Sangue quente.
39 Visitas inesperadas.
Notas iniciais
Monstro...
Travei no lugar sobre o olhar dos três a minha frente, o ambiente ficou frio e inóspito de um minuto para outro, travei meus músculos me preparando para agir.
—“Foi esse monstro que me fez matar o filhote de coelho... Foi ele que me mandou ataca-lo, para que eu me passasse por perigoso na frente de vocês, eu juro... foi ele. E ele... ele queria que machucasse o Sr. Ian, eu juro.” Leonard seguia me acusando e apontado pra mim como podia.
O progenitor e o hospedeiro me olharam com uma expressão estranha, fiquei paralisado esperando o que viria a seguir, mas já passei a pensar em um novo plano de ação.
Eu só preciso do hospedeiro vivo, já que os experimentos estão dentro dele, mas o progenitor e o Leonard são descartáveis a essa altura.
Preparei-me para matar o progenitor e o Leonard com um único golpe, eles não teriam nenhuma chance contra mim.
E também já comecei a pensar o que eu iria fazer com o hospedeiro depois. Tenho de pensar onde eu o aprisionaria para fazer meus testes com ele e com as experiências. Depois eu só precisaria aguardar o nascimento do meu novo inimigo e poderia me desfazer do hospedeiro também.
Leonard tentava falar mais sobre mim, mas acabou desmaiado pelo choque da dor. Um minuto de silêncio se seguiu após isso, enquanto o progenitor e o hospedeiro trocavam olhares inquietos... era agora, eu precisava agir.
—“Eu falei que esse menino tinha problemas, Ian... Eu desconfiei desde o princípio, mas depois que ele atacou a Sophia aquele dia, minhas suspeitas se confirmaram, esse menino tem ódio dela e quer tirá-la do caminho.” O progenitor parou de me encarar e olhou para o hospedeiro com uma expressão muito séria.
O quê? Eles não acreditaram no Leo? Bem, realmente é difícil acreditar em um garoto que age como louco e que também não possui provas, mas eu pensei por um minuto que eles fossem pelo menos parar para pensar no que o garoto tinha a dizer.
—“Seph... por favor, não o deixe morrer assim, por mais que ele esteja agindo estranho, ele é apenas um garoto, por favor.” O hospedeiro também parou de me encarar e foi examinar o Leonard nos braços do progenitor, ele não parecia desconfiado de mim, ele só parecia preocupado e triste pelo moleque.
O quê? Nenhum deles está me atacando... Pelo visto eles não acreditaram mesmo nas palavras do Leonard. Menos mal pra mim, não vou precisar me livrar do progenitor por hora, mas o Leonard deve morrer, pois se ele continuar vivo, em algum momento ele vai reunir provas contra mim.
—“Ian... esse garoto é maluco, é melhor se...” O progenitor começou a falar, mas o hospedeiro o interrompeu.
—“Nem pense em dizer isso, Seph... Por favor, me ajude a trata-lo, por favor.” O hospedeiro lançou um olhar triste e ao mesmo tempo decido ao progenitor.
—“Tá bem... mas eu já não sei se quero que esse moleque continue debaixo do nosso teto...” O progenitor suspirou cansado.
—“Conversamos sobre isso depois.” Disse o hospedeiro com urgência na voz.
O progenitor e o hospedeiro correram para o quarto de Leonard e lá passaram horas cuidando das feridas do moleque.
Fui para o meu quarto e fiquei lá, esperando que eles acabassem com o tratamento de Leonard e fossem dormir. Eu pretendia esperar que eles entrassem em sono profundo, para então invadir em silêncio o quarto deles e roubar a chave do quarto do Leonard. Então eu o mataria e faria parecer que ele não resistiu aos ferimentos.
É claro que o hospedeiro ficará muito triste com a perda do Leo, principalmente depois de se esforçar tanto para salva-lo, talvez então eu possa aproveitar esse momento para causar nele a perda das experiências perdedoras. Séria fácil ferir seu ventre enquanto dorme, ele acordaria no meio da noite com dor e pensaria que sofreu um aborto espontâneo por causa do seu emocional. Dessa forma eu continuaria sendo um Santo diante dos olhos dos criadores.
