Sanguinem Rosis

4 Last Ride Of The Day


Diário de Mina Mackenzie — 14 de Julho

Bem, durante esses últimos dias, nada de estranho ou ruim tem acontecido; na verdade, meus dias tem sido bastante entediantes. Mamãe me telefonou algumas vezes e a mãe de Lissa também. Queria saber como estavam os episódios de sonambulismo. Contei que estava dormindo no mesmo quarto que Lissa, para vigia-la, e trancava a porta.

Nos últimos dias, ela apenas se erguia da cama e ia até a porta. Quando via que estava trancada, começava a procurar a chave pelo quarto, então eu levantava e a colocava novamente na cama, e ela caía em um sono profundo.

Na noite passada, entretanto, Lissa dormiu a noite inteira um sono calmo e contínuo, sem se levantar e andar pelo quarto, algo que me deixou bastante feliz e até mesmo me animou o suficiente para concordar ir com ela para a festa na casa de Jonathan.

A única coisa estranha que me aconteceu foi quando voltei a loja de Aisha para tomar chá com a gentil senhora. O chá era o meu preferido, de morango, e eu não tinha como resistir. Conversamos bastante e nisso acabei contando que talvez fosse à festa de um amigo.

No momento em que contei sobre a festa, sua fisionomia mudou como se ela fosse chorar.

— Não, minha querida, por favor não vá a essa festa! Não vá! — ela segurou meus braços com delicadeza, enquanto olhava com olhos desesperados.

— Aisha... — algo temeroso deve ter passado por meus olhos, pois ela me soltou e tentou sorrir.

Sumiu na porta atrás do balcão e em seguida voltou com um colar prateado.

— Aceite isso, por favor. Use isso, vai te proteger. — ela me entregou o colar. Vi que era um crucifixo de prata e quis devolver mas ela me impediu — Use por sua família e amigos.

Eu havia sido criada em um igreja protestante, então estava acostumada a ver essas coisas como idolatrias, mas seus olhos estavam tão desesperado que eu aceitei e coloquei em meu pescoço.

Por algum motivo, desde aquele dia não o tirei.

Agora irei me arrumar; escreverei quando voltar, se não estiver muito cansada.

***

Miranda se olhou no espelho de corpo inteiro que tinha em seu quarto; o vestido vermelho ficou realmente muito bem nela, contrastando com seus cabelos escuros e pele pálida, exatamente como Lissa havia dito. Foi até sua caixinha de joias e tirou um colar de pedra vermelha. Parou por um momento, tocando a cruz em seu pescoço; guardou o colar vermelho.

Depois de conferir seu batom carmim no espelho, saiu de seu quarto, encontrando Lissa no corredor. Lissa estava vestida com um vestido negro de mangas de renda longas; os cabelos ruivos estavam levemente frisados e os olhos marcados pelo lápis de olho preto. Ela parecia uma bruxa moderna, como queria parecer.

— Nossa, o vestido ficou ótimo! — Lissa exclamou — Mas o colar destoa.

— Não quero tirar. — Mina falou — Me sinto confortável com ele.

— Ok. — a ruiva observou-a pensativa, depois se virou para seu quarto — Espere, já sei o que falta!

Após alguns instantes, retornou com uma tiara de rosas vermelhas do mesmo tom do vestido de Mina.

— Coloca isso! — disse — Vai ficar perfeito!

E realmente ficou. A tiara ficava acima da testa dela, segurando seus cabelos para trás. Ela parecia uma mistura de Branca de Neve com Perséfone, a deusa grega da primavera.

— Agora sim, podemos ir! — Lissa sorriu, mostrando os dentes brancos por trás do batom roxo.

***

Jonathan estava irritantemente grudento naquela noite. Faziam apenas duas horas que ela e Lissa haviam chegado, e sem querer prender a amiga e o namorado de dançarem e ficarem juntos, ela aceitou a companhia do anfitrião de forma educada. Ele falava com ela o tempo todo, o que Miranda achava gentil, mas não gostava de como ele tocava sempre seus ombros e suas costas; ou da forma como ele bebia como se já estivesse acostumado a tudo aquilo.

