firme, porém o grego continuava batendo e batendo até que a mão macia tocou-o.

– Kardia...

Quando o grego olhou-o, Dégel sentiu em si, a dor extrema expressa nos olhos azuis. Nunca o vira assim, tão exposto, ferido, vulnerável...

Me deixa, Dégel! Sai daqui! Me deixa! – gritou Kardia.

Dégel olhou para os demais e, Máscara da Morte tomou a atitude de deixar o local, levando Aldebaran.

– Vamos embora e deixar os dois sozinhos. Se a gente ficar por aqui, logo tem guarda prá todo lado.

Quando todos se afastaram, o médico se aproximou.

Kardia estava ofegante, suado e sangrando. O belo rosto crispado, a carótida pulsando visível no pescoço. Ao sentir que Dégel continuava ali, evitou olhá-lo.

– Já disse prá me deixar em paz! Não quero que... Droga, Dégel, sai daqui!

– Não quer o quê? Sabe muito bem que não me intimida, nunca intimidou e não é agora que vai intimidar. Olhe prá mim. – disse o médico.

– Não insiste, nerd! Porra, me deixa ficar sozinho!

Kardia fechou os olhos e sentiu que suas mãos machucadas tremiam. Num último esforço, tentou gritar, mas de sua garganta saiu um grunhido e ele deu as costas ao médico.

Dégel tocou-o, novamente, sentindo a tensão e o estremecimento do corpo vigoroso.

– Olhe prá mim... – pediu com gentileza.

Devagar, Kardia se virou. Seus olhos encontraram os de Dégel e o que ele temia, não aconteceu. Não havia piedade nos olhos violáceos, era um olhar cúmplice e, ao mesmo tempo, tão intenso e afiado como uma lâmina...

O grego permitiu-se cortar e arrebatar pela força do olhar de Dégel. A conexão não se fazia pelo domínio ou pela energia sexual que os aproximara desde então. Havia outro poder, outra força inexplicável que os tornava complementares em uma estranha, mas verdadeira relação de amizade, amor e desejo.

Dégel, simplesmente se aproximou e abraçou o homem que amava. Nenhuma palavra, nenhum outro gesto, apenas os seus braços e o seu amor...

Kardia se permitiu ser acolhido, seu peito quase explodindo, sua garganta tão apertada que parecia sufocar. Dégel o apertou com força, colando-se a ele como se quisesse absorver todo aquele sofrimento e, de olhos fechados, sussurrou baixinho:

– Divida sua dor comigo. Você não está sozinho, eu estou aqui...

O grego não chorava desde a morte dos avós. Aprendera nas ruas a burlar a dor com a violência, abortar toda e qualquer vulnerabilidade com a couraça emocional que erguera na construção de quem era. Estava acostumado aos excessos, ao prazer, à própria dor que dançava solitária nas baixas no campo de batalha urbano. No entanto, perder as últimas referências, as amizades forjadas no companheirismo de quem sobrevive ao assédio constante da morte, esfacelou parte da proteção tão cuidadosamente erguida. Sentia uma dor profunda que rosnava como um cão raivoso em suas entranhas, em sua alma e em seu coração...

Divida sua dor comigo. Você não está sozinho, eu estou aqui... A frase dita de forma tão verdadeira o trespassou como uma espada e, pela segunda vez, em sua vida, Kardia chorou. Chorou por Hilda, por Hasgard, por Aspros, por Defteros, por si mesmo...

Os soluços preencheram o lugar escuro, úmido e quente que mais parecia um útero artificial acolhendo o grego em seu desespero.

Dégel estremecia junto e sentia em sua pele o calor que emanava de Kardia. Apertou-o, ainda mais, e de seus olhos também verteram lágrimas. Também ele construíra várias barreiras cujos tijolos eram a ciência, o dever, a razão e o discernimento. O grego balançara algumas delas e, aos poucos, o fazia sentir mais que pensar. Seu corpo se tornara faminto do calor e do prazer que Kardia lhe proporcionava e seu coração sentia-se vivo com a alegria genuína e até infantil que o grego despertava em si. Vê-lo assim, agora, tão desesperado e solitário, era doloroso como se ambos fossem um só.

Aldebaran chegava ao grupo que esperava notícias de seu líder.

Misty roia as unhas e Jabu esperava, sério e pensativo. Afrodite olhou direto para Máscara da Morte e depois, tornou a encarar o brasileiro.

– Dégel está com ele. – falou Aldebaran com certo alívio.

– Gente... Eu pensei que ele ia surtar e acabar com todo mundo. – disse Misty.

– Perder aqueles que amamos dói muito. Ele precisa de um tempo. – completou Afrodite.

Máscara olhou para o loiro.

– Todos têm suas perdas. Kardia vai superar.