Os criadores realmente se esforçaram em fazer o melhor por Leonard. Eles trabalharam nos ferimentos dele quase até de madrugada. Eles limparam e trataram o melhor que conseguiram as feridas, mas como eram queimaduras, ele não estava se curando rapidamente. Sinceramente acho que estou fazendo um favor ao matar o garoto, pois é cruel deixa-lo seguir vivendo desse jeito, suas mãos nunca mais serão as mesmas, ele irá sofrer com isso.
Os criadores finalmente foram dormir. O hospedeiro estava mesmo bastante abalando com o que aconteceu, ele ainda não conseguia entender por que o Leonard se mutilou daquela forma e ele lutava para encontrar uma explicação que garantisse a continuidade de Leo embaixo desse teto.
Os experimentos dentro dele também estavam sofrendo com o seu emocional e com a preocupação por Leonard, todas as três experiências já gostavam dele e acho que no fundo eles sabiam o que realmente aconteceu essa noite.
Os criadores demoraram a dormir, até o progenitor parecia abalado, por mais que ele não admitisse isso, ele estava com pena de Leonard e também lutava para entender o que aconteceu, mas ele seguia não acreditando nas acusações de Leonard sobre mim.
Quando eles finalmente conseguiram adormecer, eu dei inicio ao meu plano. Entrei de fininho no quarto dos criadores e roubei a chave do quarto do Leonard, pronto, agora eu só preciso dar a ele uma morte que não deixe vestígios do meu ataque... Talvez envenená-lo seja a melhor opção.
Fui até o quarto de Leonard em silêncio, destranquei sua porta e entrei sem fazer barulho. Leo estava deitado em sua cama, com ataduras em seus braços e mãos, ele parecia pálido e muito fraco, seria fácil mata-lo agora.
—“Eu estava te esperando.” Ouvi o cochicho fraco dele.
—“Está acordado? Então sabe o que eu vim fazer aqui, né?” Questionei subindo em sua cama e me sentando ao seu lado.
—“Veio me matar... não veio?” Ele me encarou com uma expressão cansada, triste e consternada ao mesmo tempo, parecia até que ele já tinha aceitado o seu destino.
—“Se sabe disso... porque não está gritando por ajuda?” Fiquei impressionado com a coragem do garoto.
—“Do que adiantaria?... Você inventaria uma forma de se safar e de colocar a culpa em mim. Eles não acreditaram no que eu disse sobre você, não é? Porque acreditariam agora?” Ele suspirou cansado.
—“É difícil acreditar em alguém que pula de cabeça na lareira e fica acusando um bebê de ser um demônio.” Falei dando um sorriso cruel para ele.
—“É verdade...” Ele suspirou consternado, acho que no fundo ele já sabia que não tinha chances de convencer os criadores.
—“Você não parece estar com medo.” O admirei por um momento.
—“Não pareço? Que estranho... eu estou morrendo de medo, mas acho que a dor me impede de reagir fisicamente.” Ele deu um sorriso fraco... interessante, ele está realmente rindo na cara da morte, admiro sua coragem.
—“Devo te parabenizar, você encontrou uma forma de quebrar o meu comando, como fez isso?” Questionei interessado.
—“Eu acho que eu sempre tive o poder de dizer não ao seu comando, mas nunca tive a força de vontade necessária para isso... Sabe, matar um coelho e te atacar... eu não me importava de verdade com essas coisas, mas machucar o Sr. Ian... bem, isso era diferente.” Ele respondeu isso meio sonolento.
—“Mas pular de cabeça numa coisa que podia te matar... isso é um preço alto demais para quebrar o meu comando. Porque fez algo tão estupido assim? Porque se feriu dessa forma? Você sabe que se atacasse o hospedeiro com um soco, você não iria mata-lo nem nada do tipo.” Eu queria entender o porquê ele fez isso, porque ele tomou uma medida tão drástica para não machucar o hospedeiro... Até porque tecnicamente ele não sabia que iria causar um aborto no hospedeiro, então não tinha como ele se preocupar tanto assim só por causa de um soco.