Conseguiu escapar para os fundos da casa, onde havia um pequeno jardim e — Graças a Deus — estava vazio. Dali ainda escutava o barulho das músicas e conversas altas, mas pelo menos estava sozinha e poderia respirar um pouco.

Se sentou no banco charmoso de madeira que havia ali, em frente a uma roseira, e respirou fundo, surpresa pelas flores tão singelas exalarem um perfume tão forte e delicado. Rosas brancas cresciam ali, assim como rosas vermelhas, as suas favoritas.

— Por que está aqui fora, e não na festa com os outros? — uma voz a fez ter um sobressalto.

Seu susto foi tão grande — afinal, ela não escutara ninguém se aproximar — que quase tropeçou em seus próprios pés quando se ergueu apressadamente do banco. Ergueu os olhos e encontrou um homem parado perto dela, quase oculto pela noite, devido as suas roupas completamente negras.

Subitamente ela sentiu vontade de correr, fugir para bem, bem longe daquele homem. Mas quando seus olhos encontraram os olhos completamente verdes do estranho, ela se viu completamente incapaz de se mover. Seus cabelos eram negros, como suas roupas e o casaco longo que ele usava, e eram mais ou menos na altura dos ombros, bagunçados e ondulados. Parecia estar na casa de seus vinte e poucos anos, talvez.

Ele se aproximou dela lentamente, com um leve sorriso nos lábios, mas seu sorriso, para Mina, não parecia ser gentil. Parecia ser o tipo de sorriso que uma cobra daria ao ver um coelhinho fofinho sozinho em seu caminho. Parou em sua frente e ergueu uma sobrancelha; parecia esperar realmente uma resposta para sua pergunta.

— A-Ah... Eu-Eu quis sair um pouco daquela multidão de gente bêbada e músicas altas. — ela pigarreou, tentando dar um tom mais confiante a sua voz — Sou Miranda Mackenzie. — estendeu a mão.

— Miranda... — ele testou seu nome, fazendo um arrepio percorrer a coluna de Mina, ao mesmo tempo que segurava delicadamente sua mão. As mãos dele eram gélidas; quase como a mão de um morto — Um belo nome para uma bela jovem. — então ele ergueu sua mão e a beijou de leve e demoradamente, seus olhos verdes nunca deixando os dela.

Céus, de onde ela conhecia esse homem? Ele lhe era tão familiar.

— Desculpe por perguntar. — ela tentou falar — Mas você é amigo de Jonathan?

— Ah. — os olhos dele pareceram brilhar em vermelho. Mina piscou — Eu e Jonathan somos... velhos conhecidos.

O homem era estranho. Atraente, mas estranho.

— Você não me disse seu nome. — ela tentou dar um passo para trás, mas suas pernas pareciam não atender aos comando de seu cérebro.

— Nome? — ele deu mais um sorriso de lado — Eu tenho muitos. Mas o que importa? Somos todos mais complicados do que nomes.

— Bem, — Miranda tentou pensar em uma resposta mais inteligente do que a dele. Não conseguiu — pode dizer seu nome como cortesia a uma dama que lhe perguntou. — tentou sorrir.

Ele ergueu uma sobrancelha.

— A senhorita pode me chamar de Claudiu Dragomir. — seus olhos brilharam — Esta noite está sendo realmente perfeita, não é mesmo?

Ele se aproximou mais, parecendo querer toca-la, mas Mina, por puro reflexo, se inclinou para trás, fazendo com que seu crucifixo aparecesse por seu decote ao mesmo tempo em que alguns gritos soaram dentro da casa de Jonathan. Miranda saltou com o susto.

Quando voltou a encarar Claudiu, ele havia se afastado dela, o que a deixou mais confortável. Sua feição estava controlada, embora seus olhos brilhassem.

— Creio que é melhor você ir agora. — ele disse.

Miranda não conseguiu dizer mais nada. Apenas se virou e correu para a porta de entrada dos fundos. Quando se virou, Claudiu não estava mais ali.

***

Claudiu Dragomir