– É... mas existem algumas que nos marcam de tal forma, que fica difícil suportar.

– Ainda é assim prá você? – questionou Máscara.

– Eu superei a perda, mas ainda sinto culpa. Por isso, sei bem como Kardia se sente.

Aldebaran ouvia a conversa e, de repente, resolveu retornar às caldeiras. Os outros estranharam a movimentação do brasileiro e Misty foi o primeiro a chamar.

– Ei, onde está indo, grandalhão?

– To voltando lá.

– E por quê? – questionou Máscara da Morte.

– Porque ele não tá sozinho. Nós somos a nova família dele, agora.

Os demais franziram o cenho, estreitando os olhos.

– O que quer dizer com isso, cara? Kardia é o chefe, mas...

– Ele não é só o chefe, Jabu. Ele zela por nós e não teme ninguém. Eu quero mostrar a ele que tem a mim. Ele é meu brother. – respondeu Aldebaran.

Máscara sorriu.

– Vamos lá, estamos virando uma cambada de puto sentimental, mas tudo bem. – disse o italiano.

– Eu fora! To do lado de Kardia, mas não curto homem, nem essa coisa de virar puto. – disse Jabu.

– Humm... Outro machão fora- da -casinha. O último que disse isso acabou se apaixonando por um nerd... – falou Misty beliscando a bunda do jovem que deu um pulo para frente.

– Misty... – disse Aldebaran olhando-o com cara feia.

Ah! O que é que tem? Todo mundo aqui já sabe que o Kardia e o médico estão vivendo um Romeu e Julieta.

Jabu franziu o cenho.

– Um Romeu e Julieta?

– Aff! Não entendeu? Não me diga que nunca viu o filme? – devolveu Misty.

– E eu lá tenho cara de quem vê filme de mulherzinha?

– Filme de mulherzinha! Mas vá ser ignorante assim na puta que pariu!

– Eu não sou ignorante coisa nenhuma! Sou homem, isso sim! E...

– E chega! Calem a boca vocês dois! – gritou Aldebaran.

Misty olhou para o brasileiro, estranhando o fato dele se impor daquele jeito. Aldebaran era sempre sorridente e pacífico, dificilmente o via perder a paciência. Por um segundo, sentiu um arrepio em ver o amigo tão viril e imaginou coisas que jamais havia imaginado...

No instante em que todos ficaram em silêncio, Dégel e Kardia surgiram no corredor. Os dois olharam para o grupo que também os fitava. O grego inspirou fundo, voltando a ser o chefe, aquele que tinha de mostrar-se forte. Andou com passos firmes, apesar de sentir o corpo latejando e doendo. No entanto, Aldebaran se adiantou.

– Olha, aconteça o que acontecer, saiba que estou contigo, irmão. A gente tá contigo, né pessoal? – completou olhando para os demais.

Kardia engoliu a saliva e sentiu que seus olhos ameaçavam se encher de lágrimas, novamente. Então, mesmo sentindo uma dor atroz na mão machucada, fechou-a em frente ao peito, gesto que nas gangues sinalizava companheirismo, e olhou nos olhos de Aldebaran. O grandalhão sorriu e puxou o grego para um abraço.

– Se me fizer chorar de novo, eu te mato... – sussurrou Kardia enquanto Aldebaran o esmagava entre os braços.

– Não é vergonhoso chorar, irmão. – respondeu o brasileiro baixinho.

E, de repente, todos se uniram em um abraço coletivo, menos Jabu que ainda estranhava o fato daqueles homens serem tão machos e ainda assim gostarem de foder com homem. Misty olhou para o jovem e o puxou.

– Vem, coisinha mal-amada! Não vai virar gay por causa de um abraço!

Meio desconfiado, Jabu foi e o grupo ficou completo.

“Existem laços que são mais fortes que o sangue,

Existem dores singulares, que não são somente minhas, nem tuas,

São nossas...

Existe o laço que se constrói na herança ancestral,

E existe aquele que se consolida na alma...

No primeiro, existe a força das origens,

No segundo, a escolha do coração...”

0000****0000****0000

Radamanthys chegou ao Santuário em seu helicóptero particular, no horário do meio-dia. O tempo havia sido favorável e o céu estava claro. Vestia um terno escuro e óculos de sol. Consultou o relógio e logo avistou Minos que viera esperá-lo no heliporto.

– Minos. – disse ele estendendo a mão.

O diretor fitou Radamanthys, por microssegundos antes de aceitar o aperto de mão.

– Olá, Radamanthys.

– Faz algum tempo, não é mesmo? Fico feliz em vê-lo bem. – disse Radamanthys.

– Não costumo ser hipócrita, você sabe. Estou mais curioso que à vontade em tê-lo aqui.