—“É... eu sei, mas eu gosto muito do Sr. Ian, ele foi a única pessoa até hoje a se preocupar comigo ao ponto de me proteger... Então eu não podia e não queria machuca-lo, mesmo que com um simples soco... mas acho que você não tem a capacidade de entender algo assim... não é?” Ele me olhou com uma expressão muito cansada, mas parecia que ele estava olhando dentro de mim.
—“Tem razão, eu não tenho tal capacidade.” Porque as pessoas se sacrificam pelos outros? Isso não faz o menor sentindo pra mim, essas pessoas não tem instinto de autopreservação?
—“Tenho pena e inveja de você...” Leonard disse com um sorriso fraco nos lábios.
—“Pena e inveja?” Não entendi o porquê ele tinha esses sentimentos por mim.
—“Sim... Pena porque você não é capaz de sentir coisas simples, como por exemplo, amor ao próximo. Você está aí entediado com a sua vida, fazendo coisas ruins sem propósito, pois não consegue simplesmente curtir o passar do tempo ao lado de alguém que goste. Você não consegue apenas sentar em um sofá confortável e quentinho, dando e recebendo carinho de alguém... Pessoas comuns podem fazer disso sua motivação de vida, sabia? Como os seus pais, eles estão felizes com a ideia de passar a eternidade nessa casa velha, apenas se amando.” Ele parecia mesmo estar me vendo por dentro, ele parecia estar vendo a minha alma.
-“E eu tenho inveja de você por que... porque você tem tudo o que eu mais desejo nessa vida, mas você simplesmente quer jogar tudo isso fora como se não valesse nenhum centavo... isso é uma piada de mau gosto comigo.” Ele quase choramingou ao dizer isso.
—“Não entendo o que você está falando.” Resmunguei para ele, eu não queria admitir que ele estava me afetando.
—“Vou deixar mais claro pra você então... Somos opostos.” Ele disse isso com um sorriso pequeno nos lábios e essas palavras me deram um arrepio na espinha.
—“O quê? O quê você disse?” O olhei com mais atenção.
—“Eu nasci sem que ninguém me quisesse... Meu pai me fez por luxuria e prazer, minha mãe por cobiça e status, nenhum deles me amava e nenhum deles se importou em me jogar fora como se eu não valesse nada. Eles nem ao menos se importaram em como eu seria tratado... ou como seria a minha vida nas mãos daqueles monstros... E tudo que eu queria nessa vida era simplesmente receber amor de alguém. Já você... bem, eu não sei como você foi feito, mas pelo menos seus pais te querem, eles não te abandonariam por nada nesse mundo, eles querem te dar amor, mas você não dá uma chance pra eles... sabe o quanto eu desejo esse amor que você esnoba?” Ele me olhou como se me julgasse, eu não gostava disso.
—“...” Eu não tinha respostas para o que ele estava me dizendo, afinal... ele estava certo. Eu até agora não dei uma chance aos outros, eu fiquei só odiando e os culpando por eu ser assim, mas... por mais que eles tenham me feito com ódio, eles me amam agora... Não! Eles não me amam, eles amam a Sophia, é sempre ela... ela ganha tudo de bom... e eu fico com o resto.
—“Você tem tudo que eu quero, mas você não quer nada disso... você consegue ver a ironia disso?” Leonard riu de suas próprias palavras.
—“...” Sim, eu consigo ver a ironia disso, eu sou para Leonard com a Sophia é para mim, eu fiquei com as coisas boas que ele quer... assim como a Sophia ficou com as coisas que eu queria.
—“Mas isso não importa mais... eu nem consegui salvar o Sr. Ian de você e o pior é que eu não entendo esse seu desejo de feri-lo... Porque você tem tanto ódio dos outros?” Ele me questionou com uma curiosidade legítima.
—“...” Porque eu odeio os outros mesmo? Qual é mesmo a minha motivação para destruir tudo? Eu não consigo me lembrar agora... Eu sei que comecei a existir com esse pensamento, mas qual é a motivação para eu ser assim? Mesmo que eu tente pensar em um plano, mesmo que eu pense em destruir o mundo... o que o mundo fez pra mim?
