Diário de Mina Mackenzie — 10 de Julho

Pois bem, me pergunto por que estou escrevendo a essa hora, mas a verdade é que não consigo dormir. Acho melhor continuar a narração exatamente a partir de onde parei. Ontem Lissa havia chegado ao apartamento me chamando em tom alto. Ainda trêmula por conta de meu encontro com Renfield, guardei meu diário na gaveta da escrivaninha e fui para a sala. Lissa estava sorrindo e quase pulando de tanta felicidade, mas seu sorriso sumiu quando viu meu rosto.

— Meu Deus, Miranda, o que aconteceu? — ela exclamou, vindo para perto de mim. Sabia que ela estava preocupada de verdade, pois não havia me chamado de 'Mina', mas sim pelo meu nome inteiro.

— Não aconteceu nada. — tentei omitir Renfield.

— Não insulte minha inteligência, Mina, eu conheço você à anos. — ela me fez sentar no sofá e se sentou ao meu lado — Você está mais pálida que o normal! O que aconteceu?

— Encontrei com Renfield no corredor hoje. — contei — Ele começou a delirar perto de mim... Me disse algo tipo "O Mestre voltou" e me chamou de 'Srta. Murray'.

— Ele é louco. — Lissa fez uma careta, entortando levemente os lábios.

— Ele também disse que 'O Mestre' queria me buscar. — senti um arrepio percorrer minha espinha — Me mandou fugir e me lembrar "do que ele fez a Lucy".

— Que Lucy? — ela franziu o cenho.

— Como eu vou saber, Lissa? — explodi — Aquele homem é louco!

— Ok, acalme-se, Mina! — minha amiga riu, aparentemente mais aliviada — Não vou deixar nenhum "Mestre" te sequestrar.

Queria poder partilhar do alívio de Lissa, mas eu ainda estava assustada. Pensei, então, em mudar de assunto.

— Agora me conte, Lis. — falei — Como foi com Arthur?

No mesmo instante em que pronunciei essas palavras, os olhos de Lissa brilharam.

— Miranda. — ela ofegou — Arthur e eu vamos nos casar! Ele fez o pedido hoje!

Foi como se a nuvem sombria que pairava sobre mim fosse retirada instantaneamente e em um piscar de olhos estávamos pulando pela sala. Lissa e Arthur namoravam a seis meses mas se conheciam a três anos; ele era uma boa pessoa e eu fico feliz pelos dois. Essa foi uma ótima novidade, então decidimos comemorar nós duas com uma festa do pijama, como fazíamos quando éramos adolescentes, e pedimos pizza.

Não irei escrever aqui um relatório detalhado de nossa noite do pijama, mas comemos pizza, tomamos sorvete e assistimos filmes exatamente como fazíamos aos 13 anos. Ora, acabamos por adormecer nos colchões e almofadas que colocamos na sala. Me lembro de ter acordado por um breve momento e desligado a televisão. Caindo novamente no sono, não sei que horas voltei a acordar, mas estava escuro e Lissa não estava na sala.

— Lissa? — chamei, mas não tive resposta.

Um barulho vindo de seu quarto me despertou totalmente e eu me pus de pé, andando lentamente até seu quarto. As luzes estavam apagadas e minha amiga ruiva estava tirando roupas de seu armário. Primeiro, começou a tentar vestir uma calça jeans, então eu me aproximei.

— Lissa, o que você está fazendo? — perguntei, e quase tive um ataque do coração ao me aproximar.

Os olhos dela estavam fechados.

Logo depois, me acalmei. Lissa costumava sofrer sonambulismo quando era mais nova, porém alguns anos atrás esses incidentes haviam cessado. Passei meus braços pelo seu tronco e a pus deitada em sua cama enquanto voltava a guardar as roupas. Joguei o cobertor por cima de seu corpo e me sentei a sua escrivaninha ao lado da cama, sem sono.

E é assi que estou agora: velando o sono de minha amiga — pois não consigo dormir — enquanto escrevo nesse diário. Decidi que ligarei para sra. Warner, mãe de Lissa, quando amanhecer para contar sobre o ocorrido; Lissa não gostará disso, mas não contarei a ela. Preciso saber o que fazer nesses casos, pois não posso confiar que sempre acordarei quando ela decidir dar uma caminhada pela madrugada.

Mais tarde— Falei com sra. Warner antes que Lissa acordasse. Ela pareceu preocupada por eu ter telefonado tão cedo e me perguntou se estava tudo bem. Após a tranquilizar, contei o que havia ocorrido. Sra. Warner pareceu surpresa pelo sonambulismo ter voltado, mas me acalmou um pouco saber que o pai de Lissa também sofria disso; sra. Warner me disse que ele costumava se vestir para trabalhar ainda dormindo a noite. Ao fim de nossa conversa, decidimos que após Lissa ir dormir eu trancaria a porta do quarto para que ela não saísse e evitar qualquer acidente.

Já são 11 horas e Lissa ainda dorme; esperarei mais um pouco, se ela não se levantar até ás 12 eu irei acorda-la. Mais uma pessoa foi encontrada morta, mas o jornal não deu muitas informações. Talvez mais tarde tenhamos mais notícias.

***

No chão, o homem gemia e chorava.

— Meu Mestre! M-Meu Mestre! — gemia — Eu não falei nada! Eu juro!

— Calado! — exclamou o homem mais alto; apenas seu rosto e seus olhos brilhavam pelo capuz negro que usava — Não devia ter se aproximado dela!

— M-Mas eu não pude e-evitar... apenas pensei q-que talvez... Que talvez...

— Ah! Então você realmente falou com ela? — rosnou o mais alto. O outro homem se encolheu — Fique aqui, seu inútil, tenho coisas para fazer.

***

Miranda fechou seu diário ao mesmo tempo em que um trovão soara do lado de fora, e teve um sobressalto. Embora tempestades de verão fossem comuns, geralmente só aconteciam no fim da tarde ou a noite, nunca pela manhã. Se levantou da mesa e foi até a janela, surpresa ao ver o quão escuras as nuvens estavam. Até mesmo uma leve neblina se insinuava por ali!

A Inglaterra era sempre assim: chuvosa e nublada, mas enquanto observava o horizonte não pode controlar o medo que sentia bem na ponta de seu estômago. Um medo que ela não sabia de que. Um medo tão intenso que não sabia se era realmente seu.

***

Lissa Warner