Um sorriso brincou nos lábios de Radamanthys.

– Eu sei.

– Bem, vamos ao meu escritório. Podemos conversar, enquanto almoçamos.

Radamanthys acompanhou Minos e logo estavam nas instalações administrativas da prisão. O juiz observava o lugar com discreta atenção e se surpreendia com o nível de organização e o “ar contemporâneo” que tudo ali evidenciava. Se fosse alguém desavisado, certamente poderia abstrair que estava em uma prisão de alta periculosidade.

O almoço foi servido de forma impecável, também digno de um serviço de hotel. A comida não era extravagante, mas excelente. Salmão grelhado com arroz e ervas finas, sopa de ervilhas e açafrão, vinho branco e frutuoso. Todos os pratos preparados pelo chef que cuidava da alimentação dos presos da ala A.

– Seus hóspedes comem bem aqui. Suponho que esse tipo de comida seja servida sempre e não apenas porque o estou visitando. – disse Radamanthys.

– A comida tende a ser mais simples, mas balanceada. Até mesmo na ala B mandei que contratassem um cozinheiro que produzisse comida decente.

– Ala B... Aproveitando o seu comentário, vou dizer o que me trouxe aqui.

– Finalmente. Estou, verdadeiramente, curioso.

– Eu andei conversando com seu pai. Ele soube das suas realizações aqui e gostaria de ter uma conversa com você.

Minos parou de mastigar. A muito custo controlou-se para não perder as boas maneiras ou rir. Então era isso! Bem, só podia ser... o cão obediente só age sob as ordens do dono. Pensou, enquanto depositava o garfo sobre a mesa.

– Pensei que inteligente como é, Hades saberia o significado de nunca mais quero vê-lo ou trocar uma palavra, que seja, com você.

– Eu acho que você deveria ouvi-lo.

– Você acha tudo o que ele acha! Se a razão da sua visita é agendar um reencontro entre eu e Hades, não devia ter perdido seu tempo e viagem, Radamanthys.

Já preparado para aquela reação, Radamanthys bebeu um longo gole de vinho e tornou a falar:

– Você me vê, apenas como um capacho, não é? Mas saiba que, apesar da minha fidelidade ao seu pai, também gosto de você e faço o possível para ajudá-lo. Não fiz isso quando o ajudei a conseguir este cargo?

– Hades sabe disso?

– Existe algo que seu pai não sabe?

Minos sorriu com sarcasmo.

– O que quer Radamanthys? Diga a verdade e talvez eu até acredite que gosta um pouco de mim.

– Minos, a questão não é o que eu quero e sim o que você quer. Quer passar o resto da sua vida aqui, neste fim de mundo?

Sabe, como cientista, acredito que a natureza é realmente cruel e injusta. Você, não eu, deveria ser filho de Hades. Vocês dois tem tanto em comum... O sentimento megalômano que faz tudo girar ao redor de vocês é um deles!

Radamanthys permaneceu com o semblante inalterado. Se Minos sequer pudesse imaginar...

– Me escute, Minos. Quando eu o ajudei, não esperava que pudesse fazer muito mais que deixá-lo perto do homem que ama. Mas agora, você tem uma chance inestimável em suas mãos. Dê uma chance ao seu pai e tenha a sua vida e a de Albafica de volta.

A expressão de Minos mudou.

– O que está dizendo?

– Hades percebeu seu trabalho nesta prisão, mas, apesar disso, acredita que o seu potencial está se perdendo aqui. Sua inteligência, Minos, é reconhecida muito mais que pensa.

– E o que interessa a Hades o que eu faço aqui? Penso que alguém como ele deveria manter uma considerável distância de prisões!

– Ele tem circulado no meio de várias autarquias militares e, algumas delas, mostraram interesse nas suas pesquisas aqui. Uma prisão oferece um público bastante diversificado, o que ajuda na obtenção de resultados rápidos. O cargo de diretor é muito abaixo do potencial que você tem, Minos. Hades propõe que você ceda o cargo e torne-se um consultor de projetos científicos em uma destas autarquias.

Minos sorriu.

– Estava demorando... Certamente, ele viu aqui mais um filão de ouro para os seus negócios escusos e envia você com essa conversa estúpida sobre o meu potencial. Mas tenho que admitir que a sua oferta foi uma isca perfeita para me fazer ouvir essa besteira!

– Duvida que Hades consiga libertar Albafica? Você sabe o poder que ele tem.

– Eu, mais que ninguém, conheço o poder de Hades e sei muito bem os métodos que usa. É óbvio que ele deseja mais poder e agora, vê em mim, a chance de expandir a merda que faz! Diga ao todo- poderoso para me deixar em paz, ou iniciaremos uma guerra da qual ele não vai gostar.