Deve ser por isso que eu estou enrolando até agora... se eu simplesmente tivesse mesmo nascido para destruir tudo, eu não estaria reclamando da falta de um desafio, eu estaria me realizando por estar cumprindo o meu objetivo. Mas até agora, tudo o que tenho feito é procrastinar e encontrar um motivo para me atrasar, eu já poderia ter matado os meus criadores há tanto tempo, mas fiquei enrolando... será que eu quero mesmo matá-los?
—“Acabe logo com isso.” Leonard virou o rosto e fechou os olhos.
—“Como queira...” Afastei todos esses pensamentos recentes da minha mente. Que se dane as experiências, eu vou matar todo mundo dessa casa essa noite, para provar que eu realmente nasci marcado para ser assim. Não quero e não posso pensar que sou assim simplesmente porque quero.
—“Espero que você não se arrependa dessas coisas no futuro... pois acho que isso vai te matar.” Leonard disse isso tremulo, tentando controlar o medo da morte que se aproximava.
Arrepender-me disso no futuro? Assim como eu me arrependo do que fiz com a Sophia?... E se ele tiver razão? E se quando eu olhar pra trás, eu perceber que destruí toda e qualquer chance de ser amado? Quem mais no mundo me daria tal oportunidade? Quem mais me amaria sem se importar com o meu jeito de ser?
Leonard fechou os olhos aguardando o fim, lágrimas escorreram por suas bochechas quando ele apertou as pálpebras esperando o ataque que ceifaria sua vida.
—“Você acha que... se eu contasse a verdade, eles me amariam?” Perguntei a ele.
—“...” Leonard abriu os olhos e me encarou sério.
—“Eles amam a Sophia, mas ela não está mais aqui... eu sou outra coisa... eu sou diferente... eles não seriam capazes de me amar se soubessem das coisas que fiz.” Eu já perdi a minha chance há muito tempo, quando matei a minha própria irmã.
—“Porque não tenta contar tudo a eles?” Ele me olhou com mais atenção agora, parecia realmente estar querendo ver dentro de mim.
—Por quê?... Porque eles vão me odiar, eu matei a Sophia, eu trucidei milhares de inocentes, eu te torturei, eu planejei a morte de meus novos irmãos e desejei a dor aos meus pais... você acha que alguém pode amar um ser assim?” Apontei pra mim mesmo e o encarei esperando sua resposta.
—“Você nunca vai saber, até tentar...” Leonard respondeu com calma.
—“E se eu tentar e eles me rejeitarem como seus pais fizeram com você?” Rebati para ele.
—“Então... pra que contar a verdade? Porque você não segue fingindo ser a Sophia e...” Ele começou a falar essas coisas, mas eu não aguentei isso, eu não quero isso.
—“PORQUE EU NÃO SOU ELA E NÃO QUERO SER.” Gritei em resposta quando senti meu sangue ferver, mas logo me calei e congelei.
—“...” Ficamos em silêncio nos encarando, tranquei a respiração e concentrei minha audição para ouvir se os criadores haviam acordado com o barulho, mas eles seguiam ressonando tranquilamente, então prossegui.
—“Você não entende? Se eu seguir fingindo ser a Sophia, eles vão continuar amando ela e não EU de verdade.” Eu não quero fingir ser outra pessoa, eu quero ser eu mesmo e eu quero ser aceito como sou.
—“...” Leonard ficou pensativo, me olhando com mais atenção ainda.
—“Quero que eles... Eu quero que eles me conheçam, eu quero que eles saibam que eu sou o outro filho deles... eu não quero viver a vida da minha irmã, eu não quero ficar usando essa máscara.” Falei isso me sentido mais leve, como se eu finalmente desabafasse. Nossa, eu nem sabia que eu estava carregando esse peso imenso nas minhas costas, eu nem sabia que isso estava me afetando tanto.
—“Então não use.” Leonard respondeu com simplicidade, como se isso fosse fácil de se fazer.
—“Eles vão me mandar embora.” Baixei a cabeça, disso eu tenho certeza.
