Sanguinem Rosis
3 If You Don't Mind
Sua visão estava escura e enevoada, não conseguia focalizar seus pensamentos, mas Lissa conseguia sentir mãos chacoalhando seus ombros.
— Lissa! — ela ouvia uma voz a chamar — Lissa, você precisa acordar! — a voz era conhecida.
Abriu os olhos, mal reconhecendo seu próprio quarto por conta da vista embaçada. Fechou os olhos mais uma vez, e quando se focaram, encarou um par de grandes olhos azuis. Mina se inclinava sobre ela, parecendo levemente preocupada. Seus cabelos escuros estavam um pouco bagunçados, o que era de se estranhar, pois sempre estavam perfeitamente arrumados. A amiga também tinha leves olheiras abaixo dos olhos, como se tivesse passado metade da noite sem dormir.
— O que houve, Mina? — perguntou. Sua voz estava rouca — Por que me acordou?
— Já são quase 13 horas, Lissa. — ela respondeu — Se eu não viesse te acordar, você iria literalmente dormir um dia inteiro.
— Você fala como se isso fosse uma coisa ruim. — murmurou, voltando a enterrar o rosto no travesseiro, mas se ergueu ao ver o olhar que a amiga lhe lançava — Está bem! Está bem! Já acordei! E agora?
— Eu não sei se você irá querer tomar café da 'manhã' ou almoçar, mas eu fiz um café bem forte. — Mina se levantou e abriu a porta do quarto — Preciso falar com você.
Sem mais alternativas, Lissa seguiu a amiga para fora do quarto e até a sala. Estava chovendo lá fora, mas isso não a incomodava; antes chuva do que o calor do verão.
Se serviu do café. Estava quente e forte, do jeito que ela gostava, assim como estava doce. Olhou para Mina, mas ela estava olhando para fora da janela, quase como se procurasse algo.
— O que foi? — Lissa perguntou.
Mina suspirou.
— Seu sonambulismo voltou. — respondeu, impassível. Essa era a característica que Lissa mais admirava na amiga: sua capacidade de nunca demostrar o que estava pensando.
— Impossível, Mina. Meu sonambulismo desapareceu faz sete anos. — riu.
— Não é impossível, Lissa, eu vi! — falou — De madrugada eu acordei e você estava no seu quarto se vestindo para sair. Não posso confiar que sempre vou acordar quando você tiver essas crises. — olhou outra vez para a janela — Vou por um colchão em seu quarto e dormir lá por alguns dias.
— O que? Não! Eu não preciso de babá, Miranda! — Lissa trincou os dentes.
— Que bom, — o tom gélido de Mina indicava que aquela conversa estava encerrada — porque eu não sou uma babá.
***
Lissa estava com a aparência abatida, embora tivesse dormido por muito tempo. Miranda notou que a pele da amiga estava levemente macilenta e olheiras se formavam embaixo de seus olhos.
Não que ela estivesse muito melhor; sentia uma dor começar a se formar atrás de seus olhos enquanto arrumava novamente seu cabelo e escondia suas próprias olheiras com uma leve maquiagem.
— Vou sair! — gritou subitamente.
Em um segundo, a ruiva já estava em frente a porta do banheiro.
— Como assim? — cruzou os braços — Vai aonde? Vai se encontrar com alguém?
— Não, Lissa. — respondeu, saindo do banheiro — Vou comprar algumas flores.
— Flores sintéticas?
— Não, de verdade. — vestiu o casaco — Separe um jarro com agua para mim, por favor. — foi até a porta, mas parou — Se Arthur vier aqui, me mande uma mensagem. Não quero chegar em minha casa e ver uma cena que me deixe marcada pelo resto da vida. — fez uma careta, e então saiu.
Felizmente, dessa vez não encontrou com Renfield pelos corredores e nem na rua. Já havia parado de chover, mas o ar ainda mantinha o cheiro da chuva. Miranda inspirou profundamente; suas preocupações sumiram em um instante. O medo estranho que sentira algumas horas atrás parecia ter se extinguido quase completamente.
Aisha Lyudishka era a dona da loja de flores mais próxima do prédio de Mina. Era uma cigana e tinha por volta de 60 anos de idade; seu sotaque era forte e parecia ser de algum lugar do leste da Europa, mas a jovem nunca havia perguntado de onde.
— Minha querida! — Aisha exclamou, assim que Mina entrou na loja, fazendo o sininho da porta tocar — Faz tanto tempo que você não vem aqui! Como você está? Como está a menina Lissa?
Miranda se aproximo e se apoiou no balcão, suspirando. Ultimamente ela andava suspirando muito.
— Eu estou bem, Aisha. — falou — Mas Lissa voltou com o sonambulismo.
— Sonambulismo? — o sorriso de Aisha sumiu e ela pareceu subitamente muito preocupada.
— Sim. — Mina inclinou a cabeça — Ela costumava ter sonambulismo quando mas nova, e aparentemente o pai dela também sofria com isso. — contou — Ontem a noite, acordei a tempo de impedir que ela se vestisse para sair.
Aisha ainda parecia muito preocupada, embora forçasse novamente um sorriso.
— Bem, ela tem sorte de ter uma amiga como você. Mas, lembre-se que é bom trancar as janelas também. Vai saber o que pode acontecer. Agora, — emendou rapidamente, sem dar chance que Mina falasse algo — acho que você quer algumas rosas, não?
— Sim. — Mina sorriu — Rosas vermelhas, as minhas favoritas.
Com eficiência, Aisha pegou as rosas e as embrulhou cuidadosamente no papel. Miranda sorriu enquanto pegava o embrulho e pagava. "Venha assim que puder para tomar um chá!", Aisha havia gritado. Prometendo que não demoraria tanto a voltar, Miranda saiu da loja, esbarrando com uma pessoa que passava.
— Miranda! — a voz disse — Eu já estava querendo falar com você.
A jovem olhou para frente e se viu encarando os olhos castanho de Jonathan Hills. Jonathan era amigo de alguns amigos seus e de Lissa; se conheciam, mas não eram tão íntimos.
— Jonathan, boa tarde. — sorriu — Como você está?
— Estou bem. — ele esfregou a nuca, parecendo sem jeito — Eu vou dar uma festa na sexta e queria saber se você e Lissa iriam? A festa é tema livre.
— Tema livre? — perguntou, ainda não dando total atenção a Jonathan.
— Sim — ele foi paciente — Livre porque você pode ir como quiser. Fantasiada, de pijamas, roupa comum... qualquer coisa.
— Bem Jonathan, talvez Lissa e eu passemos na sua festa. — sorriu, rodeando o rapaz — Agora, se não se importa, preciso ir para casa e por minhas novas rosas na água. Nos vemos, talvez, na sexta.
— Até sexta! — ele sorriu — Espero ter ver lá!
Com certeza me verá, Mina pensou, Lissa me arrastará para a festa nem que seja pelos cabelos.
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