Radamanthys franziu o cenho.

– Pense bem, Minos... Não é seguro enfrentar um homem como o seu pai.

– Pois saiba que não é seguro mexer comigo também. Foi-se o tempo em que era ingênuo. Então, acho que encerramos esse assunto.

– Está bem, não quero me indispor com você. Posso conhecer as outras instalações?

Minos sorriu.

– Sua educação sempre me surpreende, Radamanthys.

– Aprendi com seu pai. – respondeu o juiz de forma séria, mas ainda sim com uma pitada de sarcasmo.

– Vamos. – disse Minos rindo. – Apesar de ter me decepcionado, eu ainda gosto um pouquinho de você.

0000****0000****0000

– E então? – falou Hades quando Radamanthys entrou na sala. – Como Minos está se saindo?

Radamanthys sentou-se na poltrona de couro e inclinou-se para trás na cadeira. A sala ampla, com uma vista exuberante, mostrava jardins cuidadosamente cuidados. Todo o ambiente era de um requinte clássico e sóbrio, totalmente adequado à personalidade do homem que possuía dois estilos de vida distintos.

– Ele fez um excelente trabalho, ninguém diz que aquilo é uma prisão. – respondeu o juiz.

– Apesar da teimosia e do péssimo hábito de colocar suas paixões acima do que, realmente, importa, ele tem meu sangue. Não esperaria menos dele. Ele aceitou a minha proposta?

– Claro que não.

Hades sorriu já sabendo de antemão, qual seria a resposta de Minos. Ter o controle absoluto de todas as situações era uma obsessão prazerosa que o tornava uma personalidade peculiar.

Adorava a sensação de transitar entre dois mundos, andar no submundo e retirar-lhe a força sombria que o fazia ser temido e, ao mesmo tempo, circular altivo na superfície, mantendo sua invulnerabilidade através da admiração colhida pelos feitos filantrópicos...

– Conte-me o que viu.

– Eu fiquei impressionado, uma coisa é ver o projeto, outra é estar dentro das instalações. O lugar possui uma infraestrutura invejável e Minos está fazendo um trabalho impecável. O único módulo restrito a visitas foi a área de pesquisa e nós dois sabemos o porquê. Então nem insisti, fizemos uma visita virtual pelas alas, pátio, dependências esportivas e chuveiros.

– Excelente. E quanto ao outro assunto?

– Já cuidei de tudo.

– Ótimo. Bebe alguma coisa?

– Um uísque, por favor.

Hades apertou um botão que fez abrir uma porta trabalhada mostrando sua adega particular. Em seguida surgiu um homem alto e magro, vestido como um mordomo tradicional.

– Às suas ordens, senhor Hades. – disse ele fazendo uma mesura.

– Traga-nos uísque.

– Preferência por alguma marca, senhor?

– Chivas ou Macallan, Radamanthys? – perguntou Hades olhando para o filho.

Radamanthys sorriu.

– Chivas.

Hades sinalizou e logo o mordomo os servia com toda a pompa. Pai e filho degustaram a bebida cara e depois retornaram às combinações. A relação dos dois era assim, direta, simples e sem problemas. Mesmo que a palavra filho e pai nunca fossem pronunciados, ambos vivenciavam o laço em estreita cumplicidade. Conversaram sobre outros assuntos e depois cada um retornou ao seu mundo.

0000****0000****0000

Albafica deixou a cela e foi ter com Minos. O diretor falava ao telefone quando ele entrou e isso, de alguma forma, lhe deu algum tempo. Minos gesticulou algo do tipo Já vou atendê-lo e terminou a conversa. Quando olhou para o preso, sentiu-se dominado por aquele sentimento voraz, mas controlou-se.

– Mandei chamá-lo porque temos um grande problema e preciso da sua ajuda.

– Se é sobre o seu projeto, sabe que...

– Me escute, antes. Por favor.

Um clima de intimidade e tensão reinou no ar e os dois voltaram a sentir aquele magnetismo que sempre os ligava. Minos permaneceu preenchendo o espaço entre eles com um olhar fulminante, mas ainda assim havia algo mais. Albafica retribuiu-lhe a atenção e não recuou.

– Está bem, fale.

– Não vou mentir prá você e dizer que estou convencido que o meu projeto é desumano. No entanto, hoje recebi a visita de Radamanthys e quando o mastim de Hades entra em cena é porque existe algo obscuro em jogo. Creio que me envolvi em algo maior que esperava e, mais uma vez, Hades se coloca em meu caminho. Entretanto, não vou deixá-lo vencer, não desta vez.

– E o que espera de mim?

– Você me acusou de ser igual ao meu pai, mesmo sabendo que procurei este cargo para ficar próximo de você. Sei que me culpa por ser filho dele, mas isso não é justo, Alba.