—“Eles são seus pais... eles vão te amar independe de tudo.” Leonard falou sério, parecia que ele realmente acreditava nisso.
—“Você é muito inocente e ingênuo... Não é assim que as coisas funcionam. Se os pais fossem obrigados a amar seus filhos sempre, independe de tudo e sem exceções, você não teria sido vendido como escravo, não é?” Rebati isso pra ele tendo a certeza de que o mundo não é essa maravilha que ele imagina, eu sei que o mundo pode ser cruel e terrível.
—“Você não tem como saber disso... Vai por mim, o Sr. Ian seria capaz de amar um filho dele independente de tudo, mesmo que sua vida fosse ceifada pelas mãos de seu adorado bebê... Pode acreditar, eu vi isso com meus próprios olhos. Quando você... ou a Sophia o atacou no barco daquela vez, o Sr. Ian não deixou de lhe abraçar, mesmo tendo o seu peito fatiado e envenenado. Ele quase morreu, mas mesmo assim seguiu te amando.” Leonard disse isso com todas as suas convicções, ele realmente acreditava nos sentimentos maternais do hospedeiro.
—“Porque eu deveria confiar em você? Você deve me odiar... eu arruinei a sua vida.” Questionei desconfiado, afinal isso podia ser um plano dele para que eu me entregasse aos criadores e ele se safasse.
—“Já fizeram coisas piores comigo, acredite... mas isso não significa que eu não te odeie, eu só quero te parar de alguma forma... E já que eu não sou forte o suficiente para fazer isso te dando uma surra até suas tripas saírem pra fora... acho que a única forma que tenho de te parar é... falando umas boas verdades.” Ele deu um sorriso fraco pra mim.
—“Me parar? Como um verdadeiro oposto e inimigo faria?” Uma sensação estranha reverberou em meu peito.
—“É... acho que é isso mesmo.” Ele deu de ombros como se isso não importasse realmente.
Como isso pode ser verdade? Como um ser sem nenhum poder, habilidade e força como ele pode me parar?
Parei para reavaliar o que eu estava sentido, eu não queria mais mata-lo, eu não queria mais fazer essas coisas ruins com ele... então ele realmente conseguiu isso? Ele me parou sem nenhum poder?
Eu consegui o que eu queria?
—“Você p-pode ser a p-pessoa que vai me parar s-sempre que eu sair da linha?” Perguntei de cabeça baixa, não sei por que me senti tão... assustado e ao mesmo tempo aliviado com essa pergunta.
—“... Se é isso que você quer de mim.” Ele respondeu após um minuto de silêncio me olhando intensamente.
—“V-você pode esconder o meu segredo por hora?” Eu ainda não queria contar a verdade aos criadores, eu ainda estava com medo de que eles viessem a me odiar.
—“Isso é uma ordem... ou um pedido?” Leonard me perguntou isso muito sério.
—“... Por favor, você pode manter o meu segredo até que esteja pronto para contar a verdade aos criad... aos meus pais?” Voltei a pedir, dessa vez com um toque de gentileza no pedido, para deixar claro que era um pedido e não uma ordem, mas isso me humilhava um pouco.
—“Sim... tá bem, se você prometer que não vai machucar o Sr. Ian.” Leonard resmungou para mim.
—“Prometo...” Resmunguei de volta.
—“Trato feito.” Ele suspirou e relaxou nas cobertas, mas seu olhar seguia atento sobre mim.
—“Você pode me fazer um favor?” Pedi com gentileza novamente... eca, isso não combina comigo.
—“Qual?” Ele ergueu uma sobrancelha.
—“Me dê um nome.” Pedi olhando para os meus dedos das mãos sobre o meu colo.
—“Um nome?” Ele estranhou esse pedido.
—“Eu não tenho um...” Engraçado como isso realmente me chateava.
—“Hmm... que tal Clara?” Ele nem pensou no nome direito, simplesmente falou qualquer nome que lhe veio à cabeça.
—“Eu quero um nome de menino!” Quase rosnei para ele.
—“Mas você é menina.” Ele rebateu irritado.
