Sanguinem Rosis
1 Prólogo
Diário de Mina Mackenzie — 9 de Julho
O dia hoje amanheceu ensolarado, um alívio depois do tempo chuvoso dos últimos dias. Havia me sentado no sofá da sala de meu apartamento apenas para ver as notícias no jornal da manhã. Três pessoas haviam sido encontradas mortas de uma forma brutal; associavam as mortes ao ataque de um grande cão de pelagem negra que havia sido visto na cidade dias atrás e ainda não havia sido encontrado.
Isso definitivamente era algo estranho de se ver, afinal, Oxford era um lugar completamente tranquilo. É fim de verão, e daqui á algumas semanas iria voltar para meu próximo período na universidade; voltei assim que pude para o apartamento que dividia com minha amiga, Lissa Warner, também estudante da Universidade de Oxford. Foi bom para mim a experiência de sair da casa de meus pais em Londres, a mudança de ares fez bem ao meu espírito. Oxford era perfeita para mim.
Por falar em Lissa, ela acordou tarde hoje. Havia terminado de trocar minhas roupas e já eram dez horas quando ela surgiu na sala. Os cabelos flamejantes estavam bagunçados e os olhos âmbar cerrados de sono. Parecia um pouco abatida, mas deduzi que fosse pelo fato de que havia acabado de acordar.
— Mas você já acordou, Mina? — ela resmungou, coçando os olhos.
— Dormi cedo ontem. — respondi — Você deveria tentar fazer o mesmo.
— As aulas ainda não começaram, Miranda. — ela retrucou, se sentando a mesa.
Comecei a me aborrecer com seu mal humor matinal.
— Bem, — havia dito acidamente — como Arthur disse que viria aqui hoje para conversar com você, ficarei fora por um bom tempo para não atrapalhar vocês.
— Você não precisa sair. — Lissa tentava desembaraçar os cabelos — Pode ficar.
— Eu não quero ficar trancada em meu quarto, Lis. — suspirei — Vou sair um pouco.
E foi assim que me vi sentada em um dos bancos de ferro escuro de Radcliff Square, fazendo absolutamente nada. Estava basicamente dividindo minha atenção entre as pessoas que passavam por mim, o céu e um belo canteiro de rosas tão vermelhas quanto sangue. Rosas vermelhas eram minhas preferidas, e quando o vento soprava, trazia seu perfume até mim.
Acabei conhecendo um senhor muito amável, Christopher Lincoln, um veterano da Guerra do Vietnã que gostava muito de falar. Conversou comigo durante um bom tempo, após se sentar ao meu lado no banco para descansar sua perna dolorida — ele usava uma bengala. Havia levado um tiro na guerra, ele havia me dito. Parecia um pouco mórbido ao falar da morte, mas também rejuvenescido quando falava dos lugares que havia conhecido, desde o Chile, na América do Sul, até o Egito na África.
Por fim, após horas conversando, ele me encarou, com os olhos brilhando.
— Não havia sido minha intenção deixa-la desconfortável com minhas várias menções a morte, senhorita Mackenzie. — ele inclinou a cabeça de forma educada — Mas nós, homens velhos, conseguimos sentir quando ela está prestes a se aproximar e lhe envolver com seus braços para juntos partirmos dessa vida. — nesse momento, um vento forte de fim de tarde soprou, trazendo um leve cheiro de chuva — Ela se aproxima! Ela se aproxima, e eu posso sentir! — ele riu — Não sente também, senhorita Mackenzie? A morte se aproxima! — inspirou fundo.
Quando o vento parou, ele suspirou, parecendo voltar a ser o velho sr. Lincoln, o melancólico. Sorriu para mim e se desculpou dizendo que deveria ir para casa, pois sua filha servia o chá exatamente naquela hora e ficaria extremamente chateada caso ele se atrasasse.
Foi com certo pesar que me despedi do velho homem, que fora minha única companhia naquele dia solitário; embora tivesse o costume de filosofar sobre a morte, era uma ótima pessoa.
Decidi por fim voltar ao apartamento, torcendo para que Arthur e Lissa tivessem saído e eu não encontrasse os dois aos amassos no sofá. Fiz uma careta.
O prédio estava estranhamente silencioso; não era possível que os moradores tivessem combinado de saírem todos no mesmo dia, mas vi que essa minha tese estava errada ao cruzar com Renfield no corredor.
O sr. Renfield era um homem estranho, era obrigada a admitir. Tinha por volta dos 50 anos e não tinha família pelo que eu sabia. Costumava falar sozinho e diziam que barulhos estranhos vinham de seu apartamento. Eu sempre o evitava, mas dessa vez fui pega de surpresa e não pude fugir.
Ensaiei um 'bom dia', mas ele me interrompeu antes que eu pudesse falar.
— O Mestre- O Mestre voltou, srta. Murray. — Renfield exclamou ao me ver — Ele busca vingança! Os anos se passaram, mas ele ainda anseia a vingança de Morris, Seward, Holmwood e Van Helsing! Acima de tudo, ele busca a senhorita! Lembre-se do que ele fez a Lucy! — sua face se contorceu, como que em dor — Tenha cuidado! Fuja! Fuja! — e com isso, ele soltou um urro que me fez gritar e correr o mais rápido que pude para meu apartamento.
Lissa não estava em casa, mas mal parei para pensar nisso, tamanho desespero. Só me acalmei ao perceber que já estava em meu quarto com as paredes confortavelmente pintadas de lilás escuro. Agora enquanto escrevo, noto o quanto ainda estou trêmula. Não sei o que pensar, mas Renfield era louco! Eu era vizinha de um louco! Ele era o único defeito de Oxford!
Lissa chegou agora e está gritando meu nome, com certeza para me contar alguma novidade. Espero conseguir escrever mais tarde.
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Miranda Mackenzie

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