– Você não entende, não é? Não o culpo por ser filho de Hades e sim pelo fato de não reconhecer a sombra dele em si mesmo. Eu não queria que se afundasse nesse fim de mundo comigo, nem que me tirasse de uma prisão comum para viver como um homem que dispõe da vida humana como se ela nada significasse. Eu preferia que você continuasse a ser aquele Minos que prezava a ética e a justiça. Não esse homem duro que se submete à indústria farmacêutica, às empresas de biotecnologia e sei lá mais o quê.

– Eu não me submeto! Eu faço aqui o que se faz lá fora. Com a única diferença que os grupos de controle não são pessoas inocentes ou que vivem em condições sub-humanas. São homicidas, estupradores, assassinos e psicopatas que tem a chance de se redimir pelo mal que fazem à sociedade. Você acha isso antiético?

– Ninguém deve ter o poder sobre a vida, Minos. É esse o ponto crucial que você precisa entender. Hades age da mesma forma, destruindo, subjugando, comprando as pessoas como se fosse um deus. O que está fazendo aqui o aproxima dele!

Minos levantou da cadeira com o corpo tenso. Olhou para Albafica e, em seguida, para a janela que mostrava o céu, agora encoberto por nuvens.

– Então você me odeia, é isso.

As palavras saíram num tom amargo e Albafica engoliu em seco. Nunca o odiaria! O que sentia era culpa. Culpa por ser a causa da queda do homem que amava, por não ter tido coragem de contar muito antes sobre Hades.

– Eu jamais vou odiá-lo, Minos.

O diretor olhou para o homem que amava e aproximou-se dele, de forma que ficaram frente a frente. Minos levou uma mão ao queixo delicado e fitou-o bem dentro dos olhos.

– Fiz o que fiz por te amar mais que tudo, Albafica.

Albafica empalideceu.

– Eu sei e é por isso que eu... eu quero que fique longe de mim.

– Isso é impossível, Alba. – disse Minos.

O beijo apaixonado calou qualquer resposta que Albafica tensionava dar. O desejo crescente e desesperado acabou com quaisquer defesas que ele erguera contra o que sentia por Minos. Num gesto instintivo, entrelaçou as mãos nos cabelos de Minos, puxando-lhe a cabeça para que pudesse sentir mais da boca selvagem e exigente. O diretor apertou-o, ainda mais junto ao corpo, até que uma batida insistente o fez separar-se daquele contato.

Albafica estava com o rosto afogueado e Minos também. O guarda pareceu não perceber o fato ou fingiu, dada a sua situação ali.

– Senhor, está havendo problemas na área de pesquisa.

O belo rosto de Minos permaneceu inalterado, mas Albafica percebeu-lhe a tensão no modo como estreitara os olhos.

– Problemas de que tipo?

– Os enfermeiros estão com medo e querem deixar o recinto, senhor. A gente tá tentando mantê-los lá, meio que à força.

– Chame Asmita e Morfeus. – disse Minos com um suspiro. – Mande que me encontrem lá.

Albafica olhou-o e, antes que ele pedisse, se ofereceu.

– Eu também vou.

– Obrigado. – respondeu Minos.

Quando os dois chegaram, um dos enfermeiros correu até Minos.

– Nós não temos mais condições de ficar aqui!

– Acalme-se, homem. Aconteceu mais alguma coisa, além do caso anterior?

– Outros dois morreram, ontem à noite. E hoje pela manhã...

Albafica sentiu que o enfermeiro o olhava e, em seguida fitava Minos com uma expressão de angústia e dúvida. O diretor sinalizou que ele podia continuar.

– Eles reviveram, mas de um jeito... eles não podem andar ou falar, mas...querem comer e parecem farejar o sangue. – disse o homem com a testa suada, embora o ambiente estivesse com baixa temperatura.

– O vírus a que foram expostos conserva as funções primitivas do cérebro. O hipotálamo parece ser a única estrutura cerebral que permanece inalterado, mesmo após a morte física, dando a ilusão que ainda há vida. – disse Minos.

Albafica franziu o cenho. Era um bioquímico, mas conhecia vários estudos em que se combinavam drogas e vírus. Havia uma pesquisa sobre um vírus que era capaz de “despertar” áreas do cérebro, após a morte física, mas o risco de produzir anomalias degenerativas e distúrbios era alto, sem contar aquele efeito colateral que deixava a pessoa com aparência zumbi tão explorada pelas séries televisivas e cinema.

– Um vírus desse tipo é muito perigoso. O período de contágio se torna rápido num local com esse. – disse Albafica.

– Eu sei, por isso pedi a presença de Morfeus e Asmita. Dégel será chamado, também. Creio que não se negará, depois de ser colocado a par da situação.