—“Só fisicamente... e eu posso mudar isso... mas não agora, eu ainda estou fingindo ser a Sophia, lembra?” Falei virando o rosto e olhando para o outro lado, por algum motivo isso era vergonhoso.
—“Você pode trocar de sexo?” Ele se surpreendeu.
—“Todo o meu corpo é capaz de se transformar... Tecnicamente eu tenho asas e órgãos extras, e eu também sou bem... adaptável.” Respondi fazendo uma careta.
—“Você é assustador.” Ele falou me lançando um olhar assustado de verdade.
—“Eu sei!” Eu já andei estudando a anatomia dos outros, por dentro e por fora, eu descobri que eu sou completamente diferente deles e isso só me faz me sentir mais excluído.
—“Hmm... deixa eu pensar... um nome de menino... porque você não pergunta pro seus pais que nome eles te dariam se você nascesse menino, assim você ganha um nome diretamente deles.” Leonard deu a ideia se remexendo na cama, pude notar que ele estava incomodado com essa situação e ainda por cima estava sentido dor.
—“Eu quero que você me nomeie... é tipo... um novo pacto, dessa vez estou te dando alguns direitos sobre mim.” Respondi olhando para o lado, eu não queria encara-lo agora, eu me sentia como se eu tivesse perdido uma batalha.
—“Direitos... sobre você? Como assim?” Ele perguntou um tanto desconfiado.
—“Não importa... me dê logo um nome.” Resmunguei pra ele.
—“Tá bem... vejamos... que tal... Sebastian?” Ele ainda parecia desconfiado, mas ao menos levou a sério a escolha do nome.
—“Sebastian?... Gostei!” Assim como o nome Sophia, Sebastian também lembra os nomes dos meus criad... pais.
—“Obrigado...” Falei bem baixinho.
—“Como? Não ouvi direito” Ele deu um sorriso safado para mim.
—“Eu disse... vai te catar.” Respondi irritado.
Leonard deu uma risadinha, mas logo exclamou de dor, suas mãos estavam mesmo em péssimo estado... É por isso que vampiros devem manter distância do fogo... que idiota!
—“Aqui, beba.” Ofereci meu pulso a ele.
—“Da última vez que fiz isso, eu acabei me ferrando.” Ele me olhou irritado.
—“Bem... você ainda tem um pacto de sangue comigo, mesmo que agora você saiba cancelar uma ordem minha... isso não significa que o pacto acabou... Então beber meu sangue agora não vai mudar muita coisa pra você.” Isso era verdade, nós ainda tínhamos um pacto, a diferença é que agora o Leonard sabe que se ele se ferir gravemente, ele pode fugir do meu comando.
—“Eu não confio em você... Por acaso você acha que eu vou sair acreditando em tudo que você me disser agora, principalmente depois de tudo o que você me fez, só porque você está me poupando agora e agindo como bonzinho?!... Ha ha... muito engraçado, vai demorar até você conseguir a minha confiança, seu pirralho remelento.” Leonard me encarrou um tanto incomodado.
—“Bebe logo, vai te ajudar a curar essas queimaduras e...” Me calei, eu ainda não quero aceitar o que eu estou fazendo, eu ainda me sinto derrotado.
—“E?” Ele me olhou mais desconfiado ainda.
—“Não importa, beba.” Estendi o pulso na frente da cara dele.
Como ele seguia teimando em não beber, eu tive que tomar medidas quanto a isso. Mordi meu próprio pulso e o forcei contra a boca de Leonard, enquanto tapava seu nariz. Ele resistiu por um tempo, mas logo seu folego acabou e ele abriu a boca. Consegui forçar o líquido por sua garganta abaixo.
—“Urgh... cof cof... maldito.” Ele me olhou com raiva.
—“Estou te dando um presente e é assim que me agradece?” Resmunguei pra ele.
—“Um presente?” Ele ergueu uma sobrancelha.
—“Sim, um presente muito bom mesmo.” Bufei incomodado, eu não acredito que fiz algo assim.
—“O que é?” Ele perguntou assustado e ao mesmo tempo com expectativa.