Morfeus chegou, em seguida, tendo Asmita ao seu lado. O famoso hematólogo tinha uma deficiência visual que o tornava quase cego, no entanto ele fora agraciado com um aumento de sua percepção. Podia saber o estágio de uma reação química pelo som que fazia, assim como seu olfato era, extremamente, desenvolvido e percebia odores que ninguém mais notava.

Antes de entrar na câmara especial que isolava os infectados dos demais pacientes, Asmita elevou a cabeça e falou:

– A morte adentrou este lugar. Espero que não seja tarde demais...

0000****0000****0000

Na sede do FBI, Kanon e Milo estavam deitados em uma maca, enquanto Camus e Aiolia discutiam os últimos detalhes da missão.

– Vai ser interessante. Uma missão com alta tecnologia. – disse Kanon, olhando para Milo.

– É, Camus pensou em tudo.

– Vocês estão bem? Quer dizer, estão juntos mesmo? — questionou Kanon.

– Estamos. E você, tá pegando quem?

– Ninguém, por enquanto. Estou livre, leve e solto.

Milo olhou para o amigo e riu. Em seguida uma bela e exótica mulher, entrou e os cumprimentou.

– Bom dia, senhores! Bem, vou colocar em vocês essa cápsula subcutânea feita de vidro biocompatível, para evitar a rejeição do organismo. Ela contém um microchip rastreador e, através dela poderemos monitorar as suas condições físicas e saber a sua localização à distância. A aplicação é indolor, mas poderá coçar um pouco.

Kanon sorriu, avaliando a mulher. Ela usava um coque baixo e seus cabelos eram esverdeados. Tinha lábios delicados e olhos verdes e vibrantes encobertos por um óculos de aro fino.

– Você é médica? – perguntou ele num tom sedutor.

– Sou uma cientista. Preparados? — perguntou ela, ignorando o charme do investigador.

– Sim. – disse Milo, enquanto Kanon insistia em conversar.

– Seu nome é? – insistiu Kanon.

– Dra. Shina. Satisfeito? – respondeu ela com um sorriso falso e já virando o braço de Kanon para fora, a fim de aplicar o microchip na parte interna, próximo da axila.

– Ai! Você disse que não ia doer! – reclamou Kanon quando a pistola encostada a sua pele fez uma rápida pressão, introduzindo a cápsula em seu corpo.

– Eu menti. – disse ela sorrindo de um jeito quase psicopata.

Milo riu e quando chegou a sua vez, a promessa do ser indolor se cumpriu. Kanon fez uma careta para o amigo e, logo seguido à aplicação, Camus entrou.

– Obrigado, doutora. – disse o francês.

– De nada, fofucho! – respondeu Shina deixando a sala.

Tanto Milo quanto Kanon estranharam a intimidade que aquela mulher estranha estava tendo com o ruivo.

Fofucho? – exclamou Milo.

– Shina é do mesmo time que vocês dois, adora uma palhaçada. Agora vamos ao que interessa. – cortou Camus.

Milo franziu o cenho, mas quando olhou pelo vidro, viu a médica se aproximar de outra mulher e beijá-la na boca. Sentiu um alívio e sorriu. Voltou ao momento presente ao ouvir:

– Compreendeu tudo, Milo?

– Ah, sim. Compreendi fofucho.

Kanon riu e Camus olhou-o daquela forma gelada, capaz de esfriar o deserto do Saara.

– Escutem bem, vocês dois. Amanhã estarão em uma prisão da qual pouco sabemos e em contato com detentos de alta periculosidade. Sem contar que estarão isolados em uma ilha. Não há espaço para vacilo, compreenderam?

– Sim, chefe! – respondeu Kanon batendo continência.

Camus olhou sério para Kanon e depois para Milo.

– Não façam com que eu me arrependa de permitir a ida dos dois.

– Tudo bem, Camus, a gente entendeu. Você sabe que brincamos, mas agimos com seriedade quando necessário. – disse Milo sério.

– Assim espero.

Os dois gregos se olharam e sorriram.

– Ei, vamos beber uma cerveja. – disse Kanon.

Milo olhou para Camus que continuava sério.

– Vamos?

– Vão vocês. Ainda tenho algumas coisas para conversar com Aiolia e Dohko.

– Te encontro depois, então. – falou Milo olhando, sugestivamente, para os lábios do ruivo.

– Depois... – respondeu Camus e seu olhar glacial foi substituído por um calor denso, quase palpável.

Um sorriso distendeu os lábios carnudos de Milo, enquanto Kanon o puxava pelo braço.

– Vamos, depois vocês se comem em casa. Vamos beber!

Camus se permitiu um meio sorriso e voltou ao trabalho. Estava tomando todas as providências para que a missão desse certo. Agia com a firmeza profissional de sempre, no entanto, sua preocupação com Milo o fazia checar e checar os detalhes de forma quase obsessiva, como havia dito Aiolia.

Levou a mão aos cabelos e respirou fundo. Estava cansado, mas ainda assim iria repassar todos os dados que tinha, mais uma vez. Enquanto olhava para a tela do computador, Aiolia se aproximou.

– Deixe isso aí e vá se encontrar com os rapazes. Beba um pouco e relaxe, Camus.

– Estou relendo algumas coisas, depois eu vou.

Aiolia cruzou os braços e olhou para o ruivo.

– Sabe, eu sempre me perguntei o que acontece quando um homem como você se apaixona e agora tenho a resposta.

Camus olhou para Aiolia.

– E o que acontece?

– Isso! Você quer ter o controle de tudo e isso é impossível, Camus. Milo e Kanon são agentes experientes. Confie neles um pouco e relaxe, homem.

Apertando o canto interno dos olhos, Camus se afastou do computador.

– Não é, somente por eles, Aiolia. Dégel está lá e eu sequer sei como ele está. Existe uma conexão que eu ainda não consegui estabelecer, mas que espero conseguir.

– Eu sei, meu amigo. Mas, por hoje, descanse e aproveite as últimas horas com quem você ama.

– Eu não sei em que bar aqueles dois malucos foram.

– E prá que existe celular? Ligue e pergunte.

Camus sorriu e Aiolia também. Despediu-se do amigo e ligou.

– Em que bar, vocês estão?

– No Secret’s! – falou Milo, enquanto a voz ao fundo de Kanon gritava: — Êba, vamos ter um ménage!

O ruivo revirou os olhos e desligou. Foi até o carro e deu a partida, quando de repente, uma conexão importante saltou aos seus olhos. Pegou o celular e ligou novamente para o namorado. A chamada caiu na caixa postal. "Você ligou para o Milo. Você sabe o que fazer..."

– Milo, não irei até o bar. Te encontro, mais tarde, em casa. Acabo de descobrir algo que tenho de verificar. Diga ao Kanon que o ménage vai ter de esperar e se ele tocar um dedo em você será um homem morto. – disse ele e desligou, dirigindo-se ao fórum onde pediria a listagem do número de audiências presididas pelo juiz chamado Radamanthys...

0000****0000****0000

Dali a poucas horas, o amanhecer chegaria na ilha de Hornos.

Deitado de lado, Kardia olhava para as mãos machucadas, dois dias atrás, e forçava o movimento dos dedos. Doía, mas ele continuava movendo-os até Dégel, que havia dormido ao seu lado, acordar, se aproximar das suas costas e colar os lábios bem próximos ao pescoço, fazendo o grego se arrepiar.

– Não force... – disse o médico, ao mesmo tempo em que o lambia, experimentando o gosto daquela pele quente.

– Hoje chegam os novos presos. Não posso ficar nessa de não forçar, tenho que estar preparado. É certo que o Caronte vai tentar aliciar alguns pro lado dele.

Dégel sabia que nada que falasse iria adiantar muito, então roçou os dentes na pele desnuda e um tremor passou por Kardia. O grego esqueceu os ferimentos e se virou, segurando a cabeça do médico com as duas mãos, beijando-o profundamente. A língua fez um trajeto sensual procurando pela dele em movimentos que despertou o desejo nos dois, ao mesmo tempo.

– Gosto quando faz isso... – murmurou Kardia entre um beijo e outro.

– É o único jeito que tenho a sua total atenção. – disse o médico levando a mão até a ereção de Kardia.

O grego sorriu quando sentiu os dedos de Dégel envolverem seu falo.

– Está se revelando um safado, nerd...

– Está ruim? Se estiver eu paro. – respondeu Dégel deslizando a mão de forma lenta e provocante.

Kardia não respondeu, apenas deitou-se sobre o corpo nu e esguio do médico. Mordiscou-lhe os lábios e beijou-o com fúria. Em seguida, movimentou-se na direção dele, abrindo caminho por entre as pernas até chegar à entrada e tocá-la com seu falo túrgido.

O olhar de Dégel transformou-se em pura luxúria.

– Entra em mim... agora... — sussurrou ao sentir que Kardia o estava preparando.

O grego sorriu e seu olhar flamejou. Ergueu Dégel pelos quadris, de modo que as pernas dele lhe envolveram os quadris, enquanto o penetrava de um só golpe.

Dégel o agarrou pelo pescoço e ofegou de dor e prazer sobre a pele quente do grego, sobre os músculos potentes que o envolviam com possessividade e se entregou por completo.

Mais e mais, Kardia movia-se para dentro dele, num ir e vir que os fazia gemer em coro e de forma intensa. Os corpos se conheciam e se satisfaziam como se fossem amantes há muito tempo...