—“O poder de me controlar.” Respondi virando as costas pra ele.
—“O quê?” A voz dele saiu um tanto quanto surpresa.
—“Acho que colocar uma arma poderosa como eu nas mãos de um garoto tolo como você é algo um tanto quanto perigoso, mas você já provou que não tem objetivos grandiosos ou gananciosos... você quer apenas sentar em um sofá quentinho e confortável com alguém que você goste, dando e recebendo carinho... então acho que alguém assim seria incapaz de me usar para fazer coisas ruins... não é?” Olhei pra ele com um sorriso pragmático.
Leonard me encarava com uma expressão assustada e incrédula, era até engraçado vê-lo assim, parece que consegui calar a boca do espertinho.
—“Quer dizer que agora eu posso te dar ordens e você vai ter que obedecer?” Ele perguntou entusiasmado.
—“É...” Resmunguei irritado.
—“Mas e se você tentar fugir da ordem como eu fiz, se ferindo gravemente... hein?” Ele ergueu uma sobrancelha de novo.
—“O problema é que eu teria que descobrir algo que pode me ferir gravemente primeiro, não é?” Respondi bufando pra ele, droga! Acho que fiz merda, não acredito que fiz isso.
—“Quer dizer que eu posso me vingar de tudo o que você me fez agora?” Ele questionou interessado.
Dei de ombros, não me importo em ser obrigado a dormir no chão frio ou em sair por aí arrebentando a cabeças de animais com pedras.
—“Eu ordeno...” Ele começou, eu me encolhi esperando algo bem ruim.
—“Que amanhã de manhã...” Ele seguiu com um sorriso irritante nos lábios... francamente, eu me já estou me arrependendo disso.
—“Você abrace o Sr. Ian e diga algo bom pra ele.” Ele deu a ordem e senti uma compulsão para cumpri-la, nossa isso dá uma sensação muito ruim... foi por algo assim que ele passou todo esse tempo? É muito ruim ser controlando, a sensação de perder o livre-arbítrio é incomodo.
—“Só isso? Não vai me mandar fazer algo que me cause algum tipo de sofrimento?” Agora foi minha vez de erguer a sobrancelha pra ele.
—“Acho que te forçar a ser legal já é um castigo interessante pra você... e além do mais, o Sr. Ian tem saudades de receber um carinho do bebê dele.” Ele riu malandramente pra mim, acho que no fundo ele sabia que dar carinho era algo ruim pra mim.
—“Aff... eu ainda vou me arrepender amargamente do que eu fiz.” Correção, eu já estou arrependido de ter colocado tanto poder na mão desse moleque, mas pelo menos agora me sinto preso a algo.
Dei as costas para Leonard, sai do quarto dele, tranquei a porta, devolvi a chave ao quarto dos criad... dos meus pais e fui tentar dormir... eu disse tentar, porque eu ainda me sentia amargurado por ter desistido e me entregado assim... igualzinho ao que a Sophia fez.
Quando o sol nasceu, eu ainda não tinha conseguindo dormir, mas isso não era um problema grave pra mim, tecnicamente eu não preciso dormir todas as noites, uma vez por semana já é o suficiente para mim.
Os criad... os meus pais acordaram e se levantaram, fiquei aguardando que um deles viesse me vestir e me tirar da cama como sempre.
Para o meu desgosto foi o hospedeiro que veio, isso me forçava a cumprir a ordem de Leonard, droga!... Agora eu sabia o quanto era ruim ser forçado a fazer algo que não quer.
—“Bom dia Sophia, já tá acordada.” O hospedeiro... tenho que pensar em outro nome pra ele, veio até mim e me fez um cafune na cabeça, geralmente eu fugiria disso, mas acho que agora eu sou meio que obrigado a dar uma chance a isso.
Sem jeito eu o abracei, o hospedeiro ficou estático e surpreso com o gesto e eu segui sem jeito... isso era estranho, mas não era ruim nem nada, sem falar que abraçando ele desse jeito, eu podia ouvir os corações das experiências.