Dégel tentava se controlar, mordendo os lábios, mas logo se percebia gemendo alto e escapando daquela realidade ao deixar-se possuir pelo prazer que o grego proporcionava.

Abriu os olhos, encontrando aquele azul fulminante e úmido que o devassava e murmurou o nome de Kardia antes de sentir a estocada final que o levou a cravar as unhas na pele ardente e vivenciar um orgasmo violento e rápido.

Kardia gozou, logo depois, lançando a cabeça para trás e explodindo dentro do corpo de Dégel, o sêmen quente esgotando-se, demoradamente, com os últimos movimentos dos quadris...

Demorou um pouco para que a cela parasse de girar e para que os dois voltassem à realidade. O grego estava ofegante e Dégel também.

– Quero que me prometa uma coisa... – disse Dégel, aproveitando o momento após-orgasmo que deixava o grego mais afável.

– O que é...? – suspirou Kardia.

– Quero que tome cuidado. Os resultados dos exames vêm hoje e eu vou vê-los online com uma senha segura para que ninguém mais tenha acesso a eles. Vou ficar um bom tempo fora, então seja lá quem serão esses novos presos, prometa que não vai arranjar confusão logo de início.

Kardia olhou para o médico e afastou os fios de cabelo que teimavam em cair sobre aqueles olhos inquisidores e hipnotizantes.

– Eu não faço promessas que não possa cumprir. Mas... Digamos que eu vou me esforçar.

– Kardia, eu falo sério. Olhe as suas mãos! Não arranje conflito com estes ferimentos.

– Isso não é nada, Dégel. Se eu precisar, tenho isso. – falou o grego retirando algo debaixo do colchão.

Dégel franziu o cenho e depois compreendeu o que lhe era mostrado.

– Viu? Encaixa perfeitamente. – disse Kardia colocando o artefato na mão direita.

Com um suspiro resignado, Dégel levantou-se da cama, sem comentar a soqueira feita com uma régua de plástico.

– Então? – continuou Kardia.

Vestindo a camisa e buscando uma toalha, o médico olhou para o amante com uma expressão aborrecida.

– Você não tem jeito, então não vou perder o meu tempo. Já vi que o que eu digo não significa nada prá você.

Kardia ficou sério.

– Isso não é verdade. Eu...

Antes que o grego completasse a frase, Flégias passou pelas celas e a sirene indicando que as celas seriam abertas rompeu o ar. O guarda notou que Kardia estava nu e desviou o olhar, enquanto falava.

– O diretor mandou chamar o Dégel.

Com o cenho franzido, Kardia olhou para Dégel que já estava vestido.

– Me dê uns minutos para fazer a higiene. – disse o médico.

– O que ele quer com o Dégel? – perguntou o grego passando uma toalha úmida no abdômen definido e vestindo a calça sem se importar com o guarda.

– Não sei. Só observei que tem algo acontecendo lá no setor das pesquisas. Hoje chegam os novos presos, mas quem vai recebê-los é Caronte, no lugar do diretor.

– E que horas isso acontece?

– Já deve estar acontecendo. – respondeu Flégias.

Quando Flégias concluiu, os dois helicópteros baixaram, trazendo os novos integrantes daquele lugar. Milo e Kanon observaram os companheiros com atenção disfarçada, mas o que mais os surpreendeu foi a estrutura da prisão vista de cima. Era assombrosa e admirável, ao mesmo tempo.

O céu estava encoberto com nuvens cinza-chumbo. Apesar disso, o desembarque foi tranquilo, como sempre ocorria, e Caronte fez o mesmo discurso que Minos costumava fazer. Porém, aproveitou para olhar cada rosto, tentando antever novos aliados que pudessem fazer frente ao grego. Seu olhar percorreu o grande grupo e logo se deteve num jovem com o rosto manchado e cabelos escuros. Havia algo nele, um toque de insanidade que o agradou, assim como percebeu que ele parecia íntimo de alguns ali.

Tomando a precaução de trazer a listagem dos nomes, Caronte resolveu fazer a chamada, antes da inserção no banho e no recebimento dos uniformes. Fingindo indiferença, começou a pronunciar os nomes, em voz alta, até que o jovem que lhe chamara a atenção respondeu em alto e bom tom.

– Aiacos sou eu!

Notas finais
****A partir de agora, o Santuário pega fogo! Como podem ver, tudo começa a se entrelaçar de modo que percebemos que as vidas dispostas ali, estão interligadas de uma forma ou de outra... **** O poema colocado na fic é meu e mostra o que eu penso da amizade. Foi um momento de inspiração natalina! Espero que gostem. * risos *** Bjs e até o próximo capítulo!!!XD