—“Bom dia Tata... eu... gosto do seu cheiro.” Disse isso no automático, na verdade eu não sabia nada legal para dizer pra ele, então optei por falar do cheiro dele que realmente era bom.
—“Oh... meu amor.” Ele me abraçou forte e o ouvi fungar... qual é? Ele vai chorar por uma frescura dessas? Que bobalhão.
Assim que pude eu o soltei e me afastei, fazer algo carinhoso ainda é algo errado e sem sentido pra mim, mas já que eu vou tentar seguir essa vida pacata... bem, acho que terei que me acostumar com isso.
Depois que o hospedeiro... droga, eu realmente tenho que pesar em nome pra ele, mas nada de Tata como a Sophia chamava, isso é muito meloso e irritante. Mas continuando, depois que o Ian me vestiu e foi tomar o café da manhã, ele se uniu ao prog... ao Seph e juntos eles foram tratar das feridas do Leonard de novo.
Ele estava um pouco melhor, mas mesmo com meu sangue os ferimentos seguiam feios e acho que não teria muito o que se fazer mesmo, pelo menos ele não corria mais o risco de perder as mãos.
Algumas semanas se passaram, Leonard aos poucos foi melhorando graças aos cuidados dos meus pais e é claro... graças ao meu sangue ao qual passei a doar todas as noites secretamente a ele.
Passamos a passar um tempo só nós dois conversando em seu quarto, eu ainda não gosto muito dessa vida que resolvi seguir, mas acho que com o tempo eu me adapto.
Com muita conversa e com a minha ajuda, Ian conseguiu convencer o Seph a mudar de ideia quanto ao expulsar o Leonard de casa assim que ele se recuperasse cem por cento.
As experiências estavam se desenvolvendo e aos poucos criando um pouco de sentimentos por mim. A experiência 2 já gostava de mim antes e me via como um irmãozão que um dia lhe ensinaria tudo, então as coisas não mudaram muito com ele, mas a experiência 3 também passou a gostar de mim e a experiência 1 não ficava mais sempre alerta quando eu estava por perto.
Eu estava começando a cogitar a possibilidade de contar aos meus pais sobre os experimentos, mas depois de uma conversa com Leonard que me garantiu que seria divertido vê-los descobrindo por si só, eu desisti de contar e passei a esperar que eles descobrissem.
Tudo estava fluindo devagar nessa vidinha chata e pacata, eu ainda me sentia incompleto... talvez fosse porque a Sophia não existia mais... será que eu estaria mais feliz com essa vida se ela ainda estivesse comigo? Ou será que eu me sinto assim porque desisti de ser o destruidor do mundo? Talvez eu nunca descubra isso.
Era noite, lá fora começa a nevar, estávamos todos na sala assistindo TV, Leonard tinha recebido permissão de ficar na sala conosco, mas ele não podia sair do lado de Seph, eu estava sentado ao lado do Ian quando um arrepio passou por minha espinha.
Comecei a me sentir mal, algo grande e poderoso se aproximava. Meu instinto de sobrevivência me colocou em alerta, mas eu ainda não tinha certeza se esse ser que se aproximava tinha uma intenção ruim ou não.
As portas da frente se abriram com rompante e o ser poderoso... ou melhor, os seres poderosos, eram dois deles, entraram na nossa casa.
Seph e Ian se levantaram do sofá e se viraram para ver os recém-chegados.
—“Pai?” O Ian se emocionou ao ver o ser extremamente poderoso que estava mais a frente e nos olhava com atenção, seus olhos se voltaram diretamente para mim e senti aquele arrepio novamente.
—“Olá meu filho... há quanto tempo?” O ser poderoso sorriu para o Ian.
Ian fez menção de correr para os braços daquele que ele chamava de pai, mas o Seph o puxou pelo braço para perto de si e lançou um olhar furioso para o segundo ser poderoso que estava atrás do ser que Ian chamava de pai.
-“Seph?” Ian o olhou sem entender.
—“Ian, espera... esse cara ao lado dele...” Seph encarrou com muita atenção o ser de longos cabelos dourados, que por sua vez estava encarando Ian com extremo interesse... quem são esses dois? Ou melhor... o que esses dois são?
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